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Academic year: 2020

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CIRCO E CRIANÇA

CIRCUS AND CHILD

CIRCO Y NIÑOS

Natália Dolwitsch1

Raquel Guerra2

Resumo: Este artigo apresenta a pesquisa desenvolvida sobre o tema circo e criança, cujo objetivo foi investigar a pedagogia circense. Como abordagem metodológica foi realizada uma prática pedagógica. Complementam o trabalho como fontes de pesquisa o levantamento bibliográfico, visitas a circos itinerantes, entrevistas, participação em festivais e eventos acadêmicos que tornaram possível a discussão do tema. A proposição da pesquisa foi explorar uma maneira sensível e lúdica no ensino-aprendizagem das técnicas circenses, de modo a estudar no exercício da prática docente a relação entre circo e criança a partir do jogo e da brincadeira.

Palavras-chave: Pedagogia Circense. Criança. Teatro. Docência.

Abstract: This paper presents the research developed on the theme circus and child, whose aim was to investigate circus pedagogy. As a methodological approach, a pedagogical practice was carried out. Complementing the work as sources of research are the bibliographical survey, visits to itinerant circuses, interviews, participation in festivals and academic events that made possible the discussion of the theme. The purpose of the research was to explore a sensitive and playful way in the teaching and learning of circus techniques, in order to study the relationship between circus and child in the practice of game and play.

Keywords: Circus Pedagogy. Child. Theater. Teaching.

Resumen: Este artículo presenta la investigación desarrollada sobre el tema circo y niños, cuyo objetivo fue investigar la pedagogía circense. Como enfoque metodológico se llevo a cabo una práctica pedagógica. Complementan el trabajo como fuentes de investigación el levantamiento bibliográfico, visitas a circos itinerantes, entrevistas y la participación en festivales y eventos académicos que hicieron posible la discusión del tema. La proposición de la investigación fue explorar una manera sensible y lúdica en la enseñanza-aprendizaje de las técnicas de circos, para estudiar en el ejercicio de la práctica docente la relación entre circo y niños a partir del juego y del juego de ninõs.

Palabras-clave: Pedagogía circense.Niños. Teatro. Enseñanza.

Envio 28/08/2018 Revisão 30/08/2018 Aceite 15/10/2018

1 Bolsista de Iniciação Científica, FIPE-CAL. UFSM. Pesquisadora e artista. E-mail: [email protected] 2 Doutora em Teatro. UFSM. Coordenadora do Grupo CineCirco. E-mail: [email protected]

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Introdução

Neste texto, optamos por recortar como tema de pesquisa a reflexão sobre a pedagogia circense com crianças. Para isso, foram considerados os contextos teórico e prático. No teórico, foram estudadas bibliografias sobre as artes circenses, suas histórias, estéticas, modalidades e técnicas. De caráter prático, foram desenvolvidas aulas e oficinas de circo com crianças em escolas, projetos e em um circo. Também foram realizadas visitas e observação de circos itinerantes, entrevistas com artistas circenses e pesquisadores universitários.

Em um primeiro momento, o artigo apresenta alguns princípios e apontamentos que dizem respeito ao circo em geral, que envolvem a compreensão de questões históricas sobre o circo no Brasil. Num segundo momento o artigo apresenta abordagens técnicas sobre o aprendizado circense. Em um terceiro momento, são apresentadas algumas contribuições da pesquisa no desenvolvimento de uma abordagem metodológica desenvolvida mais especificamente com crianças, em diferentes espaços de circo, na cidade de Santa Maria - RS.

Mas afinal, como se aprende circo? E como se ensinam as técnicas circenses?

Segundo autores consultados e artistas circenses entrevistados, o ensino das técnicas circenses era realizado somente nos próprios circos de lona, era um conhecimento circunscrito a este contexto. O conhecimento da pedagogia circense era passado de forma oral e não existia uma preocupação de sistematizá-lo na escrita. Isto, no entanto, não significa que não há sistematização do conhecimento transmitido oralmente, pelo contrário, nosso contato com circo itinerante comprovou que há grande saber sistematizado pelos artistas circenses que nasceram e aprenderam o circo debaixo da lona. O fato é que não se sentia a necessidade, pois as crianças que estavam no processo de aprendizagem pouco a pouco, ao longo da carreira circense, tornavam-se os mestres que tinham a obrigação de ensinar as próximas gerações. Além disso, a oralidade no interior de um circo itinerante deve ser compreendida em sua dimensão ampla. Para Ermínia Silva e Rogério Sette Câmara (2009), os ensinamentos das artes do circo itinerante não são somente ligados ao conhecimento corporal e artístico. Ele se expande para o campo da experiência cooperativa e se transforma para além de todo o conhecimento técnico, uma filosofia de vida. A colocação dos autores se refere a formação no circo itinerante, contudo,

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esta dimensão global do fazer e ser circense foi tomada como um princípio norteador para as

práticas pedagógicas que esta pesquisa desenvolveu associadas ao tema circo e criança. Neste trabalho, encara-se que para a instrução das artes circenses, as crianças precisam passar pelo processo de conhecer um pouco de cada segmento apresentado no circo e com isso, entende-se que a prática precisa vivenciar o teatro, a dança, a música entre outras modalidades artísticas. Reconhece-se que o circo, desde sua origem agrega várias linguagens que contribuíram para a montagem de seus espetáculos e que a relação híbrida entre as artes estava constantemente presente nos circos de lona. Mário Bolognese (2018) pontua este aspecto associando o teatro de variedades e o music hall ao nascimento do circo moderno. Esta mescla de linguagens artísticas, este hibridismo, é um princípio da linguagem circense identificado tantos nas fontes bibliográficas quanto nos depoimentos de artistas. E ele esteve presente nas aulas com crianças desenvolvidas por esta investigação.

Pedagogia circenses: da lona para a escola

No Brasil, segundo Ermínia Silva e Rogério Sette Câmara (2009), a primeira experiência formal, voltada ao ensino das técnicas circenses fora do espaço do circo de lona ocorreu em 1978, com a inauguração da Academia Piolin das Artes Circenses. Este acontecimento marca o início de um movimento que se expande pelo Brasil afora, com a abertura de escolas de circo, projetos de circo social e a inclusão do circo como um tema e campo de investigação universitária, em diferentes áreas de conhecimento. Com isso, o circo também é redescoberto por artistas de dança e teatro que passam por estas escolas. Estes movimentos, pouco a pouco, produzem a necessidade de sistematizar o ensino circense, em cartilhas, vídeos, oficinas, aulas, disciplinas, cursos técnicos. Contudo, há que situar como dado fundamental que o aprendizado circense, sua pedagogia, requerem anos de prática e estudo, quer se trate do aprendizado debaixo da lona desde a infância, quer se fale do circo em escolas. Pensar uma pedagogia circense para crianças foi o que movimentou o interesse da pesquisadora para escrever sobre o tema. O principal objetivo da pesquisa foi pensar e oferecer uma proposta metodológica que contemple os ensinamentos das técnicas circenses de maneira lúdica, respeitando o tempo e a experiência da criança.

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A pesquisa propôs uma prática que ofereceu o ensino do circo. Esta proposta

metodológica foi realizada através de oficinas para crianças de 01 a 10 anos de idade. O principal espaço de estudo foi o projeto Circo Pippi, vinculado ao Laboratório de Ensino do Departamento de Artes Cênicas da UFSM. Outros espaços em que foram oferecidas oficinas: a Escola de Circo Sorriso com Arte, a Escola de Educação Infantil Papo de Anjo e o Circo Troy, em sua passagem por Santa Maria. Além disso, outros contextos como o festival Santa Maria Sesc Circo e a Convenção Carioca de Bambolês, entre outros, contribuíram para as reflexões deste trabalho.

Alguns autores, como Ermínia Silva e Mario Fernando Bolognese foram importantes para entender a profícua relação que o circo estabelece com outras artes, como teatro, dança e música. E como a pedagogia circense pode se estabelecer em relação a este pressuposto. Outros autores, como Marco Bortoleto, trouxeram abordagens metodológicas para pensar o circo na escola.

Para que se pense em práticas didáticas de circo, é necessário que se entenda de que forma ela funciona em distintos ambientes, como as escolas de circo, os circos tradicionais de lona, os projetos sociais, em comunidades e escolas, os circos de rua ou em qualquer outro espaço que exista uma reunião de artistas e curiosos.

O ensino das artes circenses, antes de passarem pelo processo de sistematização através das escolas e cartilhas de circo, que podem ser encontradas hoje em dia. As crianças aprendiam seus números e habilidades do circo por meio da observação de seus pais e mestres. Erminia Silva (2009) afirma que “esta aprendizagem era adquirida no interior do mundo da lona, principalmente pela tradição oral”. Não existia de fato um sistema de ensino escrito, o conhecimento empírico era o que movimentava a pedagogia. E este formato está presente em muitos circos itinerantes que sobrevivem no Brasil, como pôde ser constatado nas observações ao Circo Kroner e Circo Troy. E como atesta a pesquisa de Gilmar Rocha (2013) e de outras fontes bibliográficas.

A verdade é que o aprendizado realizado desde criança, passado de pai para filho, ser artista para um circense de família tradicional,

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parece ser algo tão natural quanto respirar, falar, andar, comer, etc.

(Rocha, 2013, pág 21)

Com o advento das escolas de circo, ocorreram algumas mudanças na forma de como o conhecimento passou a ser organizado. Como por exemplo, a sistematização através da escrita. O circo começa a surgir em ambientes fora daquele considerado como o tradicional e chega como uma proposta artística e pedagógica em escolas, universidades e outros espaços.

Lugares para o circo coexistir

Com a criação das cartilhas de circo, desenvolvidas por pesquisadores e artistas circenses, o entendimento e o aprendizado das técnicas se torna mais acessível para quem não nasceu no circo e nem é de família tradicional circense. Fica evidente que a didática de forma oral ainda está presente em aulas e oficinas, pois, independentemente de o manual expressar determinada figura, o papel do professor/educador circense é de grande importância na hora de demonstrar algum movimento ou oferecer alguma indicação para o aluno. A sistematização das práticas pedagógicas, em manuais e pesquisas, não exclui a necessidade da transmissão oral e nem pode ser compreendido a partir de uma hierarquia de valores.

Tanto nas escolas de circo, como no circo de lona, existem diferentes tipos de professores que carregam consigo muitas formas de passar o conhecimento adiante. Não existe receita para pedagogia em nenhuma de suas instâncias, mas podemos observar que algumas didáticas são mais rigorosas do que outras. Nesta pesquisa foi feita uma flexibilização da forma como muitas aulas de circo são conduzidas, no que se refere ao rigor e exigência técnica, tal qual se vê, por exemplo, nas crianças acrobatas de Pequim. Desse modo, a pesquisa investigou modos de transmitir as questões técnicas para o aprendizado das modalidades circenses de forma que a brincadeira ganhasse um espaço maior, que a prática circense ocorresse de maneira mais leve para o corpo da criança.

É preciso reforçar que a forma de condução de uma aula é determinada por sua espacialidade, mas, principalmente, é estabelecida pelo professor que conduz a prática. O circo é múltiplo em suas formas de expressão e arte, portanto, suas pedagogias e didáticas também são. Nesse sentido, pode existir um diálogo entre as diferentes formas de ensino de circo.

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A mesma aula pode ser oferecida em diferentes espaços. Uma oficina de bambolê, por

exemplo, foi oferecida diversas vezes ao longo da pesquisa. Uma delas, foi realizada em uma visita ao Circo Troy, que passou pela cidade de Santa Maria em fevereiro de 2018. Nesta ocasião, foram levados alguns bambolês para realizar uma oficina com as crianças. Bastou uma demonstração técnica da pesquisadora, para despertar a curiosidade das crianças, que logo se dispuseram a ir aprender alguns truques. Neste espaço, as crianças já possuíam o domínio de algumas habilidades circenses e a curiosidade por aprender algo novo foi o que chamou atenção delas.

Despertar a curiosidade é o elemento que une o exemplo anterior com o que segue este parágrafo. Em outra experiência, em uma oficina com as crianças do projeto Circo Pippi, o bambolê também foi o aparelho escolhido para conduzir a prática. Vários aparelhos espalhados pelo chão e uma brincadeira inicial: passar por dentro dos bambolês. Depois de algum tempo de brincadeiras envolvendo o aparelho, a condutora realizou novamente uma demonstração técnica, que despertou a curiosidade das crianças para aprender alguns dos movimentos demonstrados.

Em um último exemplo, a prática de uma outra escola. Escola de Educação Infantil Papo de Anjo, que oferece em sua proposta pedagógica, aulas de circo para as crianças durante uma vez por semana. Passar pelo portão da escola, com meia dúzia de bambolês debaixo do braço, já foi o suficiente para esse ser o aparelho escolhido pelas crianças para ser o brinquedo preferido da aula do dia.

Fazendo uma breve análise dos três exemplos comentados acima, nota-se que o elemento principal neste trabalho é despertar a curiosidade da criança. Isso pode ocorrer de diversas formas, como por meio das demonstrações técnicas, figuras, vídeos, instalações com os próprios aparelhos, ou disponibilização do aparelho no espaço. A prática precisa ser divertida, para que a criança sinta vontade de aprender. As crianças que tiveram contato com as oficinas eram de núcleos diferentes. Crianças que nasceram no circo, crianças que possuem contato com a prática por conta da escola, crianças curiosas.

A visão de criança neste trabalho é explicada a partir de Marina Marcondes Machado (2010) que fala sobre a [...] “certeza de que a criança compartilha o mesmo mundo do adulto: vê, percebe, vive o mundo em sua própria perspectiva, sim, mas nunca ensimesmada

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ou reclusa em um mundo da criança: vivemos o mesmo mundo, convivemos no mesmo

mundo”. Ou seja, as crianças participantes da pesquisa são tratadas de forma em que se compreenda sua diferente perspectiva de ver o mundo, porém em nenhum momento é colocada como menos importante no processo por sua idade. Pelo contrário, a experiência e o olhar da criança são fundamentais para o desenvolvimento deste trabalho, que teve como objetivo pesquisar as relações do circo e da criança, dando ênfase a questão da pedagogia circense.

Independente do espaço da oficina e do perfil do grupo de crianças, os exemplos buscam chamar atenção para algo que foi fundamental para a pesquisa, o trabalho do educador. A mesma oficina vai ser desenvolvida de maneiras diferentes com cada grupo, pois depende da forma como cada criança lida com a prática, suas expectativas e suas experiências com o circo, porém, a abordagem inicial pode ser a mesma. Se dispor a escuta e observação, criar um espaço de brincadeira, estimular a criatividade e responder as dúvidas quando for solicitado. Agachar-se como as crianças.

Diferentes formas do corpo aprender

A oferta de práticas de esportes e atividades artísticas para infantes são oferecidas em escolas regulares e escolas específicas, com o intuído de levar a cultura, o bem-estar e o lazer para a criança. O contato com algumas modalidades propõe estímulos da coordenação motora, do desenvolvimento sensorial, comunicativo e imaginário da criança.

Algumas práticas são mais rigorosas, outras mais leves. O circo se encaixa como uma possibilidade que mescla arte e esporte em uma só técnica. O ensino desta prática vai variar de acordo com quem conduz a aula e também para qual finalidade ela está sendo desenvolvida. Um exemplo específico: o ensino dentro e fora da lona do circo.

Práticas como estas são encontradas não só no campo do circo, mas também em outras áreas como o ballet, por exemplo. A aprendizagem desta modalidade também varia, podendo ser lúdica ou rígida. Este pensamento dialoga com o relato de Mario Fernando Bolognese, coletado através de uma das entrevistas realizadas pelo grupo CineCirco em fevereiro de 2018, “...o método de ensino varia de professor para professor, a maioria dos procedimentos não são

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A fala do pesquisador reafirma situações bem comuns, narradas e vivenciadas por

artistas e atletas que iniciaram durante a infância treinamentos técnicos de alta performance corporal. É comum encontrar relatos e casos em que o professor transfere treinamento físicos de adultos para crianças, que muitas vezes não respeitam seu limite corporal. Diante disso, decorre alguns problemas como: treinamentos forçados, exageros de estresse corporal, lesões precoces, desestímulo das crianças e outros.

O desenvolvimento desta pesquisa tomou este aspecto como um problema a ser refletido e debatido acerca do aprendizado técnico, especificamente no âmbito da pedagogia circense com crianças. Um princípio relacionado às práticas corporais do teatro e da dança foi estudado como um contraponto a estas abordagens rígidas, trata-se da memória corporal. Ela está relacionada aos movimentos e sensações que ficam registrados no corpo. Uma vez em que o corpo faz determinado movimento, ele guarda uma recordação do mesmo, podendo ser consciente ou inconsciente.

Essa memória corporal pode se desenvolver no corpo da criança de diversas maneiras, tanto em treinamentos mais puxados quanto em aulas mais lúdicas. Subir em um tecido acrobático, girar na lira, desenvolver uma acrobacia de solo como um rolinho, tudo isso faz com que esse conhecimento corporal fique acumulado no corpo da criança e, aos poucos, ela vai acrescentando isso em seu repertório físico, assimila os movimentos ao longo do processo de ensino.

Em relação ao tempo de aprendizado, a memória corporal e a necessidade de repouso, encontramos na pesquisa uma equivalência de entendimento entre distintas abordagens. Por exemplo, no manual da FEDEC (2010), organizado pelas escolas de circo profissional da Europa e traduzido no Brasil pelo Circo Crescer e Viver, a pedagogia circense se baseia nos princípios técnicos do treinamento físico comumente aplicado na área da educação física. Através de gráficos e exemplo, situa a importância de um professor prever o tempo de repouso além de expor considerações sobre a força e o alongamento necessário para a prática.

Quando a quantidade correta de estresse é imposta, o corpo reage positivamente. Se períodos de repouso adequados não estiverem incorporados na preparação física, os efeitos positivos do treinamento podem ser contrários. (FEDEC 2010, Manual I, pág 09)

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Na visita ao circo Kroner, em 2016, um circense que era responsável pela prática de

contorcionismo de sua filha, indicou a necessidade de realizar certos alongamento diariamente, para poder manter a técnica. Ao mesmo tempo, ele salientou que o modo como isso ocorre precisa ser cuidadoso, para não forçar demais, para evitar o estresse corporal da criança. Com base nestas duas fontes de pesquisa, uma bibliográfica e outra oral, averiguamos que o circo pode desempenhar papel importante na formação corporal e que está associado a outros campos do conhecimento corporal, como teatro, dança e educação física.

Além disso, as diferentes fontes, embora tragam semelhanças e diferenças na forma como abordam o ensino e transmissão das práticas circenses, concordam no aspecto fundamental de não chegar ao limite de estresse físico durante o ensinamento e aprendizado das técnicas circenses. Ou seja, existem alguns princípios comuns de orientação para a técnica circense, desenvolver a força, a flexibilidade, resistência, equilíbrio e coordenação. Conduto, a forma como isso ocorre pode variar. E como isso se desenvolve na particularidade de cada pessoa depende do histórico corporal.

Um elemento pouco explorado pelas bibliografias de circo consultadas e pouco comentado pelos circenses entrevistados foi a questão da consciência corporal. E sobre este princípio, as investigações junto ao grupo de pesquisa sempre se direcionaram no intuito de praticar e compreender melhor a função das práticas de consciência na formação corporal e no aprendizado da técnica circense.

Contudo, este foi um princípio norteador das práticas pedagógicas desenvolvidas e por esta razão, as reflexões aqui indicadas provêm de literaturas da dança, do teatro, da educação somática e educação física, entrelaçadas a experiência prática.

Metodologia das aulas

A metodologia, que compôs as aulas oferecidas pelo trabalho, foi pensada de forma que despertassem a curiosidade da criança, para despertar o interesse no aprendizado da técnica. Essa metodologia preocupou-se em oferecer uma didática que não promovesse o estresse para o corpo da criança, além do indicado como possível dentro de uma prática corporal, mas que ofereça a técnica para dar suporte na construção de sua memória corporal no período da infância. Os aparelhos circenses ficavam a disposição para quando eles sentissem a vontade de

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experimentá-los e a condução sempre era pensada por meio de alguma brincadeira. Um material

didático que deu suporte para o pensamento dessas aulas foi o livro Jogando com o Circo (Bortoletto; Prodócimo; Pinheiro. 2011).

Esta referência contribuiu para a pesquisa, pois ali foram encontrados diversos jogos que situam um caminho lúdico com o circo. Esse era o ponto de partida para o início das aulas e oficinas, uma brincadeira que estimula o interesse das crianças.

Essas brincadeiras apareciam na maior parte das oficinas, como forma de iniciar a aula criando um vínculo de professora com o grupo. Os aparelhos circenses estavam presentes desde o primeiro momento, como o bambolê, por exemplo. Em um dos jogos, propunha-se que todo o grupo desse as mãos em círculo e um bambolê ficava preso entre os braços de uma dupla, que deveria ir passando o mesmo aparelho para o colega do lado sem soltar as mãos.

Este jogo funcionava para crianças com mais de 05 anos de idade, as tentativas com o mesmo exercício com as crianças menores não foram bem-sucedidas. Com elas, um jogo que funcionava era o túnel de bambolê, onde um aparelho ficava preso entre dois colchonetes e o desafio era passar por dentro do círculo, sem encostar nele.

Os jogos são abordados de maneiras diferentes vendo a particularidade das crianças. As mais novas se interessam mais por jogos que envolvam a coordenação motora e elas possam brincar sozinhos; já as maiores preferem as dinâmicas em grupos, principalmente em jogos que elas possam se mexer, correr e passar por desafios em que utilizem o corpo, como se arrastar, escalar, etc.

A brincadeira acompanhava toda a aula e eventualmente tomava o maior tempo dela. As crianças um pouco maiores gostavam de propor as brincadeiras de faz de conta, criando um universo onde elas eram piratas, princesas, personagens de desenhos que estavam habituados a assistir. Enquanto essas brincadeiras estavam acontecendo, algumas crianças pediam para brincar nos aparelhos aéreos, querendo aprender alguma figura acrobática nova. Existe espaço para as duas brincadeiras na sala de aula, primeiro porque quando o número de crianças é muito maior do que o número de professores, é impossível oferecer suporte individual para cada um. A autonomia das crianças de tentar aprender algo novo e a liberdade de brincar de outra coisa que não o circo, foram incentivadas em todas as aulas. Existe tempo para todas as coisas e a criança tem energia suficiente para fazer todas elas.

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Como foram trabalhadas as mesmas oficinas com crianças de diferentes idades,

pode-se analisar algumas diferenças e particularidade de cada grupo pode-segmentado pelas idades e localidades. As crianças menores gostaram de brincadeiras mais íntimas, sem tanta movimentação e nem tanta interação com os colegas. Brincar de tocar as bolinhas, girar com o bambolê e qualquer outra brincadeira que se pudessem fazer sozinhas. Outros objetos que não só os aparelhos circenses também apareciam aqui, como por exemplo um carrinho, uma boneca, etc. Esses brinquedos faziam parte da aula, e às vezes eram eles que subiam no tecido primeiro. Isso trazia uma certa segurança para a criança, pois depois dela passar pela experiência de conduzir seu brinquedo, ela ia subir também.

Outros pontos eram sempre oferecidos logo no início da aula, como aquecimento e alongamento. Figuras de Yoga para crianças eram muito utilizadas para essa preparação corporal, pois ela mostra uma referência lúdica para uma prática de aquecimento para o corpo. Outras figuras foram criadas tanto pela condutora do processo quanto pelas crianças, todas inspiradas pela figura do dispositivo a seguir.

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(Link da imagem: https://i.pinimg.com/originals/2b/62/8d/2b628d79b49460ecd2531e98bb7317f7.jpg/ <acesso em 10/08/2018>)

Nem sempre as crianças queriam fazer o alongamento, porque a ansiedade de subir no tecido ou no trapézio era maior. A regra que se estabeleceu ao longo do tempo foi a seguinte, as crianças que não estivessem com vontade de fazer o alongamento não precisavam passar por esta etapa, porém, elas precisavam esperar todos os colegas terminar a prática e somente no segundo momento da aula elas poderiam ir brincar nos aéreos ou outros equipamentos de circo. O alongamento é uma parte importante da aula e essa informação sempre foi reforçada nas conversas com as crianças, porém, mesmo sendo uma etapa importante da aula, ela não foi forçada com nenhuma criança. A vontade de alongar ou de praticar algo, precisa partir dela.

Com o passar do tempo, o corpo sente a necessidade de alongamento. É impossível fazer algumas determinadas figuras na Lira ou no Tecido Acrobático sem uma certa abertura de

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pernas. A criança percebe isso em seu próprio corpo e quando ela sentir essa necessidade,

automaticamente ela vai procurar entender o porquê seu corpo não se estica mais, é assim que o interesse em fazer o alongamento inicial chega e nesse momento o professor está ali para ajudar.

As referências visuais sempre estiveram presentes durante as práticas didáticas e de estudo. Tanto as que a condutora fazia corporalmente nas aulas através das figuras nos aparelhos e demonstrações técnicas, como as encontradas nos livros e manuais didáticos. A exemplo destes manuais, temos o Manual Básico de Instrução as Artes Circenses. Esta publicação é dividida em dez apostilas didáticas com instruções escritas e fotográficas, que auxiliam no processo de aprendizagem de determinadas técnicas.

Essas apostilas não são direcionadas para o ensino da técnica para o público infantil, mas serviram de referência visual para as crianças que participaram dos encontros. Algo comprovado durante o período de estudo foi que a referência visual serve como um forte dispositivo para despertar o interesse da criança. Esse fato também foi relatado em entrevista com Bolognese que fala sobre o processo de aprendizagem da criança no circo itinerante, se dar através da observação. “...E ela sabe imitar aquilo que ela viu e como era feito. Então o

primeiro passo, o aprendizado no lugar do circo ele é muito intuitivo. Ele é intuitivo direto. O primeiro passo é o me imite, faça o que eu to fazendo.”

A colocação de Bolognese, se refere a criança que vive no circo itinerante. O cotidiano das crianças nascidas e que vivem no circo, são diferentes das alunas de escolas e projetos de circo. Para as crianças circenses, é comum olhar para um número diariamente e tentar reproduzi-lo em seguida. Por isso que em sua fala ele diz “olhe e imite”. Olhar e imitar é comum neste espaço.

As crianças que participaram do projeto e não viviam no circo e por isso não tinham a rotina de ver a mesma coisa todos os dias, mas elas também demonstraram algo semelhante com as crianças circenses, pois o caráter de reprodução do movimento, também estava presente no cotidiano das aulas. Ambas as crianças, viam e repetiam o que estava lhes sendo mostrado. As figuras encontradas nos manuais sempre chamavam a atenção das crianças, que tentavam copiar as imagens; já o texto em si não fazia muita diferença para a compreensão do

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movimento. Com estas experiências se identificou que os manuais pensados para o público

infantil, devem conter mais imagens do que texto escrito.

Figura 02, pegada pronada.

(Erica Stoppel, Manual de trapézio fixo, pág 54)

O aprendizado da técnica é um conjunto de todos os pontos que a metodologia do trabalho propõe. As crianças aprendem a subir e descer, a rolar, a girar e jogar. Elas vão aprender as habilidades nos mais variados tipos de treinamentos de circo, o que se buscou na pesquisa é pensar que ela também vai aprender circo com uma metodologia lúdica, que ofereça um espaço de brincadeira tão grande quanto o espaço da técnica nas aulas.

Nesse processo, a criança vai passar pelos processos didáticos de entender como subir nos aparelhos aéreos, vai conhecer as limitações de seu corpo, sentir o equilíbrio e o desequilíbrio de quando seu corpo está suspenso no ar, vai aprender a girar sem ficar tonta e vai buscar aperfeiçoar a técnica quando sentir a necessidade disso. Isso não significa que ela precise passar todo o período da aula, somente fazer exercícios de força, flexibilidade e habilidade de aparelho. O espaço da brincadeira e da descontração podem estar presentes nos encontros.

Isso vai ocorrer de maneira diferente para cada criança, pois seus objetivos variam. Uma criança que trabalha no circo tem como objetivo aprender a técnica para utilizá-la no espetáculo

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que irá apresentar mais tarde. Uma criança que faz aula de circo em uma escola de circo, tem

como objetivo aprender a técnica para a apresentação do final do ano. Já a criança que está na escola e tem aula de circo como uma atividade extracurricular, talvez só esteja interessada em aprender os movimentos para brincar um pouco de circo.

Resultados e conclusão

Em relação aos resultados obtidos, são indicadas algumas reflexões sobre o papel do professor no trabalho com a pedagogia circense com crianças e de que modo a sensibilização e ludicidade contribuíram para a sua elaboração. A sensibilização esteve relacionada diretamente com a observação e instrução do professor. Ao apresentar o circo para as crianças como uma brincadeira propôs-se criar uma relação de identificação entre o brincar e a prática circense na infância. Por exemplo, ao observar as crianças que se penduram com os joelhos dobrados no galho de uma árvore, de ponta cabeça, percebe-se que esta ação corporal, que envolve uma motricidade específica, é semelhante a fazer uma curva de joelho[1] no Trapézio ou na Lira (aparelhos circenses). O tempo que a criança demora para virar uma cambalhota é diferente de um corpo para outro. Esta observação permitiu constatar que existe uma peculiaridade em cada criança, esta não pode ser ignorada pelo professor, pois ao ver todas as crianças tentando subir, nota-se que a força de cada uma é diferente, muda de corpo para corpo. Enquanto para algumas era fácil se pendurar no aparelho aéreo, para outras somente encostar a mão já era o suficiente. Com isto constatou-se que é fundamental respeitar o tempo da criança.

A autonomia foi um resultado importante alcançado no processo de educação circense realizada com a pesquisa. As crianças aprenderam brincando de experimentar. Como por exemplo, não foi necessário indicar as crianças que subissem no Trapézio, pois ao vê-lo, subiram com o interesse de brincar. Ao ter o brinquedo ao seu alcance, em um espaço em que estejam confortáveis vão querer aprender. Aí entra a parte do professor, que primeiro sensibiliza e estimula a autonomia através da brincadeira, depois, quando a criança precisa de uma instrução técnica mais direcionada, ele está ali para ajudar.

As proposições teóricas consultadas no trabalho, foram referências pontuais para o desenvolvimento da prática pedagógica, pois esta visou o conhecimento das técnicas circenses pelas crianças ao mesmo tempo que estimulava sua imaginação e bem-estar.

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Consoante Ermínia Silva (2009), o surgimento das escolas de circo, em fins da década

de 1970 no Brasil e na Europa, contribuíram para sistematizar o ensino do circo. Os manuais e materiais didáticos consultados são publicações que colaboram com a afirmação da autora. Tais sistematizações escritas são importantes e não excluem do ensino das técnicas circenses a transmissão oral, que continua ocorrendo, porque o ensino-aprendizagem foi resultado da relação horizontal do adulto com a criança.

Ao associar a prática docente realizada com a proposta metodológica sugerida por Bortoleto (2011), identificou-se que o jogo é um princípio pedagógico que auxilia o ensino do circo de forma lúdica e estimula que a criança aprenda as técnicas circenses através da brincadeira. Portanto, a prática de pesquisa associada a teoriaconcluiu que o ensino do circo na infância pode ocorrer por meio de um processo de sensibilização ao tema, com jogos e brincadeiras, que respeitam o desenvolvimento corporal da criança.

Marina Marcondes (2010, 2012) propõe que a relação do adulto com a criança deve ser uma forma linear de diálogo. No desenvolvimento das aulas foi experimentado sua abordagem metodológica denominada “Agachar-se”. Para a autora, agachar-se significa o ato de ficar de cócoras, muito perto da criança, em seu nível. O agachamento é um estímulo para que o adulto se disponibilize ir ao encontro das crianças. Segundo suas palavras, o agachamento é uma “postura boa para brincar, agachar-se é tentar compreender a criança no seu ponto de vista; é fazer reverência ao modo de ser da criança, gesto de proximidade e de começo de alguma coisa… um agacho! ”.

As fontes consultadas, mostraram que a importância do saber escrito e a do saber oral se igualam para o suporte do trabalho. A prática docente e a experiência como artista de circo que a pesquisadora desenvolveu ao longo do projeto reforçam o lugar que a prática está ligada com a teoria e isso enriquece o trabalho.

O trabalho se baseou na experiência da artista, e pressupõe que o aprendizado das atividades circenses com crianças não deveria estar distante ou desvinculado da corporeidade e ludicidade que a criança experimenta ao brincar, e que o professor deve ser um constante observador, abrindo espaço para as crianças realizarem suas tarefas de maneira autônoma, dando suporte quando necessário e espaço quando possível.

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Referências

BORTOLETO, M. A. C.; PINHEIRO, P. H. G. G.; PRODÓCIMO, E. Jogando com o circo. 1°.Ed. São Paulo: Fontoura, 2011.

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Filmes:

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Imagens:

Figura 1: (Link da

imagem: https://i.pinimg.com/originals/2b/62/8d/2b628d79b49460ecd2531e98bb7317f7.jpg/ <acesso em 10/08/2018>)

Referências

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