PECADO ORIGINAL
Novela de
RÔMULO GUILHERME
Criada e escrita por RÔMULO GUILHERME
______________________________________________________________________ Cena 01/Terreiro/Ext/Noite
Movimentação de pessoas, música. A celebração está acontecendo. O atabaque dita o ritmo da dança. Tempo. Rebeca vem se aproximando, chegando mais perto de onde as pessoas estão reunidas. Meirinho, que está no meio da celebração, participando, vê Rebeca e se aproxima dela.
Meirinho - Rebeca? Que surpresa mais agradável. Rebeca - Oi, Meirinho.
Meirinho - Resolveu aceitar meu convite?!
Rebeca - Eu vim porque estava precisando me abrir com você.
Meirinho - Todas as religiões levam a Deus! (t) Claro, vamos conversar.
Rebeca segue Meirinho. Ela passa pela imagem de Iemanjá, que está no altar, e para, fica mexida.
Meirinho - É ela, não é?
Rebeca, que estava longe, volta-se pra Marinho. Rebeca - Falou alguma coisa?
Meirinho - Iemanjá, Janaína, Rainha do mar.... foi ela quem te trouxe aqui, não foi? Rebeca - Sim. É sobre ela que eu vim falar com você, Meirinho. Além disso, eu preciso obter algumas respostas... estão muito confusa.
Meirinho - Vem comigo. Eu vou jogar os búzios pra você e os orixás vão te dar as respostas que precisa.
Cena 02/Casa Rufino/Quarto Pedro/Int/Noite
Pedro está recostado na sua cama, continuando a ler seu livro: “Pássaros Feridos”. Pedro volta na página de abertura do livro e lê:
Pedro - “Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro-alvar e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e despede um canto mais belo que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento” ...”
Pedro fecha o livro e deita na cama. Fica pensativo. Insert da cena 02:
Pedro passa mão no rosto de Beatriz. E nesse momento, acaba esbarrando na mão de Rebeca. Os dois se olham.
Fim do insert.
Pedro levanta, muito confuso, atormentado, com tudo o que está acontecendo. Pedro - Não, não, não!
Pedro saí do quarto, batendo a porta.
Cena 03/Casa Rufino/Quarto hóspedes/Int/Noite
Edição: ligar com som da porta batendo da cena anterior. Beatriz abre os olhos de rompante. Levanta a senta na cama. Sonoplastia: som do estomago de Beatriz roncando.
Beatriz - Que fome!
Cena 04/Igreja/Nave/Int/Noite
Licurgo está deitado, em frente ao altar, de braços aberto no chão, formando uma cruz. Tempo. Licurgo levanta e ajoelha. Olha fixo na imagem no altar.
Licurgo - Fiz apenas o que o Senhor mandou. Só fiz o que o Senhor mandou que eu fizesse, como o seu Rufino disse.
Um vento forte entra pela igreja. Licurgo fica muito assustado. De repente, um buraco se abre no chão da igreja, no mesmo lugar onde estava deitado. Um redemoinho vermelho se forma nesse buraco, dando a impressão do inferno. Licurgo começa a ser sugado pra dentro do buraco, que é muito semelhante ao inferno imaginado pelo autor Dante, na Divina Comédia.
Licurgo - Eu não quero ir... não quero! Socorro, socorro!
Licurgo, que estava dormindo em um dos bancos, é acordado por Pedro. Pedro - Acorda Licurgo. Você tá tendo um pesadelo!
Licurgo acorda assustado. Quando vê Pedro parado na sua frente, lhe abraça com força. Licurgo - Não quero ir pro inferno. Não quero!
Pedro - Você não vai pro inferno não, Licurgo. De onde tirou isso? Você é bom, tem um coração puro. Você se está impressionado com a morte do nosso querido padre Januário. Licurgo - Sinto tanto a falta dele.
Pedro - Todos nós sentimentos, Licurgo. (t) Vai pra casa e tenta dormir um pouco. Amanhã é um novo dia e você vai se sentir melhor.
Licurgo - E a igreja?
Pedro - Pode deixar que eu fecho a igreja. Vai descansar. Hoje foi um dia muito triste pra todos nos.
Licurgo - Tudo bem então. Eu vou!
Licurgo vai embora. Pedro ajoelha no altar e começa a rezar. Instantes. Pedro escuta passos, se aproximando dele.
Pedro - Vai pra casa, Licurgo... Jeferson - Precisamos conversar.
Pedro vira-se e vê Jeferson. Pedro levanta e os dois ficam frente a frente. Jeferson - Uma conversa séria e definitiva!
Cena 05/Delegacia/Int/Noite
Salatiel entra, comendo um sanduíche. Patrício está ajeitando alguns documentos. Salatiel - Tá servido, delegado?
Patrício - Não, obrigado, Salatiel. Não sei pra onde vai toda essa comilança sua. Salatiel - Meu metabolismo é muito acelerado. Além disso, me ajuda a passar a noite em alerta.
Patrício - Salatiel, me responde uma coisa: você acha que padre Januário pode ter sido assassinado?
Salatiel - Eu acho que não, delegado. Quem teria coragem de fazer isso com um homem tão querido e amado por todos como padre Januário era.
Patrício - Nem todo mundo é como se apresenta, meu querido amigo. Aprendi isso nesse anos na polícia, investigando casos e mais casos.
Salatiel - O senhor tá achando que essa suposição, pode ter um fundo de verdade? Patrício - Meu sexto sentido de policial está piscando, me deixando em alerta de que sim. Deus permita que não. Mas no mundo em que vivemos hoje, meu caro Salatiel, não podemos duvidar de mais nada! (t) Mas não vamos falar mais sobre isso. Hoje foi um dia muito puxado, triste, pra todos nós... vou pra casa. Qualquer coisa, você me chama. Salatiel - Sim, senhor. Pode deixar que está tudo no controle agora.
Patrício pega sua mala e vai embora. Salatiel senta na cadeira de Patrício e continua comendo seu sanduíche, saboreando cada pedaço do mesmo.
Cena 06/Praça/Int/Noite
Patrício vem caminhando. Lívia aparece. Patrício - Oi, Lívia.
Lívia - Que bom que te encontrei, pastor Patrício. Patrício - Patrício apenas, Lívia. Por favor!
Lívia - Desculpe! É o costume. (t) Acabei de voltar da sua casa. Fiz uma torta de frango e deixei um pedaço pro senhor lá.
Patrício - Aposto que meu pai vai comer tudo (risos)
Lívia - Tô achando o senhor com uma expressão cansada, preocupada. Patrício - Estava pensando na morte do padre Januário.
Lívia - Uma perda lastimável.
Patrício - Lívia, me responde sinceramente. Lívia - O que foi?
Patrício - Você acha que alguém teria coragem de matar padre Januário, como o Licurgo foi acusado pelo meu pai? Eu sei que meu pai tem problema mental, mas ele falou de um jeito, com uma certeza, que por um momento.../
Lívia - O senhor achou que poderia ser verdade? Patrício - Não gosto nem de pensar numa coisa dessas.
Lívia - O mundo hoje está tão perdido, as pessoas estão se afastando cada vez mais de Deus, com visões distorcidas sobre religião, que esse crime horrendo, não me espantaria. Patrício - É isso que está me incomodando.
Lívia - Mas o senhor pretende tomar alguma providência com relação a essa afirmação, meio que sem base, que seu pai levantou?
Patrício - Preciso de mais provas. Mas de qualquer forma, vou começar a sondar o Licurgo, o que se passou naquela noite na igreja. Ver se algum fato, algum detalhe, passou em branco.
Lívia pega na mão de Patrício.
Lívia - Pode contar comigo, Patrício. Conte comigo pro que o senhor precisar. Cena 07/Casa de Zinha/Quarto dela/Int/Noite
Zinha está na janela da sua casa, observando a cena anterior.
Zinha - Que pouca vergonha! Essa cidade não vai demorar a ficar que nem Sodoma e Gomorra.
Zinha - Essa Lívia é uma desavergonhada, que fica dando em cima do Patrício. (suspirando) Um homem tão integro, correto, charmoso, bem conversado...
Zinha percebe que está perdendo o controle, começa a sentir calores e para. Se benze, pega o terço, senta na cama e começa a rezar.
Cena 08/Igreja/Int/Noite Pedro e Jeferson.
Pedro - O que você quer, Jeferson?
Jeferson - Vim te dar um aviso, Pedro: dá o fora dessa cidade, desaparece, ou você vai se arrepender amargamente se continuar aqui.
Pedro - Eu nasci aqui, Pedro. Minha família mora aqui...
Jeferson - Ninguém sentiu sua falta, Pedro. Você estando aqui ou não, não fez diferença pra ninguém.
Pedro - O que você teme, Jeferson? qual é seu medo? Jeferson - Eu não tenho medo. Muito menos de você. Pedro - Então? Não entendo sua razão pra vir me falar isso.
Jeferson - Sua presença faz o passado vir à tona. Um passado que está morto e enterrado. E eu não quero isso.
Pedro - Não existe nada mais entre mim e a Rebeca. O tempo passou. Cada um seguiu com sua vida. Eu me tornei padre.../
Jeferson - Mas continua sendo homem. Tem desejos, vontades, pensamentos, que podem ser mais fortes do que ter se tornado padre.
Pedro - Eu e a Rebeca não temos nada. Não pode existir nada entre eu e ela. Sou um padre, Jeferson. O que existiu entre nós passou. Como aquela frase do pensador Heráclito: “nunca podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”. Eu e a Rebeca não somos mais as mesmas pessoas. Tudo o que vivemos, ficou no passado. E cada um agora está escrevendo uma nova página no livro de nossas vidas.
Jeferson - Só espero que assim seja, Pedro. Pro seu bem. Pois a Rebeca é minha. E não vou aceitar perde-la pra você e nem pra ninguém!
Jeferson vai embora. Pedro fica pensativo. Pedro - Eu também espero, Jeferson! Cena 09/Terreiro/Tenda/Int/Noite
Meirinho jogou os búzios pra Rebeca e está lendo o que eles querem dizer. Rebeca ansiosa.
Rebeca - Então, Meirinho. O que os búzios estão dizendo?
Meirinho - Seu coração, seus pensamentos, estão muito confuso, Rebeca. Rebeca - O que eu devo fazer?
Meirinho - Existem dois homens na sua vida. Mas você está ligada a apenas um deles. Uma ligação eterna, inquebrável, mas cheias de percalços, de pedras e espinhos, que vai colocar o que existe entre vocês a prova.
Rebeca - É o Pedro, não é?
Meirinho - Você sabe muito bem quem é esse homem. (t) Mas não se preocupe, filha. Iemanjá está com você, do seu lado. Ela vai te projetar e te guiar em seu destino!
Fusão para:
Cena 10/Praia/Ext/Noite
Rebeca vem caminhando em direção ao mar.
Rebeca para e fica observando as ondas. Lua cheia no céu estrelado. Rebeca tira sua roupa, fica pelada. Respira fundo, olha pro céu e começa a entrar no mar. Rebeca se banha. Efeito: o mar fica iluminado. Tempo.
Cena 11/Casa Patrício/Quarto Jeferson/Int/Noite
Jeferson entra furioso. Bate à porta com força. Anda de um lado pro outro.
Jeferson - Não vou perder a Rebeca. Ela é minha. A mulher que eu amo e com quem vou me casar!
Jeferson vai até seu guarda-roupa, pega uma caixa velha e senta na cama. Abre e vemos uma garrucha meio enferrujada. Jeferson tira-a da caixa e fica segurando.
Jeferson - Até que a morte nos separe... Cena 12/Igreja/Int/Noite
Pedro está ajoelhado rezando. Momento. Pedro - Amém!
Cena 13/Casa Rufino/Sótão/Int/Noite Rufino dá um tapa no rosto de Eva.
Eva - Pode me bater até sua mão cair, Rufino. Eu vi meu filho. Eu vi o Pedro, com esses olhos que já chorou tanta por estar longe do meu filho. E isso você não vai tirar de mim. Não vai!
Rufino - Devia era te matar. Acabar com sua vida miserável!
Eva - Você não faria isso comigo. Sabe por que? Por que você gosta de me ver sofrer. Sente prazer com meu sofrimento.
Rufino - Você não sabe o que diz. Eva - E digo mais, você me ama, Rufino. Rufino - (reage) Como é?
Eva - Você nunca me esqueceu como a mulher que tirou sua virgindade e por quem você se apaixonou, com quem teve um filho, com quem poderia ter formado uma família, se não fosse esse homem doente, que distorce a religião, pra enxergá-la do jeito que lhe convém.
Rufino - (grita) Cala a boca sua herege. Para de falar besteira. Tenho é pena da sua alma. Sou um instrumento que Deus está usando, para tentar purifica-la.
Eva - Não sei o que você pretende fazer comigo. Mas sei que você nunca vai me esquecer. Sempre estarei em suas lembranças, pensamentos, como a mãe do seu filho!
Rufino encara Eva. Fica mexido com tudo o que ela lhe diz. Até que vai embora. Cena 14/Casa Rufino/Cozinha/Int/Noite
Narcisa chega a cozinha. Escuta barulho. Narcisa - Quem tá aí?
Meio receosa, Narcisa acende a luz. Para sua surpresa, Beatriz está sentada em frente a geladeira aberta, se lambuzando com o pudim.
Narcisa - É você? (risos) Comendo pudim... Beatriz - Delicioso...
Narcisa - Gosta de doce?
Beatriz responde “sim” com a cabeça. Corta para Beatriz sentada na mesa, comendo uma compota, servida no prato por Narcisa.
Narcisa - É assim que se tem que comer. Eu mesma quem fiz. Adoro fazer doces. Beatriz - A senhora é muito boa. Deus gosta de pessoas como a senhora.
Cena 15/Casa Rufino/Escritório/Int/Noite Rufino entra transtornado.
Rufino - Desgraçada!
Rufino se serve de uma dose de uísque, que bebe de uma golada só e depois joga o copo na parede.
Cena 16/Casa Rufino/Cozinha/Int/Noite Narcisa e Beatriz.
Narcisa - Obrigada! Mas me diga uma coisa: como você se chama. Corta para Rufino chegando na cozinha. Ele fica escutando a conversa. Beatriz - Anja Beatriz.
Narcisa - (surpresa) Anja? Não entendi. É seu nome?
Beatriz - Sou uma anja. Foi Deus quem me mandou aqui pra Terra com uma missão. Corta para Rufino.
Rufino - (estranha) Anja? Missão?
Cena 17/Casa Patrício/Quarto Jeferson/Int/Noite
Jeferson está na janela, observando a enorme lua cheia no chão. Ele se mostra enfeitiçado, atraído pela lua de uma maneira intensa. Jeferson desperta do transe que entrou, ao escutar batida na porta.
Jeferson - Entra. Patrício entra.
Patrício - Vim saber como você está, filho.
Patrício olha a caixa, onde Jeferson guarda sua garrucha, em cima da sua cama. Jeferson percebe o olhar de Patrício e se preocupa.
Patrício- Que caixa é essa?
Jeferson, rapidamente, pega a caixa.
Jeferson - Nada, pai. É coisa minha... (t) Já estava indo dormir. Só vou tomar um banho. Amanhã tudo volta ao normal. Temos que tocar nossa vida.
Patrício - Sinto que nesse cidade, nada mais será como antes. Jeferson - Por que o senhor acha isso?
Patrício - Nada filho. Deixa pra lá... Patrício beija o rosto de Jeferson. Patrício - Dorme com Deus!
Patrício vai embora. Jeferson espera um pouco, até abrir a caixa e verificar se está tudo certo com sua garrucha.
Jeferson - Você ainda vai me ser muito útil! Cena 18/Casa Turíbio/Quarto Basileu/Int/Noite Basileu está no seu notebook, conversando com Tina. Tina - Estou morrendo de saudade, meu amor.
Basileu - Tá nada. Aposto que já me esqueceu... (risos) Tina - Nunca, seu bobo! Vou te amar pra sempre! Basileu - Vou ficar aqui te esperando. Vem logo! Cena19/Casa Turíbio/Quarto casal/Int/Noite
Turíbio e Felipa estão deitados. Mas apenas Turíbio dorme. Felipa está acordada. Ela levanta, olha pra Turíbio e saí do quarto.
Felipa passa pelo quarto. A porta está entreaberta. Basileu dorme, de bruços. Felipa fica lhe observando, até que cria coragem e resolve se aproximar mais. Felipa fica perto de Basileu. Seus olhos percorrem todo o corpo do belo jovem. Momento. Quando Felipa aproxima suas mãos pra tocá-lo, Basileu, sentindo a presença de alguém no seu quarto, acorda de rompante, virando-se pra ela.
Basileu - (assustado) Felipa? Que você tá fazendo aqui? Cena 21/Jandaia/Ruas/Ext/Noite
Rebeca vem dirigindo seu jipe. Pedro acaba de fechar a igreja e caminha em direção à sua casa. O caminho dos dois se cruzam, no momento em que Pedro deixa seu terço cair no chão. Rebeca freia bruscamente, quase em cima dele. Momento. Corta para: