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Perfil funcional de pessoas com deficiência visual: um estudo a partir da World Health Organization Disability Assessment Schedule (WHODAS 2.0)

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Mariana da Silva Livramento

Perfil Funcional de Pessoas com Deficiência Visual: um estudo a

partir da World Health Organization Disability Assessment Schedule

(WHODAS 2.0)

Dissertação submetida ao Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de Mestre em Psicologia.

Orientador: Prof. Dr. Carlos Henrique Sancineto da Silva Nunes.

Coorientador: Prof. Dr. Adriano Henrique Nuernberg.

Florianópolis

2017

(2)
(3)
(4)
(5)

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer em primeiro lugar ao Universo, por permitir

minha existência e com ela todas as vivências da vida. A minha família

pelo apoio constante em todos os momentos, mas especialmente aos meus

pais, Andréa e Roberto, sem os quais eu não seria quem sou. Pela força,

pelo exemplo, carinho, apoio, dedicação e esforço com que sempre nos

cuidaram. Por indicar o caminho do respeito e da compreensão, ensinando

a olhar para o outro com ternura e afeto. A minha vó Nilza, por todo o

carinho e exemplo, a primeira pessoa com deficiência visual com quem

tive contato e que me mostrou que a deficiência é só mais uma

característica dentre tantas outras que compõem uma pessoa. Ao meu

companheiro Pedro, que por acaso (ou não tão por acaso assim) foi

também meu colega de mestrado. Por todo apoio, carinho, atenção,

compreensão e paciência em tempo integral. Pelas nossas conversas e

discussões sobre os mais variados temas que sempre me acrescentaram

algo e me ajudaram tanto nesse caminho. Mesmo que nossos caminhos

um dia se separem, serei eternamente grata por tudo que vivemos e por

todo o respeito que temos um pelo outro.

Agradeço aos meus orientadores, ao Adriano por ser quem é, por

se empenhar tanto, ser um exemplo de pessoa e profissional. Por estar

sempre disponível e ser tão atencioso mesmo nos momentos de maior

fragilidade. Por mostrar que um mundo melhor é possível, um mundo

baseado no respeito e na dignidade. Ao Carlos, por me acolher quando

tudo estava meio de ponta a cabeça, por ajudar a me organizar, por todo

o apoio, disposição e colaboração. Te devo mil paçoquinhas.

Aos meus queridos colegas da pós, todos com seus jeitinhos

únicos, sempre tão acolhedores. Pelas risadas, trocas e afetos. Em especial

a Patricia Muccini, Ana Laura Tridapalli e Marcio Jibrin, que

compartilhando o caminho, o deixaram mais leve, divertido e prazeroso

(e sabemos que não foi fácil). Que nossa amizade dure o resto da vida.

Aos meus amigos e bolsistas Weridiane e Vinicius, que vieram para

deixar o caminho menos árduo, que contribuíram imensamente com suas

ideias e ações. Por acreditarem na pesquisa e em mim, por se jogarem

nessa loucura junto comigo, pelas risadas e cucas (#boss #chefe

#adorovocês).

A minha querida “cool-orientadora”, colega de pós e grande

pesquisadora Taisa Ferreira. Por toda disponibilidade, colaboração,

parceria, por acreditar na minha pesquisa e em mim, e que mesmo sem

saber me permitiu um empoderamento fundamental para dar conta disso

tudo. Aos meus colegas de trabalho da Fundação, em especial a Maria

(6)

Helena de Lima e Mariana Mondadori, por serem tão carinhosas e

compreensivas, por me aguentar reclamando e mesmo assim não julgar.

Adoro vocês.

As meninas do balé, que com seus abraços e risadas me

fortaleceram para esta caminhada. A minha terapeuta, por me ajudar nos

momentos de desânimo e me incentivar a ir sempre além. Aos meus gatos,

que não sabem ler, mas que deixam tudo mais leve com sua delicadeza.

A ACIC pela parceria que se estende e espero que seja eterna, pelas

pessoas tão queridas e dedicadas que lá estão fazendo seu trabalho com

tanto amor e cuidado. Aos membros da banca, Marivete Gesser e Lívia

Barbosa por toda atenção e colaboração, e por serem exemplos de força

feminina na academia. E finalmente aos participantes desta pesquisa, sem

os quais nada disso seria possível.

(7)

RESUMO

Este estudo teve como objetivo identificar o perfil funcional de pessoas

com deficiência visual a partir da perspectiva biopsicossocial baseada na

Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde

(CIF), que compreende a deficiência de forma relacional, entre fatores

biológicos, sociais e pessoais, e a funcionalidade como a capacidade do

indivíduo em realizar atividades no ambiente em que se encontra tendo

como foco principal a participação social. A pesquisa teve caráter

descritivo exploratório, caracterizando-se como um estudo quantitativo

correlacional com desdobramentos qualitativos. Utilizou como

instrumento de coleta de dados um questionário de caracterização

elaborado para esta pesquisa, composto por questões relativas a dados

sociodemográficos, condições de saúde e acesso a serviços de saúde e

reabilitação, bem como a Escala de Avaliação de Incapacidades da

Organização Mundial de Saúde (WHODAS 2.0). A coleta de dados

ocorreu de forma online, presencial ou via telefone. Os dados obtidos

foram tratados por estatística descritiva e inferencial, com auxílio do

STATA, onde foram realizados testes de associação e analise de regressão

para identificar os fatores preditores da funcionalidade na amostra

estudada. A amostra foi composta de 122 participantes com deficiência

visual (cegos e baixa visão), com idade média de 38,19 anos (DP=15,12).

Houve predomínio de participantes cegos (60%), do sexo masculino

(52,07%), solteiros (44,54%), raça branca (71,90%), com escolaridade

ensino superior (37,19%), que exercem trabalho remunerado, não

remunerado ou autônomo (47,54%). A média de funcionalidade geral na

WHODAS foi de 21,24 e nos domínios específicos foram: Autocuidado

(5,95), Mobilidade (13,86), Relações interpessoais (15,98), Atividades

escolares/trabalho (20,90), Cognição (22,88), Atividades domésticas

(24,38) e Participação (30,51). Após testes de associação entre as

variáveis independentes e os escores da WHODAS (variáveis

dependentes) foram incluídas nas análises de regressão aquelas variáveis

que apresentaram resultados significativos chegando-se a 12 fatores que

explicaram 41% da variância da funcionalidade na amostra estudada, os

quais foram: possuir outras doenças ou impedimentos; sexo; receber

algum tipo de benefício; tipo de deficiência visual; utilizar rede SUS;

realizar reabilitação em associação de pessoas com deficiência visual;

realizar acompanhamento com nutricionista; ocupação; região de moradia

atual; indicação do segundo recurso; frequência de acompanhamento

médico e tempo de vida com deficiência visual. A WHODAS revelou ser

um instrumento adequado, apresentando bons índices de consistência

(8)

interna, além de ser de fácil aplicação e possibilitar obtenção dos dados

de forma organizada e coerente a perspectiva biopsicossocial da CIF. A

pesquisa permitiu apresentar um perfil funcional das pessoas com

deficiência visual, além de identificar fatores contextuais que merecem

atenção por parte das políticas públicas e serviços relacionados a pessoas

com deficiência. Os resultados obtidos sugerem a necessidade de

continuidade das análises para aprofundamento de questões que não

puderam ser investigadas nesta pesquisa.

Palavras-chave: funcionalidade; WHODAS; deficiência visual;

(9)

ABSTRACT

This study aimed at identifying the functioning profile of visually

impaired people from a biopsychosocial perspective based on the

International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF),

which comprises disability in a relational manner, between biological,

environmental and personal factors, and functioning as the ability to

perform activities on the context in which it is found having the main

focus on social participation. The present research has a descriptive

exploratory character, being characterized as a correlational quantitative

study with qualitative unfolding. A characterization questionnaire

developed for this research, composed of sociodemographic questions,

health condition and access to health and rehabilitation services, as well

as World Health Organization’s Disability Assessment Schedule 2.0

(WHODAS 2.0). Data was collected in person, online, or via telephone.

The data gathered was treated with descriptive and inferential statistics,

with the help of STATA, where association and regression analysis tests

were applied to identify predictive factors of functioning in the studied

sample. The sample was composed of 122 participants with visual

impairment (blindness or low vision), with an average age of 38.19 years

(DP=15.12). There was a preponderance of white (71.90%), male,

(52.07%), single (44.54%), blind participants (60%), with college-level

education (37.19%), working either paid, unpaid or autonomous jobs

(47.54%). WHODAS’s functioning average was 21.24, while on specific

areas it was: self-care (5.95), mobility (13.86), interpersonal relationships

(15.98), school/work activities (20.90), cognition (22.88), household

activities (24.38) and participation (30.51). After association tests

between independent variables and WHODAS’s scores (as dependent

variables), there were included on regression analysis those variables

presenting significant results reaching a total of 12 factors that explain

41% of functioning variance on the studied sample, these variables are:

having other impairments or diseases; sex; having some kind of benefit;

type of visual impairment; using the Unified Health Service (SUS); doing

rehabilitation in association for people with visual impairment; nutritional

monitoring; occupation; current place living; indication of the second

assistive device; frequency of physician monitoring and lifetime with

visual impairment. The WHODAS proved to be a proper instrument,

manifesting good internal consistency while remaining easy to use and

opening up for organized and coherent data gathering within ICF’s

biopsychosocial perspective. This research allowed the presentation of a

functioning profile of visually impaired people, while also helping

(10)

identify contextual factors that deserve to be care by public policies’ and

related services’ for the impaired people. Results reached here point

towards the need for continued analysis deepening the questions that

could not be properly researched here.

Keywords: functioning; WHODAS; visual impairment; biopsychosocial.

(11)

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Sequência linear das consequências das doenças segundo a

CIDID...25

Figura 2 - Estrutura da CIF com níveis de hierarquia...38

Figura 3 - Interações entre os componentes da CIF...39

(12)
(13)

LISTA DE TABELAS

Tabela 1- Graus de comprometimento da deficiência visual com

base na acuidade visual, conforme CID-10...31

Tabela 2 - Versões da WHODAS...45

Tabela 3 - Distribuição dos dados sociodemográficos...64

Tabela 4 - Distribuição das patologias informadas conforme

CID-10...66

Tabela 5 - Distribuição do uso de tecnologias assistivas...68

Tabela 6 - Distribuição dos recursos mais utilizados com base na

frequência de uso...69

Tabela 7 - Distribuição das atividades de reabilitação...70

Tabela 8 - Média dos escores recodificados e escores

dicotomizados da WHODAS por domínio e geral...73

Tabela 9 - Índice de consistência interna por domínios da

WHODAS...74

Tabela 10 - Correlações entre variáveis intervalares...76

Tabela 11 - Resultados dos Testes-t de Student e

Wilcoxon-Mann-Whitney para o Escore Geral e os domínios Cognição, Mobilidade

e Autocuidado ...77

Tabela 12 - Resultados dos Testes-t de Student e

Wilcoxon-Mann-Whitney para os domínios Relações interpessoais, Atividades

domésticas,

Atividades

escolares/trabalho

e

Participação...79

Tabela 13 - Resultados das análises utilizando ANOVA e

Kruskal-Wallis para o Escore Geral e os domínios Cognição, Mobilidade e

Autocuidado...82

Tabela 14 - Resultados das análises utilizando ANOVA e

Kruskal-Wallis para os domínios Relações interpessoais, Atividades

domésticas,

Atividades

escolares/trabalho

e

Participação...85

(14)
(15)

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AEE

Atendimento Educacional Especializado

BPC

Benefício de Prestação Continuada da Assistência

Social

CDPD

Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da

Pessoa com Deficiência

CID

Classificação Estatística Internacional de Doenças e

Problemas Relacionados com a Saúde

CIDID

Classificação Internacional das Deficiências,

Incapacidades e Desvantagens,

CIF

Classificação Internacional de Funcionalidade,

Incapacidade e Saúde

DSM

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos

Mentais

GAF

Avaliação Global do Funcionamento

GDVI

Global Data on Visual Impairments

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IF-Br

Índice de Funcionalidade Brasileiro

MSD

Modelo Social da Deficiência

OMS

Organização Mundial da Saúde

ONU

Organização das Nações Unidas

RBC

Reabilitação Baseada na Comunidade

RMD

Relatório Mundial sobre a Deficiência

SAEDE

Serviço de Atendimento Educacional Especializado

STATA

Data Analysis and Statistical Software

SUS

Sistema Único de Saúde

SRV

Serviço de Reabilitação Visual

(16)

TCLE

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

VoIP

Voice over Internet Protocol

WHODAS

World Health Organization Disability Assessment

Schedule (Escala de Avaliação de Incapacidades da

Organização Mundial da Saúde)

(17)

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ... 19

1 INTRODUÇÃO ... 21

1.1

S

AÚDE

,

D

EFICIÊNCIA E

F

UNCIONALIDADE

... 21

1.2

D

ADOS SOBRE

D

EFICIÊNCIA E

D

EFICIÊNCIA

V

ISUAL

... 29

1.2.1 Dados Brasileiros sobre Deficiência Visual ... 33

1.2.2 A experiência da deficiência visual... 34

1.3

I

NSTRUMENTOS DE

A

VALIAÇÃO DA

F

UNCIONALIDADE

,

I

NCAPACIDADE E

S

AÚDE

... 35

1.3.1 Classificação Internacional de Funcionalidade,

Incapacidade e Saúde – CIF ... 36

1.3.2 Escala de Avaliação de Incapacidades da Organização

Mundial da Saúde – WHODAS ... 42

1.4

F

UNCIONALIDADE E PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL

... 49

2 OBJETIVOS ... 53

2.1.

O

BJETIVO

G

ERAL

... 53

2.2

O

BJETIVOS ESPECÍFICOS

... 53

3 MÉTODO ... 53

3.1

D

ELINEAMENTO DA PESQUISA

... 53

3.2

I

NSTRUMENTOS DE

C

OLETA DE

D

ADOS

... 54

3.3

A

SPECTOS

É

TICOS DA

P

ESQUISA

... 55

3.4

E

TAPAS DA REALIZAÇÃO DA PESQUISA

... 55

3.4.1 Primeira etapa - Pré-teste... 56

3.4.1.1 Participantes ... 56

3.4.1.2 Local e Procedimentos de Coleta de Dados ... 56

3.4.1.3 Análise dos dados e Resultados ... 57

3.4.2 Segunda etapa – Pesquisa principal ... 58

3.4.2.1 Participantes ... 58

3.4.2.2 Local e Procedimentos de Coleta de Dados ... 59

3.4.2.3 Tratamento e Análise dos dados ... 60

4 RESULTADOS ... 63

(18)

4.1.1 Dados sociodemográficos ... 63

4.1.2 Condições de saúde ... 65

4.1.3 Acesso a serviços de saúde, uso de recursos e reabilitação

... 67

4.1.4 WHODAS ... 72

4.2

C

ONSISTÊNCIA INTERNA

... 74

4.3

T

ESTES DE

A

SSOCIAÇÃO

... 75

4.4

R

ELAÇÕES ENTRE O PERFIL DOS PARTICIPANTES E FUNCIONALIDADE

... 89

5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS... 93

5.1

WHODAS ... 93

5.2

D

ISCUSSÃO DOS DADOS SOCIODEMOGRÁFICOS E VARIÁVEIS PREDITORAS

... 96

REFERÊNCIAS ... 111

APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO DO GOOGLEFORMS ... 123

APÊNDICE B – DECLARAÇÃO DE INSTITUIÇÃO

COPARTICIPANTE ... 149

APÊNDICE C – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E

ESCLARECIDO ... 151

(19)

APRESENTAÇÃO

O interesse da autora pelo tema da deficiência visual tem origem

na convivência junto a familiares e do contato diário com pessoas com

deficiência visual na instituição em que trabalha. A autora atua, desde

2013, como psicóloga em um serviço público de reabilitação visual. O

serviço é, desde 2008, conveniado ao Sistema Único de Saúde (SUS), o

qual prevê atendimento e fornecimento de recursos ópticos e não ópticos

especiais para pessoas com baixa visão e cegueira de todo o estado de

Santa Catarina (Brasil, 2008).

Esse atendimento é realizado nos moldes previstos pelo convênio

firmado com o SUS, que exige que o paciente

1

seja atendido por uma

equipe multidisciplinar para ter acesso aos recursos. Todos os dias, uma

média de cinco pessoas passavam pela sala da psicologia: adultos,

crianças, idosos, pessoas com deficiência visual, deficiências múltiplas,

síndromes diversas. Ao acessar estes prontuários em busca de

informações prévias que pudessem guiar uma conversa, só se viam

números, códigos de doenças, indicações de recursos, relatórios de

profissionais endereçados a outros profissionais, relatos de evolução.

Muito pouco sobre a ‘vida real’ desses pacientes, muito pouca informação

sobre interesses, vontades, cotidiano, sobre a singularidade das pessoas.

O encontro com esse cotidiano de trabalho trouxe inúmeras inquietações:

E toda aquela ideia de inclusão? De igualdade? Todas as discussões a

respeito dos modelos de deficiência? Modelo médico, modelo social, 1

a

geração, 2

a

geração, modelo biopsicossocial? Ali, só se via um, nítido e

claro: o modelo médico. Talvez o modelo social estivesse um pouco

presente, nas entrelinhas, mas bem nas entrelinhas.

A tentativa era a de transformar o atendimento da psicologia em

um espaço que permitisse ao sujeito falar de si, aparecer, mostrar quem

era, que pudesse falar das suas experiências, das dificuldades, dos medos

e angústias enfrentados no cotidiano, que também que pudesse falar sobre

suas potencialidades, suas habilidades, suas atividades, seus desejos e

sonhos. Conseguir que as pessoas falem coisas boas de si é mais fácil em

teoria; na prática, é uma tarefa árdua. Nesse espaço, na tentativa de

conhecer melhor essas pessoas que ali vinham em busca de respostas e de

1 O termo paciente remete etimologicamente a passividade. Foi utilizado aqui por ser costumeiramente utilizado pelos profissionais em serviços de saúde e na própria redação das políticas de saúde. A ideia é também a de questionar se os sujeitos são de fato passivos frente a sua condição de saúde.

(20)

melhores condições de vida – uma vez que um recurso óptico é uma

ferramenta muito útil para quem vive num mundo majoritariamente visual

- uma ideia começou a surgir.

No retorno à universidade, uma disciplina sobre Deficiência e

Contemporaneidade, reflexões, trocas, textos, a perspectiva do mestrado.

Era preciso entender melhor, estudar, aprofundar-se para oferecer um

serviço melhor.

Revisando a literatura, o encontro com teorias e abordagens mais

dinâmicas, mais coerentes com a realidade: a concepção da deficiência

enquanto um fenômeno complexo que se situa na interação entre aspectos

biológicos, individuas e sociais; o modelo biopsicossocial da saúde, que

compreende o indivíduo de forma global, colocando o bem-estar, e não a

patologia, como foco de atenção. A compreensão da deficiência como um

processo que vai além de um corpo com lesão, a deficiência como

experiência da interação do corpo como ambiente e não como um

problema muda a forma de se pensar saúde e bem-estar (Diniz, 2007).

Ações com impacto sobre o bem-estar se relacionam mais com

funcionalidade que com deficiência, a maioria das pessoas vai em busca

dos serviços não pela lesão em si, mas pela redução de sua funcionalidade,

ou seja, porque deixam de fazer o que faziam antes. O que causa

sofrimento é a falta de acesso a serviços e recursos, é a falta de

compreensão por parte dos outros acerca de suas habilidades e

capacidades. Todos estes elementos apareciam nas entrelinhas das falas

dos pacientes, usuários do serviço.

Do encontro entre inquietações, artigos, livros, disciplinas e

mestres inspiradores, surgiu esse projeto, que não é nada mais que uma

tentativa de dar voz e espaço as pessoas com deficiência visual e suas

experiências de vida. E não só a voz pela voz, mas porque essas falas

podem e devem contribuir para ampliar nossa compreensão do que é viver

a deficiência, do que é viver em um mundo que dificulta a participação

de corpos fora da norma. A proposta deste projeto, foi a de sistematizar

informações, a partir de uma estrutura com método e rigor, para pensar

funcionalidade, inclusão, para planejar políticas e serviços mais coerentes

com a vida real e as necessidades das pessoas com deficiência visual e

para contribuir com uma vida de mais qualidade.

Este projeto tem, dessa forma, o intuito de conhecer o perfil

funcional de pessoas com deficiência visual, a partir do ponto de vista da

funcionalidade e da deficiência, produzidas na interação do corpo com o

meio onde se insere, para assim ter um panorama mais próximo da

realidade vivenciada por elas. Como forma de atingir esse objetivo,

optou-se pela utilização de instrumentos que fossem coerentes com a

(21)

abordagem biopsicossocial da saúde, sendo a Escala de Avaliação de

Incapacidades da Organização Mundial da Saúde (WHODAS 2.0)

considerado o mais adequado para este fim.

Espera-se que este projeto possa contribuir para a construção do

conhecimento científico baseado no respeito e no cuidado. E que possa

também contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e

inclusiva, onde as diferenças sejam valorizadas e compreendidas sob a

ótica da igualdade de direitos e da dignidade humana.

1 INTRODUÇÃO

1.1 Saúde, Deficiência e Funcionalidade

O conceito de saúde de modificou ao longo do tempo, assim como

o de deficiência. Ambos já passaram por diversas transformações, ora

estando mais próximos, ora se distanciando. A época, o lugar e os valores

sociais são apenas alguns dos elementos que interferem na compreensão

do que seja saúde ou deficiência.

Até antes da segunda guerra não havia um consenso mundial sobre

saúde. Após a segunda guerra mundial, com a criação da Organização das

Nações Unidas (ONU) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi

possível a elaboração de um conceito de saúde que pudesse servir de

referência para o mundo. Divulgado em 1948, o conceito adotado pela

OMS, e que vale até os dias atuais, compreende: “Saúde é o estado do

mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência

de enfermidade”. Nele se refletem as ideias dos movimentos sociais do

pós-guerra, direcionando para uma compreensão mais ampla de saúde não

focada apenas no corpo, mas também nas condições de vida que

influenciam este corpo. A saúde passa a ser um direito, e o Estado

torna-se responsável por prover as condições de acesso, promoção e proteção

da saúde (Scliar, 2007).

Embora inovador, pois considera elementos psicológicos e

sociais como determinantes da saúde, o conceito de saúde proposto pela

OMS é também polêmico e serviu como ponto de partida para discussões

nas mais diversas áreas de conhecimento (Almeida Filho, 2011;

Bickenbach, 2015).

Diante da dificuldade de conceituar e compreender o fenômeno

saúde, o modelo biomédico foi o que predominou por muitos anos. Este

modelo, que tem suas origens no Renascimento, e por isso influenciado

por toda a revolução cultural e científica da época, compreende o corpo

como uma máquina, cujo funcionamento deve ser perfeito. Hegemônico

(22)

por quase 14 séculos, entende saúde como ausência de doenças e se utiliza

de critérios estatísticos para definir normalidade, ou seja, a medida de

saudável se baseia na média da população (Backes, 2009). O sujeito é

compreendido a partir de suas partes, as quais são alvo de estudos e

intervenções das diversas especialidades biomédicas. A compreensão do

processo saúde-doença fica restrita a aspectos fisiológicos, anatômicos e

bioquímicos, e seus indicadores são baseados no diagnóstico a partir da

identificação de sintomas (Silveira, 2015). Também neste modelo o papel

das medicações fica em destaque, na medida em que elas são vistas como

a cura para muitas das irregularidades do corpo (Barros, 2002).

O modelo biomédico localiza a deficiência no corpo, ela é a

consequência de uma alteração ou lesão no corpo. É um modelo estático,

centrado na etiologia das incapacidades e impedimentos, reduzindo a

deficiência a doença corporal e focando no paciente e nas suas patologias,

e não na pessoa (Sampaio & Luz, 2009). Nesta perspectiva, a pessoa com

deficiência afasta-se dos padrões de normalidade por apresentar um corpo

que difere da maioria. A deficiência é entendida como um problema

pessoal, ou, no máximo, familiar, daquele que é ‘portador de uma

“anormalidade’. Nessa lógica, os cuidados dispensados a pessoa com

deficiência são estritamente médicos, relacionados ao corpo, pois sua

condição necessita ser curada para se adequar a norma. A incapacidade

aqui é entendida como consequência da configuração corporal de cada

indivíduo, não importando o ambiente onde este se insere (Diniz, 2007;

Sampaio & Luz, 2009). A reabilitação nesse enfoque é uma filosofia e

uma prática, utilizada para erradicar ou minimizar o problema da

deficiência, fazendo com que as pessoas cheguem ao seu maior nível de

funcionamento, porém, ela não leva em consideração os aspectos sociais

envolvidos na deficiência, restringindo sua atuação ao corpo enquanto

matéria (Barnes, 2009; Araujo, 2011; Sassaki, 2012). Essa compreensão,

conforme pontua Sassaki (2012), se configura como uma prática de

Integração e não de Inclusão. Aquelas pessoas que conseguem ser

reabilitadas são integradas a sociedade; já as que apresentam deficiências

consideradas mais graves, cujo ‘ajustamento social’ é menos provável,

acabam ficando excluídas, sob os cuidados de instituições e associações

de caráter filantrópico e/ou assistencialista.

Esta concepção exclui questões fundamentais de ordem pessoal e

social relativas a saúde. Centraliza os cuidados aos especialistas criando

uma divisão formada por aqueles que detém o poder sobre a saúde e os

leigos, que são alvo das ações de saúde, mas tem pouca ou nenhuma

representação e espaço para contribuir com o debate. Além disso, uma

concepção de saúde que individualiza questões de ordem social,

(23)

culpabiliza os sujeitos e medicaliza a vida, considerando como

patológicas expressões da diversidade humana (Decotelli, Bohrer &

Bicalho, 2013).

Uma das ferramentas do saber biomédico são as classificações de

saúde, que vem ao longo do tempo se atualizando para acompanhar as

mudanças das demandas. Desde de 1948, mesmo ano em que divulgou o

conceito de saúde, a OMS é responsável pela elaboração e publicação da

Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas

Relacionados com a Saúde (CID), no referido ano lançou sua 6

a

edição,

dando seguimento a sequência de classificações que teve início em 1893.

A primeira classificação que buscou uniformizar a nomenclatura das

causas de morte foi proposta pelo Instituto Internacional de Estatística e

era conhecida como “Classificação de Causas de Morte de Bertillon”, seu

uso foi recomendado e adotado internacionalmente e revisões decenais

foram responsáveis por atualizar os códigos e a doenças. A partir da sexta

revisão, editada pela OMS, ela passou a incluir um número maior de

doenças e não apenas as causas de morte, possibilitando a codificação

também da morbidade. Atualmente a CID encontra-se em sua 10

a

edição

(CID-10), contando com mais de 12 mil códigos, número que impressiona

quando comparado aos 179 códigos de sua primeira publicação (Buchalla

& Laurenti, 2010; Di Nubila & Buchalla, 2008).

Embora reducionista em relação ao que de fato seja a globalidade

da saúde, o modelo biomédico também teve sua contribuição. A evolução

da ciência médica trouxe inúmeros benefícios, possibilitando inclusive a

diminuição e eventual erradicação de doenças infecciosas e epidemias

graves que foram comuns durante os séculos passados. O avanço técnico

e o investimento na saúde pública, que incluíam ações voltadas para a

promoção de saúde e melhoria das condições de saneamento, alimentação

e acesso a serviços essenciais também possibilitaram a redução da

mortalidade e o aumento da expectativa de vida (Barros, 2002; Lebrão,

2007).

O avanço das condições de saúde trouxe algumas consequências,

dentre elas a transição demográfica, fenômeno que se caracteriza pela

mudança na estrutura da pirâmide etária. A partir da maior expectativa de

vida e da redução da mortalidade a pirâmide torna-se maior, porque se

vive mais tempo, e o topo passa a se alargar, pois há uma maior

quantidade de pessoas idosas. A base tende também a diminuir, em

função da redução de nascimentos. As mudanças sociais ocorridas nas

últimas décadas, a disseminação de métodos contraceptivos e um melhor

planejamento familiar levaram a redução do número de filhos. Essa

configuração dá a pirâmide um formato de “barril”. A transição

(24)

demográfica traz consigo uma outra mudança nas demandas de saúde:

enquanto antes o foco se encontrava nas doenças infecciosas, com o

envelhecimento da população o foco passa a ser as doenças crônicas e as

deficiências, já que são as mais presentes na população de mais idade.

Mudanças nos padrões de saúde e doença, de mortalidade e morbidade da

população caracterizam a transição epidemiológica, conceito proposto

por Omran na década de 70 (Lebrão, 2007; Brasil, 2013).

Alguns autores preferem o termo

transição da saúde, pois dizem que, a rigor, estão envolvidos dois aspetos básicos da saúde nas populações humanas. Por um lado, está a transição das condições de saúde, isto é, os processos de saúde e doença que definem o perfil epidemiológico de uma população, expressado em termos de morte, doença e invalidez. Por outro lado, está a resposta social organizada a essas condições, que se instrumentaliza por meio do sistema de atenção à saúde” (Lebrão, 2007, p. 138).

A queda da mortalidade, decorrente da redução das doenças

infecciosas, juntamente com a queda da fecundidade, consequência de

mudanças no planejamento familiar, resulta no aumento do número de

pessoas com idade avançada e por decorrência altera o perfil de

morbidade, já que nas pessoas mais idosas as doenças crônicas e

degenerativas são as mais comuns. As doenças agudas, que levavam

frequentemente à morte, passam a dar lugar a estados crônicos,

configurando assim novas demandas de saúde. Há uma tendência mundial

de que todos os países se encaminhem para uma transição demográfica e

epidemiológica. Nos chamados países desenvolvidos, a transição se deu

de forma gradual, levando cerca de dois séculos para se completar; já os

países em desenvolvimento, como os da América Latina estão assistindo

a uma transição rápida. Em alguns, cujos índices de desenvolvimento são

ainda menores, essa mudança ainda não teve início (Lebrão, 2007).

Essa nova configuração nos padrões de morbidade solicita novas

formas de se pensar saúde, a convivência com doenças crônicas, lesões e

outras condições de saúde de longo prazo exigem um outro olhar acerca

da concepção de saúde e bem-estar. Saúde não é apenas ausência de

doenças ou lesões, é ter a possibilidade de uma vida com qualidade

(Farias & Buchalla, 2005).

Com a modificação nos padrões de morbidade, a CID passa a ser

insuficiente, já que o diagnóstico por si só não traz informações a respeito

da real condição de saúde das pessoas, apenas de uma parte dela. Desta

(25)

constatação começa a surgir, no bojo das discussões da OMS, a ideia de

uma família de classificações que pudesse dar conta das condições de

saúde de forma mais abrangente. Essa família é composta por

classificações de referência, como é a CID; classificações derivadas, que

utilizam a estrutura e as categorias da referência, mas são mais detalhadas,

podendo ser reorganizadas de acordo com seu objetivo; e as classificações

relacionadas, aquelas que se referem a um nível mais específico da

classificação de referência (Buchalla & Laurenti, 2010).

Buscando desenvolver uma classificação que pudesse dar conta

das novas demandas de saúde, a OMS lança, em 1980, em caráter

experimental e como complementar ao CID, que a época estava em sua

9a edição, a Classificação Internacional das Deficiências, Incapacidades

e Desvantagens, conhecida como CIDID conforme sigla em português.

Nela foram incorporadas categorias que pudessem descrever as

consequências duradoras das doenças. Conforme esquema a seguir, o

modelo proposto pela CIDID compreendia a desvantagem como

consequência da doença de forma linear (Farias & Buchalla, 2005; OMS,

2008).

Doença => Deficiência => Incapacidade => Desvantagem

Figura 1. Sequência linear das consequências das doenças segundo a CIDID. Nota. Fonte: Esquema retirado de Farias & Buchalla, 2005, p.189.

A noção de desvantagem na CIDID se referia a restrições nas

atividades e na vida, ou seja, a doença era causa da deficiência e esta, por

sua vez, incapacitava a pessoa para as atividades, gerando assim uma

desvantagem frente as outras pessoas consideradas “normais”. Essa

concepção, como era de se esperar, acabou sendo objeto de duras críticas,

principalmente das pessoas com deficiência (Silveira, 2015).

Importante contribuição para a reestruturação da CIDID veio do

movimento das pessoas com deficiência e da proposta do Modelo Social

da Deficiência (MSD), que compreendiam ser a deficiência uma questão

social, onde a desvantagem resultava da incapacidade da sociedade em se

adequar a diferentes formas corporais e não o contrário, como sugeria o

modelo proposto pela CIDID (Sampaio, Haddad, Filho & Siaulys, 2010;

Sassaki, 2012). O MSD, nascido na década de 1970 na Inglaterra,

proposto pelos estudiosos do campo da deficiência estabelece a diferença

entre lesão e deficiência, onde um corpo com lesão não necessariamente

experiencia a deficiência (Diniz, 2007). A deficiência é entendida a partir

da relação das dificuldades encontradas pelas pessoas com alguma lesão

(26)

frente a uma sociedade não preparada e adaptada as diferenças do ser

humano. Esta abordagem, considera a deficiência como inerente a

condição humana, não apenas pelo fato de existirem relatos na história da

humanidade acerca de pessoas com deficiência, mas também porque a

maioria das pessoas enfrenta em algum momento da vida condições de

deficiência temporária ou permanente (OMS, 2011).

A incapacidade, nesta perspectiva, é definida pelo contexto social,

não é algo pessoal, e sim uma condição que pode ocorrer a qualquer

pessoa, em qualquer momento da vida (Sampaio & Luz, 2009). Essa

concepção tem implicações políticas significativas, pois reconhece que as

desvantagens a que estão submetidas as pessoas com deficiência tem

origem social e não natural, como supunha o modelo biomédico.

Trazendo a compreensão da deficiência para o campo do social, retira-se

o poder exclusivo das ciências médicas e distribui–se as

responsabilidades nas diversas esferas. A deficiência passa a ser uma

condição da natureza humana, uma questão política e de direitos

humanos, e não mais um problema exclusivo da saúde (Diniz, 2007;

OMS, 2008). Assim, as políticas sociais relativas a saúde da pessoa com

deficiência, na verdade não devem ser destinadas apenas as pessoas com

deficiência, mas a todas as pessoas, já que todas as pessoas podem

vivenciar momentos de incapacidade (Sampaio & Luz, 2009).

O movimento político das pessoas com deficiência, sustentado no

MSD, faz severas críticas a CIDID, pois compreende que nessa

classificação a deficiência continua a ser encarada como consequência

das lesões do corpo. A CIDID não consegue contemplar as condições de

saúde em seu conceito amplo, sua estrutura linear altera muito pouco a

concepção de deficiência do modelo biomédico (OMS, 2008). A OMS

então, passa a revisar a CIDID, lançando a sua Versão Beta-1 e Beta-2,

as quais foram testadas em campo e contaram com a participação de mais

de 50 países e 1.800 peritos dos diversos centros colaboradores,

instituições representativas e redes internacionais. Em 2001, lança a

CIDID-2, que leva o nome de Classificação Internacional de

Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, CIF conforme sigla em português

(Di Nubila & Buchalla, 2008; OMS, 2008).

Como uma classificação de referência dentro da família de

classificações internacionais da OMS, a CIF se baseia em um modelo

biopsicossocial da saúde, que busca integrar os modelos social e médico,

não se restringindo a classificar doenças ou deficiências. Enquanto a

CID-10 se propõe a classificar os estados de saúde, a partir da relação dos

sintomas, utilizando para isso uma série de códigos que correspondem as

patologias, deficiências e transtornos, a CIF se propõe a ser uma

(27)

classificação que “engloba todos os aspectos da saúde humana e alguns

componentes relevantes para saúde relacionados ao bem-estar e os

descreve em termos de domínios de saúde e domínios relacionados à

saúde.” (OMS, 2008, p.18).

Por domínios de saúde compreende aquelas áreas da vida que são

diretamente ligadas a saúde, que costumam ser de responsabilidade dos

serviços de saúde, como por exemplo alterações ortopédicas. Domínios

relacionados a saúde, são aqueles que não são de responsabilidade do

sistema de saúde, mas interferem na qualidade da saúde dos sujeitos,

como por exemplo acessibilidade arquitetônica. O objetivo da CIF é

descrever de forma organizada e sistematizada informações a respeito das

condições, funções e restrições do ser humano no que se refere a saúde.

Ela representa uma mudança de paradigma, na medida em que busca

englobar os aspectos biológicos, individuais e sociais. De uma

classificação de consequência da doença, como era a CIDID,

transforma-se em uma classificação dos componentes da saúde (OMS, 2008).

De acordo com o modelo da CIF, que será melhor abordado no

item 1.3.1 desta Introdução, a funcionalidade e a incapacidade dos

indivíduos são determinadas pela interação do corpo com o contexto

ambiental que os cerca. É uma classificação que se propõe a avaliar a

saúde e não a doença. Não se preocupa em encontrar etiologias ou

descrever sintomas, mas sim em avaliar os impactos da interação entre

um ambiente e as condições de saúde dos indivíduos, focando em sua

funcionalidade (OMS, 2008).

A proposta da CIF de fazer dialogar os modelos médico e social e

sustentar um terceiro modelo, o biopsicossocial, reforça a necessidade de

definir certas questões terminológicas e formar um vocabulário universal

que fosse capaz de evidenciar a complexidade da saúde. A fim de

favorecer uma compreensão comum dos seus conceitos, em seu Anexo 1

– Questões taxonômicas e terminológicas - da CIF são descritos os novos

termos que servem de referência para toda a classificação e para

publicações relacionadas ao tema, e que servem de referência para a área

(OMS, 2008).

O termo Incapacidade, foi traduzido a partir do termo em inglês

disability, representa o aspecto negativo da interação entre o contexto e

as condições de saúde de um indivíduo, se aproxima do conceito de

deficiência proposto pelo Modelo Social da Deficiência. Já o termo

Deficiência, foi traduzido do inglês impairment e se refere a

anormalidades na estrutura ou função do corpo, baseada em medidas

estatísticas de normalidade. Corresponde a um desvio da média

populacional, nesse sentido se aproxima da concepção de deficiência do

(28)

Modelo Biomédico (Farias & Buchalla, 2008; OMS, 2008; Sampaio &

Luz, 2009).

Como apontado por Diniz, as traduções dos termos não levaram

em consideração os fundamentos teóricos da própria CIF. Disability foi

traduzido como incapacidade, mas deveria ter sido traduzido por

deficiência, porque “a escolha de disability e não outra categoria foi

exatamente para provocar a tradição biomédica de dois séculos que

compreende deficiência como algo fora da norma” (Diniz, Medeiros &

Squinca, 2007, p. 2509). Da mesma forma, o termo impairment, foi

traduzido por deficiência, que deriva de déficit, falta, e deveria ter sido

traduzido por lesão, porque se refere ao corpo e não a interação como

disability. Para o Modelo Social lesão é uma variável neutra da

diversidade corporal humana enquanto deficiência é a interação do corpo

com o ambiente. “Ou seja, disability não se resume a impairment, pois é

o resultado negativo da interação de um corpo com lesões em ambientes

sociais pouco sensíveis à diversidade corporal das pessoas” (Diniz,

Medeiros & Squinca, 2007, p. 2508). E justamente a importância da CIF,

e sua universalidade estão no fato de ela incorporar debates do modelo

social, tirando o foco do corpo. Mas a tradução para o português falha

nessa tarefa, e as confusões relacionadas as terminologias ficam evidentes

também na legislação Brasileira, onde o termo deficiência é muitas vezes

utilizado para designar lesões e não incapacidades (Martins & Araujo,

2015).

Nesta pesquisa, que se fundamenta em uma compreensão

biopsicossocial de saúde e deficiência, funcionalidade se refere a

capacidade do indivíduo em realizar atividades no ambiente em que se

encontra, é a parte positiva da interação entre um indivíduo e sua condição

corporal com o contexto ambiental, onde o principal foco é a participação

social. Incapacidade se refere ao oposto, a limitação de atividades ou

restrições à participação. Se refere aos aspectos negativos da interação do

indivíduo com o contexto (OMS, 2008; Di Nubila, 2010).

A CIF possibilita uma compreensão mais real das condições de

saúde, porque através dos seus descritores pode-se elaborar um perfil

funcional do sujeito avaliado. Os perfis variam entre si, tanto entre

sujeitos como num mesmo sujeito em momentos diferentes da vida. Uma

mesma condição de saúde tem impactos diferentes em sujeitos diferentes,

porque a funcionalidade é baseada não em alterações do corpo, mas sim

na interação desse corpo com o meio em que se encontra. A CIF não

atribui um código diagnóstico a um sujeito, como o faz a CID, por

exemplo; ela atribui uma série de códigos aos diversos componentes da

saúde, que estão divididos nos seus diversos domínios. Sua aplicação é

(29)

universal, porque se aplica a toda e qualquer pessoa independentemente

da sua condição de saúde. CID e CIF devem ser usadas em conjunto, uma

complementa as informações da outra (Araujo, 2011; OMS, 2008).

O modelo de saúde biopsicossocial reúne os fatores ambientais,

considerando as barreiras com as quais as pessoas com deficiência se

deparam em seu cotidiano, dessa forma, responde ao Modelo Social da

Deficiência. Ao mesmo tempo, não desconsidera as alterações corporais

e as experiências pessoais de um corpo com deficiência, considerando

elementos do modelo biomédico. Sobretudo, aproxima-se um pouco mais

da realidade porque vai além da mera descrição do corpo ou do ambiente,

pois busca descrever a interação entre eles. É um modelo coerente com a

nova configuração epidemiológica da população e com a demanda de

saúde compreendida como bem-estar e não apenas como ausência de

doença.

1.2 Dados sobre Deficiência e Deficiência Visual

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa com

Deficiência (CDPD), define que:

Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas (Brasil, 2012a, p. 26).

Fundamentado no modelo social da deficiência, o conceito trazido

pela Convenção se aproxima da compreensão da CIF. A CDPD constitui

um marco histórico no entendimento da deficiência como questão de

direitos humanos, promulgada em 2006 pela ONU e ratificada pelo Brasil

em 2008, tem valor de emenda constitucional. Significa importante

documento na luta pelos direitos da pessoa com deficiência de forma

transversal nos diversos setores sociais como saúde, educação,

acessibilidade, focando na promoção da participação e bem-estar (Brasil,

2012a).

O Relatório Mundial sobre a Deficiência (RMD), elaborado pela

OMS em conjunto com o Banco Mundial, publicado em 2011, baseia-se

em duas fontes de dados para examinar a prevalência da deficiência: a

Pesquisa Mundial de Saúde da OMS de 2002 a 2004, realizada em 59

países e fundamentada na CIF; e o estudo sobre a Carga Global de

(30)

Doenças da OMS de 2004. Embora os dados não sejam comparáveis entre

si, porque utilizam metodologias diferentes, juntos eles oferecem um

panorama da prevalência em nível global. O Relatório, que conta com a

colaboração de diversos estudiosos do tema, também discute questões

fundamentais relativas a deficiência, como assistência médica,

reabilitação, suporte, fatores ambientes, educação, trabalho e emprego

(OMS, 2011).

Segundo o Relatório, em 2010, cerca de 15% (mais de um bilhão

de pessoas) da população mundial convivia com algum tipo de deficiência

e entre elas, cerca de 2,2% a 3,8% apresentavam dificuldades funcionais

significativas. Em relação ao sexo, os dados de ambos os estudos apontam

que a prevalência da deficiência é maior entre as mulheres. As taxas de

deficiência também são maiores em idosos, uma consequência direta da

transição demográfica. Os fatores ambientais influenciam na prevalência

e extensão das deficiências, a falta de acesso a recursos, as mudanças

provocadas por desastres naturais ou situações de conflito concorrem para

o aumento da prevalência porque criam barreiras e reduzem a

funcionalidade das pessoas. A relação existente entre deficiência e

pobreza também é apontada no Relatório, tanto em relação a maior

probabilidade de pessoas em situação de pobreza adquirirem deficiência,

devido à dificuldade de acesso a todo tipo de serviços, inclusive o de

saúde, a condições precárias de alimentação, moradia e saneamento.

Como também em relação a queda na renda média de pessoas em idade

produtiva após o surgimento da deficiência, levando muitas vezes a

situações de pobreza. Pessoas com deficiência também enfrentam piores

condições no mercado de trabalho e no acesso a educação. A desigualdade

é uma das principais causas dos problemas de saúde e por consequência

da deficiência, e da mesma forma, a presença da deficiência parece

aumentar a desigualdade. Estudos sugerem que famílias com membros

com deficiência enfrentam realidade sociais e econômicas piores que

domicílios sem deficiência (OMS, 2011).

Diante dessa análise, percebe-se que são vários os fatores que

interferem na configuração da deficiência/funcionalidade/incapacidade,

dentre os quais pode-se destacar os fatores sociais e ambientais como de

maior impacto, já que boas condições sociais reduzem a probabilidade de

se adquirir deficiência, como também melhoram a funcionalidade de

pessoas com deficiência, proporcionando qualidade de vida, de saúde e

bem-estar.

Dados específicos sobre deficiência visual são encontrados no

Global Data on Visual Impairments 2010 (GDVI), também publicado

pela OMS. A coleta de dados relativos a deficiência visual faz parte das

(31)

principais tarefas da OMS para a prevenção da cegueira. Para melhor

compreensão dos dados, cabe definir quais são os critérios adotados pela

OMS para deficiência visual (Mariotti, 2012).

Os critérios se fundamentam na CID, e são baseados na medida da

acuidade visual e do campo visual central, de acordo com os graus de

comprometimento visual, os quais são melhores descritos na Tabela 1

(OMS, 1997).

Os códigos referentes a deficiência visual na CID são: H54.0 –

Cegueira em ambos os olhos (Classes de comprometimento visual 3, 4 e

5 em ambos os olhos); H54.1 – Cegueira em um olho e visão subnormal

no outro olho (Classes de comprometimento visual 3, 4 e 5 em um olho,

com categorias 1 ou 2 no outro olho); H54.2 – Visão subnormal em ambos

os olhos (Classes de comprometimento visual 1 ou 2 em ambos os olhos);

H53.4 – Defeitos do campo visual (OMS, 1997).

Tabela 1 - Graus de comprometimento da deficiência visual com base na acuidade visual, conforme CID-10.

Graus de comprometimento visual

Acuidade visual no melhor olho com a melhor correção possível

Máxima menor que: Mínima igual ou maior que: Campo visual central *: 1 – Visão subnormal 6/18 3/10 (0,3) 20/70 6/60 1,10 (0,1) 20/200 2 - Visão subnormal 3/60 1/20 (0,05) 20/400 3/60 1/20 (0,5) 20/400 3 – Cegueira 3/60 1/20 (0,05) 20/400 1/60 (capacidade de contar dedos a 1m) 1/50 (0,02) 5/300 (20/1200) Campo visual entre 5 e 10 graus 4 - Cegueira 1/60 (capacidade de contar dedos a 1m) 1/50 (0,02) 5/300 (20/1200)

Percepção de luz Campo visual até 5 graus

5 - Cegueira Ausência da percepção da luz 9 - Perda da visão não

qualificada

Indeterminada ou não especificada

Nota.Tabela adaptada de Dandona & Dandona, 2006 e OMS, 1997.

*A medida de campo visual é aplicada somente se a acuidade visual for maior que o grau 1.

Acuidade visual (AV) consiste na capacidade do olho em

discriminar forma e contorno dos objetos. É uma medida geralmente

expressa em forma de fração, que varia em proporção de pessoa para

(32)

pessoa, deve ser feita sempre com uso da melhor correção óptica possível.

Existem diversas tabelas que auxiliam na aferição desta medida, como a

Tabela de Snellen, Tabela de Sloan, entre outros. Baseado na Tabela de

Snellen, a acuidade visual de 100%, ou seja, de um sujeito sem nenhuma

alteração visual, corresponde a fração de AV=20/20. Para uma pessoa

considerada cega (segundo critérios da CID), sua acuidade pela Tabela de

Snellen seria representada como AV=20/400. Isso significa que uma

pessoa cega enxerga a 6 metros, o que uma pessoa com visão “normal”

enxerga a 120 metros (Sampaio et al., 2010).

Segundo o GDVI, estima-se que em 2010, haviam no mundo cerca

de 39 milhões de pessoas cegas e 246 milhões com baixa visão,

totalizando 285 milhões de pessoas com deficiência visual. Desse total,

cerca de 65% das pessoas com deficiência visual e 82% do total de

pessoas cegas possuíam 50 anos ou mais (Mariotti, 2012). A principal

causa de deficiência visual em nível global são os erros refrativos

2

não

corrigidos (42%), seguidos de catarata (33%) e glaucoma (2%),

degeneração macular relativa a idade, diabetes, retinopatia, tracoma e

opacidade da córnea contribuem com 1% cada. Cerca de 18% tem causa

indeterminada (Pascolini & Mariotti, 2011).

Embora a acuidade visual seja medida com a melhor correção

óptica (conforme definição atual da CID), o erro refrativo figura como a

maior causa de deficiência visual no mundo, o que é um paradoxo.

Dandona e Dandona (2006) fazem uma crítica quanto a essa definição da

CID de medir deficiência visual a partir dos valores de acuidade visual

com a melhor correção óptica, já que a melhor correção óptica inclui a

correção de erros refrativos, aqueles corrigidos por óculos convencionais.

Se uma das maiores causas da deficiência visual no mundo é o erro

refrativo não corrigido, cabe questionar se a falta de acesso a recursos

ópticos como óculos, não faz com que as pessoas tenham sua

funcionalidade reduzida, caracterizando uma situação de deficiência. Os

autores sugerem que numa próxima revisão da CID, no lugar de “acuidade

visual com a melhor correção óptica”, se utilize “acuidade visual

apresentada” (Dandona & Dandona, 2006). Assim, teríamos uma noção

mais real sobre a vivência da deficiência, pois uma situação em que a

pessoa tem apenas erro refrativo e não tem acesso a óculos, ela continua

2 Erros refrativos são aqueles em que há redução da nitidez, como astigmatismo, miopia, hipermetropia, presbiopia. A maioria dos erros refrativos pode ser compensada pelo uso de óculos ou lentes de contato, que reduz ou elimina os sintomas durante sua utilização, porém não os curam. Há também a possibilidade de cirurgias refrativas para a maioria dos casos.

(33)

com dificuldades visuais, podendo caracterizar-se como deficiência

visual. Em relação a catarata também é interessante notar que embora

existam técnicas cirúrgicas que permitem a melhora substancial da

acuidade visual, ela ainda figure como a segunda maior causa de

deficiência visual, corroborando para a compreensão de que a deficiência

não se restringe a alterações de função corporal, mas que é resultado da

interação do corpo com o ambiente, nesse caso representado pelo sistema

de saúde, cujo investimento em cirurgias oculares é insuficiente para dar

conta da demanda (Kara-José & Temporini, 1999; Lira, Nascimento,

Temporini, Kara-José & Arieta, 2001).

1.2.1 Dados Brasileiros sobre Deficiência Visual

Quanto ao Brasil, no Censo de 2010, realizado pelo Instituto

Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, procedeu-se a coleta de

informações acerca da prevalência dos diferentes tipos de deficiência na

população. As questões buscavam identificar o grau de severidade da

deficiência a partir da percepção dos próprios entrevistados sobre sua

funcionalidade nas atividades do cotidiano. Os graus variavam entre “tem

alguma dificuldade em realizar”, “tem grande dificuldade” ou “não

consegue realizar de modo algum”. Considerando a população total do

Brasil, 23,9% relataram vivenciar alguma deficiência. A deficiência

visual apresentou a maior ocorrência, cerca de 18,6% da população

alegou ter algum nível de redução da sua funcionalidade visual. Em

segundo lugar ficou a deficiência motora, com 7%, seguida da auditiva

com 5,10% e intelectual ou mental com 1,4% (Oliveira, 2012).

Por ser um questionário onde o entrevistado respondia conforme

sua percepção, houve a possibilidade de diferença quanto a classificação

da CID, pois no grau “tem alguma dificuldade” podem ter se inserido

pessoas cuja patologia poderia ser corrigida com o uso de óculos e que

por isso não apresentavam dificuldade em grau significativo para se

enquadrarem como deficientes. Buscando chegar a um dado mais

fidedigno da prevalência de pessoas com deficiência somaram-se as

respostas “tem grande dificuldade” e “não consegue de modo algum”

englobando-as no grupo deficiência severa, o que correspondeu a 3,46%

de pessoas com deficiência visual, das quais 1,6% são cegas (Oliveira,

2012).

Houveram diferenças quanto a prevalência das deficiências, tanto

visual como as outras, em relação ao sexo, idade e grupo racial. As

mulheres, os idosos e as raças preta e amarela foram as que registram

(34)

maiores percentuais de deficiência. Quando comparados os grupos de

pessoas com deficiência e sem deficiência, em relação a taxa de

alfabetização, taxa de escolarização, nível de instrução e trabalho as

pessoas com deficiência apresentaram menores taxas, revelando um

padrão semelhante ao padrão mundial (Oliveira, 2012).

1.2.2 A experiência da deficiência visual

A experiência da deficiência visual é geralmente compreendida a

partir da posição daqueles que veem, cuja representação social da

deficiência visual e principalmente da cegueira, carrega em si a noção de

perda, sofrimento e incapacidade, mostrando-se distantes da realidade

trazida pelas vozes das próprias pessoas que são sistematicamente

marginalizadas. Embora se possa imaginar como seria ser cego, essa

experiência imaginada não consegue absorver a realidade, nem

compreender a capacidade de adaptação dos sujeitos, e muitas vezes vem

carregadas de preconcepções correndo o risco de atuarem como barreiras

(Martins, 2009).

As generalizações sobre as “incapacidades” ou sobre as “pessoas com deficiência” podem enganar. As pessoas com deficiência possuem diversos fatores pessoais com diferenças em termos de gênero, idade, status sócio-econômico, sexualidade, etnia, ou herança cultural. Cada uma delas tem suas preferências e respostas pessoais para lidar com a deficiência. Embora a deficiência seja associada a privações, nem todas as pessoas com deficiência são igualmente desprovidas. (OMS, 2011, p.8).

A experiência da deficiência é tão heterogênea quanto a da vida

sem deficiência. São vários os fatores que interagem formando

configurações diversas. Pessoas com a mesma acuidade visual ou mesma

patologia podem apresentar funcionalidades bastante distintas e vivenciar

a deficiência visual de forma peculiar. A interação de diversos fatores que

constituem o sujeito, as condições da saúde, os fatores pessoais e

ambientais interagem de formas variadas. A deficiência é

multidimensional, a infinidade de fatores que influenciam a vivência

cotidiana da deficiência não pode ser generalizada (OMS, 2011; Torres,

Mazzoni & Mello, 2007).

Há uma diferença entre “ver” e “não ver”, mas ela é de ordem

qualitativa e não quantitativa. A teoria histórico-cultural compreende que

(35)

as funções psicológicas superiores tem um papel diferente nas pessoas

com deficiência visual, quando comparadas aos videntes. A condição de

deficiência reestrutura o psiquismo de uma forma diversa, de onde

suportes e recursos devem ser utilizados não com o fim de compensar a

visão, mas de auxiliar o desenvolvimento de habilidades em direção a

autonomia (Nuernberg, 2008).

Existem diversos recursos ópticos utilizados por pessoas com

deficiência visual que podem auxiliar no desenvolvimento de habilidades

e facilitar sua participação social e autonomia. Muitos deles estão

disponíveis pelo Sistema Único de Saúde brasileiro gratuitamente, como

lupas, telescópios, óculos esfero-prismáticos, óculos com lentes filtrantes

(Brasil, 2012b). Há ainda outros recursos de tecnologia assistiva, como

lupas eletrônicas, programas de leitura de tela, softwares de ampliação de

tela, além de diversos equipamentos para impressão em Braille (Sampaio

et al., 2010). A cada dia surgem novas tecnologias e produtos que

auxiliam na independência das pessoas com deficiência visual. A oferta

de serviços e programas voltados à ampliação da funcionalidade, deve

passar não apenas pela oferta de recursos materiais, mas principalmente

pela implementação de programas e estratégias que visem a redução das

barreiras, sejam elas arquitetônicas, comunicacionais ou atitudinais, a fim

de garantir a plena participação da pessoa com deficiência na sociedade

(Arruda, 2008).

1.3 Instrumentos de Avaliação da Funcionalidade, Incapacidade e

Saúde

Embora dados estatísticos sobre deficiência não sejam os mais

completos para a obtenção de informações acerca da vida das pessoas

com deficiência, um maior conhecimento da população com deficiência

e a relação entre as variáveis sócio-demográficas contribui para uma

compreensão global da situação e facilita o planejamento de políticas

públicas e serviços mais coerentes com as necessidades (Neves-Silva &

Álvarez-Martín, 2014). Contudo, algumas dificuldades são encontradas

em termos de padronização dos dados, como o fato de a maioria das

pesquisas utilizar apenas um aspecto da deficiência como critério,

classificando a incidência por exemplo a partir dos tipos, como mental,

intelectual, sensorial ou física. Essa forma de analisar acaba deixando de

fora informações importantes sobre funcionalidade e excluindo pessoas

que apresentam redução da funcionalidade, como aquelas com doenças

crônicas ou idosas que enfrentam dificuldade cotidianas em decorrência

Referências

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