Paranoia e conspiração nas crônicas de Roque Callage¹*
Considerações Iniciais
Quando pensamos em teorias da conspiração, em embustes criados para “esconder a verdade”, ora vociferados por pessoas ligadas à determinada posição política, ora outra; por jornalistas ou pessoas em busca de seus quinze minutos de holofotes, ou simplesmente encontramos o eco e os cochichos em corredores, é quase possível perceber-se dentro de um filme noir de Billy Wilder ou Orson Welles. Conspirações como o 11 de setembro, a Guerra do Golfo através da cobertura da CNN e o assassinato de JFK, não ficam apenas na conta das teorias norte-americanas; temos, no Brasil, nossas próprias histórias, e algumas mirabolantes: os assassinatos de Getúlio Vargas, João Goulart e PC Farias, o atentado ao Riocentro, e mais recentemente, as “tropas” de combatentes cubanos infiltrados por meio do programa Mais Médicos. Teorias conspiratórias estão presentes em todas as esferas da sociedade e atingem os mais diversos patamares de paranoia. Todos, entretanto, apresentam alguns pontos em comum, como um “plano” para dominação, se não mundial, de um país, região ou organização, reuniões secretas com agentes furtivos em lugares escondidos, entre outros.
As narrativas conspiratórias normalmente preenchem alguns “pré-requisitos” plenos de significados, referências e temas. Conforme Raoul Girardet (1987: 32), a ascensão de teorias de complôs apresenta sua estrutura próxima à do gênero literário do romance de folhetins, cujo público, ávido pelo sensacional e pela aventura, é brindado
* PERIN, Henrique. Mestre pelo Programa de Pós Graduação em História. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. E-mail: [email protected].
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com a amplificação e simplificação de referências, temas e imagens propícios para a fantasia. Apesar das narrativas variarem e muitas vezes ocuparem lugares secundários dentro de uma história, do desenvolvimento de uma determinada situação, normalmente o “conjunto arquitetônico” mitológico que permeia sua construção permanece imutável dentro do complô conspiratório. Apenas para exemplificar, já que este ponto será retomando mais adiante, identifica-se no centro desta mitologia a imagem da Organização, um ente temido e envolto em mistério (GIRARDET, 1987: 32).
Retornando quase uma centena de anos a Porto Alegre do final da década de 1920 e início de 1930, é possível acompanhar nas crônicas de Roque Callage, então jornalista do Diário de Notícias, a evolução do espírito dos intelectuais de Porto Alegre que resultou na Revolução de 1930. A partir do início da campanha da Aliança Liberal, o noticiário político discutido em sua coluna A Cidade, abordou boatos, informações disparatadas, especulações fortuitas e denúncias de conspiração. Destaca-se, por exemplo, a denúncia do exercício despótico do poder federal em demitir e remover funcionários públicos contrários à causa perrepista. Tratada até certo ponto de maneira comedida, a especulação de conspirações acerca da sucessão presidencial em 1929, quando Washington Luís apoiou a candidatura de Júlio Prestes, então presidente do Estado de São Paulo, toma uma nova roupagem com a candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República com João Pessoa na figura de vice-presidente (FAUSTO, 1970: 81). Com os ânimos acirrados já em setembro de 1929, mais de um ano antes do golpe, a possibilidade de uma revolução é aventada por Callage. Para o cronista, a vitória da Aliança Liberal assumia um significado mais rico de sentido que a simples tomada do poder por um novo grupo virtualmente avesso às práticas políticas tradicionais. Representava a proclamação da verdadeira independência do Brasil, missão heroica resumida pela figura de Getúlio Vargas (AC, 8/08/1929: 3).
Este artigo trata da análise de três crônicas de Roque Callage, definidas com o intuito de abordar aspectos que possam caracterizá-lo como um “teórico da conspiração”. Para tanto, são utilizadas as obras de Jack Bratich, Conspiracy Panics (2008) e Mitos e Mitologias Políticas, de Raoul Girardet (1987), das quais se compreende os fundamentos e limites que determinam o modus operandi de complôs e teorias de conspiração. Devido à sua posição política notoriamente neutra, ora pendendo ao conservadorismo, ora aos ideais de transformações sociais, é possível encontrar um tom comedido – até certo ponto – em sua coluna. Muitas das informações publicadas
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são referentes a diálogos ouvidos em bares e cafés, mas gradualmente a afeição do cronista pelo candidato gaúcho se torna presente e a defesa aberta da revolução toma as linhas de sua seção.
Conceituando “paranoia” e “teorias da conspiração”
Por mais óbvio que pareça ser encontrar um conceito de “teoria da conspiração”, em um primeiro momento somos apenas capazes de apontar exemplos. É fácil identificar a narrativa de um exército “bolivariano” a serviço do comunismo no Brasil treinando escondido e aquartelado na Amazônia como conspiratória, entretanto, a tarefa de delimitar e identificar de modo pontual porque outras teorias não se enquadram neste perfil é mais complexa. Jack Bratich, em Conspiracy Panics – Political Rationality and Popular Culture (2008: 2), também questiona esta ponto e levanta uma pergunta: as teorias de conspiração são definidas inicialmente por características internas da narrativa ou por sua posição discursiva externa? Há alguma característica inerente às teorias que as remete à conspiração ou o fato de parecerem conspiratórias está na relação que se propõe a outras teorias?
As narrativas de conspiração existem como uma categoria não só descritiva, mas também desqualificativa. Elas são, de certo modo, paranoicas (HITCHENS, 2004, apud BRATICH, 2008: 3); não são nem falsas nem mesmo “erradas”, apenas não atingem o limiar da aceitabilidade para que possam ser testadas. Se a capacidade de compreensão de verdade e falsidade está na “mente”, na esfera do pensamento humano, então as teorias conspiratórias estão fora desta esfera, são o para (ao lado) nous (mente): paranoias (idem). Bratich propõe que as teorias de conspiração são simultaneamente um tipo de narrativa e um sinal de desqualificação narrativa, e para isto elenca alguns sinônimos que podem ser relacionados com este tema. O primeiro elemento seria o conspiracionismo, uma linha de pensamento que considera as conspirações como uma força motriz da história, o estilo paranoico, que transforma a multiplicidade de crenças em conspirações em um estilo de pensamento, e a paranoia política, um termo de concepção muito próximo ao estilo paranoico e muitas vezes confundido com ele, mas que delimita o espectro político como uma categoria que designa uma psicologia social no qual o conhecimento produzido por seus integrantes pode ser designado de teoria conspiratória (BRATICH, 2008: 4).
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Estes, entretanto, não são as únicas maneiras de compreender as narrativas conspiratórias. Outros parâmetros podem ser empregados, particularmente por pessoas mais céticas quanto à paranoia, para contextualizar a tentativa de criar um conceito de teoria da conspiração. A pesquisa de conspiração, por exemplo, tenta autorizar e legitimar o conhecimento construído, já a conspiratologia se volta à consolidação das pesquisas científicas a fim de legitimar seu trabalho, enquanto que as narrativas conspiratórias são um termo utilizado por especialistas que não se apressam em desqualificar nem em valorizar as teorias, mas procuram acentuar o componente descritivo. Estes três termos também são utilizados como sinônimos das teorias de conspiração, apesar de serem contestados entre sua própria comunidade (BRATICH, 2008: 6). Conforme Bratich, as teorias de conspiração seriam um termo utilizado como uma “ponte” entre os conceitos estratégicos de narrativas que investigam conspirações:
A teoria da conspiração é, portanto, um termo de “ponte” – relaciona estratégias conceituais subjugadas (estilo paranóico, paranoia política, conspiração) a narrativas que investigam conspirações (conspiratologia, pesquisa de conspiração, cálculo de conspiração). A teoria da conspiração é uma condensação de tudo acima citado, um metaconceito que significa as lutas sobre o significado da categoria. Precisamos reconhecer nosso lugar sobre a “ponte” quando usamos o termo (BRATICH, 2008: 6).
Já Raoul Girardet, em Mitos e Mitologias Políticas (1987: 25), trata as teorias de conspiração de um modo um pouco mais elucidativo, pontuando os principais elementos que caracterizariam tal narrativa. Citando Michelet, Barruel, e Eugène Sue, Girardet utiliza as teorias conspirativas em voga do século XIX, como os complôs judaico, jesuítico e maçônico, para traçar alguns parâmetros comuns às do XX. O primeiro item apontado, já mencionado en passant na introdução, diz respeito à temível imagem da “Organização”, ou “Companhia”, um elemento localizado no centro da mitologia da conspiração. Seus membros – ou cúmplices – estão ligados por meio de um pacto de silêncio e participam de cultos e cerimônias intricadas e obscuras, muitas vezes sob o aspecto de seitas. A prática de senhas, códigos e sinais secretos está normalmente presente, assim como a compartimentação interna e sua hierarquização, onde escalões são aspirados e os graus superiores se mostram desconhecidos aos inferiores. A Organização sempre busca a dominação, senão mundial, de um país, uma região, um conglomerado ou mesmo uma empresa que possa satisfazer o sonho eterno de constituir um Império. Quaisquer meios que utilizar sempre serão legítimos
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A espionagem, a delação, a atuação dos sistemas de correios e os meios de comunicação estão entre os recursos mais comuns utilizados pela Companhia para a obtenção de êxito. Os ouvidos e a vontade dos conspiradores estendem-se entre os corpos policiais, nas organizações públicas e privadas. Os maridos, as esposas e os filhos, bem infiltrados no seio doméstico, captando todos os segredos familiares, não deixam passar um ruído sem reportar à Organização. Outro campo de atuação da Companhia que se desenvolve incessantemente é a “manipulação”, presente não apenas nos meios políticos, mas nas esferas públicas e privadas, nos costumes, no sistema educacional e nos mecanismos econômicos. O controle da riqueza pública, inclusive, é um elemento recorrente em praticamente todas as teorias conspiratórias. O controle rigoroso não apenas das propriedades territoriais, mas dos meios de produção e do sistema financeiro – e aqui se incluem bancos, bolsas de valores, casas de empréstimo, etc. – proporcionará tão frutíferos êxitos quanto à última estratégia da Organização: a corrupção. A deturpação dos costumes, assim como das tradições sociais e dos valores morais, serve para destruir as famílias e levar à ruína da sociedade. Também se pode citar o obscurantismo e as trevas, que conforme Girardet são os cumplices e testemunhos dos complôs. As reuniões dos conspiradores sempre são realizadas em salas subterrâneas, à meia-luz, e representam um papel essencial no desenvolvimento das teorias conspiratórias. O mesmo ocorre com a presença dos “estrangeiros”, pessoas que aparecem e desaparecem, cuja origem é desconhecida por todos, acobertados pelas sombras e normalmente beneficiários da traição, assim como os assassinos, recorrentes nas narrativas de conspiração (GIRADET, 1987: 36).
O obscurantismo e as maquinações da mitologia do complô são normalmente utilizados pelo poder estabelecido para legitimar os desterros e banimentos de indivíduos e organizações contrários à sua permanência. A existência da mensagem, do mito, independe de seus usuários eventuais. Normalmente impõe-se aos conspiradores e aos complôs um papel muito mais amplo e intrincado do que sua própria contribuição real, embasado em relações diretas e indiretas com fatos pontuais, de simples verificação. A facilidade com que as diversas teorias se adequam as mais variáveis incertezas – tanto psicológicas quanto sociais – chama a atenção. Segundo Girardet, o mito do complô preenche uma função social de relativa importância, já que fornece uma “explicação” que reduz um conjunto de fatos e acontecimentos, através de um processo lógico aparentemente engessado, a uma significação elementar e potencialmente
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verdadeira. O mito da teoria da conspiração exerce assim uma função explicativa através, a partir e em proveito de grupos sociais diversos, onde este mito desempenha um papel “revelador”, onde a coerência e a lógica da paranoia se encontram com a coerência e lógica do discurso conspiratório. (GIRARDET, 1987: 54).
Paranoia e conspiração nas crônicas de Roque Callage
Ao realizar a análise das crônicas de Roque Callage, dentro dos inúmeros temas dos quais podemos categorizar sua contribuição jornalística – economia, social, relação campo/cidade, cultura, etc. – pode-se apontar, quando averiguamos sua produção entre os anos de 1929 e 1930, um aspecto marcado pelo cenário político no Brasil: a discussão da política “café-com-leite” e a ascensão de Getúlio Vargas. Entre o fim da República Velha (1889-1930) e o início da Era Vargas (1930-1945), Callage produziu um grande número de colunas (ao todo, no jornal Diário de Notícias, o último veículo onde trabalhou, entre 1925 e 1930, foram mais de 1600 crônicas escritas com a periodicidade de seis por semana) voltadas inicialmente à política eleitoral vigente, passando pelo desagrado com a indicação presidencial de Washington Luís, pela aprovação da figura de Vargas no governo estadual e culminando na Revolução de 1930. A falta de interesse da população no dias pátrios (AC, 7/09/1929: 4; AC, 15/11/1929: 3) também tomaram lugar em sua coluna, entretanto a proposta deste ensaio será a análise de três crônicas onde os elementos que possam categorizá-las como paranoicas e portadoras de teorias conspiratórias se mostram mais contundentes.
Em 31 de agosto de 1929, um sábado, a última crônica da semana assinada por Roque Callage com o invariável título A Cidade, iniciou destacando um diálogo “registrado e apanhado por mero acaso na esquina do Cinema Central, onde conversavam duas pessoas, frente a frente, sendo uma delas é um conhecido funcionário federal, cavalheiro distinto e honesto”:
– Ou você é prestista ou você é imediatamente transferido! – Escolha...
– Já escolhi.
– Então venha de lá a sua nova profissão de fé. – Continuo onde estava.
– Como?
– Sou amigo e admirador do Getúlio. Entre ele e o Júlio Prestes não vacilo: voto nele!
– Pois será transferido.
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– Pouco importa. O caso é que você será transferido.
– Paciência. Nem por isso abrirei mão do meu direito, o direito que deve ter todo o cidadão brasileiro de votar em quem bem entender.
Como o leitor está vendo, trata-se de um diálogo. As frases que acima registramos apanhamos por mero acaso ontem à tarde na esquina do Cinema Central. Conversavam duas pessoas, frente a frente. Uma delas é um conhecido funcionário federal, cavalheiro distinto e honesto (sim, porque há pessoas que são distintas, mas não são honestas) altamente considerado e querido no nosso meio. A outra pessoa é desconhecida. Não é daqui. Talvez algum “secreta” na dupla função de delator e Torquemada.
Talvez seja isso. É o mais provável. Pela maneira de falar só pode ser um miserável, a soldo do governo da União. O Brasil, desgraçadamente está cheio dessa gente que é capaz de vender por qualquer preço até mesmo aquilo que eles nunca tiveram: a dignidade e a consciência (AC, 31/08/1929: 3).
Segundo Callage, o diálogo entre as duas pessoas, uma figura significativa e reconhecida na cidade, e outra, completamente desconhecida, remete à alegoria do “estrangeiro”, elucidada por Girardet: uma pessoa desconhecida, nunca antes vista em determinada localidade e que muitas vezes realiza ameaças aos “patrícios”, muitas vezes nominado como “espião”. Callage vai um pouco além da mera insinuação da possibilidade desta figura misteriosa ser um “secreta”. O cronista alega que a postura, o modo de falar, incluindo o fato de ser um “estrangeiro”, alguém alheio ao convívio da cidade, provavelmente o coloca entre os “miseráveis a soldo do governo da União”, pontualmente infiltrado para ameaçar o funcionalismo federal na cidade em reprimenda à postura política do Rio Grande do Sul frente ao governo presidencial. A paranoia, normalmente exacerbada, como neste caso, permeava o imaginário dos jornais sul-rio-grandenses. Conspirações, boatos e toda sorte de informações desencontradas ajudaram a suscitar não só o temor do rumo político que seguia a nação, mas a necessidade de uma “revolução” para defender a legitimidade e idoneidade de um governo federal.
Já na crônica do dia 12 de setembro de 1929, quinta-feira, o tom da coluna se mostra ainda mais pessimista e temerária quanto à situação de “boicote” ao Estado. Transferências, paralizações de obras, enfim, práticas espúrias dos mais variados sortimentos são denunciadas pelo cronista:
A cidade política ou, digamos melhor, a cidade que patrioticamente se mostra preocupada com o caso da sucessão presidencial, reanimou-se ontem, de vivos e intensos comentários em face das novas picuinhas que o governo da União vem fazendo contra a vida interna do Estado. São perseguições indiretas que se referem à paralisação de obras, à remoção de funcionários, à extinção ou transferências de repartições, o que mostra claramente a disposição do Catete de levar avante o seu plano de perseguir a todo o transe o Rio Grande. – E tudo isso para quê? –
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perguntou alguém que com outros conversava ontem, à tarde, à porta da redação desta folha.
– Ora para quê?... Por espírito de perseguição e nada mais. Então você pensa que o “braço forte” tolera a atitude do Rio Grande em querer se opor à candidatura do seu compadre e protegido? Estamos definitivamente barrados. O que mais vale agora é que o seu governo está por pouco. Se ele tivesse que continuar ainda no Catete por três ou quatro meses mais, a terra gaúcha, por sua vontade, dele, estaria completamente aniquilada. Havia de pagar até o último dos sacrifícios na sua vida de Estado, de parcela que é da Federação, o feio gesto de ter concorrido com um candidato seu à sucessão presidencial da República (AC, 12/09/1929: 3).
O temor das represálias ao Rio Grande do Sul não está presente apenas na coluna de Callage, mas no meio intelectual, acadêmico e político da cidade. A perseguição que os quadros públicos estaduais supostamente sofreram serve como combustível para a formulação de teorias conspiratórias onde o governo federal, na figura do então presidente Washington Luís, gostaria de ver a “terra gaúcha completamente aniquilada”. Novamente é possível encontrar elementos que remetem à Girardet e Bratich: a paranoia das medidas que vilipendiam o RS, a perseguição aos funcionários abertamente contrários aos interesses federais e o complô arquitetado para levar o Estado ao caos nas obras e nos serviços públicos.
Ao analisar a última crônica proposta para este trabalho, publicada no sábado de 7 de dezembro de 1929, percebe-se que Callage aponta alguns comentários e boatos políticos que tomam conta das conversas nos bares, cafés e redações em Porto Alegre. A possibilidade de um acordo entre o PRP e a Aliança Liberal é aventada pelos rumores que circulam na cidade, mas logo refutada:
A cidade está cheia de boatos e de comentários políticos. Desde anteontem, pela manhã, que o assunto de todas as rodas é invariavelmente o mesmo.
– Então temos acordo?... – Que acordo, seu?
– Ora... Acordo político. Então, você não sabe? – Não.
– Pois é. O “braço forte” mandou propor ao Dr. Borges a indicação do seu nome, retirando em seguida a candidatura de Júlio Prestes.
– Não acredito em semelhante balela. É uma questão de honra para Minas, Rio Grande e Paraíba, manter até o fim a candidatura Getúlio Vargas. Tenho absoluta certeza que o Dr. Borges não se prestaria ao papel de “tertius”, quando está em jogo o nome de pessoas, mas a própria dignidade do Rio Grande, que se insurgiu contra o processo usado pelo presidente da República, indicando ele próprio o seu sucessor. Lembrando o Sr. Washington agora o nome de um terceiro candidato, ainda é o mesmo processo que permanece em vigor, ainda é o mesmo autoritarismo
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que se procura impor à revelia da vontade da Nação. Não, meu amigo. Isso tudo não passa de mero boato (AC, 7/12/1929: 3).
A questão da “honra” entre os Estados aliados na Aliança Liberal é levantada para deslegitimar o boato do acordo entre os dois polos políticos; percebe-se a segurança do interlocutor em desmentir o boato, sua segurança em taxar de “autoritário” o governo exercido pelo Catete. Seguindo com a concepção de Girardet, a disseminação de boatos que insuflem campanhas conspiratórias é utilizada para tentar “desmotivar” os revoltosos gaúchos que prontamente defendem a dignidade do Rio Grande do Sul. Considerações finais
Roque Callage, jornalista e cronista do Diário de Notícias entre o final da República Velha e o início da Era Vargas, exerceu a importante tarefa de levar a informação a seus leitores. Enquanto flâneur a serviço do jornal, convivendo com os círculos políticos e intelectuais da cidade em bares, restaurantes, cafés e livrarias, o cronista prestou um valoroso serviço para o alastramento de boatos e informações acerca da situação política do Rio Grande do Sul e do Brasil. Tratando-se do início do século XX, quando algumas diretrizes de averiguação de fontes jornalísticas – em sua grande maioria tácitas – não existiam, e considerando-se que uma crônica, enquanto espaço componente de um meio de comunicação tem por princípio não apenas ser inspirada em fatos cotidianos, mas também ser imbuída da criatividade e do “estilo” de seu autor (DE SÁ, 2005: 40), é possível considerar tal coluna como um “nascedouro” de teorias conspiratórias. O comprometimento com a veracidade das informações e dos diálogos reproduzidos pelo escritor não é posto em dúvida, entretanto os boatos e diálogos reproduzidos na coluna A Cidade, onde alguns nomes são preservados, propicia e muitas vezes incita a criação de narrativas conspiratórias.
Elementos citados por Bratich e Girardet são facilmente identificados nas crônicas de Callage. A paranoia de conspirações e complôs contra o povo gaúcho, empreendidos pelo governo federal no Rio de Janeiro, é representada pelas “transferências” e sanções perpetradas aos funcionários públicos federais do RS e às paralizações de obras, assim como a presença de “estrangeiros” em Porto Alegre ameaçando prestadores de serviços públicos; espiões e a possibilidade destes, infiltrados na capital, de “venderem” a dignidade de outrem, e mesmo a tentativa de espalhar informações falsas que pudessem desmobilizar a vigília do povo sul-riograndense frente
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à possibilidade da eleição de Getúlio Vargas e de uma possível revolução. Meios de comunicação, como já elencado por Girardet, são instrumentos comumente necessários para a perpetração de teorias conspiratórias, muito embora, como no caso de Callage, provavelmente utilizado sem consciência plena do fomento de conspirações e complôs pelo cronista.
Bibliografia
BRATICH, Jack Zeljko. Conspiracy Panics. Political Rationality and Popular Culture. New York: State University of New York Press, 2008.
CALLAGE, Roque. A Cidade. Diário de Notícias, Porto Alegre, 8 ago. 1929. ______. A Cidade. Diário de Notícias, Porto Alegre, 31 ago. 1929.
______. A Cidade. Diário de Notícias, Porto Alegre, 7 set. 1929. ______. A Cidade. Diário de Notícias, Porto Alegre, 12 set. 1929. ______. A Cidade. Diário de Notícias, Porto Alegre, 15 nov. 1929. ______. A Cidade. Diário de Notícias, Porto Alegre, 7 dez. 1929. DE SÁ, Jorge. A crônica. São Paulo: Editora Ática, 2005.
FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: história e historiografia. São Paulo: Brasiliense, 1970.
GIRARDET, Raoul. Mitos e Mitologias Políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.