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PA TR OCÍNIO NA MÚSIC A : A CENTR ALID ADE E OS IMP A C TOS DO FINANCIA MENT O PÚBLIC O E PRIV ADO P AR A A MÚSIC A INDEPENDENTE | PAINEL DE D ADOS DO OBSER VA TÓRIO IT A Ú CUL TUR AL

Patrocínio

na música:

a centralidade e

os impactos do

financiamento

público e privado

para a música

independente

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PA TR OCÍNIO NA MÚSIC A : A CENTR ALID ADE E OS IMP A C TOS DO FINANCIA MENT O PÚBLIC O E PRIV ADO P AR A A MÚSIC A INDEPENDENTE | PAINEL DE D ADOS DO OBSER VA TÓRIO IT A Ú CUL TUR AL

Alice Coutinho Costa Lima

N

o Brasil, o Estado representa a principal instituição de financiamento das atividades culturais. No entanto, há um fortalecimento do papel das grandes corporações e da privatização da cultura, com participa-ção de grandes empresas no financiamento do trabalho artístico incentiva-do pelas próprias políticas públicas através de leis de incentivo fiscal. No campo da música, as possibilidades de financiamento estatais e de patrocínio empresarial têm sido frequentemente utilizadas para o fomen-to das produções musicais, ocupando um espaço antes preenchido pela indústria fonográfica. Essa nova configuração traz aos músicos, sobretu-do aos músicos independentes — que são os que normalmente concor-rem e recorconcor-rem a esse tipo de financiamento — novos desafios, relações e tensões específicas.

O mercado e o trabalho musical no século XXI

O início do século foi marcado, em todo o mundo, pela reorganização das estruturas do campo da música com a implementação das tecnologias di-gitais. O digital que aparece como fator de aprimoramento técnico da pro-dução, com o surgimento e a popularização da internet e o desenvolvimen-to de tecnologias de compactação musical como o MP3, alterou o cenário também em termos políticos, econômicos, jurídicos e culturais. O domínio das grandes gravadoras foi fragilizado com os compartilhamentos de ar-quivos virtuais, com a pirataria e com a mudança nos hábitos de consumo. Com o encolhimento da indústria fonográfica, abriu-se um espaço maior para os artistas independentes,1 que se apropriaram das novas tecnologias

de produção, das formas alternativas de difusão e do contato direto artista--público, este promovido pelas emergentes plataformas digitais. No entan-to, entraram em cena também novos agentes e intermediários: gravadoras e selos independentes, pequenos empresários dos setores de distribuição de discos, de estúdios, de shows,2 editoras para proteção legal das obras,

além de um novo espectro de empreendimentos digitais transnacionais, em plataformas como MySpace, Last.fm, YouTube entre outras.

Se, por um lado, houve um contexto mais democrático e aberto para os mú-sicos independentes, por outro, foi também mais desafiador, pois eles não contavam com o investimento financeiro antes dado pelas gravadoras nem com selos para a produção, distribuição e promoção; além disso, não eram empregados e encontraram aí um grande desafio a superar. Como financiar seus trabalhos, como garantir a permanência no campo?

Patrocínio na música: a

centralidade e os impactos do

financiamento público e privado

para a música independente

1 A definição de músico independente aqui empregada considera aquele que não possui vínculo empregatício com instituições produtoras de bens culturais, vínculo que existiria para viabilizar a produção de suas obras e de sua carreira artística.

2 Cf. DIAS, Márcia R. Tosta. Quando o todo era mais que a soma das partes: álbuns, singles e os rumos da música gravada.

Revista Observatório Itaú Cultural, São Paulo, Itaú Cultural,

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A autonomia em relação ao aporte

estrutural-financeiro das gravadoras é um

dos grandes diferenciais desta geração

desde a consolidação da indústria da

música na segunda metade do século XX.

A autonomia em relação ao aporte estrutural-financeiro das gravadoras é um dos grandes diferenciais desta geração desde a consolidação da indús-tria da música na segunda metade do século XX. Os resultados da pesqui-sa norte-americana organizada pelo grupo Future of Music Coalition,3 em

2010, indicam dados reveladores sobre a transformação da fonte de renda dos músicos na primeira década do século, entre os quais se apresentou queda na renda global dos artistas e maior variedade na composição das fontes: a venda de discos perde relevância e a maior receita observada ad-vém de shows e turnês (60%). 

No Brasil, percebe-se uma realidade similar, embora aqui não haja um mer-cado de entretenimento estruturado, com casas de show e espaços de di-fusão que comportem a dimensão e a diversidade da produção. Em vista desse cenário, a centralidade do show na composição da renda do músico aponta para a instabilidade e a flexibilidade no setor. Segundo o sociólogo francês Pierre-Michel Menger, eis é a tendência de todo o trabalho artístico: “o autoemprego, o freelancing, e as diversas formas atípicas de trabalho — trabalho intermitente, trabalho a tempo parcial, multiassalariado — consti-tuem as formas dominantes de organização do trabalho nas artes”.4

De fato, os trabalhadores informais da música (conjunto formado por aque-les que não possuem carteira de trabalho assinada, trabalhadores por con-ta própria e empregadores que não contribuem para a Previdência Social) representam quase 60% dos profissionais ocupados.5 Quanto aos postos

formais, esse número não chega a 10% das ocupações,6 se deixarem de ser

considerados os empresários (com CNPJ) e forem mantidos apenas os tra-balhadores com carteira assinada e servidores públicos

Além da informalidade e da flexibilidade, a precariedade das condições de trabalho do músico passa pelo trabalho não pago, sobretudo dentro do uni-verso dos shows, que compõe a maior fatia da renda. Segundo pesquisa de Luciana Requião,7 normalmente não são contabilizadas horas de ensaio,

passagem de som e o tempo em que o músico fica à disposição do em-pregador, nos cálculos da remuneração pelo trabalho realizado, sendo este normalmente delimitado apenas ao momento da apresentação. Na prática dos shows, também se observa a ausência de contratos das relações de tra-balho na maioria dos casos.

Os espaços vazios deixados pela retração da grande indústria, no início des-te novo século, foram ocupados por uma nova geração que cresceu e se reorganizou como artistas independentes, e que, ao não contar mais com a mediação de instituições fortes e estáveis, buscou formas alternativas e di-versificadas de subsistência. Se, porém, esse trabalho artístico for frequen-temente relacionado a termos como criatividade e autonomia, também será possível verificar que essa atividade se caracteriza por insegurança, flexibilidade, heterogeneidade, individualização e precariedade.

3 Cf. THOMPSON, K.; COOK, J. Artist Revenue Streams: projeto de pesquisa multimétodo que examina as mudanças nas fontes de renda dos músicos. Revista Auditório, Repensando Música, São Paulo, 2011.

4 Cf. MENGER, Pierre-Michel.

Retrato do artista enquanto trabalhador: metamorfoses

do capitalismo. Lisboa: Roma Editora, 2005. P. 18.

5 Dados retirados do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, no qual se observa a informalidade do grupo composto por trabalhadores da música, do cinema, da fotografia e do rádio e tv, entre 2015 e 2020. 6 Cf. PICHONERI, Dilma F. M. Relações de trabalho em música: a desestabilização da

harmonia. 2011. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, UNICAMP, Campinas, 2011.

7 Cf. REQUIÃO, L., 2008, p. 34 apud CERQUEIRA, Amanda Patrycia Coutinho. Paradoxos da

atividade artística na narrativa de músicos denominados independentes. 2017. Tese

(Doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas, 2017. p. 107.

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Se, porém, esse trabalho artístico for

frequentemente relacionado a termos

como criatividade e autonomia,

também será possível verificar que essa

atividade se caracteriza por insegurança,

flexibilidade, heterogeneidade,

individualização e precariedade.

O patrocínio na música

Para além da subsistência e da composição da renda dos músicos, os inde-pendentes ainda enfrentam a necessidade de dispor de recursos financeiros para a produção de seus álbuns, em que pese à significativa redução de custos trazida pelas tecnologias digitais. O investimento passa a ser bus-cado em diferentes fontes, quer de recursos próprios, quer através de par-cerias com estúdios e outros músicos, na forma de produção colaborativa, no fomento público ou via patrocínios empresariais que acabam ganhando relevância nesse cenário.

O patrocínio pode ser conceituado como relação de troca entre um patroci-nador e um patrocinado por meio de um projeto; projetos que pertencem normalmente a quatro áreas: arte/cultura, entretenimento, esporte e cau-sas.8 Como estratégia de marketing, o patrocínio empresarial se

desenvol-veu a partir da década de 1970 em todo o mundo, e continuou a crescer amplamente nas décadas seguintes, tornando-se um veículo popular que une comunicação e relações públicas, complementar às ações de publici-dade. Segundo José Carlos Durand, “nesse sistema, doações ou patrocínios costumam resultar de decisões tomadas com o objetivo de haver retorno de prestígio para a imagem da empresa e/ou de seus produtos”.9 David Harvey

pontua que a construção de imagem da marca tem caráter essencial no ca-pitalismo pós-industrial: “a competição de construção de imagens passa a ser um aspecto vital da concorrência entre as empresas. [...] A imagem serve para estabelecer uma identidade no mercado”.10

No Brasil, o patrocínio foi impulsionado sobretudo a partir do fim da década de 1980 com o surgimento de leis de incentivo à cultura. Tal modalidade de incentivo via patrocínio empresarial foi sendo fortalecida e tornou-se o centro das políticas culturais nas décadas seguintes. Segundo censo conduzido pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) em 2010, cerca de 70 e 80% dos investimentos privados na área cultural são feitos por meio de benefícios fiscais. Há aproximadamente 70 leis de incentivo no Brasil, entre mecanismos municipais, estaduais e federais, com maior destaque para a Lei Federal de Incentivo à Cultura (conhecida como Lei Rouanet). Analisando apenas o me-cenato federal a partir, por exemplo, do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, em mais de duas décadas de existência, os investimentos na música aparecem como a segunda área de maior volume. Na última década, o mon-tante de incentivo anual por pessoa jurídica a música girou em torno de R$ 300 a R$ 500 milhões, como demonstra o gráfico a seguir.

8 Cf. BENEDETTI, Lárcio. Editais

de patrocínio empresarial. São

Paulo: SESI-SP Editora, 2014. p. 13

9 Cf. DURAND, José Carlos.

Política cultural e economia da cultura. Cotia, SP: Ateliê Editorial,

2013. p. 50

10 Cf. HARVEY, David. Condição

pós-moderna. São Paulo:

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Mesmo que o resultado dos últimos dez anos tenha sido de queda conside-rável, refletindo a crise político-econômica vivenciada, é possível verificar uma ligeira recuperação nos últimos três anos, sendo a Lei ainda responsá-vel por valores significativos no mercado. Esse cenário foi o principal pro-pulsor dos editais de patrocínio empresarial no início dos anos 2000 no Bra-sil. Ao longo dessas décadas, houve inúmeros tipos e variedades de editais e programas, de atuação contínua ou pontual, realizados por empresas pú-blicas, mistas ou privadas, de diferentes portes e atuação. A música, por sua capacidade de promover experiências emocionais particularmente intensas e de forma direta, e por ser um importante fator na criação de identidades,11

é muito utilizada como estratégia de marketing para gerar relacionamento e agregar valor simbólico e reputação às marcas e instituições. Empresas como Natura, Skol, Red Bull, Itaú, Oi, Tim, Claro, Petrobrás, entre outras, têm criado programas e ações de patrocínio na música. Diante das diversas ini-ciativas de patrocínio na área, destacam-se alguns programas que se volta-ram para o apoio, para a produção e para gravação de álbuns musicais. Tais iniciativas parecem, de certa maneira, ocupar o espaço deixado pelas gra-vadoras. Mas quais são as consequências desse novo tipo de relação entre artistas e instituições patrocinadoras?

Diante das diversas iniciativas de

patrocínio na área, destacam-se alguns

programas que se voltaram para o apoio,

para a produção e para gravação de

álbuns musicais.

11 Cf. FRITH, Simon. Hacia una estética de la música popular. In: VILLALOBOS, Francisco Cruces (Org.). Las culturas musicales. Lecturas de etnomusicología, Madrid: Trotta, 2001.

GRÁFICO 1 | EVOLUÇÃO DO MECENATO À MÚSICA, POR PJ (PERÍODO 1996/2019)

Fonte: Dados do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, 2020. Valores atualizados pelo IPCA.

R$ 600.000.000,00 R$ 500.000.000,00 R$ 400.000.000,00 R$ 300.000.000,00 R$ 200.000.000,00 R$ 100.000.000,00 R$ 0,00 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019

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Impactos do patrocínio para os músicos

A modalidade de patrocínio empresarial traz condições novas e específicas. Em primeiro lugar, há uma mudança na lógica de condução e entendimento da carreira dos artistas. Hoje, com os patrocínios e editais, toda centralidade está no produto (álbum, show etc.) que será submetido para um financia-mento pontual, realizado por um tempo definido. Não há iniciativas que in-vistam na carreira a longo prazo ou que ofereçam estabilidade a esses artis-tas. Outros fatores de instabilidade estão na esteira do risco inerente a esse modelo de concorrência e processo seletivo, pois não há garantias de ser contemplado nem constância e regularidade nessas ações de patrocínio. Há também, em segundo lugar, extrema desigualdade no acesso ao patro-cínio. Exemplo disso é a desigualdade regional. O Sudeste é responsável em média por 78% de todo o patrocínio captado na Lei Federal de Incentivo à Cultura,12 índice que aponta enorme concentração. Tal desigualdade é

re-flexo de diversas dinâmicas que coincidem também com dados socioeco-nômicos e demográficos. Em particular no campo da música, é grande a dinâmica de fluxo dos artistas independentes de saírem de seus estados na-tais para o Sudeste, buscando a visibilidade da grande mídia, a proximidade dos agentes intermediários, bem como dos próprios patrocinadores, o que aponta para uma questão de dominação simbólica13 desse espaço

geográ-fico em concreto. Um caso comum14 de tais fluxos é o de artistas residentes

no Sudeste serem contemplados em editais de seus estados natais, aprovei-tando, por um lado, que participam de processos com menor concorrência e, por outro, que entram em vantagem, por terem visibilidade nacional.

Hoje, com os patrocínios e editais, toda

centralidade está no produto (álbum,

show etc.) que será submetido para um

financiamento pontual, realizado por um

tempo definido. Não há iniciativas que

invistam na carreira a longo prazo ou que

ofereçam estabilidade a esses artistas.

A relação estabelecida com as marcas via patrocínio nem sempre é um fator pacífico, a cantora Karina Buhr, por exemplo, em participação no evento Semana Internacional da Música em São Paulo, criticou a exposição da imagem do artista pelos patrocinadores:

Tem essa coisa das marcas também, de você entrar no edital de uma marca, que é uma coisa que você procura, mas que também é uma coisa perigosa. Porque antes a marca estava ali e o que estava acon-tecendo era o principal, e várias marcas apoiavam ou uma só. E ago-ra, cada vez mais, as marcas vêm na frente, então você vira o garoto propaganda da marca.15

12 Dados da pesquisa Dez anos de Economia da Cultura no Brasil e os Impactos da Covid-19: um relatório a partir do painel de dados do observatório Itaú Cultural (São Paulo: Itaú Cultural, 2020), p. 55-56.

13 O estudo de Ginzburg sobre a produção da arte italiana analisa as relações centro-periferia e suas interações e dinâmicas. O autor trata das questões de dominação simbólica e das dinâmicas entre artistas e consumidores. Cf. CASTELNUOVO, Enrico; GINZBURG, Carlo. A

micro-história e outros ensaios.

Lisboa: Difel, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. p. 73-83.

14 Entre as entrevistas realizadas para minha pesquisa de mestrado, metade dos interlocutores havia praticado tal feito: apesar de residirem e atuarem em São Paulo, foram contemplados por editais regionais de seus estados natais.

15 BUHR apud GATTI, Vanessa Vilas Bôas. Súditos da rebelião: estrutura de sentimento da Nova MPB (2009 – 2015). 2015. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2015. p. 141.

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Já a cantora Anelis Assumpção, em entrevista à Folha de S.Paulo, comentou sobre a concorrência criada pelos editais e sobre a vulnerabilidade no jogo de forças que comandam o campo:

[...] percebi que estava concorrendo com meus amigos. E torcendo contra eles. É uma parada desumana em que todo mundo acaba caindo. A moeda só mudou. Antes, quem mandava no que seria ou não lançado eram as gra-vadoras. Agora é a Natura, a Petrobrás.16

Trabalhando individualmente, como freelancer ou como pequena empre-sa, os artistas passam a ser protagonistas não apenas de suas obras, mas também de suas carreiras. Desse modo, devem administrar as condições para sua existência material e social, precisando equilibrar essas diferen-tes ações, da criação artística ao gerenciamento das carreiras. Diante desse contexto específico de autoprodução e precariedade, outro fator de tensão recai na sobrecarga que as obrigações de gestão pesam sobre os artistas, como afirma Felipe Cordeiro:

Quem é autor como eu, quer viver da sua obra. No mundo ideal eu viveria exclusivamente da minha obra, sabe? Às vezes eu não tenho tempo pra pegar uma letra de música, e ficar gastando tempo para fazer aquela letra, porque eu tô cuidando da empresa, tenho que cuidar disso, daquilo [...] Eu produzo menos do que gostaria porque eu trabalho muito para as coisas acontecerem.15

Considerações finais

Numa década em que os orçamentos públicos para a cultura (Estados e União) vêm diminuindo ano a ano,16 o patrocínio empresarial, quer via

in-centivo fiscal quer de forma direta, vem sendo responsável pela vitalidade de praticamente todo o movimento cultural brasileiro, garantindo as ativi-dades de muitas das instituições e organizações culturais do país.

No campo musical, a produção brasileira nunca foi tão rica e diversa, segun-do Arthur Fitzgibbon (ONErpm). Em 2020, a média de lançamentos diários em plataformas de streaming foi de 5.000 obras,17 em sua grande maioria de

artistas independentes. Se a produção é enorme, significa que há também uma busca significativa por financiamento. Neste ano, a edição do edital de patrocínio Natura Musical recebeu 3.365 projetos inscritos18 de todo o país,

e costuma apoiar cerca de 40 projetos/ano. Já em São Paulo, o edital do Go-verno do Estado para gravação de álbuns musicais recebeu 834 inscrições para uma premiação de 32 projetos.19 Se, por um lado, o patrocínio permite

a produção e a circulação das obras, submete, por outro, os trabalhadores da música a uma lógica de produto, de controle e alta concorrência, refor-çando as formas de trabalho instáveis e precárias.

Como saída, os artistas buscam formas colaborativas de produção, como expõe a cantora Juçara Marçal: “[...] um ajuda no disco do outro, grava sem cachê, toca sem cachê... É isso... Não ficar esperando sentado que o edital role pra você gravar o seu disco”.20 Com essa banalização remuneratória, o

resultado é como apresenta o músico Marcelo Segreto: “[...] na música inde-pendente o negócio fica do nosso jeito, mas a gente vive pobre”.21 Se essas

tendências já eram observadas, os dados de 2020, que medem o impacto da pandemia global ainda em curso, escancaram e expõem a fragilidade dos profissionais da cultura, com uma queda de 49% das ocupações do setor.22

16 ASSUMPÇÃO apud GATTI, idem, p. 139.

17 Depoimento de Felipe Cordeiro, 36 anos, músico independente, em entrevista à autora (2019).

18 Dados da pesquisa Dez

anos de Economia da Cultura no Brasil e os Impactos da Covid-19: um relatório a

partir do painel de dados do observatório Itaú Cultural (São Paulo: Itaú Cultural, 2020), p. 9-10.

19 Informação verbal durante aula no curso Panorama Econômico Criativo e Cultural, em 18/08/20, realizado pelo Observatório do Itaú Cultural.

20 Informação retirada do site da empresa. Disponível em: <https://www.natura.com.br/ blog/mais-natura/edital-natura- musical-2020-conheca-os-curadores>. Acesso em 30/11/20

21 Informação retirada do site do Programa de Ação Cultural de SP, Edital 12/2020. Disponível em: <http://www.proac.sp.gov. br/proac-editais-editais-e-resultados/>. Acesso em: 30 nov. 2020.

22 MARÇAL apud CERQUEIRA, Amanda Patrycia Coutinho.

Paradoxos da atividade artística na narrativa de músicos denominados independentes. 2017. Tese

(Doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas, 2017. p. 143.

23 SEGRETO apud CERQUEIRA, idem, p. 160

24 Dados da pesquisa Dez

anos de Economia da Cultura no Brasil e os Impactos da Covid-19: um relatório a

partir do painel de dados do observatório Itaú Cultural. (São Paulo: Itaú Cultural, 2020), p. 67.

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