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(1)

Processon.°202

/

18

l.a

Secpao

Relatot:ConselheiraMaria de FatimaMata-Mouros

Acordam,na l.aSec9aodoTribunal Constitucional,

I-Relatorio

1

.

APEC-Associaqao

Portuguesa

deEscolas de Conduqao eAlcino Cruz, ora recorridos, notificados da decisao administrariva

proferida

no ambito de

processo

de

contraordenaqao

, pela

Autoridade

daConcorrencia

(

AdC),apresentaram

impugna

9ao

judicial

dessa decisao junto do Tribunal daConcorrencia,

Regulacao

e

Supervisao

.

Por decisao de6de

fevereiro

de2018, o Tribunal da Concorrencia,

Regulaqao

e

Supervisao

,

apos

ouvir osaqui recorridos,bem comoaAdCeoMinisterio Publico, relativamentea«eventual inconstitucionalidade doart.°84.°,n.°4e5»doNovo

Regime Juridico

da Concorrencia,

aprovado pela

Lei n

.

° 19

/

2012,de 08demaio, decidiurecusarasua

aplicaqao

ao caso,«com fundamentoem

inconstitucionalidade

material,

por violaqao

dos

artigos

2

.

°,

16

.°, 17

.

°, 18.°,

20

.°,n.° 5,32.°, n.° 2 e

10

, todosdaConstituiqaoda

Republica Portuguesa

», namedidaem

que

«faz

depender

aatribu

^

ao

deefeito

suspensivo

ao recurso de

impugnaqao

da prestaqao substitutiva de cauqaoem razao de

prejulzo

consideravel causado

pela

execu9aoda decisao».

Nesta

sequencia

, o Ministerio Publico

interpos

recurso

obrigatorio para

o Tribunal Constimcional,nostermos do

artigo

70.°, n.° 1, alinea a)

,

daLei de

Organizaqao

,Funcionamento eProcesso doTribunalConstitucional

(

LTC),

disposiqao legal

em

que igualmente

sesustentou o recurso

interposto pela

AdC,amboscomvista a

apreciaqao

da normacuja

aplicaqao

foi recusada

pelo

tribunala

quo .

2

.

Tendo

prosseguido

osautos

para

afase de

alega

9oes,oMinisterio Publico concluiuas suas

alega

9oesdo

seguinte

modo:

«1.Anormadoartigo84.°,n.°4e5da Lein°19

/

2012,de8deMaio (NovoRegime

Juridico

da

Concorrencia), enquanto determina que a impugnagao judicial das decisoes finais condenatorias aplicativas decoima daAutoridade da Concorrenciaem processode contraordenaqao tem,por regra, efeito meramente devolutivo, ficando a atribuicao de efeitosuspensivo condicionada a prestaqao de cauqao substitudva e a verificaqao de urn prejulzo consideravel, para a impugnante, decorrente da execuqao da decisao, nao viola osartigos 2.°,16 °, 17.°, 18.°, 20°, n.° 5, 32°, n.°2 e 10, todos da Constituiqao,naosendo,porisso,inconsdtucional.

2

.

Termosemquedeve serconcedido provimentoaorecurso».

(2)

T R I B U N A L C O N S T I T U C I O N A L

3

.

Tambema

AdC apresentou alega ^

oes,

que concluiu

nostermos

que

se transcrevem:

«(-)

A. Aquestaoquesecolocano presente recursoeo daconstitucionalidadeda solu9ao consagrada nosn.os4 e5 do artigo84.°daLeidaConcorrencia,de onde se extrai uma norma,nostermosdaquala impugna5ao judicialdadecisao aplicativadecoimaproferida pela AdCemprocessocontraordenacional

tem efeitomeramentedevolutivo,ressalvados oscasosemquea execu

^

aodadecisaocause prejuizo

sigruficativoaorecorrenteeemqueestepreste cau9ao substitutivadopagamentoimediatoda coima, casos emqueoefeitodaimpugna9ao esuspensivo

.

B. OTCRSsustenta oseu juizodeinconstitucionalidade materialda normaaquiem causa,por entenderque, (i)oreferido preceito legal violaosprindpiosde acessoao direitoedetutela jurisdicional efetiva na medida em que o efeito suspensivo de decisoes judiciais vem sempre associado a consequencias onerosas parao recorrente:patrimonialmente onerosascom aantecipa9ao

/

cau9ao ou processualmenteonerosascomaalega9aoeprovadoprejuizo consideravel;(ii)olegislador,acoberto dafixa9ao dosefeitosdorecurso,fixa,comoregra, atitulo cautelar,aexecu9aoantecipadadasan9ao, em viola9aodo principio da proporcionalidade,doprincipiodo Estado de direito edoprindpio da proibi9ao doexcesso.

C. No acordao n.°376

/

2016,do TC,proferidoem8de junhode 2016, que analisoua mesma norma daLei daConcorrencia, foi deliberado, nao julgar inconstitucionala normasobre escrutinio, segundo a qual aimpugna9aointerposta de decisoes da Autoridade da Concorrenda que apliquem coimastem,emregra, efeito devolutivo, apenas lhe podendoseratribuidoefdtosuspensivoquandoa execu9aodadecisaocauseao visadoprejuizo consideraveleesteprestecau9ao.

D. O legislador ordinarioemobediencia as normasconstitudonaisgozademargemde liberdade legiferanteemmateriaderecursos,nos termosdas alineasb)e.d)don1doartigo 165.°daCRPepode restringir,desde querespeitadooprindpiodaproporcionalidade,osdireitosde defesaeaigualdadedos sujeitosprocessuais(onde tambemseincluem,necessariamente o acesso aodireitoe tutelajurisdicional efetiva).

E. A solu9ao legislativa processualconsagrada no n.°5 doartigo 84.° daLei da Concorrencia (obrigatoriedadepresta9aode cau9ao paraobten9ao do efeitosuspensivo dorecurso) naoederesto unica, podendo encontrar-se regime semelhante no ambito do direito processual penal, contraordenacional outributario,emvigornonossoordenamentojuridico.

F. A AdC adere inteiramente a fundamenta9ao e ao entendimento expressos no Acordao n.° 376

/

2016,noqual,expressamente, seesclarecequearegra processualdon

.

°5 doartigo84,°da Lei da Concorrencianaocriadificuldades excessivasematerialmenteinjustificadasaos visadosRecorrentese, comotal, naoviolao acessoaodireito nem odireitoatutelajurisdicionalefetiva(numeros1 e5 do artigo 20

.

°daCRP),osdireitos dedefesa(n.° 10doartigo32°daCRP),nemoprindpiodaproporcionalidade (n.°2doartigo18.°daCRP),nao sendo,por isso,inconstitucional.

G. A possibilidadedeumarguidorequereraatribu

^

aodeefeitosuspensivo quandoaexecu9ao da decisao condenatoria lhe causar prejuizo consideravel mediante presta9ao de cau9ao, permite salvaguardaroexerciciododireitodeimpugna9aoquandoaexecu9aoimediatada san9aopossa constituir umobstaculorelevante.

H. Cabe ao tribunala faculdade de, face ao casoconcreto, ponderarsobre a razoabilidade da suspensao,ounao,da execu9ao,atravesdo mecanismodapresta9ao dacau9ao,afixar nomontanteque

(3)

otribunalconsiderecorreto.

I. Emmomentoposterioraoreferido Acordaon.°376

/

2016,foidecididona1.asec9ao doTC, no acordaon

.

°674

/

2016 (com doisvotosdevencido),ondetambemseanalisaa(mesma) normacontida

nos numeros 4 e 5, do artigo 84,° da Lei da Concorrencia o seguinte juizo positivo de

inconstitucionalidade:

"[...] julgar inconstitucionala normaqueestabelecequeaimpugnaijao judicialdedecisoesda AutoridadedaConcorrenciaqueapliquemcoimatern,em regra,efeitodevolutivo, apenaslhe podendoseratribuldoefeito suspensivo quandoaexecufao dadecisaocauseaoVisado prejuizo consideravel e este preste cau

^

ao, em sua substitui

^

ao, no prazo fixado pelo tribunal, independentementeda suadisponibilidade economica,interpretativamenteextralvel dosn.os4 e5doartigo84. °daLein.° 19

/

2012

,

de8demaio".

J

. Anaouniformiza9aodejurisprudencepelo TCquantoa estaquestaopermitequesubsistaa

incerteza juddicaeque,na pratica,subsistamdois regimes antagonicos quanto a fixagaodoefeito de recurso:podeoTCRSnunscasos desaplicaranormaemcausaepermitiraumaarguida interporrecurso comefeitosuspensivosem presta

^

ao decau

^

aoe, noutros, fazer dependeraatribui

^

aodesseefeitoda

presta

^

aodecaufao,afetando o decurso normal dojulgamentodascontraordena

^

oespor viola

^

ao das

regrasdeconcorrencia,commanifesto impactona contagemdos prazosdeprescriqao.

K. NoAcordaon.°123

/

2018,dopassadodia6 de mar90 de2018,proferido pelo plenariodoTC, decidiu

-

se nao julgar inconstitucional a norma extralda dos n.os 4 e 5 do artigo 46.° do Regime SancionatoriodoSetorEnergetico,aprovadopelaLein.° 9

/

2013,de 28dejaneiro, cujoteor e emtudo identicoaodosn.os4 e5 doartigo 84.°da Leida Concorrencia.

L. Como bem seexplicitano Acordao:

"[..

.

]aregrado efeitomeramentedevolutivodaimpugna9aojudicial das decisoessancionatorias naoconstitulqualquer restr

^

aodireitaaodireito deacessoa justi9a.Entende-se,porem,que

ela implica uma restr

^

ao obllqua, na medida em que impoe um onus significativo - a demonstra9aodeprejuizoconsideravel e a presta9ao de cau9aosubstitutiva

-

, para a suspensao dosefeitosda decisaoimpugnada. Poroutraspalavras,alei naointerdita,mascondiciona,o acessoaostdbunais.

Ora tal argumentonaorelevaadistinqaoentreonusdeacesso ajust

^

apara impugnaravalidade de uma decisao sancionatoria e onus de suspensao da execu9ao da decisao sancionatoria impugnada.Uma coisaealei levantarobstaculosnoacessoajusti9aouonerar orecursoatutela jurisdicional;[...]umonusdeacessoaodireitoimportaqueosujeitosobreoqualimpedetenha deincorrernumprejuizo

-

ou,pelomenos,preencherporsua conta,determinada cond

^

ao-

parapoder realizaroseu interesse emprovocarainterven9aojudicial.Ataxadejusti9ainiciale o paradigmade um onusde acessoao direito,[...]porque implica queo recursoaostribunais

estacondicionadoaopagamento de umaquantiapecuniaria.

Coisa bemdiversaealei,semimporqualqueronusespecial para queoimpugnantediscuta em juizo avalidadede uma decisao sancionatoria estabelecerumonuspara queessaimpugna9ao tenhaporefeitoasuspensaoda execu9aodasan9ao. Nessecaso[...]naoseonerao acesso aos tribunaispara queestesapreciema justeza da condenaqaoproferidaeda san9aoaplicada no procedimento contraordenacional;oqueseoneraeaobten9ao de umavantagemnormalmente associada aimpugnaqao judicial das decisoes sancionatoriasdaAdmimstra9aono ambito de

(4)

T R I B U N A L C O N S T I T U C I O N A L

procedimento contraordenacional, mas que com ela indubitavelmente nao se confunde

-

a

suspensaoda execufao da sangao. Quetal onusnaodizrespeito aoacessoajusti

^

a,apenasaos

seusefeitos imediatosna decisaorecorrida, eoquedemostraofactode elenaoimpor qualquer cond

^

aoerecursoaos tribunalsouoneraradecisaopropriamenteditaderecorrer aostribunais, masapenasarealiza9aodointeresse-conexo, masdiverso,dointeresseemacederajust

^

a

-

deinibiraexecu9ao dasan9aoimpugnada".

-

cf.paragrafo12doacordao

.

M. O plenanodoTCafastao entendimento do TCRS relativamenteaefetiva9aodoprindpio do acessoaodireito eatutelajudsdicionalefetiva,aoconcluir queoexerdcio do direito deimpugna9aopor partedovisado,aoabrigodamencionada normanaoseencontrarestringidonoseu nucleo essendal.

N. On.°5doartigo 84.°daLeidaConcorrenciafaculta ao visado o efeitosuspensivodorecurso sema efetiva abla9ao doseupatrimonio,aopermitirapresta9ao deumagarantiadeboacobran9afutura, ao prever especificamente a prote9ao legal a situa9ao de um visado que nao disponha de meios economicosparaopagamento dacoima,peloquenaopodesustentar

-

sequeanormanegueoacessoa

uma tutela jurisdidonal efetiva,atendendo,deresto, aoalcance deste direito,previstonosartigos20°, n.°1e 268.°,n.° 4,daCRP.

O. Areformula9aodoRegime

Jurfdico

daConcorrencia visou acompanhar aevolu9ao verificada nalegisla9aoe jurisprudenciada Uniao Europeiaemmaterias depromo9aoedefesa daconcorrencia, mediante, designadamente, a introdu9ao de «mecanismos processuais semelhantesaos da Comissao Europeia».

P. A consagra9ao do efeito devolutivo no ambito dainterpos

^

ao do recurso de uma decisao

sancionatoria, pretende,tambem,implementar umamaior celeridadeno processo judicial, bemcomo asseguraroniveladequadodoefeitodissuasor do cometimento de infra9oesaoDireitodaConcorrencia, haveraqueefetuar a devidapondera9aoentreosinteressesaquiemcausa

.

Q. O legislador conciliou osinteresses de eficaciaedo efeito dissuasor e a restr

^

ao do efeito

devolutivo do recurso da decisaosancionatoria coma estipula9ao do n.° 5 do artigo 84

.

° da Leida Concorrencia,na medidaemque o bem tuteladopelanorma emcausaassumerelevanciaconstitucional.

R. A possibilidadedepresta9ao da cau9ao devera ser entendidacomoaressalva suficiente para naosubverternemmitigar desproporcionalmentea eficacia danormaaquiemcausa

.

S. O efeito devolutivo da interpos

^

ao do recurso consagrado em varios regimes contraordenacionaisespedficos,emdesviodo regime geral das contraordena9oes ecoimas,representa ainten9ao dolegisladordeconferirmaioreficacia aos poderessancionatoriosdasrespetivasentidades reguladoras,limitando ainterposi9aoderecursos sem fundamento,comintuitomeramentedilatorio

.

T. Alemdomais, emalguns regimes contraordenacionais, etambemcom um fim dissuasor do cometimento de infra9oes,olegisladorconsagrououtrodesvio aoregimegeraldascontraordena9oes, comaprevisaodareformatio in pejus.

U. Doexposto,aAdCpropugna pela constitucionalidadedosn.os4e5doartigo84.

°

daLei da Concorrencia,porquanto,entendequeomesmonaoviolaosprincipios constitucionaisconstantesdos artigos2°,16.

°

,17 °,18°,n

.

°5doartigo20°,n.os2e 10 doartigo32° todosdaCRP».

4 .

Regularmente notificados

, os

recorridos contra

- alegaram

, formulando as seguintes conclusoes:

(5)

«1.°Os"recorridos"concordamemabsolutocom adecisaoerespectiva fundamentagaoconstante do douto acordaodoTribunaldaConcorrencia, RegulagaoeSupervisao objectodopresenterecurso,o qualeexemplarna analise quefaz dasinconstitucionalidadesdas normasemaprego,nassuasdiversas

vertentes,atendendo,sobremaneira (oqueotorna justo,navertenteda justigasuumcuique tribueree nao abstractocomosepretendefazer"justiga"comosrecursosapresentados)aosentidocomumdavida easimplicagoes gravissimasqueaaplicagao singelade taisnormas podetrazeremconcrete

-

comono

caso subjudicepodesucede

-

paraosvisados(entenda-sequeaaplicagaodoart. 849,n°s4 e5do

NRJC

levara,com quasetodaacerteza,os"recorridos"aterdeabririnsolvencia,tal omontantedescomunal

-

e,diga-se,injustoepersecutorio-dacoima aplicada pela AdC.

2.°Detodososmodos oobjectoeasconsequencias dorecurso deinconstitucionalidade,como se passa emqualquer outro recurso,emedido em fungaodas respectivas conclusoes. Ora, nocaso em aprego,osrecursosapresentadosquer pelo Ministerio Publico, quer pelaAdCsao,qualquerquevenha a ser adecisao finalproferida pelo TribunalConstitucional, perfeitamente inocuos.uma vez quenao contemplam toda a materiadecisoria do douto despacho doTribunal da Concorrencia.Regulagaoe supervisao objeto derecurso,masapenasumprindpio juridico-constitudonal emconcreto,quandoo despachorecorrido e muito maisamplonaanalise quefaz dasinconstitucionalidades.

Nestestermosenosmais dedireitoaplicaveis,deveraserreconheddaa plenaejustacorregaodo despacho do Tribunal da Concorrencia, Supervisao e Regulagao objeto de recurso para o Tribunal Constitucionab).

Cumpre apreciar

edecidir.

II

-

Fundamentagao

5

. O

Tribunal

Constitucional ja apreciou,

em

Plenario

, no ambito

do

Acordao n.°

776 / 2019

(disponivel

emww\v.

txibunalconsritucional

.pt

)

. aconformidadecomaLei Fundamentalde

criterio normativo

substancialmente

identico

ao

que

constitui

objeto do

presente recurso.

Em

talaresto,este

Tribunal

decidiu«

nao julgar

inconstitucionala normado

artigo

84

.

°, n.°

5

, do

Regime Juridico

da

Concorrencia

,

aprovado pela

Lein.°

19 /

2012,de8demaio,a

qual

determina

que

a

impugnacao judicial

de decisoes da Autoridade da

Concorrencia que apliquem

coima tem, em

regra

, efeitomeramentedevolutivo,

apenas

Ihe

podendo

ser atribuldo

efeito suspensivo quando

a execugao da decisao cause ao visado

prejuizo

consideravel e este

preste

caugao, em sua substituigao»

.

E

pertinente aqui

retomar

os

excertos mais relevantes do referido aresto,

que

se transcrevemde

seguida

:

«12. A questao que se coloca no presente recurso e, pois, a da constitucionalidade da solugao consagradanosn.°s4 e5doartigo84°da Lein.°19

/

2012,de 8 de maio,deondeseextraiumanorma nos termosda qualaimpugnagao judicialda decisaoaplicativadecoimaproferida pelaAutoridade da Concorrencia emprocessocontraordenacionaltemefeitomeramentedevolutivo,ressalvadosos casos emqueaexecugaodadecisaocause«prejuizoconsideraveb)ao impugnantee emqueestepreste«caugao substitutiva» do pagamento imediato da coima, casos em que o efeito da impugnagao judicial e suspensivo.

(6)

T R I B U N A L C O N S T I T U C I O N A L /

(. . .)

Afastando-sedoregime geral das contraordenagoes, do qual resulta queo recurso de decisoes administrativascondcnatoriasemprocesses contraordenacionaistemefeitosuspensivo(allneaa) don.° 1 doartigo408.° doCodigodeProcessoPenalexviartigo41.° do RGCO),olegisladortemvindoacriar regimes espedficos de contraordenagoes em que a impugnagao judicial da sangao aplicada pela autoridade administradva e atribuido o efeito meramente devolutivo, permitindo a exequibilidade imediatada sangaoantesdotransitoem julgado dadecisao judicialqueaconfirme, altereourevogue.

Efetivamente,paraalem da normaaqui questionada, relativa aregulagaoda concorrencia (ardgo 84.°, n.°s 4 e 5,da Lei n.°19

/

2012,de 8 de maio),assimacontece emdiversosregimesde regulagao sectorial,comonosetordasaude(artigo67.°,n.° 5,dos Estatutos daEntidadeReguladorada Saude

ERS-, aprovados pelo Decreto

-

Lein

.

°126

/

2014,de22deagosto),nosetordaenergia(artigo 46

.

°,n

.

°s 4 e5,doRegulamento SancionatoriodoSetorEnergetico

-

RSSE

-

, aprovado pela Lein.°9

/

2013,de

28 de janeiro),no setor financeiro, (artigo 228

.

°-A do Regime Geral das Instituigoes de Credito e Sociedades Financeiras-RGICSF

-

aprovado peloDecreto-Lei n298

/

92, de 31 de dezembro, na

redagaointroduzida pelo Decreto-Lein.°157

/

2014,de 24 deoutubro),no setordos transportes(artigo 43°,n.°4, dos EstatutosdaAutoridadedeMobilidadeedosTransportes, aprovados pelo Decreto-Lei n

.

°78

/

2014,de 14de maio),nosetordacomunicagaosocial (artigo 75.°,n °4,dosEstatutosda Entidade Reguladora da ComunicagaoSocial, aprovados pelaLei n.°53

/

2005,de8 de novembro),e no setor

laboral e daseguranga social(artigo 35° daLein

.

°107

/

2009,de 14 de setembro,queaprovouoregime processualaplicavelascontraordenagoeslaboraisedeseguranga social).

13.A fixagao dosefeitosdaimpugnagao judicialda decisaoque aplicaumacoimatemsubjacente umconflitode interesses contrapostos:o daAdministragaoeodoacoimado

.

A Administragao interessa quea execugaoda coima seja celere eeticaz,istoe, quese inicie omais cedo eomais rapidamente posslvel;ao arguidointeressaquea execugao dacoima seja justa, istoe, quese inicieaposotransitoem julgadodaimpugnagao judicial, para que haja segurangadeque nao se sacrifica indevidamente o seu patrimonio. Naoha duvidaqueoefeitomeramentedevolutivo daimpugnagao, aopossibilitaraexecugao imediata da coima, protege a efetividade do poder sancionatorio da Administragao e que o efeito suspensivo,aoesperar pelo transitoemjulgado dacoima,protegeosinteressesdoacoimado.

Assim,osregimesespedficosdecontraordenagoes quea impugnagao judicial da coima aplicada pela autoridade administrativaassociamoefeitonao suspensivoaproximam-se docriterio seguido na

justiga administrativa quantoao efeitodasagoes deimpugnagao deatosadministrativos.De facto,ao atribuiroefeitomeramentedevolutivoaimpugnagao judicialdasdecisoessancionadorasproferidasem domlniosespedficosderegulagao,olegisladorpretendeu salvaguardaraeficacia da agaoreguladorade determinadas atividades,sem prejudicar a possibilidade dosvisados requerem a adogao de medidas cautelaresde suspensao da eficacia do atosancionador.A fungaodo efeito meramente devolutivo e justamentepermitiraexecugao imediata doatosancionadorpor razoesdeinteressepublico.Entende

-

seque,emcertassituagoes,oefeito suspensivoautomatico dadecisaosancionadoratemconsequencias negativas sobreaeficaciaeceleridadedaatividadefiscalizadoraerepressiva dasentidadesreguladoras.

E obvio que a nao suspensao de uma sangao pecuniaria nao e absolutamente necessaria para o funcionamento correto da Administragao; mas outras razoes, como a necessidade de prevenir comportamentos desviantes e deassegurarovalordasangaopecuniaria,prestam-se a justificaro efeito devolutivo.

(7)

E preciso ter presente que oefeito meramente devolutivo dos recursos relativos a decisoes de aplicaijaodecoimaseumanormaqueseinserenoambitodaregula9aodaeconomiaededeterminados setores economicos e sociais. Como refere Pedro

Gonsalves

, «uma das particularidades do direito administrativodaregula9aoconsistenaatribu

^

ao as entidadesreguladorasdefortes e drasticospoderes sobre os regulados», tendencia essa que se apresenta maisvisivel «nos domfnios da supervisaoeda pun

^

ao deinfra9oes praticadas pelos regulados»; e a tendencia para a previsao de sa

^

oes devalor

elevado, a aplicar por entidades que ja dispoem de fun9oes de regula9aoe decontrolo, «conduz a considerar

-

sequeopoder sancionatoriotern afun9ao de conferirerefor9araefetividadedospoderes deregula9ao ativa», podendo falar

-

se, nestecontexto, «de uma for9a dinamica das san9oes e da sua compreensao como instrumento de orienta9ao, ao servi90 da politica de regula9ao» (Regula9ao, Eletricidadee Telecomunica9oes, EstudosdeDireito AdministrativodaRegula9ao, CoimbraEditora, pag.50e54).

E nesse sentidoquesecompreendema disposi9oesdaLeidaConcorrenciarelativasaosrecursos judiciais.Queraprevisaodoefeitomeramentedevoludvodorecurso, querapossibilidadedereformatio inpejustemporobjetivodesincentivaraapresenta9aode recursosjudiciais injustificados,compropositos

meramentedilatorios, procurandorefor9araefetividade eceleridadedaimplementa9ao dasnormasda concorrencia

. L

oqueseconcluiunoAcordaon

.

°376

/

2016:

«Antecipa

-

se,semdificuldade,queolegislador,namodela9aodoregimedeimpugna9ao das decisoessancionatorias proferidas por tais entidades administrativas, tenhaponderado a necessidade de conferir maior eficacia aos respetivos poderes sancionatorios, de modo a garantir,nopiano substantivo,umamaiorprote9ao aosvaloresebenstuteladosnosespeclficos dominios normativos em que atuam.Atribuindo, em regra, efeito devoludvoao recurso, e condicionando o efeito suspensivo a presta9ao de cau9ao e a existencia de «prejurzo consideraveb),procura-seminimizar os recursosjudiciais infundados cujo objetivo seja protelar no tempo o pagamento da coima.Se conjugarmosaop9aolegaldeatribuiraimpugna9aoefeito

meramentedevolutivo,comoafastamento daregradaproib

^

aodareformatio in pejusvigente no regime geraldascontraordena9oes,queeS0IU9S0tambem consagradanaLeidaConcorrencia (artigo 88.°, n1), maior evidencia assumeo propositodesincentivador subjacentea nova regulamenta9ao legal sobre a materia (concluindo pela nao inconstitucionalidadede solu9ao equivalenteconstantedoartigo416

.

°, n.°8,doCodigo dosValoresMobiliarios,cfr.Acordao doTribunal Constitucionaln.°373

/

2015).»

Objetivoque,desdelogo, foi expressonaexpos

^

aodemotivosdaPropostadeLein.°45

/

XII,que

esteve naorigemda Lein.°19

/

2012,de 8demaio.Areformula9ao doRegime

Juridico

daConcorrencia visou, alem do mais,assegtirar o cumprimento de medidas constantes do Programa de Assistencia Economica eFinanceira(PAEF),precisamentenosentido de«refor9araeficienciaeaplica9aodasregras daconcorrencia»,deacordocom as linhas deorienta9aoentaodeEnidas,entreelas,ade «simplificar a lei e introduzir maior autonomia das regras sobre a aplica9ao de procedimentos de concorrencia relativamente asregras de procedimentos penais e administrativos» e a de «aumentar a equidade, a celeridade e a eficiencia dos procedimentos de impugna9ao judicial de decisoes da Autoridade da Concorrencia».

E comigual proposito,no ponto 6doparecerdaAutoridade da ConcorrenciasobreessaProposta, refere-se a necessidade deintroduzir «incentivos que limitem a utiliza9ao do recurso como pratica puramentedilatoria, taiscomo a elimina9ao do efeitosuspensivo do recursoem termosdecoimas»,

(8)

T R I B U N A L C O N S T I T U C I O N A L

comouminstxumentode«maior equidadeeeficiencianosistemade recursos judiciais»

.

14.Aquestaodaconslitucionalidade do efeitomeramentedevolutivo daimpugnagaodas decisoes de aplica9ao decoimasfoiapreciadapelo Tribunal Constitucionalemrecursosdefiscaliza9aoconcreta

que tiveram por objeto normas semelhantes extraidas de regimes contraordenacionais atinentes a entidadesreguladoras

.

Em rela

^

ao aosetordasaude,a normaquedeterminavaqueorecurso deimpugna9aodasdecisoes finaiscondenatorias da ERS,queimponhamuma coima,tern,porregra,efeitomeramentedevolutivo, ficandoaatribui

^

aodeefeito suspensivo sujeita apresta

^

ao decau9ao ealega9aodeprejuizo consideravel

-

constantedoartigo67°, n

.

°5,dosEstatutos daERS,aprovadospelo Decreto-Lein.°126

/

2014,de 22

de agosto

,apostersido julgadainconstitucional pelos Acordaosn.°s335

/

2018,336

/

2018,363

/

2018

e 394

/

2018, foideclaradainconstitucional,com for9aobrigatoriageral, pelo Acordaodo Plenarion.° 74

/

2019,porviola9aodareservadecompetencia legislativada Assembleiada Republica, constantedo artigo165

.

°,n.°1,alineasb) e d),em conjuga9ao com oartigo32 °,n.°s2 e10,ambosda

Constituto

.

Tratou-se, porem, de inconstitucionalidade organica derivada da compressao sem autoriza9ao parlamentardedireitofundamentalde naturezadosdireitos,liberdades egarantiasedoregime geraldo processocontraordenacional

.

Quantoaosetordaenergia,umanorma de semelhantesentido juridico-extraidadoardgo46°,n °s 4 e5,doRegimeSancionatorio do SetorEletrico(RSSE)

foijulgada inconstitucional pelo Acordaon

.

°

675

/

2016, daV Sec9ao,e julgada naoinconstitucional pelo Acordao n.°397

/

2017,da 3’ Sec9ao.A divergencia entreos dois acordaos foi resolvidapelo Acordao do Plenarion.°123

/

2018,quedecidiu

«naojulgar inconstitucionala normaextraidadosn.°s4e5 doartigo46 °do Regime Sancionatoriodo Setor Energetico,aprovadopelaLein.°9

/

2013,de28dejaneiro,aqual determinaqueaimpugna9ao judicial das decisoes finais condenatoriasaplicativas decoima da Entidade Reguladora dos Servijos Energeticosem processo decontraordena9ao tern, por regra,efeitomeramentedevolutivo, ficandoa

atributo

deefeito suspensivocondicionadaa prestaqaode cau9ao substitutivaeaverifica9aode um prejuizoconsideravel, paraaimpugnante,decorrente daexecu9aodadecisao».

Porultimo,noque respeitaao setorfinanceiro,oAcordaon.°470

/

2018,aplicandoaessesetoras considera9oes que o Acordaon.° 123

/

2018 fezsobrenormaidenticadosetordaenergia, nao julgou inconstitucional a norma extraida do artigo 228.°

-

A do Regime Geral das

Institutes

de Credito e

Sociedades Financeiras, aprovado pelo Decreto

-

Lei n.° 298

/

92, de 31 de dezembro, na reda9ao introduzidapelo Decreto-Lei n

.

° 157

/

2014,de 24 de outubro

,

oqualdeterminaqueaimpugna9aode decisoes proferidas pelo Banco de Portugalso ternefeito suspensivoseorecorrente prestargarantia,no prazode20 dias,novalorde metadedacoima aplicada,salvose demonstrar,emigualprazo,que naoa

podeprestar,no todo ouemparte, porinsuficiencia de meios.

15. O Acordao n.°123

/

2018

que resolveu o conflito de jurisprudencia gerado pelosAcordaos n.°s675

/

2016e397

/

2017

considerouaplicaveisaocasodaERSE asconsidera9oesfeitasnoAcordao

n.° 376

/

2016,apropositoda AutoridadedaConcorrencia.Porsua vez, nesserecurso deuniformiza9ao de jurisprudencia, o acordao fimdamento

Acordao n.° 675

/

2016

transpos a fundamenta9ao do

Acordao n.° 674

/

2016, relativo a uma decisao da Autoridade da Concorrencia que em processo contraordenacional aplicouuma coima.Ora,tendooacordaorecorridoneste processo

Acordao n

.

°

445

/

18-remetido paraoAcordao674

/

2016,dir

-

se-aqueadivergenciacomoAcordaon.° 376

/

2016

estaimplicitamentesolucionadapeloAcordaodo Plenarion.°123

/

2018.

i

1

(9)

Nao obstantea regulagaoda concorrencia atingir a generalidade dos operadores economicos

regulagao transversal nada obsta a que os fundamentos que justificam o juizo de nao inconstitucionalidadeda norma queimpoeo efeitomeramentedevolutivodaimpugnagao decoimas aplicadasnosetordaenergia sejam aplicaveisa normasemelhanteexistente naquela regulagao.Eque, para alem da regulagao da concorrencia tambem constituir uma forma de intervengao publica na economia,como se pode ver nos respetivos regimes legais,os principios orientadoresdasregulagoes sectoriaisencontram-se,emlargamedida,presentesnodireitodaconcorrencia

.

Dai que os fundamentos que sustentam o Acordao n.° 123

/

2018 sejam transponiveis para a resolugao do conflito de jurisprudence pressuposto no presente recurso

.

Nesse acordao,oTribunal confrontouumanormasemelhantecomosmesmosparametrosconstitucionais queadecisao recorrida invoca parasustentar ainconstitucionalidade da norma contida nos n.°s 4e5doartigo84.°daLeida Concorrencia: o direito a tutela jurisdicional efetiva consagrado no artigo 20.° da Constituigao, e concretizado,noambitoda justigaadministrativa,noartigo 268.°, n.° 4da Constituigao,entendidoem articulagao com o prindpio da proporcionalidade implicado no artigo 18.°. n2 e o principio da presungao de inocencia em processo contraordenacional, decorrente do artigo 32.°, n

.

°s 2 e10, da Constituigao.

A esseproposito,escreve

-

senoAcordao 123

/

2018:

«9

.

A regra do efeito meramente devolutivo da impugnagao judicial de decisoes da ERSE aplicativas de coima

regra essa que constitui uma excegao ao Regime Geral das

Contraordenagoes(artigo408.°, n.°1,alinea a),do CodigodeProcessoPenal, aplicavelexvi do dispostonoartigo41.°,n.°2,do RGCO,aprovadopelo Decreto-Lein

.

°433

/

82,de27de outubro)

,baseia-sena naturezaenasatribuigoesdasentidadesreguladorasindependentes,razaopela qual tambem e acolhida nos regimes homologos respeitantes, por exemplo, a Autoridade da Concorrencia, aEntidade ReguladoradaSaudee ao Banco dePortugal.

Comoseescreveu,aesseproposito,no Acordaon.°376

/

2016:

«Embora esteja em causa questao de inconstitucionalidade incidente sobre um especto especifico e parcelar, de natureza processual, do regime de impugnagao judicial das decisoes proferidaspela AutoridadedaConcorrencia,noexerciciodospoderessancionatorios quealeiIhe confere, a avaliagao da constitucionalidade das normas do artigo 84

.

°, n°s 4 e 5, da Lei da Concorrencia,naopodedeixar deconsideraroutrosaspetosderegimequeseprendem, quercom aconfiguragaoorganico

-

funcional da Autoridade da Concorrencia,quercomosistema decontrolo judicialaqueestaglobalmente sujeitaasuaatuagao.

Alei defineaAutoridadedaConcorrencia como uma«pessoa coletivade direitopublico,com a natureza de entidade administrativa independente, dotada de autonomia administrativa e financeira,deautonomiade gestao,deindependence organica,funcionaletecnica,edepatrimonio proprio», que «tem por missao assegurar a aplicagao das regras de promogao e defesa da concorrencia nos setores privado, publico, cooperative e social, no respeito pelo principio da economia de mercado e de livre concorrencia, tendo em vista o funcionamento eficiente dos mercados,aafetagaootimadosrecursos eos interesses dosconsumidores,nostermosprevistosna lei e nos [seus] estatutos»(artigo l

.

°, n°s.1 e 2, dos Estatutosda Autoridade daConcorrencia, aprovados pelo Decreto

-

Lein.°125

/

2014,de18de agosto).

(10)

T R I B U N A L C O N S T I T U C I O N A L

Parao desempenhodassuas atribuigoes,aAutoridade daConcorrencia dispoede«poderes sancionatorios,desupervisaoederegulamentagao»,competindo-lheespecificamente«[i]dentificar einvestigaroscomportamentossuscedveisdeinfringiralegislagao deconcorrencianacionaleda Uniao Europeia,nomeadamente em materia depraticasrestritivasdaconcorrenciaedecontrolo de operagoes de concentragao de empresas, proceder a instrugao e decidir sobre os respetivos processos, aplicando, sefor casodisso,assangoesedemais medidas previstas na lei;[cjobrar as coimas estabelecidas na lei; e [ajdotar medidas cautelares, nos termos do regime juddico da concorrenciaedeoutrasdisposigoeslegaisaplicaveis»(ardgo6

.

°,n.°s1 e2,dosEstatutos).

Por outrolado, a lei expressamente sujeita os representantes legais das empresas e outras entidades destinatarias da suaatividadea «obrigagaodecolaboragao», quese traduz nodever de prestagaodeinformagoeseentrega de documentosaAutoridade daConcorrencia,semprequeesta o solicitar (artigos 15.°da Lei da Concorrencia),tipificandocomocontraordenagaopunivelcom coima«[a]nao prestagao ouaprestagaodeinformagoes falsas, inexatasouincompletas,emresposta a pedidodaAutoridade da Concorrencia,no usodos seus poderes sancionatorios» (artigo 68.°, alinea h),da LeidaConcorrencia)

.

Avaliando,emcontexto,anaturezae aorigemdasautoridadesreguladoras independentes,a doutrinatem salientado a sualigagaoaosfenomenosdaliberalizagao do mercado emfungaode duasprincipais ordensdeconsideragoes

.

Por um lado,reconhece-sequearegulagaotemumalogica especifica,quedeveserseparadatantoquantoposslveldalogicapolitica,emespecialados ciclos eleitorais, tornando

-

se necessario estabeleceradequadadistanciaentrea politicaeo mercado,de modoaconferir-lheaestabilidade,previsibilidade,imparcialidadeeobjetividade.Poroutrolado,a aberturaaconcorrencia desetoresdeatividadequeantes seencontravamsujeitosainfluenciaestatal trouxeconsigoanecessidadedeseparararegulagaodofuncionamentodo mercadoeaintervengao das entidadespublicasenquantosujeitos economicos

.

B

a atribuigao de independencia organica, txaduzida na impossibilidade de destituigao discricionaria pelo Governo dos titulares dos orgaos diretivos das entidades reguladoras, e de independencia functional, que subtrai essas entidades ao poder de superintendencia e tutela governamentais,que permite resolveressadualidadedo papeldo Estadoemrelagaoasetoresdo mercado liberalizados (cfr

.

Fernanda Magas, «0 controlo jurisdicional das autoridades administrativasindependentes», in Cadernos deJustiga Administrativa,n.°58,julho

/

agosto 2006, pags

.

22

-

23).

E

precisamentecombaseemtaiscaracteristicasquesetementendidoqueosurgimentodas entidades reguladorasescapa aoscanones tradicionais declassificagao daestmturae fungoes do Estado,havendoquemlhes reconhega umanatureza«quase

-

jurisdicional)>oumesmo aexpressao deumaespeciede«quartopoder»,o quenaopode deixardeteralgumreflexonasclassicasestruturas

normativasque tradicionalmente saochamadasaregularoexerciciodo poder sancionatorio por partedaadministragaopublica (cff.FernandaMagas,ob.cit., eAlexandre deAlbuquerque

/

Pedro

deAlbuquerque,«0controlo contencioso daatividadedas entidades deregulagaoeconomica»,em RegulagaoeConcorrencia,Almedina,pag.268).

(. . .)

Antecipa-se,sem dificuldade,queolegislador,na modelagaodo regimedeimpugnagaodas

(11)

decisoes sancionatorias proferidas por tais entidades administrativas, tenha ponderado a necessidadede conferir maioreHcaciaaosrespetivos poderessancionatorios,de modoagarantir, nopiano substantivo,umamaior prote

^

aoaos valores e bens tutelados nosespedficosdominios normativosem queatuam.Atribuindo, emregra,efeitodevolutivoao recurso,e condicionandoo efeito suspensivo a presta

^

ao de caufao e a existencia de «prejuIzo consideravel», procura

-

se

minimizar os recursos judiciaisinfundadoscujo objetivo seja protelarno tempo o pagamento da coima.(...)».

10. As considera

^

oes feitas no Acordao n.° 376

/

2016, a proposito da Autoridade da Concorrencia,saoplenamenteaplicaveisao casoda ERSE,comoereconheddo no Acordao n

.

° 675

/

2016

.

Nos termos dosseusEstatutos (aprovadosemanexoao Decreto-Lein.°97

/

2002,de 12 de

abril,porsuavez alteradopdo Decreto-Lein.°200

/

2002,de 25 de setembro,revistos pelo Decreto- Lei n.° 212

/

2012,de25desetembro,enovamentealterados erepublicados peloDecreto-Lein.° 84

/

2013 de25de junho),aERSE e uma pessoa coletiva de direito publico,com a naturezade enddadeadministrativaindependente (ardgo l.°,n.° 1),investida decompetenciasde regula9ao, regulamenta

^

ao, supervisao,fiscaliza

^

aoesancionatorias(artigol

.

°,n.° 2).

AERSEtempor objetoaregula9aodossetoresdaeletricidadeedogasnatural,bemcomoda atividade de gestao deopera9oesda rede de mobilidade eletrica,emconformidade com odisposto noregimedeenquadramentodasenddades reguladoras,nalegisla9aosetorial,nos seusEstatutos, enaregulamenta9aoaplicavel,aoruvelnacional,daUniao Europeiaeintemacional(artigol.°,n.° 3),sendoindependentenoexerdciodas suas fun9oes(ardgo2.°,n

.

°2).Aregula9ao daERSEtem

por finalidade promovera eficiencia e a racionalidade das advidades dos setores regulados,em termos objetivos, transparentes, nao discriminatorios e concorrenciais, atraves da sua continua supervisao e acompanhamento, integrados nos objedvos do mercado interno e dos mercados ibericos,daeletriddadeedogasnatural(artigo3.°, n.° 1)

.

(. . .)

11. Eointensointeressepubliconaeficadadaregula9aodosmercadosenergeticos,decorrente dapremenciadas necessidadesquesatisfazem,daexpressao economicadaadvidade que neles se desenvolve e daimportanciaestrategicadapolidca que lbesdizrespdto, queexplicaapreocupa9ao dolegisladoremgarantiraefetividadedas coimasaplicadaspela ERSE

.

A regra do efeitomeramente devolutivodaimpugna9aojudicial,nostermos daqualestanao obsta a execu9ao dasan9ao,tem

por desideratos pdncipais acautelar o cumprimento das san9oes pelas enddades sancionadas e dissuadirorecursoaostribunals com intuitodilatorio.

Restasaberseo meio dequeolegisladorseserve

aregradoefeitomeramentedevolutivo

da impugna9ao judicial de decisao sancionatoria aplicadva de coima

, para prosseguix essas

finalidades de interesse publico, em si mesmas perfeitamente legidmas, e constitucionalmente censuravel, designadamente por violar direitos fundamentos dos recorrentes ou garantias constitucionaisdoarguidoemprocessosancionatorio. Na decisaorecornda,entende-seser esse o caso, em virtude, quer do direito a tutela jurisdicional efetiva (ardgos 20.° e 268.°, n.° 4, da Constitu

^

ao), quer do principio da presun9ao de inocencia (artigos 32.°, ns 2 e 10, da

Constitui9ao), emambosos casosconjugadoscomoprincipiodaproib

^

aodoexcesso(ardgo18.°,

n.°2,daConsdtui9ao)

.

Referências

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