• Nenhum resultado encontrado

Rev. Gaúcha Enferm. vol.31 número3

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Rev. Gaúcha Enferm. vol.31 número3"

Copied!
2
0
0

Texto

(1)

591

Le Breton faz uma abordagem sociocultural de condutas de risco(1). O olhar do autor vai de

encon-tro aos discursos e práticas da promoção da saúde, onde é hegemônica a idéia de que risco é algo nega-tivo, um perigo que uma racionalidade, bem aplicada, deve neutr alizar. Os promotores embasam-se em cálculos epidemiológicos para ditar comportamentos. Para eles, a prevenção demanda dos sujeitos com-portamentos seguros, isentos de fatores de risco. O livro mostra, entretanto, que risco tem uma profusão de significados resultantes de construções coletivas, e que cada sujeito responde à exposição de modo peculiar.

O autor enfatiza que, tanto entre adultos como entre jovens, não existe um arquétipo de quem se arrisca. Uma diferença, apontada por Le Breton, entre condutas de risco de jovens e de adultos é a de que os jovens não possuem a visão fatal e irreversível da morte. O arriscar do jovem provém de pequenas transgressões: mentir para os pais, furtar no supermercado, subir em uma ár vore. Outros eventos como a anorexia, a bulimia, a toxicomania e andar de motocicleta costurando o trânsito podem aparecer, nos jovens, como um fascínio pela perda do equilíbrio, como se o solo desaparecesse sob os pés. Daí, o senti-mento de vertigem, queda e perda de toda contenção ocorreria em função de um sentisenti-mento de insigni-ficância aos olhos dos outros.

O livro exemplifica condutas de risco contemporâneas: atividades espor tivas radicais (r afting, esca-lada, parapente), wilder ness (enfrentar a natureza com recursos pessoais em ambientes planejados), tentação ordálica (superação incessante dos limites, como esquiadores que tentam recordes de altitude) e a capacitação outdoor em empresas (transferir, para a empresa, as qualidades esportivas: reconhecer balizas, colaborar com os outros).

O argumento destacado pelo autor partir dos exemplos acima é que arriscar-se pode ser bom e pode ter resultados positivos. Neste sentido, pontua que, nos esportes radicais, são associados o lazer e o prazer, em oposição às atividades físicas baseadas em treinamento e competição. Também seria positivo enfrentar a natureza apenas com os recursos pessoais, o que faria emergir o significado da própria exis-tência. Já a positividade do ordálio estaria no fato de que é possível, sempre, empurrar o limite para mais longe, numa superação sem fim, podendo levar ao autoconhecimento. Quanto à capacitação outdoor, o escritor demonstra ser conveniente, às empresas, utilizar o risco de forma pedagógica para qualificar os seus funcionários.

O autor conclui mencionando que aqueles que se submetem a jogos simbólicos com a morte e a jogos de viver, ao enfrentarem um perigo deliberado ou imposto e saírem ilesos do mesmo, sentem-se poderosos. A partir da conclusão de Le Breton, pode-se considerar que, muitas vezes, os interesses daqueles que atuam na prevenção de riscos podem se contrapor aos interesses dos sujeitos, o que, prova-velmente, é causa de muitas das frustrações que envolvem os investimentos promocionais.

A obra pode contribuir para a análise, a crítica e o redirecionamento das ações de promoção da saúde que desconsideram as perspectivas de risco dos sujeitos a quem são endereçadas.

RESENHA

Veronese AM, Oliveir a DLC. Condutas de risco: dos jogos de mor te ao jogo de viver [ resenha] . Rev Gaúcha Enfer m., Por to Alegre (RS) 2010 set;31(3):591-2.

CONDUTAS DE RISCO: dos jogos de morte ao jogo de viver

CONDUCTAS DE RIESGO: de los juegos mortales al juego de la vida

RISKY CONDUCT : from Death Games to Life Game

Andréa Márian VERONESEa, Dora Lúcia Corrêa de OLIVEIRAb

a Mestre em Enfer magem, Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfer magem (PPGEnf) da Universidade Feder al do Rio

Gr ande do Sul (UFRGS), Enfer meira do Ser viço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Membro do Gr upo de Estudos em Promoção da Saúde (GEPS), Porto Alegre, Rio Gr ande do Sul, Br asil.

(2)

592

REFERÊNCIA

1 Le Breton D. Condutas de risco: dos jogos de morte ao jogo de viver. Campinas: Autores Associados; 2009.

Endereço da autora / Dirección del autor / Author’s address:

Andréa Márian Veronese

Rua Comendador Castro, 140, Ipanema 91760-200, Porto Alegre, RS

E-mail: [email protected]

Recebido em: 31/ 05/ 2010 Aprovado em: 13/ 08/ 2010

Referências

Documentos relacionados

5 “A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial” (KELSEN, Teoria pura do direito, p..

Após a colheita, normalmente é necessário aguar- dar alguns dias, cerca de 10 a 15 dias dependendo da cultivar e das condições meteorológicas, para que a pele dos tubérculos continue

Excluindo as operações de Santos, os demais terminais da Ultracargo apresentaram EBITDA de R$ 15 milhões, redução de 30% e 40% em relação ao 4T14 e ao 3T15,

Os interessados em adquirir quaisquer dos animais inscritos nos páreos de claiming deverão comparecer à sala da Diretoria Geral de Turfe, localizada no 4º andar da Arquibancada

O valor da reputação dos pseudônimos é igual a 0,8 devido aos fal- sos positivos do mecanismo auxiliar, que acabam por fazer com que a reputação mesmo dos usuários que enviam

Esta pesquisa discorre de uma situação pontual recorrente de um processo produtivo, onde se verifica as técnicas padronizadas e estudo dos indicadores em uma observação sistêmica

Neste estudo foram estipulados os seguintes objec- tivos: (a) identifi car as dimensões do desenvolvimento vocacional (convicção vocacional, cooperação vocacio- nal,

de lôbo-guará (Chrysocyon brachyurus), a partir do cérebro e da glândula submaxilar em face das ino- culações em camundongos, cobaios e coelho e, também, pela presença