Relação entre envelhecimento ativo,
risco de queda e perfil funcional de
idosos
Relationship among active aging, fall
risk and elderly functional profile
Resumo
Objetivo: Avaliar e relacionar os determinantes comportamentais do envelhecimento ativo e o risco de queda com o perfil funcional dos idosos. Material e Método: Foram coletados dados sócio-demográficos, clínicos e aplicados os testes Timed Up and Go Test (TUGT), Alcance Funcional (AF), One-leg Balance (OLB) e a força de preensão palmar (FPP) em 33 idosos. Resultado e Discussão: A média etária foi de 71 anos para as mulheres e de 76,45 para os homens (p=0,012), com predomínio de mulheres na amostra (p= 0,007). Praticavam exercícios físicos 69,7% dos idosos (p=0,01) e 6,1% relataram ocorrência de um episódio de queda nos últimos seis meses. O tempo médio no TUGT foi de 9,05s com 81,8% (p<0,001) dos indivíduos dentro da normalidade. Tanto o TUGT como o OLB se relacionaram com o risco de queda. No AF a média de deslocamento foi de 27,77cm. Os idosos que não praticavam exercícios físicos apresentaram melhor desempenho quando comparados aos que praticavam exercício físico (p=0,010). Os homens apresentaram maior média de FPP quando comparados às mulheres para ambos os membros superiores (p<0,001). Houve correlação positiva entre a FPP direita e esquerda (p<0,001) e negativa entre a FPP esquerda e o valor do TUGT (p=0,015). Conclusão: Os idosos eram fisicamente ativos, apresentaram desempenho funcional dentro da normalidade e um risco elevado de queda. A prática de atividade física se correlacionou apenas com o AF. O TUGT e o OLB se relacionaram com risco de queda. A FPP esquerda foi diretamente proporcional à FPP direita, e se correlacionou com o TUGT.
Palavras-chave: Idoso. Equilíbrio postural. Exercício. Acidentes por quedas.
Caroline Venturini Ferreira1 Caroline Gomes Ferreira2 Raquel Vasques Escobar3
1 Mestranda em Epidemiologia pela
Faculdade de Saúde Pública/USP. Especialista em Gerontologia pela UNIFESP/EPM. Fisioterapeuta.
2 Mestranda em Ciências
Otorrinolaringológicas pela UNIFESP/EPM. Especialista em Gerontologia pela UNIFESP/EPM. Fisioterapeuta.
3 Especialista em Fisioterapia
Respiratória pela UNIFESP/EPM. Fisioterapeuta.
Autor para correspondência:
Caroline Venturini Ferreira
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Introdução
O envelhecimento populacional vem ocorrendo de forma acelerada no Brasil e no mundo. Até a década de 60, as características demográficas do país indicavam uma população bastante jovem, com altas taxas de natalidade e taxas de mortalidade que apenas começavam a diminuir. A partir de então, teve início o processo de transição demográfica com redução das taxas de natalidade e aumento da expectativa de vida. Atualmente, os indivíduos com 65 anos ou mais representam 7,4% da população total do país. Esse número apresentou um aumento com relação a 2000 quando representavam 5,8% da população1 e estimativas apontam que até 2025 o Brasil terá a sexta maior população de idosos do mundo.2
Esse processo dinâmico de transformações sociais é acompanhado por mudanças epidemiológicas, que associadas às melhores condições de vida levaram a mudanças nos padrões de saúde e doença da população, com diminuição da mortalidade por doenças infecciosas e aumento das doenças crônicas não transmissíveis.3
Sabe-se, porém, que mesmo o envelhecimento fisiológico é acompanhado por alterações graduais e progressivas que podem causar limitação funcional. Algumas dessas alterações orgânicas, tais como a perda de força muscular, resistência e agilidade, sobrepostas às doenças crônicas pré-existentes, geram incapacidades e comprometem a autonomia e a capacidade funcional do idoso.4
Diante desse quadro, a OMS, com o objetivo de aumentar a expectativa de uma vida saudável e a qualidade de vida para todas as pessoas que estão envelhecendo, estabeleceu, no final dos anos 90, as diretrizes do envelhecimento ativo Definido como o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, surge como Política de Saúde Pública para informar e estimular a discussão e elaboração de planos de ação.5,6
Uma diversidade de fatores “determinantes”, que envolvem os indivíduos, famílias e países, é necessária para promover um envelhecimento ativo, dentre eles: A cultura, o gênero, o ambiente físico, os serviços sociais e de saúde, os aspectos econômicos, pessoais e sociais. Além desses, destacam-se os fatores comportamentais por estarem diretamente relacionado com a atuação dos profissionais de saúde junto aos idosos.6
Dessa forma, cabe aos profissionais de saúde o controle e manejo dos determinantes comportamentais, estimulando a prática de atividades físicas, a alimentação saudável, a abstinência do fumo e do álcool, além do uso controlado de medicamentos, a fim de prevenir doenças, melhorar a qualidade de vida e manter a capacidade funcional do indivíduo.6
Sendo a capacidade funcional definida como a interação entre os aspectos físicos e mentais, e influenciada por fatores demográficos, socioeconômicos, culturais e psicossociais, sua avaliação no contexto do envelhecimento ativo pode trazer informações úteis sobre a população idosa que se enquadra nesse perfil.4,6
A avaliação da capacidade funcional pode ser feita por meio de questionários ou através de testes físicos e funcionais, que buscam identificar deficiências quanto à mobilidade, agilidade, equilíbrio e força muscular, rastreando os indivíduos vulneráveis e que se beneficiariam de intervenções preventivas ou e um plano de reabilitação.7 F e rr e ir a e t a l., 2 0 1 2
Objetivo
Avaliar e relacionar o perfil funcional dos idosos atendidos em ambulatório com os determinantes comportamentais do envelhecimento ativo e risco de queda de idosos ativos atendidos em nível de assistência ambulatorial de uma universidade pública.
Material e Método
População do estudoTrata-se de um estudo transversal, previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, no dia 24 de Julho de 2009, protocolo nº. 0996/09, realizado no Ambulatório de Promoção à Saúde, vinculado a Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM).
O estudo contou com uma amostra de 33 idosos com idade igual ou superior a 60 anos, do sexo feminino e masculino, em acompanhamento nesse ambulatório. São caracterizados por serem capazes de realizar exercícios físicos de moderada intensidade e apresentam no máximo três fatores de risco cardiovasculares controlados.
Foram incluídos na pesquisa idosos avaliados e acompanhados pelo ambulatório no período de Agosto a Dezembro de 2009.
Os idosos que apresentavam diagnóstico ortopédico ou neurológico que inviabilizava ou alterava a execução e compreensão dos testes, foram excluídos do estudo.
Procedimentos
O paciente foi submetido a uma avaliação geriátrica/gerontológica realizada por uma equipe multidisciplinar e os dados registrados em uma ficha de avaliação unificada. O protocolo de avaliação era composto por anamnese, exame físico, dados sócio-demográficos, clínicos e funcionais, como descrito abaixo:
Dados sociodemográficos: nome, idade, sexo.
Dados clínicos: Índice de Massa Corpórea (IMC), número de medicamentos em uso, prática de exercício físico, presença de queda nos últimos seis meses.
Dados funcionais: Timed Up and Go Test (TUGT), Alcance Funcional (AF), One Leg Balance (OLB) e Força de Preensão Palmar (FPP).
A prática de exercício foi definida como qualquer atividade planejada, estruturada e repetitiva tendo como objetivo final a melhoria ou manutenção da aptidão física8 e foi obtida através do questionamento direto ao paciente. Os testes funcionais que foram aplicados na avaliação geriátrica/gerontológica e utilizados na pesquisa estão descritos abaixo
Timed Up and Go Test (TUGT)
Esse é um teste que tem por objetivo examinar a mobilidade funcional, termo utilizado para refletir o equilíbrio e as manobras usadas no cotidiano como, sentar-se, levantar-se e girar em torno de si mesmo, e é validado para identificar idosos com risco de quedas.9
Shumway-Cook et al.9 verificaram que o TUGT apresentou 87% de sensibilidade e especificidade sendo considerado, portanto, um teste de triagem simples que apresenta medidas de probabilidade sensíveis e específicas para queda entre idosos.
Para executar o teste foi solicitado que o indivíduo levantasse de uma cadeira com apoio para braços e de aproximadamente 46 cm de altura, percorresse uma distância de três metros, virasse e retornasse rumo à cadeira, sentando-se novamente. A velocidade de marcha deve ser auto-selecionada e segura, no ritmo habitual do indivíduo. A cronometragem se inicia assim que o paciente levanta da cadeira e é interrompida quando o idoso senta-se novamente. Para a execução do teste, é importante que o paciente esteja usando seu calçado habitual e que faça uso de seu dispositivo de auxílio (caso utilize). Foi utilizado o menor tempo dentre as três vezes realizadas. O tempo gasto para completar a tarefa está fortemente correlacionado com o nível de mobilidade funcional, sendo realizado em até 10 segundos por idosos independentes sem alteração do equilíbrio, em 20 segundos ou menos em pacientes com independência em transferências básicas, e em mais de 30 segundos por pacientes dependentes em muitas AVDs.10
Alcance Funcional (AF)
Representa a máxima distância que um indivíduo é capaz de alcançar a frente, com o braço estendido, enquanto mantém uma base fixa de suporte em posição ortostática. É uma medida simples de equilíbrio, que combina a teoria atual de controle postural dinâmico com um sistema prático de avaliação. Demonstrou ter confiabilidade interobservador, validade de critério e de construto, além de ser uma avaliação clinicamente acessível.11,12 Para a execução do teste foi necessário uma fita métrica fixada na parede, paralelamente ao chão, posicionada na altura do acrômio do indivíduo. Para coletar a medida inicial o paciente foi instruído a permanecer em posição ortostática, relaxado, sem sapatos, com a região dorsal perpendicular à parede, mas sem tocá-la. Os pés deveriam estar paralelos, o ombro do membro dominante fletido em 90°, o cotovelo estendido e o punho cerrado. A medida inicial correspondia à posição do terceiro metacarpo em relação à fita métrica. Posteriormente, o paciente foi instruído a inclinar-se para frente, o máximo possível, sem perder o equilíbrio, nem dar um passo. Com isso, obteve-se a medida final, da forma como foi coletada a medida inicial. Se durante o teste o paciente tocasse a parede ou desse um passo, a coleta era desconsiderada e a manobra era repetida. O alcance funcional é definido como a diferença média entre a posição final e a posição inicial ao longo de três ensaios. Todos os indivíduos foram supervisionados por um examinador durante a tarefa.11,12
One-leg Balance (OLB)
É definido como a habilidade de permanecer em apoio unipodal, sem apoio, por cinco segundos. É um teste de fácil reprodutibilidade na prática clínica e faz parte da rotina de alguns serviços geriátricos por ser um bom preditor de queda e fragilidade quando associado a outros testes.13
Para a sua execução, solicitou-se ao indivíduo que escolhesse um dos membros inferiores e permanecesse em apoio unipodal sobre ele, sem auxílio, flexionando o joelho oposto e sustentando a posição o maior tempo possível. O examinador verificou se o paciente era capaz de permanecer
cinco segundos em apoio unipodal. O teste foi realizado em ambos os membros inferiores, não sendo permitido ensaios.13
Força de Preensão Palmar (FPP)
Consiste numa avaliação simples e objetiva que tem como princípio estimar a função do músculo esquelético. Trata-se de um teste realizado com um aparelho portátil (dinamômetro), sendo um procedimento rápido, de baixo custo e pouco invasivo.14
Para a execução do teste foi utilizado um dinamômetro manual hidráulico (Saehan®) e uma cadeira com encosto e sem apoio para o braço. A padronização da posição de coleta foi baseada nas referências da American Society of Hand Therapists. Assim, o paciente permaneceu sentado confortavelmente, com o braço aduzido e em rotação neutra de ombro, cotovelo flexionado a 90°, com antebraço e punho em rotação neutra. A empunhadura foi ajustada individualmente, de acordo com o tamanho da mão, de forma que a haste ajustável estivesse posicionada sobre as segundas falanges dos dedos indicador, médio e anular.14 No início do teste, a agulha foi devidamente posicionada no zero. Solicitou-se ao paciente que realizasse a máxima força de preensão sendo que durante a execução do teste, nenhum encorajamento verbal foi feito.15 Foram coletadas três medidas, em cada uma das mãos, de forma alternada, com um intervalo de descanso de 1 minuto entre elas. O valor considerado foi o maior dentre as três medidas.16
Análise estatística
Para o tratamento dos dados foi realizada análise descritiva simples, englobando medidas de tendência central e de dispersão para as variáveis quantitativas e frequências absolutas e relativas para as variáveis qualitativas.
Buscando identificar o grau de associação entre as variáveis quantitativas, utilizou-se o Coeficiente de Correlação de Spearman (r≥0,3). Para verificar o grau de associação entre as variáveis dependentes (quantitativas) e as variáveis qualitativas com até duas categorias utilizou-se o teste de Mann-Whitney.
O nível de significância para todos os testes foi fixado em 0,05.
Resultado
A amostra foi composta por 33 idosos sendo 22 do sexo feminino e 11 do sexo masculino. A média de idade entre os homens foi de 76,45 anos (desvio-padrão 5,43) e entre as mulheres de 71 anos (desvio-padrão 4,83) com diferença estatisticamente significante (p=0,012). Houve uma maior porcentagem de mulheres na amostra representando 66,7% (p=0,007). O número médio de medicamentos em uso foi de 3,21, com desvio-padrão de 2,33, variando de 0 a 10 medicamentos. Apenas um indivíduo não fazia uso de medicação. Houve diferença estatisticamente significante entre homens e mulheres (p=0,005). As mulheres faziam uso de em média 3,86 medicamentos com desvio-padrão de 2,84 enquanto que os homens utilizavam em média 1,91 medicamentos, com desvio-padrão de 1,76. No estudo, foi observado que 84,8% dos idosos avaliados, consumiam menos de cinco medicamentos e 15,2% consumiam mais de cinco (p<0,001).
A tabela 1 resume a análise descritiva das variáveis quantitativas.
Tabela 1 - Análise descritiva das variáveis quantitativas.
Legenda:
sco=Escolaridade; IMC=Índice de Massa Corpórea; FPP=Força de preensão palmar; D=direita; E=esquerda; AF=Alcance Funcional; TUGT=Timed up and go test; N=número; Comorb=comorbidades; Medic=medicamentos; CV=coeficiente de variação; Q1=1º quartil; Q3=3º quartil; Min=Mínimo; Max=Máximo; IC=intervalo de confiança.
Quanto à realização de exercício físico houve diferença estatisticamente significante (p=0,01) entre os idosos que praticavam e os não praticantes, sendo que 69,7% da amostra praticavam alguma atividade que podia ser classificada como exercício físico conforme a definição de Caspersen8. Ajustando essa variável conforme o sexo, não foi observada diferença estatisticamente significante.
Na avaliação funcional, considerando o TUGT, foi adotado como ponto de corte o valor de 10 segundos.10 Verificou-se que 81,8% dos indivíduos não apresentaram risco para quedas, valor estatisticamente significativo.
O risco de queda também foi verificado através do teste de AF e do OLB. No teste de AF não houve diferença estatisticamente significante entre os indivíduos com desempenho normal e alterado, porém, houve correlação estatisticamente significante do teste de AF com a prática de exercício físico, fato que não foi observado para os demais testes funcionais. Os idosos que não praticavam exercícios físicos apresentaram deslocamento anterior médio de 33,95cm, com desvio-padrão de 8,09, e os idosos que praticavam exercícios físicos deslocaram-se anteriormente em média 25,09 cm, com desvio-padrão de 7,43cm (p=0,010).
Para o teste OLB, não houve diferença estatisticamente significante quanto à normalidade considerando a amostra como um todo, ou ajustando por sexo. Porém, analisando os membros inferiores de forma independente, 66,7% dos
idosos apresentaram desempenho normal no membro inferior direito (p=0,007) e 63,6% no membro inferior esquerdo (p=0,027), como mostra a
Figura 1. Descri-tiva Média Media-na
Desvio-padrão CV Q1 Q3 Min Max N IC
Idade 72,82 73 5,60 8% 68 77 64 85 33 1,91 IMC 26,06 26,96 3,69 14% 23,87 28,67 19,16 32,15 33 1,26 FPP D 26,70 26 9,11 34% 20 31 12 48 33 3,11 FPP E 24,24 22 8,18 34% 18 28 12 42 33 2,79 AF 27,77 27 8,57 31% 23 33 5 44 33 2,93 TUGT 9,05 8 3,78 42% 7 10 4 25 33 1,29 N medic 3,21 3 2,33 72% 2 4 0 10 33 0,79
Figura 1 - Distribuição de normalidade do teste OLB direito (D) e esquerdo (E).
Os homens apresentaram maior média de força de preensão palmar quando comparados às mulheres. Considerando o membro superior direito, os homens apresentaram força média de 36,73 Kg, enquanto que as mulheres obtiveram valor médio de 21,68 Kg (p<0,001). No membro superior esquerdo o valor médio para os homens foi de 33,37Kg e de 19,73 Kg para as mulheres (p<0,001).
Foi observada correlação positiva (p<0,001) entre a FPP D com o membro superior esquerdo e da FPP E com o TUGT (p=0,015).
Com relação ao episódio de queda, 6,1% da amostra relatou ocorrência nos últimos seis meses. O TUGT e o OLB demonstraram estar relacionados com os episódios de queda como mostra as tabelas 2 e 3.
Tabela 2 - Comparação da distribuição de quedas conforme normalidade do OLB. Quedas Não Sim P-valor N % N % OLB D Alterado 9 81,8% 2 18,2% 0,003 Normal 22 100,0% 0 0,0% <0,001 OLB E Alterado 11 91,7% 1 8,3% <0,001 Normal 20 95,2% 1 4,8% <0,001 Legenda:
Tabela 3 - Comparação dos eventos de quedas com os testes de FPP, AF e TUGT.
Quedas Média Mediana
Desvio-padrão Q1 Q3 N IC p-valor FPP D Não 26,87 26,0 9,36 20,0 31,5 31 3,30 0,791 Sim 24,00 24,0 2,83 23,0 25,0 2 3,92 FPP E Não 24,52 22,0 8,36 18,0 30,0 31 2,94 0,447 Sim 20,00 20,0 2,83 19,0 21,0 2 3,92 AF Não 28,08 27,0 8,75 24,0 33,0 31 3,08 0,212 Sim 23,00 23,0 2,83 22,0 24,0 2 3,92 TUGT Não 8,82 8,0 3,77 7,0 10,0 31 1,33 0,049 Sim 12,50 12,5 2,12 11,8 13,3 2 2,94 Legenda:
FPP=Força de preensão palmar; D=direita; E=esquerda; AF=alcance funcional; TUGT=Timed Up and Go Test; Q1=1ºquartil; Q3=3ºquartil; N=número; IC=intervalo de confiança.
Discussão
Considerando os determinantes comportamentais do envelhecimento ativo que podem ser avaliados com esse estudo temos: o uso de medicamentos, a iatrogenia, a prática de exercício físico e o aspecto nutricional.
Com relação ao uso de medicamentos foi observado um consumo médio de 3,21 medicamentos por idoso, com desvio-padrão de 2,33, variando de zero a 10 medicamentos. Consumo semelhante foi observado por Costa et al.17, verificando uma média de 3,75 medicações por paciente, além da automedicação que foi muito observada.
Apesar de não existir um consenso sobre qual número expresse polifarmácia, ela tem sido definida, basicamente, de duas formas: como o uso concomitante de fármacos, medida por contagem simples dos medicamentos, ou como a administração de um maior número de medicamentos do que os clinicamente indicados, avaliada nas revisões clínicas, usando critérios específicos.18,19 Quantitativamente, ela tem sido classificada por alguns autores como uso concomitante de cinco ou mais medicamentos.20 Com base nesses dados, os resultados do presente estudo revelaram que a maior parte dos idosos não sofria de iatrogenia medicamentosa por polifarmácia. Foi observado que 84,8% dos idosos avaliados, consumiam menos de cinco medicamentos e 15,2% consumiam mais de cinco (p<0,001).
Relacionando o número de medicamentos com o sexo, houve diferença estatisticamente significante entre homens (1,91) e mulheres (3,86). Esses dados coincidem com os resultados do estudo de Loyola Filho et al.21, que avaliou a prevalência do consumo de medicamentos prescritos e não prescritos em 1606 idosos residentes na comunidade, verificando que as mulheres consumiam um maior número de medicamentos prescritos (64,6%) em relação aos homens (35,4%). Como a prescrição não foi confrontada com o uso efetivo nesse estudo, não foi possível estabelecer conclusão semelhante ao estudo citado.
A avaliação da prática de exercícios físicos evidenciou que 69,7% dos idosos avaliados eram ativos. Porém, esse número ainda é pequeno se consideramos a importância e os benefícios que o exercício físico pode proporcionar a essa população. Segundo a OMS, a participação em exercícios físicos regulares e moderados pode retardar declínios funcionais, diminuindo o aparecimento de doenças crônicas em idosos. Além disso, podem reduzir substancialmente a gravidade de deficiências associadas à cardiopatia e outras doenças crônicas, aumentam a força muscular, diminuem a gordura corporal, melhoram a saúde mental, reduzem o risco de quedas e frequentemente promovem contatos sociais, auxiliando as pessoas idosas a permanecerem independentes por um período de tempo mais longo.4
O sedentarismo e a ausência de uma alimentação saudável têm grande repercussão na funcionalidade dos idosos, sendo os maiores fatores de risco de doenças crônicas como diabetes, doença cardiovascular, pressão alta, obesidade, artrite e alguns tipos de câncer4. Nesse contexto, o índice de massa corpórea (IMC) é um bom indicador do estado nutricional pela facilidade de aplicação, comparações entre populações e pela boa correlação com morbimortalidade.22
Os resultados do estudo demonstraram que o IMC médio encontrado entre os idosos foi de 26,06 Kg/m2, podendo ser classificados como eutróficos segundo Lipschitz23. No estudo de Visscher et al.24, os autores acompanharam cerca de 8.000 homens, desde as idades de 40-59 anos por aproximadamente 25 anos. O estudo mostrou que um IMC menor de 18,5 kg/m2 foi claramente relacionado a um incremento da mortalidade por todas as causas. Índices de 25 a 30 kg/ m2 não foram associados à mortalidade, no entanto, valores acima de 30 kg/m2 foram associados à maior mortalidade entre os não-fumantes, mas não entre os fumantes. Embora os dados sejam referentes ao sexo masculino, indicam que tanto o baixo peso para a estatura como o excesso de peso para a estatura, no caso do idoso, são fatores importantes relacionados com o aumento da mortalidade.
As implicações nutricionais na funcionalidade são diretamente relacionadas com as reservas corporais, entendidas como quantidade, qualidade e distribuição das massas gordurosa e muscular. Dessa forma, os extremos do estado nutricional, desnutrição e obesidade, desencadeiam diversas alterações e consequências no equilíbrio corporal, sendo uma destas a capacidade de realizar as atividades do dia-a-dia. As alterações na distribuição de gordura corporal, o baixo peso e a obesidade têm sido positivamente associados à redução da capacidade funcional. Além disso, o estado nutricional é responsável pela perda de função do músculo esquelético e consequentemente pela redução da força dos membros inferiores e superiores, afetando diretamente a medida da FPP. 22
A medida de FPP foi apontada como instrumento para triagem precoce de populações, a fim de identificar aqueles com alto risco de incapacidades físicas relacionadas com a baixa força muscular.25 Além da sua aplicabilidade para verificar a força específica dos membros superiores, a FPP tem se correlacionado com a força de outros grupos musculares sendo, portanto, um bom indicador de força muscular global.26
No presente estudo, ao relacionar a FPP com o sexo, foi observado que os homens apresentaram maior média de força quando comparados às mulheres, tanto no membro superior direito como no esquerdo. Esse resultado era esperado e está de acordo com outros estudos, como o de Alexandre et al.27, no qual uma população de 1894 idosos do município de
São Paulo teve sua força de preensão manual mensurada e ajustada conforme gênero, idade, IMC e grau de dependência em atividades básicas de vida diária.
Da mesma forma, Rantanen et al.25 conduziram um estudo de coorte com 3218 indivíduos inicialmente saudáveis a fim de verificar se a força muscular é preditora de limitações funcionais e incapacidades tardias. Eles confirmaram essa hipótese ao concluírem que a FPP é preditora de limitações funcionais e incapacidade 25 anos mais tarde. Além disso, eles observaram que os indivíduos com maior FPP durante a meia idade permaneceram mais fortes e apresentaram menor risco de desenvolverem incapacidades em idade avançada.
Outra correlação observada no estudo foi a FPP E com o TUGT, de forma que, quanto maior a FPP E, menor o valor em segundos esperado para o TUGT. Resultados semelhantes foram observados por Geraldes et al.14, que realizaram um estudo com 19 idosos institucionalizados, com idade entre 62 e 99 anos, a fim de verificar a associação entre FPP e o desempenho de tarefas motoras dependentes de membros superiores e inferiores. Eles observaram que o TUGT e o teste de caminhada, mesmo não exigindo esforços dos membros superiores, foram os testes que mais se associaram individualmente com a FPP.
Além de afetar o desempenho funcional dos membros superiores, o declínio da força muscular pode comprometer também o controle postural. A alteração de equilíbrio pode ser observada tanto em situações de manutenção da posição em pé, com pés paralelos, apoio unipodal e na posição tandem ou semitandem, quanto em situações nas quais a geração de torque é importante para as respostas dinâmicas, como em movimentos auto-iniciados e em perturbações externas.22 Além disso, o uso concomitante de medicamentos predispõe o idoso aos riscos de seus efeitos aditivos.28 Sabe-se que há uma relação exponencial entre número de medicamentos utilizados e reações adversas, o que pode levar, de forma direta ou indireta, a uma queda.29,30 Dentre os efeitos adversos comuns de alguns medicamentos que podem potencialmente induzir a queda temos: arritmias, sedação excessiva, hipotensão postural, diminuição do tempo de reação, dificuldades no equilíbrio e no caminhar.30
Os resultados evidenciaram que 6,1% dos idosos apresentaram um episódio de queda nos últimos seis meses. Esse valor pode ser considerado alto, visto que a amostra foi retirada de um ambulatório de promoção à saúde, atendendo a indivíduos caracterizados por serem capazes de realizar exercícios físicos de moderada intensidade e apresentarem no máximo três fatores de risco cardiovasculares controlados. A análise medicamentosa desses indivíduos não evidenciou a presença de polifarmácia ou de medicamentos que poderiam potencialmente induzir a queda por seus efeitos adversos sugerindo que o evento de queda tenha ocorrido por outras causas. Sabe-se que além do efeito medicamentoso e do declínio da força muscular, outros fatores aumentam o risco de ocorrência de queda, tais como prejuízos cognitivos, déficits visuais, alterações neuromusculares, no equilíbrio e na marcha.22 Analisando os resultados dos testes funcionais aplicados neste estudo podemos compreender como a mobilidade e o equilíbrio se relacionam com o risco de queda.
Avaliando a mobilidade funcional através do TUGT, os idosos apresentaram desempenho médio de 9,05 segundos, sendo que 81,8% dos indivíduos realizaram o teste dentro de 10 segundos, não apresentando risco para
quedas, segundo o valor de referência utilizado para idosos saudáveis. 10 Esse valor coincide com o encontrado na metanálise de Bohannon31, resumindo dados compilados de 4395 sujeitos provenientes de 21 estudos, revelando que o tempo médio para o TUGT foi de 9,4 segundos. Segundo Shumway-Cook et al.9, idosos que são capazes de completar o teste em menos de 20 segundos têm mostrado maior independência em tarefas de transferência envolvidas no cotidiano, têm uma maior pontuação na Escala de Equilíbrio de Berg e uma velocidade de marcha suficiente para a mobilidade na comunidade, perfil que coincide com os idosos atendidos no ambulatório. Através da comparação dos testes funcionais com o evento de queda verificou-se que os indivíduos que haviam caído apresentavam um maior valor médio para o TUGT (12,5 segundos) quando comparados aos não caidores (8,82 segundos), dado que é comprovado pela literatura. Thrane et al.32 evidenciaram que indivíduos definidos como não caidores apresentavam TUGT médio de 11,1 segundos enquanto os caidores apresentaram tempo médio de 13 segundos.
A fim de verificar o desempenho dos idosos quanto ao equilíbrio, foram realizados dois testes funcionais: o AF e o OLB.
Com relação ao teste de AF, os idosos avaliados apresentaram deslocamento anterior médio de 27,77 cm, com desvio-padrão de 8,57, valor semelhante ao encontrado por Alexandre et al.27 em um estudo com idosos ativos participantes de duas universidades abertas à terceira idade. A média de deslocamento dos idosos no estudo citado foi de 27,27 cm.
Baseando-se nos resultados desse teste, os idosos não apresentaram risco para quedas conforme valores de referência de Duncan et al.11, que verificou que os indivíduos com deslocamento entre 25,4cm e 15,2cm, tiveram duas vezes mais chances de terem sofrido duas ou mais quedas em seis meses, quando comparados àqueles que alcançaram 25,4 cm ou mais.
Foi observada associação estatisticamente significante entre o teste de AF com a prática de exercício físico, fato que não foi observado para os demais testes funcionais. Em geral, os idosos que não praticavam exercícios físicos apresentaram deslocamento anterior médio de 33,95 cm, com desvio-padrão de 8,09, e os idosos que praticavam exercícios físicos deslocaram-se anteriormente em média 25,09 cm, com desvio-padrão de 7,43cm. Ao analisar o mesmo dado ajustado por sexo, não foi observada diferença estatisticamente significante. Esses resultados podem ser justificados pelo tipo de exercício físico desempenhado pelos idosos. A maioria dos idosos que praticavam exercício físico realizavam atividades aeróbicas e de fortalecimento muscular, porém nenhum deles relatou a prática de exercício de flexibilidade ou equilíbrio como recomendado pelo American College of Sports Medicine e a American Heart Association.33 para a população idosa. Sabe-se que o fortalecimento muscular necessita ser acompanhado por exercícios de flexibilidade, caso contrário podem ocorrer encurtamentos musculares, advindos inclusive, do próprio envelhecimento fisiológico. Além disso, o treino de equilíbrio pode melhorar o deslocamento ântero-posterior e, consequentemente, o desempenho no teste.
Considerando os resultados do OLB, 66,7% dos idosos apresentaram desempenho normal no membro inferior direito e 63,6% no membro inferior esquerdo. Esses dados demonstram que a maioria dos idosos não tinha comprometimento no equilíbrio estático e não apresentavam risco para quedas conforme observado por Vellas et al.13, que verificaram que os
indivíduos que não foram capazes de completar o teste eram mais velhos e apresentavam mais anormalidades de marcha.
Por outro lado, a associação do OLB com o risco de queda pôde ser comprovada por esse estudo, mas o teste mostrou maior eficácia entre os indivíduos que apresentaram resultados dentro da normalidade. Podemos afirmar que os idosos classificados como sem alteração no teste tiveram menor risco de queda. Porém, as alterações diagnosticadas pelo teste não puderam, por si só, predizerem um evento de queda, já que 81,8% dos indivíduos que tiveram desempenho alterado no OLB D (p=0,003) e 91,7% no OLB E (p<0,001) não relataram episódio de queda nos últimos 6 meses. Devemos considerar que apesar do teste não ter se relacionado diretamente com um evento de queda, o desequilíbrio, que é um preditor de queda, ainda está presente e deve ser avaliado, associando os resultados obtidos aos de outros testes funcionais.13
Conclusão
De forma geral, grande parte dos idosos praticava exercícios físicos, sendo que não foi observada diferença entre os sexos. Os testes funcionais demonstraram valores médios dentro dos pré-estabelecidos na literatura, podendo ser classificados como normais. Foi observado que a FPP esquerda foi diretamente proporcional à FPP direita, além de ter se correlacionado com o TUGT. A prática de atividade física se correlacionou apenas com o desempenho do AF, de forma que os idosos que praticavam exercício tiveram pior desempenho quando comparados com os idosos que não praticavam exercício físico. O OLB apresentou relação com o risco de queda, sendo que os idosos classificados como sem alteração no teste tiveram menor risco de queda.
Abstract
Objective: To evaluate and correlate the behavioral determinants of active aging and the risk of falling with the functional profile of the elderly. Material and Method: Sociodemographic and clinical data were collected and Timed Up and Go (TUGT), Functional Reach (FR), One-Leg Balance (OLB) and handgrip strength (GST) tests were performed in 33 seniors. Result and Discussion: The mean age was 71 years for women and 76.45 for men (p=0.012), with a predominance of women in the sample (p=0.007). 69.7% of seniors engaged in physical exercise (p=0.01) and 6.1% reported the occurrence of a falling incident in the past six months. The average TUGT time was 9.05 s, with 81.8% (p<0.001) of individuals within the normal range. Both TUGT and OLB correlated with the risk of falling. The average reach in FR was 27.77 cm. Seniors who did not exercise showed better performance when compared to those that practiced physical exercise (p=0.010). Men had higher mean GST than women for both upper limbs (p<0.001). There was a positive correlation between the right and left GST (p<0.001) and negative correlation between left GST and the TUGT value (p=0.015). Conclusion: Seniors were physically active, showed a functional performance within the normal range and a high risk of falling. Physical activity correlated only with FR. TUGT and OLB correlated with
the risk of falling. Left GST was directly proportional to right GST, and correlated with TUGT.
Keywords: Elderly. Postural balance. Exercise. Accidental falls.
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