AVALIAÇÃO DE LEITURA DE PALAVRAS NO ENSINO
FUNDAMENTAL
Orientadora: Prof. Dra. Fraulein Vidigal de Paula
Autora:
Bárbara Barros Campos
Universidade de São Paulo/ Instituto de Psicologia
Resumo
Este projeto de pesquisa objetivou investigar as diferenças na leitura de palavras por alunos matriculados em escolas públicas de São Paulo conforme o ano escolar; além coletar dados para estudo de normatização e validação da prova de leitura de palavras em um minuto. Neste estudo, são apresentados os dados pertinentes a 32 alunos da 6ª série de uma escola pública estadual da cidade de São Paulo, cujos responsáveis assinaram o TCLE (projeto CAEE 25581013.6.0000.5561, aprovado pelo CEP em 24/02/14). A aplicação foi realizada individualmente em uma sala da própria escola. Das palavras lidas em um minuto, em média foram apresentados 4 erros, variando entre 0 e 12 erros. Foi observada uma relação negativa entre o número de erros e o número de palavras lidas em um minuto, de modo consistente com a literatura investigada. Esta pesquisa permitiu o mapeamento das habilidades relacionadas a fluência em alunos de 6ª série, além de uma análise qualitativa dos tipos de erro apresentados.
Palavras Chaves: leitura, palavras, linguagem
Abstract
This research project aimed to investigate the differences in word reading for students enrolled in public schools in São Paulo according to the school year; besides collecting data for standardization of study and validation of word reading test in one minute. In this study, we present the relevant data of 32 students from the 6th grade of a public school in São Paulo, whose guardians signed the Informed Consent (CAEE 25581013.6.0000.5561 project approved by the CEP on 02/24/14). The application was performed individually in a room of the school. Of the words read in one minute, on average 4 erros were presented, ranging between 0 and 12 errors. A negative relationship was observed between the number of errors and the number of words read in one minute, consistent with the literature investigated. This research allowed the mapping of skills related to fluency in students from 6th grade, and a qualitative analysis of error types presented.
Introdução teórica
Neste estudo, concebe-se leitura como um conjunto de habilidades que permitem ao leitor decodificar, compreender e interpretar um registro escrito. Desse modo, parte-se do princípio que uma tarefa de leitura exige do leitor a mobilização de diferentes níveis de atividade e exploração da informação escrita sobre a qual se debruça (Moraes,1996).
Conforme evidências que dão suporte à teoria da eficiência verbal (Perfetti e Lesgold, 1981 apud Perfetti 1992, 1985), a velocidade de leitura afetaria, de maneira cumulativa, diferentes níveis de leitura, da decodificação, ao acesso ao léxico, assim como, o acesso ao conhecimento e a qualidade da compreensão de um texto. Isto porque, ao acelerar os níveis mais elementares de processamento do material escrito, maior atenção e espaço na memória de trabalho poderiam ser dispensados ao processamento de níveis mais complexos de abstração na execução de uma leitura. Poderá então direcioná-la para a compreensão e aplicação de conhecimentos sobre a estrutura e peculiaridades ortográficas do idioma relacionadas a morfossintaxe, além de investir mais em estratégias que lhe permitam melhor aproveitar seu conhecimento e ampliá-lo por meio de uma leitura mais significativa do texto. Esta automatização permite que ela não precise se servir tanto de outros recursos para alcançar uma compreensão do que está lendo.
De acordo com LaBerge & Samuels (1974 apud Wolf & Katzir-Cohen, 2001), a fluência é um resultado da automaticidade de várias outras habilidades cognitivas, na decodificação de estímulos e códigos visuais, como letras, padrões, grupos de palavras de alta frequência, etc. As definições atuais podem ser divididas nas seguintes ideias: (a) a fluência de leitura é o resultado da qualidade de leitura de palavras isoladas e do texto, podendo ser medida por meio da precisão, prosódia e taxa de leitura; (b) fluência é resultado do desenvolvimento da precisão e automaticidade em cada componente linguístico que faz parte da leitura; e (c) que a fluência é resultado da efetividade de diversos sistemas biológicos e cognitivos, que se expressa como velocidade de processamento. (Navas, Pinto & Delissa, 2009). A fluência na leitura em voz alta é percebida como suave e precisa, com a prosódia certa (Wolf & Katzir-Cohen, 2001) .
Objetivos
Coletar dados para estudo de normatização e validação da prova de leitura de palavras em um minuto, com estudantes de escolas públicas de São Paulo; Além de investigar no que difere o desempenho na leitura de palavras de estudantes matriculados em diferentes anos escolares. Neste estudo, são apresentados os dados pertinentes a alunos de 5° ano (6ª série).
Método Instrumento:
Tarefa de avaliação de desempenho em leitura de palavras em 1 minuto (Paula, 2007), com o intuito de mensurar o nível de precisão e de automatização, esta exige a leitura em voz alta de uma lista de 108 palavras durante o tempo cronometrado de um minuto. São atribuídas três
notas de desempenho ao participante, sendo elas: o número de itens lidos; o número de palavras lidas incorretamente e uma terceira, o número de palavras lidas corretamente. A aplicação é individual e ao final de um minuto a leitura é interrompida. A notação da aplicação se faz por um protocolo por participante no qual são marcadas as palavras lidas corretamente, com um ponto, as lidas incorretamente com um ‘x’ e o erro cometido marcado na palavra escrita, e feita uma barra sob a última palavra lida pelo participante. Além disto, a leitura é audiogravada durante sua realização, para facilitar futuras análises em relação aos tipos de erro e fluência.
Participantes:
Participaram desta coleta 32 alunos da 6ª série de uma escola pública estadual da cidade de São Paulo, cujos responsáveis assinaram o TCLE (projeto CAEE 25581013.6.0000.5561, aprovado pelo CEP em 24/02/14).
Procedimento de coleta e análise de dados:
A coleta de dados foi iniciada após a aprovação do mesmo pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos – CEPH-IPUSP, recebida em 24/02/14, sob o n° CAEE 25581013.6.0000.5561. A aplicação do instrumento de avaliação de leitura (LUMP) foi realizada individualmente em uma sala apropriada no prédio escola, durante o horário escolar.
Procedeu-se à análise quantitativa dos dados, por meio de estatística descritiva referente às variáveis velocidade e acurácia de leitura e da relação do tipo de relação entre as mesmas. Uma análise qualitativa foi conduzida em termos dos tipos de erro apresentados pelos participantes.
Resultados
Figura 1: Número de palavras lidas corretamente em um minuto por participante
Conforme se pode observar Figura 1 acima, o número máximo de palavras lidas em um minuto corretamente foi de 92 e o número mínimo de palavras corretamente lidas foi 13, sendo que a média de palavra lidas corretamente em minuto foi de 62 para estes alunos de 6ª série. Em
estudo com alunos do 6º ano (antiga 5ª série) de uma escola particular da cidade de São Paulo (Paula, 2007), foi observada a média de 66,75 (s = 11,56) no desempenho do LUMP, ou seja, um desempenho próximo mas ligeiramente superior ao desta coleta com alunos de 6ª série de uma escola pública de São Paulo.
Figura 2: Número de palavras lidas, e lidas com erro, em um minuto por participante
Das palavras lidas em um minuto, em média foram apresentados 4 erros, variando entre 0 e 12 erros. Observando a figura 3 acima, constatamos que mais frequentemente um maior número de erros foi apresentado pelos participantes que leram menos palavras. Há também uma relação observável entre menos erros e mais palavras lidas em um minuto.
A fluência constitui-se uma medida que leva em conta tanto a precisão quanto a velocidade de leitura. A análise dos dados acima permite observar que há uma relação positiva entre o aumento da precisão e da velocidade de processamento da leitura.
Estes dados são consistentes com a literatura a respeito da fluência em leitura que aponta para esta relação positiva entre estas duas variáveis (Bicalho & Alves, 2010; Navas, Pinto & Delissa, 2009; Wolf & Katzir-Cohen 2001; Perfetti, 1992).
Fazendo uma contagem dos erros cometidos por palavra da lista, observou-se que as palavras lidas incorretamente com mais frequência foram fixa (n= 12), crê, garra (n=10) e gramaram (n=7).
Constata-se que, com exceção da palavra crê lida como cré, indicando conhecimento a respeito de acentuação, as demais palavras lidas incorretamente com maior frequência têm em comum o fato de oferecerem pronúncias concorrentes para a mesma grafia, as quais estão ligadas ao conhecimento de regras ortográficas contextuais (garra), morfológico derivacionais (fixa lida como ficha) e morfossintáticas (como em gramaram, lida como gramarão). Tal análise permite avaliar o nível de desenvolvimento da leitura e escrita alfabética em direção ao conhecimento da escrita ortográfica, que deverá impactar a leitura.
Conclusões
Os resultados desta iniciação científica contribuem para o conhecimento das especificidades da aquisição de habilidades de leitura em escola pública em São Paulo. Mais especificamente, trabalhou-se com duas habilidades importantes para a leitura fluente de palavras, mas que são também importantes para a leitura em contexto e facilitadoras do processo de aprendizagem e compreensão leitura, quais sejam a velocidade e a precisão.
Esta pesquisa teve o mérito de oferecer as condições para que fosse iniciado o projeto de pesquisa para estudos de validação, normatização e padronização do teste de leitura em um minuto, em sua versão para o português. Permitiu o mapeamento das habilidades relacionadas a fluência em alunos de 6ª série, além de uma análise qualitativa dos tipos de erro apresentados. Em relação ao desenvolvimento da compreensão em leitura, ressaltamos que a fluência é uma das habilidades importantes, porém não suficiente para fazer emergir a compreensão. Neste sentido, novos estudos poderiam explorar como a fluência se relaciona a outras variáveis, tais como o vocabulário e a produção de inferências no desenvolvimento da compreensão de textos.
Referências
Bicalho, L. G. R. & Alves, L. M. (2010). A nomeação seriada rápida em escolares com e sem queixas de problemas de aprendizagem em escola pública e particular. Revista. CEFAC 12 (4), 608-616.
Moraes, J. (1996). A arte de ler. São Paulo: Editora da UNESP.
Navas, A. L. G. P., Pinto, J. C. B. R. & Delissa, P. R. R. (2009). Avanços no conhecimento do processamento da fluência em leitura: da palavra ao texto. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologi,. 14, 553-559.
Perfetti, C.A. (1985). Reading ability. New York, Oxford University Press.
Perfetti, C.A. (1992). A capacidade para a leitura. In: Sternberg, R. As capacidades intelectuais humanas: uma abordagem do processamento de informações. Porto Alegre, Artes Médicas.
Wolf, M. & Katzir-Cohen, T. (2001). Reading fluency and its intervention. Scientific Studies of Reading, 5, 211-239.