A casa como reflexo da sociedade
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(3) Resumo Na presente dissertação procurou-se encontrar elos de ligação na evolução paralela da sociedade e da habitação, durante o século XX em Portugal. Analisámos as alterações e as evoluções da sociedade, da casa, da apropriação do espaço doméstico e das políticas habitacionais em Lisboa. Baseámos a análise em 18 casos de estudo, de tipologias habitacionais diferentes, entre os anos 10 e os anos 90 do século XX, em Lisboa, que permitiram refletir sobre os princípios ordenadores de cada tipologia, os que foram suprimidos, e os que se mantiveram ao longo do tempo. Sobre a família, também foram abordadas as questões das alterações verificadas, com destaque para a “libertação” da mulher, tanto na sociedade como na família, assim como a redução da dimensão dos agregados familiares, ligando-se estas temáticas com a apropriação do espaço doméstico. Constatámos com o presente estudo as consequências e a influência do RGEU na dicotomia sociedade-casa: numa primeira fase obrigou a uma mudança significativa através de uma inversão entre quartos/sala e a uma distinção concreta entre sala/quartos; e uma segunda fase onde a normalização se tornou num obstáculo à diversidade tipológica. Assim, concluímos que até ao RGEU houve uma transposição dos valores sociais e familiares para a habitação e após o RGEU houve uma evolução e características sociais e familiares sem relação direta com a evolução das tipologias habitacionais.. Palavras-chave: Casa | Habitação | Família | Sociedade | Lisboa. I.
(4) II.
(5) Abstract In the present dissertation it was aimed to find connecting elements between parallel evolution of society and social accommodation in the 20th century, in Portugal. We have done proper research on the changes and evolution processes of society, of the accommodation object itself –the house; of the housing space appropriation and the accommodation policies in Lisbon. This analysis was based on 18 case studies, about different accommodation typologies, between the 1st decade and the 9th of the 21st century, in Lisbon, which has allowed us to reflect on the guidelines of each typology, and ultimately to identify which ones had been supressed and the ones that had remained until nowadays. Regarding the family dynamics, the topics of the verified changes have also come up, with proper highlight to the female emancipation, either socially speaking and also within the familiar circle; the decreasing tendency of the family household; connecting these themes to the housing space appropriation issue. Hereby we are able to determine the RGEU consequences and its influence on the dichotomy “society – household”: the first phase is related to the significant change through the inversion between bedrooms/living room and the concrete distinction between living room/bedrooms; and the second phase held on the normalization process becoming an obstacle to creativity, resulting ultimately in crystalized ideals.Therefore, we may conclude with the present study that, until the RGEU there has been a transposition of values, socially and familiarly speaking, to accommodation; and after the RGEU there has been an evolution regarding social and family-related aspects that have found no direct link to the accommodation typologies’ evolution of their own.. Keywords: House | Housing | Family | Society | Lisbon. III.
(6) IV.
(7) Agradecimentos. Em primeiro lugar, aos professores Carlos Lameiro e José Luís Crespo, por todo o acompanhamento incansável. A todos os restantes professores desta instituição, pela partilha de conhecimentos ao longo do curso. Aos colegas, que influenciaram de alguma forma o meu caminho, e principalmente aos que partilharam estes últimos meses de curso. Aos que estiveram presentes desde o primeiro ano, Inês, Maria e Miguel, e aos que chegaram depois, Henrique e Armando. À Rita. Aos Amigos e Amigas. Aos Avós e aos Tios. Por fim e principalmente, à Mãe e Mana, que só querem o melhor para mim.. V.
(8) VI.
(9) As fachadas das casas nada nos podem dizer, nada revelando senão uma conformidade arquitectónica aos gostos de algum grupo ou classe que talvez nem já habite sequer naquela rua. Por trás das fachadas escondem-se os mistérios sociais (Nunes, 1984:27).. VII.
(10) VIII.
(11) Índice Geral Resumo. I. Abstract. III. Agradecimentos. V. Índice Geral. IX. Índice de Figuras. XI. Listagem de abreviaturas 1. 2. Introdução. XIV 1. 1.1. Tema e motivação. 1. 1.2. Objetivos e questões de trabalho. 2. 1.3. Metodologia. 2. 1.4. Estrutura da dissertação. 3. Da Primeira República à Adesão à União Europeia. 5. 2.1. Introdução. 5. 2.2. Enquadramento Histórico: breve síntese. 5. 2.3. Desenvolvimento da habitação em Lisboa. 8. 2.3.1. Expansão dos limites da cidade. 8. 2.3.2 O Estado Novo, a Câmara Municipal de Lisboa e os programas habitacionais. 12 2.4. 15. 2.4.1. Habitar a casa. 15. 2.4.2. Sociedade e família. 18. 2.5 3. Casa, sociedade e a apropriação do espaço doméstico. Síntese. 23. Casos de Estudo. 27. 3.1. Processo de escolha dos casos de estudo. 27. 3.2. Prédios de Rendimento. 27. 3.2.1. Caso de Estudo 1 – Avenida Visconde Valmor, 35 (1913). 29. 3.2.2. Caso de Estudo 2 – Avenida Duque de Ávila, 28-30ª (1920). 32. 3.2.3. Caso de Estudo 3 – Avenida 5 de Outubro, 134 (1920). 35. 3.2.4. Caso de Estudo 4 – Rua Castilho, 65 (1937). 38. 3.3. Rabo de Bacalhau. 41. 3.3.1. Caso de Estudo 5 – Rua Joaquim António de Aguiar, 35 (1937). 42. 3.3.2. Caso de Estudo 6 – Rua Almeida e Sousa, 63 (1939). 45. 3.3.3. Caso de Estudo 7 – Avenida António Augusto Aguiar, 9 (1942-47). 48. 3.3.4. Caso de Estudo 8 – Rua Cervantes, 4 (1947-48).. 52. 3.4. Mudança de Paradigma. 55. 3.4.1. Caso de Estudo 9 – Bairro das Estacas – Célula 8 (1949-55). 56. 3.4.2. Caso de Estudo 10 – Av. Estados Unidos da América (1953). 59. 3.4.3. Caso de Estudo 11 – Bloco das Águas Livres (1953-55). 63. 3.4.4. Caso de Estudo 12 – Avenida Infante Santo, 57 (1956). 66. 3.5. Novos Bairros. 3.5.1. Caso de Estudo 13 – Olivais Norte, categoria II (1955-58). 69 70 IX.
(12) 3.5.2. Caso de Estudo 14 – Olivais Sul, categoria II (1960-61). 73. 3.5.3. Caso de Estudo 15 – Olivais Sul, categoria III (1960-61). 77. 3.5.4. Caso de Estudo 16 – Olivais Sul, categoria IV (1960-61). 80. 3.6. 83. 3.6.1. Caso de Estudo 17 – Torres de Alfragide (1968/1973).. 84. 3.6.2. Caso de Estudo 18 – Complexo Habitacional Olaias (1982). 87. 3.7 4. 1970/1990- Pós-Modernismo. Síntese. Conclusão. 90 91. 4.1. Concretização dos objetivos. 91. 4.2. Perspetivas futuras. 92. Bibliografia. 93. Anexos. 97. X.
(13) Índice de Figuras. fig 1. Planta do Fava. Cartografia de Lisboa séculos XVIII a XX in Salgado e Lourenço, 2006: 35. 8. Fig. 2. Fotografia aérea de Lisboa, da autora.. 9. Fig. 3. Plano Urbanização Alvalade, João Faria da Costa, 1945, in Salgado e Lourenço, 2006: 25.. 10. Fig. 4. Plano de Urbanização da Zona de Intervenção da EXPO'98, planta síntese, 1994, in Salgado e Lourenço, 2006: 28.. 12. Fig. 5. Anúncio ao empreendedorismo urbanístico Santo António dos Cavaleiros, in Donas de Casa, nº 53, 1966:55.. 15. Fig. 6. Unite d' Habitation, Le Corbusier, in Archdaily © Rik Moran.. 16. Fig. 7. Portas e as suas utilizações, in Monteys e Fuertes, 2011: 13.. 17. Fig. 8. Anúncios de eletrodomésticos, in Donas de Casa, nº 53, 1966: 23.. 18. Fig. 9. Anúncios dirigidos às mulheres, in Donas de Casa, nº 53, 1966:31.. 21. Fig. 10. Anúncios dirigidos a homens e mulheres, respetivamente, in Donas de Casa, nº 53, 1966:53.. 25. Fig. 11. Anúncio de tabaco dirigido às mulheres, in Donas de Casa, nº 53, 1966: 41.. 25. Fig. 12. Av. Visconde Valmor, 35. Fachada, e pormenor de fachada, fotografias da autora.. 29. Fig. 13. (à esquerda) Av. Visconde Valmor, 35 planta tipo. Fonte: CML, tratada pela autora. (à direita) Análises realizadas pela autora utilizando a mesma planta.. 30. Fig. 14. Av. Duque de Ávila, 28-30. Fachada e pormenor de fachada, fotografias da autora.. 32. Fig. 15. Av. Duque de Ávila, 28-30 planta tipo, fonte: CML, tratada pela autora.. 33. Fig. 16. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 15. 33. Fig. 17. Av. 5 de Outubro, 134. Fachada e pormenor de fachada, fotografias da autora. 35 Fig. 18. Av. 5 de Outubro, 134 planta tipo, in Reis, 2009: 174.. 36. Fig. 19. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 18.. 36. fig 20. Rua Castilho, 65. Fachada e pormenor de fachada, fotografias da autora. 38. Fig. 21. R. Castilho, 65 planta tipo, Fonte: CML, tratada pela autora.. 39. Fig. 22. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 21.. 39. XI.
(14) fig 23. R. Joaquim António de Aguiar, 35. Fachada e pormenor de fachada, fotografias da autora. 42. Fig. 24. (à esquerda). R. Joaquim António de Aguiar, 35 planta tipo, in AAP 1987:158 tratada pela autora. (à direita) Análises realizadas pela autora utilizando a mesma planta. 43 Fig. 25. R. Almeida e Sousa, 63. Fachada principal e traseiras, fotografias da autora.. 45. Fig. 26. (à esquerda). R. Almeida e Sousa, 63, planta tipo, fonte: CML, tratada pela autora. (à direita) Análises realizadas pela autora utilizando a mesma planta.. 46. Fig. 27. Av. António Augusto Aguiar. Fachada e pormenor de fachada, fotografias da autora.. 48. Fig. 28. Av. António Augusto Aguiar, 9 planta tipo, in AAP 1987: 160.. 49. Fig. 29. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 28.. 49. Fig. 30. R. Cervantes, 4. Fachada principal e traseiras, fotografias da autora.. 52. Fig. 31. (à esquerda). R. Cervantes, 4, planta tipo, fonte: CML, tratada pela autora. (à direita) Análises realizadas pela autora utilizando a mesma planta.. 53. Fig. 32. Bairro das Estacas, fotografias da autora.. 56. Fig. 33. Bairro das Estacas. Da esq. para a dir. : Duplex 1º e 2º andar, respetivamente, T3 planta tipo, in Sanches e Atouguia, 1954: 4.. 57. Fig. 34. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 33.. 57. Fig. 35. Cruzamento entre Av. Estados Unidos da América e a Av. de Roma. Fachadas e pormenor, fotografias da autora.. 59. Fig. 36. (à esquerda). Av. Estados Unidos da América, Lote 21, planta tipo, fonte: CML, tratada pela autora. (à direita) Análises realizadas pela autora utilizando a mesma planta. 60 Fig. 37 .Cruzamento entre Av. Estados Unidos da América e Av. Roma planta tipo plano urbano, fonte: CML, tratada pela autora.. 61. Fig. 38. Bloco das Águas Livre. Fachada principal, fotografias da autora.. 63. Fig. 39. Bloco das Águas Livres planta tipo, in Pereira e Cabral, 1959 : 9.. 64. Fig. 40. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 39. 64. Fig. 41. Av. Infante Santo, 57. Fachada principal, fotografias da autora.. 66. Fig. 42. Av. Infante Santo, 57 planta tipo, fonte: CML, tratada pela autora.. 67. Fig. 43. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 42.. 67. Fig. 44. Olivais Norte, cat. II. Duas das fachadas, fotografias da autora.. 70. XII.
(15) Fig. 45. (em cima) Olivais Norte, cat. II planta tipo, in AAP 1987: 254. (em baixo) Análises realizadas pela autora utilizando a mesma planta.. 71. Fig. 46. Olivais Sul, cat II. Fachada e pormenor de fachada, fotografias da autora.. 73. Fig. 47. Olivais Sul, cat II planta tipo, in GTH, 1980 : 29.. 74. Fig. 48. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 47.. 75. Fig. 49. Olivais Sul, cat. III. Fachada e pormenor da caixa de escadas exteriores, fotografias da autora.. 77. Fig. 50. (em cima) Olivais sul, cat III planta tipo, in GTH, 1980 : 30. (em baixo) Análises realizadas pela autora utilizando a mesma planta.. 78. Fig. 51. Olivais Sul cat. IV. Duas das fachadas, fotografias da autora.. 80. Fig. 52. Olivais Sul, cat. IV planta tipo, in GTH, 1980 : 31.. 81. Fig. 53. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 52.. 81. Fig. 54. Torres de Alfragide. Fachadas e pormenor de fachadas, fotografias da autora. 84 Fig. 55. Torres de Alfragide planta tipo.. 85. Fig. 56. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 55.. 85. Fig. 57. Complexo Habitacional Olaias. Fachada principal e traseiras, fotografias da autora.. 87. Fig. 58. Complexo Habitacional Olaias, planta tipo, in Fernandes e Lacerda, 1985 : 7. 88 fig 59. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 58 fig 60 e 61. Tabela Casos de Estudo. 88 98, 99. XIII.
(16) Listagem de abreviaturas. ACP – Ação Católica Portuguesa AU – Área útil CML – Câmara Municipal de Lisboa FCP-HE – Federação das Caixas de Previdência – Habitações Económicas GTH - Gabinete Técnico da Habitação PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado RGCU – Regulamento Geral da Construção Urbana RGEU – Regulamento Geral das Edificações Urbanas RTP – Rádio Televisão Portuguesa SAAL – Serviço de Apoio Ambulatório Local SNI – Secretariado Nacional de Informação UE – União Europeia. XIV.
(17) 1 Introdução 1.1 Tema e motivação Durante o século XX Portugal sofreu alterações populacionais, políticas e económicas, resultando numa evolução faseada e nem sempre constante dessas componentes da sociedade, desde a implantação da Primeira República à adesão à União Europeia, passando por um longo período de ditadura política no Estado Novo. O êxodo rural, a emigração e a receção dos retornados com o fim da guerra colonial, potenciou a expansão dos limites da cidade de Lisboa em várias frentes e direções, e em paralelo, ocorreu um desenvolvimento na habitação que deixou o seu contributo para a arquitetura e para o urbanismo da cidade. Lisboa, sendo a capital do país, foi alvo de um vasto leque de intervenções arquitetónicas e urbanísticas, desde edifícios públicos a edifícios habitacionais, funcionando como um espelho dos regimes políticos vigentes, da sociedade em questão e também dos ideais urbanos e arquitetónicos europeus. As intervenções de carácter habitacional em Lisboa, durante o século XX, foram motivadas pela necessidade de criação de alojamentos, que previsivelmente se destinavam e se enquadravam nos modelos familiares existentes. O trabalho desenvolvido procura uma abordagem em dois sentidos: por um lado, a temática dos modelos habitacionais durante o século XX (com o foco desde as décadas 10 a 90), e por outro, a evolução da família nesse mesmo período de tempo. A vontade de iniciar este trabalho deve-se essencialmente ao facto de o terceiro ano de licenciatura deste curso, nesta faculdade, ter sido dedicado à habitação, semeando assim a curiosidade deste assunto. Foram realizadas pequenas análises síntese de algumas plantas habitacionais, tanto em Portugal, como, por exemplo, em Detroit, o Lafayette Park de Mies Van Der Rohe. Em simultâneo, estamos constantemente em contacto com várias realidades familiares, pais divorciados, jovens sem possibilidades financeiras para sair de casa, ou avós que por motivos de saúde voltam para a casa dos filhos; o que de alguma forma provocou um interesse em perceber, mais detalhadamente, quais os elementos que despoletaram essas mudanças, e as suas consequências na habitação e na apropriação do espaço doméstico. Tendo em consideração o tempo previsto para a elaboração de um trabalho deste carácter, surgiu a necessidade de balizar o período de tempo, assim como também os casos de estudo a analisar. Optámos então, pelo século XX - aparecendo como designação genérica de um século, apesar dos casos de estudo versarem exemplos entre os anos 1910 até 1990 -, por todas as grandes mudanças e invenções a nível europeu e mundial, e no qual se centraram alguns estudos, como por exemplo, de Paul Lauwe, sociólogo urbano francês, que se dedicou também às questões inerentes à habitação, principalmente em França.. 1.
(18) 1.2 Objetivos e questões de trabalho No desenvolvimento desta Dissertação, procuramos responder a algumas questões: - De que forma a planta de um fogo, nos permite uma leitura mais vasta sobre os valores da sociedade, à época da sua construção? - Quais são os fatores da sociedade que mais condicionam os modelos habitacionais? A possível resposta a estas questões está entroncada nos objetivos que se pretendem atingir neste trabalho. Um primeiro objetivo centra-se na reflexão sobre as mudanças mais significativas nos modelos arquitetónicos habitacionais e os princípios que foram eliminados, e quais os que se mantiveram até ao fim do século XX, continuando a servir de matriz organizadora do espaço doméstico numa sociedade em mudança. Num outro objetivo pretende-se refletir e analisar quais os fatores sociais, políticos e económicos que se ligam e podem influenciar a organização e a configuração do espaço doméstico.. 1.3 Metodologia No trabalho adotou-se uma metodologia de estudo de caso, com uma abordagem de carácter qualitativo em que se mobilizaram técnicas de recolha e análise de informação para perceber o fenómeno estudado na sua totalidade e múltiplas dimensões. Este trabalho foi estruturado em quatro momentos distintos mas interdependentes e relacionados entre si. Uma primeira fase consistiu na análise de documentos históricos e de bibliografia específica e outras referências que enquadraram e ajudaram a responder aos intuitos do trabalho a desenvolver. Os métodos utilizados, nesta fase, basearam-se na recolha e análise crítica de textos, imagens e documentários. Simultaneamente, foi feita uma recolha e análise de vários casos de estudo de tipologias habitacionais para a cidade de Lisboa. Neste caso a recolha e análise das plantas nos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, foi a principal fonte de informação. Complementarmente, recorreu-se a documentos e bibliografia específica para aprofundar alguns dos casos de estudo. Numa segunda fase, pretendeu-se enquadrar e contextualizar o objeto de estudo no período de tempo escolhido. Uma das técnicas utilizadas foi a análise de bibliografia. 2.
(19) diversificada que versou alguns indicadores sociais e programas habitacionais para o período em estudo. A terceira fase resultou numa análise e descrição dos resultados obtidos nas fases anteriores, procurando validar as questões de trabalho e os objetivos definidos para uma melhor compreensão do tema e do problema em análise. Por fim, focámo-nos nos vários casos estudados subdivididos nas distintas categorias: Prédio de Rendimento, Rabo de Bacalhau, Mudança de Paradigma, Novos Bairros, 1970/1990 Pós Modernismo, com base nas fases anteriormente descritas, onde se procurou uma reflexão crítica sobre a evolução da casa como reflexo da sociedade, para o caso lisboeta, no século XX.. 1.4 Estrutura da dissertação O presente trabalho está organizado com uma estrutura que tem a seguinte sequência: inicialmente teremos a introdução onde abordaremos o tema, as motivações, os objetivos, a metodologia, e a estrutura desta tese; um segundo capítulo Da Primeira República à Adesão à União Europeia; um terceiro capítulo com os Casos de Estudo; e por último, a conclusão. No segundo capítulo, procura-se perceber a sociedade no século XX sob três vertentes: a histórica, onde será realizado um enquadramento histórico focando questões como os regimes políticos, os indicadores sociais e alguns acontecimentos importantes na sociedade portuguesa; a evolução da habitação, através de um enquadramento histórico, focado nos planos urbanos que permitiram essas construções; e por fim, a Casa, a Família e a Apropriação do Espaço Doméstico, onde se faz uma breve análise sobre estes aspetos. O terceiro capítulo destina-se aos casos de estudo, subdivididos em cinco categorias: Prédio de Rendimento, Rabo de Bacalhau, Mudança de Paradigma, Novos Bairros e por fim, 1970/ 1990 – Pós-Modernismo. Em cada categoria há uma reflexão sobre os princípios e características presentes em cada uma, contendo informações de carácter projetual e social/familiar. Nesta parte do trabalho foi criada uma tabela com a compilação dos casos de estudo, que serviu de base para as análises realizadas. Os casos de estudo foram analisados em três partes: i) as questões determinantes iniciais, onde são tratadas informações de caráter contextual a nível histórico e no território, sendo referido o período histórico em que o exemplo se insere, o que motivou a sua construção, e características construtivas; ii) os aspetos particulares analisados, que se fragmentam na estrutura distributiva do fogo, a análise dos elementos distributivos de cada caso, desde a sua complexidade às medidas dos mesmos, a partição da casa,. 3.
(20) focando-se essencialmente as relações entre áreas úteis atribuídas a cada uso (privado, social, serviços) e entre divisões, relativas portanto à sua disposição e os elementos da casa; por último, iii) os aspetos arquitetónicos relevantes, no qual foi realizada uma análise de caráter mais subjetivo, fazendo-se algumas referências sociais abordadas no segundo capítulo. O quarto e último capítulo, a conclusão, ocupa-se das ilações retiradas após o desenvolvimento dos capítulos anteriores, da concretização dos objetivos traçados e de perspetivas futuras em trabalhos desta natureza.. 4.
(21) 2 Da Primeira República à Adesão à União Europeia 2.1 Introdução O intervalo de tempo escolhido para esta dissertação centra-se no século XX, mais concretamente desde a Primeira República, ao final dos anos 80, quando Portugal assina o tratado de adesão à Comunidade Europeia. É portanto importante, para este trabalho, percebermos por um lado os acontecimentos históricos durante esse período, em Portugal, como também em geral na Europa, assim como os planos que foram realizados na lógica de expansão dos limites da cidade, sempre com a questão da habitação como motor dessa expansão; e por outro lado, quais as alterações do tecido social e familiar durante este século, que são intrínsecas à habitação, assim como a relação casa/família que se desenvolve no tema da apropriação do espaço doméstico. Assim sendo, este capítulo divide-se em três partes, uma primeira que consiste numa compilação dos dados históricos mais relevantes, uma segunda parte já focada numa relação desses dados com a evolução da habitação e, uma terceira parte destinada à análise de indicadores sociais, mais objetivamente, à análise da família e a sua relação com a casa. Este capítulo tem também a função de servir como base para o capítulo seguinte referente aos casos de estudo, permitindo uma análise mais clara e completa, contribuindo para um “olhar” mais consciente e conhecedor da esfera envolvente a cada um dos casos.. 2.2 Enquadramento Histórico: breve síntese Cem anos depois do fim da Revolução Francesa, a 5 de Outubro de 1910, o Partido Republicano sobe ao poder, obrigando a família Real a fugir para o Brasil e permitindo aos portugueses acreditarem num Portugal democrático. A omnipresença da Igreja já era considerada a maior barreira à emancipação dos portugueses pelo partido republicano antes da tomada de posse, e o facto da maioria da população viver em áreas rurais dominadas pela Igreja, representava um grande desafio à governação republicana. Com a implantação da República, foi determinante para o ensino a extinção das ordens religiosas (…) que Ainda nesse mesmo ano é posto de parte o ensino da doutrina cristã (…) (SENP, 2003: 4). Outra dificuldade deste regime era a predominância monárquica na Europa, onde apenas a França e a Suíça eram exceções por serem regimes republicanos. Em 1910 introduz-se o divórcio. Também a inflação económica, o aumento do custo de vida e simultaneamente um empobrecimento das classes média e baixa, foram algumas das consequências da participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, assim como uma dívida de 25 milhões de libras. Viveu-se um período de. 5.
(22) grande instabilidade política, onde em menos de 16 anos Portugal teve 45 governos, 30 primeiros-ministros diferentes, 7 parlamentos e 8 presidentes da república. A Primeira República chega ao fim em 1926, com uma marcha militar cujo líder foi o general Manuel Gomes da Costa, abrindo caminho para uma Ditadura Militar (Sardica, 2012: 58) que antecedeu o Estado Novo. A 5 de Julho de 1932 António de Oliveira Salazar assume o cargo de Primeiroministro e em Abril do ano seguinte entra em vigor a Constituição, marcando assim a transição oficial do regime militar dominante desde 1926 para uma ditadura plenamente constitucionalizada (Sardica, 2012: 69). Em termos populacionais a partir dos anos 20/30 verificou-se um declínio da mortalidade e da natalidade e também um aumento da esperança de vida à nascença (Ferrão, 1996). Deus, Pátria e Família, representavam os princípios do Estado Novo, espelhando claramente o lado religioso de Salazar. Antes da Primeira República a emancipação e promoção femininas (Sardica, 2012: 28) era um dos objetivos comuns a todos os republicanos, mas depois com Salazar foi exatamente o oposto que se verificou. A criação de três instituições: PIDE, SNI e ACP, foi um reflexo do autoritarismo e da ditadura intrínsecas aos princípios do Estado Novo vigente. A separação de sexos destinava às mulheres o papel de dona de casa e mãe de família, e aos homens o papel de trabalhador e sustento económico da família. Em paralelo Hitler estava no poder na Alemanha (1934-45), Mussolini em Itália (1922-43) e mais tarde Estaline na União Soviética (1941-1953). Em 1940 Portugal comemorava o 800º aniversário da Fundação do Estado Português e o 300º da Restauração da Independência, em plena II Guerra Mundial. Foi organizada uma exposição que pretendia comemorar, e ao mesmo tempo mostrar aos visitantes que Portugal era como um oásis de paz num mundo em guerra (Sardica, 2012: 71). Outro marco importante de 1940 é a Concordata assinada com o Vaticano, que volta a impedir o divórcio dos casamentos católicos. Com o fim de Hitler em 1945, os portugueses especularam a possível queda de Salazar, embora esta só tivesse acontecido já em 1968. O Estado Novo teve o seu apogeu no início dos anos 50, quando Portugal recebeu ajuda financeira de 70 milhões de dólares resultando numa expansão e progresso económico nos anos seguintes. Portugal era um dos países fundadores da NATO e desde 1955 era membro de pleno direito das Nações Unidas, tudo isto contribuiu para um desenvolvimento económico e alguma estabilidade política. No período dos anos 50 surgiram novos ramos de negócio como a siderurgia, os cimentos, os químicos, a celulose, a refinação do petróleo, a eletrificação e a construção naval (Sardica, 2012: 92). Surgiu também um investimento do Estado em várias construções como edifícios estatais, escolas, correios, estradas, pontes e ainda estações ferroviárias (Sardica, 2012: 92). 1961 é o ano do princípio do fim do salazarismo e do próprio Estado. 6.
(23) Novo (Sardica, 2012: 94), iniciaram-se os conflitos em Angola e no fim desse ano as tropas portuguesas perdem para a União Indiana, Goa, Damão e Diu. A nível social a década de 60 resultou num aumento do sector terciário, levando à migração da população do espaço rural para o urbano, esta por sua vez contribuiu para o desenvolvimento das grandes cidades e simultaneamente no despovoamento do interior do país. Paralelamente, 1.500.000 portugueses (Sardica, 2012: 102) deixam Portugal com destino à Alemanha, França, Luxemburgo, Suíça e Bélgica em procura de melhores condições de vida ou para fugir da guerra em África. O turismo torna-se um dos sectores mais lucrativos de Portugal, onde as atividades de Verão levam à exploração e dinamização do litoral do país. Com estes desenvolvimentos os portugueses alteraram os seus hábitos e modos de pensar. Há então, uma nova geração que nasce no meio urbano, com objetivos e comportamentos diferentes dos da geração anterior, como os hábitos de consumo. Passa a existir um maior número de mulheres nos ensinos secundário e superior, assim como uma diminuição da taxa de analfabetos. Na Guiné-Bissau começou a guerra em Janeiro de 1963, tendo acabado mais de dez anos depois (1974), e em Setembro do ano seguinte iniciou-se a guerra agora em Moçambique. A guerra colonial contribuiu para mais desentendimentos entre a Igreja e o Estado. Com 79 anos, em 1968, Salazar é afastado do poder por motivos de saúde, dando lugar a Marcelo Caetano. O período em que Marcelo governou ficou conhecido como Marcelismo, um período onde tentou trazer algum liberalismo, dentro de um regime totalmente conservador. Aos 81 anos Salazar morre, e Marcelo Caetano continuava a tentar gerir a guerra em África e as forças radicais de esquerda, que foram criadas entretanto. A crise petrolífera de 1973 abrandou o desenvolvimento económico e consequentemente provocou o aumento do custo de vida. Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, os 48 anos de ditadura chegam ao fim com a ocupação de todos os edifícios políticos e militares, pelo Movimento das Forças Armadas. Nesse ano são retiradas de África as forças militares portuguesas, provocando um aumento populacional em Portugal, inesperado. Entre Setembro de 1974 e Novembro de 1975, Portugal recebeu cerca de 600.000 retornados (Sardica, 2012: 120). O 25 de Abril foi um momento de charneira não só a nível político, mas também a nível social. Seguiram-se dois anos de instabilidade política e de várias decisões importantes, como a renegociação da Concordata, onde volta a ser permitido o divórcio aos casados pela Igreja 1 , e a ratificação da Constituição em 1976. Foram ainda nacionalizadas aproximadamente 250 empresas, entre elas seguradoras, empresas de transporte, bancos e tabaqueiras, e ocupadas propriedades rurais. 1. http://www.dn.pt/arquivo/2008/interior/breve-historia-legal-do-casamento-e-do-seu-fim-emportugal-997861.html.. 7.
(24) O país estava dividido pelas várias opiniões sobre qual o melhor futuro para Portugal e, o Verão de 1975 ficou marcado como verão quente devido aos conflitos sociais, violência e protestos. Se por um lado o crescimento económico estagnara devido ao fim dos fundos recebidos nos anos 50, por outro, a aprovação da Constituição em 1976 consegue uma consolidação e estabilidade democrática. Ainda em 1976, em Setembro, Portugal ingressou no Conselho da Europa, e um ano depois apresentou a candidatura para entrar na Comunidade Económica Europeia. O Tratado de Adesão foi assinado em Junho de 1985, embora Portugal tivesse recebido a confirmação do pedido um ano após a candidatura. A demora do processo deveu-se às dificuldades económicas e sociais em que o país se encontrava, assim como a discordâncias entre alguns Estado-membros. Até aos anos 90 o panorama foi relativamente estável no geral, a Expo 98 que foi um dos marcos dessa década.. fig 1. Planta do Fava. Cartografia de Lisboa séculos XVIII a XX in Salgado e Lourenço, 2006: 35. 2.3 Desenvolvimento da habitação em Lisboa 2.3.1 Expansão dos limites da cidade Com o terramoto de 1755, Lisboa teve a oportunidade de ser reconstruída segundo critérios racionais, baseados numa funcionalidade pragmática e numa uniformização algo utópica do tecido urbano (Matos, 2006: 34). O projeto cobria toda a área que tinha sido atingida pelo sismo, assim como também se encarregava da criação de novas zonas como o Cais do Sodré e a freguesia de São Paulo. Paralelamente, os limites de Lisboa alargaram principalmente no sentido de Alcântara dando origem a novas freguesias como Lapa, São Mamede, Arroios e a própria Alcântara.. 8.
(25) Em 1874 Frederico Ressano Garcia foi nomeado engenheiro da Câmara Municipal de Lisboa, onde levou a cabo um dos mais importantes planeamentos urbanos que se destinava à expansão urbana de Lisboa, influenciado por Georges-Eugène Haussmann. Dessa intervenção fazem parte: a Avenida da Liberdade, o antigo Passeio Público, a Avenida 24 de Julho, a Praça Marquês de Pombal, o Mercado da Ribeira Nova, as designadas Avenidas Novas que se encontram entre a Praça Duque de Saldanha e a Praça de Entrecampos e ainda os bairros de Campo de Ourique e Estefânia. O primeiro bairro social de Lisboa, o Bairro Arco do Cego, aparece nos finais dos anos 10 como resposta à necessidade de alojamento operário. Nos primeiros anos do Estado Novo, a ideia de Lisboa como capital do Império (Tostões, 2006: 23) foi o mote para a expansão da cidade ao longo da zona ribeirinha, passando por Belém onde seria inaugurada a Exposição do Mundo Português em 1940. Este plano de expansão da cidade no sentido ao ocidente adotou o nome Costa do Sol, iniciado por Donat-Alfred Agache (1875-1959), durante o período em que Duarte Pacheco (1899-1943) ocupou o lugar de ministro das Obras Públicas, e levado a cabo por Étienne de Gröer (1882-?), já em 1938 quando Pacheco assumiu o cargo de presidente da Câmara de Lisboa. O Plano Director de 1938-48 constituiu o último plano pensado como projecto para a cidade. No quadro político da ditadura definiu todo o seu desenvolvimento: encarando a globalidade do seu território, estabeleceu os novos limites de Lisboa transformando em solo urbano as antigas extensões rurais que foram expropriadas (…) (Tostões, 2006: 23). Desse Plano Director fizeram parte também alguns bairros de habitação social, o Parque Eduardo XVII desenhado pelas mãos de Keil do Amaral (1910-1975), assim como a Estufa Fria, e o aeroporto de Lisboa também fazia parte dos equipamentos projetados. Ainda no mesmo ano de 1938 foi desenhada por Cristino da Silva a Praça do Areeiro, que (…) define o paradigma da arquitectura do “fascismo duro e puro” no seu desenho classizante baseado num padrão tradicionalista de estilização da arquitectura erudita (Tostões, 2006: 25). Nos finais dos anos 40, em 1947 foi criada a FCP-HE (…) com o objectivo de canalizar as verbas da Previdência para a promoção de habitações económicas (…) (Matos, 2002: 34).. Fig. 2. Fotografia aérea de Lisboa, da autora.. 9.
(26) Fig. 3. Plano Urbanização Alvalade, João Faria da Costa, 1945, in Salgado e Lourenço, 2006: 25.. Foi nos anos 50 que acontece (…) o corte com a tradição urbana (…) quando o sistema mais ou menos regrado ou regular de malha/quarteirão é substituído pela composição livre de blocos, e torres, e a malha dos acessos, que de hipodinâmica se torna arborescente, deixa de ser a bitola ordenadora da disposição dos edifícios. (Portas, 2006: 14). Estas novas ideias da arquitetura, enquadram-se nos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna) que foram o resultado de vários eventos organizados por um grupo de arquitetos de vários países, onde a ideia era a partilha de informação e pensamentos consoante as diferentes culturas, discutindo os possíveis caminhos a seguir no âmbito da arquitetura. Pode ser visto como o rosto do movimento moderno no campo da arquitetura e urbanismo, tendo sido fundado em 1928 na Suíça, e onde arquitectos de vários países e cidades participaram dos mesmos métodos de análise e explicação gráfica dos projectos residenciais, de formas semelhantes de valorização do estado da questão nas diversas cidades e de soluções de projectos similares (Montaner, 2001: 13). A Carta de Atenas, escrita por Le Corbusier, foi o resultado por escrito dos vários encontros, definindo o urbanismo moderno por pontos. Em Portugal só com o fim da Segunda Guerra Mundial é que se começaram a sentir alguns sinais de uma “abertura” ao exterior, e após a queda dos regimes fascistas que tinham ganho destaque a nível europeu. O sindicado dos arquitetos portugueses realizou em 1948 o Primeiro Congresso Nacional de Arquitectura, com o patrocínio do governo. Este congresso marcou o início de uma nova fase na arquitetura portuguesa, passando a ser adotados os princípios da arquitetura moderna, de uma forma mais completa a nível sociológico, ideológico e ético (Farias, 2011).. 10.
(27) O Bairro de Alvalade é o primeiro exemplo em Lisboa representativo das mudanças que, de alguma forma, a Carta de Atenas provocou, O “Bairro das Estacas” (1949-1955) é a imagem paradigmática desta nova situação, com uma série de blocos que por obrigação legal não ultrapassavam os quatro pisos, dispostos perpendicularmente ao eixo viário, em substituição dos tradicionais quarteirões previstos no plano, criando uma extensa plataforma de jardim prolongada em transparência sob os edifícios (Tostões, 1998: 45). Ainda no início dos anos 50, em 1953, foi projetado um dos edifícios que também reflete a influência dos princípios da Carta de Atenas, o Bloco Águas Livres. Este é um edifício destinado a habitação, que (…) representa um primeiro momento no questionamento do método internacional aplicado a um prédio de rendimento de grande dimensão. Ao sentido funcionalista do cumprimento do programa, miscigenando funções e propondo novos espaços de uso colectivo, contrapõe-se um sentido vernacular e escultórico formalizado nas varandas salientes, que modelam a fachada na luz e na sombra, trabalhada com diferentes texturas acentuadas pelo jogo da cor (Tostões, 1998: 46). Uns anos depois (1959/1960) os arquitetos Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas, projetaram um edifício de habitação que ganhou um prémio Valmor, em 1967, nos Olivais Norte. O Bairro dos Olivais está dividido em duas partes, Olivais Norte e Olivais Sul, sendo que o primeiro funcionou como “teste” para o segundo. Ao contrário do que aconteceu com Alvalade, os Olivais foram concebidos sem concessões ao urbanismo tradicional e sem qualquer intenção de continuidade com o tecido urbano existente. (Tostões, 2006: 27). A grande diferença entre os Olivais Norte e os Olivais Sul é que enquanto no primeiro o desenho era fiel à Carta de Atenas, o segundo (…) anunciam já uma postura crítica às propostas dogmáticas e mais ortodoxas do Movimento Moderno. De facto, a sua concepção deve menos à Carta de Atenas e muito mais ao espírito das new towns inglesas (Tostões, 2006: 27). Enquanto Portugal perdia as colónias uma a uma, por outro lado ia testando novos modelos habitacionais, prolongando os limites da cidade de Lisboa, ao cargo do GTH que veio no seguimento da FCP-HE. Pelo GTH foram também realizados estudos para Chelas, cujo plano de expansão da cidade nessa direção já tinha sido prevista no plano de Gröer (CML, 1981). Entre os anos 60 e os anos 80, com o 25 de Abril, foram criados dois programas com o objetivo de responder às populações mal alojadas, um foi o Programa SAAL e outro foi o Programa das Cooperativas de Habitação (Lôbo, 1998) Com Lisboa a receber a Exposição Mundial de 1998, a oportunidade das atenções se voltarem para o rio levaram a (…) uma profunda reconversão numa das zonas mais degradadas e desqualificadas de Lisboa, a zona industrial e portuária oriental (Tostões, 2006: 27). Para essa requalificação da zona ribeirinha, foram também prolongadas as. 11.
(28) estruturas de transportes como o metro e a criação da Estação do Oriente, assim como novas áreas para habitação (Tostões, 2006).. Fig. 4. Plano de Urbanização da Zona de Intervenção da EXPO'98, planta síntese, 1994, in Salgado e Lourenço, 2006: 28.. 2.3.2 O Estado Novo, a Câmara Municipal de Lisboa e os programas habitacionais. Carlos Nunes Silva estudou a política urbana em Lisboa entre o fim da Primeira República e o fim do Estado Novo, concluiu que (…) a produção e transformação do espaço urbano foram determinados por factores económicos. Mas o modo como o sistema de planeamento municipal responde foi condicionado pela estrutura de poder, pelas relações entre organizações, e entre indivíduos no interior dessas organizações, entre indivíduos e organizações, e pela ideologia dos que tomaram as decisões. Ou seja, as condições de funcionamento do sistema capitalista constituem uma limitação estrutural da acção política mas não são estritamente determinantes. Existe alguma margem de manobra para os políticos decidirem as suas escolhas dentro daqueles limites, em função dos seus próprios valores e das pressões políticas que sobre eles se exercem (Silva, 1994: 7). Entre 1926 e 1932, a Câmara Municipal de Lisboa “agiu” sobre sete pontos: Vistorias à estabilidade dos prédios que ameaçavam ruína e eventual demolição dos mesmos ou consolidação; criação de um regulamento geral da construção urbana para a cidade de lisboa em 1930; repressão das obras executadas clandestinamente, isto é, sem licença camarária; conservação e beneficiação exterior dos prédios; construção de novas habitações para as classes menos abastadas; interessar a iniciativa privada por este tipo de habitação; inserção das novas realizações dentro de um plano geral da cidade. Em 1930 a Câmara Municipal de Lisboa publicou, em Agosto, um regulamento geral da construção urbana (RGCU), devido à construção civil estar entregue aos “patos bravos” (construtores civis), cujas construções apresentavam anomalias (Silva, 1994).. 12.
(29) Os padrões de conforto do edificado desenvolveram-se até aos dias de hoje. As introduções destes padrões, através de normas técnicas, são realizadas com o objetivo de melhorar a construção e alcançar condições de conforto superiores. Em Portugal, na década de 50, foi introduzido o Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU) é um diploma de 1951 que tem sofrido sucessivas alterações e se encontra em fase de revisão. Até 1951, a construção era estabelecida pelo bom senso dos proprietários e construtores, surgindo então o RGEU, que foi criado com o propósito de estabelecer normas na área da construção. No preâmbulo são referidos os princípios higienistas e funcionais, e nas cidades portuguesas através do desenvolvimento dos primeiros planos urbanos de inspiração modernista. Nas novas construções, que surgem na segunda metade do século XX, a compartimentação organiza-se segundo um critério puramente racional, regido por princípios concebidos de acordo com certas aquisições de higiene científica e estabelecidos seguidamente por lei, nomeadamente no RGEU, e por noções e imposições de uma nova economia doméstica, tendente à uniformização e descaracterização. Na casa do Norte de Portugal, por exemplo, a cozinha tende a perder o seu lugar de destaque na habitação, e os quartos assumem um papel mais individualizante, ao ganhar uma dimensão muito superior à das tradicionais alcovas, o que vem introduzir uma mutação significativa nas relações interpessoais familiares, com as televisões em todos os compartimentos, os computadores pessoais ou os telemóveis a. constituírem. os. centros. das. atenções,. ou. das. dispersões.. Despreza-se. sistematicamente os conhecimentos empíricos de gerações que, num saber acumulado, adequaram as formas e os materiais ao clima, topografia e vivências particulares (Mendonça, 2005). Durante a primeira república, deu-se início à construção de alguns bairros sociais cujos trabalhos foram interrompidos em 1922. O Bairro do Arco do Cego foi adquirido pela CML, ficando responsável pela conclusão da construção dos edifícios. O processo demorado da construção destes bairros resultou num desvio em relação aos objectivos iniciais em matéria de composição social dos ocupantes (Silva, 1994: 91), traduzindo-se assim num aumento dos custos finais dos fogos, acabando por ficar inacessíveis aos escalões de rendimento mais baixo. A CML criou outros programas de habitação social, sendo que em 1933 foi lançado o programa de casa económicas que constituiu uma síntese dos esquemas e regimes de habitação social ensaiados anteriormente (Silva, 1994: 100). A situação do país estava num estado grave, principalmente em Lisboa, levando o governo a criar mais que um programa de habitação social. O programa das “casas económicas” de 1933 era destinado à construção de casas económicas que poderiam ser construídas por várias entidades desde que. 13.
(30) cumprissem algumas condições pré-definidas. Este programa foi aplicado no Alto da Ajuda, Alto da Serafina, Terras do Forno, Madre de Deus, Encarnação e Campolide. O programa dos “bairros das casas desmontáveis”, de 1938, consistiu na construção, por parte da Câmara, de 1.000 casas de pequenas dimensões, desmontáveis, para alojar provisoriamente os ocupantes dos bairros de lata. Este programa incidiu na Quinta da Calçada, Boavista e Furnas. As casas deste programa acabaram por exigir um custo de manutenção e conservação demasiado elevados, levando a CML a criar outro programa: o programa das “casas para famílias pobres”. Este programa de 1945, pretendia construir casas definitivas, agrupadas em bairros devidamente estruturados de modo a poderem ser integrados em futuros planos de urbanização da cidade (Silva, 1994: 130). Foi aplicado apenas em Lisboa, ao contrário do planto anterior, nos seguintes locais: Quinta do Jacinto, Caramão da Ajuda, Bairro do Grilo, Bairro Padre Cruz, Bairro da Quinta do Charquinho, Bairro da Quinta das Pedralvas, Bairro das Mouras, Bairro da Quinta Santa Luzia, Bairro da Boavista e Bairro do Casalinho da Ajuda. No mesmo ano, 1945, foi também criado o programa das “casas de renda económica”, que se destinava à classe média que não estavam abrangidas pelos outros programas. Tinha como objetivo a criação de fogos com rendas compatíveis com os rendimentos mensais das famílias a que se destinavam. Foi ainda criado um programa na Federação de Caixas de Previdência – Habitações Económicas, tendo sido este o responsável pela maior parte das construções realizadas em Lisboa, dentro do programa das “casas de renda económica” (Silva, 1994: 89). Em 1959 foi criado o Gabinete Técnico de Habitação (GTH), que tinha como plano de trabalho urbanizar algumas áreas vastas dentro do perímetro da cidade, com habitação social como previsto no Plano Director de Urbanização de Lisboa de 1959. Os programas do GTH incidiram nos Olivais Norte, Olivais Sul e Chelas. As atribuições do GTH, explicitamente assumidas, eram: proporcionar habitação aos agregados familiares de menores recursos; substituir gradualmente os bairros de lata por habitações adequadas e de renda módica; realojar os agregados familiares atingidos por obras de urbanização ou vivendo em «partes de casa» e quartos arrendados ou «outras formas de habitação, social e normalmente inconvenientes (Silva, 1994: 161). Os limites da cidade de Lisboa expandiram através da criação de novos bairros como referido, e na periferia também se verifica uma ocupação e urbanização desses terrenos. Verifica-se então, a urbanização de Nova Oeiras entre 1955 e 1960 com base no Plano de Urbanização da Unidade Residencial de Nova Oeiras, que seguiu o espírito da Carta de Atenas. Ainda nos anos 60, o arquiteto João Aguiar Branco é o autor do Plano de Urbanização da Freguesia da Amadora, onde a urbanização da Reboleira seguiria um modelo de urbanismo moderno segundo o arquiteto. Em Santo António dos. 14.
(31) Cavaleiros (fig.4), acontece também um empreendedorismo urbanístico, no mesmo modelo de torres conjugadas com bandas dos Olivais. Já nos finais dos anos 80, dá-se um “boom” de condomínios residenciais fechados ou semifechados, como os empreendimentos urbanísticos Quinta da Marinha (Cascais) e Quinta da Beloura (Sintra). (Barroso, Gaspar e Simões, 2006).. Fig. 5. Anúncio ao empreendedorismo urbanístico Santo António dos Cavaleiros, in Donas de Casa, nº 53, 1966:55.. 2.4 Casa, sociedade e a apropriação do espaço doméstico 2.4.1 Habitar a casa Casa s.f. qualquer construção destinada a habitação; prédio; residência; vivenda; cada uma das divisões de uma habitação; conjunto dos membros de uma família (Casteleiro, 2001: 719). A palavra casa, remete-nos para dois universos, um arquitetónico e outro antropológico, o primeiro por ser uma construção ou uma estrutura que abrigue, e um segundo pela componente humana intrínseca ao uso a que se destina. Recuando às sociedades antigas, todos os elementos eram responsáveis por responder às suas. 15.
(32) necessidades básicas, desde a procura de alimento, à construção das próprias cabanas. Desta forma, a casa era concebida por quem a ia habitar, estando assim agregadas as funções de conceber, construir e habitar. A evolução da sociedade levou a uma divisão destas funções, numa primeira fase as casas deixaram de ser concebidas e construídas por quem as habita, surgindo assim a arquitetura como profissão, e numa segunda fase acontece uma divisão de funções entre quem as projeta e quem gere as construções (Duarte, 1995). As pessoas chamam ao apartamento a sua casa (Toussaint, 2010). Para Toussaint (2010) é possível perceber um conjunto características intrínsecas à habitação, como por exemplo o facto da casa ou o fogo em altura já existir na Roma antiga. Surgiu como resposta à densidade urbana e à necessidade da utilização do pouco espaço, passando assim de casa térrea à casa em altura. O autor explica a necessidade da habitação que despoletou na Europa depois da I Guerra Mundial, assim como a transformação que a família-clã sofreu resultando numa família mais restrita – pais e filhos. A esta necessidade, os arquitetos procuraram então responder com uma casa eficaz e barata. Foram então estudadas formas de habitação de massas, através da libertação do solo, agregação de apartamentos em conjunto com alguns equipamentos necessários de apoio aos moradores como creches, biblioteca e ginásio, entre outros. Também a invenção da tipologia duplex na Unidade Habitacional de Marselha, procurou a união entre dois conceitos: moradia e apartamento.. Fig. 6. Unite d' Habitation, Le Corbusier, in Archdaily © Rik Moran.. A adaptação das pessoas ao espaço doméstico vai além das paredes desenhadas pelos arquitetos, como Monteys e Fuertes defendem na Casa Collage, a perceção do espaço e da arquitetura muda consoante as pessoas que lá estão, tal como com a decoração. Os pertences de uma família revelam os seus hábitos e culturas, e por outro lado também revelam os objetos mais comuns transversalmente às culturas e crenças diferentes. Una de las razones para utilizar insistentemente la palabra “casa” – con preferencia a “vivenda” – es la indentificatión que el término establece com sus ocupantes (Monteys e Fuertes, 2001: 14).. 16.
(33) No filme do grupo Habitar - “Mudanzas”, a palavra mudança adquire um duplo sentido, mudança porque o filme retrata uma família que está à espera da carrinha para fazer as mudanças para uma outra casa, e mudança de ponto de vista relativamente à casa e às suas possíveis qualidades. A ideia principal do filme é a da mudança de perspetiva como um elemento chave para a adaptação e apropriação do espaço doméstico, duma forma mais adequada e ajustada aos moldes de quem o habita. Após a “desconstrução” da casa como sempre a viram, a família fica apenas com as caixas onde guardavam os seus pertences, e as divisões totalmente “despidas”, estando criadas as condições para um novo “olhar” sobre a casa. No final do filme, a família percebe que já não precisa de mudar de casa, uma vez que o problema estava na forma como usufruíam os espaços. Ainda sobre a questão do ponto de vista do “mau uso” das coisas e dos espaços, Monteys e Fuertes (2001) chamam à atenção para a capacidade que as crianças demonstram em dar usos diferentes às coisas, por exemplo aos armários. Além da escala, para as crianças, constituir uma predisposição para outra perspetiva sobre os espaços, o pensamento do uso do espaço também não está formatado, nem “infetado”, com ideias pré-concebidas acerca da utilização e função dos objetos. As portas também são referidas pelos mesmos autores, como um elemento determinante na perceção e uso do espaço doméstico, permitindo simultaneamente a comunicação ou a separação de espaços ou divisões.. Fig. 7. Portas e as suas utilizações, in Monteys e Fuertes, 2011: 13.. Os eletrodomésticos também contribuem para a forma como os espaços domésticos são vivenciados, em Portugal, o fogão, o frigorífico e a televisão estavam presentes em 96% das habitações (Barreto e Preto, 1996: 11). Podemos dissecar os eletrodomésticos em três categorias: os essenciais, os agregadores e os facilitadores. Na primeira categoria enquadram-se o frigorífico e o fogão, uma vez que cumprem funções essenciais básicas de primeira necessidade: armazenamento e confeção de alimentos; os agregadores, por sua vez levam a uma agregação dos utilizadores, como por exemplo a televisão ou o rádio; por fim, os eletrodomésticos facilitadores serão todos aqueles que permitem uma “libertação” das tarefas domésticas, como as máquinas de. 17.
(34) lavar a loiça e a roupa, o aspirador, ou até a máquina do café. Pelos anúncios é visível que o público-alvo dos eletrodomésticos é o sexo feminino, refletindo ainda uma maior atribuição das tarefas domésticas (ver fig. 6). Todos estes elementos interferem e modificam a forma como se “vive” dentro da casa, seja a nível projetual quando desde a raiz se destina o local desses elementos, seja na apropriação do espaço quando a família se junta para ver um programa televisivo. Em Portugal, aconteceu em Março de 1957, o lançamento da televisão portuguesa com emissões regulares da RTP (Sardica, 2012: 1966).. Fig. 8. Anúncios de eletrodomésticos, in Donas de Casa, nº 53, 1966: 23.. 2.4.2 Sociedade e família Para o sociólogo, “sociedade” designa um grande complexo de relações humanas (…) (Berger, 2001: 36). O social pode ser compreendido como um conjunto de pessoas individuais, cada uma com as suas características, assim sendo, a sociedade seria um conjunto de indivíduos, singulares, todos diferentes entre si, que agem de acordo com as ideias, interesses, sentimentos, motivações e aspirações que lhes são “naturais”, e cujas decisões resultam apenas do seu próprio livre-arbítrio (Nunes, 1984). Esta forma de perceber o social, segundo Nunes, segue uma ideologia “naturalista”, consistindo na interpretação do objeto consoante as características que lhes são inerentes. Ora esta definição traz problemas, pondo em questão a possível previsão de comportamentos. 18.
(35) futuros, uma vez que cada indivíduo poderia usar o seu livre-arbítrio, tornando-se assim imprevisível. Na realidade, as coisas acontecem de outra forma, (…) quando, por exemplo, entramos num restaurante, estamos certos – isto é, não temos dúvida em prever - de que haverá ali alguém para preparar as refeições e alguém para as servir (excepto no caso dos self-services) (Nunes, 1984: 15). Não sendo então compreendido duma forma “naturalista”, interpretar o comportamento do homem de uma forma científica também gera alguns problemas, como por exemplo colocar novamente em causa a existência do livre-arbítrio. Os seres humanos têm um número quase ilimitado de características, e podemos analisá-los sociologicamente porque cada um compartilha de algumas características com alguns outros, assim como tem algumas diferentes. O que é singular é a combinação total, não cada característica individual. Assim, em termos racionais, a individualidade humana, a singularidade não constitui nenhuma barreira à explicação sociológica. Porém, dado que um indivíduo não corresponde a uma situação em função de uma só das suas características distintas, mas como uma pessoa com todas as suas características, é evidente que a previsão real do comportamento de um indivíduo numa situação é uma tarefa muito mais difícil que a de fazer previsões gerais sobre a probabilidade de certo tipo de comportamento ocorrer em certos grupos em determinadas condições (Nunes, 1984: 15). Com isto, procuramos entender o que é uma sociedade numa perspetiva sociológica, no seguimento do pensamento de Nunes. O autor defende que para o sociólogo, a sociedade é representada por uma grande rede complexa de relações humanas, ou na linguagem mais “técnica” um sistema de interacção (Nunes, 1984: 23). No entanto, os critérios para o sociólogo aplicar o conceito de sociedade têm de ser qualitativos e não quantitativos, o importante é a complexidade das relações, tem-se uma sociedade quando um complexo de relações é suficientemente complexo para ser analisado em si mesmo, entendido como uma entidade autónoma, comparada com outras da mesma espécie (Nunes, 1984: 23). Para uma definição mais concreta, Nunes procura explicar a sociedade como um conjunto de factos sociais, sendo aceite ou entendido como social, aquilo que tem qualidades de interacção, inter-relação, e de reciprocidade. O mesmo autor, utiliza a definição de social de Max Weber, segundo a qual uma situação «social» é aquela em que as pessoas orientam as suas acções umas para as outras (Nunes, 1984: 23). Assim sendo, nem todos os acontecimentos históricos têm o mesmo peso no desenvolvimento da sociedade, numa perspetiva sociológica, uma vez que esta apresenta uma evolução maior quando “encontra” obstáculos. É de admitir desde logo, por conseguinte, que o pensamento sociológico encontre melhores condições de desenvolvimento em circunstâncias históricas marcadas por severos choques na autoconcepção (cultura) de uma sociedade (…) (Nunes, 1984: 25). Posto isto, será o. 19.
(36) impacte provocado pelos acontecimentos, que “obriga” o homem a repensar questões por vezes basilares, em busca de “soluções”. A sociedade, embora composta de indivíduos humanos e indissociável deles, é uma ordem de realidade diferente, com a sua existência própria e as suas propriedades específicas (Costa, 1992: 63) No âmbito deste trabalho, focar-nos-emos na sociedade de uma forma mais restrita, selecionando as relações humanas familiares, uma vez que é para estas que se destinam as habitações. Família - Conjunto de pessoas ligadas por laços de consanguinidade, que vivem na mesma casa, especialmente o casal e os filhos; agregado familiar (Casteleiro, 2001: 1688). Para perceber como funcionam as famílias de “hoje”, Lauwe & Lauwe (1966), começam por estudar a evolução dos seus papéis na sociedade, onde defendem que quando a mulher deixa de cuidar apenas da família e arranja um emprego, altera-se o núcleo familiar ficando mais reduzido; o tempo passado com os filhos também é menor e, consequentemente, a rotina da refeição continua a ser um momento de comunhão e reunião. O aparecimento da televisão e do rádio vêm também alterar as atividades culturais e de lazer, passando estas a ter um papel principal no dia-a-dia em casa. O aumento dos divórcios resulta em estruturas familiares desagregadas, que por sua vez, em casos de segundos casamentos, resultam em agregados familiares, em partes, de duas famílias. Os autores referem-se também à evolução das necessidades, referindo o papel importante da economia, assim como o da temporalidade. Dividem as necessidades em necessidades-obrigações e necessidades-aspirações. As primeiras (necessidades-obrigações) são necessidades cuja importância é vital para o equilíbrio familiar, fazem parte destas: as necessidades económicas que podem determinar a saúde, educação, cultura e lazer; as necessidades de espaço e tempo que integram também o primeiro grupo de necessidades, estas prendem-se com a organização do espaço e as relações sociais, e como este permite o isolamento ou o agrupamento da família. Está, porém, relacionado com o poder de compra e, assim com as necessidades económicas. O último lugar deste primeiro grupo pertence às necessidades de segurança e de estabilidade, isto numa sociedade ainda marcada pela última guerra. O segundo. grupo. de. necessidades (necessidades-aspirações),. é. composto. por:. necessidade de harmonia e união do casal, se antes o casamento era “arranjado” pelos familiares e tinha como objetivo principal a continuidade da linhagem, agora é a procura do amor que leva à união matrimonial; a necessidade de instrução e de informação é cada vez mais generalizada em todos os meios sociais. Os interesses políticos, económicos e sociais estão mais incutidos na família. Reflete-se assim numa necessidade de comunicação tanto exterior à família como entre a mesma. As. 20.
(37) necessidades de relações sociais e de consideração social advêm também dos problemas da comunicação, e refletem-se na necessidade do espaço doméstico permitir uma harmonia na relação da família, mas também na receção de vizinhos, amigos ou estranhos nesse espaço. A consideração social está ligada a um sistema de valores que varia entre regiões, países e grupos sociais. A última necessidade-aspiração será a necessidade relativa ao papel a preencher pela família na sociedade, enquanto na aldeia a família está mais disponível para os vizinhos, na cidade a família ‘fecha-se’ dos outros. Há assim, interesse em manter uma certa reserva do exterior, e paralelamente criar unidades de vizinhança. Existindo uma atividade profissional por parte dos que sustentam uma família, o investimento de horas nessa atividade tem como consequência menos horas passadas em família, isto por sua vez reflete-se no distanciamento entre pais e filhos. Este distanciamento afeta os laços familiares assim como a participação em atividades familiares tanto de lazer como de responsabilidades da casa. Este assunto também é abordado por José Pinto Duarte, que compara as alterações sociais e culturais dos Estados Unidos da América com as mesmas alterações em Portugal, sendo que o único elemento que difere entre os casos é o tempo em que essas mudanças acontecem. Isto é, enquanto essa evolução acontece a um ritmo crescente nos Estados Unidos, outras sociedades demoram mais tempo a sofrer uma mesma mudança. O autor refere-se ainda à composição familiar dos Estados Unidos, onde o agregado familiar antes composto por avós, pais e filhos, dá lugar a um agregado mais reduzido composto por pais e filhos, e depois dos anos 70 o agregado assume outras realidades distintas como pais solteiros, grupo de amigos vivendo em comum, etc. (Duarte, 1995: 12).. Fig. 9. Anúncios dirigidos às mulheres, in Donas de Casa, nº 53, 1966:31.. 21.
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