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Princípios e Regimes sobre a Aplicação da Lei no Espaço

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Academic year: 2021

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Realizado por: Mafalda Maló

Turma A - 2017/2018

Princípios e Regimes

sobre a Aplicação da Lei

no Espaço

Com base em: Manual de Direito Penal da Prof. Fernanda Palma, Esquemas de Beatriz Lopes e textos

disponibilizados na dropbox da Prof. Sónia Reis

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PRINCÍPIOS DA APLICAÇÃO DA LEI NO ESPAÇO

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• É o princípio geral: aplica-se o direito penal português se o facto tiver sido praticado dentro do território nacional, independentemente da nacionalidade do agente e

salvo convenção em contrário;

• Território português (art. 5º/1 e 2 da CRP): inclui o espaço terrestre, marítimo e aéreo, bem como os navios e aeronaves portuguesas (princípio do pavilhão, art. 4º, a l. B), CP);

• Situações de expansão da competência territorial: crimes cometidos em aeronaves estrangeiras, nos termos dos arts. 2º, 3º e 4º do dl. Nº 254/2003;

Prática do facto em território português (art. 7º, CP – locus delicti):

O Critério da ubiquidade – basta que a ação e/ou o resultado se tenha verificado em território português;

O Basta igualmente a tentativa inacabada, mas não a prática de atos preparatórios não puníveis (art. 21º e 22º do CP) – desde que o resultado se devia ter verificado em

território português (art. 7º/2);

O Basta que se verifique o dano (lesão do bem jurídico), sem que o resultado típico se verifique em Portugal? P.e., se alguém proferir no estrangeiro difamação

perante terceiros contra pessoa vivendo em Portugal, pode-se afirmar que o facto foi praticado em Portugal, considerando que foi cá que a lesão de honra foi sentida, embora o resultado típico se verificou no estrangeiro? MFP considera que nestes casos de crimes de resultado, em que o resultado típico só se realiza verdadeiramente com a verificação do dano, aplica-se na mesma a lei do território onde o dano foi sentido (p.e., os crimes dos arts. 256º e 262º do CP);

O Nos casos de crimes de resultado parcial ou nos crimes de consumação antecipada (de natureza formal) em que existirá uma consumação material, aplica-se a lei

portuguesa. P.e., os arts. 272º e ss. (crimes de perigo comum) ou os arts. 255º e ss. (crimes de falsificação). Nestes crimes , o resultado material, que não é absolutamente necessário para a consumação do crime, continua a ser relevante para a determinação do lugar da prática do crime;

Nota: não esquecer que os critérios de aplicação da lei no tempo também se aplicam em simultâneo. Assim, p.e., a lei portuguesa não poderá ser aplicada apesar de se ter

produzido um resultado típico em território português quando o facto não seja punível por não estar previsto em lei anterior à realização da ação em território estrangeiro. Idem para a proibição da analogia e outros princípios.

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• Por vezes, ocorrem lesões de bens jurídicos essenciais à sociedade portuguesa, mas fora do seu território.

O art. 5º/1/a) elenca situações às quais se aplica a lei portuguesa de forma extraterritorial.

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Fundamento: soberania justificada pela função internacional humanista e humanitária do estado de direito democrático – missão universal do Estado Português;

• A validade espacial da lei penal portuguesa delimita-se pela necessidade de cooperação do estado português na proteção penal de bens da humanidade de valor universal.

Assim, o art. 5º/1/c) refere alguns crimes aos quais se aplica a lei portuguesa de forma extraterritorial, desde que o agente seja encontrado em Portugal e não possa ser extraditado ou entregue em resultado de execução de mandado de detenção europeu ou de outro instrumento de cooperação internacional que vincule o estado português;

• O art. 5º/1/d) também segue este princípio (crimes graves praticados fora do território português contra menores);

• Os crimes contra a humanidade também seguem este critério universalista, segundo o art. 5º da lei nº 31/2004, de 22 de julho. Pequena diferença: também se pode aplicar

se Portugal tenha optado por não entregar o arguido ao tribunal penal internacional;

• Aos crimes de terrorismo, segundo o art. 8º da lei nº 52/2003, também se aplica a lei portuguesa aos crimes previstos nos arts. 2º e 4º do diploma, desde que o agente seja

encontrado em Portugal e não possa ser extraditado ou entregue em execução de mandato de detenção europeu (8º/c)). Nos casos da al. a), a universalidade é ainda mais forte, porque se permite que se aplique a lei penal portuguesa sem nenhuma condição.

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• A lei penal portuguesa aplica-se a factos praticados fora do território nacional por portugueses (princípio da nacionalidade ativa) ou por estrangeiros contra portugueses

(princípio da nacionalidade passiva), desde que se verifiquem três requisitos cumulativos (art. 5º/1/e)): (I) Os agentes serem encontrados em Portugal; (II) Os factos serem também puníveis pela legislação do lugar em que tiverem sido praticados, salvo quando nesse lugar não se exercer poder punitivo - exige-se a punibilidade em sentido concreto, ou seja, não basta que haja tipicidade e ilicitude. Não podem existir causas de exclusão da culpa ou da punibilidade (ou seja, a lei penal portuguesa é aplicável somente nos casos em que o facto seja, em concreto, punível no país estrangeiro - caso contrário, estaríamos perante uma violação do princípio da aplicação da lei penal estrangeira mais favorável (6º/2)); Os factos constituírem crimes que admitam extradição e esta não possa ser concedida ou seja decidida a não entrega do agente em execução de mandato de detenção europeu ou de outro instrumento de cooperação que vincule o estado português;

Fundamentos: o vínculo dos cidadãos portugueses à soberania punitiva do seu próprio estado (nacionalidade ativa) e pelo dever de o estado português conceder proteção

aos bens jurídicos de que os cidadãos portugueses sejam titulares, ainda que no estrangeiro (nacionalidade passiva);

• O princípio da nacionalidade ativa reflete-se no princípio da não expulsão de nacionais (art. 33º/1 da CRP);

• Também se reflete no art. 5º/1/b), que alarga o poder punitivo do estado português às situações em que portugueses cometam factos no estrangeiro c ontra portugueses,

sem que o requisito da punibilidade pela legislação do lugar se verifique, desde que tais agentes vivam habitualmente em Portugal ao tempo da prática desses factos e aqui sejam encontrados, p.e., situações em que os agentes praticaram os factos no estrangeiro para se subtraírem propositadamente ao poder punitivo do estado português;

O Nota: o Prof. Taipa de Carvalho entende que este art. 5º/1/b) apenas se aplica às situações de preordenação do crime.

• Nota: o que deve ser entendido como crimes contra portugueses? Embora historicamente se pretendesse incluir o aborto consenti do realizado no estrangeiro, hoje em dia

podemos questionar se ainda se aplica, pois o feto não é, no sentido normal das palavras, um “cidadão português”. MFP entende que o que está em causa já não é o feto enquanto português, mas sim a vida intrauterina de “futuro cidadão português”, que justifica a intervenção penal da lei portuguesa (interpretação sistemática). Contu do, a professora já considera que outras infrações de bens jurídicos coletivos não podem ser integrados na al. b);

O Não ultrapassa o sentido possível das palavras o entendimento de que a expressão contra portugueses engloba, no geral, qualquer crime contra interesses nacionais

(ou seja, todos os crimes tituladas, assim, pela lei portuguesa).

O No entanto, um dos limites da interpretação é, justamente, o argumento sistemático: o art. 5º/1/b) é uma extensão do princípio da nacionalidade, logo, não pode

exceder o sentido normativo já titulado por este.

O Assim: contra portugueses deve restringir-se a contra interesses portugueses.

• O art. 5º/1/g) veio estender o princípio da nacionalidade, tanto ativa como passiva, às pessoas coletivas com sede em território português – articular com o art. 11º;

PR IN PI O D A A PL IC A ÇÃ O D A L EI P EN A L M A IS F A V O V EL D O D IR EI TO E ST RA N G EI RO (A RT . 6 º/ 2)

• Fundamentos: subsidiariedade do exercício do poder punitivo do estado português, princípios da culpa, da igualdade, da necess idade da pena e da segurança jurídica

(arts. 1º, 13º/1, 18º/2 e 29º/1 da CRP);

• Há restrições à aplicação da lei penal portuguesa, constantes do art. 6º: (I) nos casos em que houve julgamento e cumprimento da condenação – em princípio, não haverá

novo julgamento (princípio non bis in idem); (II) nos casos em que não houve julgamento ou não houve cumprimento da condenação – pode haver novo julgamento, segundo a lei penal portuguesa, se estivermos dentro de alguma das situações previstas no art. 5º. Mas só se aplica a lei portuguesa quando esta seja concretamente mais favorável ao agente;

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• Consta do art. 6º/1 do CP e do art. 29º/5 da CRP e exprime a ideia de que o agente, para ser julgado em Portugal por força dos princípios da nacionalidade e da universalidade,

não pode ter sido julgado no país da prática do facto ou ter-se subtraído ao cumprimento total ou parcial da condenação; • Fundamentos: garantia de imparcialidade do processo penal, vinculação do estado ao seu resultado e princípio da necessidade;

Questão: âmbito de aplicação do princípio non bis in idem.

O o princípio abrange, quer julgamentos realizados por tribunais portugueses, quer julgamentos realizados por tribunais estrangeiros (não existe necessidade – não vinga ao

passar pelo crivo da necessidade).

• Face ao exposto no art. 6º/2, havendo condenação ou cumprimento parcial da penal, no país estrangeiro, tal facto impede o julgamento, em Portugal, pela prática dos

mesmos crimes, com vista ao cumprimento da penal (total ou parcial) em Portugal. Isto porque o princípio do art. 29º/5 da CRP também abrange julgamento anterior no estrangeiro. Ou seja, os tribunais portugueses só poderão julgar quando haja necessidade de intervir, nos termos do art. 18º/2 da CRP. Se a pessoa já foi julgada e absolvida no estrangeiro ou já aí cumpriu a pena, não existe necessidade;

• Contudo, nas situações em que o julgamento não foi independente e imparcial, não se pode aplicar o princípio non bis in idem, pode existir novo julgamento, desde que,

se já tiver existido cumprimento parcial da pena, se realize um “desconto” do tempo já cumprido (art. 82º, CP);

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A LEI DA COOPERAÇÃO JUCIDIÁRIA INTERNACIONAL EM MATÉRIA PENAL – O REGIME DA EXTRADIÇÃO

PROBLEMAS COLOCADOS

IMPEDIMENTOS DE EXTRADITAR

Impedimentos de extraditar: previsto artigo 33º/3, 4 e 6 da CRP;

o Não extradição de nacionais: princípio limitado por convenções internacionais nos casos de terrorismo e criminalidade organizada, em condições

de reciprocidade, na condição de a ordem jurídico do estado requisitante consagrar as garantias de um processo justo e equitativo (art. 32º da CRP)

o Não extradição ou entrega a qualquer título por motivos políticos (art. 33º/6 da CRP e 7º/1/a) da Lei 144/99)

o Não extradição por crimes a que corresponda, segundo o direito do Estado requisitante, pena de morte ou outra de que resulte lesão irreversível

da integridade física (art. 33º/6 CRP e art. 6º/1/e) da Lei 144/99): o art. 6º/2/a) admite a cooperação, nos casos aí previst os; o Tribunal

Constitucional, questionado sobre a conformidade constitucional da norma em apreço, pronunciou-se em interpretação vinculativo – a garantia

deve corresponder a uma espécie de alteração da ordem jurídica do Estado requerente em concreto, vinculativa em termos jurídicos dos tribunais portugueses e do próprio poder político, uma vinculação jurídica no sentido essencial do Estado de Direito e da correspondente separação de poderes (Acórdão 1/2001);

o Não extradição quando corresponda, no estado requisitante, pena ou medida de segurança privativa da liberdade com caráter perpétuo ou de

duração indefinida (art. 33º/3 CRP e art. 6º/1/f) da Lei 144/99) - este preceito sofreu também alterações interpretativas, em virtude das alterações sofridas, em termos de redação, com a revisão constitucional de 1997; quando a infrações corresponda pena perpeta, a Constituição flexibiliza a exigência de garantias do Estado que requeira a extradição, não exigindo tal como na pena de morte uma autêntica alteração da ordem jurídica em concreto, mas apenas uma vinculação convencional no plano do Direito Internacional do Estado requisitante; não basta uma mera garantia

diplomática ad hoc (interpretar neste sentido seria levar a revisão constitucional de 97 a violar os limites materiais da revisão constitucional, de

acordo com MFP).

Outros impedimentos à extradição: Lei 144/99 ou Lei da Cooperação Judiciária Internacional em Matéria Penal.

DEVERES DE JULGAR (IMPEDIMENTO DE EXTRADITAR OU DECISÃO DE NÃO

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O REGIME DO MANDADO DE DETENÇÃO EUROPEU – PROBLEMA LEVANTADO EM AULA TEÓRICA

1. PROBLEMA: COMO CONJUGAR O ART. 12º/1/A) COM O ART. 2º/3?

a. Contextualizando: a extradição não é admitida, fora dos casos do art. 2º/2, nas situações em que não se verifique o pressuposto da dupla incriminação (conforme

formulado no art. 2º/1 e 3 – conjugados). Neste caso, a faculdade de recusa é imposta por lei.

b. Obstáculo: o art. 12º/1/a) postula que a recusa é facultativa quando o facto não constitui crime em Portugal, desde que se trate de infração não incluída no art.

2º/2. Neste caso, a faculdade de recusa é facultativa.

2. CHEGAMOS A UMA CONTRADIÇÃO SISTEMÁTICA: a recusa, nos termos do art. 2º/3 deve ser obrigatória, no entanto, o art. 12º/1/a) postula como sendo facultativa;

a. Soluções possíveis

i. Interpretação abrogante/redução teleológica do art. 2º/3, no sentido da não imposição perentória do pressuposto da dupla incriminação: a adotar se se

entender que o regime perentório aí previsto viola a decisão quadro (art. 2º/4 da Decisão Quadro n.º 2002/584/JAI, do Conselho, de 13 de Junho).

1. Problema: violaria os princípios constitucionais penais, na medida em que se verificaria como menos favorável ao arguido, porquanto postularia

um alargamento das situações em que se admitia a cooperação judiciária internacional, ou seja, as possibilidades de o arguido ser julgado (art. 29º/1

e 3 CRP);

ii. Interpretação abrogante/redução teológica do art. 12º/1/a), no sentido da obrigatoriedade da recusa: a adotar se não se entender que o regime perentório

aí previsto viola a decisão quadro;

1. Vantagens: manteria intactos os princípios constitucionais penais, posto que, respeitaria, em especial, o princípio da necessidade da pena (art.

18º/2) e ainda, por outro lado, se afiguraria como mais favorável ao arguido (art. 29º/1 e 3);

2. Problemas: como deve o arguido ser jugado? Aplicar-se-á a lei estrangeira, por via do art. 6º? Tal solução não seria admissível, posto que o art. 6º

postula que é aplicável a lei estrangeira no pressuposto de ser mais favorável ao arguido e neste caso não o é – é mais favorável a lei nacional (que,

na verdade, não pune aquele facto).

Referências

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