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IX Colóquio Internacional Marx e Engels. GT 2 Os marxismos

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Academic year: 2021

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IX Colóquio Internacional Marx e Engels GT 2 – Os marxismos

Gramsci leitor de Marx: a atualidade da filosofia da praxis para a análise da realidade brasileira

Anita Helena Schlesener1 André Luiz de Oliveira2

A importância da leitura de Gramsci para a análise da realidade brasileira e para explicitar a configuração da luta de classes no Brasil deste início de século já vem sendo colocada principalmente por pesquisadores vinculados à International Gramsci Society-Brasil (IGS-Society-Brasil) que, neste ano, têm como tema de debate nacional a questão do fascismo e da violência no Brasil. Este trabalho pretende retomar alguns aspectos da leitura gramsciana de Marx, principalmente no que tange à noção de tradutibilidade, tomando como referência alguns fragmentos do Caderno 7, que se articulam com a leitura gramsciana de Marx para explicitar o significado da filosofia da praxis, com o objetivo claro de contrapor-se tanto às interpretações deterministas e positivistas de Marx, que grassavam no interior do movimento socialista italiano, quanto ao idealismo de base hegeliana presente na filosofia de Croce.

O tema que nos propomos aqui não pode ser esgotado em uma comunicação visto fazer parte de uma pesquisa mais ampla e de longo fôlego, de modo que nos ateremos a algumas questões de método a fim de esclarecer num primeiro momento o conceito de tradutibilidade e, num segundo momento, evidenciar a sua importância para a análise da realidade brasileira. No parágrafo 1 da segunda parte do Caderno 7, referente à interpretação croceana do materialismo histórico, Gramsci acentua:

A tradução dos termos de um sistema filosófico nos termos de um outro, assim como da linguagem de um economista na linguagem de um outro economista, tem-se limites que são dados pela natureza fundamental dos sistemas filosóficos e econômicos; ou seja, na filosofia tradicional isto é possível, mas não é possível """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""

1 Professora de filosofia política e de estética da UFPR; atualmente docente do Programa de Mestrado e

Doutorado em Educação da UTP de Curitiba; Pós-doutorado em Educação na UNICAMP. E-mail: [email protected].

2 Docente da Universidade Centro do Paraná – Pitanga (PR); Mestrando de Educação da Universidade

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entre a filosofia tradicional e o materialismo histórico (GRAMSCI, 1978, p. 851).

E a afirmação que se segue é central na compreensão do que seja a tradutibilidade: “o princípio da tradutibilidade recíproca é um elemento ‘crítico’ inerente ao materialismo histórico” (Idem, ibidem). Como entender esta proposição? Como traduzir Marx para o nosso tempo? Tendo em conta a relação recíproca entre teoria e prática, mas também a articulação que o método de Marx pressupõe entre filosofia, história, economia e política. Neste contexto, traduzir significa interpretar no presente, visto que toda a história é inevitavelmente história contemporânea (Q. 10). O pressuposto para estas colocações de Gramsci certamente se encontra no Prefácio de 1859, no qual Marx afirma que, para uma crítica social radical, deve-se abandonar a abordagem racionalista fundada em princípios incontestáveis (em suas várias vertentes) ou a abordagem positivista, que parte de uma neutralidade inexistente, para seguir a senda de uma análise imanente da realidade, a fim de explicitar as contradições que se ocultam nas práticas sociais e políticas atuais. O ponto central do Prefácio, ao qual Gramsci retorna várias vezes, é o que salientamos aqui:

“Uma formação social nunca perece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas [...] e novas relações de produção mais adiantadas jamais tomarão o lugar antes que suas condições materiais de existência tenham sido geradas no seio da velha sociedade” (MARX, 1974, p. 136).

Gramsci modifica tanto a ordem destes dois princípios quanto o conteúdo, ao substituir “condições materiais” por “condições necessárias e suficientes” e “forças produtivas” por “formas de vida”, como uma tradutibilidade do texto de Marx para a situação de seu tempo, na qual a questão ideológica tomava uma nova dimensão e, ante os revisionismos do texto de Marx, exigiam acentuar a articulação entre econômico, social, político e ideológico. Em relação aos escritos de Marx, a grande contribuição de Gramsci foi fazer a crítica ao duplo revisionismo de Marx, a “algumas correntes idealistas”, como Croce, que apresenta o materialismo histórico com influencia kantiana, e “os marxistas ‘oficiais’ preocupados em encontrar uma ‘filosofia’ que contivesse o marxismo”, aportando no materialismo filosófico vulgar. Enfrentar estes dois revisionismos significava esclarecer as massas populares e dar-lhes uma formação cultural elevada (GRAMSCI, 1978, p. 421).

Estas colocações permitem posicionar o pensamento de Gramsci no contexto do debate político de sua época e acentuar a importância da tradutibilidade da teoria para

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realidades específicas no interior do modo de produção capitalista. Gramsci entende que explicitar a articulação recíproca entre econômico, político e ideológico, tendo em conta que esta articulação se expressa em formas de vida, é fundamental para eliminar todos os traços, tanto do mecanicismo quanto do idealismo, no contexto da metodologia histórica. Esta posição possibilita entender o movimento orgânico da realidade, reconhecer em profundidade as crises orgânicas do capitalismo e distinguir a filosofia da praxis das suas apropriações mecanicista e idealistas, que reduzem a dialética aos instrumentos da lógica formal e a riqueza das contradições a simples antinomias.

Assim, se para Marx o que altera a configuração da estrutura econômica da sociedade e, consequentemente o social, político e ideológico, é o modo como a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção se organizam no sistema produtivo, a perspectiva antinômica congela a relação entre sujeito e objeto na oposição binaria entre direita e esquerda, bem e mal, binômio que alimenta o senso comum e facilita a formação de um consentimento passivo. Deste ponto de vista, “Croce teria cometido um arbítrio grotesco”: serviu-se de um “elemento crítico do materialismo histórico para atacar em bloco todo o materialismo histórico apresentando-o como uma concepção de mundo atrasada” até ao próprio Kant (GRAMSCI, 1978, p. 851).

Ao mesmo tempo em que ataca o materialismo histórico, Croce se alimenta dele para elaborar uma teoria toda particular. Quando diz, por exemplo, “que o materialismo histórico separa estrutura de superestrutura”, recuperando, assim, “o dualismo teológico”, isto não é verdadeiro, ao contrário, o que faz a filosofia da praxis é a interrelação e reciprocidade entre estrutura e superestrutura. “Croce distorce o materialismo histórico e o acusa de desagregação ao introduzir uma ‘dialética dos distintos’ no lugar da contradição” (GRAMSCI, 1978, p. 855).

Afirmar a dialética dos distintos recuperando o dualismo teológico que marcou toda a história da metafisica não é, na leitura de Gramsci, um ato filosófico ou histórico, mas sim uma ação essencialmente política de Croce, vinculada a uma influência do catolicismo na formação do senso comum. Não se trata, portanto, de não entender a dialética, mas de deteriorá-la ou de traduzí-la em bases fetichistas (como faz a maçonaria ou o racionalismo vulgar) para produzir uma ação política prática. Desta perspectiva, pode-se dizer que a religião é política, na medida em que atua na formação do imaginário social para a conservação do instituído.

A posição de Croce é “a posição do homem do Renascimento contra o homem da Reforma protestante”: uma posição intelectual elitista que não entende que “a rudez

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intelectual do homem da reforma” antecede e anuncia “a filosofia clássica alemã e o amplo movimento cultural alemão moderno”. A religião é política e, como tal, se insere no conjunto de relações de força que compõe a estrutura da sociedade: se Erasmo representa, no confronto das forças em presença o lado conservador do catolicismo, de Lutero se pode chegar a Hegel e a “uma nova reforma intelectual e moral representada pelo materialismo histórico”, além de se ser a raiz da formação da sociedade moderna (GRAMSCI, 1978, p. 852).

Croce representa um híbrido entre o homem do Renascimento e o homem da Reforma e, embora valorizando a religião na formação do senso comum, não conseguiu superar os limites que aprisionavam todos os intelectuais italianos: a dificuldade de chegar ao povo, de expressar sua vontade e de produzir uma “filosofia ‘popular’ capaz de tornar-se um elemento educativo desde a escola elementar”, o que demonstra a “impotência da filosofia idealista de se tornar uma concepção integral de mundo” (GRAMSCI, 1978, p. 852).

Retomemos agora a questão da tradutibilidade como um elemento ‘crítico’ inerente ao materialismo histórico: como traduzir para a atualidade os escritos de Gramsci? E sobretudo para a atualidade brasileira? Um dos aspectos já acentuados é a proximidade que pode haver entre a realidade italiana da época de Gramsci e a história de implementação do capitalismo no Brasil por um Estado instituído a partir de acordos pelo alto, sempre excluindo a participação popular. Também são importantes as contribuições que recorrem ao conceito de revolução passiva para explicitar as relações de força que se confrontam em nosso país. Na linha das relações de trabalho e modo de vida, a contribuição de Gramsci para se entender a questão do Americanismo e Fordismo tem sido de grande valia. Uma das abordagens mais atuais encontramos nas Relações Internacionais, retomando de Gramsci a leitura sobre a constituição do Estado moderno e as condições internacionais de hegemonia (MORTON, 2007; SAID, 2000; ARRIGHI, 1996). Morton (2007, p. 46), acentua que se negligencia hoje esta contribuição, que considera relevante para a atualização do debate em torno do desenvolvimento desigual e combinado ou, de outra perspectiva, para explicitar a relação entre os sistemas de Estado e o capitalismo.

Os conceitos gramscianos de hegemonia e crise orgânica cabem perfeitamente para a análise da estrutura atual do capitalismo no Brasil: nesta fase de capitalismo imperialista, com uma história política e cultural de raiz conservadora, com breves períodos de frágil democracia burguesa, nosso país enfrenta uma crise orgânica que

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envolve não apenas a grave crise econômica, mas principalmente uma crise política de credibilidade nos representantes e no aparato de governo, acompanhada de uma crise moral que se expressa na violência brutal contra as classes trabalhadoras e seus líderes. O senso comum, aderindo a uma visão antinômica da sociedade divulgada pelos meios de comunicação de massa, a divide em dois grupos estanques: de um lado os “de bem” e, de outro, os “do mal”, demonizando a esquerda e afirmando costumes e preconceitos arcaicos, como se fossem naturais e eternos. A crítica gramsciana ao fascismo de sua época permite, mantidas as proporções históricas, entender as manifestações dogmáticas e diluídas que defendem o fim de direitos e que degeneram em violência barbara contra os jovens pobres e negros.

A crítica de Gramsci aos liberais da época cabe perfeitamente para interpretar a atual forma neoliberal de gestão política e a tarefa primordial do Estado em garantir o desenvolvimento econômico, que se expressa em politicas públicas conservadoras, na retirada de direitos historicamente consolidados, reduzindo as classes trabalhadoras a uma massiva subalternidade, sem condições a curto prazo de reagir e resistir. A luta de classes, mascarada por uma igualdade jurídica formal e por uma forte divulgação ideológica, impõe-se aos trabalhadores, cujo enfrentamento é a única forma possível de sobrevivência. A alternativa de unidade política dos movimentos populares, que se torna urgente entre nós como caminho de resistência, ressoa nos escritos de Gramsci que, na militância política e no cárcere fascista, entendia que a organização popular e o “espírito de cisão” eram as verdadeiras alternativas.

No Caderno 25 a questão dos subalternos, que perpassa todos os Cadernos anteriores, toma a dimensão clara de que os movimentos populares espontâneos precisam ser apoiados como forma original de resistência, como o grito dos “grupos subalternos” sempre silenciados na história dos vencedores. Vencedores que, quando não conseguem cooptar um líder, o matam, fuzilam como ocorreu com David Lazzaretti na Itália insurgente, no século XIX. “Em vez de estudar as origens de um acontecimento coletivo, as razões de sua difusão, do seu ser coletivo, se isola o protagonista e se faz a sua biografia patológica”, porque, para uma “elite social, os elementos dos grupos subalternos tem sempre alguma coisa de bárbaro e de patológico”; e como é esta elite que escreve a história...3 (GRAMSCI, 1978, p. 2279).

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3 David Lazzaretti nos lembra Marielle Franco e as dezenas de líderes comunitários, sindicalistas, indígenas,

etc., assassinados nos últimos anos no Brasil. Assassinatos que foram recorrentes na nossa história, basta que lembremos Canudos, Contestado, Palmares, etc.

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A estratégia dos dominantes é ignorar o coletivo e personalizar a figura do líder para cooptá-lo ou fuzilá-lo caso não aceite aderir: “o fuzilamento de Lazzaretti foi de uma crueldade feroz e friamente premeditada”, diz Gramsci, mas a história oficial afirma que ele morreu em confronto. “Nem os republicanos se ocuparam em esclarecer os fatos, embora Lazzaretti tenha sido morto exaltando a república” (GRAMSCI, 1978, p. 2280). Ainda no Caderno 25 Gramsci faz uma abordagem de alguns levantes populares ocorridos na Itália em séculos anteriores para mostrar como, por ocorrerem dentro de uma ordem dominante, as ações dos grupos subalternos sofrem a iniciativa dos dominantes e têm dificuldade de avançar unitariamente. Por isso, toda iniciativa popular precisa ser incentivada. A luta de classes precisa ser enfrentada no contexto da ordem instituída e implica, para Gramsci, a escrita de uma história dos subalternos, como parte de um trabalho de autoeducação a ser realizado no movimento de organização política.

Como econômico, político e ideológico se articulam no movimento de construção da história, formar uma identidade de classe implica criar um novo modo de pensar, um novo costume, que se traduz em uma nova linguagem. Para deixar a subalternidade é preciso deixar de pensar com os pressupostos e os conceitos dominantes: superar o “politicamente correto” e criar uma nova concepção de mundo a partir das lutas e enfrentamentos coletivos. Ter clareza de que a linguagem não é neutra, mas política e metafórica, de modo que serve também de instrumento de dominação pela formação do senso comum.

Neste contexto, a formação política para a luta revolucionária como um processo educativo e cultural torna a leitura de Gramsci um importante aporte teórico para entender a realidade brasileira, formação que permite fazer frente à “tendência ao conformismo no mundo contemporâneo”, conformismo que se produz a partir da “padronização do modo de pensar e de agir, que assume dimensões nacionais e internacionais” (GRAMSCI, 1978, Q. 7, p. 862). O individualismo exacerbado e o desconhecimento de ações coletivas e seu significado para a mudança social, são alguns dos fatores que geram a passividade dos indivíduos, que se conformam ao instituído porque não sabem como resistir ou se organizar.

A atualidade do pensamento de Gramsci para o Brasil se coloca principalmente pela sua constatação de que tudo é política e, como tal, toda história é também história contemporânea, ou seja, a memória é pensamento e interpretação atual, busca dos rastros do passado no presente, para o qual podemos traduzir as contribuições das ações coletivas dos grupos subalternos, efetivadas como formas de resistência à dominação de classe.

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Traduzir significa também interpretar e traduzir Gramsci para o Brasil significa buscar nos seus escritos toda a força política e revolucionária que os perpassa desde a militância política junto aos trabalhadores de Turim até a obra escrita no cárcere fascista.

Referências:

ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. São Paulo: UNESP/Contraponto, 1996. GRAMSCI, Antonio. Quaderni del Carcere. Torino: Einaudi, 1978.

MARX, Karl. Prefácio. In: MARX, K. Para a Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

MORTON, Adam David. A geopolítica do sistema de Estados e o capitalismo global em

questão. In: Revista de Sociologia e Política. Curitiba: 29, 2017, pp. 45-62.

SAID, E. W. History, Literature and Geography. In: SAID, E. W. Reflections on Exile

and Other Literary and Cultural Essays. London: Granta, 2000.

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