CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ
CAMPUS DE CAICÓ – DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO CERES
ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA E CULTURA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA
SUELE SANARA SANTOS DE AZEVEDO
A DANÇA DO ESPONTÃO NA SALA DE AULA
CAICÓ 2016
A DANÇA DO ESPONTÃO NA SALA DE AULA
Trabalho de Conclusão de Curso, na modalidade Relatório de Vivência Escolar, apresentado ao Curso de Especialização em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ensino Superior do Seridó, Campus de Caicó, Departamento de História, como requisito parcial para obtenção do grau de Especialista, sob orientação do Prof. Dr. Muirakytan Kennedy de Macêdo.
CAICÓ 2016
1 INTRODUÇÃO ... 04
2 A DANÇA DO ESPONTÃO NA SALA DE AULA ... 05
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 28
ABSTRACT ... 29
REFERÊNCIAS ... 29
APÊNDICES ... 31
APÊNDICE A – ESTUDO DO TEXTO SOBRE A IRMANDADE DO ROSÁRIO ... 31
APÊNDICE B – LISTA DE PRESENÇA DOS ALUNOS ... 33
APÊNDICE C – FOTOS DO DESENVOLVIMENTO DO PROJETO ... 34
APÊNDICE D – RELATO DE ALUNA ... 45
ANEXOS ... 46
ANEXO A – COMENTÁRIO DA DIREÇÃO DA ESCOLA ... 46
A DANÇA DO ESPONTÃO NA SALA DE AULA
Suele Sanara Santos de Azevedo Muirakytan Kennedy de Macêdo
RESUMO
A cultura afro-brasileira pode ser trabalhada na sala de aula através de expressões artísticas. No caso presente partimos de projeto de vivência escolar, no qual elegemos a Dança do Espontão da Irmandade dos Negros do Rosário de Caicó-RN, enfatizando os valores culturais dos negros na história local, com a finalidade de possibilitar a inclusão de crianças mediante a dança e os ritos afro-brasileiros, valorizamos nessa experiência a cultura regional, suas tradições e costumes, realçando o protagonismo negro na sociedade brasileira. Para isso se fez necessário uma dinâmica pedagógica em que as aulas fossem atrativas, onde as crianças interagissem umas com as outras. Daí propormos uma metodologia com rodas de conversa e debate sobre o tema, uso de instrumentos musicais étnicos (tarol, caixa e pífano), oficinas de dança e confecção de lanças coreográficas (espontões), visita guiada ao Santuário do Rosário e à casa da Irmandade dos Negros do Rosário. Por fim, a culminância do projeto se deu com a apresentação dos alunos na comunidade escolar do bairro Frei Damião. A bibliografia utilizada baseou-se na produção historiográfica e antropológica sobre as irmandades negras do Seridó (GOIS, 2014; SILVA, 2012; MACÊDO, 2014). Com a vivência escolar realizada, esperamos ter oferecido meios para que os alunos experimentassem uma atividade didático-pedagógica onde aprendessem a história e cultura afro descendente em uma ação que levou em conta a arte.
Palavras-chave: Dança. Negros do Rosário. Cultura. Espontão.
Discente do Curso de Especialização em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES), Campus de Caicó, Departamento de História (DHC). Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú, Polo de Caicó. Professora da Rede Municipal de Ensino, na Escola Municipal Frei Damião (Caicó-RN), lecionando em turma multisseriada do ensino fundamental do 1º, 2º e 3ºano. E-mail: [email protected].
Orientador do Curso de Especialização em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Professor do DHC, CERES, UFRN. E-mail:
1 INTRODUÇÃO
Nos dias atuais temos nos deparado com vários temas relevantes em nossa sociedade, alguns deles têm causado polêmicas e sido pauta de discussões, fora e dentro da escola, dentre eles, a inclusão social. De acordo com Oliveira, “Uma vez ingressos os afro-brasileiros passam a enfrentar um conjunto de problemáticas de extrema eficácia na permanência de preconceitos, estereótipos e desvalorização dessa parte significativa da população brasileira”. (2010, p. 137). Muitos desses embates sociais têm acontecido apenas no plano teórico, na prática nos deparamos com situações bem diferentes; são práticas de uma “inclusão” que muitas vezes se tornam excludentes. Reagindo a isso Silva e Porto nos mostram que “A escola é uma instituição social que deve se comprometer com as mudanças rumo ao mundo mais justo em que os homens possam viver sem preconceito e discriminação de credo, gênero entre outros”. (2012, p. 42).
Tentando capturar este espírito de inclusão, pensamos em praticar uma experiência que fosse participativa e envolvente, e dessa forma optamos por elaborar uma vivência onde a história afro-brasileira fosse o conjunto maior da ação. Especificamente, no caso do presente relato, partimos do projeto de vivência escolar na turma de 1º, 2º e 3º ano (multisseriada), do ensino fundamental que foi realizada na Escola Municipal Frei Damião, a qual elegemos a Dança do Espontão da Irmandade dos Negros do Rosário de Caicó-RN, enfatizando os valores culturais dos negros na história local. Com o propósito de alcançarmos os seguintes objetivos:
OBJETIVO GERAL: Valorizar a cultura negra de forma lúdica, envolvendo as crianças através da dança e ritos africanos no ambiente escolar.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
• Estimular nas crianças o valor da dança do Espontão;
• Conhecer e resgatar as tradições dos ritos musicais africanos passados de geração a geração;
• Construir objetos relacionados à dança do Espontão; • Produzir texto referente ao tema.
Este trabalho buscou socializar e valorizar a cultura dos Negros do Rosário através da Dança do Espontão contribuindo na inclusão social de todas as crianças em sala de aula.
Mediante a dança e os ritos afro-brasileiros valorizarmos nessa experiência a cultura regional, suas tradições e costumes, realçando o protagonismo negro na sociedade. A Irmandade dos Negros do Rosário é uma agremiação da igreja católica formada a princípio no século XVIII no Seridó, com escravos livres e libertos. Atua até os dias de hoje no Seridó, especialmente em Caicó, Jardim do Seridó e Serra Negra. Tem como característica básica a devoção mariana simbolizada pelo rosário e a encenação de uma corte de rei, rainhas, juízes, escrivãos e puladores (dançarinos) com suas lanças coreográficas (espontão) simulando uma dança guerreira (CAVIGNAC e MACÊDO, 2014).
Para elaborar a prática educativa tivemos que considerar o ambiente da cultura étnica e sua problemática tensionada pelo racismo expresso em agressões verbais, físicas e sociais. Considerando que a arte é um excelente momento de empoderamento dos sujeitos sociais, elaboramos uma metodologia que levou em conta rodas de conversa e debate sobre o tema, leitura de textos variados sobre a cultura negra e a Irmandade do Rosário de Caicó, produções artísticas (desenhos e pinturas), exibições de vídeos das Irmandades do Rosário de Caicó e Jardim do Seridó-RN.
2 A DANÇA DO ESPONTÃO NA SALA DE AULA
A vivência escolar, a Dança do Espontão na Sala de Aula, teve como proposta 16 aulas, contemplando momentos vivenciados pela turma desde a apresentação do projeto até sua culminância, ou seja, a finalização das atividades com amostra aberta para toda comunidade escolar. As aulas aconteceram de forma dinâmica e atrativa, onde as crianças interagiam umas com as outras através das atividades de confecções de materiais, verbalização do conhecimento e movimentos corporais, em um processo de apropriação da história e cultura regionais através da dança; para que isso fosse possível dentro de um espaço de ensino-aprendizagem elaboramos o seguinte plano:
1ª Aula:
Apresentação para a turma do projeto “A Dança do Espontão na Sala de Aula”, com palavras-chaves e debate sobre o tema;
Produção de desenhos individuais referentes à aula, e montagem de um livro com as ilustrações produzidas.
No primeiro momento foi apresentado o projeto de forma sucinta, em seguida, foi organizada uma roda de conversa através de palavras-chaves fixada na lousa, na qual cada
criança era convidada a escolher uma palavra, ler e falar o significado para os colegas de acordo com seu conhecimento prévio.
FIGURA 01 – Apresentação das Palavras-chave FONTE: Suele Azevedo, 2015.
Ao final da leitura de todas as palavras-chave pelas crianças a professora discutiu a importância de cada palavra durante o desenvolvimento do projeto. Assim cada criança conseguiu interagir e compreender a relevância da Irmandade do Rosário e da Dança do Espontão na cidade de Caicó-RN e região do Seridó, patrimônio cultural que valoriza a cultura negra e suas tradições ao longo dos séculos. Para além da folclorização do fator cultural Silva (2012, p.57), destaca que para Câmara Cascudo “a cultura popular não podia ser confundida com o folclore. O folclore despertava interesse porque era algo nacional, mas que estava deixando de existir, que se encontrava fora do tempo da „modernidade‟”. Dessa forma entendemos que Cascudo em suas pesquisas sobre o folclore procurava compreender uma “cultura” que não estava distante da atualidade. Segundo Cascudo, toda manifestação “folclórica é totalmente popular mas nem toda produção popular é folclórica. Afasta-se do folclore a contemporaneidade. Falta-lhe tempo.” (1978, p. 23). Assim entende o folclore como algo antigo que se perpetua no tempo representando a raiz da identidade nacional.
Diante da proposta apresentada para melhor fixar e avaliar os alunos foi distribuído para cada criança uma folha de papel tamanho ofício e lápis coloridos, onde poderiam representar os conhecimentos adquiridos através de desenhos. Cada desenho produzido
representou algum aspecto ligado aos Negros do Rosário e seus espontões. O conjunto de desenhos pode constituir assim um livro de imagens como forma de expressão dos conhecimentos adquiridos na aula em uma operação de apropriação do saber, no espírito da educação patrimonial.
FIGURA 02 – Desenhos produzidos FONTE: Suele Azevedo, 2015.
2ª aula:
Exibição de um documentário sobre a Irmandade dos Negros do Rosário de Jardim do Seridó-RN;
Apresentação dos instrumentos musicais e objetos que fazem parte da Dança do Espontão: tarol, caixa (tambores), pífano, lança (espontão) e fardamento.
A turma foi disposta na sala de aula em formação de meia lua para assistir ao documentário sobre os negros do Rosário de Jardim do Seridó-RN, produzido pelos discentes da turma 2002.1 do curso de graduação de história da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN – Caicó em 2004. Ficou patente o quanto todos ficaram impressionados, felizes em ver e ouvir pela primeira vez um batuque diferente daquele da Irmandade do Rosário de Caicó, com que estavam mais acostumados. Este era um aspecto que diferenciam as irmandades do Seridó, pois elas possuem características muito semelhantes. (MACÊDO, 2014). Perceberam também a dança e a vestimenta, despertando a curiosidade e a vontade de aprenderem a tocar e dançar. Radiantes de contentamento perguntavam e questionavam se eles também usariam alguma roupa, quem dançaria? Quem seriam rei e rainha? Se teriam a capacidade de aprender. Assim os questionamentos chegavam com o medo e a insegurança de
um novo desafio. Seria um trabalho árduo e difícil, mas não seria impossível, a hora era de grandes descobertas de um mundo cultural jamais imaginado tão palpável pelas crianças.
Outras crianças observaram os instrumentos e percebiam que os mesmo eram grandes e pesados para o seu tamanho e idade, o que os entristeciam por não ter a possibilidade de tocar. Para tocarem precisariam fazer um teste que observariam suas habilidades e desenvoltura.
Por outro lado, como ficou externado pela professora, todos ficaram com a certeza que participariam do desenvolvimento do projeto fosse na percussão, flauta ou dança. Como coordenadora da ação, senti bastante dificuldade em desenvolver esta aula, pela exiguidade do espaço, pois a escola encontrava-se em meio a uma reforma e provavelmente não teria como desenvolver todas as aulas dentro do prédio da escola. A aula foi ministrada em uma casa anexo à escola que serve como apoio ao projeto Mais Educação, mas apesar desse imprevisto a aula foi bastante proveitosa e com um bom desempenho das crianças.
3ª aula:
Estudo de texto sobre a história da Irmandade dos Negros do Rosário de Caicó-RN e a Dança do Espontão.
Ao iniciar a aula foi entregue às crianças uma lauda de um texto sobre a origem da Irmandade, para fazerem uma leitura silenciosa e logo em seguida cada um leu para os demais da sala, para assim incentivar a leitura e trabalhar a oralidade dos mesmos.
FIGURA 03 – Estudo do texto sobre a Irmandade FONTE: Suele Azevedo, 2015
Discutimos o texto sobre a origem do grupo de Negros do Rosário de Caicó que traz 16 de Junho de 1771 como marco inicial com negros que residiam na fazenda (sítio) Samanaú. Os alunos tiveram conhecimento do “Termo de Aceitação que fazem os Irmãos das Constituições deste Compromisso”, documento estatutário cujas clausuras deveriam ser seguidas e respeitadas por todos os seus membros (MACÊDO, 2014), depois tiveram conhecimento de que o grupo era inicialmente formado por 43 integrantes e que todos os anos no mês de outubro, durante três dias no final do mês nas novenas, saiam em procissão com sua corte de reinado do sítio para a cidade onde dançavam no patamar da igreja do Rosário. Marcados pela principal figura que é o rei e rainha da festa e os seus instrumentos artesanais bastante rústicos utilizados pelo grupo, com quatro caixas, dois pífanos, quarenta espontões e o fardamento.
Interessante que segundo Silva,
O reinado pode ser encontrado em várias manifestações culturais pelo país, como, por exemplo, nas festas de congadas. Inclusive as aproximações entre congadas e a festa do Rosário não se dá apenas na presença do reinado, pois ambas também possuem apresentações com danças “guerreiras”. (2012, p. 62)
A dança é de fato bastante importante dentro das manifestações culturais, a performance do grupo ocorre de acordo com a música e a dança. Essa referência encontra-se na Irmandade de Caicó com características coreográficas comuns em congadas brasileiras e em nosso caso na dança do espontão. Desse modo ao decorrer das conversas percebemos que o grupo de negros do Rosário de Caicó em 2015 fez 244 anos de sua existência de tradição e cultura em nossa cidade.
4ª aula:
Visita ao Santuário do Rosário e à sede da Irmandade dos Negros do Rosário em Caicó-RN.
A turma foi conduzida para uma aula de campo para conhecer, inicialmente, a sede da Irmandade dos Negros do Rosário de Caicó, localizada no bairro João XXIII, após inúmeras tentativas com o presidente da Irmandade, diante de vários telefonemas foi marcada finalmente a visita na qual o presidente da agremiação não esteve presente enviando um portador que abriu a casa que se encontrava totalmente suja, mostrando assim um abandono e falta de cuidado por algo que é tão importante na permanência dessa cultura viva. O senhor
que ali se encontrava foi bastante prestativo e, logo começou a limpar o salão pra podermos permanecer no local.
FIGURA 04 – Galeria dos Reinados FONTE: Suele Azevedo, 2015
As crianças conduzidas pela coordenadora da ação foram dirigidas para a galeria de homenageados da Irmandade. Eram fotografias que registraram diversos momentos do grupo, assim como as figuras ilustres que atuam na Irmandade até hoje. Havia também esculturas pintadas nas paredes: negros com os espontões. Havia uma imagem central de Nossa Senhora do Rosário em frente da porta de entrada que despertou especial curiosidade por parte deles por ter uma grade de ferro em sua frente, bem como o boneco negro com a vestimenta do rei, como também a pintura do “Tronco, ramos e raízes” chamou atenção.
FIGURA 05 – Interior da Sede da Irmandade FONTE: Suele Azevedo, 2015
Não participou da ação, o grupo mirim dos Negros do Rosário pois se encontrava, segundo o relato do presidente, em atividade extensionista no Instituto Federal do Rio Grande do Norte – IFRN. Os alunos sentiram sua ausência, pois desejavam vê-los dançando. Mas a visita enriqueceu o aprendizado de cada um, para a concretização de tudo que já foi discutido.
Da sede da Irmandade a turma seguiu para frente da Igreja do Rosário. No patamar da igreja eles ficaram entusiasmados, ainda mais por que a professora coordenadora prometeu levá-los novamente, no período da festa de 2016, para assistirem a apresentação da Irmandade presencialmente.
FIGURA 06 – Patamar da Igreja do Rosário FONTE: Suele Azevedo, 2015
Entrar na igreja foi uma incontida satisfação no rosto de cada um diante a beleza interna da igreja e da imagem de Nossa Senhora do Rosário. Tudo foi observado: cada canto, cada detalhe, e simplesmente a ingenuidade de perceber dentro da igreja um presépio para o nascimento de Jesus. O silêncio em respeito por estar no interior de uma igreja foi totalmente espantador, conclui que o deslumbre fazia parte realmente da aprendizagem.
5ª aula:
Primeiras noções dos ritmos para a performance da Dança do Espontão.
A aula de musicalização teve o auxílio de um jovem professor integrante da Irmandade dos Negros do Rosário de Jardim do Seridó-RN. Ele explanou sobre como tocar a percussão demonstrando aos alunos como se devia inicialmente pegar nas baquetas de
madeira e a postura adequada para tocar os instrumentos. Ensinou como era a forma de regular a tensão do tambor, e assim como melhorar a altura do som produzido.
FIGURAS 07 e 08 – Ensaio com os instrumentos de percussão FONTE: Suele Azevedo, 2015
Consideramos este um momento de aprendizagem muito importante para a atividade, pois concordamos com Mateiro e Ilari: “o ritmo [...] é um elemento vital da música, pois é por meio dele que se manifesta a exteriorização mais espontânea, tanto no adulto como na criança” (2011, p.170). Todas as crianças tiveram noções de como tocar tarol e caixa (tambores), momento este que serviu como forma de observar quem tinha habilidade e iniciativa para aprender a tocar um instrumento.
Assim foram escolhidas três crianças para aprenderem a tocar tarol, iniciando as primeiras noções dos ritmos. Afinal, para “buscar um entendimento de uma cultura e/ou grupo social é de grande relevância consideramos quais os tipos de música existentes, e como eles são vivenciados pelos membros dessa cultura e/ou desse grupo” (QUEIROS, 2004).
Mesmo sendo uma primeira aula de musicalização, ela foi bastante significativa considerando-se o interesse e o desempenho de cada um. Ficou decidido que o restante dos alunos participaria da coreografia, para isso necessitando ensaiar com os percussionistas “caixeiros”, e quem não queria participar diretamente assistia à aula, como forma de incentivar os colegas.
6ª aula:
O vídeo mostrou o grupo Mirim dançando na rua da cidade durante o período da festa de 2014, possibilitando aos alunos observar como é trabalhar em grupo no desenvolvimento de um trabalho, pois a criança isolada não consegue realizar a coreografia assim como os colegas que tocam. Perceberam que o rendimento de cada um dependia do esforço de todo o grupo, respeitando os limites de cada um em seu desenvolvimento. Ao terminar o vídeo, retornei a trechos deles, pausando cenas e discutindo aspectos específicos da coreografia.
Foi questionada pela turma a razão da ausência do rei e da rainha na apresentação do grupo mirim. A professora explicou com base em Macêdo (2014) que em “eventos ocorridos fora do âmbito religioso, tocadores, dançarinos e porta-bandeira se apresentem em nome das irmandades, uma vez que reis e juízes geralmente só se apresentam durante as festividades religiosas”.
O trabalho com o vídeo foi muito importante quanto à sensibilização do grupo para incentivá-lo às atividades de dança e a música.
7ª e 8ª aula:
Oficina de confecção de espontões (lanças) para Dança do Espontão. Materiais utilizados:
Vara de madeira (cabo de vassoura); Fitas de seda coloridas;
Tinta guache: branca; Fita adesiva: azul e amarela; Pincéis;
Bastão de cola quente; E.V.A.;
Moldes para lança; Tesoura;
Tinta spray dourado, Grampeador,
Lixa para madeira,
Cordão (barbante) de espessura média.
O primeiro passo foi pintar um pedaço de E.V.A. com tinta dourada spray. Em seguida foram cortados triângulos para colar, ao final da oficina, nos espontões. Esta parte foi conduzida pela professora por causa dos produtos químicos.
Cada aluno recebeu um cabo de vassoura e lixou-o para iniciar seu trabalho na oficina. Depois a madeira foi pintada com tinta guache em duas ou três demãos dependendo do tipo da madeira. Esperou cerca de cinco minutos para a tinta secar no intervalo de cada demão.
FIGURA 09 – Confecção do espontão FONTE: Suele Azevedo, 2015
Sobre o fundo branco, foram afixadas tiras em espiral de “durex” amarelo e azul. Para finalização, com um cordão de 12 cm de comprimento foram amarradas as fitas de seda no tamanho de 25 cm grampeadas em volta da ponta do espontão. Por fim, pregou-se com cola quente a ponta do espontão feito de EVA. Com o espontão pronto, chegou a hora de iniciar os ensaios da coreografia.
FIGURA 10 – Confecção do espontão (finalização) FONTE: Suele Azevedo, 2015
A Dança do Espontão é o momento alto das celebrações de coroação. Para Câmara Cascudo “No Rio Grande do Norte (Caicó e Jardim do Seridó), a coroação resiste travestida de dança do espontão [...], onde há Rei e Rainha que vão solenemente à missa dominical acompanhados de séquito, tambores e lanças, mas já coroados...”. (CASCUDO, 1962, p. 231
apud SILVA, 2012, p. 64). O espontão é uma,
Meia lança usada como distintivo pelos sargentos de infantaria até fins do séc. XVIII, spontone, esponton, com uso idêntico, desde a Idade Média, em França e península italiana. Denomina uma dança guerreira, que acompanhava a procissão e festa de Nossa Senhora do Rosário no Nordeste do Brasil. [...].(idem, ibidem)
Cascudo apresenta as origens desse adereço na lança dos sargentos de infantaria da Idade Média na França e Itália, instrumento similar utilizado nas performances da dança do espontão.
As crianças apresentaram total empenho durante toda a oficina que foi dividida nas duas aulas: pintura e decoração do espontão.
FIGURA 11 – Pintura da ponta do espontão FONTE: Suele Azevedo, 2015
Este momento foi marcado pela técnica, cuidado, habilidade, paciência e vontade de produzir o instrumento que seria utilizado nos ensaios e apresentação da dança.
9ª aula:
Mostrar/ouvir os timbres e ritmos musicais da Dança do Espontão através da exibição de vídeos com ritmos e coreografias das Irmandades do Rosário de Caicó e Jardim do Seridó-RN.
Através da exibição do vídeo ficou nítida a diferença do ritmo compassado e a dança entre as duas Irmandades. Visto que a de Jardim do Seridó dança saltitando (pulando) pelas ruas enquanto a de Caicó tem uma coreografia com passos fixos. Outro aspecto que diferencia as irmandades seridoenses, diz respeito às datas na qual às mesmas comemoram as festividades do Rosário em suas cidades e comunidades. Jardim do Seridó realiza a celebração no período de 30 de dezembro ao primeiro dia do ano seguinte. Em Caicó a Festa do Rosário acontece no mês de outubro, entre os dias 20 e 30.
Após a exibição do vídeo as crianças voluntariamente começaram a dançar, tendo como base o aprendizado adquirido durante as aulas.
FIGURA 12 – Ensaio espontâneo FONTE: Suele Azevedo, 2015
A dança se desencadeou um excelente momento de aprendizagem. Pois, para Mateiro e Ilari (2011), consolida as atividades com movimentos corporais, ao propiciar experiências corpóreas de espaço e tempo, individuais e grupais, em diversas dinâmicas favorecendo a percepção do próprio corpo no espaço e em relação ao grupo. Nesse sentido, à vontade e, ao mesmo tempo, a dificuldade de aprender algo fácil e complexo no desenvolvimento da dança.
Duas crianças, por timidez, não aceitaram dançar. Mas era notória a satisfação em ver os colegas dançando de forma “desorganizada”, mas já tentando executar alguns passos.
10ª aula:
Ensaio dos ritmos musicais e da coreografia da Dança do Espontão com os alunos. Antes de iniciar propriamente a dança, era necessária mostrar como se desenvolviam as cinco partes dela. Assim como demonstrar a formação dois pelotões (um em frente do outro), segurando o Espontão na mão e o sinal do coordenador para começar a dança, acompanhando o ritmo da batucada:
FIGURA 13 – Ensaio com os instrumentos de percussão FONTE: Suele Azevedo, 2015
Primeira parte chamada de “marcha livre”: todos dançam à vontade marcando o passo, trocando os espontões fazendo zigue-zague. É o momento também de saudação a Nossa senhora do Rosário.
Segunda parte chamada de “baião”: no “alavantu” a dupla troca os espontões; no “anarriê” a dupla devolve os espontões.
Terceira parte chamada de “xaxado de palma”: duas fileiras, chamadas de “pelotões”, se posicionam uma em frente a outra, distantes em torno de dois metros. Os espontões deverão estar dispostos na frente dos membros que trocam de lugar dançando e batendo palmas. Apanham depois os espontões com a mão direita e devolvem-nos dançando. Depois forma-se uma roda que se desfaz e saúdam os presentes.
Quarta parte chamada de “dança do túnel baião”: o primeiro pelotão levanta os espontões formando um arco. O segundo pelotão passa por ele dançando em zigue-zague e volta por baixo até que cada um chegue ao seu lugar. Troca-se o pelotão, que faz a mesma coisa que o pelotão anterior.
Quinta parte chamada de “marcha de rua”: o primeiro pelotão de um lado e o segundo do outro, acompanhando o ritmo das caixas por igual. Movimentando todo o corpo, trocando de lugares com os espontões para cima. Volta-se da mesma forma sendo um pelotão para a direita e outro para a esquerda. Quando se encontram ficam lado a lado com espontões para o alto. Os espontões serão trocados para a outra mão, abrindo e voltando por dentro para cumprimentar o reinado.
FIGURA 14 – Ensaio de coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
Após todo esse diálogo iniciamos os primeiros ensaios, ensaiar a dança e o ritmo mesmo com o auxílio do professor de percussão, não foi muito simples. Era muito difícil às crianças conseguirem sincronizar, unificar o ritmo e à dança. Sabe-se que a prática de movimentos, atividades rítmicas e o aprendizado da música ocorrem de forma simultânea: “O movimento ou gesto pode ser traduzido em seu ritmo ou som; de modo inverso, um som ou ritmo pode gerar um gesto, movimento ou dança”. (MATEIRO; ILARI, 2011, p. 141). Em
alguns momentos os percussionistas ou dançarinos tinham que parar e reiniciarem, pois não estavam no mesmo ritmo ou coreografia.
FIGURA 15 – Ensaio com os instrumentos de percussão FONTE: Suele Azevedo, 2015
Nenhuma criança se mostrou habilidosa ou quis tocar o instrumento de sopro, no caso, a flauta doce, como era um instrumento necessário à ação musical, convidei uma ex-aluna da escola residente no bairro e que frequenta o Projeto das Aldeias S.O.S, parceira da escola. Foi difícil para a instrumentista ensaiar o hino de Nossa Senhora do Rosário devido a inúmeras interrupções. Momento bastante desafiador e desestimulante por não ter alcançado na aula o objetivo proposto. Assim ficou decidido que seria mais prático o ensaio coreográfico ocorrer com o áudio gravado em CD/DVD, até que a turma tivesse condições de atuar com a música ao vivo.
11ª aula:
Ensaio dos ritmos musicais e a Dança do Espontão.
Organizamos todo o espaço com os instrumentos, mas o professor de percussão não compareceu, sua ausência deixou todas as crianças decepcionadas. Como estratégia exibi mais uma vez o vídeo do grupo Mirim (Negros do Rosário) e ensaiamos observando cada passo, e corrigi certas falhas através do vídeo. Assim a aula teve uma duração de duas horas com intervalos de dez minutos a vinte minutos para descansar.
FIGURA 16 – Ensaio de coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
Ao final da aula algumas crianças já estavam bastante entusiasmadas por terem uma boa noção dos passos, possibilitando a todos se dedicar e melhorar o seu desempenho. Apesar da angústia que senti, houve muita satisfação em vê-los se empenhando cada um com seu ritmo, felizes ajudando uns aos outros, socializando seus medos, anseios e conquistas.
12ª aula:
Ensaio dos ritmos musicais.
Com duas crianças no tarol e uma na caixa, o instrumentista do tarol demonstrou bastante facilidade em aprender e a outra sentindo um pouco de dificuldade devido ao impacto da batida forte, saiu do ritmo por várias vezes. Desistiu e preferiu dançar. Assim surge a dificuldade, tendo em vista o pouco tempo para os ensaios. Sabíamos que a percussão não era fácil para uma aprendizagem tão rápida, pois “Deve-se ter uma atenção especial na utilização das baquetas nos instrumentos, pois delas depende grande parte do resultado sonoro”. (MATEIRO; ILARI, 2011).
A turma se identificou com o professor de percussão, o que favoreceu o aprendizado em uma aula de aproximadamente uma hora com três intervalos de cinco minutos. Todos os instrumentos eram de origem industrial, pois o pouco tempo para o desenvolvimento da vivência não permitiu confeccioná-los artesanalmente.
O ensaio com a flauta doce deu-se após os demais instrumentos, durante 20 minutos, onde se apresentou a jovem com a flauta. Todos ficaram bastante impressionados com a habilidade da mesma em seu instrumento.
FIGURA 17 – Ensaio com flauta doce FONTE: Suele Azevedo, 2015
13ª aula:
Organização do grupo (turma) e suas funções para apresentação final; Ensaio dos ritmos e da dança do espontão.
A turma nesse momento ganhou a parceria de mais duas crianças, um do projeto das aldeias S.O.S e outro aluno 4º ano da escola que sentiram vontade de fazer parte desses momentos onde se valoriza a cultura afro-brasileira. Observou-se um bom desenvolvimento deles na percussão do tarol. Assim foi feito um ensaio com os dois alunos e foram escolhidos para tocar. Ao definirmos os alunos da percussão mediante o esforço e dedicação de cada aluno nos ensaios, organizamos a função de cada um.
As duas crianças negras seriam rei e rainha. Duas crianças menores, porta-bandeiras, que costumam vir na frente do grupo, carregando uma bandeira na qual se encontra a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Seguem o cortejo oito dançarinos “saltadores”. Músicos: um no pífano, três no tarol e o professor de música na caixa que produz o ritmo.
Após esse momento a turma teve uma nova estrutura, cada um com sua função. O desafio de ensaiar pela primeira vez em uma nova organização que a partir daquele momento a dança não seria somente uma brincadeira e sim uma realidade vivida por cada um.
Durante três horas de ensaio com intervalos, a vontade de tocar e dançar aumentava a cada instante, para eles só o que existia era aquele momento.
Todos em seus lugares percebiam que uma coreografia dependia do outro, da cumplicidade do grupo para que resultasse num produto final.
A persistência e a vontade de fazerem o melhor de si faziam com que todo esforço fosse realmente reconhecido pelo colega, e a apresentação começava a se encaixar e todos se desenvolviam ao mesmo tempo.
FIGURA18 – Ensaio de coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
14ª aula:
Prova da vestimenta para apresentação final; Ensaio dos ritmos e da dança do espontão.
As roupas foram confeccionadas para cada criança que vai dançar: calça azul, camisa branca com detalhe azul e gorro azul com detalhe branco. Após as provas das roupas, as crianças ensaiaram com a coordenação da professora através de “gestos” que identificavam os passos. O ensaio foi desenvolvido com os percussionistas “caixeiros” do lado externo da sala de aula e o restante dos alunos dentro da sala devido o calor e o acústico por ter forrado a sala na reforma do colégio dificultado a junção de todos.
FIGURA 19 – Ensaio de coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
O desempenho melhorou a cada passo, num mesmo ritmo com que acontecia cada passo na sequência que vinha sendo trabalhada. Aos poucos a coreografia fluía livremente, assim como o ritmo musical.
15ª aula:
Ensaio geral dos ritmos e a dança do espontão.
Na véspera da apresentação final, o ensaio foi realizado na frente da escola para fazer as últimas correções previstas.
FIGURA 20 – Saída para ensaio de coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 21 – Ensaio de coreografia e ritmo FONTE: Suele Azevedo, 2015
Proporcionava um espetáculo para os que passavam na rua, muitos paravam para assistir ao ensaio. Momento de tensão e “ansiedade” por parte dos envolvidos. Estava próximo o “grande dia”!
FIGURA 22 – Ensaio de coreografia e ritmo FONTE: Suele Azevedo, 2015
Tudo foi revisado e repassado, desde a entrada do rei e rainha como dos demais integrantes do grupo, todos respeitando a coreografia.
16ª aula:
Apresentação do projeto: A Dança do Espontão na Sala de Aula para toda comunidade escolar, pais e convidados externos;
Relato de avaliação da gestora/equipe escolar e alunos após a apresentação.
O dia foi de grandes acontecimentos e preparativos para a apresentação. A escola teve seu refeitório decorado com “fotos” do desenvolvimento do projeto, objetos relacionados ao sertão, bem como vestimentas, espontões, painel de figuras de negros. Enfim, materiais que retratassem nossa cultura.
FIGURAS 22 e 23 – Exposição com registros visuais do projeto FONTE: Suele Azevedo, 2015
As crianças foram chegando e começamos a arrumá-las. Após todas estarem prontas era o momento de apresentarem-se para os seus familiares e equipe escolar, após dias de trabalho esforço e dedicação. Mas algo extraordinário aconteceu, chuva em nossa cidade a culminância programada para às 16h30m, só poderia ser apresentada após a chuva, isso provocou uma grande tensão nos alunos.
FIGURA 24 – Convite FONTE: Suele Azevedo, 2015
Somente às 18h00m iniciou-se a abertura da culminância (apresentação) com a fala de abertura da gestora da escola, as considerações da professora e a recitação de uma poesia produzida por Rita Santos e Rosária Fernandes.
FIGURAS 25 e 26: Abertura da culminância e recitação de poesia FONTE: Suele Azevedo, 2015
Em sequência, a entrada da corte para mostrar a cultura afro brasileira, através da Dança do Espontão.
FIGURA 27 – Entrada da corte FONTE: Suele Azevedo, 2015
E assim iniciou-se a apresentação debaixo de relâmpagos e trovões, fixando os olhares de todos os presentes naquele momento, momento ímpar na história de cada um.
FIGURA 28 – Início da apresentação FONTE: Suele Azevedo, 2015
A dedicação ficou patente ao vê-los dançar mostrando não somente a cultura como também a capacidade de aprender, valorizar, respeitar os outros e trabalhar em equipe. Enfatizar e mostrar que crianças de comunidades carentes de escolas públicas são capazes de serem desafiadas e alcançarem os objetivos propostos. Afinal, segundo Hoffmann,
[...] não se deve denominar por avaliações testes, provas ou exercícios (instrumentos de avaliação). Muito menos se deve nomear por avaliação de boletins, fichas, relatórios, dossiês dos alunos (registros de avaliação). Métodos e instrumentos de avaliação estão fundamentados em valores morais, concepções de educação, de sociedade, de sujeito. São essas as concepções que regem o fazer avaliativo (2000, p. 13).
Assim, é necessário saber quais instrumentos avaliativos devem ser utilizados com clareza em diferentes situações, identificando o percurso percorrido pelo aluno mostrando os avanços no decorrer das atividades.
FIGURA 29 – Final da apresentação FONTE: Suele Azevedo, 2015
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A finalização da vivência escolar aconteceu de forma positiva, proporcionando a troca de saberes, respeito pelo outro e a valorização da cultura afro-brasileira, tendo como destaque a Dança do Espontão na Sala de Aula. Inspirados do que reza a Lei 10.639/2003 que determina a obrigatoriedade do ensino da História e da Cultura africana e afro-brasileira na educação básica e inclui no calendário escolar o dia 20 de novembro como o “Dia Nacional da Consciência Negra”, não devemos deixar criar oportunidades para trabalhar a cultura afro na escola. Afinal, segundo Oliveira: “Ela é sim, fruto de um conjunto de demandas sociais, apresentadas, sobretudo pelos movimentos negros existentes no Brasil desde o século XIX”. (2010, p. 136). Assim fica claro que a demanda e obrigatoriedade pela cultura afro descendente não surgiu de uma hora para outra, mas com movimentos reivindicatórios. Dentre os quais aqueles que consideravam a educação um suporte importantíssimo para esta luta.
Em alguns momentos vivenciados questionei-me várias vezes se suportaria as dificuldades vividas durante o percurso das aulas ministradas. Deparei com inúmeros desafios, para unir a teoria e a prática pedagógica em sala de aula. Diante da capacidade de enfrentar desafios e superá-los, tornando em cada aula algo novo, favorecendo a rotina na sala de aula, melhorando e contribuindo para o respeito das crianças negras, ficou um sentimento de gratificação e missão cumprida.
Ocorreram alguns momentos de desestímulo quando a escola entrou em reforma e o espaço da sala de aula não podia ser utilizado nas atividades, assim como a resistência de alguns alunos em tocar. Mas ao mesmo tempo as crianças se envolviam com a dança. Surpreendentemente a vontade de aprender das crianças animava o esforço de todos nas aulas mesmo embaixo da árvore em frente da escola.
A culminância foi um dia de grande desafio, pois não podíamos desafiar a chuva da tarde do dia 18/12/2012, o que tornou a apresentação mais brilhante. Mostrar para todos o que vinha sendo produzido ao longo do período de estudo, com a finalidade de mostrar o resultado final. O trabalho serviu como forma de contribuir para o respeito pelo outro independentemente da cor. Possibilitou também o estudo da cultura local, favorecendo o diálogo, trabalho em grupo e uma pesquisa riquíssima para o aprendizado do indivíduo. Pois concordamos com a posição de que “A escola é uma instituição social que deve se comprometer com as mudanças rumo a um mundo mais justo em que os homens possam
viver sem preconceito e discriminação de credo, gênero, entre outros.” (SILVA; PORTO, 2012, p. 42).
THE ESPONTÃO DANCE IN CLASSROOM
ABSTRACT
The african-Brazilian culture can be worked in the classroom through artistic expressions. In this case we start from school experience project, in which we elect the Brotherhood of Espontão Dance of Caico-RN Rosary Black, emphasizing the black cultural values in local history. In order to enable the inclusion of all black and white children, through dance and african-Brazilian rites, we value this experience the local culture, traditions and customs, highlighting the black role in Brazilian society. For this it was necessary pedagogical dynamics where classes were attractive, where children interact with each other. Then propose a methodology with conversational wheels and debate on the subject, use of ethnic musical instruments (snare drum, box and fife), dance workshops and making choreographic spears (espontões), guided visit to the Rosary Shrine and the house of the Brotherhood of the Rosary Black. Finally, project the culmination occurred with the presentation of the students in the school community of Frei Damião neighborhood. The bibliography used was based on historiographical and anthropological production about black Seridó brotherhoods (GOIS, 2014; SILVA, 2012; MACÊDO, 2014). With the school experience made, we hope to have offered ways for students to experience an educational and pedagogical activity where you learn the history and culture african descent in an action that took into account the art.
Keywords: Dance. Black Rosary. Culture. Espontão.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Plano nacional de implementação das diretrizes curriculares nacionais para
educação das relações éticos-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Brasília: MEC, SECADI, 2013.
CAVIGNAC, Julie; MACÊDO, Muirakytan K. de. Tronco, ramos e raízes: história e patrimônio cultural do Seridó negro. Brasília: ABA; Natal: Flor do Sal; EDUFRN, 2014.
GOIS, Diego Marinho de. Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Jardim do Seridó-RN: entre histórias e memórias. In: CAVIGNAC, Julie e MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. (org.). Tronco, ramos e raízes: história e patrimônio cultural do Seridó negro. Brasília: ABA; Natal: Flor do Sal, 2014.
HOFFMANN, Jussara. Avaliação Mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade. Porto Alegre: Mediação Editora, 2003.
MACÊDO, Muirakytan K. de. Majestades negras: Irmandades de Nossa Senhora do Rosário no Seridó. In: CAVIGNAC, Julie; MACÊDO, Muirakytan K. de. (Orgs.). Tronco, ramos e
raízes: História e Patrimônio Cultural do Seridó negro. Brasília: ABA; Natal, RN: Flor do
Sal; EDUFRN, 2014.
MATEIRO, Teresa; ILARI, Beatriz. Pedagogia em educação musical. Curitiba: Ibpex, 2011. OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de. Coleção Explorando o Ensino História. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010.
QUEIROZ, Luis Ricardo Silva. Educação musical e cultura: singularidades e pluralidade cultural no ensino e aprendizagem da música. Revista da ABEM, Porto Alegre, V. 10, 99-107, mar. 2004.
RAMOS, Francisco Régis Lopes. A danação do objeto; o museu no ensino de história. Chapecó: Argos, 2004.
SILVA, Bruno Goulart Machado. “Nego veio é um sofrer”: uma etnografia da subalternidade e do subalterno numa Irmandade do Rosário. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Natal, 2012.
SILVA, Marcos Antônio; PORTO, Amélia. Nas trilhas do ensino de história: teoria e prática. Belo Horizonte: Rona, 2012.
Documentários
DOC. Sobre os Negros do Rosário em Jardim do Seridó/RN. Produção: Diego Marinho de Góis, Rilawilson José de Azevedo, Fabiano Azevedo da Cunha, Anselmo Nascimento, Gilvanildo Fernandes e Jardel Cléber de Araújo. 2004. [Vídeo]. 13min48s. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=ITbmCTACmp4. Acesso em: 25/10/2015.
NEGROS DO ROSÁRIO. Festa do Rosário 2014 (Caicó/RN). Produção: Tv Kurtição. 2014. [Vídeo]. 7min34s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZodbgiMZBD0. Acesso em: 25/10/2015.
NEGROS DO ROSÁRIO. Produção: José Ricardo Silva dos Santos. 2012. [Vídeo]. 2min53s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ysnxhLKw0rw. Acesso em: 25/10/2015.
APÊNDICES
APÊNDICE A – ESTUDO DO TEXTO SOBRE A IRMANDADE DO ROSÁRIO DE CAICÓ
O grupo de Negros do Rosário de Caicó surgiu em 16 de junho de 1771, o seu criador foi um senhor de engenho no qual habitava na fazenda Samanaú, sítio em Caicó. Ele convocou seus escravos e fabricaram tambores, espontões, coroas e vestes para o reinado e fardamento para os dançarinos. Por muito tempo este senhor de engenho manteve o grupo, pois todos os componentes eram seus agregados, trabalhadores de sua propriedade.
Todos os anos no mês de outubro, o proprietário e coordenador do grupo convocava seus vizinhos, os senhores de engenho, seus escravos na sua propriedade e nos três dias finais do mês, saiam em procissão com sua corte de reinado do sítio até a cidade para as três novenas finais, os negros dançavam no patamar da igreja do Rosário.
Logo após a alvorada, os negros retornavam a sede que na época era improvisada na casa de amigos, para o café da manhã. Depois os negros saiam de casa visitando os amigos, divertindo o povo e ao mesmo tempo se divertindo até o domingo, dia em que a festa se encerrava festa consagrando Nossa Senhora do Rosário e o reinado do ano.
As festas eram periódicas e subjetivam a manutenção das tradições personificadas principalmente na figura do rei e rainha do ano. Hoje em dia a festa do Rosário é na última quinzena do mês de outubro. Hoje a abertura da festa é marcada pelo repicar dos sinos do santuário. No mesmo dia acontece a passeata com estandarte de Nossa Senhora do Rosário e a primeira novena.
Em um costume que cessou nos últimos anos, o grupo de lanceiros, bandeira e músicos participava da alvorada e se apresentava matinalmente pela cidade recolhendo doações. À noite escoltavam o reinado até a igreja e após a novena voltavam a dançar. Atualmente somente esta última atividade ocorre, sendo mais frequente a reunião a presença do grupo de folguedo na solenidade de encerramento quando acontece a coração dos novos reais e procissão com a imagem de Nossa senhora do Rosário.
Além do grupo de Caicó, hoje continuam atuantes os de Jardim do Seridó e Serra Negra do Norte. Esta irmandade guarda muitos aspectos comuns com as congêneres, mas diferente do que acontece em Caicó, a festa do Rosário jardinense tem duração de apenas três dias e ocorre em conjunto à festa de São Sebastião.
Os cargos de reis e juízes estão divididos em dois grupos: “perpétuos” e “do ano”. Os reis, rainhas, juízes e juízas perpétuos só são substituídos em caso de falecimento, renúncia ou outro motivo de grande significação para as irmandades. Uma parcela de membros da irmandade integra o grupo de batedores de caixas, bumbos, tocadores de pífanos, dançarinos “saltadores” e porta bandeira. Os dançarinos trazem geralmente nas mãos um bastão enfeitado por fitas coloridas, assemelha-se a lança (espontão). Daí o bailado que executam recebe o nome de “Dança do Espontão”, o porta-bandeira costuma vir à frente do grupo, carregando uma bandeira na qual se encontra a imagem de Nossa senhora do Rosário.
REFERÊNCIAS
BENJAMIN, Roberto Emerson Câmara. A África está em nós: história e cultura afro-brasileira. João Pessoa, PB: Editora Grafset, 2006.
COSTA, Maria do Céo. Tradição, cultura e a religiosidade dos Negros do Rosário de
Caicó. Natal, RN: 2008.
CAVIGNAC, Julie; MACÊDO, Muirakytan K. de. Tronco, ramos e raízes: história e patrimônio cultural do Seridó negro. Brasília: ABA; Natal: Flor do Sal; EDUFRN, 2014.
APÊNDICE C – Fotos do desenvolvimento do projeto
FIGURA 01 – Capa do livro de produções FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 02 – Pinturas no interior da casa da Irmandade do Rosário FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 03 – Integrantes da casa da Irmandade do Rosário FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 04 – Galeria dos Reinados FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 05 – Viagem para visitar a Casa do Rosário FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 06 – Viagem para visitar a casa do Rosário FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 07 – Patamar da Igreja do Rosário FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 08 – Interior da Igreja do Rosário FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 09 – Interior da Igreja do Rosário (presépio do Natal) FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 10 – Interior da Igreja do Rosário (presépio do Natal) FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 11 – Decoração do Espontão FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 12 – Finalização da decoração do Espontão FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 13 – Ensaio da percussão “batedores” FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 14 – Ensaio da coreografia e percussão FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 15 – Ensaio da coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 16 – Ensaio da coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 17 – Ensaio da coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 18 – Ensaio da coreografia FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 19 – Organização de saída da corte FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 20 – Rei e Rainha FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 21 – Dança do Espontão FONTE: Suele Azevedo, 2015
FIGURA 22 – Percussionistas “ batedores” FONTE: Suele Azevedo, 2015
APÊNDICE D – RELATO DE ALUNA
Imagem 20: Relato da aluna Rayssa dos Santos, do 2º ano FONTE: Suele Azevedo, 2015
ANEXOS
ANEXO A – COMENTÁRIO DA DIREÇÃO DA ESCOLA
O projeto A dança do Espontão em Sala de Aula, desenvolvido pela professora Suele Sanara, foi de bastante importância, pois oportunizou não só as crianças de sua turma em que leciona, como também, alunos que faz parte de outras turmas e programas parceiros na comunidade.
As crianças estudaram um pouco da história dos Negros do Rosário de Caicó e do Seridó e demonstram muito interesse pelo assunto abordado. Esse projeto desenvolvido na sala propôs trazer para o âmbito escolar e para sala de aula a problemática de uma criança negra que em alguns momentos estava sendo excluída por alguns de seus colegas da turma.
Neste sentido, a professora desenvolveu aulas dinâmicas e lúdicas envolvendo todos os alunos, atribuindo funções para cada uma deles. Foram oferecidas oficinas para confecção de lanças, debates acerca da temática, discussões e produções textuais e valorização cultural dos Negros do Rosário. Contribuindo para despertar nos alunos a consciência crítica referente ao tema.
Durante o referido projeto ocorreram de bastantes desafios, pois durante o seu desenvolvimento a escola encontrava-se em um período de reforma onde em alguns momentos ficava um pouco difícil da professora desenvolver sua prática, mas nem por isso as atividades deixaram de ocorrer.
Notou-se um grande engajamento das crianças participantes que não mediam esforços e se envolviam cada vez mais. Os procedimentos pedagógicos e metodológicos utilizados pela professora tiveram como base trabalhar a questão negra em sala de aula envolvendo atividades multidisciplinares, despertando nas crianças o respeito pelo outro independente de sua cor.
A apresentação do projeto ocorreu com uma boa participação de toda comunidade escolar, aonde pais, alunos e visitantes vieram prestigiar a culminância e se emocionaram ao verem os alunos concentrados e empenhados no encerramento do projeto.
Sabemos que a sala de aula é composta de desafios, mas é preciso na maioria das vezes unirmos teoria e prática para desenvolver um bom trabalho docente.