Estudando a Ecologia dos Golfinhos nos Açores
por Sophie Quérouil, Irma Cascão, Renato Bettencourt e Joana Wisznievski
O que é que andam os golfinhos a fazer?
Nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, existem cinco espécies comuns de golfinhos: o golfinho-comum, o golfinho-pintado do Atlântico, o golfinho-riscado, o golfinho-roaz ou roaz-corvinheiro e o golfinho de Risso também chamado de grampo ou moleiro. As duas primeiras espécies são as mais frequentes nas águas das nossas ilhas. Estas espécies têm tamanho semelhante e dietas comparáveis, constituídas essencialmente por pequenos peixes pelágicos e lulas. Nos Açores, não é raro encontrar golfinhos-comuns e golfinhos-pintados misturados, formando associações chamadas de "poli-específicas" pelo facto de envolver mais do que uma espécie. Estas associações podem durar entre alguns minutos a algumas horas. O seu significado biológico não está totalmente explicado, mas pensa-se que favorecem a procura alimentar e a defesa contra os predadores.
Dados obtidos desde 1999 pelo Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e o Museu da Baleia da Madeira revelaram a existência de diferenças no padrão de ocorrência sazonal do golfinho-comum e do golfinho-pintado. Nos Açores, os golfinhos-comuns podem ser encontrados durante o ano inteiro, embora com menor frequência durante o Verão, enquanto os golfinhos-pintados só ocorrem entre Maio e Outubro. Na Madeira, os golfinhos-comuns ocorrem geralmente entre Fevereiro e Junho e os golfinhos-pintados entre Junho e o início do Inverno. Estas observações sugerem que as duas espécies tendem a evitar-se e que pode haver competição entre elas. O facto das duas espécies não estarem sempre presente nos dois arquipélagos ao longo do ano motiva-nos a tentar descobrir se todos os indivíduos pertencem à mesma população.
Os cientistas estão interessados em tentar perceber como espécies com características biológicas e ecológicas semelhantes lidam com a competição. Será que utilizam o habitat de maneira diferente? Será que exploram alimentos diferentes? Será que competem directamente, uma espécie excluindo a outra? Para compreender se o golfinho-comum e o golfinho-pintado estão em competição e, se for o caso, como lidam com ela, criámos o projecto Golfinicho*.
O que é que andam os cientistas a fazer?
Para estudar as modalidades da competição entre o golfinho-comum e o golfinho-pintado, recorrem-se a observações de comportamento e de distribuição dos animais no mar e também a métodos indirectos de avaliação da dieta e da estrutura populacional.
As observações no mar fornecem informações sobre a utilização do habitat, os padrões de residência e a ocorrência de associação poli-específicas. Em cada avistamento, recolhem-se informações como a hora, a posição geográfica, a(s) espécie(s) presente(s), o número de indivíduos, a composição do grupo e o comportamento dos animais. Os indivíduos que apresentem marcas naturais na barbatana dorsal são fotografados para posterior identificação. No caso dos animais estarem em alimentação, recolhem-se imagens subaquáticas para identificar as espécies de peixe consumidas.
As informações obtidas por observação directa são limitadas, uma vez que só abrangem o que se consegue ver a partir da superfície e no momento em que os animais são encontrados. A raridade dos arrojamentos nos dois arquipélagos não permite avaliar a dieta a partir de conteúdos estomacais. Em consequência, é preciso recorrer a métodos indirectos, tal como análises dos ácidos gordos presentes na gordura e análises de isótopos estáveis de carbono, azoto e oxigénio. Tanto os ácidos gordos como os isótopos estáveis são assimilados através da alimentação. A sua quantificação não permite inferir quais as presas consumidas, mas permite confirmar informação prévia sobre a dieta e realizar comparações entre espécies. Assim, poder-se-á saber se as duas espécies comem as mesmas presas e, portanto, se estão em competição.
O método tradicional para saber se animais encontrados em locais diferentes pertencem à mesma população consiste em fotografa-los e procurar indivíduos que sejam avistados nas diferentes áreas. No entanto, os animais com marcas naturais são poucos e a probabilidade de os encontrar mais do que uma vez é baixa. É geralmente mais rápido e mais informativo avaliar a estrutura das populações com base em análises genéticas.
Para efectuar análises bioquímicas e genéticas é necessário material biológico (neste caso, pele e gordura). Felizmente, desenvolvimentos tecnológicos recentes permitem trabalhar a partir duma quantidade muito pequena de tecido. Por exemplo, basta um pedaço de pele de tamanho inferior à cabeça dum fósforo para efectuar as análises genéticas. No mar, os membros da equipa utilizam uma besta com setas modificadas desenvolvidas especialmente para cetáceosos para recolher bocados de tecido. Obtém-se assim um pequeno cilindro de pele e gordura. Na maioria dos casos, os golfinhos não apresentam sinais evidentes de perturbação, mas alguns indivíduos reagem, saltando fora da água ou evitando o barco. Quando as amostras são recolhidas só para análises genéticas, prefere-se raspar o dorso dos golfinhos utilizando um pedaço de esfregão de cozinha montado numa vara. Dado os golfinhos serem espécies protegidas, todas estas operações apenas podem ser efectuadas para fins científicos e com autorização da Direcção Regional do Ambiente.
Apesar do projecto ainda não estar concluído, os resultados já indicam que a população de golfinho-pintado é comum aos Açores e à Madeira. O leitor poderá acompanhar a publicação dos restantes resultados através da página internet do projecto Golfinicho*.
O golfinho-comum (Delphinus delphis)
O golfinho-comum é uma espécie abundante e com uma distribuição muito vasta, sendo encontrada na maioria das águas temperadas, subtropicais e tropicais do mundo. Esta espécie é frequentemente avistada em zonas costeiras, mas também pode ser observada em águas pelágicas. Os indivíduos adultos medem entre 1,7 e 2,6 m e pesam perto de 80 kg, chegando a um máximo de 136 kg no caso dos machos. O tamanho dos grupos pode variar entre 20 a 30 indivíduos e algumas centenas ou milhares de animais. O golfinho-comum alimenta-se essencialmente de pequenos peixes pelágicos (sardinhas, chicharros, pescadas, anchovas, etc…) e cefalópodes (polvos, lulas e chocos). Consoante a área geográfica, as fêmeas atingem a maturidade sexual entre os 3 e os 12 anos, e os machos entre os 5 e os 12 anos. O período de gestação varia entre 10 e 11 meses, e o intervalo entre duas gestações é de 1 a 2 anos. As crias tornam-se independentes com cerca de um ano de idade.
Um estudo recente indicou que existem duas espécies de golfinhos-comuns, uma de bico comprido e outra de bico curto. O golfinho-comum de bico comprido (Delphinus capensis) é geralmente encontrado em águas costeiras, enquanto o golfinho-comum de bico curto parece preferir as águas pelágicas. A espécie que ocorre nos Açores é a de bico curto.
Golfinho-comum (R. Bettencourt ImagDOP)
O golfinho-pintado do Atlântico (Stenella frontalis)
O golfinho-pintado do Atlântico (ou golfinho-malhado, nos Açores) deve o seu nome às suas pintas características. No entanto, a intensidade das pintas varia com a idade e com a localização geográfica. Esta espécie só se encontra no Oceano Atlântico, nas águas mornas da zona tropical e subtropical. O tamanho dos indivíduos adultos varia entre 1,7 e 2,3 m, enquanto o peso varia entre 100 e 143 kg. Os hábitos alimentares desta espécie não são bem conhecidos, mas sabe-se que consomem uma grande variedade de alimentos, incluindo pequenos peixes pelágicos, cefalópodes e outros invertebrados, tal como equinodermes. O golfinho-pintado é uma espécie bastante gregária. É comum de ser encontrado em grupos de 5 a 20 indivíduos, embora os grupos cheguem a atingir dezenas ou centenas de animais. Os indivíduos tendem a segregar por classe de idade e sexo. Nas fêmeas, a maturidade sexual é atingida por volta dos 8-9 anos de idade. A gestação dura cerca de um ano, e o período médio entre duas gestações é de 3 anos. As crias tornam-se independentes entre os 2 e os 4 anos de idade.
Um dia no mar com a equipa dos Açores Dia 27 de Julho de 2005
Previsões meteorológicas para o grupo central: Períodos de céu muito nublado com boas abertas. Vento norte bonançoso (10/20 km/h) enfraquecendo e rodando para nordeste. Mar de pequena vaga. Ondas norte de 2 metros.
9h00: Verificamos o material e embarcamos no Arion, semi-rígido pertencente ao Centro do IMAR da Universidade dos Açores. Somos quatro a bordo: Sophie, Jo, Irma e Renato, o skipper.
Transcrição das notas gravadas a bordo:
9h07: Saímos do porto da Horta com rumo para Sul do Pico. Aí, estaremos abrigados do vento. 9h51: Primeira observação: um grupo de golfinhos-pintados. São mínimo 20 indivíduos de ambos os sexos, com crias. Um indivíduo tem a barbatana dorsal toda recortada. Os animais estão em alimentação. Há muitas aves à volta.
10h00: Recolhemos a primeira amostra. (...)
10h30: Recolhemos a quinta amostra. Que eficácia! Já chega para hoje. Deixamos estes animais. 10h55: Encontramos um grupo de golfinhos-comuns. São cerca de 30 indivíduos de ambos os sexos, com crias. Também estão em alimentação. Comem chicharros.
12h00: O grupo de golfinhos-comuns que acompanhamos encontra-se com outro grupo de 12 indivíduos, todos adultos. Estão a acasalar.
12h13: Deixamos os golfinhos à sua intimidade e aproveitamos para fazer uma pausa para o almoço. Prato do dia: sandes de queijo do Pico com tomate e alface.
12h43: Voltamos a pôr o motor a trabalhar.
13h19: Avistamos outro grupo de golfinhos-pintados. São mais de 100 indivíduos, divididos em três subgrupos de 30 a 40 bichos. O primeiro subgrupo não tem crias enquanto o terceiro está cheio de crias recém-nascidas. Tiramos fotografias. As fêmeas com crias não parecem gostar muito da nossa companhia.
14h43: Deixamos os golfinhos-pintados.
15h00: A nossa rota passa ao lado dum grupo de grampos. São 10 indivíduos, sem crias. Tiramos o retrato a todos (pois são fáceis de identificar com as suas riscas características.)
15h49: Deixamos os grampos e escolhemos um rumo que nos aproxime da Horta.
16h28: A uns 200 metros à proa, avistamos 3 baleias de bico. Nem nós deixam aproximar. Impossível de determinar qual a espécie. E não voltam a aparecer!
17h09: Iniciamos a nossa viagem de volta.
17h37: Entramos no porto da Horta. Percorremos 71,1 milhas em 8 horas e 30 minutos.
Foi um dia espectacular! Mas nem todas as saídas são assim. Há dias que voltamos sem sequer ter visto uma barbatana. E quando o vento sopra, é melhor não sair, já que a viagem se torna perigosa e nem se consegue trabalhar.
*o projecto GOLFINICHO
"Segregação do nicho ecológico em duas espécies de golfinhos nos Açores e na Madeira"
Este projecto é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) através do contrato POCI/BIA-BDE/61009/2004. Teve início em Junho de 2005 e tem uma duração de 2 anos. O projecto congrega três instituições nacionais: o IMAR da Universidade dos Açores (http://www.horta.uac.pt/), o Museu da Baleia da Madeira (http://www.cetaceos-madeira.com) e o INETI em Lisboa (http://www.ineti.pt).
Informações complementares podem ser encontradas na página Internet do projecto: http://www.horta.uac.pt/projectos/golfinicho/paginas/golfinicho.html.
Agradecimentos
Agradece-se à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) pelo financiamento do projecto. Obrigado a todos os que participam de perto ou de longe no projecto.
Leitura aconselhada
Golfinhos e baleias dos Açores. S. Viallelle. Espaço Talassa. 2001.
Cetáceos dos Açores. Baleias, golfinhos e toninhas. N. Farinha & F. Correia. João Azevedo Editor,
Mirandela. 2003.
Cetáceos no arquipélago da Madeira. L. Freitas e colaboradores. Publicação do Museu da Baleia,