A natureza da centralidade urbana em Natal
Texto
(2) Josélia Carvalho de Araújo. A NATUREZA DA CENTRALIDADE URBANA EM NATAL. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, na área de concentração Dinâmica Socioambiental e Reestruturação do Território, como requisito para obtenção do título de doutora em geografia. ORIENTADORA: Profª Drª Rita de Cássia da Conceição Gomes. Natal/RN 2017.
(3) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes CCHLA Araújo, Josélia Carvalho de. A natureza da centralidade urbana em Natal / Josélia Carvalho de Araújo. - 2017. 255f.: il. Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia. Natal, RN, 2017. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Rita de Cássia da Conceição Gomes.. 1. Centralidade Urbana. 2. Natureza da Centralidade. 3. Multicentralidade. 4. Espaço Urbano. 5. Economia Terciária. I. Gomes, Rita de Cássia da Conceição. II. Título. RN/UF/BS-CCHLA. CDU 911.375.1(813.2).
(4) Josélia Carvalho de Araújo. A NATUREZA DA CENTRALIDADE URBANA EM NATAL. Tese de doutorado entregue ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, na área de concentração Dinâmica Socioambiental e Reestruturação do Território, como requisito para obtenção do título de doutora em geografia.. Aprovada em 10/04/2017.. BANCA EXAMINADORA. ________________________________________ Profª Drª Rita de Cássia da Conceição Gomes Presidente-Orientadora (PPGEO-UFRN) ________________________________________ Prof Dr Alexsandro Ferreira Cardoso da Silva Examinador externo (PPEUR-UFRN) ________________________________________ Prof Dr Ademir Araújo da Costa Examinador interno (PPGEO-UFRN) ________________________________________ Profª Drª Virgínia Célia Cavalcante de Holanda Examinador externo (PPGEO-UVA) ________________________________________ Prof Dr Lincoln da Silva Diniz Examinador externo (DGE-UFCG).
(5) A Nina Carvalho, minha mãe, que, respondendo à minha primeira pergunta de conhecimento, alfabetizou-me. A Rita de Cássia, minha orientadora, que sempre me ensinou a elaborar novas perguntas, e investigar suas respostas..
(6) AGRADECIMENTOS “De graça recebestes, de graça dai.” (Mt 10, 8b). Com a epígrafe, firmo um pacto de gratidão àqueles que contribuíram para a realização deste trabalho. Firmar esse pacto não significa tão somente evocar palavras de gratidão. O que seria fácil. Isto porque sei que não foi fácil o empreendimento de cada um que ora elenco, para que pudesse prestar-me auxílio neste trabalho. Certamente, cada um disponibilizou-me o que tinha de melhor entre as suas habilidades, seja fazendo além do profissional, seja fazendo por plena gratuidade. Em suma, o pacto consiste num compromisso de gratidão que perdurará por quantas vezes outras tantas pessoas precisarem do meu auxílio, especialmente, aqueles que me auxiliaram. Sou grata aos meus colegas do Departamento de Geografia, Campus Central, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Verdadeiramente, eles não mediram esforços para assumir minhas atividades laborais, enquanto estive afastada para qualificação. À UERN também agradeço, tanto o período de quatro anos de liberação para cursar o doutorado quanto o auxílio sob a forma de Bolsa, que teve contribuição decisiva para que o trabalho chegasse ao final. Aos colegas da turma de doutorado, agradeço os saberes compartilhados e os aprazíveis momentos ao longo do curso: Kelson (in memoriam), Edseisy, Jacimária, Eduardo e Erimar. Aos funcionários da secretaria do PPGE-UFRN, Elaine e André, pela competência irretocável e gentileza constante. Aos colegas de orientação, agradeço pelas parcerias firmadas e pela amizade: Rosa sempre foi presença, cooperação e carinho, querendo saber em que ainda poderia contribuir; Soneide transforma quase tudo em solicitude, indo aonde preciso for para alcançar o bem desejado a cada membro do nosso grupo de orientandos; Moacir, além das parcerias acadêmicas firmadas, desde a UERN, enquanto orientando, teima em seguir meus passos na academia, como um colaborador vitalício. Quanto à forma que um trabalho acadêmico deve obedecer, tenho alguns amigos aos quais agradecer. Josenildo, que mobilizou seus conhecimentos.
(7) linguísticos em outros idiomas, e cuidou da tradução do resumo; Paulo Bruno, que sempre esteve disponível, via mensagem instantânea, para sanar dúvidas com relação à Norma Culta Brasileira, indicando também fontes de consulta; Valéria, de modo semelhante, “deu plantão” com relação à normatização segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), também esclarecendo dúvidas e disponibilizando todas as normas das quais necessitei. Quanto aos serviços técnicos, agradeço a dois amigos profissionais, que produzem mapas com profissionalismo e dedicação. Helô, que elaborou o mapa da área de estudo com bastante profissionalismo, tendo dedicado tempo em diversos encontros para este fim; Juninho, que elaborou os mapas em AutoCad, com precisão técnica e capacidade de quem se dispõe mesmo a servir. Ao longo do caminho, por ocasião do processo de Qualificação, pude contar com as contribuições acadêmicas da professora Ione e do professor Ademir, os quais indicaram caminhos significativos a serem trilhados para a realização da pesquisa. Não por último, antes, como sinal de continuidade, expresso minha gratidão a Rita, minha orientadora por três vezes, não custa lembrar: bacharelado, mestrado e doutorado. Acolher um orientando não significa apenas acolher uma pessoa, mas também suas ideias, as quais são ainda muito tênues em relação ao processo investigativo ao qual se está propondo. Eis que Rita consegue mobilizar os seus conhecimentos, sua bondade e a sua amizade em prol dos seus orientandos, e fazer um percurso intelectual conosco, caminhando passo a passo, o que me impele neste momento a refletir, questionando: como prescindir da sua orientação, Rita de Cássia?!.
(8) O “quadrilátero central de Natal” sintetiza e dialoga, de forma gráfica, com as mais diversas expressões de centralidade urbana, porque, para ele e por ele, converge a maioria dos fluxos que dinamizam a vida na cidade..
(9) RESUMO. Este trabalho versa sobre a natureza da centralidade urbana em Natal. Apresenta como pressuposto de tese que a natureza da centralidade urbana é diversa em seus conteúdos, processos e formas, por ser o espaço urbano permeado por igual diversidade. Objetiva explicitar a natureza da centralidade urbana em Natal, considerando os conteúdos, processos e formas que a constituem, bem como os fatores concorrentes para a sua diversificação. Para atingir o objetivo estabelecido, orienta-se pela teoria da produção do espaço, de Henri Lefebvre, buscando apreender os processos que vêm se desencadeando no contexto urbano de Natal, desde a década de 1980 à atualidade, sob uma perspectiva dialética. Como auxílio à leitura da realidade, baseia-se em importantes aportes teóricos atinentes à temática da centralidade urbana, espaço urbano e economia terciária; não descuidando da produção acadêmica sobre a temática, e sobre a Cidade do Natal, do exame a documentos que também tratam da história da referida cidade, arquivos oficiais junto a órgãos públicos, bancos de dados, pesquisa de campo, entrevistas junto a gestores públicos e líderes de organizações da sociedade civil organizada. Como resultado do processo investigativo, explicita que a natureza da centralidade urbana em Natal é diversa e multicêntrica. Diversa, por terem sido reveladas várias dimensões de centralidade, em conformidade com a natureza dos seus conteúdos: histórica, cultural, simbólica, ideológica e econômica; sendo a dimensão econômica da centralidade urbana proeminente no espaço urbano, e estando a mesma permeada junto às demais, dado que a cidade é lugar de trocas, onde o fator econômico se faz proeminente, e preside a produção do espaço urbano. Multicêntrica, pelos vários centros urbanos que vêm se conformando desde a formação do Núcleo do Centro histórico de Natal à atualidade, com as novas centralidades, decorrentes do processo de expansão do terciário moderno na cidade. Palavras-chave: Centralidade Urbana. Natureza da Centralidade. Multicentralidade. Espaço Urbano. Economia Terciária..
(10) ABSTRACT. This paper deals with the nature of urban centrality in Natal. It presents as a thesis assumption that the nature of urban centrality is diverse in its contents, processes and forms, since it is the urban space permeated by equal diversity. It aims to explain the nature of urban centrality in Natal, considering the contents, processes and forms that constitute it, as well as the factors competing for its diversification. In order to reach the established goal, Henri Lefebvre's theory of Space Production seeks to understand the processes that have been unfolding in the urban context of Natal, from the 1980s to the present, from a dialectical perspective. It is as an aid to the reading of reality, it is based on important theoretical contributions concerning the theme of urban centrality, urban space and tertiary economy; it’s not neglecting the academic production on the subject, and on the City of Natal, from examining documents that also deal with the history of the city, official files with public agencies, databases, field research, interviews with public managers and leaders of organized civil society organizations. As a result of the investigative process, he explains that the nature of urban centrality in Natal is diverse and multicentric. Diverse, for having been revealed several dimensions of centrality, according to the nature of its contents: historical, cultural, symbolic, ideological and economic; It’s being the economic dimension of urban centrality prominent in urban space, and being permeated with the others, given that the city is a place of exchanges, in which the economic one becomes prominent, and presides over the production of the urban space. Multicentric, by the various urban centers that have been conforming since the formation of the nucleus of the historical center of Natal to the present, with the new centralities, resulting from the process of expansion of the modern tertiary in the city. Keywords: Urban Centrality. Nature of Centrality. Multicentrality. Urban Space. Tertiary Economics..
(11) RESUMEN. Este trabajo se ocupa de la naturaleza del centro urbano en Natal. Presenta una tesis de que la naturaleza de la centralidad urbana es diversa en sus contenidos, procesos y formas, como el espacio urbano impregnado de la misma diversidad. Objetivo de aclarar la naturaleza del centro urbano en Natal, teniendo en cuenta los contenidos, procesos y formas que la componen, así como los factores que compiten por la diversificación. Para lograr el objetivo establecido, guiado por la teoría de la producción del espacio por Henri Lefebvre, buscando entender los procesos que se han desencadenado en el contexto urbano de Natal, desde la década de 1980 hasta la actualidad, en una perspectiva dialéctica. Como una ayuda para la lectura de la realidad, sobre la base de las contribuciones teóricas importantes relacionados con el tema de la centralidad urbana, espacio urbano y la economía de servicios; sin descuidar la literatura académica sobre el tema, y la Ciudad de Nata, el examen de los documentos también se ocupan de la historia de esa ciudad, los archivos oficiales con organismos públicos, bases de datos, la investigación de campo, entrevistas con los funcionarios públicos y organizaciones de líderes de organizaciones de la sociedad civil. Como resultado del proceso de investigación, explica que la naturaleza de la centralidad urbana en Natal es diversa y multicéntrica. Diversa, se puso de manifiesto varias dimensiones centrales, de acuerdo con la naturaleza de su contenido: históricos, culturales, simbólicos, ideológicos y económicos; y la dimensión económica del destacado centro urbano en el espacio urbano, y siendo el mismo impregnado con los otros, ya que la ciudad es un lugar de intercambio, en el que se convierte en la económica prominente, y preside la producción del espacio urbano. Multicéntrico, por varios centros urbanos que han ido configurando desde la formación del núcleo del centro histórico de la Ciudad de Natal con el presente, con nuevos centros de derivados del proceso de expansión terciaria moderno de la ciudad. Palabras clave: Centralización Urbana. La naturaleza de la centralización. Multicentralidade. El espacio urbano. Economía Terciaria..
(12) LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS. AEBA ABNT Av BANDERN BR DIN DR. EDT. – –. FECOMÉRCIO-RN. –. FIART FLIN IPHAN LOBRAS m² MEI NS. – – – – – –. PDITS. –. R.A. RMN RN S.C. SEMOB SEMSUR SEMURB SEMUT SFH SIMPURB SUDENE TLC UERN. –. – – – –. – – – – – – – – – – –. Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim Associação Brasileira de Normas Técnicas Avenida Banco do Estado do RN Rodovia Federal Distrito Industrial de Natal Doutor Eixos Dinamizadores do Terciário Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN Feira Internacional do Artesanato Festival Literário de Natal Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Lojas Brasileiras Metro quadrado Microempreendedores Individuais Nossa Senhora Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável Região Administrativa Região Metropolitana de Natal Rio Grande do Norte Shopping Centers Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal Secretaria Municipal de Serviços Urbanos Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo Secretaria Municipal de Tributação Sistema Financeiro de Habitação Simpósio Nacional de Geografia Urbana Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste Teoria das Localidades Centrais Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
(13) LISTA DE FIGURAS Figura 01 – Antiga Catedral de Natal com o obelisco da fundação de Natal. 77. Figura 02 – Praça André de Albuquerque. 78. Figura 03 – Banco do Brasil. 86. Figura 04 – Praça Presidente Kennedy. 88. Figura 05 – Ducal Palace Hotel. 88. Figura 06 – Artesões e Lojas C&A. 89. Figura 07 – Praça das Mães. 92. Figura 08 – Assembleia Legislativa do RN. 94. Figura 09 – Tribunal de Justiça do RN. 94. Figura 10 – Prefeitura Municipal de Natal. 95. Figura 11 – Palácio Episcopal Figura 12 – Igreja Presbiteriana de Natal, primeira igreja protestante do RN. 96 96. Figura 13 – Palácio da Cultura. 97. Figura 14 – Rua Chile, na década de 1940 (esquerda), e em 2006 (direita). 99. Figura 15 – Palácio da Ribeira. 101. Figura 16 – Grande Ponto, 1950 (esquerda), e em 2016 (direita). 148. Figura 17 – Esquema do corredor cultural de Natal. 158. Figura 18 – Edifício Leite (à esquerda) e Praça Gentil Ferreira (à direita). 165. Figura 19 – Camelódromo do Alecrim. 166. Figura 20 – Shopping popular (camelódromo) da Cidade Alta. 167. Figura 21 – Mercado das Rocas. 180. Figura 22 – Feira das Rocas. 181. Figura 23 – Esquema das Regiões Administrativas de Natal. 208. Figura 24 – Esquema dos bairros por Regiões Administrativas de Natal. 210.
(14) LISTA DE MAPAS Mapa 01 – Área de estudo. 40. Mapa 02 – Demarcação inicial de Natal. 75. Mapa 03 – Perímetro comercial da Cidade Alta. 98. Mapa 04 – Centro Histórico de Natal. 108. Mapa 05 – Eixos Dinamizadores do Terciário em Natal. 123. Mapa 06 – Ruas do comércio inicial na Ribeira. 142. Mapa 07 – Perímetro comercial inicial e ruas especializadas do Alecrim. 164. Mapa 08 – Quadrilátero Central de Natal. 239.
(15) LISTA DE QUADROS Quadro 01 – Mercados públicos em Natal. 176. Quadro 02 – Feiras livres em Natal. 184. Quadro 03 – Shopping Centers em Natal. 197. Quadro 04 –. Comércio atacadista e varejista por região administrativa em Natal. 220. Quadro 05 – Bairros centrais para o turismo em Natal. 235. Quadro 06 – Corredores do turismo em Natal. 236.
(16) LISTA DE TABELAS. Tabela 01A –. Renda média mensal por bairro e por região administrativa em 186 Natal. Tabela 01 – Atividades econômicas em Natal. 206. Tabela 02 – Serviços por região administrativa em Natal. 208. Tabela 03 – Serviços por bairros da R. A. Sul de Natal. 211. Tabela 04 – Serviços por bairros da R. A. Leste de Natal. 213. Tabela 05 – Serviços por bairros da R. A. Norte de Natal. 215. Tabela 06 – Serviços por bairros da R. A. Oeste de Natal. 216. Tabela 07 – Comércio por região administrativa de Natal. 218. Tabela 08 – Comércio atacadista por região administrativa em Natal. 220. Tabela 09 – Comércio varejista por região administrativa em Natal. 220. Tabela 10 – Comércio por bairros da R. A. Leste de Natal. 221. Tabela 11 – Comércio por bairros da R. A. Sul de Natal. 223. Tabela 12 – Comércio por bairros da R. A. Norte de Natal. 225. Tabela 13 – Comércio por bairros da R. A. Oeste de Natal. 227.
(17) LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 01 – Atividades econômicas em Natal. 206. Gráfico 02 – Serviços por região administrativa em Natal. 209. Gráfico 03 – Serviços por bairros da R. A. Sul de Natal. 211. Gráfico 04 – Serviços por bairros da R. A. Leste de Natal. 213. Gráfico 05 – Serviços por bairros da R. A. Norte de Natal. 215. Gráfico 06 – Serviços por bairros da R. A. Oeste de Natal. 216. Gráfico 07 – Comércio por região administrativa de Natal. 218. Gráfico 08 – Comércio atacadista por região administrativa em Natal. 220. Gráfico 09 – Comércio varejista por região administrativa em Natal. 220. Gráfico 10 – Comércio por bairros da R. A. Leste de Natal. 222. Gráfico 11 – Comércio por bairros da R. A. Sul de Natal. 223. Gráfico 12 – Comércio por bairros da R. A. Norte de Natal. 226. Gráfico 13 – Comércio por bairros da R. A. Oeste de Natal. 227.
(18) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO. 17. APORTES TEÓRICO-METODOLÓGICOS À CENTRALIDADE URBANA. 21. 1.1 Da Teoria das Localidades Centrais às novas expressões da centralidade. 21. 1.2 A diversificação da natureza da centralidade urbana por seus conteúdos processos e formas. 41. 2. 74. 1. A CENTRALIDADE EM NATAL E SUA DINÂMICA. 2.1 Evoluções urbanas em Natal e seus respectivos centros. 74. 2.2 Eventos e processos geradores de centralidades urbanas em Natal. 112. 3. 137. A NATUREZA DIVERSA DA CENTRALIDADE URBANA. 3.1 Conteúdos, processos e formas da centralidade urbana em Natal. 137. 3.2 Expressões e conformações contemporâneas da centralidade 191 urbana em Natal. 4. PROPOSIÇÃO À APREENSÃO DA CENTRALIDADE URBANA. 201. 4.1 Evidências contemporâneas de centralidade urbana em Natal. 201. 4.2 Meandros da centralidade urbana como proposta metodológica. 229. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 243. REFERÊNCIAS. 248.
(19) 17. INTRODUÇÃO. A temática centralidade urbana remonta à clássica Teoria das Localidades Centrais (TLC), de Walter Christaller, em 1933, sob a perspectiva quantitativista neopositivista da geografia. No Brasil, a repercussão da referida teoria se fez notar, principalmente, com o pensamento de Milton Santos, por meio das seguintes obras: O centro da cidade de Salvador, em 1959 (SANTOS, 2012); Economia espacial, em 1979 (SANTOS, 2003) e O espaço dividido, em 1979 (SANTOS, 2008); também com o pensamento de Roberto Lobato Corrêa, em seu texto “Repensando a Teoria das Localidades Centrais”, em obra organizada por Moreira (1982), bem como em diversos artigos publicados em eventos e periódicos científicos. Por ser uma teoria já com um vasto lapso temporal, ao chegar ao Brasil, ambos os pensadores – Santos e Corrêa – fizeram eco em seus trabalhos, propondo uma revisão da mesma, defendendo que aquele espaço urbano para o qual a Teoria de Christaller havia se voltado passara por profundas transformações, demandando novas leituras. A referida demanda surgiu em função de novas expressões de centralidade urbana, o que significava ir além do chamado “Hexágono de Christaller”, como o modelo da sua teoria é conhecido. Isto porque, ao chegar ao Brasil, por volta da década de 1980, a Teoria das Localidades Centrais estava sendo retomada nos estudos da geografia urbana, enquanto manifestação teórica; assim como esse é o momento do processo de descentralização que passou a ser verificado e estudado no espaço urbano, configurando-se na manifestação empírica da referida teoria. Assim, ela chega ao Brasil em momento oportuno, tanto do ponto de vista teórico, porque estava sendo reinserida no debate acadêmico; quanto do ponto de vista empírico, porque o espaço urbano ora em curso demandava alguns aportes teóricos para sua apreensão. Seguindo os rumos de uma nova abordagem de centralidade urbana é que o pensamento de Sposito (2010) vem à tona, trazendo novas discussões e possibilidades de leitura para as dinâmicas que se processam no espaço urbano. Do pensamento da referida autora, o conceito de multicentralidade figurou como oportuno ao nosso trabalho, haja vista permitir falar da multiplicação de centros urbanos. dentro. de. uma. mesma. cidade,. segundo. uma. complementaridade, fugindo à discussão centrada no centro único.. dinâmica. de.
(20) 18. Nesse trabalho, a problemática principal partiu do pressuposto que, sendo o espaço urbano permeado de uma gama imensurável de conteúdos, processos e formas, a centralidade urbana carece de ser apreendida em sua natureza diversa. A diversidade da natureza da centralidade urbana se constitui, em primeiro lugar, pelos seus conteúdos, os quais se configuram na razão de ser da centralidade, haja vista serem eles que atraem fluxos de pessoas aos centros. Isto porque temos claro, a partir do diálogo com a literatura atinente à temática centralidade urbana, que sua razão de ser consiste na atração de fluxos. Essa problemática, no caso da centralidade urbana em Natal, pode ser identificada desde a formação do Núcleo do Centro histórico de Natal, pela condição de complementaridade das atividades terciárias entre os três bairros constituintes: Cidade Alta, Ribeira e Alecrim. Resultante dessa condição de complementaridade é que podemos depreender que os diversos centros estiveram, desde o início, sob uma condição de multicentralidade. Já a partir dos anos 1980, com a expansão do varejo moderno na cidade, a centralidade. urbana. iniciou. seu. processo. de. dispersão,. gerando. novas. centralidades, as quais guardam, em sua natureza, a condição de multicentralidade, porque não rivalizam entre si, não formando assim uma hierarquia (SPOSITO, 2010). O que ora constatamos, na conformação de novas centralidades urbanas em Natal, é uma clara projeção do processo de reprodução do capital, viabilizado na constituição de modernos centros de comércio e de serviços, sendo os shopping centers uma das suas expressões excelentes. Consoante a essa afirmação, constatamos, tanto na realidade estudada quanto em documentos oficiais e nos discursos dos gestores públicos entrevistados, uma clara preocupação voltando a atenção da municipalidade para o que denominam de “corredor dos shopping centers”, que é uma das áreas mais expressivas de novas centralidades. Ao admitirmos a diversidade da natureza da centralidade urbana, tendo seus conteúdos como definidores, é que podemos elencar que estas podem ser de natureza histórica, cultural, simbólica, econômica e ideológica, as quais se manifestam em dado momento ou lapso de tempo, no qual uma figura como definidora de uma dada centralidade, mas não desprezando as possibilidades de relações mútuas entre as mesmas. Ademais, é importante ressaltarmos o caráter proeminente da centralidade de natureza econômica no meio urbano, posto que a cidade se configura com um lugar de trocas..
(21) 19. Em suma, nossa tese é de que a natureza da centralidade urbana é, essencialmente, diversa, porque diversos são os conteúdos, processos e formas que concorrem para a constituição da mesma. Desse modo, face a essa problemática, nosso objetivo, nesse trabalho, foi explicitar a natureza da centralidade urbana em Natal, considerando os conteúdos, processos e formas que a constituem, bem como os fatores concorrentes para a sua diversificação. A metodologia adotada para atingir esse objetivo teve por base a teoria da produção do espaço, de Henri Lefebvre, sob uma orientação dialética, para então compreendermos os processos que se desencadeiam no espaço urbano capitalista. E, ao lançarmos mão dessa postura, apreendermos o processo de formação da centralidade urbana em Natal, bem como sua dispersão, que teve início a partir da década de 1980, até o momento, quando ainda identificamos novas centralidades em seu processo formação. Como procedimentos metodológicos, voltamos nossos esforços para o exame dos conceitos norteadores das discussões teóricas, como: centralidade urbana; natureza da centralidade; multicentralidade; espaço urbano; e economia terciária. Ainda quanto aos procedimentos metodológicos, empreendemos minucioso levantamento de materiais que dessem conta da formação da Cidade do Natal ao longo da história, da constituição do seu espaço na atualidade, bem como da conformação. das. atividades. que. movimentam. essa. cidade,. para. assim. apreendermos a sua dinâmica, e compreender as suas expressões de centralidade. Nesse sentido, estabelecemos importante diálogo junto a secretarias e órgãos municipais, secretarias e órgãos estaduais do Rio Grande do Norte (RN), e ainda junto a órgãos federais, e à sociedade civil organizada. Os resultados obtidos por ocasião da pesquisa de campo junto a essas secretarias e órgãos, em sua maioria, foram elucidativos para a principal questão que conduzíamos ao entrevistarmos o agente público, que era: como este órgão planeja sua ação na Cidade do Natal, ao considerar o centro da cidade. A partir dessa pergunta, obtivemos algumas posturas interessantes em relação ao que possa ser centro em Natal, e foram reveladas diversas práticas de centralidade urbana na cidade, algumas das quais concordantes entre si, e até mesmo consoantes aos rumos elucidativos da nossa pesquisa. O percurso investigativo da natureza da centralidade urbana se justifica ter.
(22) 20. sido desenvolvido na Cidade de Natal, RN, por ser uma cidade que, desde a década de 1980, vem passando por transformações significativas na estruturação das atividades terciárias, consoante, portanto, à projeção das discussões teóricas de centralidade nos estudos de geografia urbana, e sua manifestação no plano empírico; igualmente se justifica por ser junto ao espaço urbano natalense que temos dedicado esforços de análise em estudos anteriores, configurando-se assim como a continuidade de um processo acadêmico investigativo. Como resultados dos esforços empreendidos na pesquisa é que ora apresentamos o texto, estruturado em quatro seções. A primeira, intitulada “Aportes teórico-metodológicos à centralidade urbana”, que revisita a Teoria das Localidades Centrais, e lança as bases teóricas da temática centralidade urbana, para então dialogar com novas discussões acadêmicas com as quais pudemos contar para a leitura da realidade, como a ideia da multicentrelidade, presente no pensamento de Sposito (2010). A segunda seção traz como título, “A centralidade urbana e sua dinâmica”, volta-se para a formação da centralidade urbana, desde a gênese do Núcleo do Centro histórico de Natal, até a formação das novas centralidades. A terceira seção versa sobre “A natureza diversa da centralidade urbana”, buscando explicitar os conteúdos, processos e formas que concorreram para a formação da centralidade urbana em Natal, sua consolidação no Núcleo do Centro histórico de Natal, e sua dispersão contemporânea para novas áreas da cidade. Por fim, a quarta seção, que traz como título “Proposição à apreensão da centralidade urbana”, expõe os resultados do percurso investigativo, indicando as áreas de Natal que expressam o processo de dispersão da centralidade urbana, traduzido sob a forma de novas centralidades urbanas..
(23) 21. 1 APORTES TEÓRICO-METODOLÓGICOS À CENTRALIDADE URBANA. Esta seção lança as bases teóricas deste trabalho, partindo da Teoria das Localidades Centrais (TLC), como forma de lançar um olhar sobre os primórdios das discussões de centralidade urbana, bem como pela importância da contribuição do pensamento de Walter Christaller aos estudos urbanorregionais, apesar de o nosso foco ser o meio intraurbano. Mas o diálogo avança, adotando novas contribuições à temática, como o pensamento de Sposito (2010). A partir das considerações iniciais da citada teoria, apresenta as discussões e repercussões da TLC no meio acadêmico da geografia brasileira; bem como apresenta outros aportes teórico-conceituais que servirão de base para o desenvolvimento do texto; ao longo da seção, o pressuposto da tese, de que a centralidade urbana é diversa em seus conteúdos, processos e formas por ser o espaço urbano igualmente diverso, é enunciado sempre que julgado necessário ou oportuno, como forma de estabelecer um fio condutor entre o trabalho investigativo ao qual nos propusemos, e o resultado que ora apresentamos.. 1.1 Da Teoria das Localidades Centrais às novas expressões da centralidade. Apesar do extenso lapso de tempo, desde a formulação da Teoria das Localidades Centrais, de Walter Christaller, em 1933, o tema centralidade urbana é um tema ainda impreciso e cambiante em suas discussões contemporâneas, segundo as diversas realidades para as quais a TLC é utilizada como aporte teórico de apreensão empírica do urbano (CHRISTALLER, 1981). Apontamos centralidade urbana como um tema impreciso, em função dos diversos contornos que lhes são atribuídos no debate acadêmico, uma vez que percebemos isso ao examinarmos publicações, seja de eventos científicos ou de publicações periódicas. Igualmente, vemos o tema de modo cambiante na atualidade, por ser ainda carente de uma definição precisa, adquirindo diversas interpretações. Dessa forma, tem sido apreendido por meio de expressões materiais de centralidade, como: centro histórico; centro comercial; rua especializada em um tipo específico de comércio ou serviços; shopping center; condomínio (edifício) de serviços. Mas também sua apreensão tem sido feita por meio de manifestações imateriais, como: usos diversos de um mesmo centro, segundo uma escala temporal.
(24) 22. variável ao longo do dia, da semana, do mês, e até mesmo do ano, por ocasião de eventos já consagrados pela sociedade, como as datas comemorativas, que estimulam grupos diversos de pessoas a irem às compras, à procura de serviços, ou irem ao lazer; representação simbólica de certas áreas da cidade, reservadas às expressões e manifestações da cultura e do sagrado por parte da sociedade; centro político ou arena de manifestações políticas, configurando-se como uma centralidade de natureza ideológica, entre outras formas de expressões imateriais de centralidade urbana. Neste sentido, tomamos como referência o pressuposto de que a natureza da centralidade urbana é diversa, de acordo com os componentes que concorrem para a sua formação, quais sejam: conteúdos, processos e formas. E por estarmos falando do contexto urbano, entendemos que a centralidade está em contínua conformação, requerendo, por sua vez, uma contínua apreensão ou leitura, sempre à baila dos processos que se desencadeiam na produção do espaço urbano. Ademais, podemos também vislumbrar a centralidade urbana como relativa, por sua variação frente a grupos sociais diversos, que lhes são simultaneamente geradores e usuários. Em outras palavras, a centralidade depende do estrato social a ela atraído, segundo o conteúdo que determinado centro comporta em sua forma, gerando um processo de atração no sentido de atender a uma demanda. Ao afirmarmos que a centralidade urbana é diversa em sua natureza, e relativa em sua forma de apropriação, identificamos nela um caráter de simultaneidade, estruturando-se e manifestando-se em suas diversas expressões, configurando-se nas seguintes dimensões: histórica, cultural, simbólica, econômica e ideológica, havendo sempre a proeminência de uma destas, mas não perdendo de vista que as demais podem estar presentes na conformação de uma centralidade urbana, sob uma expressão mais tênue. Após estas considerações preliminares, optamos por iniciar o aporte teórico à centralidade urbana, conduzindo nossa discussão a partir da origem do tema, qual seja: lançando um olhar sobre a TLC apenas como ponto de partida, porque entendemos que não podemos prescindir do exame da referida teoria. Mas, dado que o tema centralidade urbana demanda uma leitura continuamente atual e criteriosa, optamos por encaminhar nossas reflexões em torno das novas expressões de centralidade. A TLC versou sobre os centros urbanos enquanto fornecedores de bens e.
(25) 23. serviços no sul da Alemanha, apresentando assim uma importante contribuição aos estudos sobre o sistema urbano. Isto porque consistiu numa investigação geográfica de cunho econômico acerca da regularidade do número, distribuição e tamanho das localidades. urbanas. representadas,. na. prática,. pela. Alemanha. do. Sul. (CHRISTALLER, 1981). A diversidade ou aparente desordem identificada por Christaller, em 1933, entre as cidades do sul da Alemanha foi a questão chave que o inquietou em busca do princípio que regeria o seu arranjo espacial, resultando na formulação de um modelo hipotético, graficamente representado por um hexágono. Por meio desse hexágono, o referido autor apresentou sua formulação da distribuição de bens, considerando o limiar, enquanto raio inicial de abrangência da distribuição de um dado bem, no qual seria obtido o máximo de lucro, que decaía gradativamente, à medida que a distribuição se deslocava do centro do hexágono, em função dos custos com transporte; considerando também o alcance, enquanto raio final de abrangência do processo de distribuição de um dado bem, no qual os lucros, tendo decaído gradativamente desde o limiar, já se tornariam insignificantes, igualmente em função dos custos de transporte, cessando assim a área de abrangência da distribuição de um bem. Empreender essa explicação se fez necessário porque, sendo o espaço geográfico de natureza heterogênea, dada a diversidade dos elementos e funções que o constituem, igualmente diversos são os centros urbanos distribuidores de bens e serviços que conformam este espaço. Eis por que Walter Christaller se inquietou com a já referida desordem, almejando dar à mesma uma explicação, buscando princípios que regeriam o número, o tamanho e a distribuição de certos lugares centrais no sul da Alemanha. Como decorrência do esforço de análise do referido estudioso, vem-nos suas contribuições aos estudos de rede e hierarquia urbanas. Mas a Teoria das Localidades Centrais tem sido simultaneamente cara e controversa nos debates acadêmicos, no âmbito da geografia urbana. Adentrando à referida teoria, cotejemos o contexto descrito pelo seu autor:. Las cosas son distintas em la ciudad. En uma misma región.
(26) 24. encontramos1 ciudades grandes y pequeñas de todas las categorias. En algunas zonas se amontonan de forma espectacular, aparentemente sin motivo lógico, mientras que em otras amplias áreas no existe ninguna población que merezca la denominación de ciudad, muchas veces ni siquiera la de centro de mercado. Se insiste siempre en que las relaciones entre la ciudad y la actividad laboral de sus habitantes no son casuales, sino fundadas en su propia naturaleza; pero, entonces, ?por qué hay ciudades grandes y pequenas?, y ?por qué están tan irregularmente distribuídas? 2 (CHRISTALLER , 1982, p. 396).. Claro está, a partir da descrição da distribuição de algumas cidades no sul da Alemanha e das questões levantadas, que o referido contexto é o ponto de partida para instigar o autor citado a inquietar-se em busca de uma explicação, e formular assim a sua proposição de explicação dessa realidade, por meio da Teoria das Localidades Centrais. Descortinou-se então uma realidade que incitava o observador a formular uma base teórica para explicá-la. Esse foi o desafio aceito por Walter Christaller face à realidade. Vemos então que a preocupação inicial, o ponto de partida do referido estudioso foi encontrar uma explicação para a heterogeneidade – ou, no seu modo de dizer, a “irregularidade” – presente no espaço geográfico, especificamente, entre as cidades de uma mesma região, que, como pondera o autor, muitas vezes, não há motivo aparente para tal discrepância entre o tamanho e a importância funcional das cidades de uma mesma região, algumas das quais nem podendo ser denominadas cidades. Insiste Walter Christaller em que, se há uma relação entre a cidade e as atividades laborais dos seus habitantes, por que então há cidades pequenas e cidades grandes, e tão mal distribuídas em uma mesma região? Para responder a esta questão ele propõe:. 1. NOTA: apesar de algumas palavras das citações em espanhol se apresentarem em português, mantivemos conforme o original, em respeito aos autores que organizaram o livro, e fizeram a tradução da tese de Christaller, de 1933. 2 As coisas são distintas, na cidade. Em uma mesma região, encontramos cidades grandes e pequenas de todas as categorias. Em algumas áreas, elas se distribuem de forma espetacular, sem razão aparentemente lógica, enquanto que em outras grandes áreas, não há um povoado que mereça o nome de cidade, muitas vezes, nem mesmo há um centro do mercado. Insiste-se sempre que as relações entre a cidade e o trabalho de seus habitantes não são aleatórias, mas fundadas em sua própria natureza. Mas então, por que existem grandes e pequenas cidades? E por que são tão irregularmente distribuídas? (CHRISTALLER , 1982, p. 396, tradução nossa)..
(27) 25. Nosotros tratamos de buscar uma respuesta a esta pregunta; buscamos la razón por la que uma ciudad es grande o pequena, porque creemos que en la distribuición tiene que prevalecer algún principio ordenador que hasta ahora no hemos podido reconocer3 (CHRISTALLER , 1982, p. 396).. E buscou essa explicação para além das forças da natureza, antes, por interferência da ação humana, por acreditar que “No es posible dar una explicación sobre el número ni sobre la distribuición o el tamaño de las ciudades, basándose unicamente en las circunstancias geográficas naturales4” (CHRISTALLER, 1981, p. 397, grifos nossos). Neste sentido, atribuiu a razão do arranjo espacial à economia:. Para la existência de la ciudad, los factores económicos son, pues, decisivos [...]. Por esta razón, la geografia de los asentamientos forma parte de la geografia económica. Hay que recurrir a la teoria económica para explicar la naturaliza de las ciudades, y si existen leyes em la teoria económica, también tiene que haber leyes em la geografia de los asentamientos5 (CHRISTALLER, 1982, p. 397).. Seguindo o seu propósito em busca de uma explicação para o tamanho dos lugares centrais, aponta: “Llegados a este punto, es necessário estabelecer si realmente son leyes las que determinan el tamaño y la distribución de las ciudades y si es posible reconocerlas6” (CHRISTALLER, 1982, p. 397). E, como geógrafo, delegou o desafio de tal explicação à geografia:. Pero nosotros somos de la opinión de que la geografia de los asentamientos es uma disciplina de las ciências sociales, claramente determinante para el nacimiento, desarrollo y decadência de las ciudades, es la actividad de sua habitantes, que encuentran allí su. 3. Tentamos encontrar uma resposta a esta pergunta; buscamos a razão pela qual uma cidade é grande ou pequena, porque acreditamos que em um processo de distribuição deve prevalecer algum princípio de ordem que até agora não pudemos reconhecer (CHRISTALLER , 1982, p. 396, tradução nossa). 4 Não é possível dar uma explicação sobre o número, a distribuição ou o tamanho das cidades, com base apenas em circunstâncias geográficas naturais (CHRISTALLER, 1982, p. 397, tradução nossa). 5 Para a existência da cidade, os fatores econômicos são, por conseguinte, determinantes [...]. Por esta razão, a geografia dos assentamentos faz parte da geografia econômica. Devemos usar a teoria econômica para explicar a natureza das cidades, e se existem leis em teoria econômica, também deve haver leis na geografia dos assentamentos (CHRISTALLER, 1982, p. 397, tradução nossa). 6 Neste ponto, é necessário reconhecer se realmente são as leis que determinam o tamanho e distribuição das cidades, e se possível reconhecê-las (CHRISTALLER, 1982, p. 397, tradução nossa)..
(28) 26. media de vida7 (CHRISTALLER, 1982, p. 397).. Vendo então um nexo entre a geografia e a economia, o referido autor reafirmou o seu propósito de buscar leis ou princípios que explicassem o arranjo espacial entre centros urbanos: Nos parece suficiente retener el hecho de que existen leyes económicas que determinam la vida económica, y, em consecuencia, que también tiene que haber leyes específicamente económicogeográficas que determinem el tamaño, el número y la distribución de las ciedades. Por lo tanto, no nos parece inútil buscar tales leyes 8 (CHRISTALLER, 1982, p. 398).. A hipótese de um princípio explicativo para o tamanho, o número e a distribuição das cidades, tendo como por base a ação do ser humano ao reproduzir sua sobrevivência, nas palavras do autor, em função da sua atividade laboral, remete então aos aspectos econômicos, os quais se desenvolvem em função da busca do ser humano pela sua sobrevivência. E nessa relação entre geografia e economia, estaria assim configurado um efetivo processo de produção do espaço geográfico. Ao retomarmos a última afirmação citada, vemos que o autor defende não ser inútil buscar o princípio ou as leis que regem o arranjo espacial que se conforma em torno de centros urbanos. E mesmo deixando claro seu propósito, de que “La finalidade del trabajo, sin embargo, es muy concreta: descobrir y explicar los hechos relativos al tamaño, número y distribuición de las ciudades em la Alemania del Sur 9 (CHRISTALLER, 1982, p. 398), sua contribuição às bases teóricas para a geografia urbana adquiriu repercussão para além do que projetara, tendo repercutido inclusive no Brasil, a partir da década de 1980, com o pensamento de Milton Santos, entre outros geógrafos que aportaram sua análise espacial na Teoria das Localidades Centrais, 7. Mas nós somos da opinião de que a geografia dos assentamentos é uma disciplina das ciências sociais, claramente decisiva para o nascimento, crescimento e decadência das cidades, e as atividades de seus habitantes, que encontraram ali o seu meio de vida (CHRISTALLER, 1982, p. 397, tradução nossa). 8 Parece suficiente para admitir o fato de que existem leis econômicas que determinam a vida econômica, e em consequência, que tem também há leis especificamente econômicogeográficas que determinem tamanho, número e distribuição das cidades. Portanto, não parece inútil procurar tais leis (CHRISTALLER, 1982, p. 398, tradução nossa). 9 O objetivo do trabalho, no entanto, é muito específico: para descobrir e explicar os fatos do tamanho, número e distribuição de cidades na Alemanha do Sul (CHRISTALLER, 1982, p. 398, tradução nossa)..
(29) 27. inspirando estudos de cunho econômico, sob a perspectiva quantitativista neopositivista da geografia brasileira (REIS JÚNIOR; CAMARGO, 2003). Tendo como variáveis o número, o tamanho e a distribuição, Walter Christaller projetou então seu estudo para além da escala intraurbana, buscando também a zona de influência das cidades, hierarquizando-as segundo o grau de centralidade, focando, portanto, o sistema urbano: Entre la parte teórica y la parte regional hemos tenido que introducir y princípios com a ayuda de los cuales se puede determinar concretamente los núcleos que em este momento desempeãnn una función de ciudades, representar numericamente su tamaño y hasta donde llega su zona de influencia10 (CHRISTALLER, 1982, p. 399).. Ressaltamos a contribuição de Christaller para os estudos urbanorregionais, haja vista ter voltado seu olhar para a região sul da Alemanha, preocupando-se com algumas cidades daquela região enquanto centros distribuidores de produtos, aos quais chamou de “localidades centrais”, o que resultou na clássica Teoria das Localidades Centrais. E assim, Christaller tentou explicar as relações espaciais engendradas em função das atividades econômicas, principalmente, em função das trocas de bens entre a população presente nas localidades, levando em consideração os princípios do abastecimento e da circulação, expressos matematicamente pelo limiar e pelo alcance de um bem ao ser distribuído no mercado formado entre núcleos de um dado sistema urbano. A teoria de Christaller teve sua repercussão no meio acadêmico, cujos desdobramentos vieram das discussões empreendidas por alguns os estudiosos, como: Clark (1991); Santos (1979; 2003); e Corrêa (1997; 2005). Clark (1991, p. 137), ao discutir a Teoria das Localidades Centrais, em seu clássico manual de geografia urbana, intitulado “Introdução à Geografia Urbana”, expõe que “[...] haverá uma hierarquia funcional dos centros de serviço, consistindo em teias de povoamento, cada nível contendo locais que oferecem tipos semelhantes de bens e serviços para áreas de mercado com tamanhos semelhantes”. O autor faz uma interpretação da Teoria das Localidades Centrais ao. 10. Entre a parte teórica e a parte regional, tivemos que introduzir princípios para determinar concretamente núcleos que em algum momento desempenham uma função de cidade, representando numericamente seu tamanho e sua zona de influência (CHRISTALLER , 1982, p. 399, tradução nossa)..
(30) 28. afirmar que há uma “hierarquia funcional”; e faz referência, certamente, à “planície isotrópica” da teoria de Christaller, ao falar de “teias de povoamento”. Enfim, ao nosso ver, a teoria de Christaller fora bem aceita por Clark (1991). É como se o referido autor concordasse com a “ordem geográfica” – mesmo que hipotética – apresentada por Christaller para explicar a conformação das cidades no sul da Alemanha. Esse esforço empreendido por Christaller, em 1933, no sentido de encontrar uma ordem geográfica em torno do número, tamanho e distribuição dos núcleos urbanos constituintes de um dado sistema de lugares centrais propiciou uma explicação para a referida ordem geográfica da distribuição de cidades enquanto centros de distribuição de bens. Isto porque as ligações entre as cidades, segundo suas especializações, é que suscitam funcionalidades e consequentes hierarquias urbanas, formando assim um sistema urbano, temática que pode ser indicada como um contributo da teoria aos estudos urbanos. Segundo nossa compreensão, um sistema urbano se configura a partir das relações funcionais estabelecidas entre as cidades constituintes de um mesmo território, gerando uma hierarquia urbana, a qual se faz por meio do atendimento às demandas da população ali presente, via fluxos; ou, no dizer de Clark (1991), via “contatos”. Neste sentido, o referido autor aponta: “Os contatos entre cidades apresentam uma variedade de modos, e incluem movimentos de pessoas, de mercadorias e de idéias11” (CLARK, 1991, p. 168, grifo nosso). Os fluxos que se estabelecem entre as áreas de recursos naturais, os centros industriais e as áreas comerciais criam fortes laços de interdependência econômica dentro de certo sistema urbano. Conforma-se assim uma centralidade, a qual é definida por Queiroz; Braga (1999, p. 13) como uma “[...] articulação regional que se traduz em um forte fluxo de pessoas, bens e serviços”. Observemos que há uma consonância entre o pensamento destes últimos autores referidos e o de Clark (1991), com relação ao fluxo de pessoas e bens entre centros urbanos, porque essa “[...] centralidade será definida pela sua capacidade de oferecer bens e serviços para outras localidades” (QUEIROZ; BRAGA, 1999, p. 2). Todavia, ao anunciarmos preliminarmente essa condição da centralidade, 11. A palavra ora grifada está fora da norma culta vigente na língua portuguesa brasileira (BRASIL, 2014a). Mas optamos por não indicar a expressão “[sic!]” quando da ocorrência de citações com grafias supostamente erradas ou não mais vigentes por opção de estilo textual..
(31) 29. que é de atrair fluxos, em função do que tem a oferecer, concordando com autores citados, julgamos importante destacar um caráter dual da centralidade urbana, que consiste também em irradiar fluxos. E assim, atraindo e irradiando fluxos entre centros urbanos, termina por intercambiar, e não somente atrair esses fluxos, como é afirmação corrente nas definições até então evocadas sobre centralidade urbana. Entendemos que se estabelece aí uma relação de reciprocidade entre os centros hierarquicamente arranjados num dado sistema urbano, em se tratando de diferentes cidades; ou entre diferentes áreas de uma cidade, ao nos referirmos a um dado espaço intraurbano, razão pela qual sinalizamos com o caráter dual da centralidade, porque a vislumbramos sua condição de intercambiar fluxos. Ademais, para a centralidade urbana, nem perdura essa concepção de caráter dual, tendo em vista as diversas possibilidades de relações que se estabelecem no contexto urbano, seja em função da circulação de bens e serviços, seja em função das relações cotidianas contemporâneas. E assim, almejamos, ao examinar mais adiante a natureza da centralidade urbana, indicar a sua diversidade, o que lhe acrescentará outras nuances, indo além da já consagrada afirmação na literatura, que a define por sua capacidade de atrair fluxos. Porquanto, afirmamos: a centralidade não só atrai, mas também irradia fluxos, configurando-se num verdadeiro intercâmbio de pessoas, bens e informações entre centros urbanos. Desses fluxos que se estabelecem entre lugares centrais é que surgiu, segundo a TLC, uma forma de representação: o “hexágono de Christaller”. Tendo presente a demanda por parte da sociedade quanto à satisfação das suas necessidades ao adquirir bens necessários à sua sobrevivência, e que estes bens sejam adquiridos o mais próximo possível ao seu lugar de convívio, resgatamos o pensamento de Clark (1991) acerca da teoria de Christaller, ao afirmar que, “Tendo proposto um padrão de provisionamento de mercadorias e serviços, a teoria do lugar central considera o arranjo espacial das áreas de mercado” (CLARK, 1991, p. 133). E este arranjo espacial, como já assinalamos, foi apresentado segundo a figura geométrica de um hexágono: As áreas hexagonais de mercado representam o melhor compromisso entre o ideal econômico e a realidade geográfica, e produzem uma rede hierárquica de áreas de mercado com seis lados. Nessa rede, nenhum consumidor deixa de ser servido e nenhuma mercadoria é comprada por um preço totalmente inaceitável (CLARK, 1991, p. 134, grifos nossos)..
(32) 30. Mas, ao nos debruçamos sobre estas últimas afirmações citadas, comparando-as. à. realidade. contemporânea,. percebemos. que. não. é. necessariamente assim que se desenvolve a dinâmica do sistema capitalista. Na verdade, o “hexágono de Christaller”, como é assim conhecido, ao tentar ser uma leitura ou uma apreensão da realidade, voltada para o sul da Alemanha, terminou por ser uma antecipação idealista desta realidade. Julgamos importante retomarmos a citação anterior de Clark (1991, p. 134), na qual o referido autor defende, expondo o pensamento de Christaller, que as áreas hexagonais seriam o “melhor compromisso” com o consumidor, o qual mediaria relações entre o ideal econômico e a realidade geográfica, possibilitando que nenhum consumidor deixasse de ser servido. Mas não é demais lembrar que estamos analisando um contexto capitalista. E não é tendo por base apenas a disposição de produtos no mercado que faz com que os consumidores sejam servidos, como o autor supracitado afirma. Há um componente que foi esquecido em seu pensamento: o dinheiro – enquanto poder de compra –, o qual media e até preside a compra de um bem; que também insere ou exclui o consumidor em certo centro comercial; enfim, é o poder de compra que, na sociedade capitalista, define as semelhanças e diferenças entre consumidores. Logo, entre o “ideal econômico” e a “realidade geográfica”, desenvolvem-se uma infinidade de práticas espaciais, influenciando sobremaneira a produção do espaço urbano cada vez mais heterogêneo, permeado de centralidades urbanas de natureza diversa, segundo a sua constituição, em seus conteúdos, processos e formas. Mas o legado da formulação da teoria de Christaller não fora apenas a representação em forma de hexágono. Tal representação esteve embasada em algumas condições, sejam de natureza material ou imaterial. São elas: 1) planície ilimitada, com recursos uniformes; 2) distribuição igual da população e do poder de compra; 3) liberdade igual de movimento em todas as direções; 4) custos de transportes proporcionais à distância percorrida; 5) mercadorias com preços idênticos em qualquer um dos centros (CLARK, 1991). Essas condições ora citadas renderam à Teoria das Localidades Centrais,.
(33) 31. desde o seu lançamento, várias interpretações, adaptações e até mesmo refutações. Pelo seu enunciado, vemos que tais condições compõem um modelo hipotético, que simplifica o sistema de mercado capitalista. E como podemos depreender do cotejamento das condições supracitadas, tal modelo não corresponde efetivamente a uma realidade. Apenas pretendeu ser uma proposição explicativa ao arranjo espacial às localidades centrais do sul da Alemanha. Passemos então ao exame das condições da proposição de Christaller, buscando entender em que consiste cada uma, verificando em que medida essas condições podiam ser consideradas válidas para explicar uma possível “ordem geográfica” das localidades centrais do sul da Alemanha; e ainda, se podem contribuir para o debate sobre lugares centrais; ou, numa acepção mais atual, em que medida sua formulação contribui para o debate contemporâneo tema da centralidade. Eis as condições elencadas por Christaller, segundo a Teoria do Lugar Central: 1. planície ilimitada, com recursos uniformes – não há “ilimitadas” áreas planas, mas uma diversidade topográfica, até mesmo dentro de uma mesma cidade – ou numa região, para onde se voltou o modelo de Christaller –, o que nega a possibilidade da “planície homogênea”; e os recursos naturais são diversos, dependendo da localização; e ainda, há que considerarmos o nível técnico segundo o qual tem se desenvolvido a humanidade, o que implica variações nos custos de produção e, consequentemente, na formulação dos preços; 2. distribuição igual da população e do poder de compra – não há um critério uniforme para a distribuição da população na superfície terrestre, havendo vazios demográficos ao lado de altas densidades demográficas; igualmente diverso é o poder de compra desta população, o qual se configura muito mais em função da posição que cada indivíduo ocupa na escala de estratificação social, em função do nível de qualificação, do grau de desenvolvimento intelectual e cultural, do tipo de ocupação, entre outras condições; 3. liberdade igual de movimento em todas as direções – não há uma liberdade igual de movimento entre as pessoas, pois estas dependem de meios técnicos e condições físicas, sendo uma experiência diversa para cada um; e se não há um “movimento igual em todas as direções”, a opção de comprar seus bens num ou em outro centro fica a critério de cada pessoa, sendo imprevisível, e não uniforme este descolamento; há que considerarmos ainda, na contemporaneidade, as.
(34) 32. inúmeras formas de aquisição de bens, face à evolução dos meios de comunicação, como o caso do e-commerce, pelo qual as pessoas podem adquirir bens via Internet, conectando o local ao global, até mesmo subsumindo as hierarquias regionais e a logística dos centros de distribuição; 4. custos de transportes proporcionais à distância percorrida – também em função das condições físicas do meio e das técnicas de transportes, não podemos prever custos de transporte idênticos e proporcionais à distância percorrida, pois em função da técnica, a distância se torna relativa, repercutindo na variação dos custos com transportes; 5. mercadorias com preços idênticos em qualquer um dos centros – os preços não são idênticos em todos os centros, haja vista a lei da oferta-demanda ser um fator determinante no mercado capitalista, em oposição ao critério da “concorrência perfeita” proposto por Christaller (CLARK, 1991). Ademais, há que considerarmos outro componente, que é o crédito, o qual amplia o poder de compra das pessoas, figurando como um critério de escolha por ocasião da aquisição de bens e serviços, esmaecendo essa condição de “concorrência perfeita”. Diante do exposto, vemos que por ser um modelo considerado um tanto audacioso, ao tentar explicar uma realidade a partir de uma formulação hipotética, sem uma estrita correspondente realidade, a Teoria dos Lugares Centrais despertou apreciações ora favoráveis, ora negativas, muitas vezes, partindo de um mesmo autor, como vemos em Clark (1991), que segundo nossa interpretação, ora aceita a referida teoria, ora a critica por sua natureza restritiva, face às cinco condições expostas, as quais não apresentam consonância entre o modelo da TLC e a realidade. Mas é o mesmo Clark (1991, p. 147) que exalta: “O maior valor da teoria [dos lugares centrais] é que, independente de seus insumos restritivos, ela satisfatoriamente explica muitas das características funcionais e de distribuição dos centros de serviços [...]”. E prossegue em sua defesa: “O que a teoria do lugar central salienta é que os sistemas de centros de serviços não são totalmente desestruturados e desordenados. Existe regularidade na distribuição dos centros de mercado, e nas funções que eles desempenham [...]” (CLARK, 1991, p. 147). Vejamos que o autor supracitado, nestes dois últimos trechos, defende a aplicabilidade e/ou utilidade da Teoria dos Lugares Centrais para explicar os centros de distribuição, como se já houvesse uma correspondência entre teoria e realidade..
(35) 33. Ou, como buscava o próprio Christaller, Clark (1991) fala de uma “regularidade” entre os centros de mercado. E era isso que o autor da referida teoria almejava: explicar a ordem, a regularidade que presidia a distribuição das localidades centrais no sul da Alemanha. Atualizando o debate sobre a TLC ao estudarem a hierarquia urbana entre algumas cidades mineiras, Centro-Sul do Brasil, Queiroz; Braga (1999, p. 1) não negligenciaram a referida teoria. Ao contrário, ressaltam os autores que A base teórica da hierarquia funcional dos centros urbanos é a ‘Teoria do Lugar Central’ desenvolvida, basicamente, por três autores: Lösch, Boudeville e Christaller. [...] Esta teoria tem o objetivo de explicar as causas da formação e desenvolvimento dos centros urbanos a partir da idéia de importância que um centro urbano tem em relação às demais localidades devido a uma série de características próprias como: poderio econômico, área de mercado etc (grifo nosso).. Observemos. que. a. referida. teoria. vai. ganhando. sempre. novas. interpretações, apesar de manter algumas. No último trecho citado, mantém o foco ao tentar explicar o desenvolvimento de centros urbanos; e inova na forma de falar da “área de mercado”, o que está posto na teoria de Christaller segundo os conceitos de limiar e alcance; e ainda, ao referir-se ao poder econômico, algo que foi buscado de forma muito profunda na clássica teoria, porque não há, neste sentido, uma discussão clara, a não ser quando Christaller se refere a lugares de “elevada centralidade”, o que seria já uma aproximação forçada, em nossa compreensão. Dando continuidade ao debate sobre a Teoria das Localidades Centrais no Brasil, indicamos como um expoente neste sentido Roberto Lobato Corrêa, estudioso da geografia urbana, com o texto “Repensando a Teoria das Localidades Centrais”, em obra organizada por Moreira (1982); assim como por ocasião do IX Simpósio Nacional de Geografia Urbana (SIMPURB), em 2005, ao publicar o trabalho “Área central – mudanças e permanências: uma introdução”. Em suas discussões, Corrêa (1982; 2005) afirma que a teoria de Christaller foi incorporada à “Nova Geografia” entre 1960-1970, destacando, no Brasil, a contribuição de Milton Santos, com a obra “O espaço dividido”, em 1979, que versa sobre os dois circuitos da economia urbana, o inferior e o superior. Já mencionado e reconhecido por Corrêa (1997; 2005), Santos (2003), em “Economia espacial”, dedica também um capítulo a “Uma revisão da teoria dos.
(36) 34. lugares centrais”, e afirma que é preciso entender o “hexágono de Christaller” de forma diferente, com o princípio da comercialização própria dos países subdesenvolvidos, considerando os dois circuitos na economia urbana. É-nos imperativo, após fazermos referência ao pensamento destes dois estudiosos – Milton Santos e Roberto Lobato Corrêa –, assumirmos uma postura de que devemos, ao discutir centralidade urbana, proceder a uma minuciosa revisão dos enunciados da Teoria dos Lugares Centrais. Observemos que os dois referidos autores trazem uma defesa uníssona em torno desta postura, por meio dos títulos dos capítulos que dedicam à discussão da TLC: “Uma revisão da teoria dos lugares centrais” (SANTOS, 2003) e “Repensando a Teoria das Localidades Centrais” (CORRÊA, 1997). Assim, entender a referida teoria de forma “diferente”, como postula Santos (2003), consiste em proceder à sua revisão e/ou nova apreensão, aproximando-a do atual contexto capitalista, tendo presente particularidades espaço-temporais para o recorte empírico sobre o qual estamos nos debruçando, qual seja, o espaço urbano de Natal. Essa visão é partilhada por Corrêa (1997), ao criticar a teoria em questão, alertando para o fato de que a mesma se mantém num nível positivista, considerando as trocas entre os seres, como se estes pertencessem a uma só classe, sem considerar as desigualdades, como já ponderamos anteriormente. Isto porque, como sabemos, num contexto capitalista, há, na verdade, uma estratificação de classes. Neste sentido, Corrêa (1997) propõe uma “revisão da Teoria das Localidades Centrais”, apontando que a discussão ainda não se esgotou, nem tampouco foi devidamente elucidada. Fazemos eco às palavras do autor junto à afirmação de que sua teoria ainda não foi devidamente elucidada. Reafirmamos o que já anunciamos anteriormente: são muitas as leituras que são feitas a respeito da centralidade urbana, algumas e muitas delas imprecisas e cambiantes, demandando ainda um profícuo debate acadêmico, e suas adequadas incursões empíricas. Partindo então destes aportes críticos, se voltamos nosso olhar à obra “O espaço dividido”, de Santos (2008), que trata do circuito inferior, periférico, e do superior, moderno, encontramos ressonância na postura de Corrêa (2005), ao defender que o debate em torno da TLC ainda não se esgotou. Ademais, não nos parece surpreendente que teóricos apontem a natureza da desigualdade na sociedade capitalista. Afinal, é a partir da desigualdade que este sistema se.
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