Teoria Macroeconómica - Aula 7
1 Modelo de Ramsey-Cass-Koopmans
1.1 Problema do Consumidor
• (Fundamentos Microeconómicos da Macroeconomia)
• Tipicamente: contexto estático - 1 período apenas.
• Contexto mais geral: contexto dinâmico - vários períodos.
• Para um consumidor que viva mais do que um período os seus proble- mas de consumo estão ligados intertemporalmente, pois o que consome hoje determina o que poupa hoje e por conseguinte as suas possibili- dades de consumo amanhã.
• Problema típico, num contexto determinístico / sem incerteza, em tempo discreto:
max
{ct}∞t=0
U0 = X∞
t=0
( 1
1 +ρ)tu(ct) =
= u(c0) + 1
1 +ρu(c1) + ( 1
1 +ρ)2u(c2) +...
sujeito a :
at+1 = (1 +r)(at+wt−ct) em que:
U0 utilidade ao longo da vida ρ taxa de preferência temporal
c consumo do período (fluxo e ”control variable”) u(c)utilidade do período dado o consumo c a riqueza (stock ou ”state variable”)
r taxa de juro
w rendimento do período
• No óptimo prevalece a impossibilidade de arbitragem / ganho imediato.
Assim, as condições de primeira ordem (condições necessárias para o óptimo) satisfazem a seguinte sequência de Equações de Euler (que podem ser derivadas de forma heurística e não formal pelo método da perturbação):
u0(ct)
| {z }
Cmg
= 1 +r
1 +ρu0(ct+1)
| {z }
Bmg
(1)
• No equilíbrio não se deseja alterar a decisão. Assim, no equilíbrio temos:
Custo Marginal = Benefício Marginal
caso contrário há que alterar a decisão, pelo que não é equilíbrio.
• A variável a decidir é o consumo, período após período.
• Se consumir menos uma unidade hoje a função objectivo diminui pela utilidade marginal do consumo (recorda-se que a utilidade marginal é a variação na utilidade total quando se varia o consumo em uma unidade). Assim, o Cmg de consumir menos uma unidade hoje é u0(ct) em termos de utilidade (ou utils). Quando consumo menos uma unidade hoje, passo a poupar mais uma unidade hoje, o que me rende (1 +r) unidades de consumo amanhã, pois posso obter juros sobre a minha poupança. Por conseguinte, o benefício de consumir menos uma unidade hoje é consumir mais (1 +r)unidades de consumo amanhã, o que vale(1 +r)u0(ct+1) em termos de utilidade (ou utils). No entanto, este benefíco só ocorre amanhã enquanto o custo ocorre hoje, pelo que para poder comparar o benefício com o custo tenho que descontar o benefício uma vez.
• Propriedades da função utilidade:
u0 > 0 u00 < 0
• Exemplo: CRRA:
u(c) = c1−θ−1
1−θ (2)
em que θ é o coeficiente de aversão ao risco relativo:1,2 θ =−u00c
u0
• Utilizando a forma funcional assumida para a função consumo, podemos concretizar a Equação de Euler (usando (2) em (1)temos que):3
c−tθ = 1 +r 1 +ρc−t+1θ (ct+1
ct
)θ = 1 +r 1 +ρ θln(1 +gc) = ln(1 +r
1 +ρ)
θln(1 +gc) = ln(1 +r)−ln(1 +ρ) mas como ln(1 +x)≈x para x”pequeno”, temos:
θgc=r−ρ
o que nos dá a seguinte expressão para a taxa de crescimento do con- sumo per capita:
gc= 1
θ(r−ρ) (3)
1Note que:
u0 = c−θ u00 = −θc−θ−1
2Pela regra de L´Hôpital podemos demonstrar que:
θlim→1
c1−θ−1 1−θ = lnc
3A taxa de crescimento do consumo está relacionada com ct+1c
t da seguinte forma:
gc = ct+1−ct
ct gc = ct+1
ct −1 ct+1
ct = 1 +gc
Note que em equilíbrio a taxa de crescimento do consumo será constante.
• Assim, temos que o sinal (positivo, negativo ou zero) da evolução do consumo dependerá da comparação entre r (o modo / taxa como o mercado premeia a poupança) e ρ (o modo / taxa como o consumidor penaliza o adiar o consumo / o aumentar a poupança):
r > ρ=⇒gc>0⇐⇒ct+1 > ct
r = ρ=⇒gc= 0 ⇐⇒ct+1 =ct
r < ρ=⇒gc<0⇐⇒ct+1 < ct
• Note que para uma dada diferença entre r e ρ, gc será tanto maior em (valor absoluto) quanto menor for θ (o coeficiente de aversão ao risco relativo). Intuitivamente, quanto maior for a aversão ao risco, menos se aprecia fluctuações no consumo / mais se aprecia a ”estabilidade”.
No limite, a aversão ao risco será infinita θ −→ ∞, e o consumidor, neste caso, terá gc = 0, ou estabilidade máxima, independentemente do valor de(r−ρ).
• Resolução Formal do Problema do Consumidor (incompleto):
{maxc(t)}∞0
U0 = Z ∞
0
e−ρtu(c(t))dt sujeito a :
da
dt = ra+ (w−c)
• Para resolvermos este problema de optimização é conveniente trabal- harmos a partir da função auxiliar Hamiltoneano:
J = e−ρtu(c(t))
| {z }
função objectivo instântena
+ |{z}λ
mulitplicador
∗[ ra+ (w−c)
| {z }
restrição orçamental
] (4)
• O multiplicador / ”shadow value” dá-nos o impacto na nossa função objectivo de se aliviar a restrição marginalmente / de se ter mais uma unidade de riqueza. É o preço da state variable. As condições de primeira ordem são as seguintes:
dJ
dc = 0 ⇐⇒e−ρtu0(c)−λ= 0⇐⇒e−ρtu0(c) =λ (5) dλ
dt =−dJ
da ⇐⇒λ. =−rλ⇐⇒
.
λ
λ =−r (6)
• Podemos aplicar os logaritmos e derivar em ordem ao tempo (5):
e−ρtu0(c) = λ⇐⇒lne−ρt+ lnu0(c) = lnλ
⇐⇒ −ρ+ u00∗c. u0 =
.
λ
λ ⇐⇒ −ρ+u00∗c. u0 =−r
⇐⇒ −ρ+ u00∗c u0
c.
c =
.
λ
λ ⇐⇒ −ρ+ u00∗c
u0 gc=−r
⇐⇒ gc= ( 1
−u00∗c u0
)(r−ρ)
• O termo(−uu000∗c)dependerá da forma funcional assumida para a função instântena de utilidade. No caso de CRRA temos que −uu000∗c =θ comθ como o parâmetro/constante de aversão relativa ao risco.
• No caso do modelo de Ramsey-Cass-Koopman (ver hipóteses no Cap.
2 do Romer), temos crescimento da população e um n.o constante de famílias, que enfretam o seguinte problema:
max
{c(t)}∞0
U = Z ∞
t=0
e−ρtu(C(t))L(t)
H dt ⇔ max
{c(t)}∞0
U = Z ∞
t=0
e−
ρ0
z }| {
(ρ−n)tu(C(t))dt
C(t) é o consumo por membro da família H n.o de famílias
u(C(t)) = C(t)1−θ−1
1−θ , θ >0, ρ−n−(1−θ)g >0
• Condição de transversalidade:
slim→∞e−R(s)K(s)
H ≥0, R(s) =e−U0sr(t)dt
o que elimina a possibilidade de Ponzi-schemes (esquemas em pirâmide).
De notar que esta equação acima está relacionada com a imposição que o valor actual dos rendimentos ao longo da vida mais a riqueza inicial não é inferior ao valor actual dos consumos ao longo da vida.
• No óptimo, temos: . C(t)
C(t) = r(t)−ρ
θ (7)
• O consumo por unidade efectiva de trabalho é dado por:
c(t) = C(t)/A(t) =⇒ c(t).
c(t) =
.
C(t) C(t) −
.
A(t) A(t) c(t).
c(t) = r(t)−ρ
θ −g
c(t).
c(t) = r(t)−ρ−θg
θ (8)
• Assumimos mercados perfeitos e depreciação nula:
f0(k(t)) =r(t) (9)
• Assim, podemos escrever a equação que governa o crescimento do con- sumo por unidade efectiva de trabalho da seguinte forma (substituir (9) em (8)):
c(t).
c(t) = f0(k(t))−ρ−θg θ
• Note que:
f0(k(t)) = ρ+θg ⇐⇒
c(t).
c(t) = 0 f0(k(t)) > ρ+θg ⇐⇒
c(t).
c(t) >0 f0(k(t)) < ρ+θg ⇐⇒
c(t).
c(t) <0
Podemos definirk∗ como ok que satisfaz a seguinte condição:
f0(k∗) =ρ+θg
Por construção, temos que gc= 0 quando k =k∗. Como f00 <0 temos que:
k = k∗ =⇒gc= 0 k > k∗ =⇒gc<0 k < k∗ =⇒gc>0
• A Figure 2.1 do Romer é o diagrama de fase, que sintetiza a dinâmica de c:
• A dinâmica do k(t)é dada pela seguinte expressão:
.
k(t) =f(k(t))−c(t)
| {z }
i(t)=s(t)
−(n+d+g)k(t) (10)
• Podemos resolver (10) de modo a quantificar o c(t) que para um dado k(t) mantém k(t) constante (
.
k(t) = 0 =⇒ c(t) = f(k(t))−(n+d+ g)k(t)). O resultado está na Figure 2.2 (phase diagram dek(t)).
• A seguintefigura sumaria a informação das duasfiguras anteriores num só diagrama de fase.
• A evolução das variáveis de interessse - c(t) e k(t) - é ilustrada na seguinte figura. Há que ter em atenção que num dado momento k é pre-determinado (state variable) mas c não é, pelo que se ajusta de modo a que a economia siga o caminho óptimo.
• Note que no equilíbrio o consumo não é máximo:
Equilíbrio c(t).
c(t) = f0(k(t))−ρ−θg θ
c(t).
c(t) = 0⇒f0(kEq.) =ρ+θg Golden Rule (c máximo) f0(kGR) = n+g
Como temos:
ρ−n−(1−θ)g >0⇐⇒ρ+θg > n+g =⇒kE < kGR
Intuitivamente, atingir o kGR implica um sacrífico que não é compen- sado, pois os consumidores descontam o futuro.
• A solução descentraliza do modelo de Ramsey-Cass-Koopmans é first- best, no sentido do primeiro teorema de bem-estar: não é possível, a partir do equilíbrio descentralizado, o social-planner promover uma alteração Pareto-eficiente. Intuitivamente, não existem falhas de mer- cado.
• Podemos utilizar este tipo defiguras para analisar o impacto de alter- ações em parâmetros que descrevem a economia.
• A seguinte figura descreve o impacto de, subitamente e para o todo o sempre, os consumidores descontarem menos lentamente os períodos futuros (mais pacientes...):
• Podemos introduzir o estado na economia da seguinte forma. O es- tado arrecada receitas para fazer despesas que nem contribuem para a utilidade nem para a produção. Assumimos que todos os períodos o estado mantém o saldo orçamental equilibrado, pelo que a poupança por unidade efectiva de trabalho será agora f−c−G, o que influencia, por sua vez, a acumulação de capital (10):
.
k(t) = [f(k(t))−G(t)]
| {z }
rendimento disponível (G=T)
−c(t)−(n+d+g)k(t)
• De seguida ilustramos o impacto duma subida permanente, não ante- cipada do nível dos gastos.
• De notar que como os agentes são racionais e forward-looking, há que distinguir entre alterações antecipadas e alterações não antecipadas.
Por definição de alteração não antecipada, os agentes só reagem quando a alteração efectivamente acontece. No entanto, se a alteração for an- tecipada os agentes podem reagir à mesma quando souberem que ela ocorrerá, mesmo antes da data em que ocorra a alteração efectiva. Há que destinguir, ainda, entre alterações transitórias e permamentes.
• Caso o aumento dos gastos seja transitório, temos o seguinte efeito em c ek: