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Para um enfoque territorial do turismo no Douro

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Academic year: 2021

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Para um enfoque

territorial

do turismo no Douro

Colección PASOS edita, nº 21 Revista de Turismo y Patrimonio Cultural

Edgar Bernardo

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www.pasosonline.org

Para um enfoque territorial do

turismo no Douro

Revista de Turismoy Patrimonio Cultural

Pasos Edita, 21

Coordenação | Edgar Bernardo

Autores | Edgar Bernardo

Filipa Jorge

Gonçalo Mota

Lorenzo Bordonaro

Miguel Belo

Nieves Losada

Ricardo Bento

Vitor Rodrigues

Xerardo Pereiro

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Diseño de Portada: Lorenzo Bordonario Fotografía de cubierta: Gonçalo Mota ISBN (e-book): 978‐84‐88429‐37‐7

RTPC / 2018/ 63 p. incluida bibliografía.

1. Douro I 2. Território II 3. Turismo III 4. Património IV. I Edgar Bernardo (Coord.) II “Para um enfoque territorial do turismo no Douro”. III PASOS, Revista de Turismo y Patrimonio Cul-tural. IV Colección PASOS Edita

Sistema de Clasificación Decimal Dewey: 300 - 330

Edita:

PASOS, Revista de Turismo y Patrimonio Cultural P.O. Box 33.38360 · El Sauzal

Tenerife (España)

Director de la colección: Agustín Santana Talavera www.pasosonline.org - Colección PASOS Edita, 20.

Contactos:

Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento (CETRAD) Departamento de Economia, Sociologia e Gestão (DESG)

Escola de Ciências Humanas e Sociais (ECHS)

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)

Edifício do Pólo II da ECHS, Quinta de Prados, 5000-103- Folhadela -VILA REAL (PORTUGAL); telefone: 351-259350300

Mail do CETRAD: [email protected] --- Web do CETRAD: www.cetrad.utad.pt Mail do projeto: [email protected] --- Web do projeto: www.dourotur.utad.pt

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ro, n.º da operação NORTE-01-0145-FEDER-000014, cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do NORTE 2020 (Pro-grama Operacional Regional do Norte 2014/2020). Financiamento: 679.458,26€.

Agradecimentos

Daniela Ôlo e Helena Gonçalves (Gabinete de Apoio a Projetos da UTAD), Al-berto Tapada (AETUR), José Portela (UTAD) e AlAl-berto Baptista (UTAD). Este trabalho enquadra-se nas linhas de investigação do CETRAD, um centro que é financiado por: Fundos Europeus Estruturais e de Investimento, na sua componente FEDER, através do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (COMPETE 2020) [Projeto nº 006971 (UID/SOC/04011); Referência do Financiamento: POCI-01-0145-FEDER-006971]; e por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do projeto UID/SOC/04011/2013

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ÍNDICE

Para um enfoque territorial do turismo no Douro

Nota prévia 1. INTRODUÇÃO

2. TERRITÓRIO(S) DURIENSE(S) E O ALTO DOURO VINHATEIRO

As diferentes interpretações territoriais do Douro 3. O DOURO ENQUANTO DESTINO TURÍSTICO:

OFERTA E PROCURA Oferta Turística do Douro 4. ALÉM DO ADV

Modelos de planeamento Turístico para o Douro 5. CONCLUSÃO: ‘O MAPA NÃO É O TERRITÓRIO’ Referências Bibliográficas Índice de figuras Autores

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A 14 de dezembro de 2016 realizámos no CETRAD um seminário de de-bate sobre o enfoque territorial do turismo no Douro que foi coordenado por Xerardo Pereiro e que integrou apresentações dos bolseiros do projeto DOU-ROTUR. Estas foram debatidas com os participantes, de entre os quais desta-camos os investigadores Ricardo Bento, Carlos Fonseca, Olinda Santana, Vero-nika Joukes, Hermínia Gonçalves, Octávio Sacramento, Filipa Torres e outros. O seminário foi muito proveitoso sendo este texto um dos seus resultados, com os seguintes objetivos:

a) identificar os problemas de definição e delimitação territorial da categoria “Douro” (região do Norte de Portugal) e os seus usos tu-rísticos;

b) explicitar a diversidade das unidades de paisagem cultural; c) explorar o enfoque territorial do turismo;

d) analisar os territórios físicos (materiais) e simbólicos (representa-cionais) do Douro;

e) enquadrar o território – nicho do projeto DOUROTUR para um melhor retrato e compreensão do contexto em estudo.

f) dar a conhecer os traços essenciais da geografia turística do Douro bem como os seus contrastes e diversidade;

g) conhecer as particularidades regionais do turismo no Douro e na região Norte de Portugal;

h) aprofundar a relação entre turismo e outras atividades socioeconó-micas da região do Douro, para mais tarde analisar os seus efeitos e potenciais estratégias de futuro;

i) adotar um enfoque geográfico-territorial do turismo enquanto epis-temologia turística;

Para além destes, outro objetivo foi a partilha de conhecimento com os agentes sociais e turísticos da região do Douro (NUT III) e outros interessados em conhecer os enfoques territoriais de um destino de interior muito marcado pelo turismo fluvial (rio), de natureza (paisagem vinhateira), alimentar (pro-cessos alimentares e gastronomia) e histórico-cultural (arqueologia, museus, castelos, românico, etc.). Ao longo do texto destacaremos a necessidade de um enfoque territorial do turismo, quando analisamos destinos turísticos, de modo a conhecer melhor o seu desenvolvimento e também de forma aplicada para melhor gerir a sua planificação. Muito agradeço aos bolseiros do projeto DOUROTUR, aos colegas e à direção do CETRAD e à Reitoria da UTAD todo o apoio dado na construção deste projeto e deste texto de enquadramento te-rritorial.

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Edgar Bernardo (Coord.) (2018) Para um enfoque territorial do turismo no Douro. La Laguna (Tenerife): PASOS, RTPC. www.pasososnline.org. Colección PASOS Edita nº 21.

O Douro enquanto território(s) encontra-se delimitado no espaço, e se o ‘Espaço’ representa uma totalidade que é desenvolvida através do tempo pelas relações e (re)construções sociais, o que conduz à História. Por sua vez, o Te-rritório é construído a partir do Espaço, sendo posterior a este: “A formação de territórios é sempre um processo de fragmentação do espaço.” (Fernandes, 2013: 194). Para Bonnemaison (2002) o território depende e até antecede o surgimento do seu grupo cultural. A territorialidade é antes de tudo a relação culturalmente vivida entre um grupo humano e uma rede de lugares hierar-quizados e interdependentes que constroem e dão forma a um território.

É comum considerar-se a dimensão económica e social na aceção de território, usualmente como um espaço de governança. Todavia, esta pers-petiva unilateralmente política pode implicar alguns problemas graves. Por exemplo, se um projeto que pretende desenvolver um determinado território ignorar o facto que este pode incluir em sim mesmo vários territórios dis-tintos, ou caso estes sejam sub ou sobrevalorizados, o sucesso do projeto de desenvolvimento poderá estar em causa (‘multiescalaridade’ do território). Es-tas simplifi cações com propósitos políticos, ou económicos (sector privado), que instrumentalizam o território, demonstram a importância das relações de poder na sua defi nição (Fernandes, 2013). O território, enquanto espaço de confl ito, tem como pilar basilar a soberania, ou seja, a autonomia que as co-munidades do dito território têm para tomar decisões que conduzam ao seu desenvolvimento.

Há que reconhecer que os territórios representam individualmente uma totalidade multidimensional (política, social, ambiental, cultural, etc.), embo-ra diferenciada pelas relações sociais e escalas geográfi cas. Os territórios ma-teriais são formados no espaço físico e os imama-teriais no espaço social indis-sociavelmente, pois resultam da relação de poder alimentada pelo território imaterial como conhecimento, teoria e ou ideologia (Fernandes, 2013). Igual-mente, os limites de uma região têm uma natureza dinâmica, social, política

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e cultural. Murdoch (1998) afi rma que a distância é moldada pelas relações e, assim, as regiões devem ser analisadas considerando as redes de relações e as implicações destas nas mesmas. Cada território é composto por recursos, ato-res e meio-ambiente que permitem desenvolver certas atividades, e é na análise da relação destas características em rede que se consegue determinar o valor de um dado território. Håkansson et al., (2003), afi rmam mesmo que o valor de um território é determinado pela forma como os recursos de uma rede são combinados e aplicados com outros recursos.

Nesta visão de território como espaço de organizações, cada empresa ou projeto é considerado como uma combinação particular de recursos, e assim, um território pode ser caracterizado pela forma como as suas organizações in-teragem (Brito e Correia, 2006). Isto é, o território é mais do que uma delimi-tação político-geográfi ca, ‘é um conjunto de agentes territoriais, de elementos económicos, socioculturais, políticos e institucionais, e padrões regulatórios que partilham regras e normas’ (Cova et al., 1996: 654).

Esta visão coincide com as principais posturas da geografi a face ao territó-rio, ora abordado politicamente, ora simbolicamente, e eventualmente - já que o território é produto de uma relação desigual de forças (políticas e simbólicas) - articulando ambas as perspetivas (Haesbaert, 2002). Nessa medida a região do Douro, enquanto destino turístico, pode ser entendida como um território composto por diversos subterritórios hierarquizados de acordo com a nature-za dos serviços que prestam.

Na verdade, existem múltiplas formas de entender o território e nenhuma defi nição de uma só disciplina ou perspetiva parcializada poderá agregar em si a diversidade, complexidade e amplitude deste conceito. Como tal, a pre-sente exposição serve o propósito de expor algumas propostas de delimitação do território Douro, das perspetivas históricas às administrativas, passando pelas geográfi cas, antropológicas e turísticas. Este texto pretende apresentar o problema da defi nição e delimitação territorial, especifi camente do território Douro, e os seus usos turísticos. Este problema é explanado contextualizando o Douro, enquanto conceito, destino turístico e delimitação territorial politica-mente defi nida. Uma delimitação que, ao contrário do presente trabalho, olvi-da a diversiolvi-dade olvi-das suas uniolvi-dades de paisagem cultural e os seus múltiplos te-rritórios físicos e simbólicos. Ao explorar o enfoque territorial do turismo, este texto introduz o projeto DOUROTUR – Turismo e Inovação Tecnológica no Douro, e como este pretende delimitar territorialmente o seu objeto, o Douro.

Posto isto, o presente documento compreenderá diversos momentos ou pontos-chave: o primeiro contextualiza geografi camente o Douro consideran-do a sua história e património vitivinícola desde o século XVIII até à atualida-de, bem como caracteriza-o, social e demografi camente e apresenta as

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diver-sas delimitações territoriais de Douro que poderíamos considerar; o segundo, pretende defi nir e explicar o que se entende por oferta turística e a sua ligação ao território enquanto objeto de análise; o terceiro foca-se na problemática do Douro enquanto destino turístico centrado exclusivamente no Alto Douro Vinhateiro e apresenta outros produtos e destinos potenciais para o território que continuam subvalorizados ou ignorados; abordam-se ainda as implicações no território e expõe-se os diferentes modelos de desenvolvimento passíveis de serem aplicados no Douro. Por fi m, a conclusão, refl etindo sobre qual a defi nição territorial do Douro que será operacionalizada para o projeto DOU-ROTUR.

2. TERRITÓRIO(S) DURIENSE(S) E O ALTO DOURO

VIN-HATEIRO

“Última nesga mediterrânea banhada pelo Atlântico, engastado numa pe-nínsula que é um continente em miniatura e aberto para o mundo por uma larga fachada oceânica, o território português cumpriu as alternâncias do seu destino de fi nisterra…” (Ribeiro, 1970: 312)

Portugal é um país que, apesar de relativamente pequeno (ex. 1/6 do te-rritório da França), apresenta uma diversidade física, territorial e paisagísti-ca resultante da sua posição geográfi paisagísti-ca e natureza geomorfológipaisagísti-ca (Carvalho Arroteia, 1994). Com mais de 830 km de costa e 1215 km de fronteira terrestre com o Estado espanhol, muitas são as continuidades e diferenças ibéricas, o que sem dúvida, dota de traços particulares os territórios regionais.

Orlando Ribeiro já havia destacado esta aparente divisão entre o norte e o sul de Portugal, às quais classifi ca de regiões “não só distintas como opostas” (1945: 60). Isto porque a Região do Norte de Portugal (fi gura 1), tem um relevo diferente do resto do país apresentando uma orografi a mais complexa onde as amplitudes altimétricas são mais acentuadas, sobretudo o interior norte de Trás-os-Montes e Alto Douro (TMAD). O clima de TMAD é defi nido assim por Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano: “continental, excessivo e rude: chuvas muito abundantes, neve e frio glacial, no inverno; calor sufocante e uma secura que seca os rios e fontes no verão – a Ibéria Seca” (Oliveira e Gal-hano, 1994: 134)1. Na mesma linha, Jaime Cortesão carateriza TMAD como

um território de costas para o Atlântico, isolado, alto, de “clima violento e de ásperos contrastes” entre montanhas e vales (Cortesão, 1995: 91).

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Estas características geográfi cas estão presentes na tradição oral em ditados como o de “Nove meses de inverno e três de inferno” ou “Para lá do Marão mandam os que lá estão…”, e escondem as importantes diferenças microrre-gionais, os matizes, e as mudanças. Pensamos que o isolamento físico e sim-bólico da região norte interior foi-se quebrando desde a década de 1990 com a construção de autoestradas (ex. A-24; A-7 e A-4) e mais recentemente com a abertura do túnel do Marão a 7 de maio de 2016.

Figura 1. Mapa do Norte de Portugal e divisão em NUTS III.

Fonte: CCRN (2011)

No que concerne a paisagem, a literatura geográfi ca diferencia em TMAD a Terra Fria e a Terra Quente (Ribeiro, 1991). A primeira contempla uma paisa-gem de planalto (700-800 metros de altura), um clima rude, um povoamento disseminado, vegetação de carvalho negral e castanheiro, cultivo de centeio, batata de altura e tem no porco o totem da tribo. A segunda, tem no sobreiro, na amendoeira, oliveira, laranjeira, fi gueira e na vinha a sua identidade paisa-gística (Cortesão, 1995); nesta segunda integram-se os vales que afl uem ao rio Douro, onde o inverno é mais moderado e o verão tórrido: “Conta-se que se assam sardinhas pousando-as nas linhas do caminho-de-ferro” (Ribeiro, 1991: 1249).

A leitura geográfi ca dos clássicos da Geografi a portuguesa teve sempre as-sociada uma geografi a cultural do ethos ou caráter coletivo da região Norte

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interior. Assim Jaime Cortesão assinala: “o transmontano é áspero, violento e assomadiço”, e coloca em palavras de Guerra Junqueiro a afi rmação de que enquanto um transmontano mata um homem, um minhoto quebra um prato (Cortesão, 1995: 92). É assim que esta visão estereotipada atribui um caráter indomável, anti gregário e sempre pronto para a luta aos transmontanos. Esta visão entra em contradição com outras visões antropológicas relativas ao cará-ter comunitarista das aldeias e comunidades de TMAD (Dias, 1953; Oliveira e Galhano, 1994) e também confl ituoso, desigualitário e dialético (Pais de Brito, 1996; O´Neill, 2011). Esta leitura dupla está presente tanto no todo como nas suas partes, e assim o Douro é, por si só, também tido como um triunfo heroi-co sobre a natureza e “os próprios deuses” (Cortesão, 1995).

Tal como o resto do país, a região norte encontra-se num contexto de re-cuperação macroeconómica após o programa de ajustamento fi nanceiro que decorreu entre 2011 e 2014. Os dados estatísticos mais recentes, referentes a 2015, apontam para uma economia baseada no setor terciário2 (INE, 2017a).

Dentro da região Norte, o Douro (NUT III) manteve, durante o período 1995-2011, a posição de segundo menor PIB per capita, apenas superior à região do Tâmega (Norte 2020, 2013: 14). Os dados mais recentes (2015), apontam que o Douro é a terceira sub-região com o pior registo no mesmo indicador3 (INE,

2017a), facto que se deve, não ao desenvolvimento económico, mas antes à divisão do território do Tâmega em duas sub-regiões, Alto Tâmega, e Tâmega e Sousa.

Se entre 1986 e 1998, a região do Douro era marcada por uma concentração maioritária do emprego no setor da construção, e por uma estrutura produti-va pouco diversifi cada (Cabral e Sousa, 2001: 4-5), atualmente o panorama é bastante diferente, na medida em que é o sector dos serviços aquele que maior peso tem na região, no que ao VAB diz respeito. Por seu turno, e apesar de apenas representar 7,2% do VAB total do Douro, o sector primário emprega a maioria da população, concretamente, 46,5%, face aos 41,9% do sector terciá-rio e 11,6% do segundo sector (INE, 2017a).

Refi ra-se, ainda, que a sub-região possui um índice de poder de compra dos mais baixos do País, 77,2 em 2015), e que mais de 13% dos depósitos na região são feitos por emigrantes, sendo o valor médio em Portugal igual a 3,1% (INE, 2017d). Importa, neste contexto, destacar o Índice Sintético de

Desenvolvi-2 O Valor Acrescentado Bruto (VAB) do sector dos serviços atingiu uma representatividade de 66,6%, empregando, aproximadamente, 56% do total de população ativa da região (INE, 2017).

3 Em 2015, a riqueza gerada por cada pessoa, no Douro, situou-se nos 12.539 euros, face a uma média nacional de 17.359 euros (INE, 2017a).

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mento Regional4, que conheceu uma evolução positiva em 2015, se se

con-siderarem os dados comparativos de 2001 (Gomes e Dinis, 2006). Focando atenções na componente da competitividade, o Douro é a segunda sub-região do Norte com pior resultado, superando apenas o território do Alto Tâmega. Posiciona-se no 1º quintil (índice de competitividade inferior a 87,3).

No que concerne ao índice de coesão, o desempenho do Douro é bem mais satisfatório em comparação com o anterior. Neste âmbito, a sub-região conse-gue posicionar-se acima de três sub-regiões do Norte, integrando o 2º quintil [91,9; 96,4[, mas mantendo-se abaixo da média nacional. Por último, avalian-do a componente da qualidade ambiental, verifi ca-se um excelente desempen-ho, na medida em que se posiciona como a segunda sub-região do Norte com melhor resultado, superando a barreira da média nacional. Importa, contudo, ressalvar que das três componentes em análise, a ambiental é a que apresenta os resultados mais positivos, num contexto global. Perante isto, e conjugan-do a avaliação individual das três componentes, compreende-se que o Douro apresenta um resultado global exíguo, posicionando-se como a terceira sub-região, a nível nacional, com o índice sintético de desenvolvimento regional mais baixo (INE, 2017b).

Em termos administrativos, o Douro é uma sub-região enquadrada na NUTS II Norte de Portugal, onde impera uma grande diversidade de recursos naturais e culturais referenciados. Territorialmente ocupa cerca de 19% da área da Região Norte correspondendo a cerca de 4.100 km2 (GEPE, 2011), inte-grando 19 concelhos5 e partilhando ainda os já referidos 4 distritos.

Caracteriza-se, do ponto de vista da dinâmica demográfi ca, como uma sub-região em constante processo de esvaziamento, desde meados do século XX, invertendo a tendência histórica que entre 1864 e 1950 lhe permitiu registar um aumento de 1/3 da sua população, passando a registar, ainda que com um pequeno interregno na década de 70 do século passado fruto sobretudo do re-torno das ex-colónias africanas, uma perda média anual de quase 2.000 indiví-duos, totalizando um decréscimo total superior a 127.000 habitantes (fi gura 2). Este declínio demográfi co, que se deve, por um lado, ao recurso à migração para as áreas urbanas no litoral e à emigração para o estrangeiro, ambas em resposta à gradual desvalorização económica da agricultura, levando à bus-ca de oportunidades que estas zonas laborais oferecem e, por outro lado, ao 4 Congrega a análise de três indicadores: competitividade, coesão e qualidade ambiental. 5 Alijó, Armamar, Carrazeda de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Lamego, Mesão Frio,

Moimenta da Beira, Murça, Penedono, Peso da Régua, Sabrosa, Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira, Sernancelhe, Tabuaço, Tarouca, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa e Vila Real.

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Fonte: Elaboração própria com base na informação estatística do INE. Figura 2. Evolução da população residente no Douro entre 1864 e 2016.

grande envelhecimento da população e à baixa taxa de natalidade que ronda os 6,3‰, associando-se um índice sintético de fecundidade6 situado nos 1,11

(INE, 2017c). Em resultado destes dados, é sem surpresa que o índice de de-pendência de idosos se tenha fi xado nos 37,6%, em 2016 (INE, 2017c). No que se refere a outros dados sociodemográfi cos, caracterizadores desta sub-região importa, ainda, destacar a evolução positiva da taxa de analfabetismo, que em 1981 totalizava 24,4% da população, passando, em 2011, para os 8,7%, valor mais próximo das médias da região Norte e nacional, 5% e 5,2%, respetiva-mente (PORDATA, 2017).

Compreender o Douro, enquanto uma zona de intensa e elevada produção agrícola que verga a natureza, um “jardim de xisto e videiras” (Aguiar, 2001: 180), implica conhecer o percurso histórico e social que o transformou numa região agrícola de elevada produção vinhateira – a Região Demarcada do Dou-ro – que atinge o reconhecimento mundial pela UNESCO a 14 de dezembDou-ro de 2001, através da classifi cação como Património Mundial da Humanidade do seu “núcleo” mais representativo - o Alto Douro Vinhateiro (ADV).

Este processo histórico, cujas origens remontam à época romana (Sousa, 2007; Pereira, 2014), intensifi cou-se apenas nos fi nais do século XVII devido à crescente exportação de vinhos da região. Isto foi possível graças à grande produção existente nas suas quintas, particularmente das grandes proprieda-des da nobreza (Pereira, 2014), potenciado pelo Tratado de Methuen, datado de 1703, que atribuiu ao vinho do Porto benefícios discriminatórios positi-6 Número médio de crianças vivas nascidas por mulher em idade fértil (dos 15 aos 49 anos

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vos, tais como taxas aduaneiras preferenciais na exportação para Inglaterra. Este tratado permitiu que a região produtora de vinhos encetasse uma época de grande desenvolvimento (Sousa, 2007), assente na abertura dos vinhos do Douro aos mercados mundiais, nomeadamente, ao mercado inglês (principal consumidor durante mais de dois séculos), e exigiu a participação de muita mão-de-obra, sobretudo galega e beirã, para a construção dos socalcos e da plantação das vinhas.

Tal processo foi impulsionado por Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que aplicou uma política de nacionalização do sistema comercial português e terminou com a predominância dos ingleses no sector do vinho, tendo ainda criado em 1756, a Região Demarcada do Alto Douro, uma das mais antigas regiões vitícolas demarcadas e regulamentas do mundo (Sousa, 2003), e a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, cujo principal objetivo passava por manter a reputação dos vinhos do Douro, bem como, potenciar o comércio e manter a cultura das vinhas neste território (Sousa, 2003). Sediada na cidade do Porto, esta entidade com funções regula-doras do vinho produzido no Douro, à época conhecido como “vinho de em-barque”, “vinho do Douro” ou “vinho do Porto”, era bastante rigorosa e fi xou o sistema de relações entre o Porto e as terras durienses. Com a demarcação do território, decorreram três grandes mudanças: o aumento da viticultura (fo-ram plantadas novas vinhas em terrenos que antes e(fo-ram terras de produção de cereais), a multiplicação das quintas, e a concentração de produções locais de pequenos produtores nas grandes quintas (Pereira, 2014).

Em suma, a demarcação defi nida por Marquês de Pombal, que vigorou até 1761, delimitou a região vitícola, procedeu à elaboração dos cadastros do Dou-ro, classifi cou as parcelas dos respetivos vinhos e criou instituições de controlo e certifi cação do vinho do Porto com base em legislação específi ca (Sousa, 2007). Em 1921 ocorreu a última alteração signifi cativa na Região Demarcada do Douro (RDD), passando a ser praticamente igual à que conhecemos nos dias de hoje, uns 250.000 hectares e um sexto deles dedicado à vinha (Almeida e Pedro, 2003). De acordo com alguns estudos7, a vitivinicultura é hoje o

gran-de quadro gran-de referência gran-de atração turística do Douro (Ribeiro, 1998), con-siderando essencialmente os recursos paisagísticos/ambientais, para além do património cultural e histórico. Tendo em conta a importância que é atribuída à paisagem em termos turísticos, importa refl etir sobre a mesma.

Rebelo et al., (2001) reconhecem na paisagem do Douro uma forte cono-7 Nomeadamente, “Synergistic Pluriactivity – The Development of Agrotourism and Rela-ted Activities as an Adjusment Strategy for Disadvantaged Rural Areal”. Projeto de inves-tigação (AIR3), em que participaram a Universidade de Aberdeen (Escócia), O Institute d’Études Politiques de Grenoble (França) e a UTAD (Vila Real).

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tação com a atividade agrária, sublinhando a existência de uma relação muito expressiva entre esta e a paisagem. Também Ramos e Fonseca (2014) desta-cam, por um lado, o exemplo das vertentes íngremes nos socalcos (patamares sustentados por muros de pedra seca em xisto), do solo cultivável construído, da rede de caminhos e acessos, da variedade biológica e tipológica das vinhas e do padrão de paisagem; e por outro lado, os valores naturais que se aproxi-mam do conceito de integridade da paisagem do ADV, que exprimem valores como o uso do solo, as tipologias de implantação dos vinhedos, o padrão da paisagem, os povoados, as quintas, os muros de xisto, a rede de acessibilidades e a morfologia complexa.

Nesta linha de pensamento, Sousa (2007) aponta para a sua singularidade já que resulta da preservação de contínuas transformações de utilização de técnicas agrícolas. Finalmente, Farinha-Marques e Fernandes (2014: 94) refe-rem que a contínua preservação “(…) de uma paisagem esculpida ao longo de séculos e que refl ete um processo singular de adaptação humana a condições naturais fortemente condicionadoras à sua fi xação (…)” formula a identidade do ADV. Por conseguinte, sublinha-se o entendimento da paisagem do Douro como histórica, ao refl etir, de forma integrada e interligada, a evolução da in-tervenção humana nesta região.

As posições expostas elucidam não só o papel, mas também o profundo enraizamento e importância que a agricultura desempenha para a construção da paisagem do Douro. Em suma, as ideias transmitidas sugerem que é da re-lação entre a agricultura (valores culturais) e a paisagem (valores naturais) que resulta uma paisagem histórica, identitária e reconhecida à escala mundial.

Todavia, o ADV é apenas uma parte do território da região do Douro (NUT III), que integra 25.000 hectares classifi cados pela UNESCO em 2001, mas tem-se convertido numa metonímia de um conjunto maior e também numa metáfora ou analogia que ajuda a construir o relato identitário da região e dos seus produtos (ex. vinho do Porto, vinho do Douro, vinhos espumantes, turis-mo, etc.). A paisagem do ADV constitui-se como um belo exemplar de uma Paisagem Cultural (Pinto-Correia et al., 2001), conjugando fatores e condições naturais com a ação humana e traduzindo a essência das interligações entre a diversidade biológica e a cultural, com particular foco nas formas tradicionais de utilização das terras (Ramos e Fonseca, 2014).

De acordo com a UNESCO, a paisagem cultural do Douro integra a ca-tegoria “Essencialmente Evolutiva” que, por sua vez, inclui a sub-caca-tegoria “paisagem evolutiva e viva”. Reconhecido por ir ao encontro dos critérios de distinção desta organização: a) constituir um testemunho único ou pelo me-nos excecional de uma tradição cultural ou de uma civilização viva ou desa-parecida; b) representar um exemplo excecional de um tipo de construção ou

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de conjunto arquitetónico ou tecnológico, ou de paisagem que ilustre um ou mais períodos signifi cativos da história humana; c) ser um exemplo excecional de povoamento humano tradicional, da utilização tradicional do território ou do mar, que seja representativo de uma cultura (ou culturas), ou da interação humana com o meio ambiente, especialmente quando este último se tornou vulnerável sob o impacto de alterações irreversíveis. (UNESCO, 2016).

A distinção da UNESCO veio reforçar a imagética do ADV associada a vá-rias palavras-chave: autenticidade, identidade, singularidade universal, exce-lência, signifi cado histórico, raridade, espiritualidade (no sentido da presença de relações de carácter espiritual estabelecidas especifi camente com a natureza e a paisagem), sustentabilidade socioeconómica, sustentabilidade regulamen-tar, viabilidade organizativa e de gestão, e biodiversidade (Sousa, 2007). Esta associação semântica ajuda a compreender como o ADV vem sendo confun-dido com todo o Douro, e vice-versa, apesar deste último ser muito mais do que uma região de produção vinhateira e contemplar até outros patrimónios culturais mundiais.

As diferentes interpretações territoriais do Douro

A tarefa de delimitar e caracterizar territorialmente o Douro enquanto re-gião de estudo, reveste-se de extrema complexidade face à multiplicidade de abordagens passíveis de serem consideradas. Paralelamente, como temos vin-do a referir, tanto no seio académico, como na sociedade em geral, existe uma noção difusa do espaço geográfi co que pode ser compreendido como “Douro”, ou, numa outra perspetiva, fi ca a ideia de que muitos assumem um território como sendo algo que não é.

Como tal, esta primeira análise não é mais do que uma visão crítica a erros comummente cometidos e que, por esse motivo, promovem uma leitura por vezes errónea sobre o território duriense. Entre estes destacamos a investi-gação de Brito e Correia (2006) onde sobressai a ideia de que os conceitos de RDD e ADV são tidos como equivalentes à região do Douro, apontamento que se justifi ca com o facto da amostra incluída no estudo assim percecionar estes dois conceitos territoriais. Sousa et al., (2009) referem-se ao Douro como Património Mundial e abordam-no como sendo ADV, nunca diferenciando ambos. Um outro exemplo, que pode motivar uma leitura desfasada da rea-lidade e do conteúdo em análise, encontra-se presente no trabalho científi co de Sousa (2013) que na grande maioria dos casos classifi ca a região de “Douro Vinhateiro, Douro Internacional ou Alto Douro”. Um exemplo contrário a esta tendência é o de Aguiar (2002: 145) que assume que o ADV não é mais do que “a designação adotada para identifi car” o território classifi cado como Patri-mónio Mundial, por parte da UNESCO, ou pelo menos parte constituinte da

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área mais representativa e mais bem conservada. Esta área classifi cada é uma pequena fração da RDD ou, em termos quantitativos, cerca de 10% (UNESCO, 2000).

A difi culdade em delimitar e defi nir o território correspondente ao ‘Douro’ não fi ca exclusivamente associada aos termos técnicos porque, ainda recente-mente, com a criação da unidade territorial Douro (2013), o território sofreu uma nova redefi nição para fi ns Estatísticos (NUTS). Atendendo à fi gura 3, torna-se possível identifi car e compreender, em parte, exemplos dessas refor-mulações territoriais. Num período de 30 anos, a sub-região Douro, foi alvo de três alterações territoriais, deixando de integrar concelhos como Cinfães, Resende, Vila Flor e Mogadouro. Atualmente, conta com 19 concelhos, sendo que o de Murça tem a particularidade de ter sido integrado na primeira consti-tuição das NUTS, em 1986, sem que nunca mais tenha feito parte do território duriense, até à última alteração protagonizada em 2013.

Apesar da organização territorial prevista na lei, entidades como a Comis-são de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e a Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte (ERTPNP) têm apresentado distintas delimitações. A título de exemplo, o “Plano de Desenvolvimento Tu-rístico do Vale do Douro” (PDTVD 2007-2013) identifi cava quatro grandes

Figura 3. Representação da evolução administrativa do território duriense no período 1986-2013.

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áreas turísticas na Região Norte de Portugal – Minho, Porto, Trás-os-Montes e Douro – sendo que para este último, o território correspondia à NUTS III, integrando igualmente os municípios de Baião, Resende, Mogadouro e Miran-da do Douro, e coincidindo com a delimitação territorial prevista na AgenMiran-da Regional de Turismo e no Plano Regional de Ordenamento do Território Nor-te (PROT-N) (Fazenda, 2008). A recenNor-te Estratégia de Marketing Turístico do Porto e Norte de Portugal para o horizonte temporal 2015-2020 vem clarifi car a divisão das áreas turísticas do Norte, igualando o território do destino Douro à área correspondente da NUTS III – Douro (ERTPNP, 2015).

Importa destacar o facto de que, até à criação das Entidades Intermunici-pais estabelecidas pela Lei nº 75/2013, de 12 de setembro, o Douro, apesar de ser uma das regiões mais antigas de Portugal, fruto da sua demarcação e regu-lamentação vitivinícola, nunca existiu como circunscrição política ou admi-nistrativa. A fragmentação territorial do Douro, resultante em grande medida da sua geografi a física, infl uenciou desde sempre o seu fracionamento políti-co-administrativo e institucional. Os seus territórios municipais, atualmente agrupados na designada NUT III Douro, repartiam-se no século XVI pelas províncias de Trás-os-Montes e da Beira, subdividindo-se depois nos inícios do século XIX pelas comarcas de Vila Real, Moncorvo, Lamego, Pinhel e Tran-coso. Deste então, a multiplicidade de delimitações administrativas onde o Douro se tem vindo a integrar, evoluiu signifi cativamente e, no início do sécu-lo XXI, estes mesmos territórios estavam integrados nos distritos de Bragança, Guarda, Vila Real e Viseu, nas comissões regionais de turismo do Marão do Nordeste Transmontano e do Douro Sul e em 4 associações de municípios (Douro Norte, Douro Sul, Douro Superior e Terra Quente). Esta realidade ad-ministrativa fragmentada e orientada segundo lógicas, escalas e perímetros de intervenção marcadas pela verticalização setorial e pela incongruência te-rritorial, fazem do Douro um exemplo paradigmático da complexidade, das contradições e das disfunções do modelo de organização e de administração territorial em Portugal (Ramos et. al., 2009).

A infl uência desta dimensão na situação atual da região e nos problemas que ela enfrenta é indiscutível, quanto mais não seja na relativa inefi cácia das políticas, das estratégias e dos investimentos canalizados nos últimos anos. É verdade que recentemente foram dados alguns passos signifi cativos no sentido de clarifi car e simplifi car este modelo. A criação da Comunidade Intermuni-cipal (CIM), que aglomerou a totalidade dos municípios da NUT III Dou-ro e absorveu o essencial das atribuições e competências das associações de municípios pré-existentes, agregando-lhes outras, permitirá lançar as bases de um espaço de articulação e concertação de interesses e de coordenação das estratégias e intervenções territoriais. Esta a reorganização dos serviços da administração pública acabou com algumas das incongruências e disfunções,

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conciliando e harmonizando os diferentes modelos e divisões espaciais. Fica, assim, bem patente que o Douro é de complexa defi nição e delimi-tação, talvez pelo elevado número de entidades que se reportam ao seu terri-tório e aos diferentes critérios que utilizam para o demarcar, pairando a ideia de uma hipotética ausência de relação ou comunicação, ao nível estratégico, entre as mesmas. Conclui-se, portanto, a existência de uma grande diversidade de nomenclaturas para defi nir um mesmo território e, num outro sentido, a incorreta tentativa de estabelecer uma equivalência entre a sub-região Dou-ro, a RDD e a região classifi cada do ADV, factos que não contribuem para a compreensão deste espaço, da sua dimensão e da sua delimitação geográfi ca. Apresentamos um sumário desta conclusão analítica na fi gura 4.

Figura 4. O Douro enquanto território e imagem percecionada.

Fonte: Elaboração Própria com base em Carvalho, Salazar e Neves (2011); CCDR-N (2011). No que se refere à paisagem do Douro8, esta é composta por um panorama

vitícola, um mosaico paisagístico descrito por Ramos e Fonseca (2014) como um agregado de vinhas e demais culturas agrícolas, na qual se vislumbram outros elementos patrimoniais, tais como Quintas, Povoados/Aldeias, Igrejas e Capelas, Adegas, Miradouros e Caminhos-de-ferro. Na paisagem da região do Douro sobressai uma arquitetura complexa, composta por diferentes téc-8 Pinto-Correia, d’Abreu e Oliveira (2001:19téc-8), defi nem paisagem como “[...] um sistema

dinâmico onde os diferentes fatores naturais e culturais se infl uenciam entre si e evoluem em conjunto, determinando e sendo determinados pela estrutura global, o que resulta numa confi guração particular de relevo, coberto vegetal, uso do solo e povoamento”.

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nicas de preparação e organização dos terrenos, técnicas essas seculares que se cruzam e misturam em função da evolução temporal (Aguiar, 2002; Ramos e Fonseca, 2014). Daqui se retira que a paisagem do Douro, com particular ênfase o ADV, não é natural ou, se se preferir, “pura”.

É toda esta conjugação e diversidade de elementos que nos remete para o conceito de unidades de paisagem. Na ótica de Pinto-Correia et al., (2001), as unidades de paisagem são áreas com características, em certa medida, homo-géneas no seu interior o que permite a sua identifi cação e distinção perante as envolventes. Igualmente, d’Abreu et al., (2002) citado por Batista, Mendes, Vila-Viçosa, Gomes, Fernandéz e Cabezas (2011), acrescentam que as unidades de paisagem dizem respeito a um conjunto de elementos que, entre si, defi -nem um padrão específi co a que está associado um determinado carácter. Por outras palavras, a defi nição e determinação das unidades de paisagem têm, por base, um conjunto de fatores como o relevo, altitude, uso do solo, urbanização e/ou diversas combinações entre estes; aos quais se associa um padrão interno que permite a sua identifi cação no interior e exterior do grupo (Pinto-Correia et al., 2001).

Em Portugal Continental estão identifi cadas 128 unidades de paisagem, devidamente associadas em 22 grupos (Direção Geral do Território, 2016). Já no caso específi co da região Douro conclui-se a existência uma grande diversidade paisagística, justifi cada pelos diferentes traços que motivam o seu enquadramento em cinco grupos de unidades de paisagem: 1) Trás-os-Montes; 2) Douro; 3) Montes entre Larouco e Marão; 4) Beira Alta; e, 5) Beira Interior.

Identifi cados os cinco grandes grupos paisagísticos que constituem a

sub-re-gião Douro, o recurso à fi gura 5 permite analisar quais os concelhos que se

en-quadram em cada uma das unidades de paisagem referidas. Do ponto de vista meramente geográfi co, os municípios localizados mais a norte correspondem, predominantemente, a uma paisagem transmontana, enquanto aqueles que se localizam na vertente sul, dizem respeito aos grupos Beira Interior e Douro, mas sobretudo Beira Alta. Por seu turno, o “Douro”, enquanto unidade de

pai-sagem, é composto, essencialmente, pelos concelhos que constituem a RDD9.

Reportando à análise individual das unidades de paisagem predominantes, torna-se possível identifi car alguns elementos heterogéneos. Relativamente à unidade “Douro” e, nas palavras de Madureira (2005: 44) podemos considerá-la como um “museu vivo da cultura da vinha e do vinho”, encerrando, em si, um potencial turístico considerável, face à diversidade de produtos que lhe estão diretamente associados, nomeadamente o Turismo de Natureza, o Turis-9 Como contributo futuro, seria vantajoso sobrepor a Região Demarcada do Douro ao mapa

apresentado, como forma de comprovar se a unidade de paisagem “Douro” corresponde, efetivamente, à região demarcada.

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mo Náutico, a Gastronomia e Vinhos e o Touring Cultural (Carvalho, Salazar e Neves, 2011). Mas esta unidade de paisagem não é apenas composta por cultu-ras associadas à vinha, sendo igualmente marcada por uma vasta área agrícola e hortofrutícola, na qual produtos como a maçã, a castanha e a amêndoa são dos mais valorizados (CIM Douro, 2014). Esta unidade de paisagem integra dois importantes territórios da região Norte e do próprio território nacional, a RDD e o ADV, respetivamente, uma das mais antigas regiões vitivinícolas demarcadas do mundo e património mundial da UNESCO.

Trás-os-Montes, ou a unidade de paisagem que lhe dá nome, caracteriza-se pela existência de duas áreas distintas: a Terra Fria e a Terra Quente (Leitão, 2011). A primeira, em oposição à segunda, apresenta uma morfologia mais diversifi cada, alternando entre planaltos, serras e vales, onde predominam características climáticas e de paisagem continentais e atlânticas. Simultanea-mente, é um território onde o arvoredo se sobrepõe à produção hortícola e frutícola, pelas características que assim o obrigam; por sua vez, a Terra Quen-te corresponde à área dos vales do rio Douro e respetivos afl uenQuen-tes, na qual a vegetação e o clima são, tendencialmente, mediterrânicos, predominando a vinha, os olivais, as amendoeiras e as laranjeiras. Nos municípios integrantes da região do Douro, é possível observar os socalcos, tão característicos desta Figura 5. Unidades de paisagem e grupos de unidades de paisagem na NUT III Douro

Fonte: elaboração própria com base na Carta das Unidades de Paisagem de Portugal Continen-tal de d’Abreu, Correia e Oliveira (2004) disponível através da plataforma iGEO

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última (Ribeiro, 1991, citado por Leitão, 2011).

A unidade de paisagem da Beira Alta destaca-se pela integração de uma região demarcada, associada aos vinhos do Dão. No entanto, nenhum dos municípios que integram o Douro e se inserem nesta unidade de paisagem, fazem parte dessa região demarcada do vinho do Dão. A paisagem em questão é marcadamente montanhosa, predominando as plantações vinícolas o que, de certa forma, se pode associar à paisagem do Douro. Ainda assim, de acordo com Lautensach (1991), citado por Leitão (2011), uma das grandes diferenças entre estas, prende-se com a forma de cultivar a vinha, com destaque para três técnicas: ‘vinha de enforcado’, ‘vinha em arjões’ e ‘latadas’ ou ‘ramadas’. A CCDR-C (2008) faz alusão, ainda, a uma organização complexa e diversifi cada tanto do mosaico, como da própria produção agrícola, reforçando o peso da produção de vinho.

A Beira Interior, enquanto paisagem é, a par do Douro, fortemente caracte-rizada por uma simbiose dita ‘perfeita’, entre os elementos naturais e a ação hu-mana (Pinheiro, 2014). Esta unidade de paisagem só fi ca plasmada na região do Douro no concelho de Vila Nova de Foz Côa, mais concretamente numa pequena percentagem do seu território, tal como identifi cado anteriormente.

O conjunto montanhoso do noroeste português, no qual se integra a uni-dade de paisagem Montes entre Larouco e Marão, refl ete, tal como indicam Pereira e Pedrosa (2007:46) “a transformação do território e dos ecossistemas naturais pela apropriação humana do espaço, evidenciando a ação modelado-ra milenar exercida por práticas agro-pastoris similares, ainda que regional e localmente diversifi cadas.”. Contudo, e tal como no caso anterior, o facto de a unidade de paisagem agrupar uma pequena parcela de três municípios da região do Douro, promove a necessidade de um olhar mais cuidado e assertivo referente à sua infl uência no território.

Mesmo na unidade de paisagem mais central da região onde a vinha do-mina, denotam-se ainda diferenças paisagísticas, fruto de uma elevada riqueza de contextos topográfi cos e geomorfológicos e de grandes diferenças mesocli-máticas, infl uenciadas quer por diferentes latitudes, quer pelo maior ou menor afastamento do mar (Rodrigues et. al. 2010), que permitiram desde a origem da RDD identifi car duas sub-regiões  naturalmente distintas, não só por fa-tores climáticos como também socioeconómicos: o Alto Douro, designação dada pelos autores à zona onde historicamente a cultura da vinha tinha maior expansão, desagregando-se em 1936 em Baixo Corgo e Cima Corgo; e o Douro Superior, que se estende desde o meridiano que passa no Cachão da Valeira e vai até à fronteira com Espanha. Esta divisão em 2 grandes subzonas da paisagem vitícola resultava sobretudo de um acidente geológico, um monólito de granito existente no rio Douro que impedia a navegação para montante

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desse obstáculo e consequentemente, condicionava a exploração vitivinícola mais a leste, impedindo o transporte do vinho, algo que veio a ser ultrapassado com a remoção do bloco de granito no reinado de D. Maria, levando a que a cultura da vinha se estendesse praticamente até à fronteira, embora com diferenças paisagísticas claras face as subzonas mais a jusante, quer ao nível da área ocupada por vinha, quer ao nível da dimensão das propriedades onde a orografi a menos acidentada, favorece a constituição de explorações de grande dimensão relativamente à escala média da região.

Figura 6. Sub-regiões da Região Demarcada do Douro (RDD)

Fonte: Cipriano (2017)

Serve esta exposição para sublinhar as múltiplas formas de olhar e compre-ender o Douro, quer seja como parte (ADV) ou totalidade (RDD), ou qualquer das mencionadas unidades de paisagem, ou divisões político-administrativas. É deste nevoeiro interpretativo que surgem e se cimentam as características que são selecionadas na promoção turística do território. Assim, no ponto seguinte, olhamos para o Douro enquanto destino turístico, percurso, carac-terísticas, impactos e potencialidades.

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3. O DOURO ENQUANTO DESTINO TURÍSTICO: OFERTA

E PROCURA

O turismo, enquanto atividade humana complexa, dota de novos sentidos, formas e signifi cados os espaços e destinos turísticos. Por meio de valorização, apropriação, e turistização de recursos naturais e culturais e também através da aplicação de técnicas de produção da relação local-global, o turismo converte territórios em espaços de consumo turístico visual, sensual e experiencial. O turismo promoveu mudanças em muitos territórios, e de forma intensiva du-rante os últimos 50 anos (Rebollo, 1997) podendo, neste sentido, ser pensado como uma técnica para a produção espacial da localidade (Appadurai, 1995), por meio da qual determinados elementos de um território são convertidos em emblemas identitários e produtos culturais “para turista ver”. O turismo é um mecanismo de fl uxos, de pessoas, informação, ideias, produtos e capital (Appadurai, 1990; 1996), contribuindo para a criação de novos sentidos do lugar, num tempo de redefi nição global-local que não está isento de tensões, negociações e confl itos.

Velhos territórios resignifi cam-se enquanto cenários e lugares turísticos (Cardeira da Silva, 2004) onde se praticam rituais da experiência turística. De acordo com John Urry (1995), na nossa época pós-moderna muitos lugares converteram-se em espaços de consumo turístico, consumidos na sua vertente visual e também experiencial (Bruner, 1989; 1995; 1996; 2004). Nos dias de hoje observamos uma mudança no modelo turístico global, de um modelo fordista a outro pós-fordista.

Em retrospetiva, na literatura científi ca sobre oferta turística, podemos encontrar quatro perspetivas de oferta turística. A primeira é uma perspeti-va funcionalista, muito extensa, segundo a qual a noção de oferta turística é considerada como um conjunto de bens e serviços para satisfação de necessi-dades turísticas, isto é: “o conjunto dos fatores naturais, equipamentos, bens e serviços que provoquem a deslocação de visitantes, [e] satisfaçam as suas necessidades” (Cunha, 2006: 191).

Uma segunda perspetiva, produtivista e economicista (Sancho, 2001), afi r-ma que a oferta é um conjunto de produtos, serviços e ir-magens mercantili-zados (Gartner, 2000). A oferta turística seria defi nida como “o conjunto de produtos turísticos e serviços postos à disposição do usuário turístico num determinado destino, para seu desfrute e consumo” (Sancho, 2001: 43). Esta segunda perspetiva complementa a anterior e foca-se mais num olhar econo-micista e econometrista do turismo enquanto negócio mercantil.

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co-mércio (Molina, 1991; Barretto, 2012), emerge a terceira perspetiva, fenome-nológica, humanista e antropológica (Molina, 1991), onde a oferta turística é vista como a construção da hospitalidade e do acolhimento para os visitantes (Pereiro, 2009), que fazem parte da cultura turística de um destino turístico (Lickorish e Jenkis, 1997).

Numa quarta perspetiva, geográfi ca e territorial, que nos interessa aqui destacar, a oferta turística é pensada como a apresentação para visitantes de um destino que não pode ser transportado fi sicamente e que é capaz de atrair visitantes: “pode-se defi nir a oferta básica como o conjunto de equipamentos, bens e serviços de alojamento, de alimentação, de recreação e lazer, de caráter artístico, cultural, social ou de outros tipos, capaz de atrair e assentar numa determinada região, durante um período determinado de tempo, um público visitante” (Beni, 2007: 177). Nesta última perspetiva, a oferta não é vista como um elemento isolado, mas como um fator determinante da procura turística (Beni, 2007).

De acordo com Mário Carlos Beni e numa abordagem sistémica do turis-mo (SISTUR), a oferta turística é um subsistema turístico, isto é, um conjunto de recursos naturais e culturais mais os serviços para o seu consumo (Beni, 2007). Entre os seus componentes destacam-se: 1) os recursos naturais: mar, clima, paisagens, praia; 2) a organização das viagens; 3) o transporte; 4) o alo-jamento; 5) a restauração; 6) o acolhimento e a hospitalidade. Desde esta pers-petiva sistémica e territorial que une recursos e produtos turísticos, podemos encontrar vários tipos de oferta turística acordo com o seu nível de integração: a) Ofertas turísticas desintegradas (destaca a segmentação e a divisão entre os agentes turísticos); b) Oferta turística integrada (coordenação, integração, ar-ticulação e cooperação entre empresas turísticas, comunidade local, visitantes, técnicos, políticos, etc.).

Em relação com os produtos e projetos turísticos que integra, podemos encontrar diferentes tipos de ofertas turísticas: 1) imitadoras, e reprodutoras da oferta de outros destinos e produtos; 2) ofertas diferenciais, singulares e diferenciadas, que utilizam um diferencial turístico como capital de diferen-ciação da oferta; 3) monocórdicas, de só um produto e experiência turística; 4) ofertas plurais e diversifi cadas, multiexperienciais e multidimensionais; 5) adequadas, ou inadequadas à procura e aos desejos e necessidades dos visitan-tes; e 6) com procura mais ou menos sazonal.

Portanto, uma oferta turística deve ser pensada como algo mais do que a soma de produtos turísticos e sim como um todo integrado. Ademais, na produção de uma oferta turística deve-se ir além dos fatores clássicos, nomea-damente, a terra, o trabalho e o capital. Hoje em dia, num modo de produção turístico pós-fordista, a esses fatores temos que acrescentar os fatores de

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infor-mação e novas tecnologias (Castells, 1996), que na sua aplicação ao turismo abordaremos noutros trabalhos. Neste ponto centrar-nos-emos no primeiro elemento: a terra. A terra e a sua expressão enquanto território é a base da oferta turística. O potencial valor turístico de um território está condiciona-do, entre outros fatores, pelas suas acessibilidades (Cerro, 1993; Sancho, 2001: 169-170). Assim, a localização e o acesso de um território ou destino turístico são fatores essenciais para a sua viabilidade.

De acordo com os primeiros trabalhos de refl exão e análise sobre esta pro-blemática, a UIOOT - União Internacional de Organismos Ofi ciais de Turis-mo, antecedente da atual OMT - Organização Mundial do TurisTuris-mo, detalhou os seguintes fatores condicionantes do potencial turístico de um território (UIOOT, 1971:2-12): a) as condições naturais; b) as infraestruturas; c) as con-dições socioeconómicas; d) os equipamentos de superfície; e) os equipamen-tos culturais e de recreio. Estes fatores foram revisequipamen-tos pela OMT em 1978 e nos anos 1980 pelo geógrafo Douglas Pearce (1981), entre os quais destaca: clima, condições físicas, recursos, acessos, propriedade e uso da terra, restrições e estímulos ao desenvolvimento turístico, capacidade de carga e outros fatores.

Vejamos por um momento o fator acessibilidade ao destino que é essencial na oferta turística. A acessibilidade pode ser pensada como física ou também como proximidade relativa face aos mercados e centros emissores de turis-tas. A acessibilidade condiciona as infraestruturas, a distância e o volume de visitantes. Outras variáveis que participam no fator acessibilidade são as de atratividade dos destinos, a duração temporal da viagem e o custo económico da deslocação (Cerro, 1993). Outro elemento importante do desenvolvimento turístico de um território é a capacidade de carga. Este é um conceito empres-tado das ciências naturais e incorporado nos estudos turísticos para defi nir a capacidade de carga ecológica, paisagística, percetual, social e cultural de um território ou destino turístico (Burton, 1975). Ele é um conceito que mede a capacidade máxima de utentes de um destino turístico, interpreta os níveis aceitáveis de mudança introduzidos pelo turismo, defi ne a capacidade da pai-sagem para receber visitantes e analisa o grau de satisfação e saturação dos visitantes e visitados com relação ao turismo.

O turismo tem como particularidade territorial importante trazer os con-sumidores ao produto (viagem turística) e não exatamente o produto aos consumidores. Daí ser considerado uma forma de mobilidade territorial con-temporânea (Hall, 2009), diferente das migrações e outras, relacionada com o ócio e o lazer. A oferta turística é construída a partir da ideia de um destino turístico, ainda que o destino possa ser vendido espacialmente desde fora dele. Um destino turístico é: um espaço - território com alojamento, serviços de apoio, atrações turísticas e imagem no Mercado (Cunha, 2006); um conjunto de produtos que, na sua territorialidade, atraem turistas; e um território com

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recursos e atrativos promovido com uma determinada imagem, com desfrute de serviços pelos visitantes e aquisição de produtos materiais (Vera, 1997).

Os destinos ou espaços turísticos são lugares geográfi cos e também antro-pológicos nos quais se produz a oferta turística de experiências. Eles são o país, região, cidade ou território para onde se dirigem os visitantes nas suas viagens turísticas. Outros autores (Cooper et al., 1993) defi nem, desde uma perspetiva funcionalista, o destino turístico como o conjunto de instalações e serviços planeados e concentrados para satisfazer as necessidades turísticas. O destino seria aqui o lugar para onde se desloca a procura a fi m de consumir o produto e experiência turística. Os destinos turísticos são alvo de processos de trans-formação do espaço com vista à satisfação de necessidades turísticas, o que implica novas relações (Cunha, 2006), novos usos, funções e signifi cados do espaço – território convertido em cenário turístico. Uma das ciências sociais que mais tem utilizado enfoques territoriais do turismo tem sido a geografi a do turismo (Carvalho Arroteia, 1994; Vera, 1997; Solla, 2003; Calvé e Reverté, 2010), trabalhado nas seguintes linhas de pesquisa – ação (Vera, 1997): defi nir as caraterísticas funcionais do espaço emissor; analisar as formas, distâncias e médios do fl uxo turístico; e desenhar uma morfologia do espaço do destino turístico, segundo escalas territoriais dos fl uxos turísticos e com uma análise pormenorizada das relações entre território físico, meio ambiente e sistema turístico.

Além do mais, a geografi a do turismo tem realizado uma geografi a descri-tiva de recursos, viagens turísticas, lugares e itinerários, monografi as territo-riais, observação dos efeitos do turismo, análise de espaços turísticos especia-lizados, das dinâmicas turísticas e as transformações do espaço. Nos últimos tempos a sua atenção tem-se focado no estudo da relação entre globalização económica e turismo, na mundialização territorial e o turismo e em pensar o turismo como um elemento de construção de novos espaços com efeitos posi-tivos e negaposi-tivos (Vera, 1997).

Alimentando este enfoque territorial do turismo, a antropologia do espaço (Silvano, 2001) tem dado contributos essenciais para entender os territórios e destinos turísticos. Para a antropologia o espaço é uma realidade material e uma representação, uma categoria, que ordena o heterogéneo e que produz sentido e signifi cados através da atribuição de valores afetivos aos territórios. Toda organização espacial refl ete uma organização social específi ca. Esta mor-fologia social é substrato material das sociedades (ex. forma, volume, densi-dade, distribuição de população e visitantes) e integra materialidensi-dade, práticas sociais e representações culturais tingidas de memórias sociais. Neste sentido os grupos humanos moldam o espaço e igualmente o espaço molda os grupos (Carmo, 2006).

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Nesta ótica antropológica, os territórios e destinos turísticos são espaços de identidades coletivas, isto é, as formas de organização física dos territórios es-tão interligadas com estruturas sociais e simbólicas. Este laço indissociável en-tre territórios e identidades é algo mutável, dialético e não fi xo. Um elemento que intervém nessa mudança é a mobilidade, entre as quais se destaca a mo-bilidade turística, que assume um valor social de liberdade de movimentos, e que diferencia os territórios turísticos pela sua maior ou menor mobilidade espacial.

A produção social do destino turístico obedece a práticas sociais concretas que devem ser analisadas com pormenor. Essas práticas integram produção e reprodução de lugares, formações sociais novas, competências espaciais e territoriais, performances espaciais e representações do espaço-território. Esta última, a das representações, é essencial para o turismo, pois tem um poder de mediação entre oferta e procura turísticas, e um infl uxo na orientação e olhar do visitante face ao destino turístico. Neste sentido, Rachid Amirou (2007) fala do turismo como um contexto de relações consigo mesmo, com os outros e com o espaço envolvente. A antropóloga Sharon Roseman (2008) indica a existência de cinco tipos de relações espaciais no campo do turismo: entre as pessoas e a natureza; umas pessoas com outras; os turistas com o lazer; os tu-ristas e o trabalho; e os tutu-ristas e eles próprios (refl exividade).

Pensamos que esta tipologia dá conta da necessidade de adotar enfoques territoriais do turismo mais complexos nos quais se deve incluir os territórios físicos e os espaços sociais e culturais numa rede de relações local-global na qual participam os corpos, os sentimentos, as emoções, as imagens e os ima-ginários. Os territórios e destinos turísticos são construídos, mutáveis e nego-ciáveis. Os destinos turísticos já não podem ser pensados como localidades ou nichos limitados e confi nados espacialmente, pelo contrário, são espaços ha-bitados por gentes pluriculturais. Nesta linha, o antropólogo Arjun Appadurai sublinha a importância do estudo dos fl uxos de pessoas, informação, produ-tos e capital – ethnoscapes, technoscapes, fi nanscapes, mediascapes, ideoscapes (Appadurai, 1990; 1996), algo que devemos aplicar aos enfoques territoriais do turismo.

Agustín Santana (2003) interpreta esta mudança de modelo referindo o nascimento de “novos turismos” a fi nais da década de 1980, motivados pe-las novas condições de competitividade, fl exibilidade e segmentação. Nestes novos turismos os discursos associados são os próprios das novas formas de fazer turismo, o turismo de experiências, e outras etiquetas como o turismo rural, o ecoturismo, o turismo étnico, ou o turismo de natureza. Precisamen-te com esPrecisamen-te quadro de mudança em menPrecisamen-te olhamos agora com mais aPrecisamen-tenção para o Douro, e como se converteu ao longo dos tempos, de terra a território e paisagem turística, de espaço de produção vitivinícola e agrária, a um espaço

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multifuncional de produção agrária e de contemplação e desfrute turístico.

Oferta Turística do Douro

Se entre as décadas de 1980 e 1990 a oferta de alojamento turístico no Dou-ro era muito reduzida, pouco diversifi cada e com fraca capacidade de acolhi-mento turístico (Almeida e Pedro, 2003:79)10, isso é justifi cado pelo facto de

apenas na década de 1980 se dar a abertura do rio Douro à navegabilidade, para embarcações de carga e passageiros. O primeiro cruzeiro fl uvial ocorreu entre as cidades de Porto e Régua, em 19 de outubro de 1986 e, só em 1990, decorreu a primeira viagem entre Porto e Barca D´Alva. A própria evolução do número de operadores marítimo-turísticos a operar no rio Douro foi lenta, na medida em que entre 1997 e 2001 o valor passou de cinco para nove empresas (Almeida e Pedro, 2003). No presente, contabilizam-se 22 empresas, sediadas na sub-região do Douro, cujas especifi cações incluem atividades diretamente relacionadas com a animação turística no rio Douro.

Já no século XXI, o primeiro Plano Estratégico Nacional de Turismo - PENT (Turismo de Portugal, 2007) condicionou toda a oferta turística do país e teve um enfoque mais centrado nos produtos e menos nos destinos. Nesse documento estratégico, a oferta turística portuguesa centrava-se no clima, na luz, na história, na tradição, na hospitalidade, na modernidade, na qualidade e na segurança. Para o Norte de Portugal (86 municípios) o PENT programou quatro eixos da sua oferta turística, pela seguinte ordem de prioridades: 1) Touring Cultural e Paisagístico; 2) City Breaks; 3) Gastronomia e Vinhos; e, 4) Turismo de Negócios.

Por sua vez, e seguindo um âmbito sub-regional, foi idealizado um conjun-to de eixos para o território do Douro, nomeadamente o Turismo de Saúde e de Bem-Estar, Turismo de Natureza e Turismo Náutico e Cruzeiros. A região integrou-se, assim, no quadro político-estratégico do turismo defi nido, tendo-se constituído como um Pólo de Detendo-senvolvimento Turístico, que mais tarde viria a ser extinto. Mais recentemente, em 2015, foi instituída a Estratégia de Marketing Turístico do Porto e Norte de Portugal11, para o período

compre-endido entre 2015 e 2020, um plano mais centrado nos recursos do território e condizente, em parte, com as necessidades dos destinos. Nesse capítulo, a região duriense passou a integrar dois grandes grupos de produtos turísticos (fi gura 7)

10 Ver também Ribeiro e Marques (2002).

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O mais recente plano constitui-se, desta forma, como um documento estra-tégico mais apropriado para o território no qual se implementou, identifi can-do aquelas que são as atrações primárias, bem como os elementos que mere-cem ser alvo de maior destaque, promoção e publicidade junto dos principais mercados e segmentos de mercado.

Ainda assim, a região em estudo parece carenciada no que respeita à ar-ticulação entre as entidades governativas diz respeito. E isto porque, apesar de identifi cado o quadro estratégico para o sector do turismo, a Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM Douro) apresenta, em 2017, uma campanha de promoção turística, de certa forma alternativa, ainda que, exaltando ele-mentos referidos pelo plano estratégico anterior. Nesse sentido, a CIM Douro atribui destaque ao património da Humanidade (Alto Douro Vinhateiro, Sítios Pré-históricos de Arte Rupestre e Vale do Rio Côa, Barro Preto de Bisalhães) existente no território, exaltando-o como um dos motivos para visitar o Dou-ro, e interligando-o com outros elementos chave da oferta turística da região: a) vinhas, os vinhos e as vindimas; b) gastronomia e experiências sensoriais; c) segurança e o bem-estar (relaxe, recuperação física e psíquica); d) paisagens e turismo de natureza (parques, reservas naturais, miradouros…); e) luz, aldeias e quintas; f) comboio histórico e cruzeiros no rio Douro (o transporte turístico como experiência); g) monumentos, rotas, mosteiros e turismo histórico (his-tória de Portugal); h) património imaterial (tradições, lendas, …); i) desportos e vida ativa (ex. caminhadas, trilhos, bicicletas de montanha…).

Numa abordagem ao panorama evolutivo mais contemporâneo do turismo no Douro, é conveniente incluir um conjunto de indicadores que representem os dois blocos do mercado turístico: a oferta e a procura. Para tal, Figura 7. Produtos Turísticos do sub-destino Douro

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se o período temporal 1991-201512, ainda que a ausência de alterações

conside-ráveis tenha motivado uma análise gráfi ca com uma escala temporal de 5 anos, salvo algumas exceções, facto que será justifi cado e abordado no decorrer da análise. Posto isto, integraram-se as variáveis indicadas na fi gura 8.

Do lado da oferta, constata-se que o número de alojamentos turísticos só conheceu um crescimento signifi cativo a partir de 2013. Considerando o pe-ríodo de 1991 a 2010, a taxa de crescimento média anual é nula, mas a inclusão dos últimos três anos em análise altera essa mesma taxa para 9%, fruto do crescimento exponencial de 203%, registado entre 2010 e 2013. A evolução assinalada, nomeadamente a partir de 2013, é passível de ser confi rmada com recurso à fi gura 9, tendo sido motivada por uma alteração metodológica e não, concretamente, pela constituição de novos empreendimentos. Quer isto dizer que, no período antecedente a 2013, os dados estatísticos não contabilizavam os empreendimentos tidos como Turismo no Espaço Rural (TER) e Turismo de Habitação. Com a inclusão dessas tipologias nos mais recentes anuários, o número de empreendimentos no Douro conheceu uma evolução signifi cativa, tal como se observa.

Da mesma forma, a capacidade de alojamento também acompanhou essa tendência, atingindo um total de 4.275 camas em 2015, uma variação positiva de 85,6%, face aos números de 2012. No entanto, um facto curioso prende-se com o número de unidades de alojamento (quartos e/ou apartamentos) exis-tente. Ainda que a ausência de dados seja uma realidade, para alguns dos anos considerados, não deixa de ser assinalável a variação de apenas +13%, entre

12 Face à ausência de dados para os restantes indicadores em análise, o período de 1991 a 2015 foi apenas considerado para avaliação do número de alojamentos turísticos, tendo sido adotado, posteriormente, o período 2000 a 2015.

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2000 e 2014, ainda mais considerando a evolução dos indicadores observados anteriormente. Sublinha-se, no entanto, que os dados referentes a 2015, pare-cem traduzir, com maior veracidade, a realidade dos factos.

Figura 9. Evolução da oferta de alojamento turístico no Douro nos anos (1991-2015).

Fonte: Elaboração própria com base em Direção Geral de Turismo (2000), INE (2001-2016) e RNT (2017).

Com o propósito de se compreender a distribuição geográfi ca da oferta tu-rística no Douro, atente-se na fi gura 10. Da sua observação podemos concluir que, no caso dos empreendimentos turísticos, apenas o concelho de Lamego revela um número superior a 20 empreendimentos, mais concretamente, são 29 aqueles que se localizam nesse concelho. Num segundo patamar, surge Sa-brosa com 15 empreendimentos e, com o total de 10 a 15 empreendimentos, os concelhos de Vila Real, Alijó e Torre de Moncorvo. Quer isto dizer que os cinco concelhos identifi cados concentram 52% da oferta de empreendimentos turísticos da região.

Relativamente à disposição do alojamento local no território, destaque, uma vez mais, para o concelho de Lamego, que concentra um total 18 estabe-lecimentos, seguindo-se Armamar com 14, Alijó, Carrazeda de Ansiães e Vila Real, com 9, 8 e 7 estabelecimentos, respetivamente. Estes números traduzem 61% da oferta global em alojamento local. Confi rma-se uma ligeira tendência para a concentração nos principais concelhos, como é o caso de Lamego, Vila Real e Régua, estes mais urbanizados, concentrando, em si, um maior número de serviços.

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No domínio dos proveitos totais (fi gura 11), exclusivamente dos estabeleci-mentos hoteleiros, verifi ca-se um crescimento entre 2009 e 2015, com este úl-timo a assinalar um total de mais de 13,7 milhões de euros. Contudo, conside-rando o início da década de 2000, ainda que a ausência de dados de 2001 a 2008 não permita retirar conclusões mais sólidas e robustas, regista-se uma variação negativa de 33%, entre os anos 2000 e 2009. Importa, ainda, sublinhar que após uma recuperação residual entre 2009 e 2011, a crise fi nanceira internacional motivou uma quebra signifi cativa dos proveitos em 2012, situação contornada nos anos subsequentes, tal como se pode aferir.

No seguimento da análise da oferta turística, e de acordo com Su e Teo (2008), parece existir uma relação positiva entre o desenvolvimento turísti-co de um determinado território e a sua classifi cação turísti-como património da UNESCO, na medida em que esse estatuto promove o crescimento dos fl uxos turísticos, o desenvolvimento económico do território, bem como a manu-tenção e preservação dos elementos culturais e patrimoniais. Neste contexto, integra-se a paisagem enquanto atrativo turístico, tida como um motor impul-sionador do desenvolvimento social, económico e turístico, de um território Figura 10. Distribuição geográfi ca dos empreendimentos turísticos e alojamento local, por

con-celho da NUTS III – Douro (março, 2017).

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em concreto. Os diversos intervenientes no sector do turismo ou stakeholders têm, na paisagem, um elemento de cariz “essencial e imprescindível”, muito mais pelo facto de possuir uma preponderância, gradualmente superior, nas escolhas e preferências de quem viaja (Marujo, 2005; Cardoso, 2010).

Contudo, ao contrário do que é referido, o desempenho da atividade tu-rística no Douro parece, numa primeira análise, não ir ao encontro dessas mesmas perspetivas. Podemos falar de um turismo sem desenvolvimento e de um desenvolvimento com pouco turismo. Perante isto, e analisados os indica-dores referentes à oferta, importa, agora, centrar atenções na procura turística. No que respeita ao número de hóspedes e respetivas dormidas (fi gura 12), seria de esperar, pelo menos nos anos subsequentes ao reconhecimento do ADV como património mundial com a chancela UNESCO, um crescimento signifi cativo do número de hóspedes e respetivas dormidas. No entanto, tal não se verifi cou. Como é possível observar, assistiu-se a uma indefi nição de tendência, resultante das fl utuações registadas até 2012, inclusive. Com uma taxa de crescimento média anual de 2% ao nível dos hóspedes e de 3% nas dormidas, só a partir de 2013 regista-se uma evolução positiva e sustentada de ambos os indicadores. Neste contexto, o ano de 2015 chega mesmo a assinalar um ano recorde, na sub-região Douro, com um total de 212.495 hóspedes e 337.664 dormidas. A partir destes dados, é possível tecer considerações re-ferentes à estada média, que durante o período em causa se manteve pratica-mente inalterada, atingindo o ponto máximo em 2009 (1,7 noites) e mínimo Figura 11. Proveitos totais dos estabelecimentos hoteleiros da sub-região Douro (2000-2016).

Imagem

Figura 1. Mapa do Norte de Portugal e divisão em NUTS III.
Figura 2. Evolução da população residente no Douro entre 1864 e 2016.
Figura  3.  Representação  da  evolução  administrativa  do  território  duriense  no  período  1986- 1986-2013.
Figura 4. O Douro enquanto território e imagem percecionada.
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Referências

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