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Introdução: revisitar Correia da Serra

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Academic year: 2021

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Texto

(1)

,

Richard Beale Davis

o

Abade

Correia da Serra

naAmerica

1812.. 1820

Prefacio:

Onesimo Teot6nio Almeida

Introdu<;oo:

Jose LUIs Cardoso

Imprensa

de Ciencias

Sociais

(2)

Imprensa de Ciencias Sociais

Instituto de Ciellcias Sociais da Universidade de Lisboa Av. ProE Anfbal de Bettencourt, 9

1600-189 Lisboa

Telef. 21 7804700 - Fax 21 7940274

lnstituto de Ciencias Sociais - Catalogafiio na Publictlftlo Richard Beale, 1907-1981

o

Abade Correia da Serra na America, 1812-1820/ Ri.chard Beale Davis; prefacio Onesimo Teot6nio Almeida; introdu~aoJose Luis Cardoso. - Lisboa :

rcs.

lmprensa de Ciencias Sociais, 2013. 329 p. ; 23 em. -Tradu<;ao de: The Abbe Correa

in America, 1812-1820: The contributions of the diplomat and natural philosopher to the foundations of our national life

ISBN 978-972-671-312-8 CDU 929 Serra,]ose Correia da

Titulo original:

The Abbi Correa in America, 1812-1820: The O:mtributiolLf t:if'the Diplomat and Natural Philosopher to the Foundations t:if'Our Natinal Lije, originalmcnte publicado

em Transactions t:if' the American Philosophical Sociel)!, vol. 45: 2. Filadelfia: lbe American Philosophical Society, 1955

TradUftlo: Isabel Oliveira Martins (coordena~o),

Maria do Ceu e Maria Filipa dos Reis &visiio: Medeiros da Silva

.scgurado Conclinho

lmpressiio eacabamento: Grafica Manuel Barbosa & Lda. 357249/13

de 2013

Indice

Explica~o em jeito de prefacio ... .

On/sima

7eot6nio

Almeida

9

Introdw;:ao

Revisitar Correia da Serra. . .

JoseLuis Cardoso

13

Nota da equipa de tradu.;ao e revisao . . . 23

Prefacio

a

edi.;ao de 1993 . . .

Gordon

S. WOod

27

o

Abade Correia da Serra na America

1812-1820

Richard Beale Dam's

I

Correia da Serra e a sua estada na America. . . 37

II

A vida de Correia da Serra na Europa, 1750-1811 . . . .. 41 III

o

fi16sofo peripatetico na America, 1812-1816 . . . 51

N

Enviado especial, 1816-1820. . . .. ... ... 71 V

Agente do Iluminismo: Correia da Serra e a vida intelectual

(3)

Onesimo Teotonio Almeida

VI

Os ultimos anos na Europa, 1821-1823. . . .. 113 VII

«0 nosso Socrates» . . . .. 119 VIII

As cartas . . . .. 121 IX

Lista das cartas remanescentes de Correia da Serra escritas

a correspondentes estrangeiros durante 0 periodo

nos Estados Unidos. . . .. 285

Posfacio

a

edis:ao de 1993 ... 289

Leon Bourdon

Indice remissivo. . . . .. 319

Explica<;ao em jeito de prefacio

Do Abade Correia da Serra confesso que the fixei apenas 0 nome na

minha 4.a classe quando nos faziam decorar a hist6ria de Portugal, su­

posto horror antipedag6gico que hoje agrade~o por dele me provirem

nomes e datas que agora me servem a torto e de traves. 0 Abade tinha,

com 0 duque de Laf6es, fundado a Academia das Ciencias. Nem eu sabia

o que era umaAcademia e muito menos 0 que eram ciencias. Mas regis­

tei-Ihe 0 nome e ele veio comigo na bagagem trazida de Portugal, sem

pesar nada porque nao 0 trazia sequer no consciente. Estava latente, nos

labirintos da mem6ria, associado sempre ao duque de Laf6es e a morar nessa tal Academia, onde quer que se situasse, algures em Lisboa.

Na minha primeira decada nos Estados Unidos, an os 70 do seculo

passado, dei comigo envolvido em debate com um autoproclamado his­

toriador, com mais fe nas suas convic~6es e nas gl6rias da patria do que

nos factos, fanaticamente agarrado a uma pedra, encontrada num rio de

Massachusetts, com inscri~6es entre 0 hieroglifo e os graffiti (de facto

feitas atraves de seculos, em palimpsesto), as quais sucessivas gera~6es de

diferentes etnias tentaram reclamar como da autoria de alguem do seu

grupo. As comunidades etnicas americanas (todas 0 sao, alias, menos as

amerindias, mas esse pormenor e habitualmente esquecido pela maioria dominante de origem inglesa, continuada pela sua grande sucessora da mesma lingua, a irlandesa) procuram todas algo com caracter funda­

cional, isto e, susceptivel de contribuir para legitimar a sua presen~a e

posse do territ6rio. Poi nesse contexto que, inesperadamente, me caiu

um dia nas maos urn numero da Transactions rfthe American Philosophical

Sociery, veneranda institui~ao cultural americana anterior

a

indepen­

dencia (a Society foi fund ada em 1743 por Benjamin Franklin e 0

primeiro volume da revista e de 1769), com um longo estudo intro­ dut6rio de Richard Beale Davies sobre um volumoso conjunto de cartas

trocadas entre 0 Abade Correia da Serra e os Founding Fathers da

Republica Americana: Thomas Jefferson, John QIincy Adams, James Monroe e outros. Eu nem queria acreditar. Nao fora minha a descoberta

(4)

a

Abade Correia da Serra na America

ter deparado ocasionalmente com esse nome mas que nada sabia sobre ele, nem investigara. Mostrou-se interessado e quis ver 0 livro. Nao de­ morou muito a informar-me de que aceitava 0 convite e a indicar-me 0

prazo de entrega do texto. Esse sim, chegou bern oportunamente, porque tres dias depois ele recebia urn Pulitzer Prize pelo seu livro The Radicalism qfthe American Revolution e, por pouco, 0 nosso projecto nao passava a

segundo plano. Publicado pela Gavea-Brown, do Departamento de Es­ tudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, 0 livro foi lan<;:ado

em Mar<;:o de 1993.

o

Dr. Mario Mesquita, agora na Direc<;:ao da FLAD, interessou-se por tomar acessivel tambem este volume em portugues.

E

a ele e

a

FLAD que se deve 0 incondicional apoio, inclusive monetario,

a

edi<;:ao por­ tuguesa. Da minha parte, s6 me compete agradecer-Ihe, bern como ao Dr. Miguel Vaz (go-between em todo este processo) e

a

FLAD. A tradu<;:ao foi levada a cabo por Isabel Oliveira Martins (coordena<;:ao), Maria do Ceu Marques, Maria Filipa dos Reis e Edgardo Medeiros da Silva (re­ visao). A coordena<;:ao da edi<;:ao portuguesa pertence ao Professor Jose Luis Cardoso, por sinal membro da Academia das Ciencias de Lisboa que Correia da Serra fundou, e profundo conhecedor do tempo por­ tugues em que 0 Abade viveu.

Providence, Rhode Island Novembro 2012

thors Club em 2005. 0 seu History

of

the United States, Empire ofLiberty: A History

of

the Early Republic, 1789-1815 foi nomeado para 0 Pulitzer Prize. Gordon Wood

e

colaborador regular de The New York Review

of

Books e de The New Republic.

Jose Luis Cardoso

Introdu~ao

Revisitar Correia da Serra

E

amplamente reconhecida e nao carece de justifica<;:ao a importancia deste personagem hist6rico que tao regularrnente revisitamos. Com efeito, a vida e a obra do Abade Jose Correia da Serra (1751-1823) ofere cern mul­ tiplos ingredientes e felizes pretextos para recordarmos 0 seu trajecto e as­

sinalarmos marcas do seu legado. Homem de ciencia e de cultura, viajante e peregrino pelo mundo, perseguido politico e representante diplomatico, frequentador de saloes academicos e politicos, mas menos assiduo de sa­ loes paroquiais, 0 Abade Correia da Serra da-nos testemunho de uma vida

e de urn tempo bern recheado de momentos significativos para a com­ preensao da evolu<;:ao da sociedade portuguesa e, sobretudo, da constru­ <;:ao da ciencia em Portugal nos finais do seculo XVIII e primeiras decadas do seculo XlX.

o

livro que agora se edita em tradu<;:ao portuguesa, cuja primeira edi­ <;:ao em ingles data de 1955, demonstra bern as facetas humanista, erudita e poHtica de Correia da Serra durante 0 periodo em que permaneceu nos Estados Unidos da America, entre os anos de 1812 e 1820. Inicialmente apenas como viajante peripatetico e como voluntario participante na in­ tensa vida intelectual da jovem na<;:ao americana, juntou depois a esse projecto dvico a missao oficial de representa<;:ao diplomatica, na quali­ dade de embaixador do Reino Unido de Portugal e Brasil em Washing­ ton, cargo que exerceu desde mead os de 1816 ate Novembro de 1820.

A correspondencia activa e passiva de Correia da Serra durante a sua estada americana constituem 0 objecto central deste livro. Trata-se de urn

conjunto de cerca de uma centena de cartas que revel am a sua proximi­ dade e familiaridade com relevantes figuras da vida politica e cientifica americana das primeiras decadas do seculo XIX - alguns dos «pais da pa­ tria» (foundingfathers) -, entre as quais cumpre naturalmente destacar 0

nome do terceiro Presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson. Tudo

(5)

o

Abade Correia da Serra na Amen'ca

o que se conhece sobre a amizade e 0 respeito que reciprocamente nu­

triam, sobre as homas especiais que Jefferson dedi cava a Correia da e os elogios rasgados a sua sabeoria c

A organiza\;ao e transcn\;ao

estevc a cargo de Richard Davis, que na

La

de 1955 aos leitores de lingua pouco ou nada familiari­

zados com a biografia de Correia da Serra, uma esdarecedora introdw;:ao

que contextualiza e explica 0 significado da estada do cientista e diplo­

mata portugues em terras american as.

Inicialmente publicado como numero especial das Transactions

if

the

American Philosophical Society (voL 45: 2, 1955) de FiladeIfia, 0 ensaio

Beale Davis e as cartas de e para Correia da viriam a conheccr nova

edit:;ao em 1993, numa iniciativa da casa Gavea-Brown que con­

tou com 0 directo de Onesimo Teotonio Almeida. Para

de reproduzir na integra os materiais da 1." edit:;ao de 1955,

essa nova edit:;ao surgiu acrescentada de um prefacio de Gordon Wood

e de um longo posfucio de Leon Bourdon. erudito historiador

o~s tinha entretanto publicado dois importantes estudos sobre Correia

da Serra, um dos quais acompanhado de uma nova serie inedita de cor­

respondencia americana, 1 peIo que a edit:;ao Gavea-Brmvn teve 0 privi­

legio de juntar as contribuit:;6es analiticas de maior profundidade e de

caracter mais inovador sobre 0 percurso e as actividades de Correia da

Serra nos Estados

A tradut:;ao que agora se publica e urna iniciativa a que

novo surge associado Onesimo Teotonio Almeida, que desta vez mobili­

zou a atent:;ao e 0 apoio da Fundat:;ao Luso-Americana para 0 Desenvol­

vimento, uma instituit:;ao que em divers os momentos tem sabido rccordar e homenagear Correia da Scrra como slmbolo do rclacionamento e ami­ zade entre Portugal e os Estados Unidos.z Para alem de proporcionar aos leitores de lingua portuguesa a integralidade dos matcriais anteriormente

publicados, a edit:;ao inclui ainda um novo prefacio e uma nova

! Leon Bourdon «Lettres inedites du due de Lafoes Correa da Serra

-1804»>. Bulletin des Etudes Portugaises, voL 32 (1971), Bourdon,fosiCorrea da !3erra., Ambassadeur du Royaume Uni de Portugalet Brifil

a

1816-1820. Paris: Fun­ da<;:ao Calouste Gulbenlcian, 1975.

Z Salientc-se, muito em particular, a aquisi<;:ao e posterior doa<;;ao aos Arquivos Na.

cionais, Torre do Tombo, de uma coleo;:ao de manuscritos de Correia da Serra da maior relcvmcia para 0 estudo do seu perc ursa e actividade entre 1751 e 1795, assim como a publica<;:ao do respectivo catalogo organizadopor Michael Teague. Cf. AbadeJoseCorreia da Serra. Documentos do seuArquivo (1755-1795). Lisboa: FLAD, 1997.

Introdufiio

L l d l ' ' ' U 1 H ' - U ' a vontade e 0 prazer

se rev1S1tar a tlgura dO .f\.oade da Serra.3 Mas convid

nao que a sua correspondencia activa e passiva constitui 0 cen­

tro deste projecto editorial com margens amplas onde se regis tam breves anota<;:6es e chamadas de atent:;ao sobre os meritos clos contributos que noS deixou.

Num panorama editorial pouco propfcio a aclamat:;ao do genero bio­ grafico - reconhecida que e a relativa escassez de retratos e perns de fi­ guras marc antes da nossa vida politic a, cultural e cientlfica - importa su­

que 0 Abade Correia da Serra represcnta notavel excep\;ao.

hit>"rifico foi trat:;ado um ana apos a sua morte inscrito numa modalid

que continuaria a dar alguns flutos ao longo do seculo XlX.O Os registos

biograficos com incursoes de analise sobre as contribuit:;oes de Correia da Serra no plano cientifico, sobretudo no dominio da botanica, inicia­

ram-se com Julio Hcnriques.6 Porem, deve-se ao historiador americano

Joseph E. Agan a inaugurat:;ao de uma abordagem as diversas fases da vida e obra de Correia da Serra com remrso a Fontes ineditas sujeitas a rigoroso escmtinio.7 Tambem no plano cia divulga<;:ao de fontes manus­

critas ate enta~ desconhecidas, assinale-se a publicao:;ao, por Augusto da

Silva Carvalho, um cnsaio biografico acompanhado de importante

nueleo

que enviou dO seu

seu protector

a

distancia.8

o

trabalho Richard Beale Davis que agora se traduz, datado de

1955, e os ja mencionados estudos e edit:;6cs de correspondencia efec­

3 A op<;:ao que presidiu a esta edi<;:ao foi a de manter na integra a organiza<;:iio original das edicoes americanas de 1955 e 1993. Apenas foi adaptado 0 longo titulo dado por Ri­

The Contributions

if

the Diplomat the Foundations

if

Our National Lift). orocurando·se transmitir lTI<::nS3lge[Il mais curta sobre 0 sen conteudo.

4 D. Francisco de Portugal (conde de vaux de M. Correia <fa Serra». In Mbnoires 215-229.

5 Manuel Jose da Costa e Sa, «Elogio Academico de Correia da Serra». HIit6na eMe­

monas da Academia Real das Ciincias de Lisboa, 2.a serie, II (1848), ix-xxv.

6 Julio Henriques, <90se Francico Correia da Serra». Boletim da Sociedade Broteriana, vol. II (1923), 84-125.

7 Joseph Eugene "Correa da Serra». Bo/etim da Socudade Broteriana, vol. IV (1926),9-43.

8 Augusto da Silva Carvalho, ,,0Abade Correia da Serra». Mem6rias daAcademia das

Ciencias de Lisboa, Chsse de Ciencias, t. VI (1948). 7-223.

(6)

o

Abade Correia da Serra na America

l1!ados por Leon Bourdon, marcaram uma nova maturidade da historiogra­

fia de Correia de Serra, destacando-se 0 reconhecimento intemacional que

o naturalista e diplomata portugues granjeou em vida e legou aos seus vin­

douros.9 americana do trajecto de Correia Serra, com destaque

para as suas rela~6es pessoais com Thomas Jefferson, viria ainda a suscitar

interessantes contribui~6es adicionais de historiadores norte-americanos.lO

A terminar este brevlssimo roteiro sobre aos principais e regis­

tos biograficos dedicados a Correia da Serra, todo 0 destaque deve ser

dado ao trabalho desenvolvido por Ana Simoes, Ana Carneiro e Maria

Paula Diogo, quer como coordenadoras editoriais da publica~ao dos arti­

gos cientificos e outros materiais de Correia da Sen"a,l1 quer como

autoras de uma biografia cientifica deste «Cidadao do Mundo».12 Da

dagem das autoras ressalta uma orienta~ao metodol6gica que estabelece

uma ruptura com a tradi~ao historiografica ate enta:o predominante e que

se inscreve claramente no ambito dos modemos estudos de hist6ria inte­

lectual da ciencia. Trata-se de analisar a heran~a cientifica do Abade Cor­

reia da Serra tendo em aten~ao nao apenas 0 conteudo interno da ciencia

que praticou, seus conceitos, instrumentos e moddos operat6rios, mas

tambem os ambientes, os contextos, as linguagens, as institui~6es, as pes­

soas, em suma, 0 mundo envolvente que toma historicamente perceptivcl

e inteligivel 0 trabalho cientifico que empreendeu. Para tal e ter

presentes as limita~oes e os estimulos

a

cria~o e difusao do conhecimento

cientifico no nosso pais, designadamente 0 contexto periferico e subal­

temo de produ~ao, transmissao e apropria~ao da ciencia. Com esta

dura de enquadramento metodol6gico, os capftulos prosseguem

a

caden­

. dos lugares por onde Correia da Serra viveu e passou, as

intluencias que recebeu, os contactos que os trabalhos que pro­

9 Cf ainda Abilio Fernandes, '1ose Francisco Correia da Serra como naturalista». Me­

morias daAcademia dar Ciencias de Lisboa, Classe de Ciencias, t. XVlII (1976),77-101. Novas incursoes biograficas tambem presentes em Ilidio do Amaral, Notulas hist6ricas sobre os primeiros tempos daAcademia das Ciinaas de Lisboa. Lisboa: Edi~oes Colibri, 2012.

10 Cf especialmente Michael Teague, «Kindred Spirits: 'Thomas Jefferson and Jose

Correia da Serra». .TbeJournal

of

the American Portuguese Sociery, 35th Anniversary (1994),

16·22; e Kenneth Maxwell, «The odd couple:Jefferson and the Abbe». In Naked Tropics. Essays and other Ro,gues. Londres e Nova Iorque: Roudedge, 171-185.

11 Ana Carneiro, Maria Paula Diogo eAna SimOes, eds.,josiFrancisco Correia £fa SeJTa:!mJes­ tiga¢es Botdnicas. Porto: Porto Editora, 2003; Ana Simoes, Ana Cameiro e Maria Paula Diogo,

cds.JoseFrancisco Correia £fa Serra; ltinerdrios Hist6rico-Naturais. Porto: Porto Editora, 2003.

12 Ana Simoes, Maria Paula Diogo e Ana Carneiro, Cidadiio do Mundo. UmaBiografia

do Abade Correia ria Serra. Porto: Porto Editora, 2006. Esta obra teve cntetanto

inglesa: Citizen ofthe World. A Scientific Biograplry

of

the Abbe Correia ria Serra.

l5crKelev. CA: Institute of Govemment,~l Studies Press, University of CalifOrnia, 2012.

1';:

Introdufio

duziu, as . que frequentou, 0 modo como observou e experi­

mentou, leu e mediu, viajou e descobriu, participou, partilhou e apro­

priou, em palavras 0 modo como produziu e difundiu conheci­

mento cientifico em Portugal enos paises que 0 acolheram.

A vida de Correia da Serra foi suficientemente agitada e colorida para

merecer a atenvao que os seus bi6grafos, com diferentes propositos, Ihe

dedicaram. Aos 6 anos de idade 0 pequeno Jose Francisco viajou para

lta.iia com os seus progenitores, certamente por motivos relacionados com persegui~ao da Inquisi~ao.n Vao ser importantes as 20 anos de

(entre 1757 e passados entre Napoles e Roma recebe

as influencias da educa~ao de outra ilustrado portugues tam bern resi­

dente em ltalia, Luis Antonio Verney. Igualmente marcantes foram 0

contacto directo com a obra de Genovesi, particulannente relevante para

a compreensao econ6mica do mundo natural, e 0 contacto cpistolar com

Lineu, bern revelador das inclina~6es cientificas que 0 jovem Correia

Serra viria mais tarde a demonstrar.

o

seu regresso e pennanencia em Lisboa, entre 1777-1795, fieou mar­

pela contribui~ao para a funda~ao e 0 inicio de actividade da Acade­

mia das Cicncias de Lisboa, revelando imensa energia e capacidade orga­

nizativa e estabelecendo uma de contactos cientificos nacionais e

intemacionais essenciais para a sua carreira futura. Datam tambem perlodo os seus primeiros trabalhos cientificos nos domfnios da geologia

e da botanica, para das reflex6es metodol6gicas sobre a utilidade da

Os contactos pr6ximos e pessoais que entaD rnanteve com 0 duque

de Laf6es, com Domingos Vandelli e com D. Rodrigo de Sousa Coutinho

vmam a cruciais para a carreira que trilhou fora de PortugaL

Os textos introdut6rios que escreveu para as de publica<;:6es da

Academia das Cicncias de Lisboa sao bern reveladores dos seus tos de fazer do conhecimento hist6rieo e cientifico urn instrumento pri­

vilegiado de transfonna~o da sociedade. Na abertura das

Mem6rias Ear

nomicas

pode ler-se:

o

primeiro passo de uma para aproveitar suas vantagens,

e

conhe­

cer perfeitarnente as terras em que habita, 0 que em si encerram, 0 que em

si produzem, 0 de que sao capazes. As artes todas nao sao mais do que uma

13 A data de nascimento de Jose Francisco Correia da Serra foi definitivamente escla~

recida na biografia de Ana Simoes, Maria Paula Diogo e Ana Carneiro, com base na do­ cumentac,:ao referida na nota 2 supra. Assim, e contrariamente

a

infurma<;io veicuJada, entre outros, por Gordon Wood e Richard Beale Davis nos ensaios que se incluem nJ presente edi<,:ao, Correia da Serra nasceu em Serpa a 5 de Junho de 1751, tendo ai sido baptizado no dia 17 do mesmo meso C£ Simoes, Diogo e Carneiro, op. cit., 14.

(7)

!""""'"

o

Abade Correia ria Serra na Amfrica

aplica<;ao do conhecimento da natureza

as

nossas e UWlUaues; seu adiantamento depende todo das ciencias naturais e das exactas, e mais estas tern sido cultivadas em cada povo, tanto mais as artes tern CI1egado ao seu auge.14

Noutro registo, no discurso preliminar aos

Livros lniditos da HistOria

Portuguesa,

escreve Correia da Serra:

'<.I:lanuo Salrem do p6 estas testemunhas, e urn grande numero de [actos incognitos vir a luz do dia, 0 trabalho, a paciencia, 0 espirito de cn­ tica, e de discurso tiverem combinado estes materiais, e deduzido noticia dos pontos que nos importa conhecer [ ...

L

entao

e

que poderemos sem jactancia persuadir-nos de saber 0 que Portugal tcm sido, e s6 entao uma pena guiada pela razao, c peIo born gosto, podera cxpor it nossa vista, a com­ plicada serie das ac<;6es passadas, e explicar-nos com certeza, as causas que as motivaram, e os efeitos que delas se seguiram, de modo que a 116s sejam de proveito, e

a

posteridade de ensino.15

dais excertos resumem bern 0 sentido das preocupac6es acade­

micas de Correia da Serra, demonstrando a utilidade do conhecimento das ciencias naturais e exactas para a melhoria dos processos

de recursos produtivos (economicos), e dando testemunho da importan­ cia da historia para se compreender a presente e perspectivar a futuro. Par razoes do foro privado e publico ainda nao totalmente esclareci­

das au comprovadas aetos de sodomia registados pelo Tribunal do

Santo Oficio e proteq;:ao e acolhimento a gente jacobina - Correia da

Serra viu-se forcado a interromper 0 meritorio trabalho como secretario

Ciencias Lisboa. Refugiou-se em Londres entre 1795

e 1801,0 que acabou por se tomar altarnente benefico

como cientista. Em Londres registou-se 0 momento

sao de urn saber acumulado que se revela na participacao em actlYldades e pllblicac;oes da Royal Society e da Linnean Sociely, e no contacto pro­ ximo com Joseph Banks. A actualizac;ao e a modernidade cientificas do pensamento de Correia da Serra sao testemunhadas pel as suas novas in­ cursoes nos dominios da geologia e, sobretudo, nos seus mais celebres

14 Jose Correia da Serra. «Discurso PrelirninaI». In Mem6rias Econ6micas da Academia

Realdas Ciencias de Lisboa. Lisboa: Academia Real das Ciencias de Lisboa, 1789, t. 1

edi~ao: Lisboa: Banco de 1991, introdu~ao e direcr;:ao de Cardoso).

15 Jose Correia da Serra. «Discurso Prelimmar». Livros lntditos de Hist6ria de Portugal.

Lisboa: Academia Real das Ciencias de Lisboa, 1790, t. 1.

lR

lntrodufao

trabalhos de botanica sobre 0 sexo das algas e a reproduc;ao das cripto­

cimicas, nos quais se distancia da tradicao dos sistemas de classifica<;ao e desenvolve uma nova abordagem sistematica baseada no con­ de afinidade. Os seus interesses academicos foram entao seguidos e estimulados por D. Rodrigo de Sousa Coutinho

forrnac;6es e contactos de Correia da Serra para lan~ar a sua rede mtorrna

de apoios cientfficos para 0 conhecimento e do imperio,

especialmente em territ6rio brasileiro.

As publicacoes cientificas no dominio da botanica e 0 estabelecimento

de uma rede de amizades e sociabilidades academicas prosseguiram na

paragem seguinte do seu itinerario, agora em Paris, entre 1801 e 1812. Ai

conheceu e dia[ogou com alguns dos cientistas mais notiveis da

epoca ~ tais como Candolle, Du Pont

La Mettrie, entre outros sabendo tambem usar os seus dotes cosmopo­ Etas e de grande conversador para aproximar botanicos de diversas nacio­

nalidades estacionados na capital rrancesa. Poi em Paris que nos Annales

du Museum d11isto£re NatureUe,

entre 1805 e 1807, publicau os seus mais

conhecidos trabalhos botanicos no dominio da carpologia.16

o

sqour

parisiense terminou quando Correia de Serra tinha 61 anos, madura com que partiu para os Estados Unidos da America, sendo aCOlmdo em Filadelfia em 1812. Na sua bagagem intelectual trazia urn

conhecimento acumulado e uma experiencia de pass ada entre cien­

tistas e academicos de nomeada, 0 que os seus confrades

se cansaram de enaltecer. Todos as detalhes sobre as duas lases da sua permanencia americana, antes e depois da sua nomeaC;ao diplomatica em 1816, sao tratados no estudo de Richard Beale Davis que acompanha a edicao das cartas. Dispensam-se, par isso, comentarios adicionais sobre o seu conteudo espedfico. Todavia, valera a pena deixar brevis simas im­ pressoes de leitura que reforc;arn a nossa conviq:ao sobre a modo atento

e cuidadoso com Correia da Serra registava as suas deambulac;6es.

Para alem de ao seu estado de ou a vicissitudes

caracter pessoal, sobra urn largo espac;o em que conta

das suas viagens a Monticello, onde se encontrava com Jefferson, ou a outros locais de periplo america no. Observador atento da realidade eco­

16 Os trabalhos cientificos mais relevantes que Correia da Serra produziu durante a

sua estada em Londres e Paris [oram novarnente pubJicados em cdir;:ao critica de Ana Carneiro, Malia Paula Diogo e Ana Simoes, eds.JoseFrancisco Correia da Serra: Iwesti,gI1{Oes Bottb1icas. Porto: Porto Editora, 2003. Para urna listagem dos cscritos de Correia da Serra, c£ a minuciosa bibliografia compiIada por estas mesmas autoras na biografia

(8)

~

o

Abade Correia da Serra 1fa America

nomica e social, percebe 0 curso das transformac;6es mais visivcis que

atingiam a jovem nac;ao que tanto apreciava, designadamente no que se

refere

a

aproximac;ao

as

comunidades indias. Os livros que recebia, as

novidades cientificas que the chegavam da Europa, a recolha ou 0 envio

de amostras minerais, vegetais au animais, a apresentac;ao de projectos experimentais, sao materias recorrentes a que se refere na sua correspon­ dencia. A observac;ao e a experimentac;ao cientificas, a preocupaC;ao com a utilizac;ao pratica da ciencia, nunca deixam de ocupar a sua mente. plano politico-diplomatico, a abordagem ao delicado problema das in­

dependencias americanas cuja inevitabilidade Ihe merecia reparo - 0

desconforto peJas revoltas e inconfidencias brasileiras, ou pela falta de vigilincia dos Estados Unidos perante actos de pirataria que vitimavam navios comerciais portugueses, sao alguns dos topicos da sua preferencia.

Tambem relevante e 0 relato do seu envolvimento directo com institui­

c;6es academicas e universitarias americanas, designadarnente com a Ame­ rican Philosophical Society e com as recem-criadas Universidades da Vir­ ginia e da Pensilvania, para cujo funcionamento deu uma contribuic;ao decisiva na organizac;ao dos pIanos curriculares nos domini os da hist6ria e filosofia natural.

A correspondencia que trocou com Jefferson nos dias imediatos

a

sua

nomeac;ao como representante oficial do Reino de Portugal e Brasil em Washington e bem demonstrativa da essencia das suas qualidades. Em

resposta

as

felicitac;6es e ao regozijo que Jefferson the demonstrara em

carta de 5 de Junho de 1816, Correia da Serra respondeu a 16 de Junho

e testemunhou 0 seu agradecimento com uma metafora botanica, di­

zendo que a nomeac;ao naquela idade «era um pouco como 0 di6spiro,

chega tarde e amadurecido par fortes geadas». Com efeito, 0 que de mais

importante Correia da Serra tinha para contar a Jefferson, dias depois da

sua investidura em cargo diplomatico, era 0 curso de Botanica que tinha

em preparac;ao e as palestras que iria proferir na American Philosophical Society. Sem esquecer de referir que entre as novidades recebidas de Paris se encontrava a formula de um cimento impermeavel, materia a que se

dcdicara profusamente noutras cartas, preocupado que estava com 0 pro­

blema da constmc;ao de cisternas de cimento para armazenagem de vinho. 0 diplom.ata Correia da Serra nao desmerecia os seus atributos teoricos e priticos na esfera cientifica em que nunca deixou de girar.

Correia da Serra regressou ao seu pais natal ern Agosto de 1821, apos curtas passagens por Paris e Londres num regresso ao continente europeu que iniciara em Novembro de 1820. Entretanto, viu fiustrada a inten<;ao

de se deslocar para 0 Brasil e acompanhou os primeiros passos da cons­

'In

Introdufao

tmc;ao de um novo regime poHtico de monarquia constitucional, que emergiu da revolu<;ao liberal de Agosto de 1820. Tinham passado 43 anos desde a sua primeira saida para Londres. A pouco e pouco Correia Serra retomou os contactos com a vida academica e politica, ao ritmo permitido pda saude predria e idade avanc;ada. Morreu em 1823, sem que os seus concidadaos pudessem efectivamente compreender a dimen­

sao universal do seu legado cientifico. Mas os diversos estudos que

a

sua

tem sido dedicados resgataram

hi

muito do esquecimento os me­

ritos e louvores justamente dedicados ao grande naturalista e homem

ciencia que foi 0 Abade Jose Correia da Serra.

Agradccimentos

Esta edic;ao s6 foi possivel grac;as ao apoio prestado pela Fundac;ao

Luso-Americana para 0 Desenvolvimento. Aos doutores Mario Mesquita

e Miguel Vaz agradecemos 0 entusiasmo com que acolherarn este pro­

jeeto. Ficamos tambem gratos

a

Imprensa de Ciencias Sociais que, atraves

das doutoras Cristiana Bastos e Karin Wall, tambem demonstrou receptividade em inscrever este livro no seu plano editorial. A traduc;ao da correspondencia de e para Correia da Serra e dos textos de Richard Beale Davis, Gordon Wood e de Leon Bourdon esteve a cargo de uma equipa de traduc;ao coordenada por Isabel Oliveira Martins, a quem agra­

decemos 0 excelente trabalho efectuado.

Lisboa, Julho 2012

Referências

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