José C e l s o d e O l i v e i r a M a l t a ( ) Resumo

Texto

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O S A R G U L I D E O S ( C R U S T A C E A : B R A N C H I U R A ) D A A M A Z Ô N I A B R A S I L E I R A 4

ASPECTOS D A E C O L O G I A D E A R G U L U S M U L T I C O L O R S T E K H O V E N , 1937 E A R G U L U S P E S T I F E R R I N G U E L E T , 1 9 4 8 . ( * )

José Celso de O l i v e i r a M a l t a ( * * )

R e s u m o

A especificidade parasitária, áreas de f i -xação, hospedeiros naturais, índices de infes-tação e variação sazonai de Argulus multicolor e Argulus pestifer foram estudados durante o período de março de 1979 a março de 1980, no Janauacá, um lago de várzea da Amazônia Centrai. A sazonalidade revelou estar relacio-nada com a variação do nível da água. O pico máximo de infestação de A . multicolor ocor-reu na estação cheia (junho, julho) e o míni-mo na estação seca (novembro). O A . pestifer apresentou um padrão de sazonalidade inverso ao das demais espécies, seu pico m á x i m o de infestação ocorreu na estação de seca (novem-bro, dezembro) e o m í n i m o na cheia (junho, julho). O A. multicolor apresentou uma certa especificidade parasitária ocorrendo em qua-tro espécies de peixes incluídas em duas famí-lias, Cichlidae e Serrasalmidae. O A . pestifer apresentou alto grau de especificidade parasi-tária, sendo restrita à duas espécies Pseudopla-tystoma tigrinum e P. fasciatum. Coletou-se o A multicolor parasitando a cavidade bucal e branquial e o A. pestifer a superfície externa do corpo.

I N T R O D U Ç Ã O

O gênero A r g u l u s M u l l e r , 1 7 8 5 é o mais c o n h e c i d o , e s t u d a d o e n u m e r o s o d o grupo, possui a m p l a d i s t r i b u i ç ã o

geográfi-ca e é o ú n i c o q u e o c o r r e t a n t o e m água d o c e q u a n t o salgada. A t u a l m e n t e são lis-tadas d e z o i t o espécies (destes gênero para a regiâ*o N e o t r o p i c a l , todas são d u l c í c o l a s e o c o r r e m à leste das C o r d i l h e i r a s dos A n -des, e x c e t o A . p e r u v i a n u s O l i v a e t al., 1 9 8 0 , q u e f o i c o l e t a d o na costa d o Ocea-n o P a c í f i c o , Ocea-na l o c a l i d a d e de Callao, Ocea-no Peru.

E n t r e os c i n c o gêneros que f o r m a m a subclasse B r a n c h i u r a , o A r g u l u s é o que possui u m m a i o r n ú m e r o de caracteres a p o m ó r f i c o s e, c o n s e q u e n t e m e n t e , o que apresenta e s t r u t u r a s mais eficientes à vida parasitária, d e n t r o d o g r u p o , tais c o m o : segundas maxilas t r a n s f o r m a d a s e m ventosas as quais são u t i l i z a d a s para f i x a r e m -se e m -seus h o s p e d e i r o s ; p o r ç ã o basal da p r i m e i r a a n t e n a achatada e armada c o m u m a garra a n t e r i o r e u m a l a t e r a l ; aparelho bucal d i f e r e n c i a d o e m duas partes d i s t i n -tas, mas unidas e m suas bases, a parte an-t e r i o r é f o r m a d a p o r u m esan-tilean-te de p o n an-t a f i n a , q u a n d o n ã o está sendo usada fica p a r c i a l m e n t e r e t r a í d a d e n t r o de u m a bai-n h a , p o r d e bai-n t r o d o estilete há u m d u e t o que é l i g a d o a u m a g l â n d u l a de p e ç o n h a situada na base deste a p a r e l h o , este órgão é s e m e l h a n t e ao a p a r e l h o bucal dos he-m í p t e r o s e é usado para p e r f u r a r a epider-m e dos peixes para fins a l i epider-m e n t a r e s .

A p a r t e p o s t e r i o r d o a p a r e l h o b u -c a l , -c h a m a d a p r o b ó s -c i d e , é de f o r m a - ci-l í n d r i c a , p o d e n d o ser u m a depressão o u

( *) - Parte da Tese de Mestrado apresentada ao curso de pós-graduação do Instituto Nacio-nal de Pesquisas da Amazônia e Fundação Universidade do Amazonas.

( * * ) - I n s t i t u t o Nacional de Pesquisas da Amazônia.

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u m a elevação d e p e n d e n d o da espécie;, possui u m d i â m e t r o bem m a i o r q u e o ór-gão a n t e r i o r , é f o r m a d a p o r u m l á b i o su-perior, u m i n f e r i o r e u m a série de hastes quitinosas que s u s t e n t a m o t u b o da p r o -bóscide, na a b e r t u r a oral há u m par de m a n d í b u l a s e a p r i m e i r a m a x i l a . Os gêne-ros A r g u l u s e H u a r g u l u s possuem ambas as partes, e n q u a n t o o D o l o p s e o C h o n ó peltis apenas a parte p o s t e r i o r , o D i p t e r o -peltis apresenta ambas, mas a p r i m e i r a é r u d i m e n t a r ( Y a m a g u t i , 1 9 6 3 ) . O A pesti-f e r Ringuelet, 1 9 4 8 , u m a das espécies es-tudadas neste t r a b a l h o , apresenta u m a característica ú n i c a d e n t r o d o g ê n e r o , so-mente o m a c h o possue ambas as partes do aparelho b u c a l , as fêmeas só apresen-t a m a parapresen-te p o s apresen-t e r i o r , a p r o b ó s c i d e .

M A T E R I A L E M É T O D O S

A m e t o d o l o g i a u t i l i z a d a está de acordo c o m M a l t a ( 1 9 8 1 e 1 9 8 2 a ) .

R E S U L T A D O S

D u r a n t e u m p e r í o d o de treze me-ses, de m a r ç o de 1 9 7 9 a m a r ç o de 1 9 8 0 , f o r a m realizadas excursões mensais ao La-go Janauacá. U m t o t a l de 1 3 5 5 peixes de

c i n c o ordens e o i t e n t a espécies f o i exami-n a d o m i exami-n u c i o s a m e exami-n t e v i s a exami-n d o observar a o c o r r ê n c i a dos crustáceos branquiuros. Neste t r a b a l h o analisou-se os dados de duas espécies coletadas d u r a n t e esse pe-r í o d o , A pe-r g u l u s m u l t i c o l o pe-r S t e k h o v e n , 1937 e A r g u l u s p e s t i f e r R i n g u e l e t , 1948.

O A . m u l t i c o l o r f o i e n c o n t r a d o pa-r a s i t a n d o q u a t pa-r o espécies de peixes, sendo que t o d o s são assinalados c o m o novos hospedeiros para este c r u s t á c e o . A relação dos hospedeiros c o m seus respectivos ín-dices de parasitismo são apresentados na tabela 1 .

O A . m u l t i c o l o r só o c o r r e u parasi-t a n d o peixes de escamas, as espécies que o c o r r e r a m c o m o hospedeiros f o r a m : Ser-rasalmus n a t t e r e r i , c i n q u e n t a e nove pei-xes f o r a m e x a m i n a d o s , sendo que o i t o es-t a v a m parasies-tados, a p r e s e n es-t a n d o 13,5% de i n c i d ê n c i a d o parasita, u m a intensida-de intensida-de infestação v a r i a n d o intensida-de 0 - 2 e u m a média de 1,0 i n d i v í d u o p o r h o s p e d e i r o ; C o l o s s o m a m a c r o p o m u m v i n t e e sete fo-r a m e x a m i n a d o s , sendo q u e tfo-rês estavam parasitados, a p r e s e n t a n d o 1 1 , 0 % de inci-dência d o parasita, u m a intensidade de infestação v a r i a n d o de 0 — 3 e u m a mé-dia de 2,0 parasitas p o r h o s p e d e i r o ; Ci-c h l a temensis, doze e x e m p l a r e s f o r a m e x a m i n a d o s , sendo que três estavam

para-Tabela 1 - Relação d o s peixes q u e o c o r r e r a m c o m o hospedeiros de A r g u l u s m u l t i c o l o r S t e k h o v e n , 1 9 3 7 c o m seus í n d i c e s de p a r a s i t i s m o ; c o l e t a d o s n o Lago Janauacá d u r a n t e o p e r í o d o d e m a r ç o de 1 9 7 9 a m a r ç o de 1 9 8 0 .

Hospedeiros N o . de Peixes % de I n t e n s i d a d e de

E x a m i n a d o s I n c i d ê n c i a Infestação

Parasitados V a r i a ç ã o — M é d i a

Serrasalmus n a t t e r e r i 5 9 / 8 1 3 , 5 0 - 2 1,0

C o l o s s o m a m a c r o p o m u m 2 7 / 3 1 1 , 0 0 - 3 2,0

Cichia temensis 1 2 / 3 2 5 , 0 0 - 1 1,0

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sitados, apresentou 2 5 , 0 % de i n c i d ê n c i a do crustáceo, u m a intensidade de infesta-ção que variou de 0 - 1 e u m a m é d i a de

1,0 parasita por p e i x e ; G e o p h a g u s j u r u p a -ri, vinte f o r a m e x a m i n a d o s , sendo q u e dois estavam parasitados, a p r e s e n t a n d o 10,0% de i n c i d ê n c i a , u m a i n t e n s i d a d e de infestação v a r i a n d o de 0 - 1 e u m a m é d i a de 1,0 i n d i v í d u o p o r p e i x e .

Considerou-se c o m o o p r i n c i p a l hospedeiro de. A . m u l t i c o l o r o S. nattere-ri, isto não d e v i d o aos índices de infesta-ção, pois estes são m u i t o semelhantes ao das demais espécies, mas s i m , d e v i d o a frequência c o m que este c r u s t á c e o f o i en-contrado parasitando este p e i x e .

O A . m u l t i c o l o r esteve presente em nove dos treze meses de coletas, sendo co-ligidos u m t o t a l de v i n t e e x e m p l a r e s . Sua variação sazonal ( f i g . 1 ) , assim c o m o nas demais espécies de b r a n q u i u r o s d o Lago

Janauacá sugere u m p a d r ã o c í c l i c o varian-d o varian-de a c o r varian-d o c o m o n í v e l varian-da água. Os maiores índices de infestação o c o r r e r a m nos meses de mais elevado n í v e l da água, j u n h o e j u l h o , os menores e m n o v e m b r o , p r ó x i m o ao mês de mais b a i x o nível da água e e m f e v e r e i r o i n í c i o da e n c h e n t e .

O A . m u l t i c o l o r f o i c o l e t a d o 7 0 % das vezes na cavidade bucal e 3 0 % na cavi-dade b r a n q u i a l .

A segunda espécie, A r g u l u s pesti-f e r pesti-f o i e n c o n t r a d a p a r a s i t a n d o duas espé-cies de peixes sendo q u e ambas são novos h o s p e d e i r o s para este c r u s t á c e o . A relação dos h o s p e d e i r o s c o m seus respectivos í n -dices de p a r a s i t i s m o são apresentados na t a b e l a 2 . Este b r a n q u i u r o só o c o r r e u par a s i t a n d o peixes sem escamas ( S i l u par i f o par -mes)

Os peixes q u e o c o r r e r a m c o m o hos-, pedeiros de A . p e s t i f e r f o r a m :P s e u d o p l a

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Tabela 2 - Relação dos peixes q u e o c o r r e r a m c o m o hospedeiros de A r g u l u s pestifer H i n g u e l e t , 1 9 4 8 c o m seus í n d i c e s de p a r a s i t i s m o ; c o l e t a d o s n o L a g o Janauncá d u r a n t e o p e r í o d o de m a r ç o de 1 9 7 9 a m a r ç o de 1 9 8 0 .

Hospedeiros N o . de Peixes % d e I n t e n s i d a d e de

E x a m i n a d o s I n c i d ê n c i a Infestação

Parasitados V a r i a ç ã o — M é d i a

Pseurloplatystoroa t i g r i n u m 3 8 / 1 0 2 6 , 0 0 - 3 1,5

P s e u d o p l a t y s t o m a f a s c i a t u m 2 8 / 1 1 3 9 , 0 0 - 5 2 , 5

t y s t o m a t i g r i n u m , t r i n t a e o i t o e x e m p l a -res f o r a m e x a m i n a d o s sendo q u e dez es-t a v a m parasies-tados, a p r e s e n es-t a n d o 2 6 , 0 % de incidência d o parasita, u m a i n t e n s i d a -de -de infestação v a r i a n d o -de 0 — 3 e u m a

media de 1,5 parasitas p o r p e i x e ; Pseudo-p l a t y s t o m a f a s c i a t u m , v i n t e e o i t o f o r a m e x a m i n a d o s , o n z e estavam parasitados, apresentou u m a p o r c e n t a g e m de i n c i d ê n

-cia de 3 9 , 0 % , u m a i n t e n s i d a d e de infes-tação v a r i a n d o de 0 — 5 e u m a m é d i a de 2,5 i n d i v í d u o s p o r h o s p e d e i r o .

O A . p e s t i f e r o c o r r e u e m o i t o dos t r e z e meses de coletas, sendo c o l i g i d o s u m t o t a l de q u a r e n t a e três e x e m p l a r e s . Sua variação sazonal ( f i g . 2 ) , sugere u m p a d r ã o c í c l i c o v a r i a n d o de a c o r d o c o m o n í v e l da á g u a , só q u e esta espécie

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i n c i d ê n c i a - i n t e n s i d a d e n í v e l d a água

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sentou u m padrão de sazonalidade inver-so ao das demais; e n q u a n t o naquelas os picos m á x i m o s de infestação o c o r r i a m nos meses de mais elevado n í v e l da água, esta apresentou seus maiores í n d i c e s nos meses de mais b a i x o n í v e l da á g u a , estan-do praticamente ausente nos meses de enchente (cheia). O m a i o r p i c o de o c o r r ê n -cia f o i registrado e m n o v e m b r o e o m e n o r em abril.

0 A . pestifer f o i c o l e t a d o parasitan-do a superfície e x t e r n a d o c o r p o de seus hospedeiros.

D I S C U S S Ã O

A sazonalidade de infestação dos crustáceos b r a n q u i u r o s n o Lago Janauacá é u m f e n ô m e n o c í c l i c o e é d e t e r m i n a d a pela variação d o n í v e l da água d o R i o So-limões. Os maiores índices o c o r r e m na es-tação de cheia, nos meses de j u n h o e julho e os menores na estação de seca, setembro, o u t u b r o e n o v e m b r o ( M a l t a , 1982a; b ) e M a l t a & V a r e l l a ( 1 9 8 2 ) .

0 A r g u l u s m u l t i c o l o r , a p r i m e i r a das espécies estudadas neste t r a b a l h o , apresentou u m padrão de sazonalidade se-melhante ao dos demais b r a n q u i u r o s , seus maiores índices de infestação o c o r r e r a m na cheia e os menores na seca.

A segunda espécie, o A . p e s t i f e r , apresentou u m p a d r ã o de sazonalidade i n verso, isto é, seus maiores índices de i n -festação o c o r r e r a m na estação de seca e os menores na cheia.

Os b r a n q u i u r o s são a n i m a i s q u e de-pendem de seus hospedeiros para a sua dispersão e d i s t r i b u i ç ã o g e o g r á f i c a . Esta interrelação h o s p e d e i r o / p a r a s i t a f o i bas-tante evidenciada d u r a n t e os p e r í o d o s de seca e cheia. S e g u n d o L o w e - M c C o n n e l (1967), a estação de seca é u m a é p o c a e m que os peixes c o n s o m e m p o u c o a l i m e n t o visto que os recursos a l i m e n t a r e s são bas-tante l i m i t a d o s . A estação de cheia é u m a época de " f a r t u r a " , grandes e x t e n ç õ e s de terra são cobertas pela água c r i a n d o u m a série de novos " h a b i t a t s " , há a i n t r o d u ç ã o

n o m e i o de n o v o s n u t r i e n t e s t r a z i d o s pela água d o r i o q u e p e n e t r a nos lagos. Há a f o r m a ç ã o e igapó da f l o r e s t a i n u n d a d a q u e são áreas m u i t o i m p o r t a n t e s para a a l i m e n t a ç ã o dos peixes e há t a m b é m u m grande d e s e n v o l v i m e n t o de m a c r ó f i t a s q u e vão f o r n e c e r abrigo e a l i m e n t o s para u m a série de v e r t e b r a d o s e i n v e r t e b r a d o s . D e v i d o a estes f a t o r e s , na cheia, há u m a u m e n t o da biomassa dos lagos de várzea, h a v e n d o u m a grande o f e r t a de a l i m e n t o s e m vários níveis da cadeia t r ó -f i c a , c o n s e q u e n t e m e n t e haverá u m m a i o r n ú m e r o de i n d i v í d u o s u s u f r u i n d o destes n u t r i e n t e s , inclusive m u i t o s peixes m i -g r a m para estes la-gos nesse p e r í o d o . Ha-v e n d o u m a u m e n t o na p o p u l a ç ã o de pei-xes, haverá t a m b é m u m a u m e n t o na po-p u l a ç ã o de po-parasitas os quais virão c o m seus h o s p e d e i r o s , d a í a m a i o r incidência de b r a n q u i u r o s nesta estação.

C o m o e x p l i c a r a sazonalidade de A . p e s t i f e r q u e apresentou u m padrão inver-so ao das d e m a i s espécies coletadas? Seus maiores í n d i c e s de infestação o c o r r e r a m na estação de seca e esteve ausente na c h e i a , época e m q u e os demais b r a n q u i u -ros a p r e s e n t a r a m seus maiores índices. U m a p r i m e i r a h i p ó t e s e é a ausência d o h o s -p e d e i r o n o lago na estação de cheia, mas esta não é v e r d a d e i r a pois t a n t o o D o l o p s c a r v a l h o i q u a n t o o D. discoidalis, t a m -b é m o c o r r e r a m parasitando estes mesmos hospedeiros de A . p e s t i f e r , o Pseudopla-t y s Pseudopla-t o m a Pseudopla-t i g r i n u m e o P. f a s c i a Pseudopla-t u m , logo a m b o s estavam presentes n o a m b i e n t e d u -r a n t e aquela estação ( M a l t a , 1 9 8 2 a ; Malta & V a r e l l a , 1 9 8 2 ) .

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p i o cita o A . africanos e o A . r h i p i d i o p h o rus, os quais possuem o c o r p o p i g m e n t a -d o e vivem em águas -de gran-de transpa-rência e o C h o n o p e l t i s congicus que t e m o c o r p o t o t a l m e n t e d e s p i g m e n t a d o e vive em águas túrbidas.

Este f e n ô m e n o de ausência o u psença de pigmentos nos b r a n q u i u r o s re-lacionado c o m u m a m a i o r o u m e n o r transparência da água t a m b é m f o i eviden-ciado neste t r a b a l h o . Carvalho ( 1 9 8 1 ) mediu no lago Grande d o M a n a q u i r i , atra-vés d o " D i s c o de S e c c h i " , a transparência da água d u r a n t e o p e r í o d o de m a r ç o de 1979 a março de 1 9 8 0 . V e r i f i c o u que na cheia a transparência é m a i o r v a r i a n d o de 1,4 a 1,7m, na seca estes valores decres-cem bastante, a t i n g i n d o u m m í n i m o de 0 , 1 m nos meses de n o v e m b r o e d e z e m -bro. E x t r a p o l a m o s estes dados para o lago Janauacá, j u s t i f i c a m o s este p r o c e d i m e n t o devido à semelhança dos a m b i e n t e s , à p r o x i m i d a d e e n t r e a m b o s e t e r e m sidos medidos no m e s m o p e r í o d o e m que este trabalho f o i d e s e n v o l v i d o .

Levando e m c o n t a as observações de Fryer (op-cit) e Carvalho ( o p - c i t ) veri-ficamos que a penetração de luz na água é u m dos principais f a t o r e s que d e t e r m i -na a sazo-nalidade de o c o r r ê n c i a de A . pestifer, por não possuir p i g m e n t o s estaria adaptado à condições de b a i x a l u m i -nosidade, d a í seus maiores índices de ocorrência na estação de seca, na época de aita transparência esta espécie está ausente d o lago. Para os demais b r a n -quiuros a penetração de luz na água, cor-r o b o cor-r a c o m o mais u m i t e m cor-r e f o cor-r ç a n d o a hipótese que e x p l i c a suas variações sa-zonais.

A especificidade entre os b r a n q u i u ros varia de espécie para espécie, e n q u a n -t o algumas são a l -t a m e n -t e específicas res-tringindo-se a u m ú n i c o gênero o u espécie, outras possuem u m a larga t o l e r â n cia, parasitando peixes i n c l u í d o s e m d i -versas f a m í l i a s .

O A . m u l t i c o l o r apresentou u m a certa especificidade parasitária, f o i

en-c o n t r a d o p a r a s i t a n d o q u a t r o espéen-cies de peixes i n c l u í d a s e m duas f a m í l i a s : Serrasalmus n a t t e r e r i e C o l o s s o m a m a c r o p o -m u -m da Serrasal-midae e C i c h l a te-mensis e Geophagus j u r u p a r i da C i c h l i d a e .

De todas as espécies de b r a n q u i u r o s c o l e t a d o s d u r a n t e u m c i c l o a n u a l , n o lago Janauacá, o A . p e s t i f e r f o i a espécie que apresentou o mais a l t o grau de especifici-dade parasitária, sendo r e s t r i t o a u m úni-c o gênero de peixes, P s e u d o p l a t y s t o m a e duas espécies, P. t i g r i n u m e o P. fascia-t u m .

E n t r e os representantes da subclas-se B r a n c h i u r a , algumas espécies parasitam certas cavidades de seus hospedeiros, en-q u a n t o outras o c o r r e m na s u p e r f í c i e ex-t e r n a d o c o r p o . O A . m u l ex-t i c o l o r ocorreu p r i n c i p a l m e n t e na cavidade bucal dos pei-xes, algumas vezes na cavidade b r a n q u i a l . O A . p e s t i f e r , e m b o r a t e n h a sido c o l e t a d o p a r a s i t a n d o a s u p e r f í c i e e x t e r n a do c o r p o , apresentou u m a n í t i d a preferência pela região cefálica.

A intensidade de infestação dos crustáceos b r a n q u i u r o s no a m b i e n t e n a t u -ral ge-ralmente é b a i x a ( R i n g u e l e t , 1 9 4 3 ) , nossos dados t a m b é m m o s t r a r a m isto. O A . m u l t i c o l o r apresentou u m a intensida-de intensida-de infestação q u e v a r i o u intensida-de 1 a 3 crus-táceos p o r h o s p e d e i r o e o A . pestifer de 3 a 5.

A localidade t i p o de A . m u l t i c o l o r é T a p e r i n h a , n o estado d o Pará e f o i des-c r i t a p o r S t e k h o v e n ( 1 9 3 7 ) . Castro

( 1 9 4 9 ) e ( 1 9 5 1 ) registrou sua ocorrência nos rios K u l u e n e e X i n g u n o estado do M a t o Grosso. W e i b e z a h n & C o b o , ( 1 9 6 4 ) registraram a o c o r r ê n c i a de A . m u l t i c o l o r na V e n e z u e l a , c o l e t a d o s n o r i o Parguaza, a f l u e n t e d o O r i n o c o . C o m este t r a b a l h o c i t a m o s a o c o r r ê n c i a desta espécie na A m a z ô n i a C e n t r a l , lago Janauacá, mar-gem d i r e i t a d o r i o S o l i m õ e s , no estado d o A m a z o n a s .

O A . p e s t i f e r , assim c o m o o D. bi-d e n t a t a , o A . juparanaensis e o D. carva-I h o i , citados r e s p e c t i v a m e n t e p o r Malta ( 1 9 8 2 a , b) e M a l t a & V a r e l l a ( 1 9 8 2 )

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denciam a falta de estudos relativos a este grupo; sua localidade t i p o é a p r o v í n c i a de Y b i c u y c i t o , Entre Rios, A r g e n t i n a , f o i descrita por Ringuelet ( 1 9 4 8 ) e só e m 1979 foi novamente registrada sua o c o r -rência, desta f e i t a , na calha p r i n c i p a l da bacia A m a z ô n i c a . P r o v a v e l m e n t e esta espécie deve ocorrer e m t o d a região i n t e r -mediária à estas duas citadas.

S u m m a r y

Host specificity, attachment sites, infes-tation rates and seasonal, variation of Argulus multicolor and Argulus pestifer were studied during a one-year period, f r o m March, 1979, to March, 1980, in the vicinity of Janauacá, a lake "várzea" in Central Amazônia. Sea-sonal variation was f o u n d to be closely rela-ted to water levels, w i t h the m a x i m u m infes-tation peak of A. multicolor ocurring during high water (June & July) and the m i n i m u m peak during low water (November). A pestifer showed a pattern of seasonal variation inverse to that of the other species studied, w i t h the maximum infestation peak ocurring during low water (November & December), and the minimum peak during hight water (June & July). A. multicolor showed a certain host specificity and was f o u n d in four fish species representing two families namely: t w o species of Cichlidae and t w o of Serrasalmidae. A. pes-tifer showed high host specificity and was found to parasitize one genus, Pseudoplatys-toma and t w o species P. t i g r i n u m and P. fas-ciatum. A. multicolor was f o u n d parasitizing the branchial and buccal cavities while A. pes-tifer was found on the sternal surface of their respective hosts.

Referências b i b l i o g r á f i c a s

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Fryer, G. — 1968. The parasitic crustácea of african freshwater fishes; their biology and distribution. J. Zool. Lon., 1 5 6 : 4 5 - 9 5 .

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1899 e Dolops bidentata Bouvier, 1899. Acta Amazônica, 12(3): 5 2 1 - 5 2 8 .

1982b. Os argulídeos (Crustacea: Bran-chiura) da Amazônia brasileira. Aspectos da ecologia de Dolops geayi Bouvier, 1897 e Argulus juparanaensis Castro, 1950. Acta Amazônica, 12(4): 7 0 1 - 7 0 5 .

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Imagem

Tabela 1 - Relação  d o s peixes  q u e  o c o r r e r a m  c o m o hospedeiros de  A r g u l u s  m u l t i c o l o r  S t e k h o v e n ,  1 9 3 7  c o m seus  í n d i c e s de  p a r a s i t i s m o ;  c o l e t a d o s  n o Lago  Janauacá  d u r a n t

Tabela 1 -

Relação d o s peixes q u e o c o r r e r a m c o m o hospedeiros de A r g u l u s m u l t i c o l o r S t e k h o v e n , 1 9 3 7 c o m seus í n d i c e s de p a r a s i t i s m o ; c o l e t a d o s n o Lago Janauacá d u r a n t p.2
Figura 1 -  V a r i a ç ã o sazonal  d e  A r g u l u s  m u l t i c o l o r  r e l a c i o n a d a  c o m o  n í v e l da água

Figura 1 -

V a r i a ç ã o sazonal d e A r g u l u s m u l t i c o l o r r e l a c i o n a d a c o m o n í v e l da água p.3
Tabela 2 - Relação dos peixes  q u e  o c o r r e r a m  c o m o hospedeiros de  A r g u l u s pestifer  H i n g u e l e t ,  1 9 4 8  c o m seus  í n d i c e s de  p a r a s i t i s m o ;  c o l e t a d o s  n o  L a g o  Janauncá  d u r a n t e o  p e r

Tabela 2 -

Relação dos peixes q u e o c o r r e r a m c o m o hospedeiros de A r g u l u s pestifer H i n g u e l e t , 1 9 4 8 c o m seus í n d i c e s de p a r a s i t i s m o ; c o l e t a d o s n o L a g o Janauncá d u r a n t e o p e r p.4

Referências