1º BIMESTRE DE 2010
02/02/2010
PLANO DE ENSINO1. IDENTIFICAÇÃO
CURSO: Bacharelado em Direito DISCIPLINA: Antropologia Jurídica
PROFESSOR: Adriano Portella de Amorim ANO: 2010
2. EMENTA
I – Antropologia: conceito, objeto, desenvolvimento, corrente, método, qualidade científica do estudo antropológico; II – Antropologia e Direito: relações, utilidade teórica da antropologia para o Direito, função social do Direito; III – A aparência do Direito: o princípio de retributividade e dependência, contrato, controle social, sanção organizada, o processo judicial; IV – Contato cultural: confronto de direitos, práticas coloniais, utilização do conhecimento antropológico; V – Mudança social e desenvolvimento: adequação do Direito à realidade social, descompasso verificável; VI – Direito como instrumento da mudança: influência nas estruturas sociais e no contexto cultural; e VII – As bases da legitimidade: endoculturação, aculturação e internalização de valores.
3. JUSTIFICATIVA DA DISCIPLINA
A relevância da Antropologia Jurídica reside, essencialmente, na necessidade de ampliar a capacidade de discutir aspectos dogmáticos presentes no estudo do Direito, para o fim de capacitar os alunos a entender as razões pelas quais uma dada norma jurídica é criada, modificada, desprezada ou revogada, a partir de interações entre o conteúdo e a realidade observada.
A disciplina Antropologia Jurídica tem por escopo proporcionar ao aluno a percepção a respeito da forma como as normas jurídicas são construídas, a partir de uma análise crítica dos diversos fatores e estruturas de poder e demandas que interagem na sociedade, com a finalidade de desenvolver uma postura reflexiva no tocante ao seu papel como cidadão e profissional.
4. OBJETIVOS
Os objetivos da disciplina Antropologia Jurídica estão alinhados com o objetivo principal do Curso de Direito do UnICESP, qual seja, a formação de “profissionais com valores de responsabilidade social, justiça e ética, aptos a serem inseridos nos diversos setores da sociedade, capazes de contribuir para a sua transformação e aprimoramento”, de modo a ampliar a capacidade do aluno de “agir na comunidade, em todos os seus segmentos, segundo os princípios da moral e da ética, atuando em nome da justiça e da eqüidade social”, de “compreender e dominar o entendimento pleno dos atos jurídicos e das decisões da Justiça, valorizando o trabalho em equipe, numa dimensão inter e multidisciplinar”, de “desempenhar suas atividades como profissional competente e ético, em quaisquer organismos da administração pública, no complexo das atividades empresariais e/ou na defesa dos interesses legítimos do cidadão” e, por fim, “colaborar com a
formação do comportamento do cidadão e com o desenvolvimento da cultura e do sentimento de solidariedade humana”.
4.1. Geral
Proporcionar ao aluno a capacidade de desenvolver uma reflexão crítica a respeito das formas pelas quais as normas jurídicas são elaboradas, de modo a que o seu papel como profissional não se limite ao automatismo de dogmas e de fórmulas
4.2. Específicos
a) compreender os princípios da Antropologia; b) discutir a conjugação entre Antropologia e Direito;
c) analisar a forma como o direito é compreendido;
d) debater o Direito a partir da mudança social e do desenvolvimento; e
e) refletir a respeito da legitimidade das normas jurídicas e da aplicação do direito. 5. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
A programação curricular da disciplina foi sistematizada em sete temas centrais, a saber:
5.1. Antropologia: conceito, objeto, desenvolvimento, corrente, método, qualidade científica do estudo antropológico;
5.2. Antropologia e Direito: relações, utilidade teórica da antropologia para o Direito, função social do Direito;
5.3. A aparência do Direito: o princípio de retributividade e dependência, contrato, controle social, sanção organizada, o processo judicial;
5.4. Contato cultural: confronto de direitos, práticas coloniais, utilização do conhecimento antropológico;
5.5. Mudança social e desenvolvimento: adequação do Direito à realidade social, descompasso verificável;
5.6. Direito como instrumento da mudança: influência nas estruturas sociais e no contexto cultural; e
5.7. As bases da legitimidade: endoculturação, aculturação e internalização de valores.
6. METODOLOGIA
A disciplina será ministrada mediante o estabelecimento de elos entre os objetivos do conteúdo programático, a percepção do aspecto cognitivo dos alunos e o desenvolvimento de suas habilidades para formular e refletir a respeito das questões relevantes e controvertidas que forem suscitadas, a partir de debates da bibliografia indicada, da experiência pessoal da turma, da legislação, da jurisprudência e de fatos cujos temas sejam de interesse para a disciplina e para o Curso de Direito.
Serão realizadas aulas expositivas, com o concurso da interação dos alunos, os quais também serão incentivados a apresentar suas formulações a respeito dos temas propostos.
Serão utilizados nas aulas, como forma de apoio, os recursos disponibilizados pela instituição de ensino, estabelecendo-se, ainda, canais de intercâmbios (eletrônicos ou presenciais), para o fim de fomentar fóruns de debates sobre os temas relacionados à disciplina.
8. AVALIAÇÃO
A avaliação da aprendizagem abrangerá o conjunto dos objetivos propostos para a disciplina, considerando o diagnóstico do aperfeiçoamento das habilidades, a compressão das questões controvertidas suscitadas e a capacidade de formular opiniões a respeito dos temas, de modo a que o processo ensino-aprendizado possa alcançar seus resultados.
A avaliação também tomará por base a freqüência, a participação e o aproveitamento dos alunos. No semestre serão realizadas duas provas escritas, predominantemente dissertativas, as quais terão a finalidade de mensurar o desempenho de cada aluno. Cada prova valerá 10 (dez) pontos e será realizada individualmente. Na mensuração será considerada a participação do aluno em sala de aula, especialmente quanto ao seu interesse e esforço pessoal.
Adicionalmente às provas escritas, os alunos elaborarão trabalhos temáticos alinhados com os objetivos da disciplina. O resultado poderá ser somado ao aproveitamento individual dos alunos.
9. INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
Os alunos serão incentivados a preparar artigos, ensaios e realizar leituras complementares de temas que tenham afinidade com a disciplina, tais como as questões de gênero, raça, maioridade penal e direito das minorias.
Aula Antropologia Jurídica
Conteúdo
Avaliações: 02 de 10 pontos
1ª => Quinzena de Abril
1. Plano de Ensino 2ª => Final de junho
Freqüência: 75%
Trabalho: 01 de 3 pontos Max.
Acrescido a Avaliação Final
2. Trabalhos Temáticos
09/02/2010
Apostila: I. Antropologia: conceito, objeto, desenvolvimento, correntes, método,PRELIMINAR
Reapresentação do Plano de Ensino e novos esclarecimentos de como a disciplina será ministrada.
CONTEÚDO
1. Conceito: ciência que se dedica ao fator humano e suas relações, a partir da construção de modelos comparativos das sociedades.
Divisões: distingue-se em Antropologia Social e Antropologia Física ou Biológica, cada qual com suas correntes de pensamento.
Contexto histórico e antecedentes: como ciência humana e social, a partir do século XVI, sob os argumentos presentes nos seguintes fatos: (i) na (re)descoberta do continente americano, (ii) no renascimento grego-romano na Europa, (iii) na emergência do capitalismo comercial e dos Estados Nacional na Europa Ocidental, (iv) no neo-colonialismo europeu e (v) no positivismo e evolucionismo científico da Europa.
2. Objeto: atender à necessidade que o homem tem de conhecer sua origem, sua capacidade, suas limitações e suas precariedades, a partir dos costumes e do instinto.
Campos: a antropologia tem por objeto de estudo as sociedades humanas, observados os seres humanos e suas relações, notadamente quanto (i) aos aspectos físicos, (ii) à relação com a natureza e (iii) às singularidades culturais.
O estudo antropopológico está associado ao conceito de cultura que, por sua vez, considera, entre outros fatores: (i) o universo psíquico , (ii) os mitos, (iii) os costumes e rituais, (iv) as histórias peculiares dos povos, (v) a linguagem, (vi) os valores, (vii) as crenças, (viii) as leis, (ix) as relações de parentesco.
Adj (gr psykhikós) 1 Relativo à psique. 2 Que pertence ou concerne à alma ou às faculdades morais e intelectuais. 3 Que se refere à mente; mental. 4 Filos Diz-se do que concerne ao espírito ou à espiritualidade do homem (Dicionário Michaelis).
3. Desenvolvimento: de instrumento a serviço do poder europeu, a antropologia se desenvolveu cientificamente a partir do Iluminismo (a partir do século XVIII e efetivamente no século XIX), aperfeiçoando-se espistemicamente sob a premissa da interdisciplinaridade das matérias que constituem o objeto de seus estudos, a partir de teorias da cultura.
4. Correntes:
a) evolucionismo cultural: aplicação da teoria geral da evolução ao fenômeno cultural, a orientar a interpretação dos fatos sociais. Por outro lado, serve para descrever e explicar o desenvolvimento da civilização humana como um todo. Outra linha se dirige a aspectos singulares da cultura (arte, religião, economia, Estado). Compreensão sócio-cultural por meio de dados coletados, a partir dos quais generalizações são formuladas na tentativa de explicar o desenvolvimento da história da humanidade.
Alguns teóricos:
Morgan (1818-1881): distinção em três períodos: (i) antigo (selvageria); (ii intermediário (barbárie); e (iii) recente (civilização); Spencer (1820-1903): teoria da “sobrevivência do mais apto”; Maine (1822-1888): ênfase à teoria da “Evolução do Estado”: parentesco ligado ao território; modelo patriarcal como forma original e universal da vida social; Haddon (1855-1940): evolução a partir da arte; McLennan (1827-1881):
b) difusionismo: também denominado historicismo, parte da premissa de que o
desenvolvimento cultural passa de uma cultura para outra por meio da difusão de elementos culturais, enfatizando a pouca ocorrência de inovações e o predomínio de apropriações culturais. Três elementos básicos (PRESOTTO e MARCONI, apud ALVES e SANTOS, 2007, p. 25): (i) método histórico (observação do passado e do presente); (ii) pesquisa de campo (coleta de dados); e (iii) formulação de conceitos (terminologia específica).
c) funcionalismo: surge no ano 30 do século XX, dando novos matizes à explicação dos fenômenos culturais. Seus fundamentos buscam superar a compreensão da cultura baseada na sua origem ou história. Numa nova concepção, adota o método do “sistema localizado”, que consiste na “visão sincrônica, procurando conhecer a realidade cultural em dado momento e a visão sistêmica, relacionando a sociedade a um organismo, uma unidade complexa a um todo organizado” (ALVES e SANTOS, 2007, p. 33). ). Essa escola representa a teoria organicista, que significa, grosso modo, que cada função específica da sociedade tem ligação com o conjunto dos demais aspectos da cultura, com base nos quais é
preservado determinado estado de coisas ou modo de fazer ou de conviver socialmente.
Elementos básicos: (i) cultura como um todo sistêmico; (ii) partes interdependentes que se relacionam ao sistema para formar um conjunto; (iii) natureza humana (mundo natural) e cultura (mundo artificial) em correspondência mútua; (iv) teoria da necessidade (Malinowski); (v) reconhecimento e valorização dos elementos culturais; e (vi) observação do social e do cultural de sociedades diferentes, sem a interferência ou a influencia dos valores daquele que observa (PRESOTTO e MARCONI, apud ALVES e SANTOS, 2007, p. 34).
Pensadores pioneiros: Spencer e Durkheim, a partir das concepções sobre o funcionalismo social como sistema. Principais representantes: Malinowski (1884-1942) e Radcliffe Brown (1881-1955).
d) configuracionismo cultural: “combinação de diversos traços e complexos que integram um sistema de cultura de uma área em um momento dado, que depende da presença ou ausência de uns ou outros elementos da cultura e da maneira como os mesmos se encontram unidos”. Cultura como “conjunto integrado de elementos culturais encontrados em determinado tempo e espaço, cujas partes devem estar de tal modo entrelaçadas que formem um todo coeso e uniforme, pois, se uma das partes for afetada, automaticamente afetará as demais” (ALVES e SANTOS, 2007, p. 39).
Elementos básicos: (i) um todo funcional; (ii) integração das configurações culturais; (iii) aspectos psicológicos que interferem no complexo cultural; e (iv) readaptação de empréstimos culturais.
Principais pensadores: Sapir (1884-1939) e Benedict (1887-1948).
e) estruturalismo: orientação mais recente, cuja aplicabilidade obtém maiores efeitos em sociedades homogêneas, a partir de uma base comum, ou melhor, de culturas formadas a partir de valores diferentes, mas que convergem para um substrato universal.
Elementos básicos: (i) “visão sincrônica e sistêmica da cultura”; (ii) “visão globalizante do fenômeno cultural”; (iii) “noções de estrutura social e relações sociais”; (iv) utilização de modelos na análise cultural”; (v) “estruturas mentais inconscientes como unidade de análise”; e (vi) “compreensão ampla da realidade cultural” (PRESOTTO e MARCONI, apud ALVES e SANTOS, 2007, p. 45).
Em síntese, a teoria da necessidade consiste no pressuposto de que a satisfação das necessidades primárias do ser humano gera um ambiente secundário que se justifica, como resposta, às exigências de sua própria sobrevivência.
5. Método: comparativo, a abranger: (i) histórico; (ii) estatístico; (iii) etnográfico (aspectos descritivos das sociedades); (iv) comparativo ou etnográfico (diferenças e semelhanças no material coletado); (v) monográfico ou estudo de caso (análise de instituições, de processos culturais); (vi) genealógico (parentesco e implicações sociais, estrutura familiar, cotidiano); e (vii) funcionalista (culturas sob a ótica da função no contexto global, usos e costumes).
6. Qualidade científica do estudo antropológico. Técnicas de pesquisa: (i) observação sistemática direta e indireta; (ii) observação participante; (iii) entrevista; e (iv) formulário.
Questões para refletir:
a) povos civilizados e povos ditos “não-civilizados”: argumento de justificação da conquista, da colonização, da exploração e da imposição de valores para o fim de “civilizar” os povos “primitivos”, sob a prerrogativa da superioridade e de uma suposta autorização ou deverdivino (discussão evolucionista atrelada à teoria que privilegiou o darwinismo social ; e
b) elaboração do conceito etnocêntrico de superioridade: não-reconhecimento das diferenças culturais; ausência de alteridade. Antropologia a serviço dos Estados europeus para legitimar a aculturação ; e
Aula: 09/03/2010
- Ciência
- Reunião de várias disciplinas
Finalidades comuns:
Descrever o homem e analisá-lo com base em suas características :
Biológicas (A. Física)
Culturais (A. Cultural) = Jurídica
Como nos comportamos para fazer valer a nossa existência
- Enfases as diferenças e variações entre os diversos grupos sociais.
16/03/2010
Apostila II. Antropologia e direito: relações; utilidade da antropologia para odireito. Função social do direito (preliminar). CONTEÚDO
1. Antropologia
O estudo da antropologia jurídica e de suas relações com o direito envolve a preliminar da discussão do direito em si. Para tanto, serão trazidas as contribuições de Shirley (1987).
Complexidade da lei na visão antropológica e sociológica deve ser analisada a partir dos seguintes pontos de reflexão crítica:
I – não se trata de simples regra proposta pelas organizações do Estado;
II – não se restringe à legislação aprovada pelo Executivo, votada pelo Legislativo e aplicada pelo Judiciário;
III – está além das regras formais e das instituições oficiais; e
IV – sua análise recai (i) no todo do padrão das normas e (ii) nas sanções que mantêm a ordem social e permitem o funcionamento social. As leis formais constituem apenas um elemento dessa arquitetura.
A antropologia legal clássica dá ênfase ao direito “primitivo” das sociedades simples1 e sem escrita, que são definidas pela ausência ou distanciamento do Estado.
Importa assinalar que para Hobbes, o Estado é necessário para garantir a ordem social, sob o argumento de que sem a coerção estatal haveria uma “guerra de 1
Como exemplo, os esquimós: não à guerra, adaptação social ao clima desfavorável, compartilhamento de alimentos, preceitos que, dentre outros aspectos, restringe, em épocas de crise, a alimentação apenas aqueles que produzem ou caçam.
todos contra todos”. A antropologia moderna demonstra que grande parte dessa construção é falsa, ponderando que:
I – a inexistência de leis escritas, de poder burocrático ou de violência organizada não implica, necessariamente, desconsiderar a não-existência de sociedades, na medida em que sociedades podem existir a despeito de regras ou normas sociais e mecanismos de controle social.
Regras comportamentais e, até mesmo, sanções por desvios de conduta, não são exclusividade do Estado, embora em nossa sociedade seja proibida a aplicação da justiça pelas próprias mãos. Retomaremos essa questão num outro tópico da disciplina.
II – há regras e costumes que não são leis formais, mas que também são obedecidas e desobedecidas;
III – interações e comportamentos sociais podem ocorrer sem a ação direta do Estado, indicando papel secundário da figura estatal no cotidiano das pessoas e na manutenção da ordem social. Shirley assinala que os pensamentos de Hart e Kelsen convergem para a compreensão de que a “natureza do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disrruptiva ou ilegal”.
A respeito do comportamento do indivíduo, Hart assinala a distinção entre regras primárias e regras secundárias. As primeiras informam sobre o comportamento do indivíduo, enquanto as segundas sobre as normas referentes às primeiras, isto é, as fórmulas sociais para aplicar sanções aos que descumprem as regras primárias.
Com essas nações, já é possível compreender o postulado básico da antropologia legal delineado por Shirley (p. 12): “as regras são feitas a partir de bases sociais e econômicas e precisam ser vistas em seu conteúdo social”.
Dessa maneira, cabe considerar que as burocracias jurídicas formais não são as únicas instituições que podem aplicar sanções aos indivíduos. Na citação trazida por Shirley (p. 13), Anthony F. C. Wallace definiu três instituições principais que formam a ordem social: (i) a família, (ii) a comunidade e (iii) a Administração ou o poder estatal.
Embora o autor reconheça que há imperfeições na fixação dessas categorias, considera que também se verifica alguma utilidade, na medida em que possibilitam a análise das forças de ordem social.
Max Weber, por sua vez, traz a análise da política e da lei na sociedade correlacionadas à contradição fundamental de todo estudo jurídico: a relação com o problema da dualidade da lei ou com as regras primárias e secundárias.
Decorre, daí, a questão da obediência: por que um homem obedece a outro? Duas acepções podem ajudar a desvelar as razões que sustentam a obediência: o direito e lei. Se formos tentar elucidar a partir da concepção de direito, seguiremos a linha segundo a qual devem ser obedecidas as normas e regras consideradas por muitos como boas e justas. Por outro lado, sob o ponto de vista da lei, a resposta considerará um sistema de punir quem desobedece.
Tomando por base essa perquirição, Weber apresenta a distinção fundamental entre autoridade e poder. A primeira é considerada como a obediência voluntária baseada na crença do indivíduo de que ele deve obedecer, enquanto a segunda diz respeito à obediência obtida apesar da oposição.
Interessa, nesse ponto, mencionar os três campos da antropologia delimitados por Shirley:
Shirley (p. 13) também traz a proposição de Weber a respeito da legitimação: “o processo de criar poder, ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião das pessoas. Autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível, obediência livre”. Dessa maneira, a legitimação, no processo social consiste, em tese, na demonstração de que as ordens são de interesse geral do povo.
I – Antropologia legal: mais detida às sociedades simples, a compreender os estudos sobre ordem social, regras e sanções;
II – Antropologia jurídica: aplicação dos métodos antropológicos de pesquisa, observação participante e comparação com modernas instituições de direito (quem exerce o poder via de regra não aprecia ser objeto de estudo). Trata-se de outro tipo de pesquisa; e
III – Direito comparado: alcance do conhecimento multicultural. 2. Relações
A antropologia jurídica é um campo de investigação antropológica que está em expansão.
Não há consenso a respeito do seu objeto. Mais comumente, sua aplicabilidade pode ser considerada no estudo dos direitos consuetudinários2 de sociedades simples.
Contudo, na atualidade, a antropologia jurídica recebe a influência de fatores multiculturais3 decorrentes, também, dos movimentos decorrentes da globalização.
2 Entende-se por multiculturalismo a existência de várias culturas em uma mesma localidade,
estando geograficamente situada num mesmo país ou não, sem que haja o predomínio de uma sobre as outras
3 Aqueles que decorrem dos costumes adotados por uma dada sociedade, sem a necessidade aprovação formal e de obedecer à forma escrita.
Dessa maneira, as relações entre a antropologia e o direito se tornam cada vez mais evidentes e necessárias, tendo em vista que as relações humanas – não mais limitadas às sociedades simples – se revestem de conteúdos cada vez mais complexos, o que determina a composição de consensos e a construção de regras de conduta a partir de valores e culturas diferentes.
Nesse sentido, as tensões e os conflitos decorrentes das relações humanas são os objetos de observação da antropologia jurídica, que precisa buscar o caminho do equilíbrio para evitar ou mesmo solucionar as controvérsias, a partir do reconhecimento do outro
(alteridade), ao fundamento da dignidade da pessoa humana. 3. Utilidade teórica da antropologia para o direito
A utilidade da antropologia para o direito reside, essencialmente, na possibilidade de empregar o método comparativo dos comportamentos e das culturas. Dessa maneira, é possível compreender como determinados princípios ou regras de direito foram elaborados, aceitos e postos em prática. Esse método auxilia na análise da legitimidade e da validade das normas jurídicas e da aplicação do próprio direito, determinando seu aperfeiçoamento, manutenção ou exclusão.
É sabido que a norma jurídica positivada, formal, não consegue e também não tem a finalidade de alcançar todos os fatos ou hipóteses possíveis de ocorrer nas sociedades, considerando, nesse contexto, as relações – entrelaçadas ou não – que se estabelecem entre indivíduos e instituições públicas (do Estado) e privadas, nos campos do direito interno e internacional.
Portanto, um caminho para evitar, prevenir ou solucionar controvérsias e orientar a prática de condutas julgadas mais adequadas reside na leitura das respostas presentes nos comportamentos e nos valores das sociedades, ou seja, a norma de direito escrita nem sempre contém as prescrições almejadas pelas pessoas.
Um exemplo dessa circunstância pode ser verificado no texto dos artigos 4º e 5º da Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro 4 : (i) na omissão da lei, o juiz decidirá de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais do direito; e (ii) na aplicação da lei, o juiz deverá atender aos fins sociais a que ela se dirige, bem como às exigências do bem-comum.
3.1. Direito comparado
Reconhecida a relevância das relações entre a antropologia e o direito, as comparações metodológicas utilizadas nos estudos comportamentais e culturais não poderão prescindir, mesmo que subsidiariamente, das contribuições oferecidas pelo direito comparado.
O direito comparado consiste na técnica hermenêutica moderna, presente no processo sistemático de composição e de aplicação da lei, mediante a confrontação do texto sob exame com outros da mesma espécie ou diferentes, nacionais ou internacionais.
O estudo do direito comparado revela a posição da regra ou norma no sistema jurídico, observada a complexidade das relações. Em determinadas situações, faz-se necessário passar do exame de fenômenos isolados (o que poderá gerar parcialidade) à percepção da amplitude dos fatos, para o fim de encontrar a solução mais adequada às demandas da sociedade.
É preciso observar que, na omissão ou no aperfeiçoamento das normas de direito, a doutrina influencia a jurisprudência e essa, por sua vez, subsidia a elaboração das disposições legais positivadas.
Nos estudos comparados, uma das principais dificuldades consiste na existência de regimes políticos diversos, organizações sociais complexas e graus ou práticas culturais diferentes. É preciso, pois, observar o meio em que o direito e a justiça operam. Comparar a legislação é diferente de comparar o direito: o primeiro é a síntese; o segundo, a ciência (MAXIMILIANO, 1996, p. 131-133).
3.2. Elemento histórico
A sensibilidade dirigida ao elemento histórico também é relevante nas relações entre a antropologia e o direito. Nesse sentido, é necessário o estudo propedêutico (de preparação) da história do povo a que se dirige o direito e o da história (geral e política da humanidade): européia (geral), lusitana (particular) e brasileira (em especial).
O direito, então, não escapa da leitura como produto lento da evolução adaptada ao meio. O desenvolvimento indica a origem e as transformações históricas de um instituto jurídico, a partir da compreensão e das adaptações (integrais ou parciais) de preceitos existentes.
Assim, o elemento histórico possibilita identificar o sentido e o alcance da norma não necessariamente definitiva, mas dotada de amplo efeito vinculatório.
É, pois, nesse contexto que se aplica o método de verificação, observando-se: (i) evolução contemporânea; (ii) elaboração do direito positivo, suas tendências e objetivos; e (iii) resultados obtidos (a pesquisa da verdade, as regras, os métodos e os sistemas que melhor se adaptam ao progresso social).
A lei figura como o último elo da cadeia.
O discurso político não se confunde com o discurso técnico ou acadêmico. Naquele, a finalidade não é convencer o adversário das razões ou dos posicionamentos divergentes, mas sim os eleitores e aqueles que transitam na teia de interesses corporativos e ideológicos5.
3.3. Fatores sociais
Nas relações entre a antropologia e o direito, é preciso considerar os fatores sociais, os quais, por seu turno, funcionam como método de adaptação do sentido dos textos legais às necessidades da vida e às exigências do momento. Portanto, o direito não pode se isolar, desprender-se das manifestações da vida social e econômica.
A jurisprudência também funciona como fator de modificação, posto que, nos julgados, está presente a preocupação com o bem e com o mal, seus efeitos e repercussões na vida social.
A dinâmica do direito está no desdobramento da vida dos povos. A evolução está fundamentada na prevalência do direito coletivo, na conciliação com o indivíduo.
O direito pode ser considerado como um fragmento da cultura, ou seja, não é a norma que determina a cultura, mas é essa que delineia os postulados de direito. Não obstante, nesse contexto, as diversas correntes de pensamento e as necessidades éticas e econômicas também influenciam a elaboração, a aplicação e – por que não – a própria aceitação do direito.
Nessa ordem de idéias, o direito se destina a tornar cogentes os fatores que determinam a evolução social.
3.4. Direito e moral
Primeiramente, a seguinte leitura (LALANDE, 1996, p. 348-349 e 705):
Ética: “Ciência que tem por objeto o juízo de apreciação, enquanto este se aplica à distinção entre o bem e o mal”.
Crítica:
“Historicamente a palavra Ética foi aplicada à Moral sob todas as suas formas, quer como ciência, quer como arte de dirigir a conduta”.
Para Diderot, “A Ética política tem dois objetivos principais: a cultura da natureza inteligente, a educação do povo”.
H. Spencer, por sua vez, “entende a Ética como um fragmento de um todo de que ela é inseparável e que é o estudo da conduta universal”, resultando “que no uso vulgar esta palavra seja utilizada tanto num sentido como noutro e o mais das vezes no mesmo sentido vago que a palavra moral”, a reunir três conceitos distintos: “1º A Moral, quer dizer, o conjunto das prescrições admitidas numa época e numa sociedade determinadas, o esforço para conformar-se a essas prescrições, a exortação a segui-las”.
“2º A ciência de fato que tem por objeto a conduta dos homens (...), abstração feita dos juízos de apreciação que dirigem os homens nessa conduta” (Etografia ou Etologia) 3º A ciência que toma por objeto imediato os juízos de apreciação sobre os atos qualificados como maus. “É o que nos propomos chamar de Ética”. Para Lalande, “os juízos de valor que tratam da conduta são fatos cujas características cabem determinar e que o estudo da conduta não pode ser substituído pelo estudo direto destas, porque a conduta dos homens nem sempre é conforme com os seus próprios juízos sobre o valor dos atos”.
Moral Crítica:
“A. (uma moral). Conjunto das regras de conduta admitidas numa época ou por um grupo de homens”.
“B. (a Moral). Conjunto das regras de conduta admitidas tidas como incondicionalmente válidas”.
“C. Teoria arrazoada do bem e do mal. Ética. A palavra, neste sentido, implica que a teoria em questão visa conseqüências normativas. Não se diria de uma ciência objetiva e descritiva dos costumes, ou até dos juízos morais (no sentido A)”.
“D. Conduta conforme à moral, por exemplo, quando se fala „dos progressos da moral , entendendo por isso não um progresso das idéias morais, mais a realização‟ de uma vida mais humana, de uma maior justiça nas relações sociais, etc.”
Valor
Expressão empregada no sentido abstrato ou concreto, que transita por várias áreas do conhecimento.
“A. (subjetivamente). Características das coisas que consiste em serem elas mais ou menos estimadas ou desejadas por um sujeito ou, mais comumente, por um grupo de sujeitos determinados”.
Crítica:
“Valor de Verdade. Característica que uma lexis tem de ser verdadeira ou falsa (ou, por extensão, de ser desprovida de sentido). Esta expressão toma-se também algumas vezes com uma extensão maior, compreendendo a probabilidade e os seus graus. Neste caso, os termos extremos já não são verdadeiro e falso, mas certo e fisicamente impossível”.
Os textos legais confluem para o senso moral médio da coletividade. Mas, isso é bom? O direito pode ir contra a moral?
Leis, usos, costumes e atos jurídicos: interpretação de acordo com a ética. A ética é, pois, preponderante na evolução jurídica.
É impossível separar os fenômenos jurídico e político. Nesse sentido, o regime influi na interpretação do direito, como fator social.
3.5. Costume
No dizer da Maximiliano (1996, p. 188), costume “é uma norma jurídica sobre determinada relação de fato e resultante de prática diuturna e uniforme, que lhe dá força de lei”.
Nesse caso, a norma (“lei”) é vista como direito, dispensando o rigor da forma escrita.
Nas relações entre a antropologia e o direito, o costume tem duas funções: (i) a subsidiária e (ii) a hermenêutica (ponderação de valores).
O costume pode ser interpretado sob três aspectos: (i) secundum legem (subsidiário, mais aceito), (ii) proeter legem (substitui a lei quando ela silencia) e (iii) contra legem (revogatório dos textos positivos, ante a perda da legitimidade ou da validade destes).
Questões para refletir:
a) será possível universalizar o direito e a cultura?
b) será possível generalizar as disposições aplicáveis a condições sociais semelhantes entre povos da mesma época e do mesmo “grau” de civilização?
c) poder-se-á cogitar um direito comum à sociedade dita “civilizada” ou desenvolvida?
d) como encontrar a melhor aproximação entre as regras de direito e o ideal de justiça?
e) o que não é ético pode ser admitido pela lei?
Aula: 19/03/2010
Conceituação: Estudo do fator humano e suas relações (como o comportamento
influencia nas normas jurídicas)
Construções de modelos comparativos
Divisões: Social, Física ou Biológica
Objetivo: Atender a necessidade que o homem tem de conhecer suas origens, sua
capacidade, limitações e precariedades.
Correntes
Evolucionismo cultural
Difusionismo
Funcionalismo
Configuracionismo
Estruturalismo
Principal Método
Comparativo
Técnicas de Pesquisa
Observação sistemática direta e indireta
Observação participante
Entrevista
Formulário
Correntes antropológicas
Aula: 19/03/2010
1. Evolucionismo Cultural
- Aplica teoria geral da evolução ao fenômeno cultural (seleção natural)
- Descreve e explica o desenvolvimento da civilização humana.
- Evolução cultural e social vinculada ao desenvolvimento de tecnológicos e das
etapas da cultura.
2. Difusionismo
- Desenvolvimento cultural passa de uma cultura para a outra
Difusão de meios culturais
3. Funcionalismo
- Cada função da sociedade tem ligação com os demais aspectos da cultura
Estado das coisas
Modos de fazer e conviver socialmente
- Sistêmico –um todo que é um sistema de múltiplas peças independentes
4. Configuracionismo Cultural
- Culturas formados a partir de valores diferentes, mas que convergem para um
substrato universal.
16/03/2010
Apostila – III. A aparência do Direito: o princípio de retributividade e
dependência, contrato, controle social, sanção organizada. O processo
judicial.
CONTEÚDO
Teoria da aparência
A teoria da aparência está presente na prática do direito. Repercute em situações que aparentam certa natureza, mas que, na apreciação de seu conteúdo, não se caracteriza, não se revela verdadeira ou em conformidade com a legislação ou com as regras jurídicas vigentes.
Assim, a importância da Ciência do Direito na busca pela regulação das relações sociais baseadas “na confiança legítima das pessoas e na regularidade de direito de cada um”
(BORGUI, 1999, p. 15), tendo em vista que a violação de princípios de conduta implica a assunção dos ônus decorrentes.
A presença da boa-fé constitui requisito da segurança (jurídica) por compromissos assumidos. Nessa linha, a boa-fé significa a aceitação de erro justificável, ou seja, desprendidos de omissões, condutas praticadas ou consentidas para o fim de proporcionar um resultado prévia e deliberadamente projetado por seu autor, para o fim de obter vantagem indevida em face do direito de outrem.
A teoria da aparência concorre, pois, para o ideal da prestação jurisdicional, qual seja: a aplicação da justiça.
A relevância da teoria da aparência surge quando nos colocamos diante da perplexidade da não-efetividade da situação fática em contraste com a previsão das normas, notadamente as positivadas e os precedentes judiciais. Então, a contradição ou a não-correspondência entre aparência e realidade revela uma variada gama de conseqüências jurídicas.
A aparência do direito pode ser dividida em duas linhas: (i) da titularidade do direito e (ii) da legitimidade para pleitear a titularidade ou a justiça do direito. A reflexão a respeito dessas peculiaridades interessa à antropologia jurídica, na medida em que as condutas sociais e sua comparação com práticas consagradas em direitos universais podem influenciar a construção e o reconhecimento de outros ou novos direitos.
A idéia básica da aparência do direito consiste em “sustentar em terceiros a confiança ou a representação mental de que dita aparência corresponda à realidade” (BORGUI, 1999, p. 17).
Como se pode depreender, as noções de aparência estão delineadas na forma de atuação das partes que integram ou realizam atos e negócios jurídicos. A preocupação teórica dessa teoria se dirige aos efeitos que repercutem nos terceiros, na tentativa de protegê-los.
Então, é possível dizer que a idéia de proteção contida na teoria da aparência é dirigida aos que buscam a concretude de um direito, sem o intuito de tirar proveito indevido ou de má-fé da situação.
Verifica-se, pois, que a jurisprudência exerce papel fundamental na teoria da aparência, especialmente quando as matérias controvertidas se referirem à construção interpretativa, na medida em que os julgados podem ir além do que textualmente dispõem as normas legais. A doutrina apresenta três espécies de legitimação para a prática de ato ou, modernamente, de negócio jurídico (BORGUI, 1999, p. 19-20). Vejamos:
1. ordinária (ou direta): titularidade do direito; 2. indireta (ou do representante da parte); e
3. extraordinária, que especialmente interessa à teoria da aparência: “reconhecimento da possibilidade da realização de um ato (ou negócio) jurídico eficaz sobre a esfera jurídica alheia, em nome próprio, em virtude de uma representação exterior aparente” (BORGUI
apud LADARIA, 1999, p. 20). Estrutura
Bases éticas e de humanidade, sob o pressuposto de erro escusável e da boa-fé. Dificuldade de estabelecer a natureza jurídica desse instituto jurídico.
Aparência de direito é diferente de aparência no direito:
Tipo de aparência Fenômeno de incidência
de direito proteção em si, sem amparo em outras figuras jurídicas ou institutos consolidados.
Convicção da titularidade do direito.
Verdadeira aparência ou aparência em sentido estrito. Delineia a possibilidade de um novo direito ou da superação do direito positivado.
no direito
a norma jurídica, notadamente a positivada, prevê a forma ou a hipótese fática de incidência. Aparência em sentido amplo.
Exemplos: posse e propriedade; direito cambial e títulos de crédito. Publicização: aparente realidade.
Objeto da aparência de direito: “manifestação de algo novo, não preexistente, e não fundamentado em nenhum outro princípio ou dispositivo legal para existir” (BORGUI, 1999, p. 39).
Distinções
Aparência no direito Aparência de direito
Sentido estrito.
Amparo, mesmo que principiológico, reconhecido pelo direito. O ordenamento jurídico prevê a hipótese e indica a solução.
Exemplo: o reconhecimento jurídico dos efeitos da união estável. Deve-se perguntar: há correspondência com a verdade?
O fato não corresponde a uma situação jurídica preestabelecida.
Criação de um direito subjetivo novo, com efeitos na titularidade originária.
Necessidade de a ordem social conferir segurança às operações jurídicas, dando amparo aos interesses legítimos daqueles que agem corretamente. Mas, e os que pretendem romper com um estado de legitimação também aparente?
Imperiosidade da ordem social e também política: estabilidade, segurança e validade.
Direitos adquiridos oponíveis ao dito titular originário do direito (cf. BORGUI apud MATTIA, 1999, p. 46).
Contrato social: retributividade, dependência, controle social e sanção organizada
É preciso reconhecer que a organização da sociedade pressupõe o que se pode chamar de pacto social, que transita da forma consentida, tácita à escrita, formal. Não resta dúvida de que as sociedades democráticas ocidentais (mais ao liberalismo econômico ou ao Estado de bem-estar) estabeleceram suas estruturas sob a inspiração da Revolução Francesa e, por conseguinte, de ensinamentos de autores da época (séculos XVII e XVIII), como Jean- Jacques Rousseau.
Nessa ordem de idéias, temas como retributividade, dependência, controle social e sanção organizada estão compreendidos no pacto social. Convém conhecer algumas das noções que, a esse respeito, Rousseau consignou (2005, p. 31-32): a) mudança do estado natural dos homens;
b) constatação de que a melhor forma de conservação da existência humana está na agregação das diversas forças para vencer as resistências, na tentativa, ainda, de estabelecer um mínimo de harmonia;
c) como conciliar a força e a liberdade de cada homem para obter benefícios mútuos: “Achar uma forma de sociedade que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada sócio, e pela qual, unindo-se cada um a todos, não obedeça todavia senão a si mesmo e fique tão livre como antes”;
d) a superação do aparente antagonismo entre liberdade e esforço comum reside no estabelecimento de um contrato, cujas cláusulas são “admitidas tacitamente e reconhecidas, até que, violado o pacto social, cada um torne a entrar em seus direitos e retome a liberdade natural, perdendo a liberdade de convenção, à qual sacrificou a primeira”;
e) produção de um corpo moral e coletivo; e
Comparato (2006, p. 246-247) assinala que a proposta de Rousseau corresponde “à condição lógica de justificação da relação política”, de tal maneira que se justifique a sujeição da minoria às decisões da maioria (uma inquietação: quem é a maioria?). Diferente de Hobbes, explica o autor, Rousseau parte do pressuposto de que no contrato social não haveria a possibilidade de se colocar “um soberano situado acima e fora da sociedade civil”, razão pela qual “é indispensável que a própria comunidade seja a receptora da totalidade dos direitos individuais”.
Todas essas percepções estão presentes nas noções de segurança (não exclusivamente a segurança pública policial), ou seja, naqueles postulados destinados, de um lado, a preservar a soberania estatal e, de outro, a proporcionar condições favoráveis de pleno desenvolvimento e progresso, sem violências ou opressões.
Nesse sentido, Comparato (2006, p. 574-575) assinala que a razão primeira da existência da sociedade política “é a necessidade de garantir a todos um habitat coletivo, que lhes assegure uma proteção contra os riscos de fome, falta de abrigo contra as intempéries, ou assédio de outros grupos humanos”.
Na atualidade, a garantia de da segurança pessoal de todos cabe ao Estado. Os sistemas de bem-estar social, no campo interno dos países. Externamente, a superação da atuação isolada.
Comparato (2006, p. 577-581) assinala a relevância da solidariedade, a complementar os postulados de “liberdade, igualdade e segurança”. O autor consigna: “Enquanto a liberdade e igualdade colocam as pessoas umas diante das outras, a solidariedade as reúne, todas, no seio de uma mesma comunidade”. Assim, o individualismo prepondera na igualdade e na liberdade, enquanto é diminuído na solidariedade. Para o autor, a segurança não pode alcançar seus objetivos sem o concurso de todas as pessoas.
Campos da solidariedade: biosfera, ambiente, relações humanas (as tarefas de cuidar, o somatório de experiências, o enfrentamento de situações de risco).
Comparato elenca três dimensões da solidariedade: (i) nacional, (ii) internacional e (iii) intergeneracional, cada uma com os correspondentes direitos humanos. “A interdependência biológica ou a fraternidade religiosa de todos os seres humanos transmudam-se, assim, em autêntica solidariedade jurídica, que cria direitos e gera obrigações”. Ainda segundo o autor, a solidariedade está no “conjunto dos direitos fundamentais de natureza econômica, social e cultural” (2006, p. 579).
A sanção organizada, por fim, figura como o instrumento que o poder político investido na figura do Estado tem para controlar a sociedade e, por via de conseqüência, aplicar as regras que são dirigidas aos desvios de conduta, a abranger as esferas civil e penal, dentre outros ramos do direito. Devemos aqui salientar o pressuposto de estado de direito, em que os princípios democráticos não autorizam o cometimento de excessos por parte das instituições públicas e de seus representantes.
É, pois, sob essa premissa que o Poder Constituinte de 1988 prescreveu no art. 5º da Carta Política, entre outros, os seguintes direitos e garantias fundamentais: “II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”; “III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”; “XXXIX – não há crime sem lei anterior que o define, nem pena sem prévia cominação legal”; “XL – a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”; “XLI – a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”; “XLIX – é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral”; “LIV – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente”; “LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”; “LXV – a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela autoridade judiciária”, além do habeas corpus (LXVIII), do mandado de segurança (LXVIX), do mandado de injunção (LXXI) e do habeas data (LXXII).
Em síntese, os princípios de direitos humanos adotados pelo Brasil (art. 1º, III da Constituição de 1988) devem ser respeitados.
Uma provocação: e a desobediência civil?
Todavia, no que tange à violência estrutural no olhar da antropologia jurídica, é de valia trazer os seguintes pontos para refletir destacados por Alves e Santos (2007, p. 127):
a) severidade das penas e aumento dos índices de criminalidade; b) sensação de insegurança e de impunidade;
c) a privação da liberdade e os anseios por penas mais severas ampliam o estigma do infrator;
d) o estigma prejudica a (re)inserção social;
e) criminalidade como produto dos problemas sociais: desigualdade e falta de oportunidade;
f) criminalidade como “qualidade (etiqueta) atribuída a determinados sujeitos através de complexos processos formais e informais de definição e seleção” (apud ANDRADE, p. 128);
h) o caminho das penas alternativas; e i) violência e desigualdade social. Processo judicial
Como último tópico do tema da aparência, temos o processo judicial. De tudo o que foi dito até então, torna-se pacífico admitir que o contrato social, no qual estão incluídos os pressupostos de retributividade, dependência, controle social e sanção organizada, estabelece o acesso à Justiça como remédio à composição de conflitos não pacificados ou resolvidos de forma espontânea, consensual ou voluntária pelas partes. Interessa notar que, dentre as partes, podem figurar as pessoas individualmente e o próprio Estado, em relações e demandas entrelaçadas.
No estado de direito democrático, o processo judicial é corolário – mas não único – caminho para a solução de conflitos. Por essa razão, também como direito fundamental, a Constituição Federal de 1988 prescreve no inc. XXXV do art. 5ºque “a lei não excluirá do Poder Judiciário lesão ou ameaça de lesão a direito”.
A respeito da sociedade e da tutela jurídica, Cintra, Grinover e Dinamarco lecionam (1997, p.19):
a) não há sociedade sem direito;
b) o direito exerce função ordenadora, sociologicamente como forma de controle social “na sua tendência à imposição dos modelos culturais, dos ideais coletivos e dos valores que persegue, para a superação das antinomias, das tensões e dos conflitos que lhe são próprios”;
c) a jurisdição substitui a autotutela; e d) o problema do acesso à justiça. Questões para refletir:
a) a sociedade pode criar regras diferentes das previstas nos ordenamentos jurídicos?
b) pode-se admitir a existência de um direito de desobedecer? BIBLIOGRAFIA
ALVES, Elizete Lanzoni e SANTOS, Sidney Francisco Reis dos. Iniciação ao conhecimento da antropologia jurídica: por onde caminha a humanidade. EditoraConceito Cultural, 2007.
BORGUI, Hélio Borgui. Teoria da aparência no direito brasileiro: aparência de direito e aparência no direito, no direito civil e no direito processual civil: confrontações e aplicações, inclusive na jurisprudência. São Paulo: Lejus, 1999.
CINTRA, Antonio Carlos de Araújo, GRINOVER, Ada Pellegrini e DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros, 1997.
COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
ROUSSEAU, Jean-Jaques. Do contrato social ou princípios do direito político. São Paulo: Martin Claret, 2005.
Favela no Rio de Janeiro
Aula: Antropologia e Direito
16/03/2010
1. Postulados da Antropologia Legal
Regras feitas a partir de bases sociais e econômicas e precisam ser vistos em seu
conteúdo social (demanda da sociedade, aspecto ambiental e econômica)
Revogar/modificar determinado dispositivo legal = mecanismo.
2. Burocracias Jurídicas Formais não detém exclusividade na aplicação de
sanções.
Outras 03 instituições na aplicação formam a ordem:
a. Família – norteiam conduta e não conduta
b. Comunidade
c. Administração ou Poder Estatal – (jurídico) Podem induzir o indivíduo a
determinadas práticas.
3. Obediência – 02 sustentáculos baseia-se em princípios0 preceitos com justiça
a. Direito – obediência as regras justas e boas;
b. Leis – sistema de punir quem desobedece (escrito)
c. Opressão – padrões comportamentais de “sobrevivência”
4. Autoridade
Obediência
Obediência
e Poder
Voluntária
da Oposição
Noção de Bom
Medo da
e justo
Sanção
Processo de criar poder ou um
padrão de ordens e obediência
Padrões
justo na opinião das pessoas
Ordem
Legitimação
Obediência
Autoridade Legítima
Justiça (sensação)
Sem oposição perceptível
Obediência Livre
No Processo
Social
Demonstração de que
O poder está na representação
As ordens são de interesse Geral do povo.
política (escolhida pelo voto)
Tres Campos da Antropologia (Shirley)
1. A. Legal – aplicável especialmente as sociedades simples (ordem social, regras e
sensações)
2. A. Jurídica - Método antropológico de pesquisas:
Observação e comparação de institutos do Direito
Quem exerce o poder não aprecia, via de regra, ser objeto de Estado.
3. Direito Comparado: Alcance do conhecimento multicultural
30/03/2010
Relações da Antropologia Jurídica
1.
Estudos dos Direitos Consuetudinários
Costumes
adotados por sociedades sem necessidade de aprovação formal
(escritas).
Especialmente sociedades simples.
Sociedades mais fechadas sem contato com outros grupos sociais ou raros
contatos.
2.
Influência de fatores multiculturais (sociedades complexas)
Globalização
Várias culturas em mesma localidade
Convívio tolerado pela diferença cultural.
Reconhecimento do outro (pessoa de direito)
Dignidade da Pessoa Humana
Direito é um caminho da cultura.
Direito consagrado pela sociedade, mesmo que não se constitua norma escrita
(consuetudinário);
A positivação se justifica quando se precisa coibir uma prática desnecessária.
Utilidade Teórica da AJ
1. O problema do alcance da norma positivada
2. Relações (Internas e Externas)
3. Arts. 4º e 5º da LICC:
Art. 4
oQuando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia,
os costumes e os princípios gerais de direito.Art. 5
oNa aplicação da lei, o juiz
atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.
- Analogia
Omissão da Lei
- Costumes
- Princípios Gerais > Ser e Dever ser
Aplicação da Lei: Fins Sociais e bens comuns
Direito Comparado
- Confrontação de texto
- Hermenêutica
- Posição da regra ou norma no sistema jurídico
- Percepção da amplitude dos fatos: adequação as demandas.
Legislação => Síntese
3.1. Direito Comparado
Direito => Ciência
Não compara coisas diferentes
O que as sociedades entenderam trazer da sua cultura para a lei
3.2. Fatores Sociais
Direito como fragmento da cultura.
3.3. Direito e Moral =>
Teoria dos Círculos Concêntricos
26
Moral
Moral
Direit
o
Direit
o
3.4. Elemento Histórico
3.5. Costume => Prática diuturna e uniforme - “força de lei”
Entre AJ e o Direito, duas funções
Subsidiária e Hermenêutica (ponderação de valores)
Interpretação sob três aspectos
”Secundum Legem” - subsidiária, o mais aceito
“Praeter Legem” – substitui a lei quando esta silencia.
“Contra Legem” – revogatório dos textos “positivados” ante a perda de
legitimidade/ validade destes
Relação, Utilidade da antropologia para o Direito
Complexidade da lei
Regras propostas pela organização do Estado
Legislação proposta pelo Executivo, Votada pelo Legislativo e aplicada pelo
Judiciário.
Circunscrita as regras formais e das instituições oficiais.
13/04/2010
Correção do Estudo Dirigido
Preparatório da 1ª Avaliação
1. A partir do conceito de antropologia, discorra a respeito da evolução histórica dessa ciência.
Estudo do comportamento daquele ser humano da sua colocação .... fórmula previamente estabelecida pra que o homem possa entender as suas diferenças dentro do contexto social, as diferenças entre os homens e a sociedade não pode ser utilizada como critério de melhores e piores casa um tem seu caminhar ao longo do tempo.
2. Explique as ligações existentes entre o objeto da antropologia e o estudo do direito.
Objeto da antropologia: o homem e suas necessidade de convívio em sociedade A Relevância para o estudo do direito: pacto de convivência - regras escritas a partir dos quais a conduta do homem é regrada. Se estudarmos o homem e seu comportamento social, o direito é uma das variáveis desse comportamento,podemos entender pq uma norma jurídica existe, existe, mas não é cumprida, ou não é cumprida por todos, ou ela não recebe o retorno da sociedade, a
sociedade não vê aquela norma cumprindo seus efeitos, por isso existe relação entre o direito e antropologia.
3. Indique e explique as cinco principais divisões da antropologia.
Evolucionismo cultural - Compreensão sócio-cultural por meio de dados coletados, a partir
dos quais generalizações são formuladas na tentativa de explicar o desenvolvimento da história da humanidade
Difusionismo - difunde - passado de um pra outro - desenvolvimento cultural passa de uma
cultura para outra por meio da difusão de elementos culturais, enfatizando a pouca ocorrência de inovações e o predomínio de apropriações culturais.
Funcionalismo – estrutura social de natureza funcional, onde cada um exerce uma função na
sociedade, vendo a sociedade como um todo organizado, as partes são umas complementares das outras.
Configuracionismo cultural – são aquelas culturas mais diversificadas, tem varias culturas
uma interagindo com a outra, diferentes culturas dentro de uma mesma sociedade
Estruturalismo – presente em sociedades que já não apresentam uma grande predomínio na
qualidade são chamadas sociedades homogêneas, mas compactadas, uniformes
4. Dentre as principais divisões da antropologia, escolha aquela que, no seu entender, mais se aproxima da ciência jurídica. Justifique.
Funcionalista
explica as instituições sociais como meios coletivos de satisfazer necessidades biológicas individuais, sua maior contribuição está em desobrigar o desenvolvimento social humano de seguir numa única direção até alcançar obrigatoriamente o estágio mais avançado da civilização, a industrialização burguesa. O direito decorre dos costumes e necessidades de um determinado povo. Cada povo elaborará suas normas em conformidade com sua evoluc’~ao, social, moral e histórica.
5.
Qual o método da antropologia e a sua relevância para o estudo do direito?
Comparativo
Por meio da comparação é possível verificar se as normas que foram produzidas
repercutiram os efeitos desejados e se essas normas podem ser interpretadas de
maneira atual, se as normas de um outro país tem alguma correspondência com as
nossas expectativas, se nos podemos trazer alguma coisa de fora para colocar no nosso
ordenamento jurídico, ou, se o nosso ordenamento precisa se comportar de acordo com
algum tipo enunciado que seja adotado universalmente pelo direito internacional ,
adaptar o nosso ordenamento, modificá-lo, verificar se algum hiato foi preenchido.
6.
Por que, na atualidade, as relações entre antropologia e direito são cada vez
mais relevantes? Indique e justifique os elementos dessa correspondência.
Verificar se as normas de um outro país tem alguma correspondência com as nossas
expectativas, se nos podemos trazer alguma coisa de fora para colocar no nosso
ordenamento jurídico, ou, se o nosso ordenamento precisa se comportar de acordo com
algum tipo enunciado que seja adotado universalmente pelo direito internacional ,
adaptar o nosso ordenamento, modificá-lo, verificar se algum hiato foi preenchido.
A antropologia jurídica recebe a influência de fatores multiculturais3 decorrentes,
também, dos movimentos decorrentes da globalização.
A antropologia jurídica recebe a influência de fatores multiculturais3 decorrentes,
também, dos movimentos decorrentes da globalização.
7.
Qual a utilidade teórica da antropologia para o direito? Como se processa essa
relação? Exemplifique.
A utilidade da antropologia para o direito reside na possibilidade de empregar o
método comparativo dos comportamentos e das culturas, assim é possível compreender
como determinados princípios ou regras de direito foram elaborados, aceitos e postos
em prática. Esse método auxilia na análise da legitimidade e da validade das normas
jurídicas e da aplicação do próprio direito, determinando seu aperfeiçoamento,
manutenção ou exclusão.
Estudar a seqüencia dos conflitos, mais do que eles próprios, bem como as razões pelas
quais as normas são ou não aplicadas, mais do que elas próprias; Considerar o
indivíduo um ator do pluralismo jurídico, relacionado a vários grupos sociais e a
múltiplos sistemas agenciados por relações de colaboração, coexistência, competição
ou negação;
Exemplo: LICC - artigos 4o e 5º, I
8.