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Palavras-chave: extensão universitária, concepção de extensão, universidade pública

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Academic year: 2021

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EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA: UM CONCEITO EM TRANSFORMAÇÃO

Luiz Fernando Conde Sangenis – FFP/UERJ

RESUMO:

O conceito de extensão universitária, nas duas últimas décadas, tem transitado da polissemia a um entendimento mais uníssono por parte da própria comunidade acadêmica. Como causas desta transformação, podemos apontar a criação do Fórum de Pró-Reitores das Universidades Públicas Brasileiras e o surgimento do Edital ProExt, de responsabilidade do MEC/Sesu, indutor de ações extensionistas que se caracterizam pela preocupação com a inclusão social. De prima pobre e com status inferior, antes o ensino e a pesquisa, a extensão tem buscado encontrar o seu lugar e o seu papel no âmbito da universidade brasileira. Entendida, cada vez mais, como vocacionada à grande articuladora da tríade que forma a extensão, com o ensino e a pesquisa, torna-se responsável por uma reforma da autocompreensão da universidade e das suas relações internas, e desta com a comunidade. Pretende retirar da extensão o caráter de "terceira função" para dimensioná-la como filosofia, ação vinculada, política, estratégia democratizante, metodologia, sinalizando para uma universidade voltada para os problemas sociais com o objetivo de encontrar soluções através das pesquisas básica e aplicada, visando realimentar o processo ensino-aprendizagem como um todo e intervindo na realidade concreta. Em sua relação com a pesquisa, juntas, seriam responsáveis pela criação e recriação de conhecimentos capazes de provocar transformações sociais. Por seu turno, em relação ao ensino, propugnaria transformações curriculares que determinariam um novo conceito de sala de aula e de aprendizagem.

Palavras-chave: extensão universitária, concepção de extensão, universidade pública

1. Extensão: oceano de pluralidades

Da tríade indissociável que caracteriza a ação universitária, a extensão – que com o ensino e a pesquisa a compõem – é a que mais causou equívocos e interpretações das mais variadas, especialmente, quando partimos para o enunciado das definições. O que é extensão, o que a caracteriza, quais seus objetivos, qual seu papel dentro e fora da universidade?

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Num oceano de pluralidades, nem sempre conseguimos o consenso dos que aportam em terra segura. Ao contrário do ensino e da pesquisa, a extensão tem sentido polissêmico. E isso não se deve à abundância de produções bibliográficas que venham discutir o tema. A reduzida produção sobre a extensão, tomando por critério comparativo a correspondente literatura sobre o ensino ou a pesquisa, ainda é marcada por divergências quanto ao objetivo e o significado da extensão universitária.

Considerando esta insipiente literatura, destacamos os trabalhos de Botome (1996), de Mesquita (1997) e de Nogueira (2005). Consultando-os encontramos diversos conceitos de extensão universitária. Mesquita menciona, ao menos, dezenove conceitos diferentes, aos quais classifica de “vulgares”; divide-os em cinco categorias, assim caracterizadas: (1) oferta de cursos; (2) prestação de serviços; (3) atividade complementar ao ensino e à pesquisa; (4) compensação ou “remédio” para suprir as falhas do ensino regular; (5) e, finalmente, instrumento político-social.

Pesquisa realizada pela Comissão Permanente de Avaliação da Extensão (CPAE) do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Bra¬sileiras, em 2007, levantou informações sobre as concepções de extensão das Instituições Públicas de Educação Superior referentes aos anos de 1993 e 2004.

Concepção de Extensão nas Instituições Públicas de Educação Superior – 1993

Concepção f %

Função de articulação entre a Sociedade e a Universidade

61 98,4

Função que leva a Universidade ao cumprimento de sua missão social

55 88,7

Função de prestação de serviço por parte da Universidade 40 64,5 Função de politização da Universidade 34 54,8 Função de alimentação/retroaliment ação do ensino e da pesquisa (resposta espontânea) 5 8,1 Função de articulação do ensino com a pesquisa (resposta espontânea)

4 6,4

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Concepção de Extensão nos instrumentos legais nas instituições públicas de educação superior – 2004 Concepção f % Articulação entre a universidade e a sociedade 71 98,6 Articulação do ensino 66 91,7 Articulação da pesquisa 65 90,3 Promoção de interdisciplinaridade 58 80,6 Transmissão do conhecimento produzido pela universidade 58 80,6 Prestação de serviços 55 76,4 Cumprimento da missão social da universidade 64 88,9 Outros 6 8,3

2. Extensão: um conceito em mutação

A origem da extensão brasileira foi marcada pelo assistencialismo e por uma atitude soberba da universidade, entendida como torre do saber, que, benemeritamente, concedia à comunidade a chance de ilustrar-se ou de resolver seus problemas ao usufruir das conquistas do saber acadêmico e científico. Vigorava uma dicotomia entre ensino, pesquisa e extensão. Ao longo de anos esta realidade não se alterou significativamente.

Os primeiros registros oficiais sobre Extensão Universitária aparecem no Estatuto da Universidade Brasileira / Decreto-Lei no 19.851, de 1931 e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no 4.024, de 1961, centrados na modalidade de transmissão de conhecimentos e assistência.

A Reforma Universitária de 1968, Lei 5.540, tornou a Extensão obrigatória em todos os estabelecimentos de ensino superior e nas universidades, como cursos e serviços especiais estendidos à comunidade.

Com o fortalecimento da sociedade civil durante os anos 80 é discutido um novo paradigma para a universidade brasileira, sua relação com a sociedade e o papel da extensão. Nesse movimento é criado, em reunião na UnB, o Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas (1987), que expressa o novo conceito no I

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Encontro Nacional de Pró-Reitores de Extensão. Em 1988 é aprovada na Constituição o princípio da indissociabilidade ensino – pesquisa – extensão.

O conceito de Extensão definido pelo Fórum, naquela época, foi básico para o desenvolvimento conceitual, expresso no Plano Nacional de Extensão que explicita sua praxis nos princípios da indissociabilidade e ação transformadora, com interação social e interdisciplinaridade.

Após o Plano Nacional de Extensão (1999-2001), elaborado pelo FORPROEX - Fórum dos Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras e pela Secretaria de Educação Superior, e mais as iniciativas das políticas indutoras do MEC, ficou fortalecida a ideia de que a finalidade da extensão universitária é a de servir de instrumento de política social com o objetivo de superação das desigualdades sociais existentes.

A extensão entendida como prática acadêmica que interliga a Universidade nas suas atividades de ensino e de pesquisa, com as demandas da maioria da população, possibilita a formação do profissional cidadão e se credencia, cada vez mais, junto à sociedade como espaço privilegiado de produção do conhecimento significativo para a superação das desigualdades sociais existentes. (Brasil, MEC/Sisu, FORPROEXT)

O MEC procura consolidar esta concepção de extensão na comunidade acadêmica utilizando instrumentos indutores, dos quais o mais destacado é o ProExt, em razão de ser uma das poucas possibilidades de financiamento das ações de extensão. O próprio MEC veicula em seu portal a seguinte informação:

O Programa de Extensão Universitária (ProExt) tem o objetivo de apoiar as instituições públicas de ensino superior no desenvolvimento de programas ou projetos de extensão que contribuam para a implementação de políticas públicas. (grifo nosso) (Brasil, Portal do MEC)

Criado em 2003, o ProExt abrange a extensão universitária com ênfase na inclusão social.

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Os temas do ProExt deixam clara a tônica na inclusão social:

* formação de professores para o sistema educacional;

* atenção integral à família;

* combate à fome;

* erradicação do trabalho infantil;

* combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes;

* juventude e desenvolvimento social;

* geração de trabalho e renda em economia solidária;

* promoção e/ou prevenção à saúde;

* violência urbana;

* direitos humanos;

* educação de jovens e adultos;

* atenção à pessoa idosa, à pessoa com deficiência e às populações indígenas e quilombolas;

* atividades complementares ao Programa Brasil Alfabetizado;

* educação ambiental e apoio ao desenvolvimento comunitário;

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* apoio à organização e desenvolvimento comunitário;

* inclusão social dos usuários de drogas;

* inclusão digital;

* apoio às atividades de escolas públicas;

* ensino de ciências;

* Educação de jovens e adultos, incluindo apoio ao desenvolvimento de sistemas locais e regionais de educação, alfabetização e letramento. (BRASIL, MEC/Sisu)

Não é sem razão que, apesar da palavra declarada, a extensão ainda sofre para deixar de se tornar atividade menos nobre da tríade – hierarquicamente encabeçada pela pesquisa, e seguida pelo ensino – e, consequentemente, a prima pobre da universidade. Numa mesma instituição, constatamos o desvalor dos que também cuidam da prática, que se imiscuem no mundo das coisas, enquanto outros, por dedicarem-se unicamente à pesquisa, ao inventar realidades, longe do burburinho da rua, têm o direito garantido de manter seus laboratórios e gabinetes aquinhoados com verbas de editais generosos quando encontram méritos e competências investigativas. A universidade custa a superar antigas hierarquias entre tipos de saber que remontam a tradição aristotélica.

Por sua vez, aqueles que se dedicam à extensão tentam, com esforço, enobrecer a ação extensionista. Talvez, daí, segundo um ponto de vista, se defenda como meritória a concepção de universidade que mantém relação com a população com o objetivo de oxigenar a vida acadêmica. Em consequência, a produção do conhecimento, via extensão, se faria na troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, tendo como consequência a democratização do conhecimento, a participação efetiva da comunidade na atuação da universidade e uma produção resultante do confronto com a realidade.

Esta nova concepção de extensão pretende superar a compreensão tradicional de disseminação de conhecimentos produzidos pela universidade, a ciência, a técnica e a arte. Cursos, conferências, seminários, simpósios foram os meios preferenciais para a

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divulgação do conhecimento científico; o conhecimento técnico, por sua vez, ensejava a prestação de serviços, via assessoriais, consultorias e ações assistenciais; e, finalmente, os eventos de difusão cultural, divulgariam a produção de arte e cultura.

3. Extensão: um novo conceito em formação

Houve a necessidade de questionamento sobre as ações desenvolvidas pela extensão; de função inerente à universidade, a extensão começou a ser percebida como um processo que articula o ensino e a pesquisa. A produção do conhecimento, via extensão, se faria na troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, tendo como conseqüência a democratização do conhecimento, a participação efetiva da comunidade na atuação da universidade e uma produção resultante do confronto com a realidade. A pesquisa, tanto a básica quanto a aplicada, deveria ser sistematicamente direcionada ao estudo dos grandes problemas, podendo fazer uso de metodologias que propiciassem a participação das populações na condição de sujeitos, e não na de meros espectadores.

Concebida e institucionalizada como processo educativo, cultural e científico, caberia à extensão articular o ensino e a pesquisa e viabilizar a relação transformadora entre a universidade e a sociedade. Trata-se de uma reforma da autocompreensão da universidade e das suas relações internas, e desta com a comunidade. Pretende retirar da extensão o caráter de "terceira função" para dimensioná-la como filosofia, ação vinculada, política, estratégia democratizante, metodologia, sinalizando para uma universidade voltada para os problemas sociais com o objetivo de encontrar soluções através das pesquisas básica e aplicada, visando realimentar o processo ensino-aprendizagem como um todo e intervindo na realidade concreta.

A afirmação de que a extensão é parte indispensável do pensar e fazer universitários, exige um esforço pela institucionalização dessas atividades, tanto do ponto de vista administrativo como acadêmico, o que implica a adoção de medidas e procedimentos que redirecionam a própria política das universidades.

A partir desta nova compreensão do papel articulador da extensão, com relação à pesquisa, haveria muitas possibilidades de articulação do trabalho da academia com setores da sociedade. Priorizando as metodologias participativas, universidade e comunidade seriam, juntas, responsáveis pela criação e recriação de conhecimentos

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capazes de provocar transformações sociais, bem como identificar o que deve ser pesquisado e para quais fins e interesses se buscam novos conhecimentos.

Quanto ao ensino, discutem-se formas alternativas de superação da forma tradicional da organização curricular, estruturado em torno de um conjunto rígido de disciplinas. Os currículos tornar-se-iam mais flexíveis e abertos. Para tanto, é necessário criar um novo conceito de sala de aula, que não se limite ao espaço físico da dimensão tradicional, mas compreenda outros os espaços, dentro e fora da universidade. Atividades complementares, por exemplo, abririam possibilidades de envolvimento, em que se realiza o processo histórico-social com suas múltiplas determinações, passando a expressar um conteúdo multi, inter e transdisciplinar, como exigência decorrente da própria prática.

O estágio curricular é outra possibilidade promissora para viabilizar a extensão enquanto momento da prática profissional, da consciência social e do compromisso político. Idealmente, poderiam ser obrigatórios para todos os cursos, iniciando-se, de modo desejável, nos primeiros períodos, e estar integrado a projetos decorrentes dos projetos pedagógicos dos cursos e à temática curricular.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Ensino Superior. Fórum de Pró-Reitores de Extensão nas Universidades Públicas Brasileiras. Comissão Permanente de Avaliação da Extensão Universitária. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, Editora Universitária, 2006.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Ensino Superior. Fórum de Pró-Reitores de Extensão nas Universidades Públicas Brasileiras. Indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão e a flexibilização curricular: uma visão da extensão. Porto Alegre: UFRGS; Brasília: MEC/Sesu, 2006.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Ensino Superior. Fórum de Pró-Reitores de Extensão nas Universidades Públicas Brasileiras. Plano Nacional de

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Extensão Universitária: http://www.renex.org.br/documentos/Colecao-Extensao-Universitaria/01-Plano-Nacional-Extensao/Pl

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Ensino Superior, disponível em http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12241&Ite mid=487, acesso em 03/03/2012.

BOTOME, S.P. Pesquisa alienada e ensino alienante: o equívoco da extensão universitária. Petrópolis: Vozes, 1996.

MESQUITA FILHO, Alberto. “Integração Ensino-Pesquisa-Extensão.” Revista

Integração, v. 9, p. 138-143, 1997, disponível em:

http://ecientificocultural.com/ECC2/artigos/epe.htm, acesso em 01/03/2012.

NOGUEIRA, Maria das Dores Pimentel. Políticas de Extensão Universitária Brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.

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