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(2) ANDRÉA LOPES PINHEIRO. O GRANBERY EM JUIZ DE FORA: PRIMÓRDIOS DA EDUCAÇÃO METODISTA NO BRASIL (1889 A 1905).. Dissertação apresentada como requisito para obtenção do título de Mestre em Educação, junto ao Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Linha de Pesquisa: Políticas e Gestão Educacionais. Orientadora: Profa. Dra. Roseli Fischmann.. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2015.
(3) A dissertação de mestrado sob o título “O GRANBERY EM JUIZ DE FORA: PRIMÓRDIOS DA EDUCAÇÃO METODISTA NO BRASIL (1889 A 1905)”, elaborada por Andréa Lopes Pinheiro foi apresentada e aprovada em 20 de março de 2015, perante banca examinadora composta por: Prof. Dra. Roseli Fischmann (Orientadora/Presidente/UMESP), Prof. Dr. Roger Marchesini de Quadros Souza (Titular/UMESP), Prof. Dr. Romulo Pereira Nascimento (Titular/UNICSUL). _________________________________________ Prof. Dra. Roseli Fischmann Orientadora e Presidente da Banca Examinadora e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-graduação em Educação Área de Concentração: Educação Linha de Pesquisa: Políticas e Gestão Educacionais.
(4) FICHA CATALOGRÁFICA. P655g. Pinheiro, Andréa Lopes O Granbery em Juiz de Fora: primórdios da educação metodista no Brasil (1889 a 1905) / Andréa Lopes Pinheiro. 2015. 141 p. Dissertação (mestrado em Educação) --Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2015. Orientação: Roseli Fischmann 1. Metodismo - Educação 2. Granbery - História - Juiz de Fora (MG) - 1889-1905 3. Brasil - História - República I. Título. CDD 379.
(5) AGRADECIMENTOS. Agradeço, em primeiro lugar, a Deus que me renovou as forças e as suas misericórdias para comigo a cada amanhecer, que me sustentou e me protegeu durante as viagens semanais entre Juiz de Fora/MG e São Paulo/SP. Agradeço aos meus familiares, mãe, marido, filhas queridas, que me apoiaram durante a trajetória cansativa e solitária. Agradeço especialmente à Professora Mestre Elaine Lima de Oliveira, minha querida reitora, primeira mulher a ocupar este cargo no Granbery, o qual exerceu com muita competência e dedicação. Ela, que muito me ensinou, me incentivou, foi a responsável por essa minha conquista e que agora está acolhida nos braços de Deus. Saudades. Agradeço à minha orientadora, Professora Doutora Roseli Fischmann que, com sua competência e generosidade, soube me acolher e me incentivar a continuar firme até o fim. Agradeço ao Granbery por existir e fazer parte da minha vida. Por ter me auxiliado com bolsa de estudo e liberação de um dia de trabalho para a realização desta pesquisa. Agradeço à Universidade Metodista de São Paulo, na pessoa de seu Reitor Professor Doutor Márcio de Moraes, que me agraciou com uma bolsa de estudos durante todo o curso. Não poderia deixar de agradecer ao Professor Ernesto Giudicce, coordenador do Arquivo Histórico e Museu do Granbery pela sua colaboração, cedendo-me fontes riquíssimas e originais para a pesquisa. À Professora Doutora Zeila de Brito Fabri Demartini e ao Professor Doutor Roger Marchesini de Quadros Souza pelas relevantes contribuições dadas no momento da qualificação. À minha equipe de trabalho que dividiu comigo as preocupações, ansiedades e que trabalhou com afinco para que, mesmo na minha ausência, tudo continuasse funcionando normalmente nas secretarias do colégio e da faculdade do Granbery..
(6) Agradeço, ainda, à Eneida, que me auxiliou na formatação e nos retoques finais do trabalho e também à Elen, minha cunhada, que me cedeu livros muito relevantes para a elaboração desta pesquisa..
(7) RESUMO. O presente trabalho procura analisar e avaliar a instalação de uma instituição de ensino metodista na cidade de Juiz de Fora/MG ao final do século XIX, bem como identificar e analisar a educação metodista, a partir de uma investigação a respeito do movimento religioso que se iniciou na Inglaterra, no século XVII, sob a liderança de John Wesley. Com a sua consolidação, o movimento adotou o nome de Metodismo, de acordo com a visão que observadores tinham a respeito do grupo de adeptos, sempre disciplinados, metódicos e comprometidos com a filosofia que acreditavam. A investigação se estendeu às demais regiões pelas quais o Metodismo se instalou, passando pela América do Norte, chegando ao Brasil e abrangendo o sudeste brasileiro, mais especificamente, a Zona da Mata mineira, na cidade de Juiz de Fora/Minas Gerais. O estudo bibliográfico apresenta reflexões sobre o processo de formação, desenvolvimento e expansão da doutrina religiosa metodista e sua concepção educacional. Busca também analisar as relações do Metodismo com o processo de formação e transformação política, social e cultural do Brasil, no final do século XIX, quando acontece a implantação do regime republicano em substituição ao regime monárquico. Além disso, procura analisar as contribuições da educação metodista na construção e desenvolvimento da educação brasileira, que, juntamente com a política estavam sendo pensadas e questionadas por um grupo social e intelectual em ascensão na sociedade brasileira naquele momento histórico. Juntamente com as obras consultadas, a análise documental utilizou os livros de atas da congregação dos primórdios da fundação da instituição, o primeiro livro de matrícula, os estatutos e regulamento e as revistas editados na própria instituição, além de fragmentos do mais importante jornal da cidade à época. A análise destes documentos permite que sejam comprovadas as reflexões realizadas à luz da história e da teoria pesquisada, que serviram de base na pesquisa. Palavras-chave: metodismo; educação; república..
(8) ABSTRACT. This thesis intends to analyze and evaluate the creation of an educational institution in the city of Juiz de Fora in the Nineteenth Century, analyzing as well the Methodist education. Therefore, the research combines historical study on the Methodist religious movement, which started in England, in the Seventeenth Century, under the leadership of John Wesley. The investigation brings information on how that movement came from other regions, in which Methodism was first installed, to Brazil. The thesis discusses the Methodist presence from North America to its arrival in Brazil. The geographical focus of the study is more specifically the region presently known as State of Minas Gerais, having its very point of start in the city of Juiz de Fora. The findings that came from the documental and bibliographical study allowed reflections on the formation process, development and expansion of the methodic religious doctrine and its educational conception. Additionally, the work is directed to exanimate the relation between Methodism and Brazil’s political, social and cultural formation process. It particularly stresses the general transformation of the Brazilian framework that occurred in the late Nineteenth Century, by the end of the Monarchy and beginning of the Republican regime to the Brazilian State. Furthermore, it is intended to analyze the methodic education – in the sense of the education based on the Methodist principles, values and practices – contributions. Particularly it analyses the Methodist contributions to the construction and development of the Brazilian`s education system. The documental analysis had been based in: the congregation minutes book from the very foundation of the institution; in the first registration book of the school; in the statutes and regalements; in the journals published by the institution itself at that time; and, finally, in fragments of the most important newspaper, so considered having in mind the period under study.. Key words: Methodism; education; Methodist school and university; Republican State in Brazil..
(9) LISTA DE ANEXOS. Anexo I: Localização Geográfica de Juiz de Fora........................................... 125. Anexo II: Localização do Granbery ................................................................. 126. Anexo III: Projeto do Prédio Granbery.............................................................. 127. Anexo IV: Foto do Prédio Granbery ................................................................. 128. Anexo V: Dados sobre imigração..................................................................... 129. Anexo VI: Censo de 1855 ............................................................................... 130. Anexo VII: O Pharol 13 março 1892................................................................. 131. Anexo VIII: O Pharol 27 fevereiro 1890 .......................................................... 132. Anexo IX: Brasão do Granbery ....................................................................... 133. Anexo X: Livro de Matrícula.............................................................................. 134. Anexo XI: Decreto de autorização ................................................................... 135. Anexo XII: O football no Granbery .................................................................. 136. Anexo XII: Jornal “A Infância” ......................................................................... 137. Anexo XIV: Revista Granberyense ................................................................. 138. Anexo XV: Hino Granberyense ....................................................................... 139. Anexo XVI: Hino do G de ouro ......................................................................... 140. Anexo XVII: Hino do sino ................................................................................ 141.
(10) SUMÁRIO. APRESENTAÇÃO................................................................................................... 11. 11.1 1.2 1.3. 16 16 32 41. O SURGIMENTO DO METODISMO E A EDUCAÇÃO ............................. As origens do movimento chamado Metodismo......................................... O Metodismo na América............................................................................ A chegada do Metodismo no Brasil ............................................................. 2-. A EDUCAÇÃO E O METODISMO NO BRASIL E EM JUIZ DE FORA NO SÉCULO XIX........................................................................................ 2.1 A educação na assembleia constituinte de 1823, nas constituições de 1824 e de 1891, o Ato Adicional de 1834 e outras legislações educacionais do Império e da transição para a república, no Brasil e em Minas Gerais............................................................................................... 2.2 Uma análise dos documentos norteadores da educação metodista no Brasil .......................................................................................................... 2.2.1 O Credo Social.......................................................................................... 2.2.2 O Plano para a Vida e a Missão da Igreja Metodista – PVM...................... 2.2.3 As Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista.................................... 2.3 Os pioneiros metodistas no Brasil e em Juiz de Fora................................. 3-. 55. 65 73 74 76 78 79. A IMPLANTAÇÃO DO GRANBERY EM JUIZ DE FORA: UMA NOVA PERSPECTIVA DE ENSINO..................................................................... O currículo formal e o currículo informal..................................................... Sobre a prática pedagógica e a relação escola-professor-aluno................ Sobre o método de ensino.......................................................................... O Espírito Granberyense............................................................................. O patrimônio imaterial e os símbolos.......................................................... O Hino Granberyense................................................................................. A Bandeira e o “G” de Ouro........................................................................ A Árvore...................................................................................................... O Sino.......................................................................................................... 82 97 101 104 105 106 108 108 109 110. CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................... 114. REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 122. ANEXOS.................................................................................................................. 125. 3.1 3.2 3.3 3.4 3.5 3.5.1 3.5.2 3.5.3 3.5.4.
(11) 11. APRESENTAÇÃO. Este trabalho é fruto de dois anos de pesquisa (2012-2014) e busca atender às exigências acadêmicas do programa de Mestrado em Educação da Universidade Metodista de São Paulo, tendo por objeto de estudo a análise da implantação do Instituto Metodista Granbery (denominação atual), em Juiz de Fora, Minas Gerais, no final do século XIX e os valores educacionais propostos pelos missionários metodistas que imigraram para o Brasil neste período histórico. A pesquisa possui também o objetivo de contribuir para o debate em educação por meio de uma tentativa em compreender a prática escolar dos protestantes metodistas que se instalaram no Brasil por volta de 1867. Inicialmente a denominação dada à instituição educacional foi Juiz de Fora High School and Seminary. Mas, logo após a fundação, em 1890, o nome foi alterado para Colégio Americano Granbery, por questões de adaptação aos costumes do país. Um pouco depois, em 1903, o nome é novamente alterado para O Granbery, ao mudar de local na cidade. Mais tarde, em 1936, a nominação da escola passa a ser Instituto Granbery e, em 1976, passou a chamar-se Instituto Granbery da Igreja Metodista. A denominação atual, Instituto Metodista Granbery, foi adotada em 2004. A escolha do tema abrange um estudo concomitante com a história do Metodismo tanto na Inglaterra, quanto nos Estados Unidos até a chegada dos missionários aqui no Brasil. Deve-se considerar a escassez de trabalhos relacionados ao tema e a falta de motivação dos estudiosos da educação em se aprofundarem na pesquisa de um grupo pequeno que se aventurou em territórios alheios, apresentando um modo diferente de ensinar e de educar. Apesar de pouco numeroso, o grupo representou um papel importante na história da educação brasileira. Além disso, o estudo torna-se ainda mais complexo e relevante, por conta da necessidade de pesquisa a respeito da história de diferentes nações, até chegar aos resultados esperados, ou seja, no próprio objeto de estudo deste trabalho. A vivência como funcionária e professora da instituição de ensino pesquisada foi a mola propulsora que instigou a curiosidade para investigar os fundamentos,.
(12) 12. princípios e primórdios da educação metodista e da instituição em si. Em 1999 fui nomeada Secretária Geral da Faculdade Metodista Granbery durante cerimônia que marcava o retorno do ensino superior no Granbery após 60 anos do fechamento do último curso, o de Pedagogia, em 1939. O Conselho Diretor vigente havia decidido sobre a abertura de cursos superiores que fossem necessários na sociedade de Juiz de Fora. Tive, então, o privilégio de participar da organização do recomeço universitário. Muito trabalho e bons resultados. O primeiro vestibular para o curso de Administração obteve um número de candidatos/vaga de 9,6. Aos poucos a faculdade foi se desenvolvendo, novos cursos foram abertos. Em 2007, fui convidada a fazer parte do corpo docente do curso de Pedagogia e comecei a lecionar as disciplinas Gestão Administrativa da Escola e Fundamentos e Princípios da Gestão Democrática. Com isto, obtive a oportunidade de ampliar os estudos e buscar mais conhecimento. Em 2010, frente a novos desafios, recebi a proposta de assumir também a Secretaria do Colégio, ficando responsável pelas secretarias do ensino superior e da educação básica. Essa nova experiência me proporcionou, mais uma vez, ampliação de conhecimentos a respeito da gestão educacional em seus diversos níveis. A análise da formação de uma instituição educacional protestante traz, obrigatoriamente, a necessidade de compreender a problemática do interesse pela educação e a ideologia da religião que se propôs a expandir suas ideias por meio de colégios e universidades criados em diversas partes do mundo. Desta forma, a presente investigação representou um desafio que levou à coleta de fontes e bibliografia que procurassem explicar tais propósitos. Neste sentido, este trabalho examina o ambiente histórico, abrangendo aspectos políticos, sociais e ideológicos, que envolvem a formação do projeto educacional metodista, que foi transplantado dos Estados Unidos para o Brasil ainda no século XIX, bem como as intenções e os objetivos traçados e alcançados pelos missionários. Distinguindo-se um pouco dos objetivos originais de Wesley, os missionários americanos se instalaram no Brasil com a preocupação social em formar lideranças para assumirem postos políticos e burocráticos no governo do país. Essa formação baseava-se, principalmente, no campo das ideias, na liberdade de pensamento e.
(13) 13. expressão, influenciados pela onda de movimentos republicanos e liberais que vinham marcando o pensamento político e ideológico das sociedades da época. Desta forma, pode-se notar ao longo da pesquisa que havia pontos convergentes entre o discurso modernizador da elite intelectual brasileira do sec. XIX e a prática educacional protestante. Além do embasamento teórico, os metodistas tinham um sonho de criar, a partir do Juiz de Fora High School and Seminary, uma Universidade Metodista no Brasil e um centro de formação de pastores para as Igrejas, e professores para as instituições de ensino que iriam ser fundadas no país. Apesar de interrompido em 1939, para os pioneiros o sonho tornou-se realidade. No Granbery, chegaram a funcionar seis cursos superiores de importante significado para a educação brasileira. O primeiro, Odontologia e Farmácia, foi a semente do curso de Odontologia da atual Universidade Federal de Juiz de Fora. Depois vieram os cursos de Teologia, Direito, Pedagogia e a Escola técnica de Comércio. Retomando a história e o sonho, o Granbery se recriou e abriu, em 1999, o curso de Administração, obtendo o recredenciamento para tornar a ser Faculdade novamente, dentro dos moldes legais da atualidade. Hoje, a Faculdade Metodista Granbery possui novamente seis cursos superiores: Administração, Sistemas de Informação, Pedagogia, Educação Física Bacharelado, Educação Física Licenciatura e Direito. Paralelamente ao ensino superior, o Granbery expandiu sua influência na área educacional e consolidou também o seu projeto na educação básica, com o propósito de proporcionar a base educacional aos futuros estudantes dos cursos superiores e do seminário. O momento histórico foi propício para a consolidação de tais propósitos. Nesta perspectiva, esta pesquisa está estruturada em três capítulos que apresentam as análises relatadas a seguir. No primeiro capítulo foi realizada uma retrospectiva histórica que buscou uma análise do surgimento do cristianismo no mundo para, então, compreender as origens e formação dos valores metodistas, os primórdios e o desenvolvimento do Metodismo na Inglaterra, país de origem do movimento, que, mais tarde, veio a se tornar uma Igreja protestante, instituída e reconhecida como tal, se espalhando por.
(14) 14. outros países. Os estudos de Geoffrey Blainey (2012) colaboraram com esta primeira parte do trabalho, pois além de abordar sobre a formação da era cristã, trata também dos fundadores do Metodismo e a influência que exerceram na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, em oposição às atitudes e pensamentos do clero e da nobreza anglicana que se confundia com o estado inglês. Já Heintzenrater (1996), colaborou com a sua análise detalhada e aprofundada a respeito da vida de John Wesley e da formação do Metodismo. O segundo capítulo realizou uma análise do contexto histórico brasileiro à época, ressaltando a relevância da instalação da República para a entrada dos missionários protestantes no Brasil e a criação de escolas não católicas. Analisou, ainda, a formação da cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, os fatores econômicos e sociopolíticos que influenciaram a história da cidade e que tornaram possível a instalação de uma escola protestante em seu território. Além disso, foi feita uma abordagem dos documentos norteadores do metodismo brasileiro, em busca de um embasamento para as questões levantadas na pesquisa a respeito do tipo de educação proposta pelo grupo religioso. O capítulo três se ocupou em apresentar a implantação do Instituto Metodista Granbery, baseada no arcabouço teórico-histórico e nas análises dos documentos coletados para este fim. Abordou a chegada dos primeiros missionários metodistas em Juiz de Fora e a trajetória que traçaram rumo à abertura da instituição de ensino na cidade. Além da bibliografia existente a respeito dos fatos históricos que influenciaram na formação das escolas metodistas, foi realizado um levantamento de documentos existentes no Museu e Arquivo Histórico do Granbery, organizados e conservados de maneira tal que possibilitou uma melhor compreensão sobre o objeto de estudo pesquisado. A análise documental constituiu-se em matéria-prima para o desenvolvimento da investigação e fechamento do trabalho.. Severino (2007). esclarece que No caso da pesquisa documental, tem-se como fonte documentos no sentido amplo, ou seja, não só de documentos impressos, mas sobretudo de outros tipos de documentos, tais como jornais, fotos, filmes, gravações, documentos legais. Nestes casos, os conteúdos dos textos ainda não tiveram nenhum tratamento analítico, são ainda.
(15) 15. matéria-prima, a partir da qual o pesquisador vai desenvolver sua investigação e análise (SEVERINO, 2007, p. 122).. Os dados coletados no Arquivo foram relevantes no sentido de revelar, com a própria realidade, as reflexões realizadas por meio da pesquisa bibliográfica e, ainda, comparar com as afirmações constantes dos documentos oficiais da igreja, tais como o Plano de Vida e Missão e as Diretrizes Educacionais da Igreja Metodista. A análise de conteúdo desses documentos de diferentes linguagens permitiu conhecer os sentidos manifestos nos diversos tipos de comunicação encontrados. Ainda segundo Severino (2007), a análise de conteúdo Envolve, portanto, a análise do conteúdo das mensagens, os enunciados dos discursos, a busca do significado das mensagens. As linguagens, a expressão verbal, os enunciados, são vistos como indicadores significativos, indispensáveis para a compreensão dos problemas ligados às práticas humanas e a seus componentes piscossociais. As mensagens podem ser verbais (orais ou escritas), gestuais, figurativas, documentais (SEVERINO, 2007, p.121).. Nas considerações finais os pontos mais importantes foram destacados em busca de se fazer uma síntese do estudo, não com a intenção de se chegar a conclusões definitivas, mas de abrir caminhos para outros, interessados no assunto, ampliarem a pesquisa e darem continuidade à investigação a respeito das contribuições dos metodistas para a construção da história da educação brasileira..
(16) 16. CAPÍTULO 1 O SURGIMENTO DO METODISMO E A EDUCAÇÃO. No presente século de gigantesco progresso científico e tecnológico, a Igreja Metodista reafirma a verdade proclamada por João Wesley, no século XVIII, na Inglaterra: “Vamos unir ciência e piedade vital há tanto tempo separadas”(CÂNONES, 2012-2016, p.53).. A história do surgimento do Metodismo é permeada de aspectos importantes que marcaram a história das nações europeias, para depois se propagar pelo mundo. O seu fundador, John Wesley, é considerado por muitos um homem que transformou a sociedade onde vivia e influenciou a trajetória política, social, cultural e educacional da Inglaterra. Apesar do caráter religioso, o movimento nasceu com características educacionais combinadas aos aspectos sagrados. Percebe-se que, onde se vê uma igreja Metodista, também se pode encontrar uma escola ao lado. Este e outros fatos proporcionam à Igreja Metodista traços característicos de um movimento reformador e educativo. Para um melhor entendimento de tais aspectos, começaremos este capítulo com o item que trará um pouco da história do Metodismo, suas origens e os princípios. que. firmaram. os. fundamentos. deste. movimento,. marcado. por. características educativas, que marcou a sociedade da Inglaterra e se expandiu pela América.. 1.1 As origens do movimento chamado Metodismo. Mesmo sabendo que todo relato sobre o começo e a origem das coisas vem sempre carregado de inexatidão, este capítulo tem como objetivo relatar um pouco da história do Metodismo, seus primórdios, princípios e fundamentos e a relação marcante que este movimento religioso estabeleceu com a educação, primeiramente na Inglaterra e posteriormente em outros lugares do mundo. O movimento metodista, também chamado de Protestantismo de Missão, nasceu no seio da Igreja Anglicana em pleno século XVIII, na Inglaterra. Seu.
(17) 17. fundador foi John Wesley, a quem a partir deste ponto vamos chamar de Wesley, que nasceu em 1703 e faleceu em 1791. Estudou na Universidade de Oxford para onde posteriormente retornou, assumindo a função de professor. Estas informações, por si somente, não seriam suficientes para o entendimento de como surgiu o movimento metodista. Para tanto, faz-se necessária a exposição de alguns dados históricos relacionados à trajetória política e religiosa do local de origem do Metodismo, a Inglaterra do século XVIII. De acordo com Heitzenrater(1996), o movimento sofreu influências da herança cristã inglesa, mas encontrou nos sermões de Wesley “a força de uma nova preocupação com a renovação tanto individual como institucional” (Heitzenrater, 1996). Wesley revelava em suas pregações nas igrejas rurais da Inglaterra uma grande preocupação com os menos favorecidos da sociedade da época. O incentivo à solidariedade e ao cuidado com os pobres, doentes, órfãos e viúvas e para com aqueles que possuíssem menos oportunidades na vida caracterizou o ascetismo1 do movimento, como uma marca que sempre acompanhou a história do metodismo ao longo dos anos. As ações praticadas em busca da verdadeira virtude fizeram com que Wesley organizasse várias frentes de obras sociais, evidenciando a preocupação com os seres humanos como um ponto marcante de sua doutrina. Para ele, a fé, a experiência pessoal com Deus e o fazer o bem caminhavam juntos, compondo um tripé resistente e indispensável para quem o quisesse seguir. Alguns exemplos podem ser citados a respeito das obras sociais organizadas por Wesley. Na sede principal do movimento em Londres, localizada numa antiga fábrica de fundição, ele montou um ponto de distribuição de remédios, possibilitando tratamento de saúde àqueles que não tinham dinheiro para comprar os medicamentos. Nas palavras de Heitzenrater, “Wesley também começou a equipar a fundição para atender muitas outras crianças que vagavam pela rua como “potros selvagens”, e seus pais não podiam enviá-las à escola” (HEITZENRATER, 1996, p.167). Os projetos contavam com a ajuda financeira de alguns abastados que eram simpáticos às ideias de Wesley. 1 De acordo com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, a palavra “Ascetismo” significa a prática da ascese, ou seja, o exercício prático que leva à efetiva realização da virtude (FERREIRA, 2005, p. 145)..
(18) 18. A ênfase sempre presente na educação das pessoas foi uma das bases que fundamentaram o metodismo. Já na primeira Conferência organizada por Wesley em 1744, ele deixou bem claro que a proposta do movimento era ser uma doutrina de ensino e que haveria ainda uma metodologia própria para ensiná-la, que orientaria o comportamento dos adeptos ao movimento. As primeiras experiências relacionadas à educação podem ser notadas nas reuniões feitas nos lares dos simpatizantes, com o objetivo de estudar as escrituras e compartilhar experiências de vida. Por ter sido um homem voltado ao conhecimento e à cultura, Wesley exigia dos seus pregadores um exercício constante ao estudo e à busca de conhecimento geral e da Bíblia. Outra evidência de que o movimento surgia marcado por características educacionais, encontra-se na formação das escolas dominicais. Inicialmente, as escolas dominicais serviam de espaço para o ensino elementar às crianças, acrescido da instrução religiosa. A duração destas aulas era de 8h da manhã até às 19h (HEITZENRATER, 1996). Desta forma, os ensinamentos de Wesley estavam sempre voltados ao exercício do amor ao ser humano, à preocupação com a formação de cidadãos, suprindo-os em suas necessidades básicas, de sobrevivência, saúde, educação e alimento espiritual. As bases cristãs do movimento herdadas da Igreja inglesa se iniciam no reinado de Henrique VIII, que teve início em torno de 1520 e que, sob a influência das reformas protestantes que aconteciam na Europa, separou a Igreja Inglesa da Igreja de Roma e a colocou sob o comando da monarquia. Especificamente, no caso da Inglaterra, Henrique VIII fez da Anglicana a igreja oficial, que coroava os reis e chefes de Estado numa harmoniosa união e troca de interesses. Neste ponto, a Inglaterra se destacou quando lançou os primeiros indícios de rompimento entre a igreja oficial, a Católica Romana, e a política. O rei Henrique VIII tinha razões fortes para se opor à Igreja de Roma, mas entrou em contenda com a figura do papa Leão X também por motivos pessoais. O monarca não possuía filhos e por isto rejeitou sua primeira mulher, Catarina de Aragão, para se unir à Ana Bolena, que era dama de companhia da esposa. Ele se casou várias vezes em.
(19) 19. busca de um filho saudável que pudesse herdar o trono. Segundo Blainey (2012), este foi o motivo da desavença de Henrique VIII com o chefe da Igreja Católica, que não aprovava a separação e novo casamento, além de outros motivos políticos. O rei então desafiou o papa, até o ponto de ser decretada a sua excomunhão. Com a ajuda de alguns teólogos e bispos, a monarquia tornou-se a figura central da Inglaterra, infundida nas ideias reformistas lançadas na Alemanha por Martinho Lutero. Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica e aderiu à Reforma Protestante. Ainda segundo Blainey (2012), Martinho Lutero, em alemão Martin Luther, nasceu na cidade de Eisleben, em um lar relativamente simples, filho de um minerador experiente em seu trabalho, que decidiu incentivar o filho a estudar na Universidade de Erfurt. Graduou-se no curso de Filosofia, mais tarde formou-se em Direito e, em seguida, tornou-se bacharel em Teologia, quando passou a dar aulas na mesma Universidade em que estudou. Em 1507 tornou-se monge agostiniano e em 1511 foi transferido para Wittenberg onde começou a pregar e onde fez doutorado em Teologia. À medida que se aprofundava em seus estudos e na interpretação da Bíblia Sagrada, Lutero se incomodava em descobrir o verdadeiro sentido das indulgências praticadas pela Igreja Católica e pelos sinais de luxo e riqueza emitidos pelos sacerdotes líderes da igreja. Lutero colocou em dúvida o destino do dinheiro pago pelos fiéis a troco de penitências pessoais, perdão dos pecados presentes e futuros e pela certeza que o tempo de suas almas no purgatório seria reduzido. Algumas evidências demonstravam que os montantes arrecadados financiavam a construção de pontes e templos, inclusive a Igreja de São Pedro em Roma, e também custeavam a vida luxuosa dos líderes religiosos. “Ele achava absurdo que “o tilintar de uma moeda na caixa de coleta” liberasse uma alma do doloroso purgatório” (BLAINEY, 2012, p.174). Por estas razões é que Lutero elaborou um documento com 99 teses ou objeções que foram afixadas na porta da Igreja do castelo de Wittenberg. As teses consistiam num protesto contra diversos pontos da doutrina católica romana. Para Blainey (2012), o gesto de Lutero representava mais um chamado para o debate do que um ato de rebeldia..
(20) 20. Neste cenário, foram iniciadas diversas reformas cristãs por toda a Europa. A passagem do feudalismo para o capitalismo, da Idade Média para a Idade Moderna foi marcada por tais reformas que combatiam os abusos de poder praticados pela Igreja Católica, que, além de outras práticas abusivas, combatia o acúmulo de riquezas, porém, se enriquecia de maneira crescente, principalmente com a venda do perdão pelos pecados do povo, caracterizando as vendas de indulgências. Neste sentido, a burguesia nascente da Revolução Industrial, também resolve se levantar contra esta e outras situações. Afinal de contas, outros além do clero e da nobreza, poderiam desejar a obtenção de bens e ajuntar riquezas. Blainey (2012) comenta que rapidamente o movimento reformista se expandiu pela Europa, atingindo o Reino Unido, a Bélgica, Suíça, França e os Países Baixos, aliado às ideias anticlericais e liberais que fervilhavam no meio da política europeia. Assim, é possível afirmar que a Reforma Protestante semeou os fundamentos da democracia do mundo moderno. Blainey (2012) explica que para os reformistas importava que os seres humanos soubessem ler para terem acesso ao que estava escrito na Bíblia e, por meio dela, tivessem contato direto com Deus, sem a necessidade de mediação por sacerdotes, tais como os bispos, padres ou o papa. Ou seja, em termos religiosos, um chamado para o acesso democrático e ao mesmo tempo individual à mensagem da salvação. É possível reconhecer a relação do movimento protestante com a democracia e com o incentivo à busca de conhecimento. Somente um povo culto e letrado poderia entender, por meio da leitura da Bíblia, o que realmente poderia significar Deus em suas vidas. Consequentemente, poderiam ter suas vidas transformadas e melhoradas se entendessem a importância do discernimento que iriam obter se tivessem acesso à instrução. Nesta perspectiva, o espírito democrático caracterizou o protestantismo, pois os reformistas eram contra a hierarquização valorizada pelos católicos, que tirava a liberdade dos indivíduos de se reportarem diretamente a Deus e de se organizarem nas suas próprias instituições religiosas. Observa-se que a tolerância religiosa não era algo concebível nessa época. O direito de rejeitar a religião não existia, qualquer que fosse a escolhida. Não havia a liberdade que se observa nos tempos modernos..
(21) 21. Blainey (2012) diz que “com ou sem intenção, os provocadores da Reforma lançaram a pedra fundamental da tolerância religiosa” (BLAINEY, 2012, p. 222). Ainda hoje, as reflexões sobre a tolerância, abrangendo diversas áreas, fazem-se necessárias e estão presentes na modernidade. Neste sentido, Roseli Fischmann (2012), em seus estudos a respeito do Estado laico e educação, comenta que. ... foi a partir da Reforma de Lutero que a explicitação de divergências se traduziu em cisma no interior da instituição católica...Essa ruptura da unidade cristã, unidade essa que antes se manifestava no catolicismo, exclusivamente, trouxe para as sociedades europeias de então, tanto a possibilidade da discordância aberta e, eventualmente, do debate, quanto da necessidade de encontrar novas formas de convivência entre diferentes modos de pensar e crer (FISCHMANN, 2012, p. 33).. Rumo à reforma, e mais especificamente na Inglaterra, os cultos passariam a ser proferidos em inglês e não mais em latim e o cabeça da Igreja seria o monarca e não mais o papa. Segundo Blainey (2012), a supremacia eclesiástica, doutrinária e política da Igreja Católica estava sendo criticada e todos os assuntos que abordassem estes aspectos iriam passar pelo crivo de sessões parlamentares, limitando, desta forma, a influência do papa e da Santa Sé de Roma sob a política inglesa. Novamente, neste ponto, nota-se uma forte ligação das reformas protestantes com os princípios da democracia e também do nacionalismo.. O. sentimento de nação foi, aos poucos, tomando conta das pessoas enquanto aconteciam os movimentos revolucionários e reformistas em diversas partes do mundo. A democracia do mundo moderno, crescente na segunda metade do século XIX, dependeu e muito da disseminação do conhecimento e evolução da ciência. E foram as reformas anti-católicas as principais responsáveis pelo incentivo, mesmo que indireto, à educação. A valorização da educação pelos protestantes provocou nos católicos uma reação também voltada à abertura de escolas e à popularização do ensino. O aumento da abrangência do ensino entre as classes menos favorecidas pelas escolas católicas e pelos governos apresentou-se muito mais.
(22) 22. como uma preocupação política e religiosa do que social, evidenciando as relações de poder entre as instituições. Outro aspecto importante a ser destacado foi o surgimento da imprensa em meados do século XV, que colaborou intensamente com a propagação do conhecimento. Aos poucos, versões da Bíblia Sagrada apareceram traduzidas para a língua inglesa, revertendo a tendência da predominância do latim nos escritos sagrados. De acordo com Blainey (2012), um industrial da área de vestuários, William Tyndale estudou profundamente todas as traduções da Bíblia existentes na época e conseguiu traduzir o Novo Testamento para o inglês em 1525, usando uma linguagem mais aproximada da população comum e não da aristocracia. A divulgação da nova tradução conquistava confiança e novas terras, disfarçadas em fardos de tecidos. Blaynei explica que:. ...as primeiras cópias da Bíblia de Tyndale, recém-impressas em Worms, tinham de ser levadas às escondidas para pequenas embarcações no rio Reno, de onde eram transferidas para veleiros no mar do Norte, chegando aos mais próximos portos da Inglaterra, então um país católico, pois Henrique VIII ainda não tinha rompido com o papa (BLAYNEI, 2012, p.189).. Contudo, com a morte de Henrique VIII, assume o trono Eduardo VI, que, por sua vez, falece, deixando o reinado para a sua irmã, Maria. Maria, fervorosa católica, enviou para o exílio as pessoas com inclinações protestantes (anti-católicos), numa tentativa de um retorno da Inglaterra ao catolicismo romano. Porém, segundo Heitzenrater (1996) a semente reformadora já havia germinado e, após sua morte, os exilados retornaram ao país, determinados a darem continuidade à reforma iniciada no reinado de Henrique VIII. Enquanto isto, em Genebra, Calvino começou a liderar um movimento reformador e ainda mais radical, denominado posteriormente de Calvinismo, baseado em ideias de um grupo chamado de “puritanos”. Segundo Blainey (2012), o grupo, na sua grande maioria, vindo do exílio, marcou a luta pela reforma da Igreja cristã na Inglaterra, numa tentativa de purificar o país de corrupções consideradas.
(23) 23. por eles anti-bíblicas, tais como os adornos e vestimentas nos serviços religiosos, considerados uma afronta à pobreza, e o abuso de poder da liderança eclesiástica. Os puritanos acreditavam que poderiam viver a santificação no cotidiano de suas vidas, durante suas atividades laborais. Corroborando com Blainey(2012), Mendonça(1984) comenta que “Não se pode, portanto, com exatidão dar uma definição do puritanismo. É um modo de ser, de ver os homens e as coisas sob o prisma da fé religiosa. É, essencialmente, um modo de viver”(Mendonça, 1984, p. 37). As. ideias. eclesiásticas. dos. calvinistas. puritanos. contribuíram. consideravelmente para a expansão do protestantismo como um todo e especialmente para a formação do movimento metodista. Quanto a esta questão, Mendonça (1984) explica que:. Os metodistas continuaram enfatizando o conflito penitencial (arrependimento), a convicção de pecado e a experiência pessoal da regeneração. Em seus pontos principais, a teologia de Wesley é Reformada e Puritana, especialmente na ênfase moral” (MENDONÇA, 1984, p. 41).. Em contraposição a estas novas doutrinas surgidas dentro dos movimentos reformistas, emerge uma tentativa de redefinição do catolicismo romano no Concílio de Trento (1545 a 1563). Contudo, firme em seus propósitos, Calvino influenciou os reformadores exilados no reinado de Maria, obviamente aqueles que venceram a morte, que trouxessem suas “Bíblias Calvinistas como um manual para a reforma da Igreja” (HEITZENRATER, 1996, p.7). Outro grupo que merece destaque pela sua influência na composição da história do Metodismo, são os “arminianos”, que seguiam as ideias de Jacob Arminius(1560-1609). Arminius se opôs à teologia calvinista no ponto a que se refere à 2predestinação, ou seja, ao total poder e controle divino sob a vontade humana. De acordo com Heitzenrater(1996), Jacob Arminius considerava esta ênfase demasiada. Para Lutero e Calvino consiste em uma crença fundamental: que Deus escolhe aqueles a quem será dada a salvação, e que a pessoa não pode fazer nada para ganhar esse dom. A única ação humana possível é responder com fé (Heitzenrater, 1996).. 2.
(24) 24. na doutrina calvinista e que destruiria a realidade da escolha e responsabilidade humana, também chamada por outros de livre arbítrio. Arminius não aceitava a ideia de ser predestinado, escolhido, e defendia a “expiação universal” – Cristo morreu por todos – pois a vontade humana, de escolha pela fé, é que iria determinar a salvação. Ainda nesta direção, outro grupo influiu na formação do movimento chamado metodista, também de uma maneira marcante. Foram os pietistas, representantes do movimento chamado “Pietismo”, que acontecia paralelamente na Alemanha. Neste país a oposição se revelava contra a Igreja Luterana. O desejo dos reformistas era o de reavivar os atos de piedade na Igreja, focalizando as Escrituras como a única autoridade sobre a vida e os pensamentos dos cristãos. Dentre as ideias lançadas pelos pietistas, pode-se destacar a renovação da igreja com um maior envolvimento dos leigos, uma maior ênfase no cuidado uns para com os outros, em contraposição à habilidade que possuía o clero em promover debates com o intento de revelação do próprio saber e do conhecimento adquiridos, por meio do privilégio que tinham de acesso à cultura (HEITZENRATER, 1996). Nesta perspectiva, a prática cristã deveria superar os dotes intelectuais, as pregações deveriam estar voltadas à salvação e não somente para a exortação, e, por fim, uma maior preocupação com os aspectos morais e espirituais na vida do pastor e do pregador. Devido a estes aspectos é que o Pietismo foi apelidado por alguns escritores da época de “Teologia do Coração”. A prática disseminada pelo grupo consistia no estudo da Bíblia e rituais de orações em pequenos grupos de leigos que se reuniam nas casas dos adeptos, com a finalidade de se alimentarem espiritualmente e, assim, se prepararem para o trabalho de campo no cotidiano das cidades escolhidas para abrigarem as “sociedades” e na pregação do evangelho nos arredores. Semelhantemente, na Inglaterra, as reuniões dos grupos de fiéis reformistas foram denominadas de “sociedades religiosas”. Eram assim chamadas, pois se constituíam de um grupo de pessoas que se reuniam nas casas uns dos outros, com o intuito de estudar a Bíblia e aumentarem os laços entre si, em busca de uma vida mais santificada, notando-se aqui a contribuição emotiva do movimento pietista da Alemanha..
(25) 25. Segundo Heitzenrater(1996), tais sociedades pretendiam uma reforma moral na Inglaterra realizada minuciosamente, passo a passo, na incessante busca de atingir os nobres objetivos traçados, por meio da ascese anteriormente referida. Lentamente, individualmente e pacientemente, trabalhavam para a transformação da sociedade inglesa, pregando para uma pessoa de cada vez a respeito dos ensinamentos bíblicos, da salvação no evangelho de Cristo e da possibilidade de arrependimento e mudança de vida. Não havia uma preocupação de se ter um programa maior de reforma ou de se obter adeptos em números ou quantidade. Para eles o que importava era a qualidade dos resultados alcançados por meio de métodos educacionais que adotavam. A ênfase e importância dada à Educação aparecem, na história do metodismo, sempre ao lado do sentimento solidário para com as pessoas. Wesley acreditava que se as pessoas possuíssem instrução se tornariam melhores e mais felizes. A educação no Metodismo será analisada com mais detalhes no segundo capítulo deste trabalho. O incentivo às obras de caridade era motivado pelo estímulo ao interesse contínuo pelo semelhante. Trabalhavam junto aos pobres e doentes com a intenção de melhorar o bem estar econômico destas pessoas, porém, acima de tudo, melhorar suas vidas no aspecto moral e espiritual. Acreditavam que a pobreza e o analfabetismo crescente naquela época na Inglaterra eram a causa para o aparecimento de tantos vícios e atos de imoralidade. A razão de tanta pobreza estava na crescente urbanização e proletarização do trabalho na Inglaterra, que foi o país pioneiro na modernização da economia e no desenvolvimento do mercantilismo, inaugurados com o advento da Revolução Industrial. Neste sentido, as massas de trabalhadores das minas e das fábricas trabalhavam e moravam sob condições precárias, em favelas e, segundo Mesquida (1994), “este proletariado urbano, para aliviar sua situação de penúria, fazia uso do álcool ao mesmo tempo que, para sobreviver, apelava para a mendicância, a prostituição, o roubo”(MESQUIDA, 1994, p. 95).. O autor ainda enfatiza que a Igreja Anglicana não se importava com o sofrimento do povo, pois, “seu clericalismo, seu formalismo religioso e litúrgico, sua.
(26) 26. pompa aristocrática a aproximavam das elites e a afastavam dos pobres” (MESQUIDA, 1994, p. 95). Esta situação explica o empenho das sociedades constituídas pelos metodistas na criação de escolas e albergues destinados a ensinar trabalho e disponibilizar a cultura aos pobres e, assim, ajudá-los a saírem da condição de pobreza que, na maioria das vezes, os levavam a situações de mendicância, desemprego e vícios. Por esta razão, as sociedades criavam bibliotecas de empréstimo e incentivavam visitas às prisões com o intuito de levar livros e instrução aos presos. A influência familiar na vida de Wesley contribuiu fortemente para o surgimento do Metodismo com características sociais voltadas para a educação. Samuel, seu pai, foi fundador e membro ativo do trabalho das chamadas “sociedades religiosas”. Susan, sua mãe, apesar da condição de mulher, minimizada à época, foi uma grande incentivadora, pois era encarregada da educação inicial de seus dezenove filhos, dos quais Wesley era o décimo quinto, e exercia esta atividade com afinco e disciplina. Além disso, os sermões semanais na casa dos Wesley também contribuíram para a formação religiosa da família. O estímulo familiar levou Wesley a estudar na Universidade de Oxford, a ponto de, mais tarde, se tornar professor da instituição na qual estudou (HEITZENRATER,1996). A instrução de Susan, mãe de Wesley, marcou a história do metodismo, pois se pode notar nas cartas que escreveu a seus filhos, até hoje preservadas, o grau de estudo que possuía. Vale ressaltar que Susan não se descuidou na educação de suas filhas, numa época em que mulheres não eram ensinadas e nem possuíam o direito de ingressarem nas Universidades. Ela priorizou a educação na sua casa, antes mesmo de ensinar as prendas domésticas para as meninas (HEITZENRATER, 1996). O valor e incentivo aos estudos cultivados no ambiente familiar foram motivos de inspiração aos trabalhos de Wesley e, mais tarde, da identidade que o Metodismo adquiriu, tornando-se uma religião que educa. Ao longo de toda a sua vida, Wesley cultivou o apego aos estudos. Passados alguns anos do surgimento do Metodismo, pode-se afirmar que John Wesley criou uma teologia que foi fruto da união entre dois sentimentos: o amor, ou a importância devida ao estudo, e a necessidade de disciplina e santidade..
(27) 27. De acordo com Heitzenrater (1996), mesmo sabendo que muitos pregadores eram iletrados, os irmãos Wesley sempre tentavam combinar doutrina com disciplina e ensinamento, munindo os pregadores com publicações próprias e livros acadêmicos. À medida que Wesley foi diminuindo suas viagens por causa da idade, aumentava o número de publicações próprias sob a forma de jornal e sermões. Em seus escritos, segundo Heintzenrater (1996), o próprio Wesley destacou três etapas no surgimento do Metodismo, que se desenvolveu entre 1725 e 1739. A primeira aconteceu em Oxford, a segunda fase na Geórgia (EUA) e em seguida, Londres. Heitzenrater (1996) explica que, em torno de 1720, Wesley ingressou na Universidade em Oxford, iniciando sua vida acadêmica com a obtenção do grau de bacharel em Artes e seguindo com a formação teológica desejada. Tinha seu irmão Charles Wesley como um companheiro que, a partir de certo ponto, passou a compartilhar de suas ideias religiosas. Juntaram-se aos dois alguns simpatizantes, que se tornariam amigos, animando uns aos outros nas atividades acadêmicas e religiosas. Os componentes do pequeno grupo se reuniam nos quartos que dormiam na Universidade para “estudar, orar e discutir assuntos religiosos” (HEITZENRATER, 1996, p. 38). Aos poucos, as atividades do grupo foram se expandindo, sendo eles reconhecidos em Oxford como um grupo de jovens disciplinados, que ajudavam as pessoas carentes, viúvas, presos, tanto com recursos materiais quanto com alimento espiritual. Por outro lado, a violência e ironia dos demais estudantes da universidade também se manifestaram por meio de brincadeiras e apelidos, os denominando de “O clube santo” (HEITZENRATER,1996). Os hábitos regrados também serviram de inspiração para que os inimigos os chamassem por outro tipo de apelido: os “metodistas”. Os dias marcados para reuniões, os reservados para jejum e oração, a organização do grupo nas visitas aos pobres e desabrigados, faziam com que as pessoas em Oxford os vissem como sistemáticos, metódicos, guiados por regras radicais. Por estas razões, o nome: Metodista ou Metodismo. Wesley não se agradava desta denominação, porém, aos poucos, a identificação ficou marcada pelo termo, não havendo mais como se desvencilhar.
(28) 28. deste nome. Conformado, Wesley passa a citá-lo em seus próprios sermões, apesar de nunca ter pensado em institucionalizar suas ideias e práticas religiosas numa determinada religião, pois mesmo discordando das práticas e doutrinas religiosas da Igreja Anglicana da Inglaterra, Wesley não cogitava romper com a Igreja (Heitzenrater, 1996) e inaugurar uma nova igreja paralela. Contudo, é preciso ressaltar alguns pontos de discordância relacionados às práticas religiosas como, por exemplo, o fato de que a Igreja inglesa não aceitava o hábito das pregações ao ar livre, nas ruas, campos, praças e cemitérios das cidades. Segundo Heitzenrater (1996), Wesley aderiu a esta prática por ter sido impedido, por algumas vezes, de pregar nos templos. por causa dos temas. abordados em suas pregações. Tal impedimento não enfraqueceu o ímpeto de pregar o evangelho e em decorrência deste fato, Wesley proclamou a sua famosa frase “O mundo é a minha paróquia”. Heitzenrater (1996) explica que a pregação ao ar livre não era ilegal na Inglaterra, mas era irregular, pois estava associada à prática de dissidentes e heréticos. Animado com o aumento de seguidores e com a chegada de novos membros e, ainda, para atender a um desejo de seu pai, no leito de morte, Wesley e o grupo resolve expandir o movimento para a Georgia (EUA), caracterizando a segunda etapa do surgimento do Metodismo, como ele próprio declarou. Conforme Heitzenrater (1996), a permanência de Wesley na Geórgia teve a duração de apenas dois anos (1736-1738). Ele conseguiu a adesão de algumas pessoas que se voltaram aos seus sermões, constituindo uma sociedade religiosa em Savannah. Também se voltou para a evangelização dos indígenas da região, mas não obteve o sucesso que esperava. O êxito foi maior entre os negros americanos que trabalhavam sob o regime de escravidão nas fazendas do local, evidenciando a constante preocupação e compaixão quando o assunto era o tratamento desumano. Dedicou seu tempo também na escola em Savannah, ensinando as crianças a contar, ler e escrever e, nas manhãs, antes das aulas, as instruía sobre o catecismo. Quanto aos adultos, ele os orientava à noite, após o expediente de trabalho. Contudo, alguns desafetos pessoais fizeram com que Wesley deixasse a Georgia, muito desapontado, porém consciente de que tudo que passara naquele lugar havia contribuído para o seu crescimento pessoal e espiritual. Conta.
(29) 29. Heitzenrater (1996) que nas viagens de ida para a Georgia e de retorno à Inglaterra, Wesley enfrentou tormentas no mar e declarou, em seus escritos, que sentiu muito medo e que precisava aumentar a sua fé para sentir mais segurança em Deus. Chegou até mesmo a declarar que ainda não era convertido, ou seja, não tinha convicção na sua crença. Foi então, que nestas viagens, se encantou com os morávios que estavam no barco, pois até as mulheres e as crianças que estavam entre eles não se assustavam diante da tempestade e afirmavam que a segurança deles estava em Deus e que não temiam o perigo. Foi aí o seu primeiro contato com os moravianos (originários da atual República Tcheca), que também iriam servir de inspiração a Wesley ao longo de sua caminhada cristã. O coração3 de Wesley se transformou a partir das experiências que viveu junto aos morávios, no curto período de tempo que permaneceu na Georgia e nos traslados marítimos de ida e volta para a Inglaterra. Após retornar da Geórgia (EUA), começa então o “terceiro surgimento do metodismo”, como o próprio Wesley denominou quando do seu retorno a Londres. Aí chegando, ainda desanimado com a experiência frustrada na América, ele foi incentivado mais uma vez pelo pietismo dos morávios com os quais mantinha sempre contato. Segundo Heitzenrater(1996), após sua volta da Georgia, a ênfase das pregações de Wesley passou a ser a respeito da segurança da fé. De volta às atividades em Londres e empenhado na sua incessante busca da evidência de frutos espirituais, tais como a fé, alegria e a paz, Wesley passa por uma importante experiência espiritual numa das sociedades religiosas que frequentava, situada à rua Aldersgate, no dia 24 de maio de 1738. Ele próprio conta que, ao ouvir a palavra de alguém que estava pregando nesta reunião sobre. “a mudança que Deus opera pela fé em Cristo, eu senti meu coração estranhamente aquecido, senti que acreditava em Cristo, apenas em Cristo para a salvação, e uma segurança me foi dada que Ele havia levado meus pecados, sim os meus, e me salvado da lei do pecado e da morte”(J&D, 18:249-50 apud HEITZENRATER,1996). 3. A escolha da expressão “coração de Wesley” deve ser entendida neste trecho como as “convicções” ou “certezas” de Wesley a partir da experiência historicamente denominada de “experiência do coração aquecido”..
(30) 30. Esta experiência é conhecida e lembrada até os dias atuais nas igrejas metodistas como “A Experiência do Coração Aquecido”, comemorada no dia 24 de maio de cada ano e que inspirou a escolha do símbolo da Igreja Metodista, a cruz vazia e a chama que aquece o coração. Seguindo rumo ao alcance dos seus objetivos, mais animado e com o espírito reavivado, Wesley expandiu o movimento, a partir de 1739, em direção à Escócia e Irlanda e conseguiu instituir com regularidade encontros com todos os seus pregadores, aos quais ele denominou de “conferências anuais”, que correspondem os atuais concílios. Tais encontros tinham como objetivo promover uma maior unidade entre as sociedades espalhadas no âmbito de atuação do movimento. Em consonância com estes fatos, Mendonça (1984) refere-se ao movimento metodista como “o grande avivamento de João Wesley” (HEITZENRATER,1996, p. 40). Devido à importância das sociedades, Wesley entendeu que deveria haver maior firmeza e unidade entre as mesmas, o que fez com que promovesse a conexão das sociedades, através das conferências anuais. Neste sentido, a partir de 1747, o movimento metodista tomou rumos a se tornar uma religião sólida e organizada (HEITZENRATER,1996). Ainda segundo Heitzenrater (1996), na conferência de 1745, a discussão girou em torno da ênfase dos recursos literários para os pregadores e o esforço em publicações próprias. Wesley estava preocupado com isto e desejou até mesmo viajar menos para escrever mais instruções principalmente para os pregadores, que, em sua maioria, eram homens com pouca instrução. Para ele, os pregadores precisavam ser cultos, terem gosto pela leitura para que pudessem, desta maneira, atingir as pessoas com as suas palavras. Mais uma vez aqui é possível identificar a ênfase dada por Wesley à educação como um instrumento de formação e transformação das pessoas, tanto para o povo em geral, quanto para aqueles que seriam designados para a pregação dos escritos sagrados e da doutrina metodista. John Wesley surpreendeu a Inglaterra do século XIX sendo um dos pioneiros no oferecimento da educação popular, chegando a formar líderes sindicais e políticos que contribuíram para a transformação da sociedade inglesa (HEITZENRATER,1996)..
(31) 31. Por esta razão, o movimento se caracterizou pela utilização de publicações, tais como panfletos, cartas e publicações específicas que serviam como uma espécie de guia doutrinário. Após cada conferência realizada, eram publicadas as atas, chamadas por eles de minutes, acompanhadas de publicações em forma de jornal. Além disto, foram feitos muitos panfletos com hinos, material catequético e devocional e ainda havia o desejo de ter os sermões de Wesley publicados em coleção. O fundador do Metodismo queria atingir toda a humanidade. Segundo Heitzenrater,. Em 1748, Wesley publicou o segundo volume dos Sermões que apresentava uma distinta diferença de tom do primeiro. A Conferência naquele ano aboliu a ênfase quase exclusiva na pregação ao ar livre e deu mais destaque à formação das sociedades, nas quais a vida cristã poderia ser edificada (HEITZENRATER, 1996, p. 177).. Nesta direção, o movimento se fortalecia, contudo não se pode ocultar as perseguições enfrentadas ao longo da trajetória dos metodistas.. Por diversas. ocasiões eles foram alvos de pedras, sujeira, ovos podres, tomates e outros tipos de agressões, inclusive verbais (HEITZENRATER, 1996). As dificuldades aumentaram e, por volta de 1750, o movimento metodista foi tomado da antiga discussão a respeito da separação da Igreja da Inglaterra. Os irmãos Wesley insistiam com os seus pregadores e seguidores que o povo deveria ir às suas paróquias receber os sacramentos4 da Igreja. Mas os metodistas estavam se recusando a isto e forçando os pregadores leigos a ministrarem os sacramentos para eles. E alguns pregadores assim o fizeram, o que causou grande indignação aos dois irmãos, principalmente a Charles Wesley que passou a lutar com mais força ainda contra a separação. Os irmãos Wesley incentivavam o povo metodista a não deixar de receber os sacramentos nas Igrejas, a não falar mal das orações feitas na Igreja, a advertir quando alguém chamasse as sociedades de igrejas. Eles desejavam que os locais. 4. Os sacramentos da Igreja Metodista são: o Batismo e a Ceia do Senhor. Os demais, a confirmação, a penitência, a ordem, o matrimônio e a extrema unção não devem ser considerados sacramentos do Evangelho, pois somente os dois primeiros foram instituídos por Deus (CÂNONES, 2012, p.44)..
(32) 32. onde o povo se reunisse fossem chamados de “casas de pregação”. O conjunto fazia parte de todo o esforço para não causar desavenças com a Igreja Anglicana (HEITZENRATER, 1996). Apesar das orientações dadas pelos irmãos Wesley, alguns pregadores tornaram-se dissidentes, realizando práticas de culto marcadas pelo fanatismo, tais como a prática de curas e o falar em línguas estranhas. Wesley se enfureceu e expulsou alguns destes das sociedades das quais pertenciam (HEITZENRATER, 1996). Observa-se que as dificuldades existiram e, muitas vezes, ameaçaram o fim do movimento. As discordâncias entre os líderes aconteciam, inclusive a respeito da predestinação, anteriormente citada e explicada neste trabalho, mas estes fatos não impediram que o Metodismo se expandisse, até mesmo para terras distantes da Inglaterra. Neste sentido, para obter uma compreensão maior e melhor sobre as características do Metodismo imigrado para o Brasil, faz-se necessária uma análise dos acontecimentos que marcaram a consolidação do movimento na América. Desta forma, segue-se, então, esta análise como um subitem deste capítulo.. 1.2 O Metodismo na América. As conquistas de territórios pelo mundo não aconteceram apenas devido a aspectos econômicos, mas também a fatores ideológicos, culturais e religiosos. No caso do continente americano, aos poucos, a extensa costa foi explorada por expedições que abrigavam trabalhadores, como garimpeiros, comerciantes, mas também levavam frades e padres da Igreja Católica em busca do cumprimento de suas funções missionárias e catequéticas (BLAINEY, 2012). As terras eram, em geral, batizadas com nomes de santos. Pedro Álvares Cabral chamou de Terra de Santa Cruz o nosso pedaço da costa nordestina aonde desembarcou. Segundo Blainey (2012), pode-se notar a forte influência religiosa nas empreitadas dos desbravadores quando se observa os nomes dados às cidades que iam sendo descobertas, tais como na Califórnia, onde foram adotadas as.
(33) 33. denominações de São Francisco e Los Angeles; no Chile, o nome de um apóstolo, Santiago; e a maior cidade do Brasil tem o nome de outro apóstolo, São Paulo. Por sua vez, o protestantismo americano foi se formando à medida que protestantes europeus buscavam novas condições de vida nas colônias inglesas situadas do outro lado do continente. De acordo com Mendonça (1984) o movimento constituiu-se num “protestantismo de povoamento”, mais especificamente composto pelo êxodo de luteranos e calvinistas puritanos advindos da Inglaterra em busca de liberdade, uma vez que, neste país, a igreja possuía características clericais, hierárquicas e autoritárias, sendo ainda a sua frequência obrigatória a todos os cidadãos. Os puritanos eram, na sua maioria, um povo culto, educado e primavam por uma moral religiosa em suas vidas. No sistema de organização de suas igrejas, eles enfatizavam uma maior importância às pregações nas celebrações religiosas em detrimento das tradições litúrgicas. Por esta razão se empenhavam no preparo acadêmico dos pastores e na organização de escolas, tais como Harvard, que foi fundada em 1636 e permanece até hoje (Mendonça, 1984). Após um período de declínio da religiosidade e do puritanismo em terras americanas, aconteceu o chamado por alguns autores de o “Grande Despertamento” que, segundo Mendonça (1984), começa na terceira década do século XVIII e vai até a Guerra de Independência (1776) em decorrência das lutas políticas com a Inglaterra e do avanço das ideias iluministas, que proclamava o secularismo, o individualismo e a liberdade. No que tange aos aspectos religiosos, fazia-se presente a necessidade de “novas formas teológicas e eclesiais que atendessem às exigências diferentes da sociedade” (MENDONÇA, 1984, p. 49). Neste sentido, o autor diz que. Ao mesmo tempo que os metodistas se firmavam, presbiterianos e congregacionais que compunham a maioria da sociedade, aumentaram bastante o seu poder religioso. O historiador Robert h. Nichols, na sua “História da Igreja Cristã”, entende que o sentimento religioso muito contribuiu para a Independência Americana. Esses presbiterianos e congregacionistas, descendentes históricos diretos dos peregrinos puritanos, temiam que a Inglaterra estabelecesse a Igreja Oficial em todas as colônias, uma vez que isso já se dava em algumas delas. Ora, fora exatamente a imposição de uma igreja oficial que levara seus ancestrais a saírem da Inglaterra cerca de.
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