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Rudolf Julius Emmanuel Clausius ( )

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Entropia

Rudolf Julius Emmanuel Clausius (1822-1888)

F´ısico e matem´atico alem˜ao nascido em K¨oslin (actualmente na Pol´onia), que desempenhou um importante papel no reconhecimento da F´ısica Te´orica como disciplina. O seu famoso trabalho Sobre a for¸ca motriz do calor e as leis que dela se podem deduzir, publicado em 1850 nos Annalen der Physik, marcou o in´ıcio da Termodinˆamica moderna ao estabelecer os enunciados preliminares dos Primeiro e Segundo Princ´ıpios. Nessa publica¸c˜ao, demon-strou que o trabalho m´aximo que se pode obter a partir duma m´aquina de Carnot (que transmite calor entre dois reservat´orios t´ermicos, a diferentes temperaturas) depende apenas das temperaturas dos reservat´orios. Em 1865, Clausius define pela primeira vez a quantidade entropia, relacionando-a com o conceito de irreversibilidade. Foi professor na Escola Polit´ecnica de Zurique e Reitor da Universidade de Bona. O seu car´acter profundamente nacional-ista levou-o a participar na guerra franco-alem˜a de 1870-71, e a envolver-se em numerosas disputas cient´ıficas internacionais, a fim de reclamar a autoria alem˜a de v´arias descobertas na ´area da Termodinˆamica. Em 1868 foi eleito fellow da Royal Society de Londres.

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5.1

Introdu¸

ao

O conceito de energia e o princ´ıpio de conserva¸c˜ao que lhe est´a associado desempenham em Termodinˆamica, tal como em qualquer outro dom´ınio da F´ısica, um papel fundamental na an´alise da evolu¸c˜ao de sistemas, legitimando ou n˜ao a possibilidade de ocorrˆencia de determinadas transforma¸c˜oes.

Este conceito revela-se no entanto insuficiente para decidir sobre o car´ ac-ter espontˆaneo dessas transforma¸c˜oes, na medida em que esse estudo requer outro tipo de informa¸c˜oes sobre o sistema, nomeadamente sobre as suas carac-ter´ısticas de evolu¸c˜ao em fun¸c˜ao do tempo.

Se a an´alise energ´etica de um sistema permite denunciar os chamados Motores Perp´etuos de Primeira Esp´ecie, correspondentes a sistemas cuja existˆencia violaria o Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆamica, ela ´e no entanto incapaz de detectar os chamados Motores Perp´etuos de Segunda Esp´ecie, correspondentes a sistemas cuja evolu¸c˜ao proposta n˜ao ocorre na natureza.

Este ´ultimo tipo de an´alise requer a introdu¸c˜ao de um novo conceito, o de entropia, associado a uma lei de evolu¸c˜ao dos sistemas: o Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica.

5.2

Expans˜

ao livre de Joule de um g´

as

Em Termodinˆamica Macrosc´opica, a quantidade entropia ´e definida atrav´es do axioma que estabelece a sua lei de evolu¸c˜ao: o Segundo Princ´ıpio da Ter-modinˆamica. Antes de apresentar o enunciado deste axioma ilustraremos, atrav´es da apresenta¸c˜ao de um exemplo simples, a introdu¸c˜ao do conceito de entropia como uma nova fun¸c˜ao de estado de um sistema, cuja varia¸c˜ao per-mite avaliar do car´acter revers´ıvel ou irrevers´ıvel de uma transforma¸c˜ao. O exemplo escolhido refere-se `a chamada Expans˜ao Livre de Joule (ELJ), a qual tem uma importˆancia hist´orica por estar associada `a defini¸c˜ao do primeiro crit´erio de compara¸c˜ao entre os comportamentos de um g´as real e de um g´as perfeito.

5.2.1 Introdu¸c˜ao

Considere-se o sistema representado na figura 5.1, o qual ´e composto por dois reservat´orios indeform´aveis e adiab´aticos. Os dois reservat´orios est˜ao separados um do outro atrav´es de uma divis´oria fixa, termicamente isolada. No estado inicial da experiˆencia (ver figura 5.1), o reservat´orio da esquerda

(3)

(R1) encontra-se cheio de um g´as `a temperatura Ti e volume Vi, existindo

v´acuo (p2 = 0) no reservat´orio da direita (R2).

Figure 5.1: Dispositivo para expans˜ao livre de Joule - situa¸c˜ao inicial

Retirando-se a divis´oria entre R1 e R2 (ver figura 5.2), o g´as expande-se

livremente at´e ocupar todo o volume Vf dos dois reservat´orios, `a

temper-atura Tf.

Figure 5.2: Dispositivo para expans˜ao livre de Joule - situa¸c˜ao final

Analisemos as principais caracter´ısticas deste processo de expans˜ao. • N˜ao existem trocas de calor com o exterior

(as paredes dos reservat´orios s˜ao adiab´aticas) ⇒ Q = 0

• N˜ao h´a realiza¸c˜ao de trabalho sobre o exterior

(as paredes dos reservat´orios s˜ao indeform´aveis e p2 = 0)

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Por aplica¸c˜ao do Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆamica conclui-se que ∆U = W + Q = 0 + 0 = 0 ,

e se o g´as no interior de R1 for um g´as perfeito, tem-se

 ∆U = 0

U = U (T ) ⇒ ∆T = 0 .

Comprova-se assim que a ELJ permite definir um crit´erio de compara¸c˜ao entre os comportamentos de um g´as real e de um g´as perfeito

A temperatura de um g´as perfeito mant´em-se constante durante a sua ex-pans˜ao livre de Joule.

Note-se que se o g´as no interior de R1 for um g´as real poder´a ocorrer uma

varia¸c˜ao da sua temperatura durante a ELJ:  ∆U = 0

U = U (T, V ) ⇒ ∆T 6= 0 .

Repare-se tamb´em que este processo de expans˜ao permite definir uma flecha do tempo para a evolu¸c˜ao espontˆanea do sistema, cujo sentido n˜ao pode ser alterado. Por outras palavras, ap´os uma ELJ ´e imposs´ıvel (ou pelo menos muito pouco prov´avel) que o g´as regresse de forma espontˆanea ao reservat´orio R1.

Esta impossibilidade de observar espontaneamente o processo inverso de evolu¸c˜ao (correspondente a uma compress˜ao do g´as) est´a associado `a ideia de irreversibilidade da transforma¸c˜ao. Pode assim afirmar-se que

O processo de expans˜ao livre de Joule ´e irrevers´ıvel.

5.2.2 A transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente da ELJ

O c´alculo da varia¸c˜ao da energia interna de um g´as perfeito que realiza uma ELJ entre um estado inicial i, com energia Ui = Ui(Ti, Vi), e um estado final

f , com energia Uf = Uf(Tf, Vf), pode esquematizar-se escrevendo

∆U = Z Uf

U

(5)

sendo este resultado independente do caminho seguido na integra¸c˜ao, uma vez que U ´e uma fun¸c˜ao de estado.

O c´alculo anterior pode assim realizar-se seguindo o caminho correspon-dente `a ELJ irrevers´ıvel ou, em alternativa, definindo um caminho re-vers´ıvel equivalente `a ELJ, o qual dever´a

• estar associado a uma transforma¸c˜ao revers´ıvel, isto ´e para a qual seja poss´ıvel inverter o sentido da transforma¸c˜ao (da flecha do tempo) em qualquer fase da evolu¸c˜ao do sistema;

• conduzir o sistema do mesmo estado inicial i ao mesmo estado final f . Para realizar essa Transforma¸c˜ao Revers´ıvel Equivalente `a ELJ (ELJ-R) o dispositivo original deve ser ligeiramente modificado (ver figura 5.3)

Figure 5.3: Dispositivo para transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente `a ELJ

por forma a garantir que se verificam as seguintes condi¸c˜oes.

• Os volumes inicial (Vi) e final (Vf) ocupados pelo g´as s˜ao os mesmos

da expans˜ao livre de Joule.

• A expans˜ao do g´as realiza-se lentamente contra uma divis´oria m´ovel, garantindo-se em cada instante um equil´ıbrio mecˆanico en-tre a for¸ca exercida pelo g´as sobre a divis´oria (−→Fgas, associada `a press˜ao

do g´as p) e a reac¸c˜ao da divis´oria sobre o g´as (−→Fex, associada `a press˜ao

exterior sobre o g´as pex)12 − → Fgas+ − → Fex ' − → 0 ⇒ p = pex .

12Alguns autores designam este tipo de transforma¸oes como transforma¸oes

(6)

Nestas condi¸c˜oes (que garantem a reversibilidade mecˆanica da trans-forma¸c˜ao), o trabalho elementar realizado sobre o g´as calcula-se como

δW = −pexdV = −pdV (5.1)

e o trabalho global vem dado por W = Z δW = − Z Vf Vi pdV 6= 0 .

• As energias internas inicial (Ui) e final (Uf) do g´as devem ser iguais,

pelo que

 ∆U = Uf − Ui = 0 = W + Q

W 6= 0 ⇒ Q 6= 0 .

Conclui-se assim, por aplica¸c˜ao do Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆ a-mica, que a ELJ-R n˜ao ´e adiab´atica! Isto significa que este caminho alternativo revers´ıvel requer a existˆencia de trocas de calor entre o sistema e o exterior, a fim de repˆor o equil´ıbrio de press˜ao ap´os cada processo elementar de expans˜ao.

• As trocas de calor entre o sistema e o exterior devem tamb´em ser re-vers´ıveis.

Para tal, coloca-se um reservat´orio de energia `a temperatura Tex,

em equil´ıbrio t´ermico com o g´as, verificando-se Ti = Tf = Tex = T = conste .

Garante-se assim a reversibilidade t´ermica da transforma¸c˜ao, isto ´e a reversibilidade das transferˆencias de calor entre o g´as e o reservat´orio t´ermico

(7)

5.2.3 Uma nova fun¸c˜ao de estado: a entropia Coloque-se agora a seguinte quest˜ao:

Ser´a poss´ıvel definir uma nova fun¸c˜ao de estado extensiva, associada `as trocas de calor na transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente `a expans˜ao livre de Joule?

A resposta ´e afirmativa, e corresponde por exemplo `a grandeza entropia, S, definida em transforma¸c˜oes revers´ıveis como

dS ≡ δQ

T (5.2)

(ficando portanto assegurado o seu car´acter extensivo), com unidades J K−1 no SI.

A equa¸c˜ao (5.2) ´e a express˜ao de defini¸c˜ao de uma nova fun¸c˜ao de estado, descoberta matematicamente por R. Clausius em 1865, e nesse sen-tido n˜ao carece de qualquer demonstra¸c˜ao. N˜ao obstante, podemos compro-var se essa defini¸c˜ao ´e coerente com os resultados de Termodinˆamica obtidos at´e aqui, em particular no que se refere a transforma¸c˜oes revers´ıveis num g´as perfeito.

Comecemos por escrever a raz˜ao δQ/T recorrendo ao Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆamica, isto ´e

δQ T = dU T − δW T ,

e tratando-se de uma transforma¸c˜ao revers´ıvel (para a qual pex = p) pode

escrever-se δW = −pdV , vindo δQ T = 1 TdU + p TdV . (5.3)

Se admitirmos que a transforma¸c˜ao se realiza sobre um g´as perfeito tem-se ( U = U (T ) [ou T = T (U )] ⇒ 1 TdU = g(U )dU p T = nRV ⇒ p TdV = nRV dV = f (V )dV , pelo que a equa¸c˜ao (5.3) se escreve

δQ

(8)

A equa¸c˜ao (5.4) ´e coerente com a defini¸c˜ao de uma nova fun¸c˜ao de estado13

S = S(U, V ) , (5.5)

podendo escrever-se o seu diferencial exacto como

dS =  ∂S ∂U  V dU + ∂S ∂V  U dV = δQ T , (5.6) desde que     ∂S ∂U  V = g(U ) = 1 T  ∂S ∂V  U = f (V ) = p T .

Generalizando, quando um sistema sofre uma transforma¸c˜ao rever-s´ıvel, isto ´e quando a sua evolu¸c˜ao segue uma sequˆencia de estados de equil´ıbrio termodinˆamico (correspondentes a uma combina¸c˜ao de um equil´ıbrio mecˆanico com um equil´ıbrio t´ermico), tem-se [ver equa¸c˜oes (5.1) e (5.2)]

dU = δW + δQ = −pdV + T dS . (5.7)

A equa¸c˜ao (5.7) corresponde `a express˜ao do Primeiro Princ´ıpio da Ter-modinˆamica para transforma¸c˜oes revers´ıveis14.

5.2.4 Varia¸c˜ao de entropia na ELJ

Regressemos ao estudo da ELJ, para calcularmos a varia¸c˜ao de entropia de um g´as perfeito nessa transforma¸c˜ao.

Em termos gerais, pode escrever-se ∆S =

Z

ELJ

dS ,

13Recorde-se que um g´as perfeito ´e um sistema bivariante, pelo que toda e qualquer

uma das suas fun¸c˜oes de estado depende apenas de duas vari´aveis termodinˆamicas inde-pendentes.

14Note-se que a express˜ao dU = −pdV + T dS pode ser escrita para qualquer

trans-forma¸c˜ao (revers´ıvel ou irrevers´ıvel), uma vez que corresponde a uma rela¸c˜ao entre diver-sas fun¸c˜oes de estado. No entanto, as igualdades −pdV = δW e T dS = δQ s´o s˜ao v´alidas em transforma¸c˜oes revers´ıveis.

(9)

e como a entropia ´e uma fun¸c˜ao de estado o resultado anterior ´e indepen-dente do caminho seguido na integra¸c˜ao. Em particular, ´e poss´ıvel adoptar o caminho correspondente `a transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente `a ELJ e escrever ∆S = Z ELJ dS = Z ELJ−R dS = Z ELJ−R δQ T . (5.8)

Note-se que a ´ultima igualdade da equa¸c˜ao (5.8) usou o facto de, numa transforma¸c˜ao revers´ıvel, se verificar dS = δQ/T [ver equa¸c˜ao (5.2)].

Como na ELJ-R se tem

 dU = δW + δQ = 0

δW = −pdV ⇒ δQ = −δW = pdV ,

pode-se resolver o integral da equa¸c˜ao (5.8) (usando a equa¸c˜ao de estado dos gases perfeitos), obtendo-se

∆S = Z (f ) (i) pdV T = nR Z Vf Vi dV V = nR ln  Vf Vi  . (5.9)

Esta ´e a t´ecnica habitualmente utilizada para calcular a varia¸c˜ao de en-tropia de um sistema, como resultado de uma transforma¸c˜ao (irrevers´ıvel) qualquer. O facto da entropia ser uma fun¸c˜ao de estado legitima o uso de uma transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente, para se obter a varia¸c˜ao de entropia do sistema a partir da express˜ao dS = δQ/T , v´alida para trans-forma¸c˜oes revers´ıveis.

Calcule-se agora a varia¸c˜ao de entropia do Universo (conjunto do sis-tema e do exterior) na ELJ

∆SUniversoELJ = ∆SELJ+ ∆SexELJ . (5.10)

a) Sistema (g´as perfeito)

Adoptando, como anteriormente, um caminho revers´ıvel equivalente para o sistema [correspondente a uma transforma¸c˜ao que leve o sis-tema do mesmo estado inicial ao mesmo estado final, ao longo de um conjunto de estados de equil´ıbrio (t´ermico e mecˆanico)] tem-se [ver equa¸c˜ao (5.9)] ∆SELJ = Z ELJ dS = Z

rev. equiv. sistema

dS = nR ln Vf Vi



(10)

b) Exterior

Adoptando agora um caminho revers´ıvel equivalente para o exterior [correspondente a uma transforma¸c˜ao que leve o exterior do mesmo es-tado inicial ao mesmo eses-tado final, ao longo de um conjunto de eses-tados de equil´ıbrio (t´ermico e mecˆanico)] tem-se

∆SexELJ = Z

ELJ

dSex =

Z

rev. equiv. exterior

dSex

= Z

rev. equiv. exterior

δQex

Tex

= 0 . (5.12)

c) Universo

A partir das equa¸c˜oes (5.10)-(5.12) conclui-se que ∆SUniversoELJ = nR ln Vf

Vi



+ 0 > 0 . (5.13)

Como se ver´a, no quadro do Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica, este ´e um resultado geral para todas as transforma¸c˜oes irrevers´ıveis. 5.2.5 Varia¸c˜ao de entropia na ELJ-R

A varia¸c˜ao de entropia do Universo na transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente `

a ELJ calcula-se como

∆SUniversoELJ−R = ∆SELJ−R+ ∆SexELJ−R . (5.14)

a) Sistema

Como a entropia ´e uma fun¸c˜ao de estado, e a ELJ-R corresponde a uma transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente para o sistema, pode escrever-se

∆SELJ−R = ∆SELJ = nR ln Vf Vi



(11)

b) Exterior

Adoptando um caminho revers´ıvel equivalente para o exterior (que por acaso pode corresponder `a ELJ-R), tem-se

∆SexELJ−R = Z

ELJ−R

dSex ≡

Z

rev. equiv. exterior

dSex

= Z

rev. equiv. exterior

δQex Tex = − Z ELJ−R δQ T = −∆S ELJ−R . (5.16) c) Universo

A partir das equa¸c˜oes (5.14)-(5.16) conclui-se que

∆SUniversoELJ−R = ∆SELJ−R− ∆SELJ−R = 0 . (5.17)

Como se ver´a, no quadro do Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica, este ´e um resultado geral para todas as transforma¸c˜oes revers´ıveis.

(12)

5.3

Varia¸

ao de entropia de uma fonte de energia

As fontes de energia t´ermica (muitas vezes designadas como fontes de calor) s˜ao sistemas termodinˆamicos que, devido `as suas elevadas dimens˜oes, podem realizar trocas de calor com o exterior sem alterar a sua temperatura.

Considere-se uma fonte de energia `a temperatura Tq =conste, a qual troca

uma quantidade de calor QFQ com o exterior.

A varia¸c˜ao de entropia da fonte, neste processo, pode ser calculada como anteriormente: ∆SFQ = Z rev. equiv. dSFQ = Z rev. equiv. δQFQ Tq = 1 Tq Z rev. equiv. δQFQ = QFQ Tq . (5.18)

(13)

5.4

Varia¸

ao de entropia

em transforma¸

oes irrevers´ıveis

Nesta sec¸c˜ao, apresentam-se alguns exemplos de c´alculo da varia¸c˜ao de en-tropia, em transforma¸c˜oes irrevers´ıveis simples.

5.4.1 Fus˜ao de uma massa m de gelo

Considere-se uma massa m de gelo `a temperatura T0 = 00C, a qual ´e deixada

fundir em contacto com o ar ambiente `a temperatura Tamb.

Nesta transforma¸c˜ao, ocorrem as varia¸c˜oes de entropia seguintes. a) Sistema ∆S = Z rev. equiv. dS = Z rev. equiv. δQ T0 = mλfus˜ao T0 > 0 . b) Exterior ∆Sex = Z rev. equiv. dSex = Z rev. equiv. δQex Tex = 1 Tamb Z rev. equiv. −δQ = −mλfus˜ao Tamb < 0 . c) Universo ∆SUniverso = ∆S + ∆Sex = mλfus˜ao  1 T0 − 1 Tamb  > 0 . (5.19)

Mais uma vez, obt´em-se uma varia¸c˜ao positiva da entropia do Uni-verso, associada a uma transforma¸c˜ao irrevers´ıvel.

Note-se que o grau de irreversibilidade desta transforma¸c˜ao aumenta com a diferen¸ca entre as temperaturas T0 e Tamb (por exemplo, ´e maior no ver˜ao,

(14)

5.4.2 Contacto de dois s´olidos a temperatura diferentes

Considerem-se dois s´olidos, de capacidades calor´ıficas c1e c2, `as temperaturas

T1 e T2 respectivamente. Colocam-se os dois s´olidos em contacto, no interior

de um reservat´orio de paredes r´ıgidas e adiab´aticas onde se fez v´acuo (ver figura 5.4), at´e que atinjam o equil´ıbrio t´ermico `a temperatura Tf.

Admita-se que c1 e c2 s˜ao independentes da temperatura e desprezem-se

as varia¸c˜oes de volume dos s´olidos.

Figure 5.4: S´olidos em contacto dentro de um reservat´orio r´ıgido, adiab´atico

Comecemos por calcular a temperatura final de equil´ıbrio, Tf.

Para o sistema constitu´ıdo pelos dois s´olidos tem-se ∆U = Q + W = 0 ,

porque

 Q = 0 (paredes adiab´aticas) W = 0 (volume constante) .

Para cada um dos s´olidos (sub-sistema) pode escrever-se:  ∆U1 = Q1 = c1∆T1 = c1(Tf − T1)

∆U2 = Q2 = c2∆T2 = c2(Tf − T2) ,

pelo que

∆U = ∆U1+ ∆U2 = c1(Tf − T1) + c2(Tf − T2) = 0

e ent˜ao

Tf =

c1T1+ c2T2

c1+ c2

. (5.20)

Calcule-se agora a varia¸c˜ao de entropia do Universo (conjunto do sistema e do exterior).

(15)

a) Sistema ∆S1 = Z rev. equiv. δQ1 T10 = Z Tf T1 c1dT10 T10 = c1ln  Tf T1  ∆S2 = c2ln  Tf T2  , e ent˜ao ∆S = ∆S1+ ∆S2 = c1ln  Tf T1  + c2ln  Tf T2  . (5.21) b) Exterior ∆Sex = Z rev. equiv. δQex Tex

= 0 (paredes adiab´aticas) . (5.22)

c) Universo ∆SUniverso = ∆S + ∆Sex = c1ln  Tf T1  + c2ln  Tf T2  . (5.23) ´

E de esperar que esta varia¸c˜ao de entropia seja positiva, uma vez que o calor flui dos corpos quentes para os corpos frios. Se admitirmos T2 > T1 (o

que implica δQ1 = −δQ2 > 0) tem-se de facto

dSUniverso = dS = δQ1 T1 +δQ2 T2 = δQ1  1 T1 − 1 T2  > 0 . (5.24)

Este resultado, para a varia¸c˜ao infinitesimal de entropia do Universo, man-t´em-se quando se considera a sua varia¸c˜ao finita, ∆SUniverso.

Para demonstrar este facto, come¸caremos por definir uma nova vari´avel x, correspondente a uma temperatura relativa,

x ≡ T T1 ⇒    x1 = 1 x2 = T2/T1 xf = Tf/T1 .

(16)

A express˜ao (5.23), para a varia¸c˜ao de entropia do Universo, pode ser re-escrita em fun¸c˜ao de x ∆SUniverso = c1ln xf + c2ln  xf x2  = (c1+ c2) ln xf − c2ln x2 = (c1+ c2)  ln xf − c2 c1+ c2 ln x2  . Por outro lado, a express˜ao (5.20) de Tf conduz a

xf = c1+ c2x2 c1+ c2 ⇒ xf − 1 = c2 c1+ c2 (x2− 1) ,

pelo que se pode escrever

∆SUniverso = (c1+ c2)  ln xf − xf − 1 x2− 1 ln x2  . (5.25)

Nesta equa¸c˜ao, a express˜ao entre parˆentesis depende exclusivamente da tem-peratura relativa, podendo ser analisada graficamente (admitindo, por exem-plo, T2 > T1 ⇔ x2 > 1), como se faz na figura 5.5.

Figure 5.5: Fun¸c˜oes ln xf e

xf − 1

x2− 1 ln x2, em fun¸c˜ao de x

Note-se que a recta representada na figura 5.5 tem declive ln x2− 0

x2− 1

= y − 0 xf − 1

, pelo que a sua equa¸c˜ao anal´ıtica ´e

y = xf − 1

(17)

Conclui-se assim que ln xf −

xf − 1

x2− 1

ln x2 = ln xf − y = d > 0 ⇒ ∆SUniverso > 0 .

Mais uma vez, obteve-se uma varia¸c˜ao positiva da entropia do Uni-verso, associada a uma transforma¸c˜ao irrevers´ıvel: o fluxo de calor (espontˆaneo e irrevers´ıvel) entre um corpo a temperatura mais elevada (T2)

e um corpo a temperatura mais baixa (T1).

5.4.3 Mistura de dois gases perfeitos `a mesma temperatura Considerem-se dois gases perfeitos diferentes que ocupam dois reservat´orios R1 e R2, com igual volume Vi, num recipiente isolado de paredes r´ıgidas,

indeform´aveis. Os gases encontram-se `a mesma temperatura Ti, existindo o

mesmo n´umero n de moles de g´as em cada recipiente. Retira-se a divis´oria

Figure 5.6: Mistura de dois gases perfeitos `a mesma temperatura

que separa os dois gases, deixando-se o sistema atingir um novo estado de equil´ıbrio (ver figura 5.6).

Esta experiˆencia n˜ao ´e mais do que a realiza¸c˜ao de duas expans˜oes livres de Joule, uma para cada g´as.

Assim, a temperatura final do sistema calcula-se fazendo  ∆U1 = 0

∆U2 = 0

⇒ ∆U = ∆U1+ ∆U2 = 0 ⇒ Tf = Ti , (5.26)

e a varia¸c˜ao de entropia do sistema calcula-se fazendo    ∆S1 = nR ln  Vf Vi  = nR ln 2 ∆S2 = · · · = nR ln 2 ⇒ ∆S = ∆S1+ ∆S2 = 2nR ln 2 . (5.27)

(18)

A varia¸c˜ao de entropia encontrada ´e o resultado de duas contribui¸c˜oes irrevers´ıveis:

• a expans˜ao (at´e ao dobro do volume inicial) de cada um dos gases; • o processo de mistura dos dois gases.

Por outro lado, a forma como calcul´amos ∆S mostra que o resultado anterior se deve manter, independentemente do facto dos dois gases serem iguais ou diferentes. Com efeito, a express˜ao (5.27) pode ser obtida considerando a expans˜ao Vi → 2Vi das n moles de dois gases diferentes, ou

a expans˜ao Vi → 2Vi de 2n moles de um mesmo g´as. No entanto, se as

mol´eculas dos dois gases forem indistingu´ıveis, a contribui¸c˜ao do processo de mistura dos gases para a varia¸c˜ao de entropia deveria ser nula!

Este ´e o chamado Paradoxo de Gibbs o qual ser´a resolvido no cap´ıtulo 13, no quadro da F´ısica Estat´ıstica.

(19)

5.5

Varia¸

ao de entropia

em transforma¸

oes revers´ıveis (g´

as perfeito)

Nesta sec¸c˜ao, apresentam-se alguns exemplos de c´alculo da varia¸c˜ao de en-tropia, em transforma¸c˜oes revers´ıveis num g´as perfeito.

5.5.1 Express˜ao geral da varia¸c˜ao de entropia

Calculemos a express˜ao geral da varia¸c˜ao de entropia, numa transforma¸c˜ao revers´ıvel sobre n moles de um g´as perfeito, entre um estado inicial (Ti, Vi)

e um estado final (Tf, Vf).

Tratando-se de uma transforma¸c˜ao revers´ıvel tem-se, a partir do Primeiro Princ´ıpio (5.7),

dS = dU + pdV

T . (5.28)

Por outro lado, a defini¸c˜ao de calor espec´ıfico molar a volume constante permite que se escreva

CV ≡ 1 n  δQ dT  V = 1 n  ∂U ∂T  V , (5.29)

onde se usou o facto de uma transforma¸c˜ao a volume constante implicar um trabalho nulo, isto ´e

δQ = dU − δW ⇒ (δQ)V = dU .

Tratando-se de um g´as perfeito verifica-se U = U (T ), e a equa¸c˜ao (5.29) pode ser utilizada para se obter a express˜ao geral da varia¸c˜ao infinite-simal de energia interna, num g´as perfeito

dU = nCVdT . (5.30)

Substituindo (5.30) em (5.28), e utilizando a equa¸c˜ao de estado dos gases perfeitos, obt´em-se a express˜ao geral da varia¸c˜ao infinitesimal de en-tropia, numa transforma¸c˜ao revers´ıvel num g´as perfeito

dS = nCVdT + pdV T = nCV dT T + nR dV V . (5.31)

Integrando a equa¸c˜ao (5.31) entre os estados inicial e final da trans-forma¸c˜ao, obt´em-se

∆S = nCV ln  Tf Ti  + nR ln Vf Vi  . (5.32)

(20)

5.5.2 Casos particulares de transforma¸c˜oes

Analisaremos agora v´arios casos particulares de transforma¸c˜oes revers´ıveis, num g´as perfeito. Para cada uma delas, daremos ˆenfase n˜ao s´o ao c´alculo da varia¸c˜ao de entropia, mas tamb´em `a an´alise energ´etica do sistema.

a) Transforma¸c˜ao Isot´ermica (a temperatura constante)

A varia¸c˜ao de entropia do sistema obt´em-se a partir da equa¸c˜ao (5.32) (∆S)T = nR ln

 Vf V i



, (5.33)

sendo imediato deduzir o calor que o sistema troca com o exterior (recorde-se que T =conste)

Q = T (∆S)T . (5.34)

Como num g´as perfeito se verifica U = U (T ), e porque T =conste,

conclui-se que

∆U = 0 ⇒ W = −Q = −nRT ln Vf Vi



. (5.35)

b) Transforma¸c˜ao Isom´etrica (a volume constante)

A varia¸c˜ao de entropia do sistema obt´em-se a partir da equa¸c˜ao (5.32) (∆S)V = nCV ln

 Tf

Ti



. (5.36)

Por outro lado, a varia¸c˜ao de energia interna do sistema obt´em-se in-tegrando a equa¸c˜ao (5.30)

∆U = Z Tf

Ti

nCVdT = nCV(Tf − Ti) = nCV∆T , (5.37)

e como n˜ao h´a realiza¸c˜ao de trabalho (porque V =conste) tem-se

(21)

c) Transforma¸c˜ao Isob´arica (a press˜ao constante)

A varia¸c˜ao elementar de entropia do sistema obt´em-se a partir da equa¸c˜ao (5.31), dS = nCV dT T + nR dV V ,

notando que neste caso p = nRT V = cons te dV V = dT T , donde dSp = n(CV + R) dT T . (5.39)

Em alternativa, a varia¸c˜ao elementar de entropia a press˜ao constante pode ser obtida directamente partir da defini¸c˜ao de calor espec´ıfico molar a press˜ao constante

Cp ≡ 1 n  δQ dT  p = 1 n  T∂S ∂T  p , (5.40) ou seja15 dSp = nCp dT T . (5.41)

Comparando as equa¸c˜oes (5.39) e (5.41), obt´em-se a chamada rela¸c˜ao de Mayer entre os calores espec´ıficos molares, a press˜ao e volume constantes, num g´as perfeito

Cp = CV + R . (5.42)

A varia¸c˜ao de entropia do sistema pode agora obter-se integrando a equa¸c˜ao (5.41) (∆S)p = nCpln  Tf Ti  . (5.43)

Por outro lado, a varia¸c˜ao de energia interna do sistema obt´em-se in-tegrando a equa¸c˜ao (5.30)

∆U = nCV∆T . (5.44)

15Note-se que a equa¸ao (5.41) ´e v´alida para uma transforma¸ao isob´arica revers´ıvel de

(22)

Finalmente, o trabalho realizado a press˜ao constante calcula-se como

W = −p(Vf − Vi) = −p∆V , (5.45)

e o calor trocado entre o sistema e o exterior pode ser obtido pelo Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆamica [ver tamb´em a equa¸c˜ao (5.42)]

Q = ∆U − W = nCV∆T + p∆V = n(CV + R)∆T = nCp∆T ,

ou directamente a partir da equa¸c˜ao (5.40)

δQ = nCpdT ⇒ Q = nCp∆T . (5.46)

d) Transforma¸c˜ao Adiab´atica (sem trocas de calor)

N˜ao havendo trocas de calor, e sendo a transforma¸c˜ao revers´ıvel, con-clui-se imediatamente que

δQ = T dS = 0 ⇒ S = conste . (5.47)

Uma transforma¸c˜ao em que a entropia ´e mantida constante designa-se por Isentr´opica. Pode assim afirmar-se que

Toda a transforma¸c˜ao adiab´atica revers´ıvel ´e isentr´opica.

A varia¸c˜ao de energia interna do sistema obt´em-se integrando a equa¸c˜ao (5.30)

∆U = nCV∆T , (5.48)

e portanto

Q = 0 ⇒ W = ∆U = nCV∆T . (5.49)

Repare-se que fomos capazes de realizar toda a an´alise energ´etica do sistema durante a transforma¸c˜ao, sem no entanto termos especificado a evolu¸c˜ao dos seus principais parˆametros termodinˆamicos: temperatura, volume e press˜ao.

(23)

A rela¸c˜ao entre p, V e T , numa transforma¸c˜ao adiab´atica revers´ıvel (num g´as perfeito), pode ser deduzida a partir da equa¸c˜ao (5.32)

∆S = nCV ln  Tf Ti  + nR ln Vf Vi  = 0 ⇒ ln Tf Ti  + nR nCV ln Vf Vi  = 0 ⇒ ln   Tf Ti  Vf Vi  R CV  = 0 ⇒ Tf Ti  Vf Vi  R CV = 1 ⇒ T V R CV = conste .

Defina-se agora o coeficiente adiab´atico γ, como a raz˜ao entre os calores espec´ıficos molares, a press˜ao e volume constantes, de um sis-tema. Para um g´as perfeito tem-se [ver equa¸c˜ao (5.42)]

γ ≡ Cp CV = CV + R CV = 1 + R CV . (5.50)

Conclui-se finalmente que uma transforma¸c˜ao adiab´atica revers´ıvel, num g´as perfeito, verifica a rela¸c˜ao

T Vγ−1 = conste , (5.51)

ou, utilizando a equa¸c˜ao de estados dos gases perfeitos,

pVγ = conste . (5.52)

5.5.3 Transforma¸c˜ao Isot´ermica vs. Adiab´atica

A semelhan¸ca de rela¸c˜oes p = p(V ) entre as transforma¸c˜oes isot´ermica e adiab´atica, justifica que se apresente uma compara¸c˜ao entre os seus diagra-mas de Clapeyron.

Comecemos por obter as express˜oes dos declives das fun¸c˜oes p = p(V ), para estas transforma¸c˜oes.

(24)

Figure 5.7: Diagrama p = p(V ) para transforma¸c˜oes isot´ermica e adiab´atica • Isot´ermica pV = conste≡ k ⇒ p = k V ⇒ dp dV = − k V2 = − p V • Adiab´atica pVγ = conste ≡ k0 ⇒ p = k 0 Vγ ⇒ dp dV = −γ k0 Vγ+1 = −γ p V .

Como γ > 1, conclui-se que um aumento de volume provoca uma maior queda de press˜ao nas transforma¸c˜oes adiab´aticas do que nas isot´ermicas (ver figura 5.7).

5.5.4 C´alculo de γ para gases perfeitos

Os valores de γ para gases perfeitos podem ser facilmente calculados a par-tir do conhecimento dos respectivos calores espec´ıficos molares, a press˜ao e volume constantes (ver cap´ıtulo 4).

• Gases monoat´omicos (

CV = 32R

Cp = CV + R = 52R

⇒ γ = 5

3 . (5.53)

• Gases diat´omicos (vibra¸c˜oes congeladas) (

CV = 52R

Cp = CV + R = 72R

⇒ γ = 7

(25)

5.6

Segundo Princ´ıpio da Termodinˆ

amica

5.6.1 Introdu¸c˜ao

O resultado atr´as encontrado, relativo `a varia¸c˜ao de entropia do Universo na expans˜ao livre de Joule, pode generalizar-se para qualquer transforma¸c˜ao termodinˆamica, dando origem ao enunciado do Segundo Princ´ıpio da Ter-modinˆamica

Toda e qualquer transforma¸c˜ao termodinˆamica ´e respons´avel por uma evo-lu¸c˜ao da entropia do Universo no sentido

∆SUniverso ≥ 0 . (5.55)

A igualdade ´e verificada em transforma¸c˜oes revers´ıveis. A desigualdade ´e verificada em transforma¸c˜oes irrevers´ıveis.

Qual o significado do aumento de entropia que acompanha cada processo natural (irrevers´ıvel)? Uma resposta poss´ıvel ´e que cada um deles representa uma medida da deterioriza¸c˜ao energ´etica do Universo.

Considere-se o exemplo da transforma¸c˜ao termodinˆamica associada `a mis-tura de ´agua quente (`a temperatura Tq) com ´agua fria (`a temperatura Tf).

Como se sabe, esta transforma¸c˜ao processa-se originando um fluxo de calor da ´agua quente para a ´agua fria, o qual parar´a uma vez atingido o equil´ıbrio t´ermico (correspondente `a igualdade de temperaturas).

Enquanto esse fluxo de calor existiu poder´ıamos utiliz´a-lo para produzir algum trabalho mecˆanico (a ´agua quente e fria poderiam constituir os reser-vat´orios de alta e baixa temperatura de uma m´aquina t´ermica), mas uma vez que se atinge uma temperatura uniforme na ´agua morna perdeu-se de forma irremedi´avel a oportunidade de converter calor em trabalho mecˆanico.

Com efeito, a ´agua morna n˜ao se separar´a nunca em por¸c˜oes quente e fria! Embora se verifique que a energia total se conserva quando a ´agua quente e fria s˜ao misturadas (pelo Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆamica), neste processo perdeu-se a oportunidade de converter parte do calor da ´agua quente em trabalho mecˆanico. Esta perda de disponibilidade de ener-gia est´a associada ao aumento de entropia que ocorre nesta transforma¸c˜ao irrevers´ıvel (pelo Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica).

(26)

ele-mentares de entropia dadas por        dSUniverso = dSq+ dSf dSq= δQq Tq = − δQf Tq (δQq < 0) dSf = δQT f f (δQf > 0) ,

e portanto [ver equa¸c˜ao (5.24)] dSUniverso = δQf  1 Tf − 1 Tq  = δQf Tq− Tf TqTf > 0 .

Este resultado permite estabelecer um enunciado alternativo para o Se-gundo Princ´ıpio da Termodinˆamica

Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica (Enunciado de Clausius) O calor flui sempre espontaneamente dos corpos quentes para os corpos frios. Quando a entropia do Universo aumenta, a sua energia torna-se ent˜ao menos dispon´ıvel, podendo neste sentido dizer-se que o Universo se deteriorou energeticamente. ´E este o verdadeiro significado do termo irrevers´ıvel.

Deste modo, enquanto que o Primeiro Princ´ıpio nega a possibilidade de criar ou perder energia, o Segundo Princ´ıpio nega a possibili-dade de utilizar a energia (t´ermica ou mecˆanica) de certa maneira. Al´em disso, enquanto o Primeiro Princ´ıpio unifica as no¸c˜oes de calor e trabalho, o Segundo Princ´ıpio sublinha as diferen¸cas entre estas quantidades, ao n´ıvel da produ¸c˜ao de processos irrevers´ıveis.

O Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica revela assim a existˆencia de uma unilateralidade essencial na Natureza, a qual est´a associada a todos os pro-cessos naturais e espontˆaneos (irrevers´ıveis). Tais processos podem resultar de uma dissipa¸c˜ao de energia causada pela actua¸c˜ao de for¸cas de atrito, ou da n˜ao uniformidade de grandezas intensivas de um sistema (densidade N/V , press˜ao p, temperatura T , ...).

Assim, o calor transmite-se sempre espontaneamente de um corpo mais quente para um mais frio; os gases escoam-se sempre espontaneamente, atrav´es de uma abertura, de uma regi˜ao de alta press˜ao para outra de press˜ao mais baixa; gases e l´ıquidos tendem espontaneamente a misturar-se e n˜ao a separar-se; o sal dissolve-se na ´agua, mas uma solu¸c˜ao salgada nunca se separa

(27)

espontaneamente em sal puro e ´agua doce; as rochas expostas `a intemp´erie decomp˜oem-se; o ferro oxida-se; as pessoas tornam-se idosas ...

Todos estes s˜ao exemplos de processos espontˆaneos, que se realizam naturalmente numa ´unica direc¸c˜ao (s˜ao irrevers´ıveis), para os quais ∆SUniverso > 0. O c´alculo da varia¸c˜ao de entropia do Universo numa

trans-forma¸c˜ao permite assim associar-lhe uma flecha do tempo, definindo o sentido natural dessa transforma¸c˜ao.

Ali´as, a origem da palavra entropia encontra-se intimamente ligada a esta ideia:

EN - raiz de ENergia

TROPIA - trope (mudar de direc¸c˜ao, do grego).

Note-se tamb´em que, no sentido termodinˆamico, um processo irre-vers´ıvel ´e sempre um processo n˜ao-equilibrado. Um fluxo irrevers´ıvel de calor acompanha os desvios do equil´ıbrio t´ermico, uma difus˜ao irrevers´ıvel de part´ıculas tende a restabelecer uma distribui¸c˜ao uniforme da sua densidade, uma expans˜ao livre de um g´as envolve estados que n˜ao est˜ao em equil´ıbrio mecˆanico, etc. Em cada caso, o processo tende a fazer evoluir o sistema na direc¸c˜ao de um estado de equil´ıbrio, caracterizado por um m´aximo de entropia e de desordem (no sentido da inexistˆencia de qualquer estrutura organizada). Esta ideia ser´a retomada no cap´ıtulo 13, no quadro da F´ısica Estat´ıstica.

Um caso particular de transforma¸c˜oes com especial importˆancia s˜ao aque-las que convertem trabalho em calor e vice-versa. O problema com este tipo de processos tem a ver com a natureza muito diferente das trocas de ener-gia envolvidas na realiza¸c˜ao de trabalho e no fluxo calor. As considera¸c˜oes anteriores, feitas a prop´osito do Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica, levam-nos a dizer que o trabalho pode ser completamente dissipado em calor, en-quanto que o contr´ario n˜ao ´e poss´ıvel devido `a unilateralidade (irreversibili-dade) do processo espontˆaneo (natural) de dissipa¸c˜ao de energia.

Suponha-se ent˜ao que se realiza trabalho mecˆanico W sobre uma M´aquina (M), extraindo-o depois sob a forma de calor Q cedido a uma Fonte Fria (FF) `

(28)

Figure 5.8: Esquema de uma m´aquina para convers˜ao de trabalho em calor

Esta transforma¸c˜ao de trabalho em calor verifica quer o Primeiro quer o Segundo Princ´ıpios da Termodinˆamica, sendo in´umeros os exemplos de sistemas que a realizam: p´as a rodarem dentro de ´agua movidas pela descida de pesos; resistˆencia el´ectrica percorrida por uma corrente, etc. Com efeito, supondo-se que M volta ao estado inicial, depois de cedido o calor Q)16, tem-se:

Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆamica

∆U = 0 = W + Q ⇒ W = −Q > 0 OK! Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica

∆SUniverso = ∆S + ∆SFF= 0 + QFF Tf = −Q Tf > 0 OK!

A quest˜ao que se pode agora colocar ´e a seguinte: at´e que ponto ´e poss´ıvel realizar a transforma¸c˜ao inversa (extrac¸c˜ao da energia interna de uma Fonte Quente (FQ), sob a forma de calor, e convers˜ao deste em trabalho), mediante a constru¸c˜ao de uma M´aquina T´ermica (MT)?

Antes de mais, devemos detalhar as caracter´ısticas de funcionamente de um tal dispositivo.

a) O trabalho que produz n˜ao deve ser obtido `a custa da energia interna da MT, a fim de que se possa realizar indefinidamente o processo de convers˜ao de calor em trabalho.

16Nessas condi¸oes de transforma¸ao c´ıclica, todas as fun¸oes de estado do sistema ter˜ao

(29)

Isto significa que, ap´os cada transforma¸c˜ao, a m´aquina17 dever´a

regres-sar ao seu estado inicial, estando assim preparada para realizar um novo processo de convers˜ao de calor em trabalho.

Por outras palavras, a m´aquina deve executar um ciclo termodinˆ a-mico em cada transforma¸c˜ao, o que implica

∆S = ∆U = 0 , pois S e U s˜ao fun¸c˜oes de estado do sistema.

b) O trabalho que produz deve ser respons´avel pela altera¸c˜ao de um ´unico parˆametro (grau de liberdade) da m´aquina, o que corresponde a supˆor que o sistema MT + FQ se encontra isolado do exterior, isto ´e ∆Sex = 0.

Em termos esquem´aticos, a m´aquina t´ermica que se pretende construir pode ser representada como se mostra na figura 5.9.

Figure 5.9: Esquema de uma m´aquina t´ermica com uma ´unica fonte de calor

Infelizmente, n˜ao ´e poss´ıvel construir um tal dispositivo! Sen˜ao vejamos: Primeiro Princ´ıpio da Termodinˆamica

∆U = 0 = W + Q ⇒ Q = −W > 0 OK! Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica

∆SUniverso = ∆S + ∆SFQ = 0 + QFQ Tq = −Q Tq < 0 Falso !!! 17Na realidade, ao referirmo-nos aqui `a m´aquina queremos dizer o fluido permutador de

(30)

A uma m´aquina t´ermica deste tipo, e que violaria o Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica, d´a-se o nome de Motor Perp´etuo de Segunda Esp´ecie; ela funcionaria com uma s´o fonte de energia e trabalharia enquanto esta n˜ao se esgotasse.

O Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica nega assim a possibilidade de se construir este tipo de m´aquina t´ermica, o que constitui ali´as um seu enunci-ado alternativo.

Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica (Enunciado de Kelvin) ´

E imposs´ıvel uma transforma¸c˜ao cujo ´unico resultado final seja a produ¸c˜ao de trabalho a partir do calor extra´ıdo a uma ´unica fonte.

Para viabilizar a m´aquina t´ermica c´ıclica anteriormente descrita ´e ent˜ao necess´ario acoplar-lhe um outro sistema que, na transforma¸c˜ao de calor em trabalho, possa sofrer um aumento de entropia, suficiente para compensar a diminui¸c˜ao −Q/Tq antes calculada. Como veremos no cap´ıtulo 6, a forma

mais simples de concretizar esta altera¸c˜ao consiste em adicionar `a MT uma Fonte Fria (FF), de temperatura Tf < Tq.

5.6.2 Corol´arios do Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica

O Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica permite estabelecer v´arias desigual-dades envolvendo o calor trocado, numa transforma¸c˜ao, entre o sistema e o exterior.

a) Corol´ario 1

Numa transforma¸c˜ao c´ıclica verifica-se I

δQ

T ≤ 0 , (5.56)

(31)

Demonstra¸c˜ao

A partir do Segundo Princ´ıpio da Termodinˆamica (5.2) tem-se ∆SUniverso = ∆S + ∆Sex ≥ 0 ,

e porque se trata de uma transforma¸c˜ao c´ıclica (∆S = 0)

∆Sex ≥ 0 . (5.57)

A varia¸c˜ao de entropia do exterior calcula-se fazendo ∆Sex =

I

dSex =

I

rev. equiv. exterior

dSex =

I

rev. equiv. exterior

δQex

Tex

, (5.58) onde se usaram o facto da entropia ser uma fun¸c˜ao de estado e a defini¸c˜ao (5.2) de entropia: dSex = δQex/Tex numa transforma¸c˜ao revers´ıvel.

Se considerarmos uma transforma¸c˜ao revers´ıvel equivalente para o ex-terior que percorre, de forma lenta e cont´ınua, um conjunto de estados de equil´ıbrio t´ermico entre o exterior e o sistema (tal que Tex = T e δQex =

−δQ), ent˜ao

∆Sex =

I

rev. equiv. exterior

δQex

Tex

= −

I δQ

T . (5.59)

Finalmente, a partir das rela¸c˜oes (5.57) e (5.59), obt´em-se

I δQ

T ≤ 0 .

b) Corol´ario 2

Em qualquer transforma¸c˜ao AB verifica-se ∆SAB ≥

Z B

A

δQ

T , (5.60)

(32)

Demonstra¸c˜ao

Considere-se uma transforma¸c˜ao AB qualquer (revers´ıvel ou irrevers´ıvel), `

a qual se faz suceder a transforma¸c˜ao BA, segundo um caminho revers´ıvel (ver figura 5.10).

Figure 5.10: Transforma¸c˜ao c´ıclica ABA

Aplicando (5.56) `a transforma¸c˜ao c´ıclica assim obtida, tem-se I δQ T = Z B A δQ T + Z A B(rev) δQ T ≤ 0 , (5.61)

e como a transforma¸c˜ao BA ´e revers´ıvel [ver equa¸c˜ao (5.2)] a rela¸c˜ao (5.61) escreve-se Z B A δQ T + ∆SAB ≤ 0 . Finalmente ∆SAB ≥ Z B A δQ T .

Referências

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