Introdução
Não sabes que antigamente o céu e os elementos eram uma coisa só, e foram separados um do outro por artificio divino, para que pudessem dar origem a ti e a todas as coisas? Se souberes disso, o resto não pode te escapar. Portanto, em toda geração é necessária uma separação desse tipo.
... Nunca obterás dos outros o Um que buscas sem primeiro fazer de ti mesmo uma só coisa...
Gerhard Dom
Os príncipes e as princesas, como toda criança sabe, sempre vivem felizes para sempre. Apesar das feitiçarias, das madrastas malvadas, dos ogres, dos gigantes e dos anões malévolos, o amor triunfa, o mal é vencido, e o feliz casal desaparece de mãos dadas na névoa da imaginação, sem nenhuma alusão a varas de família ou pagamento de pensão anuviando o para-sempre.
O processo de "crescimento, como toda criança aprende, com sua crescente maturidade e capacidade de encarar "a vida como ela é", natural mente nos ensina de outra forma. Os príncipes e as princesas, junto com Papai Noel, o coelhinho da Páscoa, os amigos imaginários e outras relíquias da vida de fantasia da infância, não são material adequado para os adultos.
Começamos a aprender razoavelmente cedo na vida que ninguém vive feliz para sempre; precisamos fazer os relacionamentos "darem certo", e isso é uma questão de responsabilidade, compromisso, disciplina, obrigação, auto- sacrifício, comunicação e outros termos usados com tanta freqüência que seu significado deveria ser mais ou menos claro. Mas, de alguma forma, na experiência de viver, esses termos se tomam cada vez mais ambíguos quando percebemos que o outro, esse estranho que esta na nossa frente, seja marido ou esposa, filho ou amante, amigo ou professor, sócio ou inimigo, ainda é um estranho.
O relacionamento é um aspecto fundamental da vida. É arquetípico, o que significa que é uma experiência que impregna a estrutura básica não apenas da psique humana mas do universo em sua totalidade. Em ultima analise, tudo é construído a partir do relacionamento, pois não teríamos consciência de nenhum aspecto da vida se não o reconhecessemos através do que cada um deles tem de diferente de todos os outros aspectos. Reconhecemos o dia porque existe a noite, e o relacionamento entre ambos de fine e identifica cada um deles. Se considerarmos ao menos um pouco essa idéia. tornar-se-a cada vez mais evidente, que nos, seres humanos, só podemos nos conceber como indivíduos por meio da comparação com aquilo que não somos.
Por uma série de razões, algumas obvias e algumas muito mais sutis, hoje em dia existe uma ênfase maior sobre a experiência do relaciona mento do que houve durante outros períodos de nossa historia. Os relacionamentos sempre foram um aspecto importante da vida, mas nem sempre se chamaram relacionamentos, e nem sempre se lhes atribuíram outros propósitos além daqueles óbvios: alivio da solidão, satisfação do desejo, continuação da espécie, proteção do indivíduo e da sociedade, experiência do amor (uma palavra completamente ambígua, como todo adulto sabe), promoção de ganhos materiais. Todas essas razões bastante validas para que façamos o esforço – freqüentemente gratificante, e com igual freqüência doloroso – necessário para conviver com outros seres humanos. Entretanto, principalmente com o trabalho da psicologia durante os últimos setenta e cinco anos, tornou-se evidente que os relacionamentos não são apenas um meio de se atingir a satisfação pessoal de um tipo ou outro. São também necessários para o crescimento da consciência e da compreensão que o indivíduo tem de si mesmo. A pessoa não sabe que aparência tem. até se ver refletida no espelho, e esta simples verdade se aplica não apenas a realidade física mas também a realidade da psique.
alemã Zeitgeist se refere adequadamente a este conceito, embora sua tradução não seja fácil. De uma maneira muito geral, significa o "espirito da época", um novo vento que sopra através de uma era e anuncia alterações significativas e dramáticas na consciência humana. Poderíamos dizer que as grandes mudanças ocorridas na perspectiva do homem, na época da Renascença, na religião, na ciência, nas artes e em todas as áreas da atividade humana foram manifestações de um Zeitgeist. Algo novo nascia, permitindo ao indivíduo ver um tipo diferente de realidade ou, mais precisamente, ver uma porção da realidade maior do que ele percebia antes. As mudanças na consciência ocorridas na aurora da era crista também podem ser consideradas manifestações de um Zeitgeist, pois é característico do inicio de uma nova era a morte dos velhos deuses e o nascimento de novos. Aparentemente, estamos vivenciando outro Zeitgeist neste período histórico, embora seus vagos contornos só sejam visíveis agora para aqueles que estudaram a linguagem do simbolismo.
É possível que esse redirecionamento da consciência, ao qual a astrologia deu o nome simbólico de Era de Aquário, tenha, como um de seus motivos centrais, o esforço no sentido do conhecimento interior – um conhecimento que viria complementar a ênfase sobre o conhecimento exterior, que já nos é muito familiar. O espirito da época atual parece estar profundamente preocupado com a autocompreensão e com a procura do sentido. E embora se possa atribuir essa procura a mudanças econômicas e políticas que inevitavelmente criam tensão, estresse e autoquestionamento, também pode ser possível encarar essas duas tendências convergentes – o tumulto sócio econômico e o que pode ser descrito simplesmente como uma busca espiritual – como acontecimentos sincrônicos. Isto é, um não precisa ser a causa do outro, mas ambos podem ser sintomáticos de uma profunda mudança interior ocorrendo na psique coletiva.
Pode parecer que questões de tal peso, como a transformação da consciência humana e a entrada numa nova era, tenham pouco a ver com os transtornos e problemas extremamente subjetivos que levam tantas pessoas a buscar aconselhamento para suas dificuldades de relacionamento.
Se uma mulher deixa o marido por causa de um amante, ou se uma mulher esta lutando com sentimentos de inadequação sexual que mutilam seu potencial para um casamento satisfatório, pode parecer irrelevante a comunicação de que há um Zeitgeist em curso. Entretanto, essa relevância existe. Ouvimos dizer, com freqüência suficiente, que as estatísticas de divorcio estão em alta; que os valores e padrões morais consagrados pelo tempo e que pautaram nossos relacionamentos por muitos séculos estão desmoronando e perdendo o sentido para as gerações mais jovens; que a atual conduta sexual entrou por meandros sem paralelo mesmo no decadente Império Romano. Parece que alguma coisa definitivamente esta acontecendo com nossos critérios de avaliação dos relacionamentos e também com as formas de lidarmos com nossos problemas. Antigamente, sofríamos em silencio. Agora, entretanto, Há um constante aumento do numero de obras publicadas, assim como de artigos em jornais e revistas, sobre as dificuldades de conviver com os outros. Também há um constante aumento da atividade do aconselhamento conjugal, dos grupos e seminários de "movimento do crescimento", e de analise e terapia individuais – todos tentando, entre outras coisas, lidar, com maior ou menor sucesso, com as necessidades, desejos, conflitos, medos e aspirações de cada pessoa nos relacionamentos. Quase não é necessário mencionar fenômenos tais como o "Movimento de Liberação das Mulheres" e o "Movimento Gay de Liberação", cada um tentando enfrentar certos aspectos dos problemas dos relacionamentos, a sua maneira. Mesmo a controvérsia sobre a educação sexual nas escolas é uma questão centrada no relacionamento, como também o é a questão do aborto.
Toda essa reavaliação dos relacionamentos é tanto parte de uma busca geral de valores mais significativos e de uma maior compreensão da psique, como do surgimento mais surpreendente do interesse por antigos estudos esotéricos como a astrologia, a alquimia e outras supostas esquisitices. Todos estes são aspectos da mesma busca, e, quanto mais cedo percebermos isto, tanto maior seria nossa perspectiva no contexto mais amplo que está por trás de nossos problemas pessoais.
A ciência, que tem dado a ultima palavra sobre a realidade por muito tempo, esta se surpreendendo ao se aproximar o domínio do que costumava ser chamado estudos ocultos. Para o nosso assombro, pessoas com títulos respeitáveis nos dizem que as plantas reagem a emoção humana e apreciam a musica; que o Sol a Lua e os planetas efetivamente parecem emitir energias que afetam a vida humana; que nossa mente é capaz de proezas tais como a telepatia, a telecinese e a
clarividência nos limites nos limites rigidamente controlados e monitorados do laboratório; e que Deus talvez esteja to vivo e bem além de tudo, escondendo-se secretamente na matéria. A esta altura não é apenas a dogmática estreiteza mental, mas também medo, o que mantém as pessoas agarradas seus velhos conceitos do que é real e racional, porque a própria ciência está no umbral de um universo surpreendentemente semelhante ao mundo magico e misterioso dos contos de fadas. Quando se acredita estar firmemente postado numa sólida rocha, é difícil descobrir que a rocha começou a mudar, a se dissolver, a se transformar em outra coisa. Nesta nova paisagem na qual todos nos, gostando ou não dessa idéia, estamos sendo lançados, precisamos desesperadamente de mapas. Temos bem poucos roteiros, pois estamos aprendendo, numa velocidade alarmante, que na realidade conhecemos muito pouco da natureza humana.
Com seu nome atual, a psicologia é uma ciência muito nova, e é, sob muitos aspectos, primitiva e inexperiente como tudo que esta na sua fase inicial. Entretanto, a psicologia é um dos poucos mapas confiáveis que temos, embora esteja sendo feito no próprio processo de exploração. Contudo, a psicologia, no seu sentido mais profundo, existe há muito tempo com outros nomes, o mais antigo dos quais talvez seja a astrologia.
Os psicólogos podem se surpreender com isso mais do que qualquer outra pessoa, mas nossa palavra psicologia vem de duas palavras gregas – psique, que significa "alma", e logos, que significa "sabedoria" –, e o estudo da alma humana pertenceu ao domínio da astrologia muito antes de pertencer a qualquer outro." Em alguns círculos, a ciência mais antiga e a mais nova parecem estar moldando um casamento muito curioso. A astrologia ultimamente tem tido um renascimento, embora seu valor real não esteja, no conceito popular, desvirtuado dos prognósticos mágicos do futuro, mas na função muito mais importante de se tornar um instrumento imensamente poderoso para exploração da psique humana.
Embora a psicologia e a astrologia usem diferentes linguagens e métodos de pesquisa e aplicação, o objeto de sua investigação é o mesmo, e as duas juntas são potencialmente muito fecundas. O produto dessa união ainda está para ser plenamente reconhecido, mas constitui o objeto deste livro. E se considerarmos a idéia de que os relacionamentos são, entre outras coisas, um caminho em direção a autodescoberta, é provável que a antiga sabedoria da astrologia e a moderna percepção da psicologia profunda, juntas, possam dizer-nos alguma coisa sobre nossas formas de relacionamento.
A carta astrológica de nascimento corretamente levantada é um mapa simbólico da psique humana individual. Esse mapa é como uma semente, pois contém em microcosmo os potenciais existentes no indivíduo e os períodos de sua vida em que esses potenciais provavelmente serão concretizados. Embora a imagética da astrologia seja diferente da terminologia mais precisa da psicologia, o mapa astrológico de nascimento pode ser comparado aos modelos da psique que nos foram oferecidos por homens e gênio e percepção no campo psicológico, como C. G. Jung e Roberto Assagioli. Mas modelos são apenas modelos, não realidade; também não são eitos para serem interpretados como realidade. Um modelo, na verdade, é uma sugestão, uma inferência, uma lente através da qual, se olharmos cuidadosamente, podemos vislumbrar o que não pode ser articulado em palavras ou expresso em conceitos. O coração de cada ser humano é um mistério, e a essência da atração e repulsa entre indivíduos é igualmente um mistério, por mais que tentemos defini-la em termos conceituais. Mas com mapas adequados, podemos ao menos começar a entender o mistério com o coração, mesmo que não possamos apreende-lo com o intelecto.
Não faremos aqui qualquer tentativa de provar ou negar a validade da astrologia. Já existe uma série de excelentes livros a disposição do investigador interessado, tratando especificamente de provas factuais sobre o assunto e, no fim deste livro, é fornecida uma bibliografia completa. Cada um deve, no final das contas, formar sua própria opinião sobre a astrologia, e não se pode formar uma opinião autêntica sem ter algum conhecimento do assunto e sem dispor de alguma experiência além das concepções e falsas interpretações populares. A esta altura, já devemos ter aprendido que ,tais concepções e interpretações são extremamente falíveis; não faz muito tempo, acreditávamos que a Terra fosse plana e sustentada no céu por uma gigantesca tartaruga, e isso com aprovação total dos cientistas da época.
Diz o provérbio que o bolo se prova comendo, e a opinião só pode ser de terminada quando o indivíduo tem experiência e conhecimento diretos, que o ajudam a cristalizar seu próprio juízo – não um juízo de segunda mão.
Se este livro não é uma tentativa de justificar a astrologia, tampouco é um manual para a montagem do seu próprio horóscopo, em parte porque isso implicaria um outro volume, em parte porque já existem muitas obras desse tipo disponíveis. Todo o material astrológico apresentado aqui, portanto, é interpretativo e não mecânico, de modo que, para usá-lo com o máximo proveito, o leitor deveria obter, por seus próprios esforços ou recorrendo a um profissional, um horóscopo corretamente levantado para si e para as pessoas com as quais está envolvido.
Há muitas formas de encarar a realidade, e algumas são válidas para algumas pessoas e não para outras. É perfeitamente possível que ninguém veja o todo, porque só podemos ver através da perspectiva de nossa própria coloração psicológica. A realidade, portanto, é subjetiva mesmo para a maioria das pessoas "de mente aberta" ou "desprendidas". Aprendemos recentemente que mesmo as partículas subatômicas podem alterar seu comportamento de acordo com o observador, e que o antigamente seguro campo da matéria inanimada não oferece mais segurança como ultimo baluarte da "realidade objetiva". E esse reconhecimento da parcialidade de nossa visão talvez seja o princípio da sabedoria.
Talvez seja mesmo a hora de tirar a poeira dos nossos velhos livros de contos de fadas, porque o trabalho de Jung demonstrou que os contos de fadas, como os sonhos, não são o que aparentam. Há uma sabedoria nos mitos e contos de fadas que fala a alguma coisa em nós que não é o intelecto. As razões desse fato nos levam a um confronto direto com a realidade da psique inconsciente e do mundo dos símbolos. Se o conto de fadas nos diz que o príncipe e a princesa vivem felizes para sempre, existe algum sentido nesse final, pois, como até uma criança sabe, os contos de fadas não pertencem ao mundo comum e não devem ser assim considerados. Eles pertencem ao mundo do inconsciente e são simbólicos. Se o conto de fadas nos diz que o príncipe, para conquistar a princesa, precisa desafiar o dragão, matar a bruxa má e destruir o poder da madrasta perversa com a ajuda de seus úteis companheiros animais, isto também tem um significado, e podemos aprender muito sobre os caminhos que estão abertos a nossa frente quando olhamos a saga do príncipe com olhos diferentes. Os mitos e os contos de fadas se constituem em mais um mapa para o nosso pais desconhecido. Nas suas descrições das vicissitudes e lutas do herói em busca de sua amada, espelham uma jornada interior que cada um de nos precisa fazer para se tornar inteiro. E só quando reconhecemos a nossa própria inteireza e possível reconhecer o estranho, o outro. Talvez só então possamos verdadeiramente começar a nos relacionar.
Talvez precisemos crescer para baixo, em vez de crescer para cima, para que possamos olhar a nossa assim chamada realidade com os olhos de uma criança e reconhecer que a verdade pode existir no mundo da psique independentemente de correlações materiais, "Encarar a vida como ela é" pode, na verdade, ser uma atitude que contém tremenda arrogância e muito pouca sabedoria, já que nenhum de nós sabe, na realidade, o que a vida é; só sabemos que aparência ela tem para nós. Nossas vidas tem exatamente tanto ou tão pouco sentido quanto nelas colocamos. Estamos todos aparentemente sozinhos, mas se deve necessariamente ser assim, ou se a solidão deveria significar o que pensamos que significa, é questionável.
A maioria de nós precisa ter a coragem de experimentar novas ferramentas, e faze-lo sem preconceito. Jung, como médico e pesquisador, teve a coragem de aprender a astrologia e usa-la na sua exploração da psique. Se, graças ao seu trabalho, existe qualquer validade na maior compreensão de nós mesmos que agora possuímos, faz sentido que tenhamos a coragem de nós explorar através de ferramentas semelhantes – principalmente quando essas ferramentas podem nos ajudar a viver vidas mais significativas e desfrutar de relacionamentos mais significativos. A saga do príncipe contém muitas surpresas, e uma das maiores é a descoberta de que cada um de nós é simultaneamente o príncipe, o dragão, a madrasta má, o animal útil e a amada também somos a saga e o contador da historia, tudo ao mesmo tempo.
1 A Linguagem do Inconsciente
O mundo e o pensamento são apenas a espuma de ameaçadoras figuras cósmicas; o sangue pulsa com seu vão; os pensamentos são acesos por seu fogo; e essas imagens são os mitos.
Andrei Bely
Tudo que passa é elevado a dignidade da expressão; tudo que acontece é elevado a dignidade do significado. Todas as coisas são ou símbolos ou parábolas.
Paul Claudel
A maioria de nós, que nos acreditamos indivíduos pensantes, gostamos de presumir que sabemos um bocado sobre nós mesmos. Provavelmente sabemos, sob o ponto de vista de que podemos enumerar nossas virtudes e vícios, catalogar nossos aspectos, "bons" e "maus" e avaliar nossos gostos e antipatias e objetivos. Mas mesmo um autoconceito de âmbito tão limitado é grande demais para muita gente, que parece perambular pela vida desprovida de qualquer senso de identidade além de um nome que não escolheu, um corpo criado sem o seu controle e um lugar na vida que geralmente é o resultado da necessidade material, do condicionamento social e, aparentemente, do acaso.
Entretanto, mesmo se tomarmos um indivíduo que tem a perspicácia de se "conhecer" em termos comportamentais, ocorre um fenômeno muito curioso. Peça a ele que se descreva e, se ele for honesto com você e com ele mesmo – uma premissa bastante rara, para inicio de conversa –, pode ser que lhe faça um retrato bem abrangente de sua personalidade.
Mas peça a sua esposa para descreve-lo, e pode parecer que ela esta falando de outro indivíduo. Surgem traços de personalidade que o próprio homem parece desconhecer totalmente; são-lhe atribuídos objetivos que são os menos importantes de seus valores; muitas vezes as qualidades a ele atribuídas são diametralmente opostas aquelas que ele acredita constituir sua própria identidade. A gente começa a imaginar quem está enganando quem. Pergunte a seus filhos o que acham de você e vai obter uma descrição totalmente diferente; seus companheiros de trabalho trarão novas informações; seus conhecidos vão descrever um outro homem. Podemos tentar essa simples investigação e, por meio dela, verificar que o mais observador de nós, o mais introspectivo, vê apenas o que decide ver através da lente de sua própria psique; e como nossos conceitos da realidade, tanto a nosso respeito como a respeito dos outros, são sempre vistos através de lentes tingidas, é inevitável que saibamos muito menos a nosso respeito do que suspeitamos.
Precisamos admitir que o que esta mais próximo de nós é exatamente aquilo que conhecemos menos, embora pareça ser o que conhecemos melhor.
A despeito do que qualquer pessoa tenha a dizer sobre as teorias de Freud sobre o inconsciente, não podemos evitar o fato de que o indivíduo registra muito mais em sua psique do que é acessível as limitações de sua percepção ao consciente. Quer sejamos realmente motivados por necessidades biológicos, Freud sugeriu, ou pela vontade do poder, como Adler sugeriu, ou pelo impulso em direção a totalidade, como Jung sugeriu uma coisa é clara: geralmente não percebemos nossas motivações mais profundas e, por causa desse grau de cegueira, dificilmente podemos ter percepção das motivações de qualquer outra pessoa.
Os conceitos de consciente e inconsciente ao difíceis de explicar porque são energias vivas que, diferentemente dos órgãos do corpo físico, não se prestam a classificação. Não obstante, a psique contém vasto campo de material oculto, geralmente só comunicável através de canais normalmente rejeitados ou menosprezados. A maioria das pessoas não entendem seus sonhos e freqüentemente não fazem nenhum esforço para lembrar-se deles, ou os consideram sem sentido; as fantasias são consideradas infantis, a não ser as eróticas, e nesse caso são consideradas pecaminosas; as explosões
emocionais são consideradas embaraçosas e disfarçadas com desculpas variando da má saúde as dificuldades de negócios. Em termos de relacionamento, talvez, o mais importante mecanismo que possuímos para ver dentro da psique seja a projeção. Muitas vezes, usamos essa palavra em relação ao cinema, e seu significado nesse contexto pode nós ajudar a entende-lo também no sentido psicológico. Quando vemos uma imagem projetada em uma tela, olhamos a imagem e respondemos a ela, em vez de examinar o filme ou a transparência dentro do projetor, que é a fonte real da imagem; também não olhamos a luz dentro do projetor, que nos torna possível ver a imagem. Quando uma pessoa projeta alguma qualidade inconsciente, existente dentro de si, em outra pessoa, esta reage a projeção como se pertencesse ao outro; não lhe ocorre olhar em sua própria psique para descobrir a origem. Ela vai tratar a projeção como se existisse fora de si, e seu impacto geralmente aciona uma alta carga emocional porque, na realidade, a pessoa está encarando o seu próprio ser inconsciente.
Esse mecanismo muito simples funciona sempre que temos qualquer reação emocional altamente carregada ou irracional, positiva ou negativa, a outra pessoa. É trabalho para toda uma vida introjetar, reconhecer e trazer de volta para nos essas qualidades inconscientes, de modo que possamos começar a distinguir os vagos contornos da identidade do outro. E, com certeza, não nos aproximamos mais, porém nos distânciamos, quando formamos ou rompemos relacionamentos de acordo com respostas baseadas em nossas próprias projeções.
A projeção psíquica é um dos fatos mais comuns da psicologia....
Simplesmente lhe damos outro nome, e normalmente negamos que seja nossa culpa. Tudo que é inconsciente em nos, descobrimos no nosso vizinho, e o tratamos de acordo com isso . Por que deveríamos atribuir aos outros o que nos pertence? É compreensível se considerarmos as qualidades "más". Se não gosto de uma determinada característica minha, se de fato a sua admissão é tão dolorosa que ela permanece inconsciente, essa minha parte não-admitida vai me atormentar no seu ímpeto pela expressão, parecendo me confrontar a partir do exterior. É mais difícil entender por que deveríamos rejeitar qualidades positivas. Para tanto, é preciso aprender algo a respeito da estrutura e das leis da psique – sempre lembrando que qualquer coisa que a psicologia tenha a dizer sobre a psique é, na realidade, a psique falando a seu próprio respeito, o que toma impossível a "objetividade completa".
Podemos agora voltar ao nosso assunto da projeção.
O ego é o centro do campo da consciência de todo dia, racional; de forma muito simples, é o que eu sei – ou penso que sei – que sou.
A consciência consiste primariamente no que sabemos, e no que sabemos que sabemos.
Para a maioria de nós, o ego é tudo que sabemos de nós mesmos, e enquanto ficamos nesse ponto e olhamos o mundo, o mundo nos parece colorido pelo ponto de vista particular do ego. Qualquer pessoa que tenha uma visão diferente, presumimos que seja teimosamente dotada de estreiteza mental, ou esteja deliberadamente mentindo, ou seja possivelmente anormal ou louca.
O ego parece se desenvolver de acordo com determinadas linhas desde o nascimento. Se fossemos totalmente o produto de nossa hereditariedade, de nossos condicionamento e meio ambiente, as crianças nascidas nas mesmas circunstâncias seriam exatamente iguais psicologicamente – o que evidentemente não acontece.
A disposição individual já é um fator na infância; é inata, e não adquirida no decorrer da vida" .
A astrologia também sugere que o temperamento do indivíduo é inerente ao nascimento, e uma compreensão da astrologia pode ser útil na percepção da natureza dessa semente que desabrocha no ego adulto.
Ela pode não apenas nos falar do eu que conhecemos, mas também do que não conhecemos simbolismo do mapa de nascimento também reflete a tendência humana natural de experimentar e avaliar a vida através do ego, pois o horóscopo é uma mandala que tem a Terra, e não o Sol, no seu centro. Ele mostra, em outras palavras, como a vida aparece, e como provavelmente será experimentada, pela consciência individual, e não o que a vida verdadeiramente é.
Na medida em que crescemos, Há muitas qualidades de nossa natureza que não são incorporadas ao ego em desenvolvimento, embora, mesmo assim, nos pertençam. Essas coisas devem ter permissão para viver, mas podem ser inaceitáveis para os pais, podem conflitar com doutrinas religiosas, violar padrões sociais ou, finalmente, mas não menos importante, simplesmente conflitar com aquilo que o ego valoriza mais. Algumas dessas qualidades rejeitadas podem ser "negativas" por as julgarmos destrutivas; algumas podem ser "positivas" e ter muito mais valor, individual e socialmente, do que aquilo que o ego fez de si próprio. Com efeito, um indivíduo pode valorizar a mediocridade – sem perceber o que esta fazendo – e sufocar dentro de si as sementes emergentes de unicidade e criatividade; ou sua auto-imagem pode ser excessivamente modesta, sendo então as qualidades mais excepcionais relegadas ao inconsciente. Todas essas coisas serão projetadas num objeto adequado.
O objeto de uma projeção não se limita a indivíduos. Pode ser uma organização, uma nação, uma ideologia ou um tipo racial que se torna o foco para a projeção do lado escuro, não-admitido, da pessoa. Uma pessoa que se opõe com violência e irracionalidade ao capitalismo pode estar projetando tão fortemente quanto aquela que seja igualmente violenta e irracional em sua reação ao comunismo. A qualidade característica da projeção não é o ponto de vista, mas a intensidade e a alta carga da reação. Pode-se ficar no meio de uma discussão entre duas pessoas e ouvir, com espanto, como uma acusa a outra do que ambas estão fazendo. Quando se está de fora, isso é engraçado e ao mesmo tempo trágico, como pode atestar a maioria dos conselheiros conjugais. Mas quando se está envolvido, sob o sortilégio do próprio mecanismo de projeção, com o inconsciente despertado, fica-se absolutamente convencido da própria razão. Aceitar a dolorosa e onipresente possibilidade de estar errado é desagradável, porque significa abrir mão de ilusões Há muito alimentadas sobre nós próprios. Viver a vida sem essas ilusões requer coragem e um senso moral que não tem semelhança com o conceito social comum de uma moralidade já estabelecida. Não é de surpreender que projetemos, porque apenas assim podemos continuar a culpar os outros pela nossa dor, em vez de reconhecer que a psique contém tanto a sombra como a luz e que nossa realidade é aquela que nós mesmos criamos. Entretanto, na projeção e na subsequente descoberta, jaz um veículo imensamente importante pelo qual podemos chegar a conhecer o que esta oculto em nos e o que não vemos nos outros.
É comum focalizar a projeção numa tela que tem uma ligeira semelhança com a imagem projetada, embora seja também comum a semelhança ser interpretada como identidade. A pessoa precisa ser um bom "gancho" para acomodar a coisa de que queremos nos livrar; e, além disso, desejamos ser um pouco seletivos nos relacionamentos. (Aqui também, como veremos, a astrologia fornece uma importante chave para o que possivelmente projetaremos e que tipo de indivíduo provavelmente vamos escolher para honrar ou insultar, outorgando-lhe nossa projeção .) Mas, a despeito da semelhança entre a tela e a imagem, elas nunca são iguais, e a projeção é quase sempre um gritante exagero de alguma característica que, por si só, poderia estar harmoniosamente integrada na natureza da pessoa ou do outro.
Há certos aspectos desagradáveis da projeção que entram nos relacionamentos. Se uma pessoa é eternamente o alvo das qualidades inconscientes de outra, e se carece do autoconhecimento para discernir o que esta acontecendo, com o tempo ela vai começar a se assemelhar a projeção. Todos nós sabemos de situações aparentemente inexplicáveis nas quais, por exemplo, uma mulher parece ter o azar de atrair uma parceria dolorosa atrás da outra. Todos os seus amantes podem bater nela, embora não tenham um histórico de tal comportamento anterior; balançamos a cabeça tristemente e dizemos algo a respeito da condição lamentável da mulher, nunca reconhecendo o conluio inconsciente que sua situação implica. Através das nossas projeções, damos um jeito de extrair das outras pessoas qualidades que, de outra forma, poderiam ter permanecido sementes que nunca brotariam; e nenhum de nós pode dizer que sua própria psique não contém as mesmas possibilidades tanto para o bem como para o mal. Nenhum de nós pode julgar sementes. Mas, com a cuidadosa irrigação e com a luz do Sol de nossas projeções, provocamos essas respostas uns nos outros, de uma forma que as vezes parece uma possessão demoníaca.
O homem que acredita que as mulheres são devoradoras, manipuladoras e destrutivas, porque há alguma parte inconsciente dele que contém essas qualidades, pode mascarar tudo isso debaixo de uma atitude consciente de atração pelo sexo oposto; entretanto, pode ficar horrorizado ao descobrir que toda mulher com a qual se envolve acaba, no fim das
contas, tentando devora-lo, manipulá-lo e destrui-lo. Pode acreditar que descobriu uma verdade geral sobre as mulheres. No entanto, é possível que ele mesmo tenha provocado essas qualidades nas mulheres, que poderiam nunca tê-las demonstrado de outra forma. Em outro relaciona mento, a mesma mulher poderia se comportar de uma maneira totalmente diferente; e como a opinião coletiva do sexo masculino não é unanime a respeito da misoginia, podemos, seguramente, abrigar algumas suspeitas sobre nosso pobre cavalheiro devorado.
Mas de quem é a culpa aqui? Podemos dizer que alguém é responsável pelo inconsciente? Não é mais realista e mais caridoso admitir que não podemos controlar aquilo que ignoramos? Até um tribunal reconhece que um crime cometido em estado de insanidade merece tratamento psiquiátrico e não punição. O que dizer, então, de nossas projeções inconscientes de hostilidade, raiva, estupidez, destrutividade, possessividade, ciúme, maldade, mesquinharia, brutalidade e a miriade de outros aspectos de nosso próprio lado sombrio que julgamos eternamente ver nas pessoas que achamos haver nos desapontado? Embora não sejamos responsáveis pelo inconsciente – afinal o ego é apenas um crescimento recente da matriz do inconsciente –, é nossa responsabilidade tentar aprender um pouco sobre ele, tanto quanto possível dentro das limitações da consciência. Talvez este desafio faça parte do nosso Zeitgeist. Depois de tantos milhares de anos de história, já não somos crianças, e precisamos aceitar as responsabilidades da idade adulta psicológica. Uma dessas responsabilidades é dar ênfase as nossas projeções.
Não sabemos muita coisa sobre o inconsciente, e isso é obvio uma vez que ele é, acima de tudo, inconsciente. Sabemos que esse mar sem limites, do qual surge nosso pequeno farol da percepção, parece funcionar de acordo com padrões de energia e leis diferentes; tem um modo de comunicação e uma linguagem diferentes, e deve ser explorado levando em conta essas diferenças. Se um inglês viaja pela Alemanha, não pode esperar ser entendido se teimar em falar apenas inglês, e o mesmo se aplica a relação entre o ego e o inconsciente. Infelizmente, o ego, em geral, tem a mesma atitude do inglês, e fica espantado quando esse tipo de compromisso é requerido. Mas se nosso objetivo for investigar-nos e desenvolver nosso potencial real, é preciso aprender a linguagem do inconsciente. E ele é sem duvida um alienígena – tão alienígena que rimos nervosamente, ou nos encolhemos de medo quando o encaramos nos sonhos, nas fantasias, nas explosões emocionais e em todas as áreas da vida onde uma qualidade magica ou estranha impregna a nossa percepção e esfumaça os contornos do que acreditávamos ser a realidade nítida e bem definida.
Só acreditamos que somos os senhores de nossa casa porque gostamos de nós lisonjear. Na verdade, entretanto, somos dependentes, num nível surpreendente, do funcionamento adequado da psique inconsciente, e precisamos confiar que ela não nos falhe.
Um dos postulados mais importantes estabelecidos por Jung sobre o inconsciente é que ele compensa o consciente. A psique é um sistema auto-regulador que se mantém em equilíbrio da mesma forma que o corpo. Cada processo que vai muito longe, imediatamente, e inevitavelmente, exige uma atividade compensatória .
Tudo, em outras palavras, que não está contido ou expresso na vida do ego. esta contido no inconsciente, de uma forma nascente e incipiente.
Uma das características do ego consciente é que ele se especializa e se diferencia; o inconsciente, por outro lado, é um mar fluido, mutável, indiferenciado que flui a volta, acima e abaixo da concha nítida do ego, desgastando algumas partes e depositando partes novas, da mesma forma que o próprio mar flui a volta de um promontório rochoso. A psique como um todo contém todas as possibilidades; o ego só pode funcionar com uma possibilidade de cada vez, já que sua função é ordenar, estruturar e tornar manifesto um fragmento particular das ilimitadas experiências da vida.
Não é de surpreender que no mito e nos contos de fadas esse mundo do inconsciente seja com tanta freqüência simbolizado pelo mar, e a jornada do herói nas profundezas é a jornada do ego nas profundezas da psique. O inconsciente é um mundo submarino, cheio de criaturas estranhas e magicas; e para os pulmões humanos, acostumados a respirar o ar, a imersão total naturalmente é a morte psicológica. Chamamos essa morte de insanidade. A luz de tudo isso, podemos começar a entender por que a pessoa que cresceu com uma formação deturpada, cujo ego se desenvolveu por um
caminho estreito e ao qual se negaram todas as outras expressões possíveis, também seja aquela que tem mais probabilidade de fazer intensas projeções sobre os outros e ser mais assediada pelos aparentes defeitos dos outros seres humanos.
O modo primário de expressão do inconsciente é o símbolo. Estamos rodeados de símbolos durante a vida toda, vindos da nossa vida interior, da vida dos outros e do mundo a nossa volta, mas muitas vezes somos indiferentes a seu significado e a seu poder. Um símbolo não é a mesma coisa que um sinal; não é simplesmente algo que representa outra coisa. Os vários sinais que vemos na estrada, por exemplo, tem significados específicos: não vire a direita, não estacione, obras adiante. Mas um símbolo sugere ou infere um aspecto da vida cuja interpretação é inesgotável e que, em ultima a analise, escapa a todos os esforços do intelecto para limitá-lo ou determiná-lo. Não se pode nunca sondar totalmente as profundezas de seus multifacetados significados, nem se pode catalogar esses significados em termos intelectuais, porque freqüentemente contem antíteses que o ego consciente não consegue perceber simultaneamente. Além disso, os significados de um símbolo não são ligados pela lógica, mas pela associação, e as associações podem irradiar-se numa quantidade de direções contraditórias. Não podemos ter consciência de todas as associações ao mesmo tempo, nem delimitar um perímetro para as ondulações da associação da mesma forma que fazemos para o caminho claramente definido da lógica. Um símbolo é como uma pedra lançada no lago da psique. Estamos no meio do lago, por assim dizer, e não temos olhos nas costas.
Um símbolo evoca uma resposta nossa em nível inconsciente, porque compreende associações não logicamente relacionadas e que são fundidas num todo significativo. Um exemplo simples é o da bandeira de um determinado país. Para um patriota, essa bandeira é o símbolo de tudo que o país significa para ele; na sua presença, todos os valores emocionais e religiosos corporificados por ela, o senso de liberdade ou de sua falta, seu lar, suas raízes, sua herança, as possibilidades do futuro e uma miriade de outras associações que nunca poderíamos explicar completamente explodem dentro dele em um instante com alta carga emocional. Podemos ver, nesse simples e tosco exemplo, o poder do símbolo. Uma bandeira pode evocar ódio, violência, paixão, amor, sacrifício, autodestruição ou heroísmo, e precipitar o indivíduo – ou uma comunidade de indivíduos – numa reação emocional sobre a qual não Há controle consciente. O símbolo da suástica, usado com fria inteligência e total conhecimento do seu poder, ajudou a lançar o mundo no caos Há apenas quarenta anos; e mesmo agora, quando é vista numa parede de metro ou de um prédio, ele tem a capacidade de provocar poderosas reações emocionais e uma multidão de pode rosas associações. De forma muito semelhante, os símbolos religiosos convencionais podem ter imenso poder. O crucifixo prateado no pescoço de um cristão devoto, ou a estrela de Davi no pescoço de um judeu, tem um significado que nunca pode ser comunicado em palavras, mas proporciona um vislumbre daquilo que, para muitos, é o mais elevado e mais sagrado dos mistérios, corporificado numa simples forma geométrica.
A bandeira, a suástica, a estrela de Davi e o crucifixo são símbolos que podemos prontamente identificar como tal. Mas há símbolos a nossa volta que não identificamos com tanta facilidade, porque são expressões dos padrões energéticos subjacentes que moldam a própria vida, Jung chamou essas linhas básicas de energia de arquétipos, e, embora um arquétipo não tenha forma, ele se comunica conosco através de muitos símbolos de natureza tão vasta que o ego consciente recua assombrado. A própria natureza, como a humanidade, funciona de acordo com padrões arquetípicos, ao mesmo tempo que os corporifica. No ciclo das estações, por exemplo – com a vida nova surgindo na primavera, a maturidade e a frutificação no verão, a desintegração gradual e a colheita no outono, a esterilidade e a germinação subterrânea secreta no inverno – podemos ver o ciclo de nossas próprias vidas, do nascimento á maturidade, decadência, morte e renascimento. O ciclo do Sol no céu, nascendo no leste, culminando no Meio-do-céu, pondo-se no oeste, e desaparecendo durante a noite apenas para nascer novamente, parecia aos antigos ser a face de Deus, porque viam refletida, na jornada solar, a totalidade da vida. Diferentemente dos nossos antepassados. não mais adoramos o Sol, mas ainda respondemos inconscientemente ao símbolo. O crescimento de uma planta, de semente a folha, a flor e novamente a semente, simboliza mais uma vez esse processo da vida – assim como os quartos da Lua, os ciclos dos planetas e das constelações. Aqui podemos começar a ver por que a astrologia era, para os antigos, um olho que se abria para o funcionamento do universo – porque toda experiência da qual um ser humano é capaz, se vista simbolicamente, pode
encontrar um correspondente num desses ciclos naturais no céu. A linguagem da literatura esta cheia de correspondências semelhantes, assim como o mito e o conto de fadas; e nos também as empregamos no nosso discurso diário, quando falamos das marés da vida, da fase crescente ou minguante da vida, do desejo, do amor. Essas coisas precisam ser meditadas e sentidas, em vez de analisadas, pois os símbolos naturais da vida nos falam sobre a nossa inteireza e a nossa ligação com os outros e com o próprio fluxo da vida; mas não é ..- possível discerni-los se olharmos apenas com o intelecto. poderíamos ampliar mais ainda esse conceito e sugerir que mesmo nós, seres humanos, somos símbolos, pois todo o universo é energia, e Há certos padrões energéticos subjacentes básicos sem forma, porém com qualidades definidas que se corporificam como o homem.
Freud passou muito tempo tentando demonstrar que tudo, nos sonhos, é símbolo dos órgãos sexuais masculinos ou femininos. O que não lhe ocorreu foi a possibilidade de estar considerando as coisas ao contrário, e que os órgãos masculinos e femininos são, eles mesmos, símbolos das misteriosas energias, arquetípicas que os chineses chamam yin e yang. Como se diz que Jung afirmou certa vez, até o pênis é um símbolo fálico. Aquelas qualidades que associamos com a masculinidade: franqueza, vontade, clareza, abertura, força, são espelhadas no corpo de todo homem, e aquelas associadas com a feminilidade: sutileza, ocultação, delicadeza, gentileza e suavidade, também estão espelhadas no corpo de toda mulher. Em conseqüência do trabalho da vida de Jung, temos razões para acreditar que o arquétipo, a própria energia básica, exista antes de haver uma forma através da qual ele possa manifestá-se. Ou, na expressão da Bíblia, no principio era o Verbo.
Quando olhamos o rosto dos outros, vemos ali os símbolos de traços de caráter inerentes. Expressamos isso instintivamente, quando falamos de queixo franzino, maxilar determinado, testa de erudito, nariz aquilino, mãos artísticas e olhos penetrantes. Estamos colocando em palavras nossa percepção inconsciente) de que o próprio corpo pode ser um símbolo do indivíduo, e vemos na forma física uma destilação cristalizada e concretizada do outro que está diante de nós. Esse é um principio importantíssimo para ponderar, porque nos diz algo sobre o que é, de fato, a atração ou repulsa sexual.
Um mundo muito diferente abre-se para nós se entendermos que a, realidade manifesta é, em si mesma, um símbolo. Esta é a base sobre a qual se estabeleceram todas as doutrinas religiosas, e todo o pensamento esotérico, a tradição de sabedoria secreta de séculos, deriva desse milagre do símbolo que Emerald Tablet cristalizou na frase: "Assim em cima como embaixo." Jung insinua a mesma direção em seu trabalho, mas, como cientista, foi obrigado a basear suas idéias em observações empíricas e não em visão intuitiva – ou, pelo menos, apoiar sua visão em fatos verificáveis.
A psique surge de um principio espiritual que é tão inacessível ao nosso conhecimento quanto a matéria Os mesmos padrões arquetípicos estão sob as duas.
Podemos começar agora a vislumbrar o que realmente significa o inconsciente. Freud acreditava ser uma lata de lixo na qual se despejava a acumulação particular dos fragmentos rejeitados de cada pessoa; acreditava que seu conteúdo fosse composto quase exclusivamente de desejos reprimidos inaceitáveis para o ego consciente e para a sociedade na qual o indivíduo vivia. Sem duvida Há uma acumulação de sujeira no inconsciente de cada um – provavelmente em proporção direta e compensatória á “limpeza" do ego consciente.
Ao mesmo tempo, também há uma acumulação de riquezas. Além do mais, a sujeira também é relativa; não é muito apetitosa na mesa da cozinha, mas todo jardineiro sabe que sem seu adubo teria um jardim muito inferior O inconsciente abre acima e abaixo de nós um repositório de (imensa energia criativa uma matriz da qual, surgem todas as coisas, e não para no nível individual, mas se funde num grande mar coletivo, além das fronteiras humanas, que se estende até o desconhecido. É possível que o que a psicologia moderna chama inconsciente fosse conhecido pelos antigos como os deuses, ou Deus; e não é de surpreender, quando meditamos sobre essas coisas, que a ciência e a religião, depois de se terem apedrejado mutuamente por tantos séculos, estejam começando a descobrir que viajam na mesma direção. rumo ao mesmo mistério – por mais que seus veículos sejam diferentes.
relacionamentos. Podemos ver agora que a maior parte das coisas que ocorrem num relacionamento é inconsciente, porque a maior parte do que uma pessoa é permanece inconsciente. O mistério de por que um homem é atraído por um certo tipo de mulher, por que ele começa seus relacionamentos de uma determinada forma, por que eles seguem um determinado rumo e por que ele encontra determinados problemas com os quais deve lidar, torna-se menor quando percebemos que muito do que chamamos atração e repulsão é, na verdade, atração ou repulsão que pertencem à qualidades inconscientes do próprio homem. É rara a pessoa que pode dizer que não há um elemento de projeção em seus relacionamentos, já que, provavelmente, boa parte do inconsciente nunca pode tornar-se de fato consciente, e que assim vamos eternamente projetar. Pode ser que projetemos até mesmo Deus. Quem, então, é a amada, e onde vamos encontra-la? No interior ou no exterior? Ou em ambos?
2 O Mapa Planetário do Potencial Individual
O que esta embaixo é como o que está em cima. E o que está em cima é como o que está embaixo, de modo que o milagre da unidade possa ser cumprido.
Tabula Smaragdina
O fado e a alma são dois nomes do mesmo principio.
Novalis
O Mapa de Nascimento
Qualquer compreensão da linguagem da astrologia deve começar com um entendimento do que o horóscopo de nascimento pode e não pode nós dizer. O horóscopo é um mapa astronômico altamente complexo, baseado não apenas na data de nascimento, mas também no horário, ano e lugar. Em primeiro lugar, portanto, é preciso descartar todas as noções preconcebidas e preconceitos baseados na astrologia das revistas populares, que não tem virtualmente nada que ver com o estudo verdadeiro.
O mapa de nascimento não conjura o fado de um indivíduo de forma predestinada. Em vez disso, simboliza as linhas básicas do desenvolvimento potencial de seu caráter. Com um mínimo de reflexão, percebe-se que uma pessoa agirá e moldará sua vida de acordo com suas necessidades medos e capacidades, e que essas necessidades. medos e capacidades derivam de sua disposição intrínseca. Nesse sentido, o caráter é o fado, e se formos ignorantes de nossas próprias naturezas – como o é a maioria que nunca investigou o inconsciente –, os astros não poderão ser culpados pelo fato de seguirmos precipitada e cegamente o caminho que nós mesmos escolhemos.
Esse ponto fundamental é critico para a compreensão de todo o estudo da astrologia. A interpretação mais superficial de fado e livre-arbítrio – fado é o que estou "destinado" a fazer, enquanto livre-arbítrio é o que "escolho" fazer – nos impossibilita ver o sutil paradoxo de que esses dois opostos são um e o mesmo.
Sabemos que além de toda vida, seja psíquica ou material, jazem os padrões arquetípicos, os ossos nus da estrutura da existência. Ainda não sabemos se há qualquer base material para o fato de os dados astrológicos se correlacionarem com o comportamento humano, embora não demore muito até que tenhamos as provas, através da nossa pesquisa sobre relógios biológicos e os ciclos das manchas solares. A trabalhosa e rigorosa pesquisa estatística de Michel Gauquelin demonstrou de forma dramática que tais correlações são válidas , mas a razão de sua validade ainda nos escapa. Os fatos materiais referentes a astrologia, entretanto, como a possibilidade de emanações de energia dos planetas que afetam o campo de energia do Sol, são apenas uma das pontas do espectro do arquétipo. A outra ponta é si e as posições o céu num momento determinado, repetindo as qualidades daquele momento, também refletem as qualidades de qualquer coisa nascida naquele momento, seja um indivíduo uma cidade, uma idéia, uma companhia ou um casamento. Um não causa o outro; são sincrônicos, e se refletem mutuamente.
No que diz respeito a razão dessa sincronicidade, temos, de um lado, 4 arquétipos de Jung do inconsciente coletivo e, de outro, os ensinamentos da doutrina esotérica. Esses dois pontos de vista parecem revelar a mesma verdade, que as descobertas da física quântica e da biologia nos últimos vinte e cinco anos estão começando a asseverar. A vida é na verdade um organismo, e as várias partes desse organismo, embora diferentes em forma e aparentemente separadas, participam do mesmo todo e estão interligadas com todas as outras partes.
Paracelso, escrevendo sobre astrologia no século XVI, diz:
Se eu tenho "maná" na minha constituição, posso atrair "maná" do céu... "Saturno" não está apenas no céu, mas também nas profundezas da terra e no oceano. O que é "Vênus" senão a "artemísia" que
cresce no seu jardim? O que é "ferro" senão "Marte"! Isto é, Vênus e artemísia são produtos da rnesma essência, e Marte e ferro são manifestações da mesma causa. O que corpo humano senão uma constela o dos mesmos poderes que formaram as estrelas no céu? Aquele que sabe o que é o ferro, sabe os atributos de Marte. Aquele que conhece Marte, conhece as qualidades do ferro .
O sistema solar não é apenas um arranjo do Sol e dos planetas físicos unidos pela força da gravidade e orbitando no espaço. Também pode ser visto como o símbolo de um padrão de energia vivente, refletindo as formas menores de vida contidas nele a qualquer momento. Na tentativa de compreender o simbolismo do horóscopo de nascimento, é útil considerar o que conhecemos da psique, pois o mapa no nascimento é realmente um modelo, em termos simbólicos, dos vários padrões de energia psíquica que compõem o indivíduo. Sabemos que o ego, como centro do campo da consciência, é um centro regulador cuja função é iluminar as áreas do inconsciente tanto pessoal como coletivo, que estão procurando a luz; e sabemos também que o é o delegado ou o reflexo daquele centro misterioso que Jung chama Self e o ensinamento esotérico, chamado Alma. Sabemos também que na medida em que o indivíduo se desenvolve, é provável que bloqueie do seu campo de consciência aqueles aspectos de sua natureza que na realidade lhe pertencem, mas que, por uma razão ou outra, são incompatíveis com seus valores ou com os valores de sua família ou da sociedade. Finalmente, sabemos que é extremamente importante, se busca a autoplenitude e uma vida significativa que realize também o propósito maior para o qual se nasceu, trazer a luz esses aspectos da própria natureza em vez de condená-los à perpétua escuridão inconsciente. Como projeção ideal dos primeiros dias da infância, a personalidade quase nunca é totalmente expressa; apenas uma parte é realizada, e, no caso de muitas pessoas, essa parte é de longe menor do que constitui seu verdadeiro patrimônio hereditário. Nesses casos, dizemos que a pessoa nunca desenvolveu realmente seu potencial, ou que desperdiçou oportunidades ou talentos, ou que nunca foi realmente "verdadeira consigo própria".
O mapa de nascimento é uma semente ou esquema de tudo que, em potencial, pertence a personalidade de uma pessoa – se florescer totalmente, em plena consciência. E o mapa de uma estrada no seu sentido mais autentico, pois o objetivo de seu estudo não é "superar" as "influencias" dos planetas, mas sim dar espaço, na vida da pessoa, para a expressão de todas as qualidades e impulsos nele simbolizados. Só então o indivíduo pode se aproximar do plano original do desenvolvimento de sua vida conforme foi "concebido" – pois precisamos, no fim, concluir por um desenvolvimento inteligente, com propósito – pelo Self.
Se isto parecer uma definição muito obscura ou elevada do horóscopo de nascimento, cabe lembrar que a astrologia, antes de se tomar propriedade das colunas em revistas e jornais populares, foi um arte sagrada. Através dela, o estudioso tinha acesso a uma percepção intuitiva do funcionamento das energias por trás da vida, que nenhum outro sistema antigo – com exceção, talvez, do seu equivalente oriental, o I Ching – podia proporcionar. O grande esta refletido no pequeno, e o fato de a astrologia também poder ser usada para esclarecer problemas mais mundanos não compromete seu valor psicológico mais profundo. É apenas um reflexo do fato de que, mesmo nos menores detalhes de nossa vida refletimos aquilo que é a nossa essência.
Visto por este prisma, torna-se claro que a compreensão do horóscopo de nascimento proporciona uma nova dimensão a compreensão do caminho de vida de alguém. Da mesma forma, a comparação de dois horóscopos fornece informação considerável sobre o interfuncionamento de duas vidas; e foi dessa arte de comparação de mapas que se desenvolveu a sinastria o uso da comparação de mapas para investigar e avaliar os relacionamentos.
Em termos astronômicos, o horóscopo de nascimento é simplesmente um mapa – calculado com precisão, de modo que não possa ser criticado pelo mais impertinente astrônomo – do céu, conforme aparece na hora e local exato do nascimento do indivíduo. O círculo dos dozes signos zodiacais é um símbolo da totalidade, e em sua totalidade representa todas, as possibilidades da vida. Nesse sentido, o zodíaco é como qualquer outro símbolo universal de inteireza coma o ovo, ou o urobouros. (a serpente que devora a sua cauda), ou a cruz de braços iguais. É uma mandala, e como Jung demonstrou, as mandalas são a expressão simbolica da inteireza potencial da vida e da psique humana. São ao mesmo tempo símbolos do Self e símbolos de Deus, pois os dois são, em termos da percepção humana, a mesma coisa.
Contra o cenário desse circulo do zodíaco (que é chamado eclíptica e é, na verdade, o circulo aparente do Sol cruzando o céu) ficam o Sol, a Lua e os oito planetas conhecidos. As posições desses planetas, conforme se colocam na roda zodiacal no momento do nascimento do indivíduo, formam o padrão interno do mapa de nascimento. Assim, temos um quadro Simbólico, com a roda da inteireza no exterior e a combinação individual dos componentes psicológicos no interior. Cada mapa é composto dos mesmos ingredientes: doze signos zodiacais, oito planetas, o Sol e a Lua. Entretanto, cada mapa é diferente porque em qualquer momento particular o arranjo o de todos esses fatores é diferente, tanto no padrão planetário como no relacionamento entre os planetas e o horizonte e a própria Terra.
Em outras palavras os seres humanos são construídos a partir da mesma matéria-prima, dos mesmos impulsos ou energias, necessidades e possibilidades; mas existe um arranjo individual dessas energias que dá a ca de singularidade ao padrão. As mesmas forças estão presentes em todos nós, fato com o qual nos deparamos sem cessar em qualquer trabalho envolva aconselhamento ou terapia. Mas existe um singularidade criativa que faz dessas energias básicas uma obra de arte única que é a vida individual. Essa forma criativa, é preciso entender, não deriva do ego, que é dificilmente capaz de tal feito; ela deriva do self, e o Self, como tal, não está mapeado no mapa de nascimento. É o zodíaco inteiro. O mapa também não de mostrar a decisão do indivíduo em qualquer momento de sua vida, de cooperar voluntariamente com os esforços de sua própria psique rumo a uma maior consciência, e portanto a um uso mais completo dos potenciais que lhe pertence desde o começo. Nessa decisão reside o significado mais profundo do livre-arbítrio individual.
Os Planetas
Os blocos básicos da construção no simbolismo astrológico são os oito planetas, o Sol e a Lua. No jargão astrológico, referimo-nos também ao Sol e a Lua como planetas. porque isso torna as coisas mais fáceis. Em astronomia, esses dez corpos celestes são os componentes do organismo do nosso sistema solar. Simbolicamente, formam o organismo da psique humana. Nos antigos ensinamentos esotéricos, acreditava-se que o espaço não era "vazio", mas, na realidade, o corpo vivente de uma vida gigantesca, um organismo que possuía os atributos de consciência e propósito. Sua forma física era o sistema solar, e o Sol expressava o coração, em torno do qual a Lua e os oito planetas serviam como órgãos ou centros de energia – da mesma forma que as órgãos do corpo humano servem a função primária do coração doador da vida. Antes da descoberta de Urano em 1781, apenas cinco planetas eram conhecidos; mas podemos ver vagas sugestões dos outros três na mitologia" invariavelmente simbolizados como deuses invisíveis, vivendo debaixo das águas ou da terra. Embora possamos considerar esse conceito esotérico do sistema solar abstrato e difícil de imaginar, é um símbolo indispensável para qualquer tentativa de compreender como os planetas funcionam no mapa de nascimento.
A astrologia, como o inconsciente coletivo do qual trata a psicologia, consiste em configurações simbólicas: os "planetas" são os deuses, símbolos dos poderes do inconsciente .
Podemos agora começar a investigar o significado de cada um dos corpos celestes de acordo com os impulsos básicos ou padrões arquetípicos que simbolizam no indivíduo.
O Sol e a Lua
O Sol, o coração do sistema solar e, isoladamente, o símbolo mais importante no mapa de nascimento, sugere, por sua representação pictórica – um ponto no centro de um circulo – que reflete o impulso do indivíduo para se tornar ele próprio. Embora isso pareça bastante simples, é tarefa para uma vida. O circulo é o antigo símbolo da inteireza, da divindade e da eterna unidade da vida, porque não tem princípio nem fim; o ponto no centro sugere que o espirito, ou a vida, ou o Self, se manifesta (em um lugar determinado e em um determinado momento) como um ego individual que possui, como um de seus atributos, o impulso em direção à auto realização . Como qualquer outro símbolo vivo, o Sol no mapa de nascimento não pode ser reduzido a algumas palavras-chave bem escolhidas. Mas podemos começar a penetrar seu significado se soubermos que ele sugere o caminho que o indivíduo deve seguir para preencher seu impulso básico de
obter um senso de identidade. Poderíamos dizer que o Sol simboliza o impulso para a autoexpressão, a auto-realização, a autoconsciência ou uma série de outros termos que realmente não fazem sentido a não ser que se esteja consciente da necessidade subjacente, na pessoa, para ser ela mesma, e a não ser que se possa ver essa necessidade em funcionamento em todos os atos criativos executados não por qualquer motivo dissimulado, mas como um autentico reflexo da essência da individualidade.
Os planetas do mapa de nascimento simbolizam as experiências arquetípicas da vida, e a astrologia é apenas uma forma de retratá-las. Outra, como já vimos, é o mito e o conto de fadas, e o Sol pode ser considerado um reflexo do mesmo principio expresso como o Herói. A saga do Herói é a mesma jornada expressa através do simbolismo do mapa de nascimento, e o Herói, sempre e sempre, procura primeiro sua outra metade, para que possa ficar inteiro, e em seguida sua origem, para que possa realmente identificar sua ascendência e seu propósito. Poderíamos também dizer que o Sol. no horóscopo, é um símbolo do impulso, dentro do indivíduo, para identificar aquele centro ou força vital de que seu ego consciente, seu "eu" pessoal, é um reflexo.
O Sol, portanto, é um símbolo da ego, no sentido que Jung da ao termo. Em ultima análise, é o recipiente ou veículo para que a totalidade da psique, o Self, se torne manifesta. Como já observamos, o mapa não mostra o Self, que é simbolizado pela roda zodiacal como um todo. O mapa de nascimento é apenas o caminho que o ego segue, a saga especifica do herói individual; e aquelas qualidades que o indivíduo pode, potencialmente, concretizar na consciência – seu pequeno quinhão no espectro maior da vida – são simbolizadas pelo signo que o Sol ocupa no nascimento.
Muito prejuízo não-intencional foi causado a astrologia pelas colunas de signo solar nos jornais e revistas populares, e, infelizmente, até o mais sério estudante da astrologia freqüentemente cai na mesma armadilha que os leitores dessas colunas: o signo solar geralmente é interpretado como um conjunto de padrões de comportamento cristalizados e preexistentes. Podemos ler que se uma pessoa é de Áries, é cheia de vontade, impulsiva, temerária e gosta de desafios. Se a pessoa é de Touro, é estável, confiável, sensual, teimosa e gosta de bem-estar material. E assim por diante.
Mas seria rnuito mais significativo, e mais de acordo com a compreensão da psique proporcionada pelo trabalho da psicologia analítica, ver o Sol não como um mero catálogo de traços de caráter, mas como aquilo que a pessoa está se esforçando para ser e o que ela é em potencial, em essência.
Na verdade, esse símbolo do ego totalmente integrado raramente é alcançado antes dos primeiros trinta anos de vida; e o inicio do autentico auto questionamento geralmente vem logo em seguida ao ponto da crise dos vinte e nove anos, chamada retorno de Saturno. Viver todo o potencial do Sol é a jornada de uma vida. Assim, podemos dizer que seu signo solar não o "torna" algo em particular; em vez disso, simboliza aquelas energias, aquele mito especifico, do qual você esta tentando aprender como se tornar consciente e tentando expressar de uma forma criativa Cada indivíduo tem a tarefa de tornar consciente e canalizar, por meio de sua individualidade impar, o significado do simbolismo do signo solar, de modo que ele seja caracterizado pela misteriosa essência do próprio Self. Ter nascido com o Sol em Áries pode não tomar uma pessoa cheia de vontade e impulsiva, mas sugere que ela precisa cultivar um senso de vigor da vida, uma capacidade de se afirmar no mundo exterior, de proceder a mudanças e enfrentar os desafios criativamente, para que se torne completa. Com o risco de uma simplificação exagerada, podemos dizer, de forma semelhante, que Touro precisa aprender a se relacionar com o mundo terreno e a construir nele um senso de valor permanente; Gêmeos precisa desenvolver seus poderes de discriminação intelectual, para poder aprender mais sobre o mundo a sua volta; Câncer precisa aprender a abrir o fluxo de seus sentimentos para os outros de modo a alimentar a nascente consciência daqueles que ama; Leão precisa aprender a identificar, por meio de seus esforços criativos, aquele centro de si mesmo que é o verdadeiro criador e ao qual deve se dedicar; Virgem precisa aprender a aperfeiçoar-se e purificar-se como um veículo de serviço para que possa exercer seu papel na transmutação de tudo que d vil ou indiferenciado na vida; Libra precisa aprender a identificar os opostos dentro de sua própria natureza e equilibrá-los, para podei relacionar-se com os outros; Escorpião precisa aprender a amar e integrar sua própria escuridão, para poder eliminar a escuridão a sua volta; Sagitário precisa aprender a ver a consistência subjacente a toda aspiração humana, de modo que seu senso de significado da experiência da vida possa ser ensinado a
outros; Capricórnio precisa aprender a dominar primeiro o seu ambiente e depois a si próprio, para que brilhe como um exemplo do poder da vontade humana; Aquário precisa aprender a se tornar consciente da vida do grupo do qual faz parte, de modo que possa contribuir para o crescimento da consciência coletiva; e Peixes precisa aprender a se oferecer como uma dadiva para a vida mais ampla, para poder executar a tarefa de salvar o que esta perdido. O signo solar dificilmente é tão pessoal quanto um conjunto de padrões de comportamento, e não faz ninguém se tomar coisa alguma. É um símbolo do que precisa ser alcançado. A probabilidade maior é de que o indivíduo só alcance esse objetivo com dificuldade.
É bom ter em mente que o Sol não é um ponto pessoal no mapa, no sentido de pertencer ao comportamento da personalidade. Simboliza o caminho, o alvo, não a maquina em que se viaja – até que estes se tornem a mesma coisa. O Sol é o coração do ser humano, e quantos de no conhecem verdadeiramente seu coração? Os planetas, como todo simbolismo na astrologia, são divididos em l dois grupos de energias: masculinas e femininas. O Sol é considerado um planeta masculino, porque esta associado com o lado da vida que diz respeito a vontade, a consciência, a decisão e ao impacto sobre o ambiente – em outras palavras, é um principio ativo. Como seria de se esperar, é mais "acessível" aos homens do que as mulheres porque reflete um impulso que é mais fácil aos homens tornar consciente. Quando chega aos dezesseis anos, a maioria dos homens esta bem ciente da necessidade de ter uma identidade individual: muitas mulheres, por outro lado, se contentam em encontrar sua identidade, durante a primeira metade da vida, através de seus parceiros e de sua família. O principio da auto-realização através da irradiação da luz do ego no mundo é muito mais uma prerrogativa da consciência masculina do que da feminina. No horóscopo de uma mulher, por tanto, o Sol geralmente sugere o que ela espera do lado masculino da vida, a e dos seus homens, para se completar. Mas, no plano ideal, é claro, tanto as polaridades masculinas e femininas do mapa precisam ser expressas por todos os indivíduos. Isto faz parte do desafio de nossa crescente consciência.
O Sol reflete o impulso interno de todo ser humano para se expressar, para se tornar o que potencialmente é. A Lua, ao contrário, simboliza o impulso para a inconsciência, para o passado, para uma imersão no fluxo de sentimentos, que permite ao indivíduo ser parte das correntes de massa da vida, sem empreender a luta exigida para a autoconsciência.
A Lua também é símbolo da mãe, tanto pessoal com arquetípica, e é para esse ventre, com sua abençoada defesa e segurança, que o nosso lado lunar deseja retornar. A Lua retrata o impulso para mergulhar na experiência de viver, sem ter de avaliar ou entender a experiência; também simboliza o impulso para o conforto e para a satisfação das necessidades emocionais.
Enquanto o Sol se empenha na diferenciação, a Lua se empenha no relacionamento e na fusão de identidades. O Sol se furta aos relacionamentos pessoais em beneficio do desenvolvimento do ego independente; a Lua se furta a identidade em beneficio dos relacionamentos, e anseia pela paz da noite quando todas as cores se misturam e tudo dorme. Esther Harding, em seu livro sobre o significado psicológico do simbolismo da Lua, afirma: Nos tempos da adoração da Lua, a religião se preocupava com as forças invisíveis do mundo do espirito, e mesmo quando a religião do estado foi transferida para o Sol, um deus de guerra, de engrandecimento pessoal, e das coisas desse mundo, as qualidades espirituais permaneceram com as divindades lunares; pois a adoração da Lua é a adoração dos poderes criativos e fecundos da natureza e da sabedoria inerente ao instinto e a unidade com a lei natural. Mas a adoração do Sol é a adoração daquilo que sobrepuja a natureza, que ordena sua plenitude caótica e subordina seus poderes a realização dos fins humanos. O Sol e a Lua compõem um duo de macho e fêmea no mapa de nascimento, simbolizando a polaridade macho/fêmea em cada indivíduo, e a tensão implícita entre eles é necessária. Sem ela, não poderia haver consciência nem vida. O Sol e a Lua se assemelham a outros símbolos de pares, como escuro e claro, vida e morte e todos os outros pares de antíteses que constituem os grandes pilares que sustentam o organismo da vida.
Esses opostos abrangem tudo, desde o sublime até o ridículo: o Sol não apenas indica, de forma muito ampla e profunda o caminho do indivíduo em direção a plenitude, mas também diz algo sobre a imagem que ele vai projetar para a multidão; e a Lua não apenas indica o caminho pelo qual o indivíduo pode restabelecer o contato com a vida da natureza que esta nas raízes do seu ser, mas também diz alguma coisa sobre a forma como ele mantém sua casa e o tipo de hábitos pessoais