Vitória Rodrigues Pereira
Precarização do Trabalho de Plataforma:
um estudo de movimentos de contestação
Mestrado Profissional em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais
São Paulo 2022
Vitória Rodrigues Pereira
Precarização do Trabalho de Plataforma:
um estudo de movimentos de contestação
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade de São Paulo, como exigência parcial para obtenção de título de MESTRE PROFISSIONAL em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais da PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr.
Leonardo Nelmi Trevisan.
São Paulo 2022
CDD
Precarização do Trabalho de Plataforma: um estudo de movimentos de contestação / VitoriaRodrigues Pereira. -- São Paulo: [s.n.], 2022.
101p ; cm.
Orientador: Leonardo Nelmi Trevisan.
Trabalho Final (Mestrado Profissional) -- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais, 2022.
1. Trabalho de Plataforma. 2. Precarização do Trabalho. 3. Alternativas para resistência. I.
Trevisan, Leonardo Nelmi. II. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Mestrado Profissional em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais. III. Título.
Precarização do Trabalho de Plataforma:
um estudo de movimentos de contestação
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade de São Paulo, como exigência parcial para obtenção de título de MESTRE PROFISSIONAL em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais da PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr.
Leonardo Nelmi Trevisan.
Aprovado em: ____/____/____
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________
Prof. Dr. Leonardo Nelmi Trevisan – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
____________________________________________
Prof. Dr. Tomaz de Oliveira Paoliello – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
____________________________________________
Prof. Dr. Tiago Pereira Andrade – Escola Superior de Propaganda e Marketing
me ensinado, desde os meus primeiros passos e palavras, a importância de olhar para aqueles que ninguém vê, de escutar àqueles que ninguém ouve, dar voz àqueles que ninguém deixa falar. Crescer entre os corredores da PUC-SP e almoços de sindicato plantaram a sementinha deste trabalho muito antes de eu ler meus primeiros livros e escrever meus primeiros textos. Dedico esta dissertação a eles que vivem sob seus princípios com a esperança de que esta pesquisa possa ser um sinal de que estou seguindo seus passos e vivendo sob os meus.
Agradeço à Fundação São Paulo (FUNDASP), mantenedora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pelo auxílio concedido, em forma de bolsa integral, ao longo do período do Mestrado Profissional.
A Deus.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Leonardo Nelmi Trevisan, pela paciência, carinho e por acreditar no meu trabalho quando tudo ainda só existia no campo das ideias, mesmo antes da orientação começar.
Aos meus professores do mestrado e da graduação na PUC-SP, com destaque para o Prof. Dr. Tomaz Paoliello, Prof. Dr. Arthur Murta, Profa. Dra. Natalia Maria Felix de Souza e Profa. Dra. Claudia Alvarenga Marconi, que me inspiraram pouco a pouco a construir este trabalho e a formar a pesquisadora que estou me tornando.
A minha colega indireta e grande amiga, Flavia D’Angelo, pelo suporte emocional de pelo menos metade desta trajetória.
As minhas grandes amigas, Luiza Arantes, Ana Clara Ávila de Macedo e Nathalia Azevedo, por serem as maiores torcedoras do meu sucesso. Sua crença que eu venceria todos os obstáculos foi combustível para o resultado deste trabalho.
A todos os meus amigos, cujos nomes seria impossível citar aqui, que compreenderam com doçura o momento de foco e “me emprestaram” em prol da construção dessa pesquisa.
As minhas irmãs, Catarina, Mariana e Estela, por compartilharem os momentos de leveza e por aliviarem os momentos de dificuldade por toda a minha vida.
Ao meu companheiro, Matheus de Oliveira, pelos dias de jogo do Corinthians e dissertação que, sem dúvida, fizeram o peso do prazo e produção se tornarem muito mais leves.
Ao meu pai, Ronaldo Machado Pereira, por tornar viável a entrevista com a Camila Capacle.
A minha mãe, Francisca Maria Nunes Rodrigues, pela crença inabalável na potência deste trabalho e fazendo jus ao seu nome, mais do que nunca, colocando em prática a oração de São Francisco de Assis.
Com a globalização e o desenvolvimento tecnológico, o mundo tem experienciado grandes transformações no mundo do trabalho. A erosão dos direitos trabalhistas e a precarização das condições de trabalho são essenciais para o que chamo nesta dissertação de “plataformização do trabalho”, ou seja, o trabalho intermediado por plataformas digitais, principalmente os aplicativos de viagem e de entregas. No Capítulo 2 procuro entender quem são os trabalhadores que foram afetados por este novo modelo de trabalho e traçar seu perfil. No Capítulo 3, é quando falo sobre as resistências por meio grevista deste grupo de trabalhadores, seja por experiências nacionais, internacionais, tentativa de sabotagem dos aplicativos e até perspectivas críticas a este tipo de organização. No Capítulo 4, na tentativa de cobrir o papel do Estado nestas dinâmicas, mapeio três projetos de lei que visam regulamentar o trabalho de plataforma no Brasil, um com pouco grau de proteção ao trabalhador, outro com grau médio de proteção e, finalmente, um com alto grau de proteção ao trabalhador de plataforma. No Capítulo 5, identifico quatro propostas de aplicativos de proposta cooperativista, criados e mantidos por trabalhadores, com objetivo de criar melhores condições de trabalho e realizar maiores repasses de remuneração.
Por fim, no sexto e último capítulo, apresento o Bibi Mob, o aplicativo de viagens da cidade de Araraquara, interior do estado de São Paulo. Neste capítulo, elaboro um breve guia de boas práticas para a reprodução do modelo em outras cidades de médio porte.
Palavras-chave: Trabalho de Plataforma; Precarização; Precarização do Trabalho;
greve; cooperativismo; regulamentação; aplicativo; Uber; Bibi Mob; iFood.
With globalization and technological development, the world has experienced major transformations in the world of labour. The erosion of labour rights and the precariousness of working conditions are essential to understand the challenge in this dissertation of “labour platformization”, that is, work mediated by digital platforms, especially travel and delivery apps. In Chapter 2, I try to understand who are the workers that have been drawn by this new labour model and outline their profile. In Chapter 3, I talk about the resistance through a striker group of workers, through national and international experiences and the attempt to sabotage applications to perspectives for this type of organization. In Chapter 4, in an attempt to cover the role of the State in these dynamics, I map three bills that regulate platform work in Brazil, one with a low degree of protection for the employee, another with a medium degree of protection and, finally, one with a higher degree of protection to the platform worker. In the Chapter 5, I identify four proposals for cooperative applications, created by workers, with work objectives and carry out greater earnings shares.
Finally, in the sixth and final chapter, I present Bibi Mob, the travel app for the city of Araraquara, in the interior of the state of São Paulo. In this chapter, I prepare a brief guide of good practices for the reproduction of the model in other medium-sized cities.
Keywords: Platform Work; Precariousness; Precariousness of Work; strike;
cooperativism; regulation; application; Uber; Bibi Mob; iFood.
CGT Comando Geral dos Trabalhadores CLT Consolidação das Leis Trabalhistas CNPJ Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica
Coomappa Cooperativa dos Motoristas de Aplicativo de Araraquara CUT Central Única dos Trabalhadores
EPI Equipamento de Proteção Individual
FAT-COI Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais
IAATW International Alliance of App-Based Transport Workers IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INSS Instituto Nacional do Seguro Social
IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
MED MEI Digital
MEI Microempreendedor Individual
MPL Movimento Passe Livre
MTE Ministério do Trabalho e do Emprego OIT Organização Internacional do Trabalho ONG Organização Não-Governamental ONU Organização das Nações Unidas
PL Projeto de Lei
PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PT Partido dos Trabalhadores
SAG-DIEESE Sistema de Acompanhamento de Greves do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos TWN Transnational Workers Network
1 INTRODUÇÃO 11
2 QUEM SÃO OS TRABALHADORES DE PLATAFORMA? 15
2.1. Indicadores de precarização do trabalho 15
2.2. O perfil dos trabalhadores de plataforma 16
2.3. O regime de trabalho 19
2.4. Trabalhadores de plataforma e classe 23
3 A TRADICIONAL RESISTÊNCIA GREVISTA 25
3.1. Movimento sindical no Brasil 25
3.2 O despertar das ruas: Jornadas de Junho e a influência nas greves 26
3.3. Sindicalismo pós-reforma trabalhista 28
3.4. Experiências internacionais 30
3.5. A experiência brasileira 32
3.6. O escândalo de propaganda infiltrada daiFood 34
3.7. Perspectivas críticas 37
3.8. Outras conexões 39
4 MAPEAMENTO DE PROPOSTAS DE REGULAMENTAÇÃO DO TRABALHO DE
PLATAFORMA NO BRASIL 41
4.1. PL 3748/2020 41
4.2. PL 4172/2020 43
4.3. PL 974/2021 44
4.4. MEI Digital 45
4.5. Uber Leaks 46
5 ALTERNATIVAS COOPERATIVISTAS 48
5.1. Contrate quem luta 48
5.2. Coopertaxi 49
5.3. JáUbra 49
5.4. AppJusto 50
5.5. Experiências internacionais 51
6 PRODUTO: O CASO DO BIBI MOB E O APOIO DO ESTADO A INICIATIVAS
COOPERATIVISTAS 54
6.1 Notas sobre governança e multissetorialismo 54
6.2. As cidades como lócus do internacional e internacionalização de políticas 58
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS 72
REFERÊNCIAS 75
APÊNCIDE A – Transcrição da entrevista com ex-motorista do Bibi Mob 82 APÊNCIDE B – Transcrição da entrevista com Camila Capacle, coordenadora do Núcleo
Economia Solidária de Araraquara 84
APÊNCIDE C – Transcrição da entrevista com Katia Cristina Anello, presidente da Cooperativa dos Trabalhadores de Aplicativo de Araraquara 93
1 INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, o mundo tem experienciado um fenômeno novo que causa profundas transformações políticas, sociais e econômicas nos estados: a globalização. A globalização é um processo que está estritamente ligado ao desenvolvimento tecnológico e trouxe inovações para a integração entre os países, com a permeabilidade de fronteiras, facilitando o trânsito de pessoas, bens de consumo e serviços, além da globalização financeira que permite a instantaneidade de transações e fluxos de capital.
Uma das áreas mais afetadas pelo processo globalizatório é, sem dúvida, o mundo do trabalho. Com o crescimento das corporações transnacionais e expansão do capital financeiro, as empresas pressionam os governos por enfraquecimento de legislações trabalhistas para redução do custo da mão-de-obra. Essa situação precariza as relações e condições de trabalho, desprotegendo o trabalhador, criando um exército de reserva formado por desempregados, terceirizados e trabalhadores informais, que pode ser formado tanto por pessoas de mão-de-obra qualificada como não qualificada.
No Brasil esta realidade não foi diferente. Em relação a organismos internacionais, as discussões e ações sobre Trabalho Decente estão paralisadas há uma década. Esta inércia está altamente conectada com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016, o que abriu espaço para a aprovação da Reforma Trabalhista em 2017, a Reforma da Previdência e a extinção do Ministério do Trabalho em 2019, já com o governo Bolsonaro.
Desta forma, abre-se ainda mais precedentes para a situação de altíssima precariedade em que se encontram os trabalhadores de plataformas digitais, como entregadores e motoristas de aplicativo, principalmente com o agravante da pandemia de COVID-19 em março de 2020. Por estas razões, neste trabalho me proponho a sistematizar, principalmente, as mais diversas formas de resistência à precarização do trabalho de plataforma, analisar suas alternativas.
No Capítulo 2 desta dissertação, me debruço para conhecer e traçar um perfil de quem são os trabalhadores de plataforma. A princípio, comento sobre os indicadores de precarização do trabalho identificados por Graça Druck. No mesmo capítulo, sinalizo qual o perfil socioeconômico dos motoristas e entregadores de aplicativos. Em seguida, procuro analisar o regime de trabalho exigido pelas
empresas e o praticado pelos trabalhadores. Por fim, usando Guy Standing como principal autor para esta etapa, a associação destes trabalhadores precarizados com a estrutura de classe vigente.
No Capítulo 3, procuro destrinchar as resistências por meio de via grevista. A princípio trago um breve histórico do movimento sindical no Brasil, desde as primeiras organizações de trabalhadores iniciadas com os imigrantes europeus, passando pela Era Vargas e seus paradoxos até o reacendimento do sindicalismo após o Golpe de 1964 com as greves no final dos anos 1970. Na sequência, contextualizo o momento atual com as Jornadas de Junho em 2013 como um momento em que as pessoas se reapropriaram do espaço das ruas para ter suas demandas visíveis. Em seguida, comento sobre o estado atual do sindicalismo após a Reforma Trabalhista aprovada em 2017, suas insurgências e desafios.
Ainda no Capítulo 3, começo a afunilar a discussão a respeito do trabalho de plataforma em si, trazendo exemplos de greves realizadas por motoristas de aplicativos no mundo, especialmente na Índia onde ocorreram a maioria dos casos.
Então, discuto as experiências nacionais de greves de trabalhadores de aplicativos, que, diferente das experiências internacionais em que os grevistas são motoristas de Uber, no Brasil, os trabalhadores grevistas são os entregadores de aplicativos, como iFood e Rappi. Nesta seção, falo do Breque dos Apps, que aconteceu em julho de 2020, e do Apagão dos Apps, já no início de 2022. Já sobre o Apagão dos Apps, utilizo o espaço desta dissertação para expor também o escândalo da propaganda infiltrada da iFood denunciada pela Agência Pública em que a empresa contratou agências de marketing para criar páginas falsas como se fossem entregadores e se infiltrar entre eles para deslegitimar pautas e criar novas demandas como cortina de fumaça. Na sequência, mostro perspectivas críticas a mobilizações em meios digitais, com base no livro No Enxame, de Byung-Chul Han (2018). Por fim, neste capítulo, apresento brevemente outras reflexões sobre greve e intersecções de raça e classe.
No Capítulo 4, discuto três propostas que estão em curso no Congresso Brasileiro, que propõem a regulamentação do trabalho de plataforma. A primeira delas sendo a com menor grau de proteção ao trabalhador, a segunda com um grau intermediário de proteção e a última, a mais protetiva de todas. Comento também brevemente sobre a já derrotada proposta de criação do MED, a MEI Digital para os trabalhadores de plataformas digitais. Por fim, finalizo este capítulo com a recente
polêmica do Uber Leaks, em que executivos daUberestavam praticando lobbypara adaptação de legislação em países em favor da empresa.
Justamente por serem propostas de caráter diverso quanto ao grau de proteção ao motorista ou entregador, também são propostas controversas entre os próprios trabalhadores, pois eles também têm opiniões diferentes quanto ao que esperam, seja entrar no jogo da regulamentação ou continuar com a vantagem da flexibilidade. O fato é que os aplicativos são solução, mas também são problema, e não são completamente funcionais em todas as realidades urbanas. Por esta razão, no Capítulo 5, analiso quatro aplicativos que se baseiam no cooperativismo: o Contrate Quem Luta, aplicativo criado pelo Movimento dos Sem Terra; o Coopertaxi, aplicativo em funcionamento na região de São Carlos, no interior do estado de São Paulo; o JaUbra, aplicativo criado para operar no bairro da Brasilândia, na zona norte da cidade de São Paulo; e o AppJusto, aplicativo em atividade em toda a cidade de São Paulo.
Ainda no Capítulo 5, exibo quatro experiências internacionais de propostas cooperativistas: o Arcade City, na cidade de Austin, no Texas, nos Estados Unidos; o The Drivers Cooperative, em atividade atualmente na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos; oDelivery Co-op, que funciona na cidade de Lexington, no estado de Kentucky, nos Estados Unidos; e por fim o Wings, que operava em Londres, na Inglaterra. Essas ideias são prova de que trabalhadores de plataforma em vários lugares do mundo estavam insatisfeitos com as precárias condições de trabalho oferecidas pelos grandes aplicativos e, além de fazerem greves, também procuravam formas criativas de se organizarem e conceberem alternativas para eles.
Estes aplicativos são resultado da insatisfação dos trabalhadores de grandes aplicativos como a Uber e a 99Taxi, que criaram suas próprias alternativas em que há maiores repasses para motoristas e entregadores. Sem a preocupação com o lucro que o aplicativo geraria, visto que o que não é remuneração direta para o trabalhador, é manutenção do aplicativo.
Por fim, no sexto e último capítulo, apresento o Bibi Mob, um aplicativo contratado pela cooperativa de motoristas e contava com o apoio da prefeitura, porém acabou não sendo bem-sucedido. Neste capítulo também retomo debates sobre governança e governança multistakeholder ou multissetorialismo, uma vez que há diversos atores em jogo (o estado, o aplicativo e a cooperativa de
trabalhadores) em “embates” e cooperação. Além disso, a discussão sobre esses aplicativos também é uma questão de mobilidade e política urbana, pois é nas cidades onde acontecem os deslocamentos e precariedades. É relevante observar onde estão as disputas de poder.
Por último, após conversar com um ex-motoristas do Bibi Mob, entrevista com a coordenadora do Núcleo de Economia Solidária de Araraquara e a presidente da Cooperativa dos Motoristas de Aplicativo de Araraquara (Coomappa), proponho um guia de boas práticas para a reprodução do modelo de cooperação entre a Cooperativa e a prefeitura, para outras cidades de médio porte no Brasil, como é o caso de Araraquara.
2 QUEM SÃO OS TRABALHADORES DE PLATAFORMA?
2.1. Indicadores de precarização do trabalho
A precarização do trabalho é dinâmica essencial no desenvolvimento do capitalismo flexível, pois muda as condições do trabalho assalariado estável. Como coloca Druck (2011), a perda ou insegurança quanto ao emprego exibindo uma condição fragilizada e vulnerável do trabalhador, sendo assim uma das táticas de dominação alimentada pelo medo. O capital impõe as condições precárias de trabalho ameaçando com o desemprego, “afinal, ter qualquer emprego é melhor do que não ter nenhum” (DRUCK, 2011).
Sendo assim, Druck (2011), pensando a partir dos Indicadores do Trabalho Decente, identifica seis Indicadores da Precarização do Trabalho. O primeiro indicador da precarização do trabalho é a vulnerabilidade das formas de inserção e desigualdades sociais. O Brasil terminou o ano de 2020 com 13,4 milhões de pessoas desempregadas, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Tendo em vista que a população economicamente ativa do Brasil é de 106,2 milhões de pessoas e 94,2 milhões de pessoas estão ocupadas, a taxa de desemprego ficou em torno de 13,9%. Da população ocupada no Brasil, 38,7% das pessoas estão na informalidade, o que corresponde a 33,3 milhões de trabalhadores (IBGE, 2020).
O segundo indicador de precarização consiste na intensificação do trabalho e terceirização. As empresas procuram maximizar os lucros e assim transferir para os trabalhadores a pressão para “aproveitar” o tempo, melhorar a produtividade e diminuir os custos do trabalho e pela “volatilidade” nas formas de inserção e de contratos. E a terceirização corresponde, como nenhuma outra modalidade de gestão, a essas exigências” (DRUCK, 2011). O terceiro tipo de precarização social indicada por Druck (2011) é a insegurança e saúde no trabalho. Um importante indicador dessa precarização é o número de acidentes de trabalho no país, apesar de serem estatísticas subnotificadas, como diz Druck (2011). A COVID-19 exibiu essas fragilidades, pois, segundo especialistas, o espaço onde as pessoas contraíram a doença na primeira onda foi, justamente, o local de trabalho.
O quarto tipo de precarização social que Druck (2011) identifica consiste na perda das identidades individual e coletiva. É importante mencionar que essa perda
de identidades individual e coletiva “condena cada trabalhador a ser o único responsável por sua empregabilidade, deixando-o subjugado à “ditadura do sucesso” em condições extremamente adversas criadas pelo capitalismo flexível (APPAY, 2005 apud DRUCK, 201). O quinto tipo de precarização do trabalho é a fragilização da organização dos trabalhadores. Segundo a PNAD de 2020, das 86,1 milhões de pessoas ocupadas no Brasil, apenas 30,6 milhões são empregados no setor privado com carteira de trabalho assinada e 11,6 milhões são empregado no setor público, enquanto 9,7 milhões de trabalhadores são empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada e 22,7 milhões de pessoas são trabalhadores autônomos. Além disso, existe uma alta taxa de terceirização e uma baixa taxa de sindicalização, devido à baixa quantidade de pessoas com carteira assinada no Brasil. Contudo, a luta sindical tem se tornado cada vez mais difícil, principalmente desde novembro de 2018 quando entrou em vigor o fim da obrigatoriedade da contribuição sindical. Desde então, os sindicatos, federações e confederações têm sofrido bastante.
Finalmente, o sexto e último tipo de precarização social do trabalho indicado no texto de 2011 é a condenação e o descarte do Direito do Trabalho. Apesar de o texto de Druck ser de 2011, já apresenta alguns exemplos de tentativas de ataque ao Trabalho Decente e direitos trabalhistas. De qualquer forma, mais recentemente no Brasil, esses ataques foram melhor sucedidos, devido à aprovação da Reforma Trabalhista no governo de Michel Temer em 2017, flexibilizando a legislação trabalhista, onerando o Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE) de agir e, com o pretexto de dar mais poder na negociação entre empregador e trabalhador, enfraqueceu direitos. Além disso, no primeiro dia de governo da gestão Bolsonaro em 2019 foi extinto o MTE, para se tornar uma secretaria especial do Ministério da Economia, tirando assim o protagonismo e independência com que o MTE agia para estar tutelado à uma pasta da economia. Isso demonstra que o Trabalho Decente deixou de ser visto como direito humano ou sequer uma pauta, mas o trabalho visto como um assunto puramente como uma pauta econômica.
2.2. O perfil dos trabalhadores de plataforma
Para compreender completamente o trabalho precário de plataforma e então suas resistências, alianças e alternativas, é preciso primeiro traçar um perfil de quem são esses trabalhadores das plataformas digitais.
Em pesquisa realizada em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) divulgou, em dezembro de 2021, os resultados do estudo feito em Brasília e no Recife durante 18 meses com o perfil dos entregadores de aplicativos, como iFood e Rappi. A pesquisa aferiu que 92% dos trabalhadores em plataformas de aplicativos de entrega nas duas capitais pesquisadas são homens. A maioria deles tem até 30 anos e cerca de 68% é preto ou pardo, segundo classificação do IBGE. A renda média destes entregadores é de R$ 1.172,63 e as jornadas extensas, podendo chegar a 18 horas diárias de trabalho nas ruas (CUT; OIT; 2021, OLIVEIRA, 2021).
É importante ressaltar que a categoria cresceu muito em quantidade de trabalhadores desde março de 2020 – quando eclodiu a pandemia de COVID-19 no Brasil. Isso é reflexo do aprofundamento do desemprego que já vinha assolando o país desde o início da crise político-econômica e crescimento da demanda por entregas a domicílio, devido ao isolamento social. O estudo ratifica que nenhum princípio de Trabalho Decente1se aplica a essa categoria.
Segundo a Central Sindical, o estudo revelou casos de entregadores que têm jornada todos os dias da semana, 13 horas por dia, para obter renda líquida/hora de R$ 0,59 – a média é de R$ 5,03 (CUT; OIT, 2021; OLIVEIRA, 2021).
A CUT garante que a situação precarizada destes trabalhadores é de grande preocupação para a Central, visto que já foi tema de congressos mesmo antes da pandemia. É um passo importante porque, mesmo que estes trabalhadores não
1Em 1999, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) formalizou o conceito de Trabalho Decente, determinando que este termo se refere a “um trabalho produtivo e adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, sem quaisquer formas de discriminação, e capaz de garantir uma vida digna a todas as pessoas que vivem de seu trabalho”. Este conceito de Trabalho Decente é o elo entre os quatro objetivos estratégicos da OIT, 1) o respeito aos direitos no trabalho, especialmente aqueles definidos como fundamentais (liberdade sindical, direito de negociação coletiva, eliminação de todas as formas de discriminação em matéria de emprego e ocupação e erradicação de todas as formas de trabalho forçado e trabalho infantil); 2) a promoção do emprego produtivo e de qualidade; 3) a ampliação da proteção social; 4) e o fortalecimento do diálogo social (OIT, 2020).
sejam sindicalizados – situação que se mostra como um agravante para o trabalhador precário – a maior Central Sindical do Brasil se revela preocupada com este grupo e atenta às mudanças no perfil social do trabalhador e nas transformações do mundo do trabalho.
Por outro lado, os motoristas de aplicativo, como Uber e 99Taxi, se enquadram em um outro perfil de trabalhadores por aplicativo. Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou, em outubro de 2021, um estudo chamado “Agig economy no Brasil: uma abordagem inicial para o setor de transporte”. O levantamento revelou que, no momento, há cerca de 1,1 milhão de motoristas de aplicativo no Brasil, mais precisamente 1.114.833 de motoristas trabalhando em plataformas durante o 2º Trimestre de 2021. isso significa que, a cada aproximadamente 200 brasileiros, um é motorista de aplicativo (GÓES; FIRMINO; MARTINS, 2021).
Além da PNAD Contínua – aquela que acontece trimestralmente –, o estudo levou em consideração a PNAD Covid-19, uma pesquisa também realizada pelo IBGE, em caráter excepcional e de urgência, para maior assertividade na elaboração de políticas públicas e ações ligadas a pandemia de coronavírus no país.
Os dados coletados mostram que, no primeiro trimestre de 2016, o número de pessoas ocupadas no transporte de passageiros na Gig Economy era de cerca de 840 mil. No primeiro trimestre de 2018, esse quantitativo atingiu 1 milhão de trabalhadores e chegou ao ápice no terceiro trimestre de 2019, com 1,3 milhão de pessoas. Por conta da pandemia de Covid-19, houve redução ao longo de 2020, mas o número logo se estabilizou nos dois primeiros trimestres de 2021 em 1,1 milhão de pessoas ocupadas em transporte de passageiros no regime de conta própria, valor 37% superior ao do início da série, em 2016. (IPEA, 2021).
Um dado interessante é que, segundo a PNAD divulgada em abril de 2019, os aplicativos de entrega e de transporte já se tornaram o maior “empregador” do Brasil. Segundo a Agência do Estado, se essas empresas fossem uma única corporação, estes aplicativos teriam 35 vezes mais funcionários que os Correios, a maior estatal do Brasil (EXAME, 2019).
O perfil destes motoristas é formado por 83,4% de homens, e 51,8% se autodeclaram como brancos. A maioria têm idades entre 25 e 40 anos. Cerca de 65% são casados ou vivem em união estável, 67,1% têm filhos e 63,5% se dizem o maior provedor da casa. A maior parte deles, 32%, tem curso superior incompleto,
ou seja, não concluíram a graduação. Um dado importantíssimo também a se mencionar é a motivação para realização do cadastramento para se tornarem motoristas de aplicativos. Mais de 71% dos motoristas de plataformas comoUber e 99Taxi tiveram como motivos para trabalharem para as empresas o desemprego – desocupação, desespero, oportunidade, falta de opção, idade e função obsoleta – e a renda – renda principal ou extra, comida, falta de dinheiro e baixo salário (BESSA, 2021).
2.3. O regime de trabalho
O cadastro para ser entregador ou motorista de aplicativo não configura como vínculo empregatício, mas uma espécie de colaboração mútua em que a empresa oferece a conexão entre o passageiro/consumidor e o motorista/entregador (ANTUNES, 2020). Assim, essa pessoa que presta serviço não tem direito a férias pagas, 13o salário, seguro-desemprego, recebimento de hora extra ou qualquer garantia caso sofra algum acidente enquanto trabalha. Além disso, a empresa também não disponibiliza os materiais necessários para a prestação do serviço, ou seja, o trabalhador deve possuir um carro, para o caso da Uber e 99Taxi, ou uma bicicleta ou moto, para o caso do iFood e Rappi. Sendo assim, integral responsabilidade e prejuízo do motorista ou entregador caso haja dano ao carro, moto, ou bicicleta durante o horário de trabalho.
Esses atributos caracterizam o que Tom Slee (2015) chama de Uberização do Trabalho. Várias facetas da precarização escondidas sob a farsa do
“microempreendedorismo” e da independência do trabalhador, podendo desfrutar de um modelo de trabalho mais leve e flexível nascido da Economia do Compartilhamento (SLEE, 2015) e moldando a Gig Economy, ou “Economia dos Bicos”2, a economia impactada pelas novas tecnologias que engloba as formas de
2Segundo Graham e Woodcock (2020, tradução livre), o termoGig Economyse refere “aos mercados de trabalho que se caracterizam pela contratação independente que acontece através, via e em plataformas digitais. O tipo de trabalho que se oferece é contingente:
trabalho ocasional e não permanente. Este pode ter jornadas variáveis e pouca segurança no emprego, envolve pagamento em por peça, e não têm opções de desenvolvimento de carreira. Essa relação é às vezes chamada de “contratação independente”, 'freelancing' ou 'trabalho temporário'. Enquanto o termo tem sido tradicionalmente usado para se referir a uma gama mais ampla de atividades que acontecem de formas mediadas digitalmente e não mediadas (como mensageiros de bicicleta e motoristas de táxi)”. No livroThe Gig Economy, os autores escolhem focar nas plataformas digitais pela grande escala que elas tomam.
emprego alternativo, que vão desde a prestação de serviços por aplicativo ou o trabalho de freelancers.
Como um novo braço da precarização, surgiram novas alternativas de transporte e entrega, aliadas às novas tecnologias de aplicativos para smartphones e tablets, como os aplicativos Uber, 99 Taxi, iFood, Rappi e outros. Essas plataformas se colocam como alternativa para pessoas que, à margem do mercado de trabalho formal, buscam uma maneira de sobreviver. Além disso, essas empresas, assim como as startups, vendem a flexibilidade de dia e horário de trabalho como uma vantagem. Porém, o trabalhador que não trabalha naquele dia, não recebe. Os entregadores doiFood ou Rappi e os motoristas da Uber ou99Taxi recebem um baixo valor por entrega realizada e por viagem concluída. Há a variação do tempo, distância, condições climáticas e oferta de outros motoristas na região.
Trata-se de uma operação em regime de zero-hour contract3 em que o trabalhador não é remunerado pelo período de horas, mas por tarefa executada (TONELO, 2020). Por exemplo, ele pode ficar esperando por uma viagem ou entrega, circulando pela cidade por uma hora e realizar uma tarefa de 15 minutos e só será pago pelos 15 minutos que realizou a tarefa e não pelo tempo despendido a disposição e a espera do desígnio de tarefa pelo aplicativo, pois não há hora de trabalho pré-definida ou seu valor (COSTHEK ABÍLIO, 2020).
Diferentemente de Slee, Grohmann (2020), em vez de usar o termo
“Uberização”, pois o modelo não acontece apenas no aplicativo Uber, mas é replicado em vários outros, decide chamar de “Plataformização do Trabalho”, pois o trabalho é intermediado por plataformas digitais diversas.
Ao nosso ver, a expressão “plataformização do trabalho” descreveria melhor o atual cenário do trabalho digital do que “uberização, que tem cirulado em diversas esferas como metáfora, mas que não recobre a multiplicidade de atividades de trabalho mediada por plataformas além da própria Uber, pois há uma variedade de lógicas de extração de valor e características de trabalho.
Essa plataformização do trabalho, então envolve a dependência que trabalhadores e consumidores passam a ter das plataformas digitais - com suas lógicas algorítmicas, dataficadas e financeirizadas - somada a mudanças que intensificam a flexibilização de relações e contratos de trabalho, bem como ao imperativo de uma racionalidade
3Ozero hour contract (contrato zero hora) na Inglaterra, ou como no Brasil foi chamado de trabalho intermitente, é aquele em que, tanto lá quanto aqui, “trabalhadores e trabalhadoras, especialmente no setor de serviços, ficam em disponibilidade integral para o capital, sem nenhuma contrapartida que garanta algum trabalho duradouro” (ANTUNES, 2020).
empreendedora como vias de justificação dos modos de ser e aparecer do capital. (GROHMANN, 2020).
Neste contexto, é preciso pensar em uma nova geografia do trabalho discutida por Mark Graham e Mohammad Amir Anwar, em “O Trabalho Digital”, capítulo integrante do livro “Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0”, escrito em 2019, porém publicado em 2020, organizado por Ricardo Antunes. Com as novas tecnologias que possibilitaram a Plataformização do Trabalho, e intensificada pela pandemia de Covid-19, criou-se uma dicotomia entre a deslocalização no sentido ambíguo, daqueles que precisam estar em todos os lugares para garantir o seu sustento e aqueles que não precisam estar em nenhum lugar específico para continuar trabalhando. Esta relação é esclarecida por Graham e Anwar (2020) como um espaço digitalmente aumentado, aquele que intensifica as relações presenciais, e o espaço digitalmente distinto, aquele que é “fixo em um local digital distinto e, ao mesmo tempo, acessível de qualquer lugar” (GRAHAM; ANWAR, 2020). Em ambos os casos, os trabalhadores controlam seus meios de produção (celulares, computadores, dispositivos em geral), porém não controlam os meios de distribuição, assim reformulando as formas de organização. Segundo Guy Standing (2011):
O local de trabalho está em todo lugar, difuso, desconhecido, uma zona de insegurança. E se o precariado de fato tem competências profissionais, esses locais podem desaparecer ou deixar de ser um ingresso confiável para uma identidade segura ou uma vida de dignidade sustentável a longo prazo. Trata-se de uma combinação nociva que propicia o oportunismo e o cinismo. Ela cria uma sociedade que está sempre contando com a sorte, com riscos de perda com os quais o precariado arca de forma desproporcional.
(STANDING, 2011).
Outro aspecto importante da precarização do trabalho, é a busca do capital pelo assalariamento sob a aparência de mais autonomia buscando a transferência de riscos e custos do empregador para o trabalhador (SCHINESTSCK, 2020). Esse discurso tem sido usado para “legitimar, incentivar, cristalizar e acentuar a falta de limites à exploração do trabalho e à precarização de suas condições” criando assim um novo “proletariado de serviços” vítima da “escravidão digital” (FILGUEIRAS;
ANTUNES, 2020) e, em vez de cumprir a promessa de libertação das formalidades do trabalho, as tecnologias se tornam mais uma ferramenta de controle.
Essas plataformas e aplicativos operam em uma lógica patronal, pois determinam quem pode trabalhar por meio de processo de admissão; delimitam o
serviço que será realizado; escolhem qual trabalhador realizará cada serviço e não permitem a captação de clientes; definem como as atividades serão realizadas (trajeto, modelo do veículo e até comportamento do trabalhador); determinam prazo para a execução do serviço; estabelecem de maneira unilateral o valor a ser recebido pelo trabalhador; estabelecem a forma de comunicação do trabalhador com suas gerências; pressionam assiduidade por parte dos trabalhadores para não recusarem nenhum serviço e a ficarem disponíveis por mais tempo; e se utilizam do medo do bloqueio para ameaçar trabalhadores e se reservam o direito de dispensar trabalhadores sem justificativa, aviso prévio (FILGUEIRAS; ANTUNES, 2020).
Slee (2015) afirma que a Uber tirou vantagem da situação vulnerável dos motoristas, impondo regras mais rigorosas. Eles devem ter uma taxa de aceitação de corridas de pelo menos 90%, senão recebem uma notificação da empresa. Ou são descredenciados por fazerem críticas públicas à empresa. Ou são obrigados a operar em outras categorias que não desejam (motoristas do modelo UberBlack tendo que aceitar corridas no modoUberX), estando sujeitos ao rastreio da empresa caso não cumpram com as exigências(SLEE, 2015).
Outro exemplo com a Uber, é a política de avaliações em que os passageiros avaliam sua viagem com o motorista credenciado. Segundo a pesquisa de Slee (2015) em Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, em muitas cidades, caso a nota caia para abaixo de 4.7 estrelas, o condutor pode ser desativado da plataforma (SLEE, 2015). O sistema de reputações é uma justificativa de autorregulação destes aplicativos, porém não deveriam substituir a regulamentação do serviço. Desta forma, o sistema de avaliações segue uma lógica de vigilância panóptica foucaultiana, em que o motorista está sendo observado e caso não atenda às expectativas, basta poucas insatisfações para que seja disciplinarmente punido de forma inescrutável.
Como bem colocou Slee (2015), essas empresas foram feitas para quebrar as regras vigentes.
Se a Economia do Compartilhamento é um movimento, é um movimento pela desregulação. Grandes instituições financeiras e fundos influentes de capital de risco estão vislumbrando, com ela, uma oportunidade para desafiar as regras formuladas pelos governos municipais democráticos ao redor do mundo - e para remodelar as cidades de acordo com seus interesses. Não se trata de construir uma alternativa à economia de mercado dirigida por corporações.
Trata-se de expandir o livre mercado para novas áreas de nossas vidas. (SLEE, 2015).
Slee (2015) também afirma que o sucesso da Uber não se dá devido ao avanço tecnológico, mas sim a evitar custos com seguro e impostos e funcionar no prejuízo, mas principalmente pelo “parasitismo nas cidades onde opera”.
2.4. Trabalhadores de plataforma e classe
Em seu livro de 2011, Guy Standing verifica sete grupos sociais: a elite, assalariados, proficians (como trabalhadores autônomos de serviços), trabalhadores manuais ou industriais, o precariado, o exército de desempregados e um grupo de pessoas hostis socialmente desajustadas (como presidiários, pessoas em situação de rua, hospitalizados, entre outros). Neste livro, o autor escolhe discorrer sobre o grupo que identifica como precariado.
Examinando algumas reflexões de Standing (2011) sobre o Precariado, é possível observar certas características que são identificáveis aos trabalhadores de plataforma. A primeira delas é que, com a globalização, governos e corporações foram reformando o mercado de trabalho para tornar as relações de trabalho mais flexíveis. Desta forma descaracterizando o trabalho formal com horas fixas, salário pré-estabelecidos e acordos coletivos e de sindicalização (STANDING, 2011).
Outro ponto de identificação com os trabalhadores de plataforma fácil de se constatar é que muitos integrantes do precariado não conhecem seu empregador ou teriam ideia de quantos e quem seriam seus companheiros de trabalho empregados na mesma função. Além de não serem considerados classe média, já que não possuíam salário estável e com certo status.
Standing (2011) diz que o precariado ainda não é uma classe em si, mas uma classe em formação, logo possui certas características de classe, mas sem poder de barganha com o empregador, dada a insegurança e instabilidade do vínculo empregatício. Além disso, outro atributo do precariado é a renda precária, associada à renda social. Standing (2011) afirma que:
[...] não é o nível de salários em dinheiro ou de rendas auferidas em qualquer momento específico, mas a falta de apoio da comunidade em momentos de necessidade, a falta de benefícios assegurados da empresa ou do Estado e a falta de benefícios privados para complementar ganhos em dinheiro. (STANDING, 2011).
O autor também diz que o precariado, quando está empregado ou exercendo alguma atividade remunerada, não sentem que fazem parte de alguma comunidade ocupacional, com memória social e práticas estáveis, e que além de não possuírem vínculo empregatício estabelecido e com pouca proteção trabalhista, é uma posição sem ascensão de carreira. Segundo Standing (2011):
Ser precarizado é ser sujeito a pressões e experiências que levam a uma existência precariada, de viver no presente, sem uma identidade segura ou um senso de desenvolvimento alcançado por meio do trabalho e do estilo de vida. (STANDING, 2011).
Este diagnóstico promovido por Standing (2011) nos mostra como a mobilidade social ascendente está ainda mais comprometida com a retirada de direitos trabalhistas por parte do Estado e o crescimento do precariado por causa desta situação.
A juventude é um recorte crucial ao falar do precariado e, consequentemente, dos trabalhadores de plataforma, por serem a maioria de seus integrantes que, em todo o mundo, sofrem para se integrar ao mercado de trabalho, principalmente desde a crise financeira que teve início em 2008 (STANDING, 2011). A juventude está presa na “armadilha da precariedade”, pois precisam muitas vezes assumir um emprego temporário ou com um contrato sem forte vínculo empregatício para se inserir no mercado, mas ao mesmo tempo isso pode enfraquecer suas perspectivas de uma alternativa de construção de carreira. Desta forma, para sobreviver, assumem ocupações precarizadas. Além disso, grande parte da juventude observa a geração anterior, e não almeja um contrato celetista com obrigações engessadas e horas pré-estabelecidas. Disso se aproveitam os aplicativos que vendem um falso empreendedorismo com a propaganda de flexibilidade, mas que de fato são, a face da precarização.
3 A TRADICIONAL RESISTÊNCIA GREVISTA 3.1. Movimento sindical no Brasil
A história do movimento sindical no Brasil está profundamente ligada ao fim da monarquia, abolição da escravidão e chegada de imigrantes europeus no país.
Ao chegarem no Brasil, os imigrantes se depararam com uma sociedade com poucos direitos aos trabalhadores e pouca organização formal para obtê-los, assim começaram a criar entidades, como as Uniões Operárias.
A partir de 1930, o presidente Getúlio Vargas submete os sindicatos ao controle do Estado. Algumas das medidas eram o veto da sindicalização dos funcionários públicos; o controle financeiro do Ministério do Trabalho sobre os recursos dos sindicatos, inclusive proibindo a utilização destes recursos em períodos de greve; proibição de filiação de trabalhadores a organizações sindicais internacionais; participação restrita dos operários estrangeiros nos sindicatos.
Getúlio Vargas assinou a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que concedia direitos aos trabalhadores. Durante a Era Vargas, ocorreram diversas greves dos trabalhadores e intensificação do movimento sindical e mesmo após o fim do Estado Novo, as medidas restritivas se mantiveram.
No início da década de 1960, o movimento sindical continuou ganhando força, principalmente com a realização do III Congresso Sindical Nacional, quando foi criado o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Contudo, com o golpe militar de 1964, quando muitos movimentos sociais foram perseguidos, com o movimento sindical não foi diferente. Assim, o sindicalismo voltou a ganhar força no final da década de 1970.
O governo militar vinha mascarando os índices de inflação, manobra que gerou perdas salariais enormes. Quando o Banco Mundial denunciou essa artimanha, os trabalhadores se revoltaram para que fosse reposto os 31%
acumulados. Este cenário levou a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT) que organizaram diversas greves gerais no país nos anos 1980, sendo relevantes para as dinâmicas sócio-político-econômicas no Brasil, inclusive durante as Diretas Já.
3.2 O despertar das ruas: Jornadas de Junho e a influência nas greves
Alguns autores da tese da “sociedade pós-industrial” acreditam que o trabalho deixou de ser uma questão central em grandes mobilizações. Porém, a partir dos anos 1990, segundo Ribeiro (2019), alguns autores começam a defender que o sindicalismo estava em recuperação, porém sob a forma de indignação com outras pautas contra a globalização, como a:
“[...] reação operária, a greve geral na França, em 1995, contra as políticas de austeridade fiscal, as mobilizações em 1999 em Seattle contra as medidas implementada pela Organização Mundial do Comércio e a postura mais ativa da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (FAT-COI) nos Estados Unidos” (RIBEIRO, 2019).
Ainda no texto de Ribeiro (2019), a autora diz que a novidade da organização sindical é a aglutinação de novas pautas, como de gênero, raça etc., o que causa a incorporação de outros movimentos sociais à pauta do movimento sindical. Um exemplo dessa junção do movimento sindical a outros movimentos sociais são as Jornadas de Junho.
Após o anúncio do aumento das tarifas de transporte público em São Paulo, entre os dias 6 e 13 de junho de 2013, o Movimento Passe Livre (MPL) quatro manifestações em repúdio ao reajuste, pedindo que fosse revogado e o retorno do antigo valor (BRAGA, 2017). No entanto, no dia 13 de junho, houve represálias por parte da Polícia Militar contra os manifestantes, o que acabou gerando ainda mais revolta e reunindo mais pessoas nos atos subsequentes. No dia 17 de junho, o tom das manifestações era outro. As 75 mil pessoas que marchavam nas principais avenidas da cidade de São Paulo não pediam apenas a redução da tarifa do transporte público de R$3,20 para R$3, elas caminhavam clamando que “não é sobre vinte centavos”. Os manifestantes se organizavam por pautas difusas reivindicando uma cidade com serviços que funcionassem melhor e, conforme os protestos se espalharam pelo país, um Brasil para todos, com serviços como saúde e educação de qualidade e livre de corrupção. No dia seguinte, houve outra grande manifestação em São Paulo e assim, no dia 19 de junho de 2013 o aumento foi revogado na cidade. Porém, a chama já havia se espalhado por todo o Brasil (BRAGA, 2017).
Assim, no dia 21 de junho, a ex-presidenta Dilma Rousseff realizou um pronunciamento em rede nacional garantindo estar alerta a voz das ruas e no dia 24 de junho ela se reuniu com o MPL, prefeitos e governadores para negociar a melhora nos serviços públicos do Brasil.
Nas Jornadas de Junho houve uma certa mudança no perfil dos manifestantes, ou melhor, uma adição. Em junho de 2013, se juntaram aos manifestantes “tradicionais” – aqueles que já participavam das espaçadas greves no Brasil na década anterior – e os trabalhadores usuários diários do transporte público aos jovens periféricos, em uma dinâmica espiralar, do centro para a periferia.
Segundo Ruy Braga (2017):
As Jornadas de Junho revelaram a presença de um protagonista social, o jovem precariado urbano, aproximando-se da tradição de mobilizações das classes subalternas no país que, desde a consolidação do fordismo periférico, se manifestam por meio da gramática dos direitos sociais e trabalhistas. Trata-se de uma tradição que tende a aproximar o jovem precariado urbano dos setores mais organizados da classe trabalhadora brasileira, em especial dos sindicatos. (BRAGA, 2017).
Braga continua dizendo que as Jornadas de Junho são um reflexo de uma sociedade que não teve seus problemas resolvidos e nem está em vias de(BRAGA, 2017). Ele argumenta que é necessário trazer para o centro do debate político que está mais afastada dele: a periferia. Os sentidos de junho não se esgotaram no clamor das ruas, mas se deslocaram para as margens da cidade, do mercado de trabalho, das classes e da representação política. O exemplo que o autor usa é a repressão da Polícia Militar aos chamados “rolezinhos”, grandes encontros que adolescentes, majoritariamente vindos da periferia, realizavam em grandes shoppings de São Paulo com a finalidade de conhecer pessoas de diversas partes da cidade e se divertir.
Assim, importa menos a aparente despolitização dos encontros do que a revelação da face racista do modelo de desenvolvimento brasileiro. A propósito, o simples fato de ir ao shopping center em grupo já é um ato inadvertidamente político. Afinal estes jovens estão se reapropriando coletivamente de espaços que lhe foram espoliados pela privatização da cidade. (BRAGA, 2017).
Outro grande exemplo de como as Jornadas de Junho reverberaram no comportamento político das classes subalternas e na retomada das ruas, foi o movimento secundarista. Em setembro de 2015, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo anunciou uma reestruturação do sistema de educação,
realocando 311 mil estudantes e fechando 94 escolas no Estado. Como reação e em forma de auto-organização por meio das redes sociais, os estudantes ocuparam e limparam escolas, organizaram shows e aulas públicas. Além disso, houve uma série de protestos nas principais avenidas de São Paulo, em que houve uma extensa repressão policial. Até que no início de dezembro, graças ao protagonismo secundarista, o governo do Estado de São Paulo recuou e os estudantes saíram vitoriosos(BRAGA, 2017).
Braga (2017) afirma que junho de 2013 reavivou o apetite grevista dos trabalhadores brasileiros, parado nas décadas anteriores. Segundo o Sistema de Acompanhamento de Greves do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (SAG-DIEESE), houve um aumento de 134% no número total de greves e 28% no número de horas paradas, após as manifestações de junho de 2013. Um dado importante é que as greves de 2013 em diante são majoritariamente defensivas, ou seja, estão se defendendo de ataques a direitos, pela manutenção de condições mínimas de trabalho, saúde e segurança ou se defendendo de violações trabalhistas e previdenciárias. Outro dado relevante é que, desde 2013, cada vez mais trabalhadores terceirizados, não-qualificados ou semiqualificados, trabalhadores sub-remunerados, subcontratados, em outras palavras, o precariado urbano, se junta às greves mesmo que estejam longe de estarem no espectro de alcance dos direitos trabalhistas.
3.3. Sindicalismo pós-reforma trabalhista
Com a iminência da aprovação da Reforma Trabalhista pelo sistema legislativo nacional, houve grandes mobilizações em todo o Brasil contra as reformas trabalhista e previdenciária, como a greve do dia 28 de abril que unificou todas as centrais sindicais (BRAGA, 2017). Apesar de participar de grandes atos, os sindicatos, com a organização de greves, não colocavam em pauta ganhos de direitos ao trabalhador, mas sim pela defesa de direitos e contra o retrocesso.
Porém, em que pese o seu enfraquecimento ao longo dos anos, no dia 28 de abril de 2017, dois dias após a aprovação da Reforma Trabalhista na Câmara dos Deputados, o movimento sindical conseguiu puxar a maior greve geral da história, com a adesão de 35 milhões de trabalhadores. Contudo, mesmo assim, não conseguiram barrar o avanço da Reforma(BRAGA, 2017).
Evidentemente, os sindicatos endossarem os movimentos de defesa a Reforma Trabalhista é de motivo mais evidente, visto que os pontos principais da reforma são os seguintes:
1) Implementação de novas modalidades de contratação, como o contrato intermitente, e ampliação de outras já existentes, como trabalho temporário e terceirização; 2) despadronização da jornada de trabalho, entre as quais se destacam: jornada parcial, banco de horas, extensão da jornada diária para até 12 horas, fracionamento de férias, eliminação da hora in itinere e negociação do horário de almoço; 3) alteração na remuneração do trabalho por meio do estímulo à remuneração variável e ao pagamento de natureza não salarial, como bens e serviços, e da possibilidade de redução salarial via negociação coletiva; 4) alterações no sistema de proteção social e nas condições de trabalho, entre as quais as principais são:
dificuldade de acesso aos benefícios vinculados ao assalariamento – como seguro-desemprego e seguridade social, devido à ampliação das possibilidades de contratação precária – mudanças nas regras do tempo de trabalho e descanso, aumentando o risco de acidentes e adoecimento, e redução das prerrogativas das instituições públicas para impor normas de proteção à saúde e segurança. (RIBEIRO, 2019).
Além de alterar as condições de trabalho, a reforma trabalhista fragiliza os órgãos de fiscalização e os sindicatos. Os principais impactos para os sindicatos são:
1) redefinição das prerrogativas próprias dos sindicatos, como o fim da obrigatoriedade das homologações das demissões com a presença destes; 2) a possibilidade de representação dos trabalhadores por comissões independentes dos sindicatos; 3) o fim da contribuição sindical obrigatória; 4) o fim da ultratividade dos acordos e convenções coletivas; 5) modificação no conceito de categoria profissional que pode gerar um aumento da fragmentação da representação sindical; 6) descentralização das negociações por meio da possibilidade de negociações individuais; 7) e, por fim, a prevalência do negociado sobre o legislado, que estimula a redução de direitos por meio das negociações diretas com o patronato.
(RIBEIRO, 2019).
Contudo, em 2018, no primeiro ano de vigência da Reforma Trabalhista, apesar de haver menos greves que em 2017, houve uma mudança substancial no perfil das paralisações uma vez que foram lideradas por trabalhadores em situações de vulnerabilidade tanto no que diz respeito à remuneração quanto a condições de trabalho. Segundo Galvão et al. (2019) os trabalhadores terceirizados dos setores público e privado foram os responsáveis pelas greves neste ano, como: “vigilantes, recepcionistas, encarregados de limpeza, coleta de lixo e limpeza pública,
rodoviários do transporte coletivo, enfermeiros e profissionais das Organizações Sociais de Saúde” (GALVÃOet al., 2019).
A Reforma Trabalhista, somada à extinção do Ministério do Trabalho no início do governo Bolsonaro, costurou bem a fragilização dos direitos dos trabalhadores e das formas de defendê-los. Três ações específicas já deram início ao enfraquecimento do sindicalismo e à queda da taxa de sindicalização. A primeira foi que, na véspera do carnaval de 2017, antes da aprovação efetiva da Reforma Trabalhista, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a entidade sindical não pode cobrar a contribuição assistencial de não sindicalizados. A segunda ação foi que com a Reforma Trabalhista, a contribuição sindical obrigatória se tornou facultativa (GARCIA, 2019). E, por fim, mais uma vez em uma véspera de carnaval, a terceira medida foi a Medida Provisória 873/19 alterada pelo governo Bolsonaro em 2019, obriga o trabalhador a autorizar, individualmente e por escrito, o desconto de qualquer contribuição ao seu respectivo sindicato. Além disso, proíbe o desconto em folha de pagamento e sugere que a cobrança seja feita por boleto bancário.
Diante deste cenário, os sindicatos buscaram outras formas de financiamento ligadas à negociação coletiva. De qualquer maneira, com os últimos ataques às instituições de proteção ao trabalho, as entidades sindicais estão vivendo um momento de dificuldade. A CUT, por exemplo, se desfez da sua sede Central e reduziu o seu quadro de funcionários em mais de 40% (CARVALHO, 2018).
Segundo Galvão et al. (2019), há novas propostas de ações mais horizontalizadas e capazes de pensar na organização de trabalhadores de acordo com as novas formas de trabalho em novas estruturas, como o caso de terceirizados, autônomos e, é claro, trabalhadores de plataformas digitais.
3.4. Experiências internacionais
Em O Precariado, uma das características que Guy Standing (2011) afirma que seja parte inerente ao grupo que chama de “Precariado” é a falta de identidade de classe, pois o precariado, ao estar em alguma ocupação, não faz parte de uma
“comunidade ocupacional” provida de memória social, o que dificultaria uma forma de organização desse grupo. Porém, de 2011 para cá, com as novas tecnologias de comunicação, a possibilidade de organização dessas pessoas também foi reinventada. Segundo Marco Gonsales (2020):
“[...] as mesmas tecnologias que ampliam a capacidade de controle e organização do trabalho pelas empresas plataformas e que isolam os trabalhadores e trabalhadoras em seus computadores, carros, motos e celulares também os capacitam com novas ferramentas para romper o isolamento característico do setor e organizar a classe”.
Ainda de acordo com Gonsales (2020),
Outros fatores característico do trabalho intermediado por plataformas dificultam o aflorar da consciência de classe dos trabalhadores e trabalhadoras do setor: 1) a própria competição entre eles e elas, agora empreendedores e empreendedoras remunerados por produtividade; 2) o fato de que parte da classe atua apenas quando necessário para complementar sua renda; 3) a existência de poucos locais físicos de encontro dos trabalhadores e trabalhadores das empresas plataformas; 4) o amadorismo, característico de grande parte do setor; 5) a dinâmica dos vínculos com diversos empregadores; 6) os recursos limitados a uma sobrevivência às margens do sistema.
Internacionalmente, há diversas experiências relevantes de casos de resistências do tipo grevista por parte de trabalhadores de aplicativos, principalmente aqueles que prestam serviços para a Uber, como por exemplo, em fevereiro de 2017 motoristas de aplicativos paralisaram suas atividades na Índia por duas semanas. E também, em outubro e novembro de 2018 grandes manifestações eclodiram e em julho e agosto de 2019 os motoristas indianos se mobilizaram novamente (GONSALES, 2020). Os motoristas de Uber em maio de 2019 iniciaram uma tentativa de greve mundial com paralisações que afetaram pessoas no mundo inteiro e produziram efeitos em leis tanto dos Estados Unidos quanto do Reino Unido (GONSALES, 2020).
A maior greve do setor foi a primeira citada acima. Mais de 100 mil motoristas interromperam suas atividades diárias por duas semanas nas cidades de Bangalore e Nova Delhi, na Índia, em fevereiro de 2017, pedindo por melhor remuneração, aumento da tarifa-base, diminuição da quantidade de motoristas ativos nas plataformas e pela possibilidade de representação sindical e associativa. De acordo com Gonsales (2020), essa foi a terceira onda de protestos dessa natureza em território indiano apenas no ano de 2017.
Já em outubro e novembro de 2018, em Delhi e Mumbai, cerca de 50 mil trabalhadores e trabalhadoras do setor entraram em uma greve que durou 11 dias.
Em Calcutá, em julho e agosto do ano seguinte, eclodiram outras duas manifestações, com 25 mil e 10 mil trabalhadores e trabalhadoras em protesto, respectivamente (GONSALES, 2020).
Na véspera da abertura de capital da Uber na NASDAQ, a bolsa de valores estadunidense, motoristas dos principais aplicativos de transporte de passageiros, como 99Taxi e Uber, realizaram uma mobilização a nível global pedindo por melhores condições de trabalho. As manifestações aconteceram de maneira mais expressiva nos Estados Unidos, Reino Unido, França, Austrália, Nigéria, Quênia, Chile, Brasil, Panamá, Costa Rica e Uruguai (GONSALES, 2020).
Pouco depois desta grande mobilização internacional, no final de janeiro de 2020, pela primeira vez na história da categoria, sessenta motoristas de 27 países do mundo se reuniram em Thame, na Inglaterra, e realizaram o primeiro encontro internacional da classe. Este evento inaugurou aInternational Alliance of App-Based Transport Workers(IAATW) (GONSALES, 2020).
Além disso, vale a menção que nos dias 25 e 26 de junho de 2020, através de uma conferência virtual chamada Global Digital Workers Conference, foi criada a Transnational Workers Network(TWN), uma associação internacional com o objetivo de proteger e lutas por direitos dos trabalhadores e trabalhadoras “parceiros” de plataformas digitais.
3.5. A experiência brasileira
Com a eclosão da pandemia de COVID-19, os trabalhadores e trabalhadoras de aplicativos de entrega, como Rappi, Loggi, iFood, entre outros, foram subitamente vistos como parte essencial, até mesmo heróis (não que houvesse outra escolha), para a manutenção do isolamento social, se arriscando diariamente em nome da segurança de outros.
Entretanto, mesmo tendo sido reconhecidos pela população como “heróis”, não houve reflexo nos rendimentos ou melhora nas condições de trabalho dessas pessoas. Com o aumento do desemprego durante a pandemia, o cadastro para se tornar “entregador parceiro” dessas plataformas foi a única alternativa que muitas pessoas encontraram para continuar sobrevivendo neste período. Logo, mesmo com o aumento da demanda por parte da população – destaque para classe média e classe alta que puderam realizar isolamento social –, os entregadores afirmaram que estavam recebendo poucas chamadas e o intervalo entre elas mais, reforçando o que Ludmila Costhek Abílio chamou de “trabalhadores just in time” (COSTHEK ABÍLIO, 2020).
Um mês após o início da pandemia, em 20 de abril de 2020, entregadoras e entregadores da cidade de São Paulo fizeram um buzinaço nas grandes avenidas do município em que reivindicavam melhor remuneração e materiais de proteção contra o coronavírus por parte da empresa. Como não houve resultado, em julho de 2020, os entregadores de diversos aplicativos protagonizaram a primeira greve do setor.
Uma espécie de greve independente, que chamaram de “Breque dos Apps” para pedir por aumento no valor por quilômetro rodado de entrega (PARAÍBA JÁ, 2020).
Somente era disponibilizado um posto para a higienização das mochilas, sem que a empresa proporcionasse transporte até o local ou ajuda de custo. Também não eram fornecidos equipamentos de proteção individual (EPIs) – máscaras, luvas, álcool em gel, entre outros –, conforme solicitado pelos trabalhadores.
Alguns entregadores reivindicam que as empresas deveriam reconhecer seu trabalho como o de empregados com garantias. Muitos outros acreditam que esse tipo de mudança não deve partir dos aplicativos, mas sim da legislação brasileira.
Neste ponto, cabe citar que há dissenso entre os trabalhadores: por um lado, alguns entregadores creem que a melhor opção seja o regime celetista, isto é, aquele que adere integralmente às regras da CLT, com todos os direitos trabalhistas garantidos, como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego, licença maternidade ou licença paternidade, fundo de garantia, vale transporte, e outros benefícios. Outros entregadores consideram que o ideal seria uma categoria intermediária entre o regime celetista e a situação de autônomos que muitos vivem, pois pensam que a CLT é muito fechada e limitadora.
A grande novidade dessa greve foi a auto-organização, visto que, já que não são trabalhadores formais e sindicalizados, não tinham a entidade sindical para representá-los e organizar a paralisação. O movimento contou também com apoio popular que nos dias determinados não pediram comida pelos aplicativos e os avaliaram com uma estrela.
Os trabalhadores de aplicativos de entrega não veem que houve grandes mudanças nas suas condições de trabalho após o “Breque dos Apps”, mas julgam que os maiores ganhos vieram pela visibilidade nacional que o movimento de caráter grevista teve na data. A razão disso é que muitas pessoas não faziam ideia das condições precarizadas a que esses trabalhadores estão submetidos, de forma que o apoio a outras formas de resistência cresceu.
Quase dois anos depois do “Breque dos Apps”, surgiu uma nova mobilização por parte dos entregadores chamada “Apagão dos Apps”. Com objetivo similar à greve que aconteceu em meados de 2020, o “Apagão dos Apps” teve a sua primeira paralisação no dia 29 de março de 2022. Nesta data, motoristas paralisaram suas atividades em ao menos 16 cidades brasileiras, como São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Teresina, Aracaju e Manaus (PRADO, 2022).
Mais uma vez, os trabalhadores de aplicativo reivindicam melhores condições de trabalho e percentual maior de ganhos nas corridas. Os trabalhadores afirmam que os reajustes que as empresas ofereceram no início de março não são suficientes para cobrir todas as despesas, principalmente considerando o aumento no preço dos combustíveis no Brasil. O posicionamento oficial das empresas é que se mantém abertas ao diálogo.
Na mesma semana, na sexta-feira dia 1° de abril, os entregadores realizaram nova paralisação. Segundo o líder dos Entregadores Antifascistas, Paulo Lima, o Galo, o motivo das paralisações é o descumprimento doiFooddas promessas feitas no 1° Fórum de entregadores do Brasil, como a de aumento anual dos repasses (UOL, 2022).
3.6. O escândalo de propaganda infiltrada daiFood
No dia 4 de abril de 2022, a Agência Pública divulgou uma longa reportagem, de autoria de Clarissa Levy, denunciando ações da plataforma digital de entregas iFood. A empresa seria acusada de contratar uma agência de inteligência e monitoramento digital para se infiltrar entre os entregadores com o objetivo de enfraquecer a ideia de greve e introduzir novas pautas, como a da vacinação prioritária, por exemplo.
O modus operandi da agência Benjamim Comunicação e depois também a agência Social Qi (SQi), as contratadas pelo iFood, era o chamado marketing 4.0, que consiste em compartilhar vídeos, postagens ou piadas sem assinatura com a intenção de promover uma marca ou uma ideia, por meio das redes sociais.
Segundo os relatos colhidos pela Agência Pública (LEVY, 2022), as postagens eram feitas para disseminar ideias e opiniões utilizando a mesma linguagem de