SEMINÁRIO TEMÁTICO
Pós-colonialismo, pós-nacionalismo, pós-socialismo: a democracia como suspensão e a demanda por uma nova normalidade
Coordenadores: Omar Ribeiro Thomaz, Bila Sorj, Sebastião Nascimento
Feminismo e tradução: Entre o colonialismo acadêmico e a diferença pós-colonial Claudia de Lima Costa
Feminismo, tradução, transnacionalismo
Claudia de Lima Costa
Hay un imperialismo Americano que a veces podemos tener interés en explotar, en afectar, en transformar. Si tomo como ejemplo mi propia experiencia, es evidente que me interesa que mi obra sea traducible al inglés. Mi trabajo ha sido conocido con frecuencia en el mundo a partir de las traducciones en inglés: en Japón, en India. Se me lee en traducción. Mi recurso es escribir en francés, puesto que solo escribo en francés, escribir en francés cosas tales que la traducción en angloamericano transforme la lengua angloamericana, produzca efectos en la lengua al punto que cuando [una persona] me lea en inglés sienta que hay ahí algo extraño, que él vea en la lengua cosas extrañas, se diga que el inglés ha sido trasformado o que se esconde detrás de un texto francés que resiste al inglés. Es de esa manera que uno hace una obra, si uno hace una obra, es decir, tomando la lengua del dominador, si se puede decir, la lengua imperial o imperialista. Uno la toma y trata de subvertirla como uno pueda haciendo que hable de otra manera. Haciendo que en el interior mismo de la lengua americana proteste una cierta hegemonía americana.
Jacques Derrida. Entrevista. Revista de Critica Cultural, n. 25, 2002, p.23.
Nas formações culturais contemporâneas globalizadas, à luz da reconfiguração de conhecimentos e do remapeamento de todos os tipos de fronteiras, a problemática da tradução se tornou uma questão importante (e, poderíamos dizer, recente) no espaço dos debates feministas.1 No contexto das histórias de viagens, migrações e outros deslocamentos sempre interconectados e diversos,2 e do trânsito transnacional de teorias e conceitos, a questão da tradução se torna premente, constituindo, de um lado, um espaço
1
As reflexões que apresento aqui são parte de um projeto coletivo maior, reunindo pesquisadoras de várias universidades americanas do norte da Califórnia. Apesar de compartilharmos uma preocupação comum com os problemas da tradução e os deslocamentos das teorias feministas, cada uma de nós se debruça sobre distintos aspectos dessa problemática. A fim de estabelecermos um ponto de partida consensual nas nossas pesquisas, estivemos durante alguns anos nos encontrando regularmente em workshops na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, quando, então, falamos de nossos trabalhos, lemos artigos e discutimos os desafios da tentativa de estabelecer diálogos hemisféricos entre as feministas latinas e chicanas nos Estados Unidos e as feministas latino-americanas. Foi incentivada por essas conversas que elaborei considerações iniciais sobre feminismo e tradução nas Américas. Queria agradecer a todas as colegas do grupo de pesquisa Feminist Transnational Translations que contribuíram para esse trabalho conceitual, apresentado também na mesa-redonda sobre feminismos durante o seminário Reflections on the Future: Hemispheric Dialogues on the Intersections of Latina/o – Chicana/o – Latin American(s) Studies (University of Califórnia, Santa Cruz, março de 2004). De certa maneira, posso dizer que esse texto é produto de várias vozes. Meus agradecimentos especiais a Sonia E. Alvarez, Veronica Feliu e Pascha Bueno-Hansen pela leitura cuidadosa e pelas generosas sugestões. Foram também de grande relevância para esse trabalho os comentários incisivos de Francine Masiello na ocasião do seminário.
2
CLIFFORD, James. Routes: travel and translation in late twentieth century. Cambridge: Harvard University Press, 1997.
único para a análise da representação, do poder e das assimetrias entre linguagens e, de outro, para o exame das formações do conhecimento e das institucionalizações através das quais essas teorias e conceitos viajam. Em resumo, nesse momento em que a “mobilidade, proximidade, aproximação”, promovidas pela des(re)territorialização do capital e transnacionalização da cultura, marcaram definitivamente a entrada (sempre desigual) de áreas geográficas bastante díspares em uma modernidade unificadora,3 teorizar o processo de tradução (traduzir tradução) requer a análise das várias economias nas quais o signo da tradução circula.4
Podemos começar esclarecendo que o uso do termo tradução é o mesmo da acepção dada por Tejaswini Niranjana (1992), isto é, ele não se refere exclusivamente às discussões sobre estratégias dos processos semióticos na área dos estudos da tradução, mas também aos debates sobre tradução cultural. A noção de tradução cultural (esboçada, em um primeiro momento, nas discussões sobre teoria e prática etnográficas e, posteriormente, exploradas pelas teorias pós-coloniais) se baseia na visão de que qualquer processo de descrição, interpretação e disseminação de idéias e visões de mundo está sempre preso a relações de poder e assimetrias entre linguagens, regiões e povos. Não é de se estranhar, então, que a teoria e a prática da tradução tenham surgido, segundo Niranjana, da necessidade de disseminação do Evangelho, quando um dos sentidos de traduzir significou converter.
Muito já se escreveu sobre as viagens das teorias através de diferentes topografias e itinerários cada vez mais complexos. No trânsito das teorias, existem dois pontos a serem considerados. Primeiro, as teorias que viajam mais facilmente são as que articulam um nível de abstração tão alto que qualquer questão de contexto se torna irrelevante (desconstrução, pós-estruturalismo, psicanálise, etc.). Segundo, enquanto cruzam territórios, as teorias são continuamente apropriadas e transformadas pelas leituras locais,
3
CHOW, Rey. Primitive Passions: visuality, sexuality, ethnography, and contemporary chinese cinema. New York: Columbia University Press, 1995.
4
A questão da tradução no mercado global de bens materiais e simbólicos se faz central quando entendemos, com Canclini, que a apreensão do fenômeno da globalização força nosso olhar para o estudo das suas narrativas e metáforas. Segundo Canclini, “para ocuparse de los procesos globalizadores hay que hablar, sobre todo, de gente que migra o viaja, que no vive donde nació, que intercambia bienes y mensajes con personas lejanas, mira cine y televisión de otros países, o se cuenta historias en grupo sobre el país que dejó. Se reúne para celebrar algo lejano o se comunica por correo electrónico con otros a los que no sabe cuándo volverá a ver. En cierto modo, su vida está en otra parte.” CANCLINI, Nestor Garcia. La globalización imaginada. México: Paidós, 2000. p. 50.
adquirindo uma estrutura mais heterogênea. O itinerário segue, portanto, uma lógica rizomática – sem um lugar de origem evidente nem um ponto inequívoco de chegada. Como argumenta Mary John, as teorias feministas se encaixam nesta segunda categoria, pois, ao fazer uso simultâneo de registros variados (material, político, cultural), elas se forjam em diferentes níveis de abstração.5
No contexto das Américas, nas interações entre feminismos do Norte e do Sul,6 as viagens dos discursos e das práticas encontram um número formidável de bloqueios e postos de controle migratórios quando tentam cruzar fronteiras. Isto se deve, em parte, não somente à existência de certas configurações institucionais dominantes e excludentes, mas também ao fato de que diferentes historiografias excluíram (e excluem) sujeitos e subjetividades de ambos os lados da divisa Norte-Sul (e dentro de cada lado), fazendo da possibilidade de um diálogo produtivo um desafio político e epistemológico.
Uma primeira interlocução sobre o fluxo das teorias feministas nas Américas, feita por autoras situadas institucionalmente em ambos os lados da fronteira (ideológica, racial, sexual, geopolítica, etc.), foi publicada em uma seção temática da Revista Estudos Feministas.7 Respondendo à pergunta sobre o que se perde na tradução das conversas entre latinas nos Estados Unidos, chicanas e latino-americanas, chegou-se ao insight de que as relacionalidades e acessórios que diferentes categorias analíticas do feminismo adquirem enquanto viajam tendem a determinar sua tradutibilidade. Por exemplo, enquanto o projeto dos estudos subalternos, transportado da índia para a crítica norte-americana, se ancorou na teoria e esteve desligado das preocupações com questões de raça e gênero, o projeto das mulheres de cor, articulado inicialmente pelas feministas chicanas e latinas nos Estados Unidos, esteve desde o início ancorado na raça. Entretanto, a categoria raça é lida de um modo específico em diferentes formações raciais, o que em parte explica a (in)tradutibilidade do conceito norte-americano women of color, especialmente quando levado para outras topografias.
5
JOHN, Mary E. Discrepant dislocations: feminism, theory, and postcolonial histories. Berkeley: University of California Press, 1996.
6
Esta divisão sinaliza mais que tudo uma lógica geopolítica. 7
A seção temática sobre as viagens e traduções das teorias feministas foi organizada por Claudia de Lima Costa com a colaboração de Francine Masiello, Norma Klahn, Simone Pereira Schmidt, Kia Lilly Caldwell, Patricia Zavella e Nora Dominguez. Revista Estudos Feministas, v. 8, n.2, 2000.
Em alguns redutos feministas latino-americanos, existiu até recentemente (e há lugares em que ainda existe) forte resistência às preocupações das feministas latinas e chicanas, freqüentemente traduzidas e reduzidas a discussões sobre raça/racismo. Estas, por sua vez, foram descartadas rapidamente por serem consideradas irrelevantes para o contexto latino-americano, em um claro indício de como os vetores da sexualidade e raça (e classe) são obliterados ao mesmo tempo em que um sujeito universal (geralmente branco) do feminismo latino-americano é produzido para as feministas latinas e chicanas. Portanto, uma tarefa importante para as feministas em seus diálogos Norte/Sul, necessariamente engajadas no processo de tradução cultural, seria a de mediar não somente as barreiras lingüísticas e culturais, mas também as raciais, sexuais (entre outras) com o objetivo de “criar espaços para alianças e conversas que cruzem fronteiras sem levar ao diálogo cruzado”.8
Uma recente controvérsia causada por um artigo de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant, no qual criticam a difusão internacional do pensamento norte-americano, marca muito bem a problemática da tradução de certas categorias analíticas quando descoladas de um contexto a outro.9 No artigo, esses dois sociólogos europeus descrevem a exportação global de idéias e conceitos norte-americanos (incluindo a imposição, no Brasil, de modelos raciais dicotômicos) como “macdonaldização proliferante do pensamento”. Contudo, ausente dessa reflexão (caricaturista e à beira da histeria) sobre a importação brasileira de “idéias fora do lugar” – como bem o aponta John French – está a questão da leitura e tradução dessas idéias supostamente macdonaldizadas. Segundo French,
o modelo simplista de dominação/imposição dos EUA e submissão/cumplicidade subalterna (...) [a]paga o processo de apropriação local ao mesmo tempo em que amplamente exagera o poder e a influência que as noções produzidas nos EUA têm tido ou podem ter no Brasil. Em resumo, fetichizam a origem “estrangeira” das idéias (ela mesma questionável) enquanto descrevem o processo de troca transnacional como inerentemente de mão única.10
8
CARRILLO, Teresa. Watching over greater México: mexican initiatives on migration. Trabalho apresentado no workshop sobre Feminist Theories in the Latin/a Americas and the Transnational Politics of Translation. Chicano and Latino Research Center, University of California, Santa Cruz. Março de 2003.
9
BOURDIEU, Pierre e WACQUANT, Loïc. Sobre as artimanhas da razão imperialista. Estudos Afro-Asiáticos, v. 24, n. 1, p. 15-33, 2002.
10
FRENCH, John. Passos em falso da razão antiimperialista. Estudos Afro-Asiáticos, v. 24, n. 1, p. 97-104, 2002. p. 122.
No cenário contemporâneo que marca o desaparecimento de vias de mão única e o surgimento de “zonas (cada vez mais voláteis) de tradução”11 e epistemologias de fronteira, cabe à crítica feminista examinar com atenção o processo de tradução cultural das teorias e dos conceitos feministas de modo a desenvolver uma certa “habilidade geopolítica ou transnacional de ler e escrever”12 dirigida à articulação de “feminismos transnacionais”.13 Esta tarefa requer o mapeamento dos deslocamentos e da tradução contínua das teorias e dos conceitos feministas, das dinâmicas de leitura (influenciadas pelas “trajetórias históricas, formação cultural e mitologias sociais próprias”),14 bem como das limitações impostas por mecanismos de mediação e tecnologias de controle sobre o tráfego das teorias através das fronteiras geopolíticas.
Falando desses mecanismos, Rosi Braidotti, ao investigar a exportação problemática do pós-estruturalismo francês para a academia norte-americana altamente mercadizada e não raras vezes despolitizada, argumenta que uma análise em grande escala do trânsito e das traduções de teorias precisa levar em conta “a natureza das instituições de ensino, o status centralizado da teoria, [e] as normas e tabus de representação” no ponto de chegada.15 Entretanto, como alertam Robert Stam e Ella Shohat,16 localizar o surgimento do pós-estruturalismo no Ocidente já é, por si só, um efeito da tradução. Para esses autores, ignorar a contribuição da teorização subalterna e anti-colonial no descentramento das grandes narrativas Eurocêntricas, assim excluindo o modo como o pensamento do terceiro mundo foi codificado por aqueles associados ao estruturalismo e ao pós-estruturalismo no
11
Tomo emprestado de Emily Apter esta expressão. Zona de tradução – uma apropriação do conceito de zona de contato cunhado por Mary Louise Pratt – significa um lugar intersectado por várias fronteiras lingüísticas em constante confronto e disputa. Veja: APTER, Emily. Balkan babel: translation zones, military zones. Public Culture, v. 13, n. 1, p. 65-80, 2001.
12
FRIEDMAN, Susan S. Mappings: feminism and the cultural geographies of encounter. Princeton: Princeton University Press, 1998; SPIVAK, Gayatri C. The politics of translation. In: BARRETT, Michèle; PHILLIPS, Anne. (Eds.). Destabilizing theory: contemporary feminist debates. Cambridge: Polity Press, 1992. p. 177-200.
13
GREWAL, Inderpal and KAPLAN, Caren. Introduction: transnational feminist practices and questions of postmodernity. In: Scattered hegemonies: postmodernity and transnational feminist practices. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.
14
FRENCH, op. cit., p. 121. 15
BRAIDOTTI, Rosi. The way we were: some post-structuralist memoirs. Women’s Studies International Forum, v. 23, n. 6, p. 715-728. p. 720.
16
STAM, Robert. Cultural studies and race. In: MILLER, Toby (Ed.). A companion to cultural studies. Oxford: Blackwell, 2001. p. 471-489; SHOHAT, Ella. “Estudos de área, estudos de gênero e as cartografias do conhecimento” (nesta coletânea).
Ocidente, é dar a este corpus teórico “um acabamento branco e um sotaque francês”.17 Portanto, uma exploração a fundo das teorias ou do trânsito de textos deve também revelar as operações do “imperialismo conceitual, intelectual (...) mais notadamente nas formas de racismo e colonialismo”.18
Uma das questões pertinentes sobre trânsito e traduções das teorias seria: de que modo e através de quais instituições os conceitos, os discursos e as práticas feministas ganham residência temporária (e até permanente) nas diferentes economias representativas? Sabemos que os textos não transitam através de contextos lingüísticos sem um visto (tradução sempre acarreta algum tipo de custo). Seus deslocamentos se tornam possíveis somente na presença de um aparato material que organiza a tradução, publicação, circulação e recepção dos mesmos. Essa materialidade – que é ao mesmo tempo constituída por, e constitutiva de, contextos de recepção – influencia de modo significativo na escolha de quais teorias/textos são traduzidos e são re-significados para melhor se adaptarem às agendas intelectuais locais. O reconhecimento de que atos de leitura (modos de recepção) são atos de apropriação realizados em contextos de poder (institucional, econômico, político e cultural) já faz parte do nosso senso-comum.19
Nas viagens das teorias feministas pelas Américas, existem vários “corretores/as de teorias”, abrangendo acadêmicas/os, doadores nacionais e internacionais dos Estados e de organizações filantrópicas, organizações não-governamentais feministas e o movimento de mulheres. Esses/as diferentes e diversos/as mediadores/as – como foi demonstrado por Millie Thayer e Sonia Alvarez de forma convincente20 –, situados/as no, ou excluídos/as do, fluxo global de capital e mercadorias, possuem certa ingerência no movimento através de fronteiras das teorias e dos discursos feministas. Tanto nos Estados Unidos quanto na América Latina, a academia e as ONG’s feministas são os dois locais mais privilegiados para a produção, circulação e recepção dos feminismos. Entretanto, a perene crise
17
STAM, op. cit. 18
JARDINE, Alice. Gynesis: configurations of woman and modernity. Ithaca: Cornell University Press, 1988. p. 14.
19
Para uma reflexão sobre o papel dos periódicos feministas na circulação/tradução das teorias feministas, veja: COSTA, Claudia de Lima. As publicações feministas e a política transnacional da tradução: reflexões do campo. Revista Estudos Feministas, v. 11, n. 1, p. 254-264, 2003.
20
THAYER, Millie. Feminismo transnacional: re-lendo Joan Scott no sertão. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 1, p. 103-129, 2001; ALVAREZ, Sonia E. Translating the global: effects of transnational organizing on local feminist discourses and practices in Latin America. Meridians, v. 1, n. 1, p. 29-67, 2000.
econômica na América Latina, a qual afeta diretamente os órgãos de disseminação cultural e científica, vem impondo sérios obstáculos à circulação das teorias feministas. Diante da escassez de recursos para tradução, privilegiam-se ainda os textos provenientes do centro do poder, geralmente ocupados por autores brancos. Nos Estados Unidos, a produção de feministas latinas e chicanas nem sempre contou com instrumentos efetivos de disseminação devido à, ainda profunda, rejeição dos conhecimentos subalternos nos espaços da academia norte-americana.
Diante da intensa migração de conceitos e valores que acompanham o trânsito de textos e teorias, freqüentemente acontece que um conceito com potencial para uma ruptura política e epistemológica, em um determinado contexto, torna-se despolitizado quando transferido para outro contexto. Para Hillis Miller, isso acontece porque todo conceito carrega em si uma longa genealogia e uma história silenciosa, a qual, transportada para outras topografias, pode produzir leituras inesperadas.21 Entretanto, a abertura da teoria para a tradução é o resultado da natureza performativa, não cognitiva, da linguagem (toda leitura é, sobretudo, uma leitura incorreta). Para esse autor, teorias são maneiras de fazer coisas com a linguagem, uma delas sendo a possibilidade de ativar diferentes leituras do texto social. Quando introduzidos a um novo contexto, os tipos de leitura provocados por uma teoria podem transformá-lo radicalmente. Portanto, traduções, além de serem intrinsecamente infiéis, como destacou Benjamin,22 irão sempre causar desfiguração quando a teoria viaja, deformando e transformando a cultura e/ou disciplina que a recebe.23
Nas viagens das teorias nas Américas, um dos desafios recorrentes para a tradução hemisférica diz respeito aos conceitos que resistem à própria noção de tradução. Como traduzir idéias e conceitos que não viajaram? Nas políticas de tradução, a preocupação não deve ser somente com o trânsito e apropriações de discursos, mas também com o quanto se quer abrir o signo traduzido e para quem ele poderá ser aberto. A “conveniência da incompreensão”, como assinala Timothy Brennan, marca o silêncio que paira do outro lado
21
MILLER, J. Hillis. Border Crossings, Translating Theory: Ruth. In: BURDICK, Sanford and ISER, Wolfgang. (Eds.). The translatability of cultures: figurations of the space between. Palo Alto: Stanford University Press, 1996. p. 207-223.
22
BENJAMIN, Walter. The task of the translator: an introduction to the translations of Baudelaire’s Tableaux Parisiens. In: VENUTI, Lawrence. (Ed.). The translation studies reader. New York: Routledge, 2000, p. 15-25.
23
do processo de tradução e ressalta o fato de que “atos de tradução nem sempre buscam formas mais precisas de comunicação; ao contrário, procuram de maneira subversiva a tradução desleal de significados como garantia da incomunicabilidade” e, em última instância, da sobrevivência lingüística e cultural.24 O silêncio da incomunicabilidade representa, para Apter, uma resistência ativa aos “modelos transnacionais de tradução que idealizam [as margens] como objeto de preservação ecológica”.25
Muitas feministas, ao tentar encontrar maneiras produtivas de estabelecer diálogos na articulação de alianças transnacionais, através das diferentes comunidades feministas dispersas em um mundo de crescente movimento e contatos trans-culturais, recorreram à prática da tradução como lugar privilegiado para a negociação de diferenças. Entretanto, suas estratégias na busca de coalizões entre essas comunidades discrepantes, situadas em diferentes “temporalidades de lutas”,26 têm variado imensamente. Inderpal Grewal e Caren Kaplan, por exemplo, se apóiam na noção de uma política de localização (politics of location) – concebida como uma temporalidade de luta e não uma posição fixa – para desenvolver algumas práticas-chave dos projetos feministas desconstrutivistas, incluindo o escrutínio das relações sociais específicas que produzem localizações e situam conhecimentos.27 Tropos de viagem/deslocamento (tais como nomadismo, turismo, exílio e migração) utilizados nos discursos críticos modernistas, freqüentemente, romantizam os termos da viagem e omitem as condições materiais que produzem deslocamentos no mundo contemporâneo.
Lata Mani, avaliando como localização e posicionamento precisam ser explorados no que diz respeito à produção e recepção de conhecimentos, pede por uma estratégia de mediações múltiplas quando as feministas confrontam o dilema de falar para platéias e leitoras discrepantes dentro de momentos históricos distintos.28 Ao apresentar seu trabalho
24
BRENNAN, Timothy. The cuts of language: the east/west of north/south. Public Culture, v. 13, n. 1, p. 39-63, 2001. p. 53.
25
APTER, Emily. Translation in a global market. Public Culture, v. 13, n. 1, p. 1-12, 2001. p. 7. 26
MOHANTY, Chandra T. Feminist encounters: locating the politics of experience. Copyright 1, p. 30-44, 1987. p. 40.
27
GREWAL; KAPLAN, op. cit. 28
MANI, Lata. Multiple mediations: feminist scholarship in the age of multinational reception. In: McCANN, Carole R.; SEUNG-KYUNG, Kim. (Eds.). Feminist theory reader: local and global perspectives. New York: Routledge, 2003. p. 364-377.
sobre a prática de suttee29 para grupos nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Índia, Mani percebeu como as platéias, em cada um desses lugares, deram significados políticos muitas vezes opostos a diferentes aspectos de seu trabalho – recepção esta, em parte, norteada pelas variadas agendas locais. Segundo a autora, “essas respostas, em etapas, me levaram a refletir sobre como o movimento entre distintas configurações de significado e poder podem induzir a diferentes modos de saber”.30
Ana Tsing, de maneira similar, indagou sobre como as feministas poderiam construir alianças de forma que não solapassem a diversidade.31 Baseada na noção benjaminiana (e derridiana) de tradução desleal (na qual os textos são apropriados e reescritos de modo a forjar novos significados pela interação das linguagens), ela detalha como as tecnologias da tradução produziram histórias intrinsicamente ocidentais do feminismo e do ambientalismo. Seguindo o modelo de desenvolvimento do tipo ocidente para o resto do mundo, tais narrativas construíram histórias ocidentais e culturas não-ocidentais, mostrando uma linhagem de pensamento estruturada dicotomicamente entre esses dois pólos. A autora faz três advertências metodológicas para enfatizar que tanto o feminismo quanto o ambientalismo são continuamente forjados em encontros e interações heterogêneas:
Primeiro, ao invés de traçar uma história do pensamento social ocidental, podemos traçar os movimentos nos quais listas de pensadores ocidentais aparecem como sendo História. Segundo, ao invés de seguir originais ocidentais através das transformações culturais não-ocidentais, podemos seguir o contexto da narrativa através do qual focos de diferenças culturais são identificados. Terceiro, ao invés de debater a verdade das definições ocidentais universais, podemos debater a política de seu uso estratégico e retórico ao redor do mundo.32
Recusando uma estrutura discursiva que se apóie em narrativas do tipo ocidente para o resto do mundo, Tsing argumenta pela construção de diversas alianças que, ao
29
Na India, prática tradicional (abolida pela Inglaterra durante o período colonial) em que as mulheres eram imoladas vivas na pira funerária de seus maridos.
30
MANI, op. cit., p. 367. 31
TSING, Ana. Transitions as Translations. In: SCOTT, Joan; KAPLAN, Cora; KEATES, Debra (Eds.). Transitions: environments, translations: feminisms in international politics. New York: Routledge, 1997. p. 253-272.
32
desenvolver mais diálogos orientados Sul-para-Sul, se fundamentariam em processos de tradução contínuos (e desleais) que “trabalhariam com, ao invés de excluir, um ao outro”.33
Uma preocupação com a inclusão, não a exclusão, do outro nos diálogos através das fronteiras e na construção de relações entre as comunidades também guia o projeto teórico de Ofélia Schutte e Ella Shohat. Baseando-se na noção filosófica da incomensurabilidade e no conceito existencialista-fenomenológico de alteridade, Schutte afirma que para se comunicar com a(s) outra(s), as feministas precisariam reconhecer as temporalidades múltiplas e disjuntivas nas quais todas as interlocutoras estão situadas.34 A consciência dessas múltiplas camadas, tanto no interior do eu quanto entre o eu e o/a outro/a, pondera Schutte, facilitaria a recepção positiva “da riqueza e incomensurabilidade das diferenças culturais (...), onde as diferenças do/a outro/a, mesmo se não completamente traduzíveis para os termos de nossos próprios horizontes culturais, poderiam ser reconhecidas como pontos de apreciação, desejo, reconhecimento, cuidado e respeito”.35 Assim procedendo, as historiografias de construção de identidades, que variam geográfica e culturalmente, precisariam ser destacadas em todo processo de tradução.
Como ressaltado anteriormente, rótulos políticos – tais como mulher de cor – nem sempre são traduzíveis na América Latina, especialmente em certos contextos (Brasil) e em relação a determinadas marcas mais fluidas de raça e, precisamente, de cor. Da mesma forma, leituras de alguns textos fundacionais feministas latino-americanos, tais como os escritos da teórica chilena Julieta Kirkwood, revelam um engajamento com questões de classe social e preocupações sobre transformação revolucionária que eram e ainda são incomensuráveis no contexto norte-americano. Os escritos de Kirkwood, apesar disso, reproduzem eficazmente (o que é por si só revelador) o uso ocidentalista, universalizante da categoria mulher encontrado em alguns dos primeiros ensaios teóricos de feministas brancas nos Estados Unidos.36
33
Ibid., p. 269. 34
SCHUTTE, Ofelia. Cultural alterity: cross-cultural communication and feminist theory in north-south contexts. In: NARAYAM, Uma; HARDING, Sandra. (Eds.). De-centering the center: philosophy for a multicultural, postcolonial, and feminist world. Bloomington: Indiana University Press, 2000. p. 47-66. 35
SCHUTTE, op. cit., p. 52. 36
Raquel Olea e Veronica Feliu elaboraram, durante o seminário Reflections on the Future: Hemispheric Dialogues on the Intersections of Latina/o - Chicana/o - Latin American(s) Studies (Universidade de California, Santa Cruz, março de 2004), uma análise bastante instigante das razões da escassa circulação de Kirkwood entre latinas e chicanas nos Estados Unidos e latino-americanas fora do Chile.
Ella Shohat (nesta coletânea) vai além do argumento de Schutte sobre incomensurabilidade (intradutibilidade), sugerindo que as feministas analisem como teorias e práticas são traduzidas de um contexto para outro na construção de mapas relacionais de conhecimento. Ao invés de se submeter a uma estrutura cultural relativista que posiciona a outra dentro da tradição e, portanto, precisando ser resgatada, Shohat sugere um feminismo multicultural como prática situada de tradução na qual “histórias e comunidades estão mutuamente co-implicadas e constitutivamente relacionadas, abertas a uma iluminação mútua”, conseqüentemente contrapondo noções segregadas de temporalidade e espaço.
A necessidade de traduzir, na figuração do canibalismo, também é salientada por Sneja Gunew em sua avaliação do projeto intelectual que sustenta os programas interdisciplinares de Estudos da Mulher nos Estados Unidos.37 Indagando se as diferenças culturais que permeiam o feminismo global podem ser traduzidas de modo que uma cultura comum de significados compartilhados possa ser alcançada, Gunew afirma que para entendermos as variedades de feminismos precisamos explorar os deslizamentos entre linguagens e textos através de um processo de tradução desleal. Para ela, o tropo de canibalismo (a meu ver, problematicamente emprestado da estrutura simbólica da antropofagia brasileira) é uma tática de tradução para nos mover além das batalhas paralisantes sobre identidade, diferença e crítica. Segundo Gunew, o canibalismo permanece uma metáfora adequada (embora violenta, acrescentaria) dos diferenciais de poder, inerentes a todos os eventos de tradução, incluindo as traduções/canibalismos que acontecem nas reconfigurações inter/trans-disciplinares das formações epistemológicas. De acordo com essa autora,
A imagem do canibal, o humano mais abjeto (certamente, designar alguém como canibal é marcar ele ou ela como abjeto, além dos limites) de acordo com os taxonomistas, legisladores ou afins, pode bem funcionar como um ícone galvanizador ou mascote para nossos projetos futuros de aquisição potencial de uma cultura comum de significados compartilhados.38
37
GUNEW, Sneja. Feminist cultural literacy: translating differences, cannibal options. In: WIEGMAN, Robin. (Ed.). Women’s studies on its own. Durham: Duke University Press, 2002. p. 47-65.
38
Finalmente, como nos lembra Katie King, teorias feministas, discursos e práticas viajam através de diferentes comunidades de práticas.39 O que é considerado teoria em uma comunidade pode não ser considerado teoria em outra, assim, existem diferentes acepções do termo. Diante disso, torna-se imprescindível repensar as categorias feministas a partir dos contextos transnacionais, enfatizando seu movimento rizomático através de comunidades de prática, bem como imaginar novos meios de criar alianças com, através, sobre e além dos significados e das traduções da teoria feminista’.40
Como podem as feministas no Norte e no Sul, bem como no Sul globalizado, contribuir para uma prática da tradução que cause distúrbios nas narrativas hegemônicas do outro, de gênero e do próprio feminismo, tornando visível as geometrias assimétricas de poder entre o nexo local-regional-nacional-global? Como podemos pensar por meio da lacuna da tradução e considerar as forças múltiplas que sobredeterminam as práticas de tradução juntamente com suas estratégias de contenção? Como podemos desenvolver, para responder ao chamado de Shohat, cartografias multi-axiais críticas de conhecimento em redes de relacionalidade – e não nos caldeirões do canibalismo (onde a diferença do outro é finalmente assimilada na mesmice do eu)? Como a tradução pode produzir continuidade através da heterogeneidade? Estes são apenas alguns dos enigmas que deram combustível aos nossos esforços para pensar através das ligações perigosas entre feminismo e transnacionalismo na zona de tradução.
Pós-escrito: Zona militarizada de tradução
No início de 2004, o jornal The New York Times noticiou que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos havia implementado uma nova lei proibindo que editoras, periódicos ou pessoas publicassem manuscritos de autores/as residentes em nações contra as quais os Estados Unidos mantinham embargo comercial. A lista de países incluía Irã, Sudão, Líbia e Cuba. O não cumprimento dessa lei implicaria em multa de até 500 mil dólares e 10 anos de cadeia. Sua proibição abrangia avaliação dos manuscritos por
39
KING, Katie. Productive agencies of feminist theories: the work It does. Feminist Theory, v. 2, n. 1, p. 94-98, 2001. A expressão em inglês é communities of practice.
40
Por exemplo, o problema da tradução da sexualidade em diferentes contextos geopolíticos revela que, dependendo da comunidade de prática, categorias sexuais, identidades e experiências não ressoam facilmente.
pareceristas no sentido de recomendações para modificações (atividade então interpretada como negociando com o inimigo), tradução e edição dos mesmos.
Várias entidades científicas e profissionais, junto com a União pelas Liberdades Civis Americanas (American Civil Liberties Union), entraram com recurso na justiça defendendo a liberdade de imprensa e, em abril de 2004, obtiveram ganho de causa. Ficou confirmado o direito da comunidade científica de dar parecer e fazer sugestões sobre manuscritos de qualquer autor/a, independentemente de seu lugar de residência, de traduzi-lo/a e publicá-traduzi-lo/a tanto em meio impresso quanto digital.
Ao acompanhar essa disputa, percebi claramente como a atividade da tradução – igual a tantos outros fazeres da vida intelectual, para não dizer cotidiana –, rápida e perigosamente se militarizava. Por enquanto a comunidade científica, como um todo, saiu vitoriosa. Por enquanto.