HELIO
VIANNA
Professor catedrático de História do Brasil, da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil
BIBLIOTECA
CENTRAI
NEES
História
Diplomática
do
Brasil
%
J
t
Principais
obras
do AutorFORMAÇÃO BRASILEIRA (Rio de Janeiro, 1935).
BRASIL SOCIAL
-
1500/1640 (Lisboa, 1940).VISCONDE DE SEPETIBA
-
Biografia (Petrópolis, 1943).MATIAS DE ALBUQUERQUE
-
Biografia (RiodeJaneiro, 1944).DA MAIORIDADE À CONCILIAÇÃO
-
1840/1857 (Rio de Janeiro, 1945).CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA DA IMPRENSA BRASILEIRA
-
1812/1869 (Rio de Janeiro, 1945). PrémioJosé
Veríssimo, de Ensaio e Erudição, da AcademiaBrasileira.
“A MALAGUETA”, de Luís Augusto May
—
1822. Coleção Fac-similar de JornaisAntigos. Introdução. (Rio de Janeiro, 1945).
ESTUDOS DE HISTÓRIA COLONIAL (São Paulo,1948).
HISTÓRIA DAS FRONTEIRAS DO BRASIL (Riode Janeiro, 1948).
HISTÓRIA DA VIAÇÃO BRASILEIRA (Rio de Janeiro, 1949).
ESTUDOS DE HISTÓRIA IMPERIAL (São Paulo, 1950).
HISTÓRIA ADMINISTRATIVA E ECONÓMICA DO BRASIL. Para os Cursos Co¬ merciais Técnicos.(SãoPaulo, 1951). Prémio SilvaMartha, da AssociaçãoComercial
de Lisboa.
CAPISTRANO DE ABREU
—
Ensaio biobibliográfico (Rio de Janeiro, 1955). Pre¬ miadono concursooficial doCentenáriodo NascimentodeJ.CapistranodeAbreu. DENTRO E FORA DO BRASIL-
Viagens (Rio deJaneiro, 1955).Setecompêndiosde HISTÓRIA DO BRASIL e HISTÓRIA DA AMÉRICA, para os
ginásiose colégios do ensinosecundário, cm váriasedições (Rio de Janeiro e São
Paulo, 1945/1955).
HISTÓRIADA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, de Francisco Adolfo deVarnhagen, Visconde de PortoSeguro, 3.aedição, revista e anotada. (São Paulo,1957).
A publicar:
LIVROQUE DÁRAZÃO DO ESTADO DO BRASIL
-
1612, deDiogo de Campos Moreno. Ediçãocrítica.LETRAS IMPERIAIS. História literária.
CURSO DE HISTÓRIA DO BRASIL
-
para as Faculdades de Filosofia, Ciências c Letras.t
i
H
BIBLIOTiL
-CENTRAL
UFES
1N D I C E
—
A partilha luso-espanhola das terras descobertas no século XV.As bulas papa-has e o Tratado deTordesilhas.1.Ratificações da política expansionista portuguesa pela Santa Sé 2.As bulas de Alexandre VI
3. Tratado de Tordesilhas
4.Tentativas de demarcação do meridiano do Tratado de Tordesilhas .... IS
1
—
Política internacional portuguêsa, referente ao Brasil, antes da união dasmonarquias ibéricas. Conquista da costa Leste do Brasil:1) Lutas contra os
fran-ises. 2) Competição luso-espanhola no Rio da Prata e na costa Sul. 1.Lutas contra os franceses
a) Os entrelopos e as armadas deguarda-costas
.
b)A expediçãode Martim Afonso de Sousa e o Rio da Prata c) As capitanias hereditárias e a defesa do litorald)O govêrno-geral e a defesa e conquista do litoral e)Conquista do Rio de Janeiro
f)Conquista da Paraíba
g) Conquista de Sergipe d'El-Rei h) Conquista do Rio Grande (do Norte)
2.Competição luso-espanhola no Rio daPrata e na costa Sul
.7
—
A união dasmonarquiasibéricas e suas consequências no Brasil. A) Questão dinástica de1578/15801. Consequências imediatas da união das coroas peninsulares 2. Consequências internacionaisda união das monarquias ibéricas 3. Ataques de estrangeiros ao Brasil(1583/1654)
B) O domínioespanhole a expansão territorial do Brasil 1. Conquista do Nordeste, do Norte e da Amazônia
a) Conquista doCeará b)Conquista do Maranhão
c) Conquista do Grão-Pará
d) Conquista da Amazônia
2. Conquista do Sul e do Sudoeste
a) Povoamentodo litoral sulino,de Paranaguá a Laguna
b) Destruição,pelos bandeirantes vicentinos, daspovoações e reduções jesuíticas espanholas do Guairá, Tape e Itatin
Quadro genealógico da questão dinástica de 1578/1640
7
—
A restauração da monarquia portuguêsa e suas consequências internacionais.'-azescom a Holanda e a Espanha. Fundação da Colónia do Sacramento. Tratado feLisboa,de 1681.
1. Arestauraçãoda monarquia portuguêsr esuas consequências internacionais 48
2.Pazes com a Holanda e a Espanha
a) Paz com a Holanda (1661) b) Paz com a Espanha (1668)
....
1! 14 17 24 24 25 27 28 29 30 30 31 31 34 35 37 38 41 42 42 43 43 44 45 45 46 47 49 49 49 7
3. Fundação da Colónia do Sacramento
a)Expansão luso-brasileira pela costa Sul (1513/1737)
b)Fundação da Nova Colónia do Santíssimo Sacramento (1680) c)Primeira ocupação espanhola da Colónia doSacramento eTratado de
Lisboa (1680/1683)
V
—
Primeira fixação de limites ao Norte. Tratados de Lisboa, de 1700 e 17o/ A Guerra deSucessão da Espanha e suas comequéncias no Brasil. Tratados de ™de1713e 1713.
1. Primeira fixação de limites ao Norte
a)Conquista luso-brasileira da foz do Amazonas
b)A capitania do Cabo do Norte
c) Primeiras divergências com os franceses no Amapá d)Tratados de Lisboa, de 1700 e 1701
2.AGuerra de Sucessão daEspanhaesaasconsequências no Brasil ajSegundo ataque espanhol à Colónia do Sacramento (1704/1705)
.
b)Corsários franceses no Rio de Janeiro (1710/1711) ..
c) Tratados de Utrecht, de 1713 e 1715
VI
—
Terceira tentativa espanhola contrc a Colónia do Sacramento. FundaçãoIIio Grande de São Pedro. Tratado de Madrid, de 1730. Primaras tentativa
‘°
demarcação dos limites do Sul e da Amazinia. Tratado do Pardo.1. Portuguêses e espanhóis em Montevidéu (1723/1726)
2.Terceira tentativa espanhola contra r Colónia doSacramento (1735/1737\ r9
3.Fundação do Rio Grande de São Pedro (1737)
4. Tratado de Madrid, de 1750
...
. „„a) Primeiras tentativas de demarcação dos limites do Sul e Guerra Gua-ranítica
b) Primeiras tentativas dedemarcaçãodoslimites da Amazônia
5.Tratado do Pardo, de 1761
VII
—
Consequências, no Brasil, da Guerra dos Sete Anos: lutas contra os nhóisna Colónia doSacramento, Rio Grcnde de São Pedro, Santa Catarina e Grosso(1762/1777). Tratado de Santo Ildefonso. Novas tentativas ie demarcação1t°
limites. dos
1.Lutascontra os espanhóis na Colónia do Sacramento, Rio Grande deSão
Pedro,Santa Catarina e Mato Grosso (1762/1777)
2.Tratado de Santo Ildefonso, de 1717 ’
a) Novas tentativas de demarcação dos limites do Sul
b) Novas tentativas de demarcaçãodos limites da Amazônia
VIII
—
Política Exterior da Regência deD.João em Portugal (1792/1807).Porte a Revolução Francesa. Tratados com a França. Guerra Peninsular de 1801 e
consequênciasno Brasil. Tratado de Badcjoz. 1.Portugal e a Revolução Francesa
a)Tentativas francesas de modificações da fronteira do Oiapoque 2. Consequências, no Brasil, da Guerra Peninsular de 1801
a) Conquista dos Sete Povosdas Missões Orientais do Uruguai
b)Segundo ataque espanhol a Mato Grosso ’'
3.Tratado de Badajoz
IX
—
Política Exterior de D.João no Irasil (1808/1821). A aliança inglêsa. ç quista de Caiena. Ocupação da Banda Oriental. Elevação do Brasil à categoria°d~
Reino. e
1
.
A aliança inglêsa2. Conquista c restituição de Caiena (1808/1817)
50 50 51 52 Utrecht, 54 54 55 56 56 57 58 58 59 J de 61 62 67 68 69 70 72 74 76 Ugal suas 78 79 81 82 83 83 85 85 8
3.Ocupação da Banda Oriental
a) Causas das intervenções luso-brasileiras no Rio da Prata b) Campanha de 1811
c) Campanha de 1816/1820 d) Convenção de Limites, de 1819
e) Limites estabelecidos com o Estado Cisplatino, em 1821
4.Portugal no Congresso de Viena: elevação do Brasil à categoria de Reino 90 X
—
Política Exterior do Primeiro Reinado. Guerra e Reconhecimento da Inde¬pendência.Separaçãoda Cisplatina.A sucessão ao trono português.
1. Política Exterior do Primeiro Reinado
2.Guerra da Independência
a) Preliminares da luta
b)Campanhas pela Independência, nas províncias ..
3. Reconhecimento da Independência
4. Separação da Cisplatina
a) Revolução da Cisplatina
b) Guerra com as ProvínciasUnidasdo Rio da Prata
c) Convenção Preliminar da Paz, de 1828
5. A sucessão ao trono português
XI
—
Politico Exterior do Segundo Reinado. Extinção do tráfico deafricanos para o Brasil. Questões platinas. Causas e consequências da Guerra do Paraguai. Outrasquestõesinternacionais.
1.Política Exterior das Regências (1831/1840)
a) Primeira questão com a Santa Sé b) Questões fronteiriças
2. Política Exterior de D. Pedro II (1840/1889)
3. Extinção do tráfico de africanos para o Brasil
a) Convenções celebradas com a Inglaterra b)O tráfico no períododas Regências
c)O tráfico no início do govêrno de D. PedroII
d) Extinção do tráfico 4.Questões platinas
a) Primeira questão platina
b)Segunda questão platina
5.Causas e consequências da Guerra do Paraguai a) Causas
b)Consequências
6.Outras questões internacionais a)Questão Christie
b) Novadivergência com a Santa Sé
c) Outras questões fronteiriças
XII
—
Intervenções brasileiras contra Oribe e Rosas.1. Antecedentes da primeira intervenção brasileira no Uruguai . ..
2. Campanha contra Oribe
3. Antecedentes da intervenção contra Rosas 4.Campanha contra Rosas
XIII
—
Limitescom o Uruguai.1.Antecedentes do Tratado de Limites de 1851
2. Consequências do Tratado de 1851
.
XIV
—
Intervenção brasileira contra o govêrno uruguaioi de Aguirre. 1.Antecedentes (1852/1863) 2. Missão Saraiva (1864) 86 86 88 88 89 89 91 91 91 92 93 94 95 95 96 97 98 98 99 99 101 101 101 102 102 103 103 104 105 105 106 106 106 108 108 110 111 112 113 114 115 117 118 9119 3.Represálias brasileiras (1864/1865)
4.Convénio de 20 de fevereiro de 1865
XV
—
Guerra da Tríplice Aliança contra o governo do Paraguai.1.O Paraguai na história e na geografia sul-americana
2.Relaçõesdo Império do Brasil com a Repúblicado Paraguai (1824/1864) 121 3. Rompimento da guerra
XVI
—
Limites com oParaguai.1. Antecedentes coloniais
a) Tratado de Madrid,de 1750
b) Tratado de Santo Ildefonso, de 1777
...
2. Tentativas de fixação doslimites (1844/1856)
3. A fronteira e a Guerra da Tríplice Aliança 4.Tratado de Limites, de 1872
5. Tratado Complementar de Limites, de 1927
XVII
—
PolíticaExterior da República. Reconhecimento do novo regime. Interven¬ çãoestrangeiradurante a Revolta da Esquadra. O Barão do Rio Branco e as ques¬tõesde limites. Ocupação inglêsa da Ilha da Trindade. O Brasil nc.s duas Guerras
Mundiais.O Brasil e o Pan-americanismo. 1.Reconhecimento da República
2. Intervenção estrangeira durante a Revolta da Isquadra 3.O Barão do Rio Brancoe as questõesde limites
a) Questão da zona de Palmas b)Questão do Amapá
c)Questão do Acre
d) Questão do Pirara
e) Limites com a Guiana Holandesa f) Limites com a Colômbia ,g) Limites com o Peru
Condomínio da Lagoa Mirim e Rio Jaguarão i)Recurso ao arbitramento
4. Ocupação inglêsa da Ilha da Trindade
5.O Brasil nas duas Guerras Mundiais a) Na Guerra de 1914/1918
b)Na Guerra de
1939/1945
.
6. O Brasil e o Pan-americanismo
XVIII
—
Limitescom a República Argentina.1. Antecedentes coloniais
a) Tratado de Madrid, de 1750
b) Tratadode Santo Ildefonso, de 1777
2. Questão argentino-brasileira de limites, no Segando Reinado (1857/1889) 143
3. Tentativa de divisão da zona de Palmas, peto Govêrno Provisório da República (1890/1891)
4. Missão especial do Barão do Rio Branco em Washington (1893/1895) .. 146
XIX
—
Limitescom a Guiana Francesa. 1. Antecedentes coloniais e imperiais 2. Restituição de Caiena (1814/1817) 3. Ocupação francesa do Amapá (1835/1840)4. Tentativas de fixação dos limites, no Segundo Reinado (1841/1888) .... 151 5. Dos incidentes de 1895 ao Compromisso Arbitrai de 1897
6. Missão especial do Barão do Rio Branco em Berna (1898/1900)
119 121 123 126 126 127 127 129 130 131 133 134 134 135 135 136 136 137 137 137 138 138 139 139 139 140 140 142 142 142 145 148 148 149 152 154 10
XX
—
Limites com a Bolivia. 1.Antecedentes coloniaisa) Tratado de Madrid, de 1750
b)Tratado de Santo Ildefonso,de1777 2.Tratado de La Paz, de 1867
3. Povoamento do Acre
4. Das revoltas acreanas à intervenção brasileira
5.Tratado de Petrópolis, de 1903
XXI
—
Limitescom as Guianas Britânica eHolandesa.1.Antecedentes coloniais e imperiais
a)Conquista da Amazônia
b)Guiana Holandesa
c) Guiana Britânica
2. Litígio com a Inglaterra (1838/1842)
3.Tentativas de entendimento direto (1843/1901)
4. Missão especial de Joaquim Nabuco em Roma (1902/1904)
5. Limites com a Guiana Holandesa XXII
—
Limites com a Colômbia e Venezuela.1. Antecedentes coloniais
a) Tratado de Madrid, de 1750 b)Tratado de Santo Ildefonso, de 1777
2. Tentativasde fixaçãodoslimites com a Colômbia (1826/1881) 3. Tratado deLimites de Bogotá, de1907
4.Tratado de Limites do Rio de Janeiro, de 1928
5. Limites com a Venezuela
XXIII
—
Limites com o Peru. 1.Antecedentes coloniaisa)Tratado de Madrid, de 1750
b) Tratado de Santo Ildefonso, de 1777 2. Convenção Especial de Lima, de 1851
3. Tentativas de demarcação da linha divisória (1861/1902) ...
4. Povoamento do Alto Juruá e do Alto Purus
5.Tratado do Rio de Janeiro,de 1909
XXIV
—
O Brasil na Primeira Guerra Mundial. 1. Aneutralidade brasileira e o bloqueio alemão2. Rompimento de relações com a Alemanha 3.Reconhecimento e proclamaçãodo estado de guerra
4. O Brasil na Primeira Guerra Mundial XXV
—
O Brasil na Segunda Guerra Mundial.1. A neutralidade americana
2.Violações da neutralidade americana pelos beligerantes 3. Rompimento de relações com a Alemanha, Itália e Japão . .
4. Declaração do estado de guerra
5. O Brasil na Segunda Guerra Mundial XXVI
—
O Brasil e o Pan-americanismo.1. Diversidade americana
2. O ideal pan-americanista
3. Conferências Internacionais Americanas 4. Novas tendências do pan-americanismo
155 155 156 156 158 159 162 164 164 164 165 166 168 170 171 172 172 172 173 176 178 178 180 180 180 181 183 185 186 189 190 191 193 195 197 199 200 202 203 205 206 209
HBHHBBH
1
ÍNDICE DASILUSTRAÇÕES
Fóliosextodo Tratado de Tordesilhas / Dom
João
III entre págs.32 e33 Embaixadores e plenipotenciáriosde Portugal e Espanha / Dona Maria Bárbara deBragança .. entre págs.48 e 49
entre pdgs.112 e113 Dom
João
VI / PaulinoJosé Soares deSousaJosé Maria da Silva Paranhos / José Maria da Silva ParanhosJúnior
entre págs.128e 129 12
SiBiSo
rttttITftAt
VFES
I
A PARTILHA LUSOESPANHOLA DASTERRAS
DESCOBERTAS NOSÉCULO XV. AS BULAS PAPALINAS
2 O TRATADO DETORDESILHAS
1.
Ratificações
da
política
expansionista
portuguêsa
pela
Santa
Sé
Acima das nações cristãs, colocava-se na Idade Média, e mesmo início da Idade Moderna, a Santa Sé. Constituindo verdadeira autori¬
dade supernacional sua ascendência moral era reconhecida e procla¬
mada, inclusive através do pagamento de tributos e do envio de em¬
baixadas de submissão e respeito. Admitia-se, então,
que
sòmente à Cúria Romana competia distribuir, entre os príncipes católicos, a mis¬ são cristianizadora a ser desenvolvida, violenta ou pacificamente, em ilhas e terras dos infiéis. Essa atribuição acarretava, portanto, o reco¬nhecimento da respectiva soberania, sobre as zonas
que conquistassem.
De acordocom esse princípio, ainda em pleno século XIV,comopre¬
núncio da futura expansão marítima de Portugal, recorreu o Rei D. Afonso IV ao Papa Clemente VI, reivindicando direitos sobre as IlhasAfortunadas ou Cariarias.
Iniciada, com a conquista de Ceuta, a ação ultramarina do reino peninsular, do Papa Martinho V obteve D.
João
I, em 1418, a bulaSane Charissimus,
que
concedeu à emprêsa marroquina o caráter de cruzada, com todas as suas consequências.Resolvendo-se
a prossegui-la, não deixou o seu filho e herdeiro derecorrer ao sumo pontífice. Êste, Eugênio IV, pela bula Rex Regum,
de 1436, expressamente declarou
que
“ficariam sujeitas a D. Duarte e seus sucessores as terras por êle conquistadas aos infiéis".A êsse tempo, perém, um novochefe e outroorganismoeram incum¬
bidos, em Portugal, da missãoexpansionista rumo às índias.
Referimo-nos ao infante D. Henrique e à Ordem de Nosso Senhor
Jesus
Cristo,de que era mestre. Dirigindo-se ao mesmo papa, reconheceu-lhe êste,
pela bula Etsi Suscepti, de 1442,
que,
depois de sua profissão naquelamilícia, poderia reter, administrar e legar as terras
portuguêsas
ounão,
que
lhe fôssem doadas, bem como as ilhas do mar Oceano. Emconcordância comessa autorização, coube à Ordem de Cristo propiciar
o povoamento e a exploraçãoda Madeira, Porto Santo, Açores e Cabo no
Verde, futuros modelos iniciais da colonização do Brasil, através do regime das
capitanias
hereditárias, da cultura da cana-dc-açúcar e dautilização do trabalho escravo.
A primeira restrição nas concessões papalinas feitas a Portugal apa¬
receuna nova bula Rex Regum,do mesmoEugênio IV,de 1443, dando
a categoria dccruzadaàs expedições
que
a D. Afonso Vassegurariam ocognomede Africano.Ressalvou,aí,osdireitosalegados por
João
II, reide Castela e Leão, relativamente às terras que houvessem pertencido aos seus antecessores, as quais não estariam compreendidas nas que
fossem tomadas aos infiéis, e que ficariam pertencendo àquele sobe¬
rano português e aos seus sucessores.
Outras confirmações de seus privilégios, e mesmo verdadeiras am¬
pliações de encargos, obteve de novos papas a Ordem de Cristo. Assim,
pela bula Romanus Pontifex,de 1454,de Nicolau V, foi-lhe concedida
a jurisdição espiritual das terrasqueselocalizassem desde o Cabo Não
até aíndia. Confirmou-a, pela primeira bula denominada Inter ccetera,
de 1456, o Papa Calisto III,expressamente citando as ilhas do oceano,
as zonas desde os Cabos Bojador e Não, por toda a Guiné, e além,
“até os Indos”.
Aquela citada exceção em favor de Castela e Leão, foi aceita por
Portugal através do Tratado de Alcáçovas, de 1479, subsequente à desastrosa guerra
que
pôs termo ao remado de D. Afonso V, aoreco-g nhecer à nação vizinha a
posse
das Canárias, sem prejuízo, porém, dacontinuidade da ação ultramarina portuguesa. Isso mesmo, pela bula
ALterni Regis,de 1481, de conformidade com outros costumes da época,
aprovou o Papa Sisto IV.
Seu sucessor, Inocêncio VIII, pela bula Orthodoxce fidei, de 1486,
aplaudiu e incitou D.
João
II a que continuasse os descobrimentos portugueses.2.
As bulas de
Alexandre
VI
Os últimos pontífices mencionados,Sisto IV e Inocêncio VIII, não
mantiveram boas relações com o Rei Fernando de Aragão, casado com a Rainha Isabel, de Castela e Leão, e, como os papas, interessado na
situação política da Itália
por
ser também rei da Sicília.Conseqúen-temente, esforçou-se êsse soberano para que o novo papa a ser esco¬ lhido lhe fosse afeiçoado. Conseguiu-o completamente, pela eleição,em
1492, do cardeal aragonês Rodrigo Eórgia, o célebre Alexandre VI.
Exatamente por essa época descobriu Cristóvão Colombo, por conta dos reinos de Castela e Leão, o que supunha ser um novo caminho
para as índias
—
objetivo que também tinham, como vimos, Portugale aOrdem de Cristo.
Aportandoa Lisboa, de volta da grande viagem, em
março
de 1493,foi recebido por D.
João
II de Portugal que lhe fêz ver pertenceremà sua Coroa, de acordo com as citadas concessões papalinas, as novas
ilhas então descobertas. Retorquiu-lhe o navegante
que
não velejaraem águas portuguesas, em obediência às instruções recebidas antes
da
partida.
Conhecedores, os futuros Reis Católicos, dos títulos de legitimidade
de direitos de
que
podia dispor o rei de Portugal,apressaram-se
a pro¬mover a sua revogação, valendo-se do prestígio de que gozavam na Cúria Romana.Utilizando-se,
para
isso, doCardeal Carvajal, obtiveramdeAlexandreVI, em abrildaquele ano, porém datada de 3 demaio(*), a nova bula Inter ccetera, pela qual lhes foram concedidas, como aos seus herdeiros e sucessores, “todas e cada uma das sobreditas terras e
ilhas desconhecidas e até hoje por vossos emissários achadas e a serem
achadas,
para
o futuro, as quais não estejam constituídas sob o atualdomínio temporal de nenhuns príncipes cristãos”. Isto fazia, “porque
de todas as obrasa mais agradável à Divina Majestade éque a religião cristã seja exaltada edivulgada em tôda parte; que a salvação da alma
humana seja assegurada em todos os países, e as nações bárbaras sejam subjugadas e convertidas à Fé Católica ”(2).
Tendo notícia, provavelmente, da oposição despertada em Portugal
poressa bula,por uma outraInterccetera, datada de 4 demaio, porém
expedida da Câmara Apostólica a 28 de junho, resolveu o papa dis¬
tinguir as concessões espanholas das portuguesas, outorgando aos reis de Castela, Leão e Aragão “tôdas (essas) ilhas e terras firmes achadas e
por
achar,descobertas ou por descobrir,para
o Ocidente eo MeioDia,fazendo e construindo uma linhadesde o Polo Ártico, a saberdo
Seten-trião atéao Polo Antártico, a saber Meio Dia,
quer
sejam terras firmes e ilhas encontradas e por encontrar em direção à índia, ou em direçãoa qualquer outra parte, a,qual linha diste de qualquer das ilhas
que
vulgarmente são chamadas dos Açores e Cabo Verde cem léguas parao Ocidente e oMeioDia,de tal modoquetôdas as ilhase terras firmes,
achadas e por achar, descobertas e por descobrir desde a sobredita linha para oOcidente e o Meio Dia não tenham sido possuídas atual¬ mente por outro rei ou príncipe cristão até ao dia da Natividade de Nosso Senhor
Jesus
Cristo, próximo pretérito, a partir do qual começao presente ano de 1493, quando foram pelos vossos emissários e ca¬
pitães achadas algumas ilhas antes ditas”. É esta a chamada “bula da
partição”(3).
(1) Aquestão das verdadeiras datas de saída das bulas de Alexandre VI da Câmara Apostólica foi revelada por van der Linden no trabalho intitulado "Alexandre VI and the Demarcation of the Maritime and Colonial Domains of Spain and Portugal", publicadp na The American Historical Review, vol.16, de l.° deoutubro de 1916, apud laimeCortesão
—
Le Traité de Tordesilhas et la Découverte deTAmérique, conferência noXXII Congresso In¬ ternacional dos Americanistas, reunido em Roma,1926.—
Oassunto foi revisto por ManuelGiménez Fernandez, em Nuevas Cor.sideraciones sobre la Historia, Sentido y Valor de las Bulas Alejandrínas de 1493 referentes a las índias (Sevilha, 1944).
(2) J.Capistrano de Abreu
—
ODescobrimento Go Brasil, ed. da SociedadeCapistranode Abreu (Rio de laneiro, 1929), pág. 230.
(3) A bula Inter coetera, de4.V.1493, tem sido transcrita em várias coleções de tratados e obras especiais, relacionadas por José Carlos de Macedo Soares
—
Fronteiras do Brasil noRegimeColonial (Rio, 1939), págs.57/58.Acrescente-seà referida lista: Cap. Omar Emir Chaves—
Fronteiras do Brasil (Limites com a República da Colômbia), Biblioteca Militar,Ainda por uma bula Eximia Devotionis, datada dc 3 dc maio do
mesmo
ano, porém expedida em julho, estendeu aos reis espanhóis osmesmos
privilégios antesconcedidos aos reis de Portugal, nosseguintestêrmos:
“Como, porém, pela Sé Apostólica tenham sido concedidos diversos privilégios, graças,liberdades, imunidades, isenções, faculdades,letraseindultos a algunsreis de Portugal, osquais nas partes daÁfrica,
da Guiné, da Mina de Ouro e alhures acharam e adquiriram ilhas por uma semelhante concessão e doação apostólica também a eles feitas,
—
nós, como é digno e conveniente, querendo também favorecer comnão menores graças, prerrogativas e favores a vós (aos Reis Fernando e Isabel) e aos vossos ditos herdeiros e sucessores... concedemos
que
nessas
ilhas e terras por vós ou em vosso nome recentemente achadas ou por achar no futuro... possais e devais usar, possuir e fruir tôdas e cada uma dessasgraças, privilégios, isenções,liberdades, faculdades, imu¬nidades, letras e indultos concedidos aos reis de Portugal” (4).
Persistindo, entretanto, a inconformidade de Portugal relativamente
aessas tresbulasde AlexandreVI, lembrando-seeste, ou seus conselhei¬ ros,
que
na extensão averbada na Eximia Devotionis haviam sido omi¬tidas as concessões antes feitas à Ordem de Cristo, resolveu revogá-las,
implicitamente
fazendo-o na nova bula Dudum siquidem, datada de25 de setembro de 1493, mas com toda probabilidade expedida
poste-riormente(5), ao referir-se às doações anteriores, inclusive feitas “a
infantes e milícias”, o
que
claramente indicava D. Henriqueea Ordemde Cristo, tendo por “incertas” as terras por êles na ocasião não pos¬
suídas. Nela, ao contrário, como nova prova de favoritismo, além
disso se estabelecia
que,
no caso de capitães e emissários de Espanha, navegando parao Ocidente e Meio Dia,aproximando-se do Oriente, aíacharem terras firmes e ilhas, também estas ficariam pertencendo aos
reis de Castela, Leão, Aragão eaos seussucessores. Para Capistrano de Abreu, por essa bula ficaram revogadas até mesmo as garantias antes
asseguradas a Portugal pelo próprio Alexandre VI(G).
Não será necessário acentuaraqui a parcialidade dessas quatro bulas,
que não tinham em vista galardoar a futura Espanha pelo descobri¬
mento da América, ainda não reconhecida como um continente, mas transferir àquele conjunto de reinos concessões anteriormente feitas a Portugal.
Basta-nos verificar que um erro essencial impossibilitava a aplicação
da segunda Inter ccetera de Alexandre VI, quanto ao meridiano de
demarcação
nela estabelecido. Diz a referida bula queficava concedidoaosReisFernando, Isabel e aos seussucessores,odomínio sobre tôdas as
ilhas ou terras firmes, descobertas ou por descobrir, que ficassem além de um meridiano que
passasse
a cem léguas a oeste de qualquer dasilhas dos Açores e Cabo Verde. “A bula diz precisamente assim
—
(4) José Carlos de Macedo Soares
—
op. cit., pág. 31. Na mesma obra encontram-se transcritos os textos de várias outras bulas aqui mencionadas.(5) Jaime Cortesão
—
op. cit. Também essa bula teria sido antedatada, porque sópoderia ser redigida medianteinformações de Colombo, que levariamcerto tempo para se¬
remenviadas da Espanha e aproveitadas em Roma. (6) J. Capistrano de Abreu
—
op. cif., pág. 231.escreveu o historiador português Professor Damião Pcres
—
mostrandoo seu tutor um desconhecimento bastante grande da posição do Cabo Verde e dos Açores, visto
que
estando os referidos arquipélagos em longitudes assaz diferentes,aquela frase fica sem sentido” (7).Além disso, era muito yaga a expressão
—
“para o Ocidente e o Meio Dia”, querendo significar—
para oestee para o sid dos Açores e de Cabo Verde, simultaneamente.Também impossibilitava, ou pelo menos dificultava a demarcação,
a prescrição de que a linha seria traçada a partir de "qualquer” das referidas ilhas, como se constituíssem um só grupo.
O nosso grande historiador Francisco Adolfo de Varnhagen foi dos
primeirosaassinalar, emsua História Geral do Brasil, a falta de clareza de linguagem das bulas de Alexandre VI e odesrespeito às concessões
antes feitasa Portugal (8).
Embora ainda hoje exista
quem
defenda aquela partilha do papa(9),mesmo pouco depois de sua tentativa houve quem contestasse êsse poder, defendido apenas por seus interessados patrícios. Francisco Vi¬
tória, célebre teólogo dominicanoespanhol, sustentou, a propósito,
que
o papa não era senhor docivil e do temporal de todo o mundo; sua
ação é espiritual e não temporal; não tem autoridade sôbre índios e infiéis.Assim, as bulas não seriam uma partilha de terrase sim apenas
adeterminaçãodesuas partes em que uns e outros (portuguêses e
espa-nhé)is) deviam
propagar
ocristianismo. Grócia, um século mais tarde,examinando a questão, ligou-a à liberdade dos mares e do comércio,
contestando a legitimidade de qualquer atitude do papa que criasse monopólios (10). Foi porém, respondido, quanto ao valor dos descobri¬
mentos e das concessões papalinas, pelo jurist! frei Serafim de Freitas,
em seuDe
Justo
ImpérioLusitanorum (11).3.
Tratadode Tordesilhas
Diante da injustiça das bulas de AlexandreVI, protestou D.
João
II junto à Cúria Romana e aos reis seus vizinhos, por elas beneficiados. Nesse sentido, mandou agentes à Espanha, com a proposta de umanova divisória dos respectiios domínios ultramarinos, menos prejudicial que a da Inter ccetera. Sugeriu
que,
em vez de um meridiano, fôsse(7) Damião Peres
—
"D. JoãoII: o seu pensamentoe ação", in História da ExpansãoPortuguêsa no Mundo, vol. II, (Lisboa, 1939), pág. 15.
(8) '/isconde de Pôrto Seguro
—
HistóriaGeral do Brasil, 3.a ed. integral, tomo I (São Paulo, 1928), pág. 68.(9)‘ Como Joseph Lecler
—
"Aa tour de la Donation dAlexandre VI(1493)" in Études,Paris, tono 237, n.° 17, de 5.X.1938. Sustentou a jurisdição pipalinasôbre as ilhas,doséculo XI ao X7, L. Weckmann, em LasBulas Alejandrinas de1493 y la Teoria Política del Pa¬
padoMedieval Estúdio de laSvpremacia Papal sobreIslas. 1091-1493(México, 1949). (10), Cf. Clóvis Beviláqua
—
"As Capitanias Hereditárias perante o Tratado de Tor¬desilhas', in Revista do InstitutoHistórico e Geográfico Brasileiro, tomo especial, do Pri¬
meiro Congresso de História Nacional (1914),Parte II (Rb de Janeiro, 1915), págs. 9/10.
(11) Edgar Prestage
—
Descotridores Portuguêses, tradição portuguêsa, 2.a ed. (Lisboa, 1943) pegs. 313/314.—
Discutiu-se no século XVI, e ainde hoje constitui tema histórico, alegitimidade do direito dos reis espanhóisàs índias, isto é, às novas terrase ilhas desco¬
bertas, de acordo com as bulas abxandrinas e o Tra'ado deTordesÿhas. Cf. Juan Manzano
y Manzano
—
La Incorporación de las índias a la Corona de Castilla (Madri, 1948).adotado como limite um paralelo,
que,
a partir das IlhasCanárias parao norte,
separasse
das portuguesas as terras e ilhas quepertenceriam
aos reinos unidos de Castela, Leãoc Aragão. Reservando-se, assim, mais do que todo o hemisfério Sul ainda desconhecido, ficaria com a maiorparte da índia c todas as ambicionadas ilhas das especiarias.
Malogradas, porém,
essas
primeiras negociações diretas, pensou emrecorrer à violência, ou á simples
ameaça, para
torná-las viáveis. Assim, mandou aprestar uma armada, que seria comandada por I). Franc iscode Almeida, destinando-a a realizar a ocupação das terras descobertas
por Cristóvão Colombo, ou a decidir a
questão
pela guerra, nos pró¬prios locais cuja posse estava em discussão.
Sabedores dessa atitude do rei português, apressaram-se os soberanos espanhóis a mandar-lheemissários, com sugestões conciliatórias. Agiam,
assim, temerosos de um conflito, ou já influenciados pelas vigentes di¬
ficuldades da política italiana de Fernando de Aragão, rei também
daSicília. Conseguiram, portanto,que fossem suspensos os preparativos
de mais uma
guerra
na Península Ibérica, comprometendo-se a novosajustes quanto à partilha dos domínios ultramarinos. Houve, talvez,
a idéia de ser reformada aquela bula papalina, ou de fazê-la emendar,
como escreveram a Colombo os próprios reis espanhóis(12).
O resultado de todas essas negociações foi a conclusão, na povoação
castelhana de Tordesilhas, a 7 de junho de 1494, do Tratado
que
dela tomou o nome, embora fosse originàriamente intitulado “Capitulaçãoda partiçãodo mar Oceano".Dele foram signatários, por Portugal, Rui de Sousa,Senhorde Sagres, seu filho
João
de Sousa eolicenciado Aires de Almada. Como testemunha, assinou-o Duarte Pacheco Pereira,então“contínuo
da casa do rei”.De acordo com a sua parte essencial, convinham os reis de Portugal e Espanha em “se fazer e assinalar no dito mar Oceano uma raia ou
linha direita de pólo a polo, a saber,do póloártico ao polo antártico,
queé de nortea sul, a qual raiaou linha se tenha de dar edê direita,
como ditoé,a trezentase setenta léguas dasIlhas de Cabo Verde,
para
a parte do poente, por graus ou por outra maneira, como melhor c mais depressa se possa dar, de modoque
não sejam mais, e que tuclc oque atéaqui se tem achadoedescoberto, edaqui por diantese achaie descobrir pelodito senhor rei de Portugal e por seus navios, assirr ilhas como terrafirme, desde a dita raia ou linha,dada na forma acimz dita, indo pela parte do levante, dentro da dita raia para a parte dc levante, ou ao norte, ou ao sul dela, tanto que não seja atravessando
a dita raia, que isto seja e fique e pertença ao dito senhor rei de Por
tugal e aos seussucessores para sempre”(13). Se, porém, Colombo, qu<
havia novamente partido para as suas índias Ocidentais, descobrissi
outras terras até o dia 20 de junho, situadas a mais de 250 léguas d<
Cabo Verde, ficariam elas para a Espanha. Concordando com essa con
(12) Luciano Pereira da Silva
—
"Duarte Pacheco Pereira—
Precursor de Cabral'in História da Colonização Portuguesa do Brasil, vol. I, (Porto, 1921), págs. 233/234.
(13) J. Capistrano de Abreu
—
Prolegômenos à História do Brasil, (1500-1627), de fr<(lição, forneceram os portugueses um indício de que então já conhe¬
cessem melhor as terras americanas, pois naturalmente sabiam que
dentro daquele
prazo
o almirante não encontraria quaisquer terras Mas, mesmo se o fizesse, estaria preservada para Portugal certaparte delas, isto é, do Brasil.
Também no Tratado de Tordesilhas infiltrou-se um defeito subs¬ tancial, que motivou futuras complicações: não ficou determinada qual
das ilhas do Arquipélago de Cabo Verde serviria de ponto de partida
para a contagem das 370 léguas, que prevaleceram. Da mesma forma, não ficou esclarecida qual seria a quantidade de léguas contida em
cada grau,
pois
havia divergência a respeito de sua dimensão. Qual¬quer
que
fosse a preferida, sempre uma parte, maior ou menor, do continente americano, estaria assegurada a Portugal. “A política, hábil,sábia c persistente de D.
João
II conduziria Portugal a um grande triunfo: conservandooexclusivo da índia,assegurava também a futuraposse do Brasil" (14).
O tratado, assinado em Arévalo, a 2 de julho, e aí ratificado, pelos reis de Espanha, a 2 de agôsto, foi também confirmado, em Setúbal,
pelo soberano português, a 5 de setembro do mesmo ano de 1494.
Somente, porém, em 1506, por solicitação de D. Manuel I, o Papa
fúlio
II, pela bula Ea queepro
bono pads, autorizou o arcebispo deBraga e o bispo de Viseu a ratificarem, pela Santa Sé, o convénio. Em 1514, pela bula Precelsa devotionis, renovou o Papa Leão X as
concessões feitas a Portugal por seus antecessores, inclusive as terras
tomadas aos infiéis, não só até às índias, mas em qualquer outra re-gião (15).
Aprovado, assim, pelos novos papas, representou o tratado, inicial¬
mente, um grande esforço português "para atenuar o golpe vibrado pelas bulas de Alexandre VI na expansão marítima, de conquista e comércio,
que,
tãogalhardamente, ia Portugal levando por diante" (10).Até 1750,
quando
foi revogadopeloTratado de Madrid, será o Tratado de Tordesilhas "a peça mais importante de nossa história diplomática".novas.
4.
Tentativas
dedemarcação
do meridiano do Tratado
de Tordesilhas
Determinava o Tratado de Tordesilhas que a demarcação das 370 léguas a oeste de Cabo Verde seria feita conforme resolvessem os pi¬
lotos, astrólogos e marinheiros das duas partes interessadas, que dentro
dos dez meses seguintes à sua assinatura fossem àquelas ilhas, e daí
partissem, em duas ou quatro caravelas, até ao ponto desejado, que
seriaassinaladopor grausdesoloudenorte,ou porsingradura de léguas. Embora fossem nomeados os representantes de Portugal e Espanha
que deveriam desempenhar essa missão, foi adiada a sua partida,
mu-(14) Damião Peres
—
op. cit., pág. 15.(15) Edgar Prestage
—
op. cit., pág.356. (16) Clóvis Beviláqua—
op. cit., pág. 26.V dado o prazo de seu cumprimento, prorrogada, e, afinal, esquecida aquela obrigação, por conveniência, sucessivamente, das duas monar¬
quias interessadas. A princípio da Espanha,
que
queria ficar com asMolucas e Filipinas; depois de Portugal, que não desejava perder
territórios brasileirossituados além da linha a ser demarcada, por mais
arbitrários
que
fossem os respectivos cálculos.Acrescente-se, ainda,para
explicar o prolongamento dessa situação, a vigência, durante sessenta anos, da união das coroas ibéricas, suficiente
para
afastar, então, agravidade de
quaisquer
conflitos de fronteiras.A primeira discussão a respeito da demarcação do meridiano fixado em Tordesilhas travou-se quanto à escolha de qual das Ilhas de Cabo
Verde deveria ser começada a contagem das léguas. Porque o arqui¬ pélagocompreende quatorze ilhas principais,espalhadas numa extensão de três graus geográficos, divididas em dois grupos
—
o de Barlavento e ode Sotavento.Assim, enquanto já em 1495 opinava o catalão
Jaime
Ferrerque
a contagem deveria partir da Ilha do Fogo, a mais central de tôdas, outros cosmógrafos, posteriormente, acharam que a marcação deveriacomeçar da Ilha de Santo Antão, a mais ocidental das de Barlavento. Em 1502,o
mapa
português denominado de Cantino adotou a mais oriental das linhas de partida, visando a beneficiar os portuguêses nasricas ilhas das especiarias, e não no
quase
desconhecido Brasil. Destaforma, iriaela passar a 42°30/ oeste de Greenwich, isto é, um pouco
além da foz do Rio Parnaíba,no Maranhão. Outras cartas portuguêsas
da época, pelo mesmo motivo mantiveram idêntica orientação.
Aproximou-se entretanto da verdade Duarte Pacheco Pereira, no
Esmeraido de Situ Orbis, começado em 1505, colocando o nosso país “por 28° de ladeza contra o pólo antártico”, istoé, de Marajó à Ilha
de Santa Catarina (17).
Sustentava-se, entretanto, no segundo decénio do século XVI, que
as valiosas Molucas ficavam na parte reservada à Espanha. Defensores dessa idéia foram os navegadores
João
Dias de Solíse Fernão de Ma¬ galhães, portuguêses entretanto a serviço daquele país, os quais, comoé sabido, antes de ultimarem as suas missões, pereceram às mãos dos indígenas, um aoexplorar o Rio da Prata, em 1516, osegundo quando comandavaa primeira viagem de circunavegação, numa das Ilhas Fili¬
pinas, cm 1521.
A esse tempo já estava bem conhecida toda a extensão da costa marí¬
tima do Brasil. É oque sededuz do exame domapa de Lopo Homem, de 1519, em que são numerosos os acidentes geográficos assinalados da foz do Amazonas à do Rio da Prata, um pouco além das quais ban¬ deiras de Portugal assinalavam as pretensões dêsse país, embora pela mesma época o geógrafo Enciso fizesse passar a linha dc Tordesilhas a 45°38’ oeste de Greenwich, entre os Rios Turi-açu e Gurupi, ainda
no Maranhão.
I
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(17) Interpretação de Jaime Cortesão
—
"Relações entre a Geografia e a História do Brasil", in Históriada Expansão Portuguesa no Mundo, cit., vol. II, páqs. 22/23.JO' 4J* 4.7* 44* *.*• *3* Ai» 40* 39* 3ft* 37* X» ay 3'* 3** »* »»* r?; I1! ll, a; 2* CdoNorte
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(1495),Cantino (1502), Enciso (1518), dos peritos de Badajoz (1524), Diogo Ribeiro (1529) e Oviedo (1545). (Apud H. Harrisse — The Diplomatic History of America,
Londres, 1897).
A viagem de Fernão de Magalhães,ultimadapor
Juan
Sebastian delCano, reacendeu a questão da legitimidade da posse portuguesa das
Molucas. Para discuti-la, reuniram-se representantes de Portugal e da
Espanha na fronteira dos dois países,entre Eivas e Badajoz, em 1524. Conquanto fôsse um dos pontos a resolver a questão da Ilha de Cabo Verde da qual partiria a contagem das léguas do Tratado de Torde¬ silhas,nada se fez de definitivo, a êsse respeito (18). De acordo, porém,
com as propostas então aparecidas, passaria a linha de demarcação, no
Brasil, já pelas alturas do Rio Gurupi, a 46°36' oeste de Greenwich,
entre o Pará e o Maranhão.
À vista do desentendimento das negociações diretas, continuaram os
espanhóis a tentar a posse das Molucas, não atingindo, entretanto,
êsseobjetivo, váriasexpedições paralápreparadas, via América do Sul. Com isto,atendendo àsprecáriascondiçõesdo tesouroespanhol, conveio
o Imperador Carlos V emretomar negociações com D.
João
III, ulti¬madaspela chamadaCapitulação de Saragoça,de 1529,pela qualcedeu
a Espanha os seuseventuais direitos àquelas ilhas contra o pagamento
de 350.000 ducados deouro.
Quanto
ao Brasil, no mesmo ano fixavaDiogo Ribeiro a passagemda linha de demarcação um pouco mais adiante das anteriores, sobre
a Ilha de Marajó, a 49°45' oeste de Greenwich(19).
Ainda como possível tentativa portuguesa de alargamento da americana que lhe competia, deve ser registrada a colocação de um
zona
(18) Cf. Alfredo Pimenta —D.JoãoIII(Porto, 1936),págs. 140/141.
(19) Todas essas demarcações,desde a de Cantino, conforme o mapa de H.Harrisse,
in The Diplomatic History of America (Londres, 1897), reproduzido na 3.a ed. integral da História GeraldoBrasil,do Visconde de Porto Seguro, cit., tomoI, pág. 122.
marco lusitano no esteiro dos Carandins, no baixo Rio Paraná, um
pouco
além do Rio da Prata, por Pero Lopes de Sousa em 1531, na expedição de defesa, exploração, posse e povoamento de seu irmão Martini Afonsode Sousa. Preferindo este fundar a primeira vila bra¬ sileira em São Vicente, no início do ano seguinte, perceberam os espa¬nhóis o perigo que para êles representavam êsses dois fatos, e logo cuidaram de retomar, em bases mais sólidas, a empresa de
apossa-mento do Prata (20). Nesse sentido, trataram de fundar, pela primeira
vez, o porto de Buenos Aires,.em 1536, obtendo, assim, a precedência povoadora
que
lhesgarantiu, desdeentão, a margem direita doestuárioplatino.
Enquanto assim consolidavam os espanhóis os seus domínios ao sul,
atingiam as pretensões portuguesas a sua máxima extensão no con¬
tinente. Em 1537, Pedro Nunes, primeiro cosmógrafo-mor de Portugal,
traçou como limite das 370 léguas a oeste das Ilhas de Cabo Verde, fixadas em Tordesilhas, uma linha
que
cortaria o Brasil “além daponta do Rio das Amazonas, da parte do oeste, no porto de Vicente
Pinzón” (a foz do Oiapoque, extremo costeiro atual) “e corre pelo sertão até além da Baía de São Matias”(21), na Argentina de hoje. Depois disso, não foram registradas novas tentativas de demarcação
do meridiano do Tratado de Tordesilhas, embora fosse sabido que sua
medição caía maisou menos sôbre Belém do Pará, ao norte,e Laguna, ao sul. A união das coroas ibéricas adormeceu a questão por sessenta
anos. Quando, depois, fêz-se a paz, entre a Espanha e Portugal, em
1668, não cogitaram osdois países dos limites de seus territórios ultra¬
marinos. Mas a fundação da Colónia do Sacramento, em 1680, iria agitar novamente a questão, até a celebração do Tratado de Madrid,
em 1750,queanulou ode Tordesilhas. Revigorado, porém, pelo acordo de Pardo, de 1761, sòmente pelo Tratado de Santo Ildefonso, de 1777,
ficaria sem efeito, afinal, a “Capitulação da partição do mar Oceano”, de 1494.
4
(20) Cf. Enrique de Gandía
—
Antecedentes diplomáticos de lasexpediciones de JuanDiaz deSolís, Sebastián Caboto y don Pedro de Mendoza (Buenos Aires), 1935.
(21) Frei Vicentedo Salvador
—
História do Brasil, cit., páq. 18.II
POLíTICA INTERNACIONAL PORTUGUESA, REFERENTE
AO BRASIL, ANTES DA UNIÃO DAS MONARQUIASIBÉRICAS.
CONQUISTA DA COSTALESTE DO BRASIL. 1) LUTASCONTRA OS FRANCESES. 2)COMPETIÇÃO LUSO-ESPANHOLA
NO RIO DA PRATA E NA COSTA SUL
Até que ocorresse a união das monarquias ibéricas, em 1580,
carac-tcrizou-se a política internacional portuguêsa dos reinados de D. Ma¬
nuel I, 1).
João
111 e I). Sebastião pela preservação do país às conse¬ quências dosdissídios religiososque
durante quase todo o séculoensan¬
guentaram a Europa. Para a obtenção desse notável resultado, tantose utilizou o Reino da introdução da Santa Inquisição como de sa lutar isolamento político, relativamente às contemporâneas contingên¬ cias européias.
Começou essa
situação
sob o prestígio resultante do descobrimentodo caminho marítimo
para
as Índias, com todos os seus efeitos eco¬nómicos. Ultimou-se,ainda na era manuelina, a conquista de Marrocos, cujo abandono, em benefício do Brasil e do Oriente, começaria no governo seguinte. As boas relações com a Espanha, inclusive por in¬ termédio de sucessivos casamentos reais, não impediram que Portugal
sustentasse com o Reino vizinho tanto a competição nos mares longín¬
quos, temporariamente resolvida pelo acordo deSaragoça, como a sua
conveniente neutralidade, durante os conflitos surgidos entre Carlos V
e Francisco 1 de
França.
Pendências entretidas com êste último país,a propósitodo ilícito tráficode entrelopos na América, armadores fran¬
ceses que aqui contrabandeavam pau-brasil, não chegaram à
guerra,
limitando-se às reclamações diplomáticas e recíprocos pedidos de
inde-nizações. Preferiu D. |oão 111 negociar a lutar, embora a tanto chegasse
a regência da menoridade de D. Sebastião, para a conquista do Rio
de
Janeiro.
Também quanto aos eventuais ataques inglêses, depois dereclamações aos governos de Maria Túdor e Isabel, conseguiria Por¬
tugal a promessa de
que
respeitariam os seus corsários os naviospor-tuguêseseascostasdeseusdomínios (1).
Esta situação, plenamente favorável aos interêsses da expansão
por¬
tuguêsa no Brasil, seria modificada com a solução dada à questãodinástica surgidaem 1578/1580, com a morte de D. Sebastião em África e o curto reinado do Cardeal D. Henrique.
(I) Amadeu Cunha
—
Sertões e Fronteiras do Brasil(Lisboa, 1945), págs.141/147.0
1
.
Lutas
contra
osjranceses
O território hoje brasileiro não se originou de doações papalinas à coroa portuguesa, nem simplesmente de um acordo prévio entre esta
e a
espanhola,
conforme vimos no capítulo anterior. Não foi ob¬ tido apenas ein consequência da prioridade lusitana no descobrimentomarítimo oficialmente válido. Resultou de um esforço trissecular, duro
e contínuo, que devemos tanto à ação militar, administrativa e diplo¬ mática de Portugal, como à penetração realizada por particulares, en-tradistas e bandeirantes quedesconheceram as barreiras além do Atlân¬
tico opostas à sua expansão. Houve, portanto, uma conquista do Brasil
dificultosamente empreendida por nossosantepassadosportuguêses como
por seus descendentes luso-brasileiros. Começaremos agora a relatá-la,
tendo em vista historiar a formaçãode nossas fronteiras, primeiramente
a marítima, depois a terrestre.
a) Os entrelopos e as armadas de guarda-costa
Datam de 1504 as primeiras referênciasà vinda de navios franceses à
costa do Brasil, onde os entrelopos ou contrabandistas dessa naciona¬
lidade traficavam em pau-de-tinta com os indígenas. Armadores de
Dieppe, Honjleur, Saint-Malo e outros portos franceses organizavam em proveito próprio êsse comércio ilícito, com grande prejuízo do mo¬
nopólio português de pau-brasil. Seus marinheiros tornaram-se tão co¬ nhecidos dos índios,
que
estes logo aprenderam a distingui-los dos por¬ tuguêses, chamando mair aos primeiros,pero
aossegundos. “Porque ostupinambás
se aliaram constantemente aos franceses e os portuguêsestiveram a seu favor os tupiniquins, não consta da história, mas o fato
é incontestável e foi importante; durante muitos anos ficou indeciso se o Brasil ficaria pertencendo aos però (portuguêses) ou aos mair (fran¬ ceses)" (2).
Depois da viagem de Binot Paulmier de Gonneville, que em 1504
tocou em São Francisco do Sul (Santa Catarina), e depois em dois pontos ao norte de Cabo Frio, novas alusões à passagem de franceses
pela Baía deTodos os Santos aparecem em antigas informações. Tam¬ bém na carta transcrita na Nova Gazeta da Terra do Brasil, de 1514,
referências foram feitas à frequência de homens de barba ruiva, pro¬
vavelmente franceses, nas costas sul-americanas.
Dêsse mesmo ano datam as primeiras reclamações de D. Manuel,
rei de Portugal, a Luís XII de França, no sentido de serem proibidas
aquelas
viagens. Repetiu-as, pouco depois, junto a Francisco I, novo soberano francês,Jácome
Monteiro. Subindo D.João
III ao trono por¬ tuguês, sucessivos representantes mandou à França, com o mesmo ob¬jetivo, como
João
da Silveira e D. Antônio de Ataide, depois Conde da Castanheira.<ir
(2) J. Capistrano de Abreu
—
Capítulos de História Colonial (1500-1800), 2.a ed. (Rio,1928), pág. 46.
Resultando inúteis essas reclamações, pois o rei francês não queria
e não podia impedir as viagens dos entrelopos, resolveu Portugal com-batê-los no próprio litoral brasileiro. Para isso organizou as chamadas expedições deguarda-costa, em cujo comando se notabilizou Cristóvão
Jaques. Energicamente
reprimindo
o comércio ilegal, esteve êle noBrasil entre 1516 e 1519, e entre 1526e 1528, vencendo e aprisionando franceses. “Desde Pernambuco até a Bahia e talvez Rio de Janeiro,
Cristóvão Jaques deu caça aos entrelopos; segundo testemunhos inte¬ ressados, não conhecia limites sua selvajaria, não lhe bastava a morte
simples, precisava de torturas e entregava os prisioneiros aos antropó¬
fagos para osdevorarem. Mesmo assim ainda levou trezentos prisionei¬
ros para o Reino. Devia ter causado um mal enorme aos franceses”(3).
Ao lado dessa repressão, não deixou o último dos citados emissários
queforam á França,D.Antônio de Ataide, de por outros meios evitar
a repetição das viagens de entrelopos. Assim, tendo Francisco I conce¬ didoumacarta de marca a
João
Ango, pela qualera êste armador auto¬rizado a
apresar
navios portuguêses, até certa importância,comprou-a
o representante deD.
João
III, a íim de anular osseus possíveis efeitos. Temlo a reação lusitana estabelecido vigilância nos mares do Brasil,passaram os franceses de reclamados a reclamantes, alegando prejuízos
por intermédio de seu rei, nãosendo, porém, atendidos pelo soberano
português.
b)A expediçãode Martim
Afonso
deSousa e o Rio daPrata Verificando que o único modo de afastar do litoral do Brasil os traficantes estrangeirosseria dar início à colonização, com êsse objetivo mandou D.João
IIIaprestar uma armada em 1550,confiando orespec-tivo comandoa seu amigo Martim
Afonso
deSousa.Composta de duas naus, um galeão e duas caravelas, trazendo qua¬
trocentos passageiros e tripulantes, devia a expedição também combater
os franceses que aqui fossem encontrados e explorar as costas brasi¬ leiras do Maranhão ao Rioda Prata.
Partindo de Lisboa em dezembro daquele ano, já no
começo
do seguinte dava desempenho à missão de guarda-costa, apresando trêsnavios franceses no litoral de Pernambuco, onde pouco antes haviam os entrelopos atacado uma feitoria portuguêsa. Para explorar a cha¬ mada costa leste-oeste, daí foram mandadas ao Maranhão as duas
caravelas.
Prosseguindo viagem para o sul, na Baía de Todos os Santos foi en¬
contrado o seu primeiro povoador português, Diogo Alvares, o célebre
Cammuru, náufrago de 1509 ou 1510, reiteradas vêzes acusado de ter
tido relações com franceses, frequentadores habituais do litoral bra¬
sileiro (4).
CS) J. Capistrano de Abreu
—
op. cif., págs. 46/47.(O Está hoje comprovada a ida de Eiogo Alvares à França, onde, em 1528, casou-se coma índia Paraguaçu, então batizada Cctarina. (Cf. Olga Obry
—
Catarina do Brasil—
Aíndia queDescobriu a Europa (Rio, 1945), pág. 39.Estacionou algum tempo no Rio de
Janeiro,
onde MartimAfonso
mandou levantar uma casa-forte e construir dois bergantins. Conti¬ nuando a exploração, em Cananéia encontrou um bacharel degredado,o Ungua (intérprete dosindígenas) Francisco de Chaves, e cinco ou seis
castelhanos. Tendo notícias de grandes riquezas existentes no sertão,
preparou
para buscá-las oitenta besteiros e espingardeiros, os quais“segundo a tradição, trucidaram os Carijósdo Iguaçu”, quando volta¬
vam “da sua arriscada expedição’' (5).
Seriaesta, cronologicamente, a primeira entrada portuguesa dirigida
aos futurosconfins do Brasil. Ainda nas vizinhanças de Cananéia teria Mirtim
Afonso
mandado colocar padrões de posse, um dos quais estáheje
recolhido ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro(G).Prosseguindo para o sul, à entrada do Rio da Prata naufragou a
naucapitânia dafrota. Aí, perto de Maldonado, na atualcosta uruguaia, foi depois encontrado outro marco português(7).
Mandou, então, o capitão-mor, que seu irmão Pêro Lopes de Sousa em um dos bergantins, explorasse a região,o que fêz até o esteiro dos Carandins, já no Rio Paraná, onde, de acordo com o seu relato, co¬ locou “dois padrõesdasarmas d’El-Rei NOíSO Senhor’’, tomando “posse di terra”, antes de
regressar
(8).Retornandoao litoral hoje paulista, noPortode São Vicente fundou Martim
Afonso
a primeira vila brasileira, em janeiro de 1532. Aí per¬maneceu até o ano seguinte, mandando, porém,
que
Pêro Lopes vol¬ tasse a Portugal.De caminho, combateu esse navegador mais alguns navios franceses, atacando e destruindo o fortim
que
os entrelopos recentemente haviam construído em Pernambuco, em substituição à anterior feitoria por¬tuguesa.
Durantesua permanência no Rio da Prata,Martim
Afonso
de Sousa, conforme hipótese formulada pelo Visconde de Porto Seguro (9), teriaverificado,apesar da aludida colocaçãodemarcos portugueses, que essa região não pertencia a Portugal, de acordo com o
que
fora fixado noTratado de Tordesilhas. Ignorando essa verificação, ainda em 1532
comunicou-lhe D.
João
III ter mandado “demarcar de Pernambuco atéo Rio da Prata”, terras litorâneas para a distribuição,
que
pretendiafazer, de capitanias hereditárias(10). Corrigiu, porém, o engano, ao
fazer as doações de
1534/1536,
situando-as, não naquele trecho do li¬toral sul-americano, mas na costa entre o Maranhão e Santa Catarina,
dentro, portanto, dos limites estabelecidos na chamada “Capitulação
da partição do mar Oceano” (n).
(5) J. Capistrano de Abreu
—
op.ci\., pág. 58.(6) Visconde de Porto Seguro
—
História Geral do Brasil, 3.a ed. integral, tomo I, págs. 151/152, incl. nota 7, de Rodolfo Garcia.(7) Visconde de Pôrto Seguro
—
op. cit., tomo I,pág. 152, nota 8 de Rodolfo Garcia. ,(8) Diário da Navegação de PêroLopes de Sousa, 1530-1532, estudo crítico do Coman¬
dante Eugênio de Castro, 2.a ed. (Rio, 1940), tomo I, pág. 302.
(9) Op. cit., tomo I, pág. 153.
(10) Idem, pág. 166.
(11) Cf. Clóvis Beviláqua
—
"AsCapitanias Hereditárias perante o Tratado de Torde¬ silhas", na Revista do Instituto Históricoe Geográfico Brasileiro, tomo especial, do I Con¬gresso de História Nacional, parte II (Rio, 1915), pág. 19.
Sabedores, os espanhóis, tanto da exploração portuguesa do Rio da
Prata, como da fundação de nossa vila de São Vicente e da criação das
donatarias, temerosos de uma nova tentativa lusitana naquela zona
cuidaram logo de tornar definitiva a própria fixação nela, até então
precária, mediante o seu primeiro estabelecimento no pôrto de Buenos Aires, em 1536 (12).
Com isto, estavam lançadas as bases de uma competição internacio¬
nal que duraria pouco mais de três séculos, até a queda do ditador argentino Rosas, em 1852.
c) Ascapitanias hereditárias e a
defesa
do litomlPortugal, país
pequeno
e pobre,pelo importante papel desempenhado nosdescobrimentos marítimos e explorações geográficas do século XV,foi chamado a executar, na centúria seguinte, na Ásiae América como já ia realizando na África, uma ação colonizadoraque estava acima dos
seus recursos oficiais. Para não abandoná-la a outros povos, que já se candidatavama recolher os frutos de seusesforços, resolveu o governo
português recorrer à iniciativa de particulares, grandes soldados da
África e do Oriente, altos funcionários do Reino e fidalgos da Casa
Real, epie se dispusessem a correros riscos de uma empresa tão difícil quanto honrosa.
Para isto decidiu repetir no Brasil o
que
com bom êxito já efetivara,no século anterior, nas Ilhas da Madeira, Pôrto Santo, São Tomé e
Açores: a criação de capitanias hereditárias.
Mediante a cessão de alguns direitos régios aos donatários, entre os
quais os de ministrar justiça, distribuir terras de sesmaria, arrecadar
os dízimos e fundar povoações, esperava a coroa que êles se esforças¬ sem por povoar à sua custa o extenso litoral brasileiro, de modo a evitar a continuação da frequência de entrelopos em seus portos e praias. Apesar das aparências em contrário, não era êste um regime de
caráter
feudal, filiando-se antes às mais legítimas tradições portu¬guesas, de notória supremaciado poder real. Não concedendo ao titular
dosenhorio o domínio absoluto sobre asterras e sujeitando a sua ação
a normas estritas, estabeleciam as cartas de doação e os forais, que se lhes seguiram, um inteligente sistema de exploração oficial, embora
executado por intermédio de particulares.
O resultado da aplicação dêsse regime, começado por D. Manuel I com a doação da Ilhade São
João
ou Fernando de Noronha,em 1504,ao armador dêsse nome, e incentivado por D.
João
III,em 1534/1536,coma criação de mais quatorze capitaniashereditárias
—
nãofoi o com¬ pleto malogro que apenas com duas exceções tem sido alegado. Além(12) Cf. Enrique de Gandía
—
Antecedentes diplomáticos de las expediciones de JuanDiaz de Soils, Sebastián Caboto y Don Pedro de Mendoza (Buenos Aires, 1935), pág. 38.
dessas quinze, mais três
pequenas
donatarias foram criadas ainda no século XVI, perfazendo o total de dezoito capitanias do gênero(18).Se é verdade que alguns lotes então distribuídos não tiveram nem mesmo um começo de povoamento, outros, em maior número, recebe¬
ram os esforços de seus donatários, fundando-se povoações e inician¬
do-se plantações, que, mesmo precárias, eficazmente contribuíram para
a obtenção do primeiro objetivo em vista: impedir o estabelecimento
de estrangeiros em zonas anteriormente abandonadas.
Para comprovar a asserção, basta observar que, nos séculos XVI e
XVII,sòmente nasregiões onde os donatáriosnão se haviam localizado,
como no Rio de Janeiro, Sergipe, Paraíba, Rio Grande, Ceará e Ma¬
ranhão, puderam os franceses, aliados aos respectivos indígenas, opor
resistência,durantealgum tempo, aosconquistadores portuguêses e bra¬
sileiros. Ao contrário, em todos os pontos em que se firmaram nossas primeiras vilas,mesmo
pequenas
efracas, foram rechaçados os corsários e piratas, franceses e inglêses, além dos holandeses anteriores à orga¬ nização da Companhia das índias Ocidentais, cjue então corriam os mares: em São Vicente, no EspíritoSanto, Ilhéus, Bahia e Pernambuco. Não é possível fazer maior elogio à idéia da criação das capitaniashereditárias. Além da defesa da nova terra contra as ambições de es¬ trangeiros, outros benefícios resultaram do primeiro sistema adminis¬ trativo implantado no Brasil.
Eficientemente contribuindo para a defesa do território hoje bra¬ sileiro, exatamente quando êle se achava ameaçado de fragmentação, inteligentemente povoando-o de sesmeiros que constituíram a base de nossa população agrícola; proporcionando ao futuro país a riqueza
económica da indústria açucareira
—
o regime das capitanias heredi¬ tárias não deve ser julgadosòmentesob o pontode vista de suas falhas,maspelos benefícios
que
sem dúvida facultou ao Brasil, nosdois séculos e meio emque
foi vigente entre nós, até sua total extinção, devida ao ministro Marquêsde Pombal.d) O govêrno-geral e a
defesa
e conquista do litoralAs deficiências observadas no regime econquistadas capitanias here¬ ditárias, notadamente a fraqueza de algumas, quanto à defesa contra
eventuais atacantes estrangeiros ou indígenas, levaram D.
João
III à idéia da criação de um govêrno-geral, expressamente destinado a auxi-liá-las em suas dificuldades, e não simplesmente a substituí-las, como apressadamente se tem suposto.Estabelecida sua sede na Bahia, onde para isso foi fundada a cidade do Salvador, em 1549, compreendeu a maior parte dos governadores
a diferente natureza das respectivas missões,aliás prèviamcnte definidas
(13) Foram as seguintes as capitanias hereditárias criadas no século XVI: 1
—
Ilha de SõoJoão ou de Fernando de Noronha; 2—
Maranhão (l.a); 3—
Maranhão (2.a); 4—
Ceará; 5—
Rio Grande; 6—
Itamaracá; 7—
Pernambuco ou Nova Lusitânia; 8 —ÿBahia de Todos os Santos; 9
—
Ilhéus; 10—
Pôrto Seguro; 11—
Espírito Santo; 12—
São Tomé; 13—
São Vicente; 14—
Santo Amaro; 15—
Santana; 16—
Ilha da Trindade; 17—
Itaparica; 18—
Paraguaçu ou Recôncavo da Bahia.em minuciosos regimentos, modificados à medida
que
novas contin¬ gências seapresentavam.Assim é (pie ao primeiro titular do cargo, Tomé de Sousa,
compe¬
tiram, alem da edificaçãodaquela
cidade, apacificação
dos indígenase a regulamentaçãodos negócios da justiça e da fazenda nascapitanias
de Ilhéus, Porto Seguro, EspíritoSanto e São Vicente. Lutas com os
índios também ocuparam o segundo governador, D. Duarte da Costa,
comomuitosde
seus
sucessores. Ainda em seu tempo registrou-se a séria tentativa de estabelecimento francês no Rio deJaneiro,
de que tra¬taremos adiante.
Men de Sá, o terceiro no posto, obteve a expulsão dêsses invasores,
ali mandando fundar a segunda cidade real brasileira.
Ainda as lutas contra os indígenas aliados dos franceses, ocorrendo
simultaneamente em vários pontos do território colonial, forçaram o
Rei D. Sebastião a dividir o Brasil em dois governos, um de Ilhéus
para o norte, outro de Porto Seguro
para
o sul, ambos com amesma
finalidade repressora.
Novamenteunificada aadministração,comLourenço da Veiga, outros
rumos iriam ser dados à vida brasileira, cm consequência da união das monarquias ibéricas.Àsanteriores hostilidadesde franceses,vieram jun¬
tar-se as de inglêses e holandeses, repetindo-se os ataques litorâneos, até
sua
transformação
em organizada tentativa de conquista, por parte dosflamengos,
já na centúria seguinte. Todavia, evidenciando a expansãoterritorial, devem ser assinaladas, nos governos-gerais de Manuel Teles
Barretoe de D. Francisco de Sousa, os últimos do século XVI, as defi¬ nitivas
incorporações
da Paraíba e do Rio Grande (do Norte).Entre
uma e outra, durante um govêrno interino, efetivou-se a de
Sergipe
d’El-Rei. Não serão necessários maiores exemplos para comprovar a
afirmativa de
que,
durante o início da colonização portuguêsa em nosso país, aos governos-gerais competiu a centralização dosesforços
tendentes a consolidar o povoamento, principalmente lutando contra
indígenas e estrangeiros, organizando o novo Estado, presidindo ao
devassamento
de seu território, até a aproximada obtenção desuas
atuais fronteiras, e favorecendo os fundamentos de sua economia.Vejamos, agora, sucessivamente, cada uma das referidas conquistas
litorâneas,realizadas sob osauspíciosdosgovernos-geraise como auxílio mútuo dascapitaniashereditárias e reaisquedesde oiníciocaractcrizou
a nossa vida nacional.
e) Conquista do Rio de
Janeiro
Até meados do século XVI a região do Rio de Janeiro, apesar de
situada na capitania de São Vicente, ainda não havia recebido povoa¬
mento português definitivo. Por isso e pelas boas relações mantidas
com os tamoios que a habitavam, preferiram-na os franceses para
uma
séria tentativa de estabelecimento permanente, em 1555.Localizados
na Ilha de Serigipe (hoje Villegaignon), aí foram ata¬cados e vencidos pelos portugueses e brasileiros comandados pelo