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Silvana Esmenia Da Dalto de Souza

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Academic year: 2021

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CENAS COTIDIANAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA EM DUAS ESCOLAS DO BAIRRO JARDIM SANTO ANDRÉ: O TEXTO OFICIAL E O CONTEXTO VIVIDO.

SOUZA, Silvana E. Da-Dalto de

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PONCE, Branca Jurema Orientadora

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Resumo

O tema dessa pesquisa relaciona-se ao cotidiano do ensino de educação física em escolas públicas de periferia. O nosso objetivo é investigar se a escola pública está preparada para acompanhar as novas demandas sobre o ensino de educação física, contempladas na atual legislação (LDB lei 9.394/96 e nas orientações curriculares nacionais (PCNS) e estaduais (Proposta Curricular da CENP).A obrigatoriedade desse componente curricular, garantido pela LDB 9394/96 configurou-se como um avanço importante para a área. O levantamento da literatura na área de Educação Física permite verificar também que há uma quantidade significativa de estudos - que apesar das divergências teóricas - contribuem com o ensino de educação física na escola (Castellani, 1988; Freire, 1989; Oliveira, 1985; Moreira 1991; Betti, 1991; Coletivo de Autores, 1992; Kunz, 2004).Observamos que estas contribuições pouco influenciaram a prática dos professores de educação física atuantes na escola pública, uma vez que esta disciplina ainda é vista pela comunidade escolar como uma atividade prática ou de lazer.As cenas assistidas nas aulas de educação física e nos diversos espaços da escola, do portão de entrada à sala de aula, revelam dados importantes que podem servir de referência na elaboração de políticas públicas comprometidas com o interior dessa instituição.O interior da escola é também um espaço de respostas na busca de um ensino de boa qualidade. Ouvir as vozes destes atores e interpretar as cenas cotidianas dentro do contexto social escolar é um caminho para mudança. Através da pesquisa bibliográfica e de campo nos propomos a:Analisar a relação entre os textos oficiais - LDB, PCNS, Proposta Curricular da CENP – e o contexto cotidiano das aulas de educação física em duas escolas Estaduais do bairro Jardim Santo André, situadas no Distrito São Rafael em São Paulo.Identificar a partir das cenas cotidianas ocorridas nestas instituições, pontos críticos do espaço escolar que interferem no melhor aproveitamento das aulas de educação física.Resultados parciais nos levam a concluir que, apesar dos avanços na legislação e das novas propostas pedagógicas, as mudanças propostas pela legislação não foram incorporadas pela a escola a ponto de provocar mudanças na prática pedagógica dos professores.

Palavras-chave: Texto Oficial, Educação Física, Cotidiano, Cenas

INTRODUÇÃO

O tema dessa pesquisa relaciona-se ao cotidiano do ensino de educação física em escolas públicas de periferia. Este contexto foi escolhido por apresentar situações específicas dentro da dinâmica escolar que podem servir de referência para uma discussão mais aproximada dos problemas que interferem no processo ensino-aprendizagem da educação

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física na escola pública, pois refletem condições desfavoráveis à garantia dos direitos públicos a que crianças e jovens são portadores.

As cenas assistidas nas aulas de educação física e nos diversos espaços da escola, do portão de entrada à sala de aula, revelam dados importantes que podem servir de referência na elaboração de políticas públicas mais comprometidas com o interior dessa instituição.

As dificuldades que as crianças e jovens de periferia enfrentam – pobreza da família, miséria, violência, moradia precária, fome, desemprego dos pais, etc. – incidem diretamente sobre as situações de aprendizagem e sobre o desenvolvimento moral do educando. Quando a escola descarta esta realidade como “conteúdo” ela descarta o próprio aluno. O professor e a escola no âmbito geral passam a ter responsabilidades e funções, que vão muito além daqueles propostos nos manuais e planos curriculares. Acreditamos desse modo, que as mudanças no ensino de educação física e na escola pública para uma condição melhor, poderá ser alcançada através de propostas (políticas e/ou pedagógicas) que se aproximem com mais rigor desse contexto amplo e problemático.

O interior da escola é também um espaço de respostas na busca de um ensino de boa qualidade. Ouvir as vozes destes atores e interpretar as cenas cotidianas dentro do contexto social escolar pode ser um caminho pra mudança.

Um bom ensino de educação física não pode reduzir sua função à simples prática de atividade física. A Cultura Corporal do Movimento, através de suas diferentes manifestações é especificidade da educação física na escola. Este eixo é fundamental quando se pensa em uma educação preocupada com o desenvolvimento global do aluno.

Verificamos o quanto o tempo da educação física é valorizado entre os alunos, em especial, pelas crianças menores do ciclo I. A alegria com que eles recebem o(a) professor(a) especialista e aguardam o momento da aula justificam a sua importância no currículo escolar.

Por outro lado, várias causas dificultam um melhor aproveitamento desse componente curricular no interior da escola pública. A quadra suja e perigosa, a falta de material, a precariedade do que existe, a improvisação constante, a falta de espaço e o descaso.

De acordo com Oliveira in Bracht (2003) a educação física têm uma freqüência e um duração imprecisa no interior da escola; não dispõe de espaço adequado para o seu desenvolvimento; não é consensual sobre o seu conteúdo e forma de avaliar. “Além disso, não raramente as políticas e programas oficiais ou são inexeqüíveis, ou são tão confusos quanto o diálogo entre as diferentes concepções acadêmicas que os informam” (p.160).

O conhecimento dessa realidade despertou o nosso interesse em investigar a relação entre o texto oficial e o contexto vivido, guiando-nos pelo seguinte questionamento: A escola

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pública está preparada para acompanhar as novas demandas sobre o ensino de educação física contempladas na atual legislação federal (LDB lei 9.394/96 e PCNS) e estaduais (Proposta Curricular da CENP)?

O levantamento da literatura na área de Educação Física permite-nos verificar que há uma quantidade significativa de estudos que apesar das divergências teóricas contribuem com o ensino de educação física na escola (Castellani Filho, 1988; Freire, 1989; Oliveira, 1985; Moreira 1991; Betti, 1991; Coletivo de Autores, 1992; Kunz, 2004).

Além disso, a obrigatoriedade desse componente curricular, garantido pela LDB 9394/96, configurou-se como um avanço importante para a área. Por outro lado, podemos verificar que este quadro, pouco influenciou a prática dos professores de educação física atuantes na escola pública, uma vez que, esta disciplina ainda é vista pela comunidade escolar como uma atividade prática ou de lazer.

Levando em consideração todos os aspectos até aqui apresentados estabelecemos os seguintes objetivos:

• Analisar a relação entre os textos oficiais - LDB, PCNS, Proposta Curricular da CENP – e o cotidiano das aulas de educação física em duas escolas Estaduais do bairro Jardim Santo André situadas no Distrito São Rafael em São Paulo;

• Identificar a partir das cenas cotidianas ocorridas nestas instituições, pontos críticos do espaço escolar que interferem no melhor aproveitamento das aulas de educação física. A pesquisa bibliográfica e de campo estão sendo realizadas a fim de adentrar o universo conceitual e prático da educação física na instituição escolar.

Partimos de situações locais para compreender um universo amplo, complexo e dinâmico. Isto significa assumir a impossibilidade de desvelar o fenômeno na sua totalidade possível. Aproximamo-nos desta forma, da idéia de certezas provisórias.

Importante destacar que não estamos nos referindo a um objeto de estudo que pode ser estudado de maneira segmentada. Compreender a ação humana nos diversos contextos na qual ela ocorre é uma tarefa complexa, que depende de dados aproximados do contexto real. Para tanto, acreditamos que uma abordagem qualitativa nos auxilia neste sentido.

As pesquisas qualitativas podem receber denominações mais precisas de acordo o tipo de pesquisa desenvolvida num dado contexto (histórica, descritiva, participante, etnográfica, fenomenológica, etc.) e de acordo com as técnicas mais adequadas para coletar os dados (história de vida, observação participante, análise de conteúdo, entrevista, entre outras).

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O trabalho de observação participante foi realizado durante o primeiro semestre de 2008. De acordo com Flick apud Vianna (2007:51) esta atividade simultaneamente combina análise documental, entrevistas, participação direta em atividades, observação e introspecção.

No segundo semestre de 2008 continuamos nosso trabalho de observação realizando também entrevistas, questionários e análise de documentos.

A EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA: ENTRE O TEXTO OFICIAL E O CONTEXTO VIVIDO

Kolyniak (1996) diz que a função da educação física (objetivos, conteúdo e avaliação) tem se modificado em função das determinações político-econômicas que orientam o sistema escolar e da sistematização de diferentes atividades motoras construídas ou já difundidas na cultura, como por exemplo, a ginástica que fazia parte da educação grega e com o Renascimento voltou a fazer parte dos programas educacionais na Europa.

O termo educação física abrange significados e práticas sociais que são distintas e complementares ao mesmo tempo, podemos distinguir três grandes concepções presentes no campo - atividade física, componente curricular e Área de Conhecimento - que influenciam a prática pedagógica do professor de educação física na escola.

É importante que se compreenda que os diferentes significados atribuídos à educação física construíram-se a partir de práticas sociais concretas. Tais práticas, por sua vez, sempre foram atravessadas por ideologias específicas, reflexos da organização sócio-político-econômica em que ocorreram. Sendo assim, a educação física jamais foi uma prática politicamente neutra. Pelo contrário, tem sido utilizada, em maior ou menor escala como elemento constitutivo da perpetuação das relações sociais, em diferentes épocas e sociedade (Kolyniak, 1996:9).

A educação física como um conjunto de práticas corporais apareceu com o início da humanidade e corresponde a práticas de sobrevivência, trabalho e lazer. Atualmente estas atividades podem ser realizadas em contextos formais e informais e objetivam o desenvolvimento físico.

A segunda concepção refere-se às práticas educativas formais. As atividades difundidas na sociedade civil, nas instituições médicas e militares, foram sistematizadas e incorporadas pela educação física escolar.

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A Educação Física como componente escolar tem sua origem na Europa no fim do século XVIII e início do século XIX. A Ginástica1 - primeiro nome dado à Educação Física - apareceu como um movimento popular, sem qualquer ligação com a instituição escolar. Foi introduzida na escola inicialmente como uma preocupação médica e posteriormente através do pensamento liberal e pedagógico da época. “Estes métodos e/ou escolas de ginástica não pensaram a Ginástica na escola, mas os pedagogos e os médicos buscaram neles princípios para elaborar os conteúdos de ensino da escola” (Soares,1996:8)

Finalmente uma terceira concepção que abrange as práticas científicas, que caracterizam a Educação Física enquanto Área de Conhecimento. A Educação Física neste âmbito se caracteriza como um campo multidisciplinar. Esta característica favoreceu a divisão do campo em duas vertentes teóricas: a pedagógica (que concebe a educação física como prática social de intervenção e teoriza sobre elementos da cultura corporal do movimento) e a científica (que procura constituir a educação física como área do conhecimento com status científico). Os idealizadores desta última vertente procuram definir um objeto próprio e uma metodologia de pesquisa para a área. “(…) mostra uma identidade em constante mudança, maleável, plástica em relação aos movimentos históricos, políticos em última instância, (…) e em relação às lógicas dos distintos campos em que é exercida” (Bracht, 2003:35)

Os conflitos que aparecem no campo entre as duas vertentes geram debates importantes na superação de idéias estreitas sobre os eixos basilares que compõe a Educação Física – sujeito, corpo, movimento, educação e cultura- e ampliam as possibilidades teóricas, além disso, são referências importantes na elaboração de políticas públicas para o ensino de educação física na escola. Sabemos por outro lado, que prática cotidiana da educação física escolar pouco tem se modificado apesar destas contribuições.

De acordo com Darido (2003) atualmente coexistem na área da Educação Física várias concepções que tentam romper com o modelo mecanicista no ensino escolar (Desenvolvimentista, Construtivista, Crítico-Superadora, Sistêmica, Psicomotricidade, Crítico-Emancipatória, Cultural, Jogos Cooperativos, Saúde Renovada, PCNS). Apesar das divergências teóricas – resultante da articulação de diferentes teorias psicológicas, sociológicas e filosóficas – elas buscam articulas as múltiplas dimensões do ser humano.

1 Soares (1996) cita que a Ginástica compreendia marchas, corridas, lançamentos, esgrima, natação, equitação,

jogos e danças e eram caracterizadas por ‘escolas’ ou métodos de ginástica. Os mais conhecidos no Brasil foram o francês, alemão e sueco.

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A educação física é um componente valorizado entre os alunos e se o desenvolvimento teórico da área se efetivasse no plano prático, os alunos teriam muito a ganhar

O problema da prática pedagógica do professor de educação física que atua no ensino escolar tem sido motivo de preocupação e crítica por diversos estudiosos que se interessaram pelo ensino formal (Medina, 1948; Castellanni Filho, 1988; Coletivo de Autores, 1992; Daólio, 1995; Freire, 1997; Kunz, 2004, etc.). É unânime o reconhecimento que há uma redução da função que a educação física pode desempenhar na escola. O debate estabelecido busca a especificidade da educação física no âmbito escolar, para além dos limites biologicista e da aptidão física.

A busca da especificidade deste componente curricular na escola é fundamental para estabelecer os objetivos de ensino que podem ser perseguidos pela prática pedagógica, pois, “se estes objetivos não são claros para o professor, ele acaba trabalhando com objetivos estabelecidos pela ideologia dominante” (Ghiraldelli, 1994:10)

A proposição de novas abordagens pedagógicas e as políticas públicas em educação física podem contribuir mais efetivamente ao se aproximarem do cotidiano escolar, considerando os problemas da prática e mantendo um diálogo permanente com os protagonistas desse contexto. Poderíamos em curto prazo estabelecer diálogos, rever posições, abrir concessões, fazer ajustes e propor mudanças possíveis de serem alcançadas no tempo e no espaço escolar.

A obrigatoriedade da Educação Física como componente curricular da Educação Básica garantido pela LDB 9394/96 e as Diretrizes Nacionais contempladas nos PCNS é uma avanço para área da educação física escolar. Não podemos deixar de citar que a legislação anterior – Lei nº 5.692/71 – compreendia a educação física como uma atividade disciplinadora.

Artigo 1º - A educação física, atividade que por seus meios, processos e técnicas, desenvolve e aprimora forças físicas, morais, cívicas, psíquicas e sociais do educando, constitui um dos fatores básicos para a conquista das finalidades da educação nacional.

A mudança de paradigma ou de concepção só será legitimada quando encarnadas nas práticas sociais. O problema da prática pedagógica do professor de educação física não esta na falta de bons referenciais teóricos – ainda que a multiplicidade de propostas pedagógicas sem um entendimento aprofundado por parte dos professores seja um problema – e sim na materialidade da própria escola. É no cotidiano do espaço escolar e através dos seus agentes, que a educação física pode revelar-se como um componente renovador ou conservador das

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práticas de educação e movimento. A sua legitimação depende de práticas concretas, que se justificam na boa qualidade do ensino que são destinados aos alunos.

Em nossa sociedade, de um modo geral, existem representações sociais acerca da Educação Física Escolar, que a identificam como uma disciplina responsável apenas pela prática de treinamento desportivo e pela prática recreativa e/ou de lazer, sem qualquer preocupação em relacionar-se com a realidade social mais ampla, da qual a própria escola faz parte (Barbosa, 2001:17).

CONCLUSÃO

A presente pesquisa tem por objetivo investigar a relação entre o texto oficial e o contexto cotidiano do ensino de educação física na escola. Estamos buscando investigar se a escola pública está preparada para acompanhar as novas demandas sobre o ensino de educação física que são contempladas na LDB 9.394/96, nos Parâmetros Curriculares Nacionais e na Proposta Curricular da CENP.

Verificamos até o momento, por meio dos autores citados e através das observações de campo em duas escolas do bairro Jardim Santo André, que há um descompasso entre Área de Conhecimento e Prática Pedagógica. Observa-se um intenso debate acadêmico e um conjunto de proposições que visam superar o modelo esportivo-biológico ainda muito presente na educação física escolar.

Este debate tem influenciado as orientações metodológicas para o ensino de educação física e foram incorporados pelos textos oficiais PCNS e as propostas curriculares CENP. Além disso, através da atual LDB 9.394/96 a educação física passa a ser um componente curricular obrigatório e não mais uma atividade curricular como destacava a LDB anterior 5692/71.

Apesar dos avanços na legislação e nas propostas pedagógicas, eles ainda não foram incorporados pela a escola a ponto de provocar mudanças na prática pedagógica dos professores.

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