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(1)

UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA

TAISE APARECIDA DA SILVA

ADOÇÕES NECESSÁRIAS: UM ESTUDO SOBRE O PERFIL DA CRIANÇA

ESTABELECIDO PELOS POSTULANTES À ADOÇÃO NA COMARCA DE

TUBARÃO/SC

Tubarão

2011

(2)

TAISE APARECIDA DA SILVA

ADOÇÕES NECESSÁRIAS: UM ESTUDO SOBRE O PERFIL DA CRIANÇA

ESTABELECIDO PELOS POSTULANTES À ADOÇÃO NA COMARCA DE

TUBARÃO/SC

Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. José Paulo Bittencourt Junior, Esp.

Linha de pesquisa: 4 Justiça e Sociedade

Tubarão

2011

(3)

TAISE APARECIDA DA SILVA

ADOÇÕES NECESSÁRIAS: UM ESTUDO SOBRE O PERFIL DA CRIANÇA

ESTABELECIDO PELOS POSTULANTES À ADOÇÃO NA COMARCA DE

TUBARÃO/SC

Esta monografia foi julgada adequada à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovada em sua forma final pelo Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Tubarão, 21 de junho de 2011.

______________________________________________________

Professor e orientador José Paulo Bittencourt Junior, Esp.

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________

Prof. Edir Josias Silveira Beck, Esp.

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________

Prof. Eron Pinter Pizzolatti, Esp.

(4)

AGRADECIMENTOS

Reconheço que agradecer não foi tão simples como eu imaginava. Desse modo, a

todas as pessoas que passaram por minha vida ao longo do período da graduação, agradeço,

pois de alguma maneira, vocês contribuíram para a concretização desta etapa.

A Deus pela oportunidade de concluir mais uma etapa da minha vida e por ter me

dado força e iluminado meu caminho, para que eu jamais desistisse desse objetivo.

A minha mãe Kátia Regina Elias, que me faz compreender o real sentido do amor

incondicional, por ser a pessoa que sempre acreditou na minha capacidade. Obrigada, pelas

horas de apoio e incentivo para a conclusão deste trabalho. Prometo não medir esforços para

não decepcioná-la, simplesmente Te Amo!

Ao meu pai, José por demonstrar que apesar da distância que há entre nós, nos

momentos que o requisitei, não mediu esforços. Obrigado!

Aos meus amados irmãos Tamires e Guilherme, pelo carinho, companheirismo e

paciência. Amo vocês!

A minha avó Antônia, por todo amor e, sobretudo, por sempre ter uma palavra de

conforto e incentivo, sou extremamente grata a Deus por ter você como minha avó. Amo

Você!

Ao meu avô, Maciel (in memoriam), meu agradecimento especial, pela dedicação

que sempre dispensou para minha criação, por ter sido durante anos minha estrutura familiar e

por todo amor e carinho demonstrado, a você meu amor eterno.

A todos os meus familiares que sempre torceram junto comigo para a conclusão

desta etapa. Obrigado!

A minha prima Camila, pelo apoio, amizade e compreensão.

Aos amigos e colegas, agora já graduados da turma Direito matutino 2005-B, em

especial (Camila, Liliane, Helen e Alexandre) agradeço pela amizade e pelos momentos que

passamos juntos.

Ao meu orientador José Paulo Bittencourt Junior, meu agradecimento, por sua

dedicação pessoal e, sobretudo por ter acreditado desde o início na fundamentação deste

trabalho.

A todos os professores do curso de Direito da UNISUL que contribuíram para o

meu aprendizado.

(5)

RESUMO

O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA – assegura à proteção integral a todas as

crianças e adolescentes, de maneira a garantir-lhes os direitos resguardados na Constituição

Federal dentre eles, o direito à convivência no âmbito familiar e comunitário. Entretanto, a

convivência da criança e do adolescente no meio familiar pode sofrer limitações, impostas

pelo Estado, quando este constata que os direitos da criança e do adolescente não estão sendo

respeitados. A adoção é uma das formas de limitação do poder familiar, pelo Estado, sendo

que ela possibilita a criança e ao adolescente o direito de ter uma família. Contudo, a adoção

nem sempre é vista pelo postulante como uma maneira de proporcionar ao adotando a

garantia de crescer no meio familiar, mas sim como um modo de dificultar a prática desse

instituto. Conforme o perfil do adotando que o pretendente estabelece, as chances de adoção

tornam-se cada vez mais distante, tendo em vista que nem sempre as crianças que estão aptas

preenchem o perfil pretendido, pois na maioria dos processos os postulantes preferem crianças

com até 2 anos de idade, de cor da pele branca e considerada saudável.Desse modo, para as

adoções que raramente são praticadas criou-se a denominada adoções necessárias que

envolvem a adoção interracial, tardia e adoção de crianças ou de adolescentes, com

necessidades específicas de saúde ou com deficiências. Nesse sentido, o presente estudo tem

como objetivo analisar se o perfil estabelecido pelos postulantes a adoção pode impossibilitar

a prática das adoções necessárias em relação às crianças aptas para adoção, entre o período de

2007 a 2010. Para tanto, foram coletados dados na Vara da Família, Órfãos, Infância e

Juventude da comarca de Tubarão, sob a supervisão da psicóloga forense. Em relação às

crianças aptas para adoção a maioria era saudável, com idade de 0 a 6 meses. Quanto ao perfil

estabelecido pelos postulantes a maioria tinha preferência por crianças com até um ano de

idade, saudável e de cor branca.

(6)

ABSTRACT

The Status of Children and Adolescents - ACE - assures full protection to all children and

adolescents in order to guarantee them the rights enshrined in the Constitution among them

the right to live in the family and community. Nevertheless, the coexistence of child and

adolescent in the family may suffer the limitations imposed by the state, when it notes that the

rights of children and adolescents are not being respected. Adoption is one way of limiting the

power of family, state, and it enables children and adolescents the right to have a family.

However, adoption is not always seen as a postulant by way of adopting to provide the

guarantee to grow in the family, but as a way to impede the practice of this institute. As the

profile of adopting the sets you want, the chances of adoption are becoming increasingly

distant, bearing in mind that not all the children who are able meet the desired profile, because

in most cases the candidates prefer children under 2 years of age, had white skin and is

considered healthy. Thus, for adoptions that are frequently used to create the so-called

necessary adoptions involving interracial adoption, and late adoption of children or

adolescents with specific health needs or disabilities and sibling groups. In this sense, this

study aims to analyze the profile established by the adoption applicants may preclude the

practice of adoptions necessary regarding children fit for adoption, the period between 2007

to 2010. To this end, data were collected in the Family Court, Orphans, Children and Youth of

the District of Jaws, under the supervision of forensic psychologist. In relation to children

able to adopt the majority were healthy, aged 0-6 months. Regarding the profile established

by most candidates had a preference for children under one year old, healthy and white.

(7)

LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Quantidade de crianças aptas para adoção... 63

Tabela 2: Idade da criança estabelecida pelo postulante... 67

Tabela 3: Número de filhos dos postulantes...72

(8)

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Cor da pele das crianças aptas para adoção... 64

Gráfico 2: Faixa etária das crianças aptas para adoção... 65

Gráfico 3: Gênero das crianças aptas para adoção... 65

Gráfico 4: Perfil de criança apta a adoção: com relação à saúde... 66

Gráfico 5: Cor da pele do perfil de criança estabelecido pelos postulantes... 67

Gráfico 6: Gênero do perfil de criança estabelecido pelos postulantes... 68

Gráfico 7: Perfil de criança estabelecido pelos postulantes: com relação à saúde. ... 68

Gráfico 8: Faixa etária dos postulantes... 69

Gráfico 9: Estado civil dos postulantes... 70

Gráfico 10: Motivos para adoção apresentados pelos postulantes... 70

Gráfico 11: Porcentagem de postulantes que possuem filhos... 71

(9)

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 13

1.1 DELIMITAÇÃO DO TEMA E FORMULAÇÃO DO PROBLEMA ... 14

1.2 JUSTIFICATIVA ... 14

1.3 OBJETIVOS ... 15

1.3.1 Geral ... 15

1.3.2 Específicos ... 15

1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 16

2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO

ADOLESCENTE NA LEGISLAÇAO BRASILEIRA ... 18

2.1 DELINEAMENTOS HISTÓRICOS ACERCA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE A

PARTIR DO SÉCULO XX ... 18

2.1.1 Da Situação Irregular à Proteção Integral: aspectos destacados na Constituição

Federal de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente ... 22

2.2 DOS PRINCÍPIOS E DIREITOS FUNDAMENTAIS DA CRIANÇA E DO

ADOLESCENTE NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E NO ESTATUTO DA CRIANÇA E

DO ADOLESCENTE ... 26

2.2.1 Princípio da proteção integral e da prioridade absoluta ... 27

2.2.2 Do direito à liberdade, ao respeito e à dignidade... 29

2.2.3 Do direito à convivência familiar e comunitária... 32

3 PODER FAMILIAR ... 35

3.1 CONCEITO ... 35

3.3 DO PODER FAMILIAR ... 37

3.3.1 Do exercício do poder familiar pela família natural ... 38

3.3.2 Das limitações do poder familiar ... 39

3.3.2.1 Da suspensão do poder familiar... 40

(10)

3.3.2.3 Da extinção do poder familiar ... 41

3.3.3 Da colocação da criança e do adolescente em família substituta ... 42

4 DA ADOÇÃO ... 44

4.1 DELINEAMENTOS HISTÓRICOS ... 45

4.2 CONCEITO ... 47

4.3 ADOÇÃO NO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E NO CÓDIGO

CIVIL DE 2002 ... 47

4.4 ASPECTOS RELEVANTES DA LEI NACIONAL DE ADOÇÃO 12.010/2009 ... 50

4.4.2 Do cadastro para adoção ... 51

4.4.3 Adoção e o estágio de convivência ... 52

4.4.4 Do procedimento da adoção ... 53

5 MÉTODO ... 56

5.1 MÉTODO DE ABORDAGEM ... 56

5.2 MÉTODO DE PROCEDIMENTO ... 56

5.3 TIPO DE PESQUISA ... 57

5.3.1 Quanto ao nível ... 57

5.3.2 Quanto ao método de abordagem ... 57

5.3.3 População e amostra ... 58

5.3.4 Quanto aos procedimentos de coleta de dados ... 58

6 ADOÇÕES NECESSÁRIAS: UM ESTUDO SOBRE O PERFIL DA CRIANÇA

ESTABELECIDO PELOS POSTULANTES À ADOÇÃO NA COMARCA DE

TUBARÃO/SC ... 60

6.1 CONCEITO ... 60

6.2 ASPECTOS RELEVANTES DAS ESPÉCIES DE ADOÇÕES NECESSÁRIAS ... 60

6.2.2 Análise do perfil das crianças aptas para adoção ... 63

6.2.3 Análise do perfil estabelecido pelos postulantes ... 67

(11)

7 CONCLUSÃO ... 74

REFERÊNCIAS ... 76

APÊNDICE ... 82

APÊNDICE A – ficha de coleta de dados ... 83

ANEXO ... 88

ANEXO A – Lei 12.010 ... 89

(12)

13

1 INTRODUÇÃO

O presente estudo aborda o perfil do adotando estabelecido pelos postulantes à

adoção na Comarca de Tubarão, Santa Catarina.

A adoção é uma forma de assegurar a criança e ao adolescente o direito do

convívio familiar através da família substituta, quando já esgotados as tentativas do convívio

em sua família natural. Sendo assim, “a centralidade da adoção está na satisfação dos

interesses da criança.”

1

Atualmente, o perfil da adotando estabelecido pelos postulantes à adoção tem sido

discutido com frequência tanto no âmbito jurídico, como nos meios de comunicação, tendo

em vista a preferência dos pretendentes com relação às características da criança estabelecida,

que nem sempre corresponde ao perfil das crianças que se encontram aptas para adoção,

impossibilitando em princípio, a prática das adoções necessárias e, consequentemente, o

direito à convivência familiar.

De acordo com Silveira, “na prática adotiva, a cor da pele, dentre outras

particularidades, mostra-se como um poderoso instrumento que poderá dificultar o acesso ao

direito da convivência familiar adotiva.”

2

Na visão de Almeida, “as adoções necessárias referem-se à importância da

elaboração de estratégias que estimulem o acolhimento de crianças que apresentam problemas

de saúde, cor da pele negra ou que se encontrem em faixa etária superior a dois anos [...].”

3

Conforme preceituam Rizzini, Naif e Baptista “viver em família e na comunidade

é um direito assegurado pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do

Adolescente, mas até agora pouco trabalhado no âmbito das ações de proteção integral à

infância e juventude.”

4

O adotando que não se enquadra no perfil desejado pelo postulante permanece em

acolhimento à espera de algum pretendente que estabeleça o perfil assemelhado a ele. Sendo

1 GUEIROS, Dalva Azevedo. Adoção consentida: do desenraizamento social da família à prática de adoção aberta. São Paulo: Cortez, 2007. p. 23.

2 SILVEIRA, Ana Maria da. Adoção de crianças negras: inclusão ou exclusão. (Série núcleos de pesquisa; 8) São Paulo: Veras Editora, 2005. p. 17.

3 VERONA, Humberto; CASTRO , Ana Luiza de Souza Adoção: um direito de todos e todas Conselho Federal de Psicologia -- Brasília, 2008. apud ALMEIDA, Maurício Ribeiro de, A adoção por homossexuais: um caminho para o exercício da parentalidade. Disponível:

http://www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/cartilha_adocao.pdf. Acesso em: 28 mai.2011.

4 RIZZINI, Irene et al, (Coord). Acolhendo crianças e adolescentes: experiências de promoção do direito à convivência familiar e comunitária no Brasil. São Paulo: Cortez; Brasília-DF: UNICEF; CIESPI; Rio de Janeiro, RJ: PUC-RIO, 2006.p. 11.

(13)

14

assim, o adotando pode passar toda a infância e adolescência em acolhimento, pois há a

possibilidade delas não se enquadrarem no perfil que os postulantes estabelecem e assim, o

seu direito constitucional à convivência familiar fica prejudicado.

Dessa maneira, busca-se investigar, a partir da análise do perfil do adotando

estabelecido pelos postulantes à adoção na comarca de Tubarão, Santa Catarina, se o perfil

pretendido pelos postulantes pode impossibilitar à prática das adoções necessárias, em relação

ao perfil do adotando que se encontrava disponível para adoção.

1.1 DELIMITAÇÃO DO TEMA E FORMULAÇÃO DO PROBLEMA

O perfil da criança estabelecido pelos postulantes pode dificultar a concretização

do instituto da adoção, sobretudo as adoções necessárias, tendo em vista que grande parte dos

postulantes procuram por crianças com até 2 (dois) anos de idade, da cor da pele branca e

saudável.

Desse modo, busca-se investigar se o perfil do adotando estabelecido pelos

postulantes à adoção na Comarca de Tubarão, Santa Catarina, pode impossibilitar à prática

das adoções necessárias, em relação ao perfil dos adotandos disponíveis para adoção?

1.2 JUSTIFICATIVA

A adoção é um dos institutos mais importantes de toda a legislação brasileira,

tendo em vista que esta é uma oportunidade para o adotando de ser reinserido em família

substituta, depois de um período de espera, rejeição, decepção, sofrimento e abandono.

Segundo dados da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (CEJA) de Santa

Catarina do ano de 2010 havia 3.448 inscritos para a adoção. Quanto à preferência sobre a

criança a ser adotada 80% dos postulantes aceitam crianças com até 3 anos de idade, tendo

ainda preferência pelo sexo feminino e que não possuam irmão.

Ainda, de acordo com o CEJA há 1444 crianças e/ou adolescentes acolhidas em

programas de acolhimento, sendo 748 do sexo feminino e 696 do sexo masculino, sendo que

(14)

15

62% tem idade superior a 10 anos de idade. Destas 1444 crianças e ou adolescentes acolhidos

somente 10% é que se encontram em condições de adoção, já destituídas do poder familiar,

tendo idades entre 8 e 15 anos de idade dificultando a adoção devido a idade, sendo que as

demais ainda não estão em condições de adoção porque ou estão com mais de 10 anos de

idade e não tem quem as adote ou ainda possuem vínculo com suas famílias biológicas.

5

Assim, o trabalho monográfico tem a intenção de contribuir para que o

preconceito que ainda existe por parte de alguns postulantes possa ser substituído pelo gesto

de ver a adoção não como uma expressão de vontade, mas sim como um meio de assegurar a

criança e ao adolescente o seu direito constitucional do convívio familiar e comunitário.

1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Geral

Analisar através dos cadastros de adoção da Vara da Família, Órfãos, Infância e

Juventude da Comarca de Tubarão, Santa Catarina, entre o período de 2007 a 2010 se as

características do perfil do adotando estabelecido pelos postulantes pode impossibilitar à

prática das adoções necessárias, em relação ao perfil daqueles que se encontravam disponíveis

para adoção.

1.3.2 Específicos

Identificar o número de adotandos estavam aptas para a adoção;

Descrever o perfil dos adotandos;

Identificar o número de postulantes;

5 TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SANTA CATARINA. Justiça de SC apresenta novidade para marcar o Dia Nacional da Adoção. Florianópolis. 25 mai. 2010. Disponível em:

http://www.tj.sc.gov.br/infjuv/documentos/25052010_Justica_de_SC_apresenta_novidade_para_marcar_o_DiaN acional_da_Adocao.pdf. Acesso em: 20 ago.2010.

(15)

16

Descrever o perfil dos postulantes;

Demonstrar por que o postulante optou pela adoção;

Descrever o perfil do adotando estabelecido pelos postulantes à adoção.

1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

De acordo com Mezzaroba, o método “é o caminho adotado para alcançar

determinado objetivo”.

6

Assim, no presente estudo em relação ao método de abordagem utilizou-se o

método dedutivo, pois segundo Marconi “é dedutivo o raciocínio que parte do geral para

chegar ao particular, ou seja, do universal ao singular.”

7

Quanto ao método de procedimento, utilizou-se o estatístico, tendo vista que tal

método “significa redução dos fenômenos e termos quantitativos e manipulação estatística,

que permite comprovar as relações dos fenômenos entre si, e obter generalizações sobre sua

natureza ou significado.

8

Em relação ao tipo de pesquisa, foi utilizada a pesquisa descritiva, tendo em vista

esta, “não propõe soluções, apenas descreve os fenômenos tal como são vistos pelo

pesquisador.

9

Quanto ao método de abordagem utilizou-se o método qualitativo “pelo fato de

não empregar dados estatístico como centro do processo de análise de um problema.”

10

O procedimento utilizado neste estudo foi através de levantamentos de dados.

Para tanto, utilizou-se de fichas para a coleta dos dados, além do procedimento bibliográfico e

documental. A pesquisa documental “refere-se a documentos de arquivos públicos em geral,

como documentos oficiais e publicações parlamentares; arquivos particulares, isto é,

domiciliares; fontes estatísticas; documentos jurídicos etc.”

11

. A pesquisa bibliográfica,

6 MEZZAROBA, Orides. Manual de metodologia da pesquisa no direito. Orides Mezzaroba, Cláudia Servilha Monteiro. 3. ed. rev. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 55.

7 MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia científica: para o curso de direito. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2001. p. 19.

8 Ibid., p. 48.

9 MEZZAROBA, 2006, p. 116-117.

10 OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Metodologia científica aplicada ao direito. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. p. 59.

(16)

17

segundo Marconi “abrange toda a bibliografia tornada pública. Tem como objetivo colocar o

pesquisador a par de tudo o que foi escrito sobre determinado assunto.”

12

A população desta pesquisa foi composta pelos adotandos que se encontravam

aptos para adoção entre o período de 2007 a 2010 na Comarca de Tubarão, Santa Catarina,

além dos postulantes, sendo que a amostra envolveu todas as crianças e todos os postulantes.

(17)

18

2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO

ADOLESCENTE NA LEGISLAÇAO BRASILEIRA

Neste primeiro capítulo será abordada a história da evolução dos direitos da

criança e do adolescente desde o século XX, passando pela criação do Código de Menores de

1927, tendo, por conseguinte, o estudo da Situação Irregular, a conquista da Proteção Integral

adotada pela Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e, por

fim, alguns Princípios e Direitos Fundamentais relacionados à órbita infanto-juvenil.

2.1 DELINEAMENTOS HISTÓRICOS ACERCA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE A

PARTIR DO SÉCULO XX

A criança e o adolescente, antes da conquista do status de cidadãos brasileiros

eram tratados como “coisa” perante o Estado.

13

No século XIX, as crianças e os adolescentes foram abandonados pelo Estado,

pois, não havia legislação que atendesse as suas necessidades. Nesse contexto, discorrem

Aragão e Vargas “a criança não-cidadã, no Brasil do século XIX, “é um caso de polícia”, sem

direito a uma política que a eleve da condição de “coisa” ou “de monstro” ao status de

“pessoa” e “ser humano”.

14

A partir do século XX, mais precisamente no ano de 1902, surgiram os primeiros

projetos legislativos pertinentes aos direitos das crianças não-cidadãs, também chamados de

“menores viciosos”.

15

Acerca dos direitos do menor, ressalta Rezende que,

A proteção do menor passou a ser uma obrigação fundamental do Estado e da própria sociedade. É óbvio que a consecução desse objetivo teria que depender de uma legislação preventiva e assistencial que orientasse o Estado e a comunidade de forma compreensiva e justa, para obtenção do bem estar e segurança do menor.16

13 ARAGÃO, Selma Regina; VARGAS, Ângelo Luis de Souza. O estatuto da criança e do adolescente em face do novo código civil: cenários da infância e juventude brasileira. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p.6. 14 ARAGÃO, loc. cit.

15 ARAGÃO, loc. cit.

(18)

19

E ainda, segundo Santos, “com a Proclamação da República de 1889 a proteção e

assistência à criança tornou-se cada vez mais uma necessidade, sentida, sobretudo, pela

própria sociedade.”

17

Em 06 de janeiro de 1921 foi sancionada a Lei n. 4.242

18

, a qual criou o Serviço

de Assistência e Proteção à Infância Abandonada e Delinquente. A mencionada lei foi o

marco da legislação brasileira, que buscava amparar o direito do menor, antes da promulgação

do Código de Menores de 1927.

19

Na visão de Aragão e Vargas “esta lei inseria dispositivos que modificavam o

Código Civil de 1916, que impunha a perda do pátrio poder ao pai ou mãe que deixasse o

filho em abandono (art.395)”.

20

Em 1924 foi aprovada pela Assembleia da Liga das Nações, a Declaração de

Genebra

21

, que se tornou o primeiro documento internacional sobre os direitos do menor.

Posteriormente, no Brasil foi aprovado o Decreto Legislativo n. 5.0834

22

, que

tratou de regulamentar a já citada Lei 4.242/21.

A primeira Lei de Assistência e Proteção dos Menores foi sancionada por meio do

Decreto n. 17.943 – A

23

, o chamado Código de Menores, sendo este o primeiro a vigorar na

América Latina e conhecido também como Código Mello Matos em homenagem ao Juiz José

Cândido de Albuquerque Mello Matos, o qual contribuiu na elaboração do mencionado

Código.

Na sua interpretação, acerca da criação do Código de Menores, Rezende ressalta

que,

Apesar de simples Decreto, sem importância hierárquica reservada à Lei, abriu novos horizontes para solução das dificuldades jurídicas que o nosso País já enfrentava com a problemática do menor, na época da sua aprovação. Consolidando

17 SANTOS, Danielle Maria Espezim dos; VERONESE, Josiane Rose Petry. Direito da criança e do adolescente: livro didático. Palhoça: Unisul Virtual, 2007, p. 25.

18 BRASIL. Lei 4.242, de 06 de janeiro de 1921. Dispõe sobre a despesa geral da República dos Estados Unidos do Brasil para o exercício de 1921. In: CIESPI – Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância. Disponível em: <http://www.ciespi.org.br/media/lei_4242_06_jan_1921.pdf>. Acesso em: 18 mar. 2011.

19 ARAGÃO, 2005. p.6. 20 ARAGÃO, loc. cit..

21 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração de Genebra sobre os direitos da criança. Assinada em 26 set.1924. Disponível em:

<http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&sl=en&tl=pt&u=http%3A%2F%2Fwww.un-documents.net%2Fgdrc1924.htm> . Acesso em: 18 mar. 2011. 22 BRASIL. Decreto n. 5.0834, de 1 de dezembro de 1926. Institui o Código de Menores. In: CIESP. Disponível em: <http://ciespi.org.br/media/decreto_5083_01_dez_1926.pdf.> Acesso em: 18 mar. 2011.

23 BRASIL. Decreto n. 17.943, de 12 de outubro de 1927. Institui o Código de Menores. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/D17943A.htm.> Acesso em: 18 mar. 2011.

(19)

20 dispositivos legais, aquele Código sistematizou princípios, facilitou-lhes maior interesse do povo brasileiro para com os problemas do menor marginalizado.24

O Código Mello Matos estabelecia um atendimento para os denominados

menores, sendo que o termo menor “passou a ser difundido na linguagem da população como

sinônimo de criança oriunda de famílias pobres”.

25

Ainda sob o respaldo do Código de 1927, foi criado o Serviço de Assistência a

Menores, o SAM, por meio do Decreto-Lei 3.799

.26

O Decreto-Lei n. 6.026

27

determinou a retirada de expressões ou conceitos,

constantes da descrição normativa e até então admitidos quanto ao tratamento do menor, que

pudessem marginalizar ou estigmatizar a criança e o adolescente.

Foi morosa a conquista do status da criança como cidadã brasileira, “somente a

partir da segunda metade do século XX que a criança vai passar a ser contemplada como

cidadão (ainda que em desenvolvimento) e, como cidadão, um sujeito de Direitos”.

28

A Declaração Universal dos Direitos Humanos

29

foi fundamental para que o

Brasil mudasse a visão a respeito da criança, ainda que não mencionasse dispositivo

específico ao direito do menor, tendo em vista que era direcionada a todas as pessoas

indistintamente.

30

A Assembleia das Nações Unidas, em 1959, aprovou a Declaração dos Direitos da

Criança

31

, a qual o Brasil posteriormente ratificou. A mencionada Declaração assegurava em

seus princípios os principais direitos inerentes a todas as crianças, independentemente de raça,

cor, sexo, língua, religião, ou seja, sob qualquer condição.

Na interpretação de Aragão e Vargas, a Declaração dos Direitos da Criança teve a

intenção de,

24 REZENDE, 1985, p.40.

25 SANTOS; VERONESE, 2007, p. 28.

26 BRASIl. Decreto-lei n. 3.799 de 05 de novembro de 1941. Dispõe sobre a transformação do Instituto Sete de Setembro em Serviço de Assistência a Menores e dá outras providências. Disponível em:

<http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=87272>. Acesso em: 19 mar. 2011.

27 BRASIL. Decreto-lei n. 6.026 de 24 de novembro de 1943. Dispõe sobre as medidas aplicáveis aos menores de dezoito anos pela prática de fatos considerados infrações penais, e dá outras providências. Disponível em: <http://wwwb.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=8412>.Acesso em: 19 mar. 2011. 28 ARAGÃO, 2005. p.7.

29 ORAGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: <http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php>. Acesso em: 19 mar. 2011.

30 ARAGÃO, loc. cit.

31 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração dos direitos da criança. Assinada em Portugal a 26 de janeiro de 1990 e aprovada para ratificação pela resolução da Assembléia da República n. 20/90, de 12 de Setembro. Ratificada pelo Decreto n. 49/90, da mesma data. Disponível em:

(20)

21 [...] transformar o problema da criança num desafio que implicava uma solução universal: pais e países tinham a obrigação de proteger e educar suas crianças. Esta nova postura inspirou políticos, juízes e demais autoridades a tentar resolver o secular problema do menor no Brasil, agora sob uma ética universalista, mas ainda marcadamente assistencialista, procurando incorporar uma ação terapêutica e preventiva.32

Ainda sob o respaldo do Código Mello Matos, foi instituída a Lei n. 4.513

33

, a

qual criou a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, FUNABEM, que passou a substituir

o Serviço de Assistência ao Menor.

O objetivo basilar da FUNABEM foi formular e implantar a Política do

Bem-Estar do Menor, conforme dispõe o artigo 5º

34

da mencionada lei, sendo que aquela foi o

marco entre a política repressiva e a assistencialista.

Posteriormente, foram instaladas as Fundações Estaduais do Bem-Estar do Menor,

FEBEM, em alguns estados do Brasil, com o intuito de seguir as diretrizes repassadas pela

FUNABEM. A mais conhecida Fundação do Bem-Estar do Menor foi instalada no estado de

São Paulo, através da Lei estadual nº 985.

35

Em 1979, nasceu a Lei n. 6.697

36

, a qual institui o novo Código de Menores, que

só entrou em vigor no ano de 1980, revogando assim, o Código Mello Matos.

32 ARAGÃO, 2005. p.7.

33 BRASIL. Lei n. 4513, de 01º de dezembro de 1964. Autoriza o Poder Executivo a criar a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, e a ela incorporar o patrimônio e as atribuições do serviço de assistência a menores. Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/103487/lei-4513-64#art0>. Acesso em: 19 mar. 2011. 34 Art.5 º. A Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor tem como objetivo formular e implantar a política nacional do bem-estar do menor, mediante o estudo do problema e planejamento das soluções, a orientação, coordenação e fiscalização das entidades que executam essa política. Parágrafo Único. As atribuições do atual Serviço de Assistência a menores passam à competência a Fundação Nacional do Bem-Estar do menor”. Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/103487/lei-4513-64#art0>. Acesso em: 19 mar. 2011. 35 BRASIL. Lei n. 985, de 26 de abril de 1976. Altera a denominação da Fundação Paulista de Promoção Social do menor - PRÓ- MENOR e dispositivos da Lei nº 185, de 12 de dezembro de 1973, que autorizou a sua instituição e dá providências correlatas. Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/214444/lei-985-76-sao-paulo-sp>. Acesso em: 19 mar. 2011.

36 BRASIL. Lei n. 6.697, de 10 de outubro de 1979. Institui o Código de Menores. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-1979/1667.htm>. Acesso em 19 mar. 2011.

(21)

22

2.1.1 Da Situação Irregular à Proteção Integral: aspectos destacados na Constituição

Federal de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente

O Código de Menores de 1979 passou a ter o desafio de disciplinar os menores

que viviam na chamada “situação irregular”. Para tanto, descreveu as situações consideradas

irregulares, conforme dispõe em seu artigo 2º, in verbis,

Art. 2º. Para os efeitos deste Código, considera-se em situação irregular o menor: I – privado de condições essenciais á sua subsistência, saúde e instrução obrigatória ainda que eventualmente em razão de: a) falta, ação ou omissão dos pais ou

responsável de provê-las; b) manifesta impossibilidade dos pais ou responsável para provê-las;

II – vítima de maus tratos ou castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável;

III – em perigo moral, devido a: a) encontrar-se, de modo habitual, em ambiente contrário aos bons costumes; b) exploração em atividade contrária aos bons costumes;

IV – privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais ou responsável;

V – com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação familiar ou comunitária;

VI – autor de infração penal.37

O Código de Menores era direcionado para as exceções, ou seja, apenas para os

casos em que o menor estivesse em situação irregular, seja por omissão do Estado ou de sua

própria família.

38

Na interpretação de Silva,

“causava perplexidade que a lei considerasse em situação irregular o menino abandonado ou maltratado pelo pai, ou aquele privado da saúde ou da educação por incúria do Estado. Em situação irregular está o pai que descumpre os deveres inerentes ao pátrio poder, ou o Estado que negligencia as políticas sociais básicas.”39

A intenção do mencionado diploma legal em realizar a integração do menor na

sociedade ficou cada vez mais difícil, tendo em vista que não era direcionado para todos.

Assim, com a definição do que era o menor em situação irregular, reforçou a idéia de

estigmatizar aqueles que se enquadravam em tal situação.

40

37 BRASIL. Lei n. 6.697, de 10 de outubro de 1979. Institui o Código de Menores. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-1979/1667.htm>. Acesso em 19 mar. 2011.

38 SILVA, Antônio Fernando do Amaral. Estatuto, o Novo Direito da Criança e do Adolescente e a Justiça da Infância e da Juventude. Diretoria de Documento e Publicações. Florianópolis, 1996. p. 6.

39 SILVA, loc. cit. 40 ARAGÃO, 2005. p.9.

(22)

23

O artigo 5º

41

do Código de Menores foi instituído com a intenção de assegurar a

proteção e aplicação imediata do interesse do menor, com o propósito de solucionar alguns

problemas sociais que afetavam crianças carentes, abandonadas, vítimas de maus tratos,

delinquentes juvenis, entre outras.

No entanto não foi possível resguardar essa proteção, pois na interpretação de

Santos,

Infelizmente, apesar dos princípios ditos tuteladores que fundamentavam a doutrina da “situação irregular”, as instituições que deveriam acolher e educar a criança ou o adolescente no mais das vezes não cumpriam esse papel. Isto porque a metodologia aplicada, em vez de socializar, massificava, despersonalizava e, deste modo, ao contrário de criar estruturas sólidas, nos planos psicológico, biológico e social, afastava o chamado “menor em situação irregular”, definitivamente, da vida comunitária.42

Ainda sob o respaldo do Código de Menores foi realizado em Brasília em 1986, o

“Encontro Nacional Criança e Constituinte”, e, a partir desse evento, a visão do problema da

criança e do adolescente passou de local para nacional, sendo apresentadas algumas medidas

que foram aprovadas e posteriormente ainda, asseguradas, como é o caso do artigo 227

43

da

Constituição Federal de 1988.

44

A Constituição Federal de 1988, considerada a Constituição cidadã, direcionou-se

à proteção de todas as crianças e adolescentes indistintamente,

e ainda preconizou a doutrina

da proteção integral, assegurando para todas as crianças e adolescentes os direitos

fundamentais para o seu crescimento e desenvolvimento. A Carta Magna, no entanto,

responsabilizou a família, a sociedade e o Estado em relação ao cumprimento de tais

direitos.

45

Desse modo, “a nova doutrina evoluiu “da situação irregular do menor” para a

situação irregular da família, da sociedade e do Estado, preconizando novas medidas também

para os responsáveis ativos da situação irregular.”

46

41 Art. 5º Na aplicação desta Lei, a proteção aos interesses do menor sobrelevará qualquer outro bem ou interesse juridicamente tutelado. Cf.BRASIL. Lei n. 6.697, de 10 de outubro de 1979.

42 SANTOS, 2007, p. 30.

43 Art. 227. “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” Cf. BRASIL.Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acesso em: 19 mar. 2011. 44 ARAGÃO, 2005. p.12.

45 SILVA, 1996. p. 9. 46 Ibid., p. 6.

(23)

24

Em 1989 a ONU aprovou a Convenção Internacional dos Direitos da Criança

47

,

reunindo em seus dispositivos as medidas de proteção que as crianças tanto necessitavam.

Nesse contexto, “as fontes materiais do novo Direito e da nova Justiça

encontraram base nos movimentos populares da sociedade civil organizada que introduziram

no país a “doutrina da proteção integral”, recomendada nos documentos das Nações

Unidas.”

48

Nesse sentido discorrem Aragão e Vargas,

A convenção é um código que reúne todas as normas e medidas de privilégio e de proteção em favor das crianças que os países signatários deveriam adotar e incorporar às suas leis, tornando-se, assim, o “instrumento jurídico internacional mais transcendente para a promoção e o exercício dos Direitos da Criança.[...] Sob a bandeira da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção discorre sobre o “reconhecimento da dignidade inerente e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana”49

Na década de 90, substituindo a já citada FUNABEM e o Código de Menores de 1979, nasceu

o Estatuto da Criança e do Adolescente, ECA, através da Lei n. 8.069

50

, o qual adotou a

doutrina da proteção integral, “baseada no reconhecimento de direitos especiais e específicos

de todas as crianças e adolescente (v.art.3º).”

51

Ainda, na interpretação de Liberati o ECA,

[...] revolucionou o Direito Infanto-juvenil, inovado e adotado a doutrina da Proteção Integral. Essa nova visão é baseada nos direitos próprios e especiais das crianças e adolescentes que, na condição peculiar de pessoas em desenvolvimento, necessitam de proteção diferenciada, especializada e integral.52

A proteção integral instituída no ECA efetivou-se também em consequência da

Constituição Federal de 1988, que assegurou direitos fundamentais para todas as crianças e

adolescentes indistintamente, abarcando o que assegurava a Declaração Universal dos

Direitos da Criança, além da Convenção dos Direitos da Criança.

53

47 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção sobre os direitos da criança. Disponível em: <http://www.onu-brasil.org.br/doc_crianca.php>.Acesso em: 20 mar 2011.

48

SILVA, 1996 p. 19.

49

ARAGÃO, 2005. p.9. 50

BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm>.Acesso em: 20 mar. 2011.

51

ISHIDA, Válter Kenji. Estatuto da criança e do adolescente: doutrina e jurisprudência/comentários. 5.

ed. São Paulo: Atlas, 2004. p. 25.

52

LIBERATI, Wilson Donizeti.O Estatuto da Criança e do Adolescente Comentários. Brasília: IBPS, 1991. p.2.

(24)

25

Com a doutrina da proteção integral, o ECA tem como uma de suas pretensões

elevar tanto a criança como o adolescente ao patamar de sujeitos de direito

que necessitavam

de um tratamento especial.

54

Nesse contexto, corrobora Amaral e Silva,

Essa doutrina preconiza que crianças e jovens são sujeitos de direito, gozam de todos os direitos fundamentais da pessoa humana relacionados na Constituição, nos tratados, convenções internacionais e leis e, além disso, desfrutam de proteção especial, um plus decorrente da “condição peculiar de pessoa em desenvolvimento

”.

55

As normas contidas no ECA possibilitam agora ao legislador responsabilizar o

Estado, a sociedade e, principalmente, a família quando estes violarem os direitos

assegurados.

O ECA substitui o termo “menor” por criança e adolescente, pois aquele

recordava a “situação irregular”, “com as expressões genéricas de crianças e de adolescente,

pretendeu o legislador não particularizar, não permitir a marginalização, a marca, o estigma, a

cicatriz, o trauma.”

56

O ECA distingue a criança do adolescente através da idade, conforme dispõe o

artigo 2º

57

, do mencionado diploma legal, justamente para definir a infância e a juventude.

Segundo Ishida, “o artigo menciona a diferença técnica entre a criança e o

adolescente. Criança é o menor entre 0 e 12 anos e adolescente, o menor entre 12 e 18

anos.”

58

Conforme o artigo 5º

59

este vem assegurar a dignidade tanto da criança como do

adolescente, abolindo qualquer tipo de situação que os exponha e que ainda seja contrário aos

princípios e direitos que lhes são assegurados.

Para efetivar a doutrina da proteção integral, o legislador assegura medidas de

proteção e ainda prevê os respectivos responsáveis, caso violem algum direito, rompendo-se,

assim, definitivamente, com a doutrina da situação irregular.

54

SILVA, loc. cit.

55 SILVA, 1996. p. 19.

56 LIBERATI, Wilson 1991. p.3.

57 Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade.” Cf.BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990.

58 ISHIDA, 2004. p. 26.

59 Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. Cf. BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990.

(25)

26

As medidas de proteção estão elencadas no Estatuto da Criança e do Adolescente,

mais precisamente no artigo 98, in verbis,

Art. 98. As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados:

I – por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; II – por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; III – em razão de sua conduta.60

O aludido diploma ainda direciona, exclusivamente para a criança, um capítulo

relacionado às medidas específicas de proteção, o que não previa o revogado Código de

Menores.

Com relação ao adolescente, prevê o Estatuto de forma taxativa, um capítulo

mencionando as garantias processuais asseguradas, mais precisamente em seu artigo 111, in

verbis,

Art. 111. São asseguradas ao adolescente, entre outras, as seguintes garantias: I – pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional, mediante citação ou meio equivalente;

II – igualdade na relação processual, podendo confrontar-se com vítimas e testemunhas e produzir todas as provas necessárias a sua defesa;

III – defesa técnica por advogado;

IV – direito de ser ouvido pessoalmente pela autoridade competente;

VI – direito de solicitar a presença de seus pais ou responsável em qualquer fase do procedimento. 61

Sob o respaldo da doutrina da proteção integral, o ECA ainda prevê de forma

minuciosa os princípios e os direitos fundamentais inerentes à criança e ao adolescente, os

quais serão abordados na sequência.

2.2 DOS PRINCÍPIOS E DIREITOS FUNDAMENTAIS DA CRIANÇA E DO

ADOLESCENTE NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E NO ESTATUTO DA CRIANÇA

E DO ADOLESCENTE

Os interesses pertinentes à criança e ao adolescente vêm sendo debatidos ao longo

de décadas e foi assim que ocorreram as grandes conquistas.

60 BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. 61 BRASIL, loc. cit.

(26)

27

Como consequência da Declaração dos Direitos da Criança, a Constituição

Federal e o ECA solidificam suas bases em princípios e direitos que estão relacionados à

proteção integral infanto-juvenil e assim, “quanto mais o magistrado procura torná-los

eficazes, mais legítima será a decisão, por outro lado, carecerá de legitimidade a decisão que

desrespeitar esses princípios constitucionais.”

62

Os Princípios da Prioridade Absoluta e da Proteção Integral, da criança e do

adolescente servem como bases para assegurar as garantias que lhes são inerentes e, sendo

assim, estão inseridos na mais legítima fonte de justiça, tendo em vista que os princípios são

vistos como normas, portanto obrigam o seu cumprimento.

63

Os direitos fundamentais são

tidos como inalienáveis, intransferíveis a pessoa humana, contudo, quando se trata da criança

e do adolescente, são ainda mais importantes, tendo em vista que estes são seres em

desenvolvimento e necessitam que os seus direitos sejam cumpridos.

64

Assim, dá-se a importância no âmbito jurídico dos princípios e dos direitos

fundamentais no dia a dia da criança e do adolescente, pois é por meio desses princípios e

direitos que se efetivam as normas que regulam a órbita infanto-juvenil.

2.2.1 Princípio da proteção integral e da prioridade absoluta

A fim de codificar normas capazes de proporcionar o bem-estar da criança e do

adolescente criou-se um novo paradigma, por meio da Constituição Federal. Sob a ótica do

princípio da proteção integral implementou-se também o princípio da prioridade absoluta,

tendo em vista que em décadas passada essas pessoas não eram vistas como sujeitos de

direito.

“A Constituição Federal de 1988, pela primeira vez na história brasileira, aborda a

questão da criança como prioridade absoluta, e a sua proteção é dever da família, da sociedade

e do Estado.”

65

62 LIMA, George Marmelstein. As funções dos princípios constitucionais. Jus Navigandi, Teresina, n. 54, fev.2002. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2624>. Acesso em: 22 mar. 2011. 63 ESPÍNDOLA, Ruy Samuel. Conceito de princípios constitucionais: elementos teóricos para uma formulação dogmática constitucionalmente adequada. 1. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998. p. 55.

64 LIBERATI, 1991. p.4.

65 AMARAL E SILVA, Antônio Fernando do, apud CURY, Munir (Coordenador.). Estatuto da criança e do adolescente comentado: comentários jurídicos e sociais. 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 15.

(27)

28

É por meio da Carta Magna que se proclama a doutrina da proteção integral,

secundada pelo ECA, o qual estabelece em seu artigo 1º: “Esta Lei dispõe sobre a proteção

integral à criança e ao adolescente.”

66

(grifado)

Nesse sentido, “o Estatuto, dando cumprimento à Constituição, legisla igualmente

sobre a instrumentação para serem alcançados os direitos, no seu art. 3º [...].”

67

Desse modo, o mencionado artigo vem assegurar, in verbis, que,

Art. 3º. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.68

A Doutrina da Proteção Integral garante ampla e irrestritamente a defesa dos

direitos da criança e do adolescente e caminha juntamente com o princípio da prioridade

absoluta, que também está amplamente assegurado na Constituição Federal.

Os arts. 3º, 4º e 5º da Lei 8.069 reproduzem e aprofundam as normas constitucionais do art.227 da CF. No texto constitucional está inserida uma declaração de direitos reforçada pelo dever “da família”, para a qual destina-se a própria lei. A forma encontrada é correta, pois reafirma os direitos e cuida de que tenham, no caso da criança e do adolescente, uma aplicação ajustada à condição de pessoa em desenvolvimento.69

Quanto ao princípio da prioridade absoluta está assegurado na Constituição

Federal através do art.227, in verbis,

Art. 227.

É

dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, á liberdade e a convivência familiar e comunitária, além de colocá-las a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.70 (grifo nosso)

O citado dispositivo é o responsável por também garantir a proteção integral para

a criança e o adolescente, dando ênfase à prioridade absoluta e ainda ressalta a

responsabilidade da família, da sociedade e do Estado em assegurar o atendimento prioritário.

66 BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990.

67 COELHO, João Gilberto Lucas apud CURY, 2005. p. 36. 68 BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990.

69 COELHO, loc. cit.

(28)

29

Para tanto, o legislador menciona esse atendimento não como uma faculdade, mas sim como

um dever.

Como consequência do citado artigo, o ECA também assegura a prioridade

absoluta quanto à proteção dos direitos fundamentais desses cidadãos, mais especificamente

em seu artigo 4º in verbis,

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.71 (grifo nosso)

Diante do contexto, cada uma dessas entidades mencionadas no artigo supracitado

estará obrigada, dentro de suas atribuições, a dar preferência aos direitos da criança e do

adolescente.

Ressalta-se que não é admitido fazer interpretação restritiva quanto ao citado

artigo, cabendo sua interpretação por extensão ou analogia, pois segundo Dallari “a lei não

poderia prever todas as circunstâncias e descer pormenores sobre cada uma delas. Mas a

leitura atenta desses dispositivos fornece elementos suficientes para que se perceba seu

espírito e sua abrangência.”

72

2.2.2 Do direito à liberdade, ao respeito e à dignidade

Os direitos fundamentais inerentes à criança e ao adolescente, tais como a

liberdade, o respeito e a dignidade são considerados, segundo Liberati como “valores

intrínsecos que asseguram as condições que determinam o desenvolvimento da personalidade

infanto-juvenil, e sem os quais o ser “frágil” tem frustrada a sua evolução. ”

73

Os chamados direitos fundamentais estão amplamente assegurados pela

Constituição Federal e, pelo ECA, sendo colocados sob a mesma órbita dos direitos humanos,

conforme, preceituam Aragão e Vargas,

71 BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. 72 DALLARI, Dalmo de Abreu apud CURY, 2005. p. 44. 73 LIBERATI, 1991. p.7.

(29)

30 A liberdade, o respeito e a dignidade são valores que passam de século para século, colocando-se sempre na mesma tônica dos direitos humano, à frente de qualquer ordem arbitrária ou opressora. Estes valores transformam-se em escudos capazes de conter as manifestações abusivas, vitimizantes, resistem ao infinito, ao inexeqüível, ao impróprio, ao ilegal. A criança e o adolescente, pessoa em desenvolvimento, sujeito ativo dos direitos garantidos pela Constituição como os humanos, sociais e civis, participam da proteção destes vários escudos, por estarem no âmago de sua própria natureza de ser humano.74

O texto constitucional busca tutelar a criança e o adolescente, sujeitos de direitos,

que, por estarem em constante processo de desenvolvimento necessitam de uma proteção

maior indo, assim, os direitos à liberdade, ao respeito e à dignidade ao encontro dessa

proteção.

75

O ECA desenvolve os direitos fundamentais estabelecidos na Constituição em seu

artigo 15, in verbis,

Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.76

Observa-se através do citado artigo, a importância que o legislador confere à

proteção dos direitos fundamentais da criança e do adolescente, quando enfatiza o tratamento

direcionado a eles, como pessoas humanas e sujeitos de direitos.

O direito à dignidade e ao respeito que cabe à criança e ao adolescente estão

diretamente relacionados à sua formação, seu crescimento, por isso, a preocupação do

legislador em ampará-los com a devida proteção.

Com relação ao direito à liberdade prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente

em seu artigo 16, in verbis,

Art.16. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos:

I-ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;

II- opinião e expressão; III- crença e culto religioso;

IV- brincar, praticar esportes e divertir-se;

V- participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação; VI- participar da vida política, na forma da lei;

VII- buscar refúgio, auxílio e orientação.77

74 ARAGÃO, 2005. p.28.

75 DIAS, José Carlos apud CURY, 2005, p. 76. 76 BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. 77 BRASIL, loc. cit.

(30)

31

Do mencionado artigo 16, necessário se faz salientar a importância do inciso V,

pois o legislador ressalta a necessidade daqueles em crescer junto a sua família natural. É

através da família que o indivíduo recebe amor, carinho, respeito, entre outros valores e

sentimentos, e ainda é tratado sem qualquer tipo de discriminação.

Participar da vida familiar e comunitária é, assim, mais do uma possibilidade que se reconhece à determinação livre da criança e do adolescente, porque é um direito subjetivo que requer prestações positivas e condições favoráveis e efetivas para o seu auferimento, sem distinção de qualquer natureza, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (CF, arts. 3º, IV, 5º, caput, e 227)78

Observa-se que esse artigo não é taxativo, mas meramente exemplificativo, pois

“ali se explicitaram apenas os aspectos que o legislador teve como de mais direta pertinência à

criança e ao adolescente.”

79

Tal artigo vem tutelar o direito da personalidade da criança e do adolescente que

engloba a vida, o físico e o nome.

80

O direito à dignidade da criança e do adolescente encontra respaldo legal no já

citado artigo 227 da Constituição Federal, e secundado pelo artigo 18 do Estatuto da Criança e

do Adolescente, no entanto, o mencionado artigo do Estatuto repete os princípios relacionados

à Declaração Universal dos Direitos da Criança e da Convenção sobre os Direitos da Criança,

dispondo o artigo 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente, in verbis,

Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.81

Segundo Ishida “o ECA tenta com este artigo sensibilizar a sociedade sobre o

problema da criança e do adolescente, no sentido de participação, visando evitar atos

desumanos contra os mesmos.”

82

No intuito de aplicar o dispositivo ora em comento, o legislador ressalta a

responsabilidade do dever de todos em velar pela preservação da dignidade da criança e do

adolescente.

78 SILVA, José Afonso da apud CURY, 2005, p. 85 79 SILVA, José Afonso da apud CURY, 2005, p. 79. 80 ISHIDA, 2004. p. 46.

81 BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. 82 ISHIDA, loc. cit.

(31)

32 [...] Ë dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente. Esta função não se limita aos pais e aos responsáveis legais, estendendo-se a qualquer pessoa que tenha conhecimento de algum abuso ou desrespeito à dignidade da criança e do adolescente, devendo comunicá-lo ao Ministério Público, que tem a obrigação legal de propor as medidas judiciais e extrajudiciais necessárias.83

Infelizmente, apesar da existência do direito à dignidade, a criança e o adolescente

ainda continuam sendo vítimas de tratamentos desumanos, principalmente no meio familiar,

onde, em alguns casos, os mesmos são colocados em famílias substitutas.

2.2.3 Do direito à convivência familiar e comunitária

A Constituição Federal, conforme preceituam o artigo 226

84

e o já mencionado

artigo 227, coloca a família como base da sociedade, ressaltando ainda que esta detém direito

de proteção especial perante o Estado.

A família é o lugar normal e natural de se efetuar a educação, de se apreender o uso adequado da liberdade, e onde há a iniciação gradativa no mundo do trabalho. É onde o ser humano em desenvolvimento se sente protegido e de onde ele é lançado para a sociedade e para o universo. É fundamental ao Estado entrar para cooperar neste papel, que, embora entregue à família, é função de toda a sociedade, e sobretudo dos que detêm a gestão da coisa pública.85

O artigo 19

86

do Estatuto da Criança e do Adolescente quer enfatizar a

importância da família, considerada a estrutura fundamental relacionada aos Direitos da

Criança.

83 MARQUES, João Benedito de Azevedo apud CURY, 2005. p. 96.

84 Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.

85 CINTRA, Maria do Rosário Leite Cintra apud CURY, 2005, p. 100.

86 “Art. 19. Toda a criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes. § 1o Toda criança ou adolescente que estiver inserido em programa de acolhimento familiar ou institucional terá sua situação reavaliada, no máximo, a cada 6 (seis) meses, devendo a autoridade judiciária competente, com base em relatório elaborado por equipe interprofissional ou multidisciplinar, decidir de forma fundamentada pela possibilidade de reintegração familiar ou colocação em família substituta, em quaisquer das modalidades previstas no art. 28 desta Lei. § 2o A permanência da criança e do adolescente em programa de acolhimento institucional não se prolongará por mais de 2 (dois) anos, salvo comprovada necessidade que atenda ao seu superior interesse, devidamente fundamentada pela autoridade judiciária § 3o A manutenção ou reintegração de criança ou adolescente à sua família terá preferência em relação a qualquer outra providência, caso em que será esta incluída em programas de orientação e auxílio, nos termos do parágrafo único do art. 23, dos incisos I e IV do caput do art. 101 e dos incisos I a IV do caput do art. 129 desta Lei.” BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990.

(32)

33

A convivência familiar é fundamental na vida da criança e do adolescente, pois é

através da família que o ser humano desde o nascimento aprende os valores, recebe educação,

carinho, afeto, respeito, adquire hábitos saudáveis, aprende a enfrentar dificuldades, entre

tantos outros ensinamentos que se tornam indispensáveis para a sua criação, e o mencionado

artigo vem reforçar essa garantia constitucional.

Quanto à convivência comunitária, pode-se afirmar que a partir dela

desenvolve-se na criança e no adolescente uma série de habilidades que futuramente irão contribuir para

que consigam se socializar aos demais.

Nesse diapasão preceituam Aragão e Vargas que,

“na prática da proteção social está o direito da criança e do adolescente ao convívio da família e ao convívio comunitário. O interesse maior da criança deverá circundar todas as ações decorrentes de sua criação no seu lar de origem e nos casos excepcionais, em famílias substitutas, pois é fundamental para o desenvolvimento infanto-juvenil que os pais criem seus filhos.87

De acordo com Cintra,

[...] o espírito do art. 19, ao assegurar à criança o direito de ser educada na família, quer, acima de tudo, supor que os membros adultos da mesma ( pais, irmãos mais velhos ou, até mesmo, tios ou avós, dentro de uma política econômica e social( que leve em conta os direitos humanos), tenham garantidas as condições essenciais de salário para uma sobrevivência digna do núcleo familiar.88

Diante de casos excepcionais, caberá ao Estado o papel de interferir nessa

situação, colocando a criança ou o adolescente em uma família substituta por meio dos

institutos da guarda, tutela ou adoção assunto esse que será melhor explanado em momento

oportuno deste estudo os quais só são utilizados quando possível, pois dependendo do seu

perfil podem crescer em abrigos institucionais, infringindo-se, assim, a garantia do direito

fundamental ao convívio familiar e comunitário.

Cabe, ainda, destacar que a Declaração Universal dos Direitos da Criança também

assegura no princípio 6º a importância da criança crescer junto aos cuidados e

responsabilidade dos pais, in verbis,

Para o desenvolvimento completo e harmonia de sua personalidade, a criança precisa de amor e compreensão. Criar-se-á, sempre que possível, aos cuidados e sob a responsabilidade dos pais, e em qualquer hipótese, num ambiente, salvo circunstância excepcionais, a criança de tenra idade não será apartada da mãe. Á 87 ARAGÃO; VARGAS, 2005. p. 34.

(33)

34 sociedade e às autoridades públicas caberá a obrigação de propiciar cuidados especiais às crianças sem família e àquelas que carecem de meios adequados de subsistência. É desejável a prestação de ajuda oficial e de outras natureza em prol da manutenção dos filhos de famílias numerosas.89 (grifado)

Diante do contexto, constata-se a importância da família e da convivência

comunitária na vida da criança e do adolescente, pois é através da família, em especial, que

estabelecem laços eternos e recebem os subsídios necessários para o seu desenvolvimento,

para que, posteriormente, coloquem em prática a experiência do convívio familiar. Assim,

cabe a todos dar prioridade “às políticas sociais básicas que garantam a vida e sobrevivência

digna do ser humano, em função do qual tudo dever ser planejado.”

90

89 ORAGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: <http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php>. Acesso em: 19 mar. 2011.

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