Adrian era um jovem e corajoso guerreiro que costumava ir de cidade em cidade em busca de aventuras. Montado em Flecha, seu fiel cavalo, levava sempre, preso à sua cintura, seu estilinguete, uma arma de médio alcance que lançava diferentes tipos de munição, com a qual já havia derrotado vários vilões.
Vinha de sua mais recente empreitada, havia recuperado as escovas de dente das crianças da pequena cidade de Hálitus, que tinham sido roubadas pelo perverso sr. Cárian. O vilão não queria que as crianças escovassem os dentes nunca mais e assim ficassem cheias de cáries. Adrian estava, agora, sossegadamente, andando pela floresta, com a sensação de dever cumprido. De repente sentiu fome – muita fome – pois na correria em busca das escovas de dente, havia se esquecido de almoçar.
Disse para Flecha:
-Deve haver alguma cidade por aqui onde eu possamos comer alguma coisa, amigo!
Cavalgou um pouco mais pela estrada de terra e tudo o que ouvia era apenas o canto das aves da floresta. Falou:
-Que estranho, eu me lembro de ter passado por uma cidade aqui há algum tempo atrás, que por sinal, era uma cidade muito divertida, com músicas e pessoas conversadeiras! Mas não ouço barulho algum, nem de pessoas, nem música, nem nada...
Continuou no caminho até que enxergou, ao longe, algo que parecia ser fumaça.
- Ah, eu sabia que estava certo, Flecha!
Seguiu na direção da fumaça e, ao afastar-se das árvores, pode ver, de fato uma cidadezinha, com muitas casas e pessoas. Porém, havia algo de estranho, nenhum barulho vinha de lá.
Agora, curioso, ele entrou lentamente na cidade e ao encontrar as primeiras pessoas cumprimentou- as dizendo:
- Boa tarde, sabem se há um restaurante por aqui?
Uma delas acenou com a cabeça e apontou para o fim da rua, sem dizer uma só palavra. Adrian, sem perguntar mais nada, agradeceu e seguiu em frente. Chegou a uma pequena estalagem onde se lia: “Comida Caseira”. Deixou Flecha ali em frente bebendo um pouco de água e entrou. Lá dentro o silêncio seria total, não fosse o barulho dos talheres e pratos. Algumas poucas pessoas faziam gestos umas para as outras, mas a maioria, apenas comia. Adrian aproximou-se do balcão e perguntou ao garçom o que havia para comer. Este lhe mostrou um cardápio com as opções de prato e Adrian disse:
- Quero bife com batatas fritas, por favor.
Mas sua curiosidade era tanta que não aguentou e perguntou ao garçom:
-O que está havendo aqui? Porque ninguém fala? São todos mudos? E a música, não deveria estar tocando?
O garçom apenas apontou para um pedaço de papel colado na parede. Adrian aproximou-se para lê- lo:
“Eu, rei Ab-Surdus, decreto que de hoje em diante todas as vozes dos cidadãos desta cidade
desde o menor até o maior tornam-se propriedade minha. Além disso, será proibido emitir qualquer
tipo de som que altere a Ordem do Silêncio Absoluto, agora instituído. Quem infringir a lei, receberá
a pena de confinamento no quarto do Eterno Ruído.”
Adrian não acreditava no que lia, era assim um - como dizer - um absurdo! Perguntou ao garçom:
-O que esse rei fez com as vozes de vocês? Isso não pode ficar assim, alguém tem de deter este tal rei Ab-Surdos!
O garçom ia começar a falar quando se lembrou de que não podia, tentou fazer alguns gestos, mas viu que era inútil. Então, disfarçadamente, olhou para um lado, depois para o outro, pegou um pedaço de papel no qual escreveu alguma coisa e deu a Adrian, que imediatamente colocou-o no bolso.
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Adrian saboreou, rapidamente, seu almoço, porque estava com muita fome e também porque queria sair logo e ver o que estava escrito no papel. Lá fora, tirou o papel do bolso e leu o seguinte: “procure Orelius, rua invisível, casa oculta.”. Ficou mais confuso ainda, como acharia uma rua invisível e ainda por cima uma casa oculta? Foi quando viu de longe o que parecia ser uma antiga biblioteca. Subiu em Flecha e seguiu até lá, meio sem saber se seria o melhor lugar para procurar suas respostas.
Entrando no local, viu uma jovem senhorita sentada à mesa com uma pilha de livros em sua frente, anotando algo em um pequeno caderno. Adrian aproximou-se e perguntou a ela (já imaginando que não ouviria palavra alguma):
-Com licença, você, por acaso, teria um mapa desta cidade?
A moça simplesmente meneou a cabeça, sem olhar para ele.
Adrian disse:
- Obrigado mesmo assim, preciso encontrar uma rua invisível, mas não faço ideia do como fazê-lo.
Nesse instante, a jovem olhou para ele, ela tinha uma expressão com um misto de susto e alegria.
Ela fez sinal para que ele a seguisse e, depois de olhar para os lados (da mesma forma que o garçom havia feito) entraram por uma portinha que dava em um corredor escuro. O corredor terminava em uma saleta muito pouco iluminada. Ela puxou um grande e velho livro de uma das estantes que havia lá e pegou algo que estava atrás dele. Entregou um antigo e amassado papel a Adrian, que ao abri-lo viu que se tratava de um mapa. Na parte de cima estava escrito “Cidade Falante”. Adrian perguntou para a moça se esta era a cidade em que estavam e ela fez que sim, com a cabeça. Ela indicou, com sinais (fazendo uma negativa com os dedos, apontando para seus olhos e, em seguida, apontando o mapa) o que Adrian entendeu ser a orientação de que ninguém poderia ver o mapa. Adrian então o guardou e os dois saíram pela porta, voltando ao saguão da biblioteca. Ele percebeu uma expressão um pouco mais calma e serena no rosto a moça. Perguntou a ela:
-Qual seu nome?
Ela rapidamente puxou um papel e escreveu “Lúmina”. Ele, então disse:
-Obrigado Lúmina e fique tranquila, pretendo ajudá-los.
Saindo de lá procurou um lugar, longe de olhos curiosos, onde pudesse ver o que continha o mapa.
Encontrou um local, entre algumas árvores, que parecia quieto e tranquilo (se bem que nesta cidade qualquer lugar era quieto), mas o que importava é que ali não havia ninguém. Assoviou para Flecha, que estava perambulando por aí e em poucos segundo, seu fiel companheiro estava ao seu lado:
- Espero que já tenha almoçado por aí, Flecha, porque vou precisar de sua ajuda. - O animal soltou um relincho de satisfação.
Adrian pegou o mapa e começou a dar uma olhada. O papel era tão fino que a tinta com que foi escrito transparecia, levemente, no verso. Os nomes das ruas estavam escritos de forma esquisita como ALUBÁF, AIRÓTSIH, OTIM e outra assim. Adrian procurou algo que indicasse uma rua invisível, mas não encontrou. Passou horas tentando descobrir o sentido daquilo e quando já estava a ponto de desistir, um golpe de vento arrancou o papel de suas mãos, que depois de rodopiar algumas vezes caiu no chão com o verso para cima. Foi então que Adrian bateu o olho e leu a palavra MITO. Com um sobressalto, compreendeu. As palavras não eram estranhas, apenas estavam escritas de trás para frente. Olhou para o mapa, agora, do modo certo, e as letras foram fazendo sentido. Deu um pulo de alegria ao ler no canto oeste do mapa: Rua LEVÍSIVNI, ou seja, INVISÍVEL, de trás para frente!
-É isso, encontrei! Vamos, Flecha, ver o que há nessa tal rua invisível.
Montou em seu cavalo e seguiu na direção que o mapa indicava.
Estavam quase chegando ao final de uma rua e, segundo mapa, cruzando com esta estaria a rua invisível. Porém, ao que parecia, não havia nada adiante. A rua em que estavam terminava em um matagal denso e tão alto que dava na altura da cabeça de Flecha. Alguns metros à frente do matagal, a floresta já se estendia. Adrian foi até o último centímetro de terra, desceu do cavalo e olhou em volta: nada de rua!
Voltou a olhar para o mapa, tinha certeza de que era ali. Notou então umas letras miúdas na parte debaixo do mapa e com um pouco de dificuldade consegui lê-las: “a visão é apenas para aquele que se humilha até o pó da terra”. Adrian ajoelhou-se e tocou a terra, tentando decifrar a charada. Olhou para o matagal e notou que ele já não parecia tão denso olhando desta posição. Deitou-se, então, no chão e, para sua surpresa viu que havia sim uma rua ali, muito estreita, que qualquer pessoa em pé nunca iria ver, pois o mato impedia- lhe a visão. Afastou então aquelas plantas e, junto com Flecha, conseguiu alcançar a rua.
Agora, o próximo desafio, seria achar a casa oculta. Seguiu cavalgando e o mato ia ficando cada vez mais baixo, até desaparecer completamente restando apenas a estrada que se estendia ao longe com uma relva baixa de cada lado, sem sinal de casa alguma. Adrian desceu do cavalo, e disse:
- Se há uma casa aqui eu vou achá-la!.
Pegou seu estilinguete, colocou nele uma munição. Posicionou-se sobre a relva ao lado da estrada e, no sentido do horizonte, lançou seu tiro. Nada. Pegou outra munição cruzou a estrada até o outro lado e repetiu o lance. Dessa vez, ouviu um estalo e uma mancha vermelha surgiu, aparentemente no ar, alguns metros à frente. Sua munição de tinta havia se chocado contra alguma coisa. Correu até lá, mas ainda não via coisa alguma, somente a mancha vermelha no ar. Quando, porém, aproximaram-se do local do impacto, seus olhos não podiam acreditar. Aparentemente, do nada, uma casinha surgiu diante deles. Disse para si mesmo:
-Incrível!Como é possível?!
- Tinta invisível - disse uma voz vinda de traz de Adrian. – Você encontra na cidade Espelhada.
Adrian deu um sobressalto e virou-se. Viu, então, um senhor de meia idade, com um olhar que parecia exprimir muita sabedoria e experiência. Adrian disse:
- O sr. deve ser Orelius, estou certo?
-Sim, e você, quem é?
- Eu sou Adrian, o garçom me mandou aqui. Fico feliz em encontra, enfim, alguém que fale, nesta cidade!
-Você tem razão, não é mesmo comum, porém nem sempre foi assim....Mas, você disse que o garçom te enviou?
- Sim.- Falou Adrian.
- Interessante... vamos entrar meu jovem.
Adrian deixou Flecha ali e entrou na humilde, porém aconchegante casinha. Havia uma mesa com algumas cadeiras, um fogão à lenha, uma pia e duas poltronas onde se sentaram. Orelius deu um profundo suspiro e começou a falar:
- A cidade Falante sempre foi conhecida por sua música, histórias e fábulas contadas e muitas, muitas risadas. As pessoas eram alegres e gostavam muito de conversar. O Rei Auditus sempre passeava pela cidade para ouvir as conversas do povo. Porém, depois de sua morte, por não ter tido filhos, seu irmão Ab-Surdos assumiu o trono. Ele não suporta barulho, fala pouco e nunca sorri. Foi então que decretou esta lei que proíbe todos de fazerem ruídos, e aprisionou as vozes de cada morador, guardando-as em frascos de vidro numa sala do castelo. Esta sala é vigiada dia e noite por seus guardas.
-Mas nem mesmo um rei tem este direito! Como foi que ele conseguiu aprisionar as vozes? - Adrian indignou-se.
- Então, como eu disse, as pessoas eram alegres e falavam muito, mas tinham um grave defeito, falavam muito da vida dos outros, faziam muita fofoca e, às vezes, contavam mentiras. Ab-Surdo pediu, então, à fada da Disciplina para que ela aplicasse uma correção nas pessoas. Sempre que o defeito de alguém é apontado para a fada, e ela comprova que é verdade, é obrigada a dar-lhe uma correção. Sendo assim, ela não pôde negar isso ao rei, pois sabia que ele tinha razão, as pessoas realmente mereciam esta lição. Ela, então, recolheu as vozes dos cidadãos e colocou-as, cada uma, em um frasco de vidro. Mas isso seria algo temporário, pois a disciplina visa o bem daquele que está sendo disciplinado, e, depois que as pessoas aprendessem a lição, as tampas dos frascos se soltariam liberando, assim, suas vozes. Porém, Ab- surdos tomou os frascos e lacrou-os recorrendo à magia de um poderoso feiticeiro. Agora, nem a fada é capaz de interferir para abri-los. A única forma de liberar as vozes é quebrando os frascos.
-Entendo, mas deve haver algo que se possa fazer! Mass...e você, como foi que escapou? - Questionou Adrian.
- Bem, esta lição, a de não falar coisas indevidas, eu já havia aprendido, enquanto servia ao rei Auditus. Ele mesmo pediu à fada que me disciplinasse, para que eu o servisse melhor. Foi muito difícil para mim, mas realmente funcionou, me tornei uma pessoa melhor. Então, como eu não precisava desta correção o encantamento não me atingiu. Mas vamos falar de você. Como percebeu, é um pouco difícil me encontrar. Poucas pessoas sabem o caminho até aqui e tenho nelas total confiança, assim como espero poder ter em você. Se Justos mandou-o aqui é porque viu em você algo diferente dos demais viajantes que passam por aqui. Todos eles apenas reclamam e murmuram por não serem bem recebidos e vão embora dizendo nunca mais voltar. Mas você parece ser diferente, parece ter um senso de justiça, algo raro em nossos dias. Poderá nos ajudar?
- Diga-me o que tenho que fazer!
Orelius levantou-se, com um ar satisfeito, e seguiu até a porta dos fundos da casa, Adrian acompanhou-o. Ao abrir a porta Adrian pode ver, ao longo da planície que se estendia no horizonte, o grande e imponente castelo. Notou que a entrada era um enorme portão de ferro preso por correntes que, quando fechado, seria impossível de entrar. Os muros também eram altíssimos, não havia como pular. O
jeito era consiguir um disfarce e entrar pelos portões abertos. Ainda estava pensando em uma estratégia quando Orelius disse:
-Já tenho um plano de como poderemos entrar.
Adrian disse:
-Você vai comigo?
- Sim, sem mim, será muito difícil você encontrar a sala onde as vozes estão. Eu conheço muito bem o castelo, fui conselheiro do rei Auditus por muitos anos.
- Mas você não esta um pouco, é...
- Velho? Sabedoria e perspicácia muitas vezes vencem batalhas.
-Está bem. Qual é o plano então?
- Todo dia pela manhã, o jardineiro do palácio vai até o restaurante de Justos comer seus deliciosos bolinhos de amoras. Pedirei a Justos para misturar nos bolinhos uma dose de sonífero, assim, eu me visto com as roupas do jardineiro e você esconde-se na carroça. Dess forma, entraremos no castelo.
Adrian gostou da idéia, realmente era um homem inteligente este Orelius. Como já estava entardecendo, permaneceram ali discutindo como seria quando estivessem dentro do castelo. Adrian ouviu atentamente as instruções e logo foram dormir.
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Na manhã seguinte levantaram-se cedo e, os dois montados em Flecha, seguiram em direção ao Restaurante. Orelius disse a Adrian que quando entrassem na cidade não deveriam mais conversar, pois os guardas do rei sempre estavam vigiando e se os ouvissem falar iriam prende-los.
Chegando ao restaurante Justus, o garçom, não pode esconder o ar de alegria ao ver os dois. Orelius foi até o balcão, cumprimentou o amigo e entregou-lhe um pequeno frasco no qual se lia “para o jardineiro”.
Justos acenou com a cabeça mostrando que havia entendido o recado.
Adrian e Orelius pediram um refresco e sentaram-se em uma mesa ao canto. Como era difícil ficar sem falar! Principalmente estando ansiosos para que o plano desse certo. Passaram-se alguns minutos e, então, o jardineiro entrou pela porta e seguiu até o balcão. Justus, que já sabia o que ele sempre comia - bolinhos de amora – esperava-o com o prato já preparado. Entregou-o ao jardineiro que sentou-se para comer. Não demorou muito para que o jardineiro devorasse os bolinhos e logo começou a bocejar. Adrian olhou para Justus e viu que ele acenava chamando o jardineiro, que, sem entender muito bem, levantou-se e foi até a porta para a qual ele apontava. Entraram no quartinho que ficava ao lado do balcão e em alguns instantes Justus voltou chamando Adrian e Orelius. Os dois levantaram-se disfarçadamente e foram até lá.
Viram o jardineiro deitado em uma cama, num sono tão profundo que até roncava. Orelius cuidadosamente tirou o casaco do jardineiro e vestiu-o, pegou tambem seu chapéu e colocou-o. Disse a Adrian:
- Até aqui funcionou.- sussurrou ele - Agora eu vou lá fora pegar a carroça, você sai pelos fundos e eu te pego lá atrás. Justus, se o jardineiro acordar coloque este resto de sonífero em uma bebida e dê a ele.
Orelius entregou ao garçom um outro frasco com sonífero.
Fizeram como combinado e Adrian, saindo pelos fundos, entrou por debaixo dos panos que estavam na parte de trás da carroça. Partiram então em direção ao castelo.
Chegando ao portão Orelius viu dois guardas em pé vigiando a entrada. Seguiu em frente sem parar, apenas acenando para eles, que nem desconfiaram de nada. Como conhecia bem o castelo, Orelius deu a volta e seguiu até uma porta que havia na lateral. Sabia que ali não ficava ninguém pois era a despensa onde guardavam os alimentos que vinham do mercado. Entraram, silenciosamente, cuidando para que ninguém os visse. Passaram por um corredor estreito que levava até a cozinha. A cozinheira estava tão apurada mexendo em suas panelas que nem os notou passando por lá. Subiram uma escada e chegaram a um outro corredor. Orelius disse:
- Ao final deste corredor fica a sala com as vozes, mas precisamos despistar os guardas.
Adrian disse:
- Quanto a isso, pode deixar comigo.
Pegou seu estilinguete e uma munição e disparou mirando no teto. Desta vez ao invés de tinta surgiram bolhas de sabão enormes e coloridas e os guardas foram até elas curiosos. Eles rapidamente passaram por tras dos guardas indo até a sala. A porta estava aberta e, ao entrarem, ouviram diversos sons que se misturavam, música, conversas, risos. Aproximaram-se e perceberam que vinham dos frascos. Cada um tinha um nome escrito e Adriam não pode deixar de notar o nome “Lúmina”. Aproximou-se e ouviu, vindo do frasco, uma voz calma e suave que cantava uma canção. Pensou: “Como alguém pode não querer ouvir uma voz assim!”
Sem querer, esbarrou em um outro frasco que estava ao lado derrubando-o. Para sua surpresa, o frasco não se quebrou. Orelius olhou e disse:
- Acho que vai ser mais difícil do que eu pensava, estes frascos são bem resistentes.
Nesse instante ouviram passos que se aproximavam , eram os guardas que deviam ter ouvido o barulho. Orelius disse:
-Rápido, coloque todos os frascos nesta bolsa, temos que levá-los para outro lugar.
Terminaram de guardar os frascos e ouviram o barulho da porta abrindo-se. Adrian pegou seu estilinguete e atirou no chão produzindo uma fumaça que encheu a sala. Enquanto os guardas tentavam ver alguma coisa, Adrian e Orelius saíram pela porta e correram de volta para a cozinha. Algumas cozinheiras começaram a gritar. Eles conseguiram atravessar o corredor e chegaram até a carroça. Soltaram o cavalo e montaram os dois nele. Os guardas demoraram para avisar aos outros, pois eles também não falavam (o rei havia ameaçado os guardas dizendo que se agum deles fosse embora ou tentasse recuperar a voz, suas famílias nunca mais receberiam comida), então soaram o alarme, o que só era permitido em situação de emergência. Quando os porteiros ouviram, Adrian e Orelius já tinham cruzado o portão de ferro e continuaram correndo em direção a ponte alta que cruzava um rio que havia um pouco a frente. Os guardas estavam atrás deles e vinham muito rápido.
Chegaram até a ponte e notaram que haviam partes quebradas as quais teriam que saltar. Olharam o rio que corria em baixo, agitado e veloz entre grandes pedras. Orelius disse:
-É agora ou nunca! Vamos lá!
Adrian disse:
-Esse cavalo não aguentará a nós dois!
Deu um assovio alto e, em poucos segundos, Flecha apareceu.
- Eh, amigão, você está sempre por perto, não é!? disse montando nele.
Orelius golpeou seu cavalo que começou a correr. Adrian olhou para trás e os guardas estavam há poucos metros. Orelius deu vários saltos com seu cavalo até chegar ao outro lado. Adrian disse:
- Vamos lá, Flecha!
O cavalo correu e, no momento em que foi saltar, Adrian sentiu um puxão em suas costas, mas conseguiu chegar ao outro lado. Olhou para trás e viu que, um dos guardas, havia agarrado a bolsa que estava em suas costas com os frascos, mas deixara-a cair e, agora, ela estava enroscada na beirada da ponte.
O guarda esticava-se para alcançá-la. Já estava quase pegando-a, quando, então, Adrian olhou para baixo, e pegando uma munição mirou na direção da bolsa. Atirou. Orelius ficou apavorado, porque se os frascos caíssem e fossem levados rio abaixo, nunca mais os encontrariam. Mas para sua surpresa a bolsa soltou-se da ponte e espatifou-se nas pedras que estavam embaixo. Um som muito diferente de tudo que já haviam ouvido surgiu, era como uma mistura de todos os sons que existem. Viram então que os frascos haviam se quebrado. Um dos guardas disse:
- Peguem eles! - mas tomou um susto ao ouvir sua própria voz.
Os outros guardas também começaram a falar e, por fim todos estavam conversando como se fosse a primeira vez que falavam.
Olharam para Adrian e Orelius do outro lado da ponte, seus rostos já não pareciam mais zangados, e disseram:
- Obrigado! Como é bom poder falar novamente.
Nesse momento lembraram-se do que o rei havia dito sobre suas famílias ficarem sem comida e amedrontaram-se. Disseram a Adrian:
- Não podemos voltar ao castelo falando assim, pois o rei irá ficar furioso.
Adrian disse:
-Cedo ou tarde, vocês terão que enfrentá-lo ou nunca serão livres.
- Mas somos poucos para enfrentar o rei, ele pode recrutar outros soldados - Disse o guarda.
- Engano seu. Veja!
O guarda virou-se para trás e olhou. Por detrás da campina, vindo em direção a eles, uma enorme multidão surgia, um tanto confusa. Adrian e Orelius retornaram para o outro lado da ponte. Orelius disse:
- Cidadãos da Cidade Falante, hoje teve fim a lei do Silêncio Absoluto graças a coragem desse jovem, que enfrentou perigos, mas conseguiu devolver a vocês o que lhes pertencia , suas vozes. Porém há ainda um problema, o rei Ab-Surdos não ficará nada feliz ao saber do ocorrido. Mas precisaremos enfentá-lo e acabar com esta tirania!
Todos concordaram e seguiram juntos na direção do castelo. Ao chegarem lá, começaram a cantar, falar, e rir, todos ao mesmo tempo. O rei, que estava em seu quarto, ao ouvir aquilo, não pode acreditar, o barulho era insuportável, seus ouvidos não aguentavam. Saiu correndo, atravessou o pátio e foi para fora do castelo. Chamou a fada da Disciplina e disse:
- Veja só isso, faça alguma coisa. Estão todos falando novamente. Faça com que se calem!
A fada olhou e disse:
- Eles já aprenderam a lição!
Nesse momento, alguém gritou:
-Esse rei é um grande egoísta!
A fada parou um momento e olhou para o rei. Então disse:
- Ele tem razão, você quer sempre o melhor para você e não pensa nos outros. Sendo assim, apontado esse seu defeito, você merece ser disciplinado.
Imediatamente as roupas do rei sumiram e roupas velhas e rasgadas surgiram. A fada disse:
- De hoje em diante, viverá como um empregado do castelo e terá que trabalhar duro para viver até que demonstre que aprendeu a ter humildade e compaixão, só assim poderá voltar a ser rei.
A fada virou-se e disse ao povo:
- Quanto a vocês, fico feliz em ver que aprenderam a lição.
O povo deu gritos de alegria e começaram a cantar e dançar. Em meio aquela alegria alguém falou:
- Mas e agora, ficaremos sem rei?
Foi a vez de Adrian manifestar-se:
- Sei que não pertenço a esta cidade, mas tenho uma sugestão. Orelius é sábio, correto e mostrou-se muito corajoso e , mesmo tendo ainda sua voz, não pensou só em si mesmo, mas arriscou-se por todos vocês. E além disso, ele sabe como funcionam as coisas no palácio, pois já viveu muitos anos lá. Eu sugiro que ele governe!
Todos gritaram:
- Sim, Orelius será nosso novo rei!
Orelius um pouco surpreso, mas com muita coragem disse:
- Então, que assim seja! Ajudarei vocês até que Ab-surdos aprenda sua lição, pois ele é o rei por direito.
Adrian, feliz por ter, mais uma vez, ajudado a pessoas indefesas, despediu-se de Orelius e Justus.
Orelius disse:
- Não quer ficar e ajudar-nos a governar e proteger a cidade?
- Eu agradeço, mas tem muita gente que ainda precisa de nós, não é Flecha? – o cavalo relinchou.
Adrian já ia montar em Flecha, quando ouviu uma voz doce e suave que ele sabia bem de quem era:
- Obrigada! Sabia que conseguiria!
Ele virou-se e disse:
-Eu só fiz o que era certo. E você me deu uma boa ajuda. Obrigado.
-Eu serei eternamente grata a você. Vai voltar algum dia?
-É claro, não podemos abandonar os amigos, não é mesmo?! Até mais, pessoal. Vamos Flecha!
Flecha saiu galopando e logo a figura dos dois foi desaparecendo em meio as árvores. Os cidadãos da Cidade Falante nunca mais esqueceriam o que Adrian havia feito por eles e contariam sua história a todos que passassem ali.
Nos dias que se seguiram, Orelius governou a Cidade Falante com muita sabedoria e dedicação. Deu as pessoas a liberdade de falarem o que quisessem, com apenas três condições: que fosse sempre a verdade, que não ferisse ninguém e que fosse mais interessante que o próprio silêncio. Os cidadão aprenderam muito bem a lição e a cidade tornou-se um lugar mais agradável e hospitaleiro para os viajantes que ali passavam. Quanto ao rei Ab-surdos, teria ainda uma longa trajetória de aprendizado, antes que pudesse voltar a ser rei.
Já distante da cidade Falante, Adrian disse a Flecha:
-Acho que preciso de umas férias, e você?
Flecha relinchou concordando. Mal sabiam que, logo adiante, outra aventura os esperava.