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A evolução da sociedade, o código de defesa do consumidor e liberdade Norma Sônia Novaes Campos

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V ENCONTRO INTERNACIONAL DO

CONPEDI MONTEVIDÉU – URUGUAI

DIREITO, GLOBALIZAÇÃO E RESPONSABILIDADE

NAS RELAÇÕES DE CONSUMO

FREDERICO DA COSTA CARVALHO NETO

VIVIAN DE ALMEIDA GREGORI TORRES

(2)

Copyright © 2016 Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito

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Direito, globalização e responsabilidade nas relações de consumo [Recurso eletrônico on-line]organização CONPEDI/UdelaR/Unisinos/URI/UFSM /Univali/UPF/FURG;

Coordenadores: Carlos López, Frederico da Costa carvalho Neto e Vivian de Almeida Gregori Torres –

Florianópolis: CONPEDI, 2016.

Inclui bibliografia ISBN: 978-85-5505-250-7

Modo de acesso: www.conpedi.org.br em publicações

Tema: Instituciones y desarrollo en la hora actual de América Latina.

CDU: 34 ________________________________________________________________________________________________

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Florianópolis – Santa Catarina – Brasil www.conpedi.org.br

Comunicação – Prof. Dr. Matheus Felipe de Castro – UNOESC

Universidad de la República Montevideo –Uruguay

www.fder.edu.uy

(3)

V ENCONTRO INTERNACIONAL DO CONPEDI MONTEVIDÉU

– URUGUAI

DIREITO, GLOBALIZAÇÃO E RESPONSABILIDADE NAS RELAÇÕES DE CONSUMO

Apresentação

Os trabalhos foram apresentados no Grupo de Trabalho “Direito, Globalização e

Responsabilidade nas Relações de Consumo I", durante o V Encontro Internacional do

CONPEDI, ocorrido entre os dias 08 a 10 de setembro de 2016, na Faculdade de Direito da

Universidade da República do Uruguai, sobre o tema “Instituciones y desarrollo en la hora

actual de América Latina”.

Os artigos provocaram amplos debates e a efetiva troca de experiências entre pesquisadores

dos dois países, atingindo os objetivos do encontro para a divulgação da pesquisa

sul-americana. O esforço e a dedicação dos participantes foram fundamentais para o sucesso do

Grupo de Trabalho como se pode observar na profundidade dos artigos adiante apresentados:

1- A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE, O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E

LIBERDADE – A autora aborda a evolução tecnológica e seu impacto no mercado de

consumo com ênfase na liberdade de escolha por parte dos consumidores no comércio

eletrônico e sua proteção pelo ordenamento jurídico, notadamente pelo Código de Defesa do

Consumidor que têm dentre os direitos básicos dos consumidores o direito à livre escolha.

2- A PARTICIPAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA INTERNACIONAL NA

GOVERNANÇA SOBRE A EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO OFFSHORE - Neste estudo

os autores abordam o desenvolvimento do Direito Internacional Público, em especial, o

surgimento de novos sujeitos e atores, bem como a intensificação da complexidade das

relações internacionais. Sob este ângulo, a governança surge como procedimento

democrático para auxiliar na tomada de decisão sobre assuntos de interesse global,

especificamente com relação a proteção sobre a exploração de petróleo offshore e sua

relevância socioeconômica e ambiental, apontando os mecanismos da IMO (International

Maritime Organization), para a promoção da governança no setor.

3- A RELAÇÃO ENTRE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO

CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR VERSUS A PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR

VULNERÁVEL - A temática, proposta pelos autores, trouxe a discussão da efetiva

(4)

direitos do consumidor, concluindo que esta possui a finalidade de adequar a pessoa jurídica

aos seus intentos iniciais, coibindo seu uso indevido, protegendo, assim, o consumidor na

sociedade de consumo.

4- A RELAÇÃO TRABALHO-CONSUMO NA MODERNIDADE LÍQUIDA - As autoras,

analisaram as interações entre trabalho e consumo no contexto de um capitalismo

globalizado, utilizando-se das alterações paradigmáticas de valores que ensejaram o que

Zygmunt Bauman denominou de modernidade líquida. Investigaram as novas conformações

assumidas pelo trabalho e pelo consumo, analisando criticamente o poder de influência que o

consumo, em sua modalidade consumista, exerce sobre as relações laborais e, precipuamente,

sobre o trabalhador. Concluindo que numa sociedade predominantemente de consumo, o

trabalho e o trabalhador tendem a ser instrumentalizados, culminando na inconcebível

objetivação e patrimonialização do Direito do Trabalho

5- ESPAÇOS POLÍTICOS DE DELIBERAÇÃO NO ÂMBITO DA POLÍTICA

NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO E SEUS DESAFIOS - Os autores abordam

a importância da democracia participativa para demonstrar a responsabilidade cívico/política

do consumidor com relação ao sistema protetivo da relação de consumo, bem como o papel

do Estado como fomentador da atuação cívica da sociedade civil e as novas perspectivas de

concretização de uma democracia deliberativa.

6- FORNECEDOR BYSTANDER POR CATIVIDADE MARCÁRIA NO CO-BRANDING

- Neste artigo, os autores, estudaram a utilização do co-branding como tática empresarial para

a ampliação e fidelização de mercado, com vistas a identificar a responsabilização pelos

danos advindos do fornecimento com uso do co-branding. Sob esta perspectiva analisaram a

natureza da relação de consumo, fundamental para a responsabilidade civil, levando em

consideração que as marcas são vitais aos negócios contemporâneos por atraírem os

consumidores. Assim, apresentaram a relação de consumo na hipótese do co-branding e sua

responsabilização civil a partir do fenômeno de sua catividade marcária, estendendo para o

campo dos fornecedores a figura do bystander.

7- INFORMAÇÃO E LAZER, ATENDIMENTO DAS NECESSIDADES DOS

CONSUMIDORES E O DIREITO DE LIVRE ESCOLHA NOS SERVIÇOS DE

TELEVISÃO POR ASSINATURA - O Autor aborda a subtração do direito de escolha do

consumidor na aquisição de serviços, tomando como exemplo os serviços de televisão por

assinatura. Analisa os direitos à informação e ao lazer assim como a ordem econômica, a

livre concorrência e a defesa do consumidor. A autonomia privada e a intervenção do Estado

(5)

Consumo, e o objetivo do atendimento das necessidades dos Consumidores e sua perseguição

pelo Estado, o Direito a livre escolha comprometido pelo advento da Lei nº 12.485/2011.

8- OS ESTÍMULOS CONSUMERISTAS FRENTE À PUBLICIDADE ALIMENTAR: UM

ESTUDO COMPARADO SOBRE A INFLUÊNCIA DAS MÍDIAS NO SURGIMENTO DA

OBESIDADE INFANTIL NO BRASIL E NO URUGUAI. - A pesquisa das autoras,

apresentou um importante corelacionamento entre a saúde infantil e os estímulos

consumeristas da sociedade moderna, demonstrando que a exposição dos infantes à

publicidade do consumo contribui para o desenvolvimento de doenças precoces,

especialmente as relacionadas aos problemas com a obesidade infantil. Ao final, analisaram a

existência, de forma comparativa, das normas regulamentadoras da temática no Brasil e no

Uruguai.

9 - OS RISCOS DOS COMPONENTES QUÍMICOS DAS EMBALAGENS PLÁSTICAS E

A IMPUTAÇÃO COLETIVA DE GUNTHER TEUBNER - Sob este tema, a autora,

demonstrou a extensão interdisciplinar do direito do consumidor com a saúde e o meio

ambiente, partindo para tanto da matriz pragmático-sistêmica, através da observação da

relação entre os riscos dos componentes químicos das embalagens plásticas em contato com

os alimentos, da cadeia industrial do setor dos plásticos e da imputação na responsabilidade

civil. O estudo teve por objetivo final demonstrar que em razão de haver uma rota produtiva

que envolve variadas organizações, depara-se com a dificuldade da imputação singular e, ao

mesmo tempo, realizar uma associação com à noção de imputação coletiva de Gunther

Teubner.

10 - PRIMEIRAS LINHAS ACERCA DO TRATAMENTO JURÍDICO DO ASSÉDIO DE

CONSUMO NO BRASIL - Neste trabalho, os autores, analisaram o assédio de consumo,

objetivando esboçar os contornos dogmáticos de uma figura ignorada pelo direito brasileiro.

Buscaram identificar as características mais salientes da Sociedade de Consumo e

desenharam uma proposta de tratamento das patologias havidas nesta seara, sustentando, ao

final, a possibilidade, mesmo na ausência de regra específica sobre a matéria, de tutela dos

consumidores, eventualmente, assediados pelo Mercado.

11 - RESPONSABILIDADE CIVIL DAS CELEBRIDADES NA PUBLICIDADE ILÍCITA

- O autor, abordou a complexidade da publicidade no Direito do Consumidor, sob o ângulo

da possibilidade de esta vir ser veículo de ilicitude que, com frequência, lesa os

consumidores. Demonstrou que a eficiência publicitária depende do seu poder de persuasão e

da credibilidade de suas fontes emissoras, deixando claro o papel fundamental das

(6)

com que muitos consumidores acreditem nas suas opiniões, preferências e recomendações.

Sob este aspecto, o estudo buscou a possibilidade de responsabilização civil das celebridades

que participam de publicidades em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor.

12 - RESPONSABILIDADE CIVIL DAS REDES SOCIAIS PELOS DANOS CAUSADOS

POR SEUS USUÁRIOS - O tema tratado pelos autores traz uma questão incômoda da

sociedade moderna, relacionada à dificuldade de responsabilização das redes sociais pelo

conteúdo nelas veiculados. Os pesquisadores sustentam que as empresas mantenedoras de

redes sociais na internet podem ser responsabilizadas pelos danos causados por seus usuários,

para tanto, propõem uma interpretação analógica do artigo 13 do Código de Defesa do

Consumidor, para que as redes sociais respondam pelos danos causados por meio de suas

plataformas, quando não for possível a identificação do usuário causador do dano.

13 - SUPERENDIVIDAMENTO E FALÊNCIA IDENTITÁRIA: A SOLIDARIEDADE

SOCIAL COMO MECANISMO DE REVITALIZAÇÃO DO SER HUMANO - A discussão

trazida pelo autor teve por elemento central demonstrar que a dignidade da pessoa humana,

numa sociedade consumista, está intrinsecamente atrelada à participação do cidadão no

consumo de bens e serviços para sua subsistência. Neste ambiente, a falência identitária do

ser humano, retira-lhe a essência de protagonizar negócios jurídicos, além de produzir sua

exclusão social e esfacelar sua identidade na sociedade globalizada, rompendo sua natureza

humana para convívio digno com seus pares. Como solução a este problema, o autor, propõe

o restabelecimento de padrões mínimos existenciais e a garantia da reintegração social do

cidadão superendividado, havendo necessidade de se efetivar mecanismos de proteção aos

consumidores através da solidariedade social como base de interlocução jurídica dos agentes

econômicos.

14 - ¿PORQUE , OS PARAÍSOS FISCAIS OFFSHORE CENTROS GERAM RISCO DE

LAVAGEM DE DINHEIRO? - A autora analisou tema significativo, de pouco interesse

investigativo, tendo em vista seu caráter sensível, especialmente relacionado com à lavagem

de dinheiro. Ressalta a importância do esclarecimento da origem dos Paraísos Fiscais e seu

impacto sobre questões jurídicas, bem como os riscos advindos da existência destes com

relação à lavagem de dinheiro.

Como se vê pela leitura dessa apresentação, os artigos exploraram de forma abrangente a

pluralidade da temática decorrente da Globalização e as relações de consumo, analisando a

questão não só sob o prisma do direito do consumidor, mas também a relação deste com os

direitos fundamentais e outros ramos do direito, tais como, direito do trabalho, direito

(7)

Além disso, importante destacar que as discussões desenvolvidas no âmbito do Grupo de

Trabalho, propiciaram uma troca de experiências quanto ao tratamento de assuntos análogos

entre países coirmãos.

Por fim, esperamos que o presente trabalho seja fonte de inspiração para o desenvolvimento

de novos projetos e textos em defesa de uma relação de consumo mais justa e transparente.

Prof. Dr. Carlos E. Lopez Rodríguez - UDELAR

Prof. Dr. Frederico da Costa Carvalho Neto - UNINOVE

(8)

A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE, O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E LIBERDADE

THE EVOLUTION OF SOCIETY, THE CONSUMER PROTECTION CODE AND FREEDOM

Norma Sônia Novaes Campos

Resumo

O presente artigo visa discutir questões relacionadas aos direitos humanos no contexto do

direito do consumidor. Mostra como a evolução tecnológica conduz uma revolução cultural

transformando indivíduos em consumidores. Daí surgem novos desafios em como assegurar

tais direitos neste sistema mais complexo. O sistema jurídico brasileiro inova quando

contundentemente respalda o direito do consumidor como indivíduo vulnerável tanto na

Constituição quanto em lei específica, o Código de Defesa do Consumidor. E vai ainda mais

além, uma vez que assegura o acesso a uma genuína liberdade na relação de consumo.

Palavras-chave: Consumidor, Código de defesa do consumidor, Liberdade

Abstract/Resumen/Résumé

This paper wish to debate between human rights in the consumer law context. Shows how the

tcnological revolution has changed indivivuals making them a consumer. Then emerge new

challenges such to ensure rights in a complex juridic order. The Brasilian system bring

inovations when protect the consumer rigths, as a right of vulnerable individual, in both

Constituition and Consumer Protect Code. And goes beyond, is a real mechanism to access a

genuine freedom in consumption relationship.

Keywords/Palabras-claves/Mots-clés: Consumer, Consumer protection code, Freedom

(9)

INTRODUÇÃO

O direito do consumidor é uma abstração basilar, pode ser considerado um direito

humano fundamental, uma vez que é essencial para o perfeito desenvolvimento humano,

tendo efeitos em diversas esferas da vida humana. Está presente no consumo de gêneros

alimentícios, de serviços educacionais, de serviços médico-hospitalares, de transportes,

imperativamente demandado nos serviços envolvendo a tecnologia da informação e por aí vai,

tendo desdobramentos em todos as esferas da vida moderna. A importância inata deste

direito é fato próprio e a forma com se processa sua transformação nos dias atuais é

objeto de discussão em diversas rodas jurídicas.

As transformações sociais, políticas e econômicas vivenciadas no último

século e ainda em curso transformaram drasticamente a maneira como as pessoas

vivem e se relacionam. O comércio se tornou universal e presente em todas as

economias. As cadeias produtivas se tornaram mais complexas e ao mesmo tempo

mais interdependentes. O fabricante de determinado bem precisa estar bem coadunado

com toda uma cadeia produtiva à montante (de insumos) e também coadunado com

outra à jusante (o mercado).

Tal sistematização econômica coloca todos em um mesmo barco: o barco dos

consumidores. Todos, indistintamente da posição que ocupamos na sociedade, somos

consumidores mesmo que sejamos fornecedores de algum produto na cadeia

econômica. Tal traço reforça ainda mais a necessidade de um olhar atento e específico

para a relação de consumo, já que figura como preponderante no desenvolvimento e

estabilidade da sociedade moderna. Inevitável não conjecturar, neste contexto, como

respaldar o direito do consumidor. Um direito cada vez mais em voga desde o

surgimento do homos economicus.

No Brasil o direito do consumidor vem na esteira da maior complexidade que

a vida humana adquiriu no contexto da vida moderna. Vem suprir lacunas que ficaram

entre os tradicionais normativos que não foram capazes de acudir com eficiência as

demandas surgidas nas relações de consumo, que de alguma forma ficaram sem

proteção nos clássicos modelos legais patrimonialistas.

(10)

Além do mais corrobora para o desenvolvimento econômico, traz lisura transacional,

confere confiança aos agentes econômicos, enaltece os valores da honestidade e da boa fé

objetiva. Desta forma o direito do consumidor dignifica a pessoa humana, fortalece as

relações sociais e contribui fundamentalmente para a permanência da sociedade e da espécie

humanas.

No caso do Brasil recebe respaldo aparece tutelado pelo poder público tanto na

Constituição da República de 1988 (CR/88), quanto no Código de Defesa do Consumidor

(CDC), lei de 1990.

O CDC brasileiro é considerado um código moderno atento às especificidades

surgidas nas novas relações de consumo. Tem uma filosofia voltada para a proteção do polo

vulnerável na relação de consumo: o consumidor. Que é quem geralmente possui menores

capacidades deliberativas diante da transação comercial.

É importante discutir como o indivíduo deve se posicionar nesta relação e como o

estado estabelecerá liames jurídicos para a tutela do bem social que se encontra difuso em

uma sociedade atomizada. Nestes meandro discute-se como fica a liberdade individual e como

ela se tem efetivado ao longo desta evolução social, juntamente com a evolução da relação de

consumo.

Sempre é bom ressaltar a importante função que o Estado tem nesta dialética, como

guardião do bem comum, numa teoria heterodefensiva, que deve de forma inteligente e atenta,

zelar pelo bem comum, assegurando às sociedades sob sua tutela plenitude de direitos.

Direitos estes, fruto de lutas históricas que muitas vezes foram inglórias para os que as

lutaram, mas que nos deixou um legado de conquistas, um legado de liberdades, que

diariamente são atentados pelos poderes econômicos e políticos.

Cabe a nós jurisdicionados exercer nossa cidadania na promoção de bem estar

coletivo, no exercício consciente de nossos direitos políticos, e na função de controle das

ações governamentais. Para isto é necessário estarmos atentos aos movimentos culturais a fim

de atacar as sutilezas inventivas do mercado.

O presente artigo se encontra sistematizado da seguinte forma. O seu

desenvolvimento está dividido em tópicos. Primeiramente se faz uma digressão histórica com

o objetivo de se observar os direitos humanos, nas transformações jurídicas sofridas pelo

processo de globalização. Em segundo momento apresentamos o direito do consumidor como

um direito humano de fato. Em seguida apresentam a sistemática do direito do consumidor no

ordenamento jurídico brasileiro. E por fim discutimos a respeito do Princípio do Direito à

(11)

Liberdade, sob o enfoque da publicidade e do consumo conspícuo, no cenário de uma

sociedade de consumo.

OBJETIVOS

1) Mostrar como a sociedade evolui e como isto provoca alterações no campo jurídico;

2) Situar o Direito do Consumidor no contexto de evolução histórica do direito;

3) Discutir a natureza do Direito do Consumidor como um Direito Humano;

4) Fazer uma breve digressão sobre o Direito do Consumidor no ordenamento jurídico

brasileiro;

5) Discutir a questão do princípio do Direito à Liberdade à luz: da sociedade de consumo; e

do Código de Defesa do Consumidor.

METOLOGIA

A metodologia utilizada foi uma Dedução Científica a partir de uma Revisão

Bibliográfica.

DESENVOLVIMENTO

O desenvolvimento deste trabalho está sistematizado em 4 tópicos explicativos: a) A

globalização, os direitos humanos e as transformações jurídicas; B) O direito do consumidor

como direito humano; C) O direito do consumidor no ordenamento jurídico brasileiro; e D)

Direito humano do consumidor e o direito à liberdade.

A Conclusão fecha o desenvolvimento.

(12)

A) A GLOBALIZAÇÃO, OS DIREITOS HUMANOS E AS TRANSFORMAÇÕES

JURÍDICAS

É inegável a profunda transformação vivida pela sociedade nos últimos

tempos. Esta transformação não se confina apenas à sociedade nacional, mas é fato em

praticamente todas as sociedades mundiais. Na propulsão desta transformação está o

desenvolvimento tecnológico, em especial o desenvolvimento dos meios de

comunicação e dos meios logísticos.

Segundo muitos autores vivemos na era pós moderna, uma era que

experimenta profundas mudanças que ainda estão em curso tendo início no final da

segunda grande guerra.

A segunda grande guerra é um marco indelével na história mundial. Depois de

grande desenvolvimento filosófico e tecnológico, seguindo-se grande desenvolvimento

jurídico e político e ainda assim experimentou um dos capítulos mais sangrentos da

história da humanidade.

As atrocidades e os desfechos geopolíticos são conhecidos, mas talvez a

diferença mais marcante se deu no campo jurídico. O direito internacional sofreu

profundas mudanças. As questões relativas à soberania estatal foram relativizadas. O

estado soberano perde força diante de uma grande valorização do indivíduo, que agora

figuraria como bem supremo do ordenamento jurídico.

Encerrado o conflito, logo se deu a criação da ONU e com ela a declaração

universal dos direitos humanos, documento muito mais que declaratório, uma vez que

irradia até hoje seus ideais na filosofia jurídica de praticamente todo o mundo. O

caráter de unanimidade quanto a sua aceitação, mostra sua força filosófica, bem como

cristaliza seu maior eixo temático: a dignidade da pessoa humana.

Resta claro para todo mundo a importância deste valor. Uma vez que a vida

humana é bem de inestimável valor, insubstituível, comum a todos os seres do planeta

e essencial para a manutenção da sociedade.

Segundo Coelho et. al. (2005), no atual ordenamento jurídico, os direitos

humanos são ferramentas garantidoras de uma vida digna dos cidadãos. Vale notar que

José Afonso da Silva (1997) define direitos fundamentais como tendo sentido em

(13)

relações jurídicas objetivas e subjetivas, positivadas em prol da dignidade, da

igualdade, e da liberdade da pessoa humana.

Flávia Piovesan (2010) discute a respeito de uma nova ordem jurídica, baseada

no valor máximo da dignidade da pessoa humana, que passa a reger todo o

ordenamento jurídico nacional e internacional. A dignidade da pessoa humana vem

constituir um ius commune sob o qual estados outorgam prerrogativas por

reconhecimento do valor que carrega a dignidade da pessoa humana.

Desta forma a transformação da sociedade inevitavelmente vai levar uma a

uma transformação do direito e também do espectro e definição do direito

fundamental. Neste sentido Coelho et. al. (2005) diz que uma transformação social

propicia uma transformação jurídica; uma mudança nas relações sociais e no modelo de

realidade operacional pode agregar novos conteúdos e outras funções ao programa normativo.

Tudo a serviço dos anseios sociais que é para os quais nascera o direito.

Na esteira do desenvolvimento tecnológico a sociedade do século XX experimentou

vertiginosa mudança. A primeira grande evolução se deu na primeira metade do século com o

desenvolvimento da aviação civil e das telecomunicações. No final do século foi a vez do

surgimento de uma rede mundial de computadores.

Concomitante a isto a sociedade sofreu profundas transformações. Sua população

passou de majoritariamente agrária no início do século para majoritariamente urbana no final

do século. Tal mudança fez o indivíduo cada vez mais dependente do comércio e das cadeias

produtivas. De produtor de alimentos o indivíduo se tornou consumidor. Tal dinâmica se

repetiu com o vestuário, com os meios de locomoção, com os serviços médicos, etc.

Enfim, o ambiente econômico se tornou mais complexo e cada indivíduo cumpre um

papel peculiar no sistema produtivo. Desta forma somos sempre consumidores de grande

parte dos produtos que utilizamos e também somos fornecedores de uma pequena parte deles.

A relação de consumo cresceu e se consolidou, inicialmente predominantemente, se

dava em solo nacional. Desta forma logo surgiram demandas jurídicas envolvendo a relação

de consumo. Tal fenômeno propiciou o surgimento de um novo espectro legislativo, o

chamado direito do consumidor. Estas normativas viriam resolver os problemas encontrados

na nova dinâmica econômica, no intenso comércio e a necessidade de se tutelar os direitos dos

consumidores.

(14)

Uma vez que os consumidores são considerados o polo mais frágil desta relação,

coube ao estado, tutelar-lhes os direitos, dando concretude legal em diversos pontos que

necessitavam incrementos.

Mas as transformações não pararam por aí. Dadas as condições de desenvolvimento,

o mundo experimentou um intenso processo de globalização econômica, financeira e cultural.

Os estados nacionais perderam certo protagonismo, sendo agora organismos de uma

comunidade global de países que se comunicam, se conhecem e, principalmente, que fazem

comércio.

As relações de consumo se tornaram mais rápidas, mais assertivas, as transações

mais baratas. Entretanto tal dinamismo subjacente ao comércio moderno veio

acompanhamento de um aumento de complexidade sem precedentes. Hoje os atores do

comércio podem ser de nações distintas, de culturas distintas, de continentes distintos, são

agentes totalmente díspares unidos unicamente pelo interesse comum do negócio.

Convém ressaltar, no escopo deste trabalho, que o direito do consumidor assumiu

uma complexidade enorme, tanto no cenário externo, quanto no cenário interno e sua

universalização se deu tanto no universo macro quanto no universo micro. Seus tentáculos se

imiscuíram a diversos valores humanos, de tal forma que os direitos do consumidor além

desta complexidade fática, aumentou-se como complexidade filosófica.

B) O DIREITO DO CONSUMIDOR COMO DIREITO HUMANO

Com as mudanças no contexto social, emergiu uma nova figura no panteon jurídico.

Um consumidor em massa, que necessita comprar praticamente tudo o que consome. Então a

confiança e a boa fé são elementos imprescindíveis nesta relação uma vez que deve ser uma

relação duradoura, extrapolando circunstancialidades. Hoje tal direito é tutelado a nível

nacional pois é aspecto inerente à vida humana.

Da necessidade de situar o direito do consumidor, até pouco tempo restrito à esfera

civil (e com caráter puramente material), na esfera do direito humano tomamos as lições de

Serrano Júnior (2012), que diz que o sistema global de proteção dos direitos humanos, sob a

égide da Organização da Nações Unidas, utiliza de uma classificação dicotômica para os

direitos humanos, dividindo-os em: 1) direitos civis e políticos; e 2) direitos econômicos

Culturais e Sociais. Ainda mais, diz que os direitos econômicos seriam aqueles relacionados a

aspectos econômicos de um estado.

(15)

Dentro do espectro do direito econômico podemos enquadrar o direito do

consumidor. Uma vez que advém de uma relação econômica e ao mesmo tempo reflete o

maior traço de uma economia, a relação de mercado. Além do mais dentro de uma perspectiva

multifuncional dos direitos fundamentais, (subtendidos os direitos humanos, Alexy (1997)), e

no caso específico, do direito ao consumidor, ele também se encaixaria na categoria de

direitos culturais, e também na categoria dos sociais, uma vez que representa aspectos tanto

culturais quanto sociais de nossa vida.

Numa cidade qualquer ou mesmo numa vila pequena, indivíduos praticam o

comércio de forma corriqueira, traço comum do dia a dia do povo, este processo comercial

não é somente uma necessidade da vida moderna mas um indelével traço cultural da

sociedade moderna. Desta forma não é difícil ver o seu viés cultural e social.

Há que se considerar ainda que os direitos humanos não valem apenas nas relações

entre o estado e o cidadão, mas também nas relações entre particulares, uma vez que estão

presentes em todos os ramos do direito (Serrano Júnior, 2012 )

O aviltamento de uma relação de consumo redunda no aviltamento do próprio

indivíduo tal sua dependência desta relação no mundo moderno. O consumidor deve ser

respeitado não como consumidor apenas, mas sobretudo como indivíduo. A privação de bens

e serviços ou mesmo sua prestação deficitária é elemento desestabilizante de diversas esferas

da vida do homem moderno, ferindo assim o princípio da dignidade.

Sendo assim não é difícil ver que tanto quanto direito a um meio ambiente salutar, ou

mesmo o direito à vida, educação e à liberdade, o direito do consumidor deve perfilar no rol

dos direitos humanos mais fundamentais. Uma vez que é peça integrante e fundamental da

vida humana no contexto da sociedade moderna. Tal pensamento vai no sentido da maior

fonte dos direitos fundamentais: a soberania popular e a historicidade.

O direito do consumidor surge como uma figura tímida e vacilante, mas ganha força

e preponderância, na medida em que o comércio evolui. Hoje pode ser visto como um direito

fundamental, devendo ser promovido pelo estado, não devendo ser pilhado, nem embaraçado,

uma vez que além de ser um direito por excelência, assume também o papel de meio, de vetor

no cumprimento de muitos outros direitos fundamentais, como a saúde, a alimentação, e a

própria vida humana.

Tal relação jurídica deve ser aquilatada no seio do ordenamento jurídico, deve, e

assim como um direito humano fundamental, irradiar seus efeitos por todo o ordenamento

jurídico, uma vez que é um “valor fonte, atribuído a cada pessoa humana pelo simples fato de

sua existência” (Mazzuoli, 2015).

(16)

Segundo Carvalho et. al. (2005) a dimensão jurídico objetiva dos direitos

fundamentais faz incumbir ao estado uma obrigação permanente de concretização e realização

dos direitos humanos fundamentais.

Dentro deste prisma as funções dos direitos humanos fundamentais seriam: 1) Limitar

o poder do estado; 2) Assegurar liberdades; e 3) Outorgar aos indivíduos um direito subjetivo

que lhe permita se proteger contra agressões sofridas. Nestas funções vê-se claramente um

diletantismo da dignidade da pessoa humana como essência dos direitos humanos.

Mazzuoli (2015) considera como características dos direitos humanos a

historicidade, a universalidade, a essencialidade, irrenunciabilidade, entre outros descritores.

Tais características são capazes de discriminar tais direitos dentre muitos outros existentes na

ordem jurídica. A adequação a estes princípios caracterizadores irá definir o direito humano,

fomentando sua tutela e vedando o retrocesso.

O direito do consumidor, mais uma vez se encaixa na definição de um direito

humano. Poderíamos definir o direito humano do consumidor no rol principiológico definido

por Mazzuoli, na citação supra, uma vez que:

a) carrega o componente de historicidade, já desde os impérios mediterrâneos, atravessando a

idade média, revigorando-se com a revolução industrial e hoje compõe traços do mundo

moderno;

b) carrega o componente de universalidade e essencialidade, já no contexto do mundo

globalizado do século XXI, já sendo quase consenso em todo o mundo a necessidade de

trocas comerciais e a interdependência econômica;

c) imprescindível carregar o conceito de irrenunciabilidade, para que transforme as relações

de consumo/econômicas em relações profícuas e duradouras, formando as bases para uma

sólida atividade econômica; e

d) o princípio do não retrocesso vem na esteira do continuísmo das relações comerciais que

aumentam numa taxa que se retroalimenta na medida em que avanços se consolidam, na

medida em que os laços se fortalecem.

Enfim, a detecção do direito do consumidor como um direito humano é fato natural

no contexto moderno, entretanto a percepção de um direito não é suficiente para sua tutela.

Segundo Norberto Bobio (1997) o problema do direito não é sua justificação, mas sim sua

proteção, trata-se, portanto de um problema político e não de um problema filosófico.

A crise de efetividade não se restringe ao mundo dos direitos humanos. No direito

civil, mais especificamente, no mundo dos contratos fala-se na mesma crise de efetividade.

Barroso et. al.(2008) diz que dentre todas as transformações sofridas no mundo dos contratos

(17)

a mais marcante é sua transcendência do mundo da propriedade, alcançando praticamente

todos os aspectos da vida humana. Embora não se fale numa relação de causalidade, junto

com a universalização dos contratos veio a crise de efetividade.

O direito humano do consumidor figura numa das relações contratuais mais

corriqueiras do mundo moderno, as trocas comerciais, classicamente garantidas pelos

procedimentos contratuais. Não obstante, conforme ensina Barroso et. al. (2008), as relações

contratuais estão saltando da esfera patrimonial e orbitando na esfera dos direitos sociais,

individuais e da personalidade. Tal interconexão de direitos se dá, principalmente, sob a força

aglutinadora e integradora do princípio da dignidade da pessoa humana. Assim, não é difícil

projetar o direito humano do consumidor como um direito humano próprio, no momento em

que se imiscui com direitos sociais, individuais e da personalidade, todos direitos inatos da

pessoa humana.

Tal inter-relacionariedade, interdependência e indivisivilidade, se coaduna com a

ideia do Prof. Mazzuoli, quando este aponta as características contemporâneas dos direitos

humanos. Além do mais avulta o princípio pro homine como um princípio norteador da teoria

dos direitos humanos, e que é trazido à tona tanto por Mazzuoli na teoria dos direitos

humanos, quanto por Barroso na teoria dos contratos, especialmente na sua transcendência

para além da propriedade em sentido clássico.

C) O DIREITO DO CONSUMIDOR NO ORDENAMENTO BRASILEIRO

O Direito do consumidor é considerado um direito humano de nova geração. Ganha

força na segunda metade do século XX, com a edição de diretrizes pela ONU, afirmando-o

como um direito socioeconômico, postulando a igualdade material do mais fraco, do leigo,

enfim, do vulnerável, frente às expertises mercadológicas, com profissionais de vendas e

equipes de marketing compondo a arma de fogo de grandes corporações empresariais.

No Brasil, a competência legiferante foi atribuída de forma concorrente tanto à

União, quanto aos Estados e Distrito Federal. Assim reza a CR/88:

Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:

(…)

XXIX – propaganda comercial;

(…)

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar

concorrentemente sobre:

(18)

(…)

V – produção e consumo;;

(…)

VIII – responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos

de valor artístico, estético, histórico e paisagístico;

(...)

Pode-se ver, portanto, que excetuada a questão da propaganda comercial cuja

competência é exclusiva da União, demais matérias legislativas atinentes aos direitos dos

consumidores são de competência concorrente, entre os Estados, o Distrito Federal e a União.

Todavia em nosso entender, com base em decisões do Supremo Tribunal Federal

(STF), há um movimento interpretativo no sentido de dar maior preponderância à

competência da União, principalmente em casos em que se verifique conflitos de

competência. Tal fato é relatado em Del Masso (2011) com bases em algumas decisões do

STF (ADI 2359-ES/2006; ADI 3322- MC/DF/2006; ADI 2656-SP/2003; ADI 3645-PR/2006).

O direito do consumidor aparece no panorama brasileiro, protagonizado pela União,

efetivamente com a CR/88, a qual estabelece:

a) no art. 5o, XXXII, “Estado promoverá, na forma da lei, o direito do consumidor.”

b) o art. 170 caput traz os seguintes dizeres: “A ordem econômica, fundada na valorização

do trabalho humano e na livre-iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna,

conforme os ditames da justiça social, observando os seguintes princípio:” (...) inciso V,

defesa do consumidor;

c) e no art. 48 das ADCT´s: “O Congresso Nacional, dentro de 120 dias da promulgação da

constituição, elaborará o código de defesa do consumidor.

A constituição cidadã inova e traz consigo um traço de modernidade na medida em

que de forma contundente, valoriza, defende, e argui sobre a urgência de se defender o

consumidor. Embora não diga explicitamente, filosoficamente a constituição se atira na defesa

do polo mais fraco de uma relação de consumo: o Consumidor.

Segundo Benjamim et. al. (2010) o constituinte defende o consumidor em três

frentes:

A primeira, conforme descrita na alínea “a” acima, defende o consumidor como um

indivíduo, e denota tal direito como cláusula pétrea da CR/88;

A segunda, conforme descrita na alínea “b” acima, defende o consumidor no escopo

da proteção do desenvolvimento da ordem econômica, entendendo que a proteção deste polo é

preponderante para a sustentabilidade e o desenvolvimento econômicos;

(19)

Na terceira frente, conforme descrito na alínea “c” a defesa do consumidor se daria

via a microcodificação e inclusive determina prazo para tanto, demonstrando assim de forma

inequívoca a premência dada pelo constituinte ao tema.

O direito do consumidor, na obra do ministro Herman Benjamim, é trazido como um

direito humano contido na sintaxe dos direitos sociais e econômicos com eficácia imediata

tanto horizontal quanto vertical. Tal sistemática é a mesma que permeia o texto constitucional.

Após a promulgação da CR/88, o direito do consumidor recebeu a tutela do Código

de Defesa do consumidor (Lei 8.078/90). O CDC nasceu com função social e conforme

dispõe no seu artigo 1o “estabelece normas de proteção e de defesa do consumidor, de ordem

pública e de interesse social ...” nos termos da CR.

Dentro dos desdobramentos das transformações sociais que desemboca na sociedade

moderna está o uso intensivo da publicidade. Neste aspecto o CDC também inova no sentido

de veemente condenar e coibir a prática da publicidade abusiva. Nas palavras de Herman

Benjamim, Benjamim (2010), “(…) A publicidade abusiva, da forma como regrada no

[CDC] brasileiro, é uma grande novidade, mesmo quando se analisam as leis de proteção ao

consumidor em países desenvolvidos” p.244. Tal prática se encontrava latente no seio da

sociedade e sua proibição representa mitigação da opressão do mais frágil, o consumidor.

O CDC no art. 37, § 2o, dispõe de forma exemplificativa alguns tipos de publicidade

abusiva, que ao contrário da publicidade enganosa, é muito mais difícil de ser diagnosticada

numa relação de consumo. A publicidade abusiva, nem sempre implica em prejuízo

econômico do consumidor, mas quase sempre representa afronta a valores constitucionais,

como por exemplo, o respeito à criança e à segurança de vulneráveis.

Esta lei é moderna e está em sintonia com as mudanças sociais vividas nas últimas

décadas. Constitui todo um sistema, construído e pensado com um único propósito: a proteção

dos mais frágeis na relação de consumo. O CDC enuncia princípios, bem como o propósito de

positivá-los, e o faz no propósito de tutelar direitos individuais e coletivos.

Na complexa teia do direito contemporânea, o CDC se tornou paradigma no diálogo

das fontes, representando um ganho de eficiência tanto hierárquica quanto funcional do

sistema jurídico. Elimina antinomias e traz efetivo ganho na segurança jurídica no contexto da

proteção dos mais frágeis.

A proteção do consumidor, assim como a de todo o direito humano não se

circunscreve à esfera interna de um país. Mister é que no processo de diálogo das fontes se

faça uma ponderação das normas internacionais atinentes, dando preponderância a estas,

Mazzuoli (2009).

(20)

Em suma, representa novo paradigma teleológico, que segundo Cláudia Lima

Marques é o paradigma da diferença, “...do tratamento desigual aos desiguais, do tratamento

de grupos ou plural, de interesses difusos e de equidade, em uma visão mais nova, chamada

de pós moderna.”

D) DIREITO HUMANO DO CONSUMIDOR E O DIREITO À LIBERDADE

Seguindo o norte do princípio pro homine, tão em voga nos dias atuais, vamos

discutir a questão do direito do consumidor no contexto da sociedade do consumo em antítese

ao direito à liberdade.

O princípio do direito à liberdade permanece como o mais ilustre dentre tantos outros

princípios. A doutrina jurídica eleger a carta Magna Libertatum de 1215 como marco histórico

para a liberdade, consolidada adiante nas declarações constituintes norte americana e francesa,

a liberdade configura aspiração humana natural, presente em toda a história de povos e

nações, desde as eras mais remotas.

Devido sua supremacia lógica tem-se que em qualquer ponderação principiológica

haverá sempre por princípio essencialíssimo e supremo, afastando todos os demais que

atentarem contra ele.

Dadas estas considerações iniciais a respeito da liberdade, como princípio supremo,

trazemos à tona as transformações sofridas pela sociedade recente, fazendo-a tornar-se a tão

conhecida sociedade do consumo. Com especiações múltiplas em diversas áreas da ciência

jurídica, das ciências humanas e sociais, com desdobramentos infinitos em como as pessoas se

comportam e como as relações sociais são conformadas nesta nova ordem.

Veblen (1899) em sua clássica obra A Teoria da Classe Ociosa, aponta diretrizes

filosóficas explicando as reais razões que movem as pessoas pelo mundo das escolhas. A

teoria da classe ociosa associa a possibilidade de ócio como um luxo, possível apenas para os

mais abastados e consequentemente os mais poderosos. Assim a possibilidade de ócio seria

um traço de demonstração de poder econômico (e sociopolítico por consequência). Tal

situação coloca o indivíduo em posição de superioridade, e portanto, com maiores

prerrogativas.

Thorstein Bunde Vebler foi um ferrenho crítico da escola econômica clássica, que

tinha origem na escola alemã e estava calcada em um racionalismo historicista. Para Vebler o

indivíduo como ser social é dotado de uma carga emocional muito mais poderosa que o

(21)

arcabouço racional e histórico. Segundo ele o homem é naturalmente uma espécie que

compete com os seus pares e isto traz impactos na vida econômica.

Segundo o autor, uma das razões que leva o indivíduo a consumir não é sua

necessidade, mas sim a promoção que tal ato de consumo lhe trará. Assim, consumindo um

certo produto, seja ele uma joia, uma casa, um carro, ou mesmo alguns tipos de alimentos,

alçará o consumidor a um estado etéreo de graça e prazer.

O consumidor sentirá um prazer muito maior do que o do mero suprimento de sua

necessidade, um prazer alavancado pelo ato do consumo em si e não pelo suprimento da

demanda vital. Tal fenômeno é então denominado por Vebler de consumo conspícuo. Ocorre

quando o consumidor consome apenas por status, e que a elevação do seu status dará mais

prazer uma vez que os aspectos psicológicos dos consumidores são mais importantes que suas

necessidades físicas. Em outras palavras, o consumidor anseia por causar inveja em outros

indivíduos do meio social, e este desejo por inveja desvela uma necessidade de se sentir

superior aos demais (aos invejosos).

Dentro da dialética da Teoria da Classe Ociosa de T. Vebler, juntamente com um de

seus maiores postulados, O Consumo Conspícuo, vamos discutir a questão da liberdade, como

bem supremo, objeto máximo de todo ordenamento jurídico e que, ao nosso ver, se encontra

ameaçada no contexto de uma sociedade de consumo.

Num primeiro momento esta teoria pode parecer distante de nossa realidade, seja

distante no tempo, seja distante dos conceitos filosóficos ora reinantes, mas, neste tópico,

mostraremos como ela está presente no nosso dia a dia, e impacta diretamente no nosso

processo de tomada de decisão frente a uma atitude de consumo.

Escritores contemporâneos também nos dizem algo semelhante. Ortiz (2000) nos diz

a respeito da mundialização da cultura, e em como a ética do consumo não deriva apenas das

necessidades econômicas mas em novas ferramentas de aglutinação social. Neste ínterim o

autor aponta a publicidade como elemento apaziguador pessoal, que faz convergir ao

inconsciente coletivo do consumo o indivíduo já atomizado, perdido numa multidão urbana,

sem laços sociais e sem referências históricas.

Podemos dizer, assim como Lipovetsky (2001) Apud Del Losso (2011), que o

consumo atual passa não pelo valor intrínseco do objeto mas pelo seu valor simbólico, pelo

prestígio que ele confere ao consumidor no status social. Portanto o consumidor não consome

apenas um produto mas consome também a empáfia atrelada a ele. A sua soberania está

somente em querer o que é mais querido pela sociedade. Sua liberdade está subjugada a uma

(22)

máquina de fazer símbolos: a indústria da inovação com sua obsolescência programada e a

publicidade, que mais que oferecer produtos, vende símbolos.

É preciso colocar tanto o consumo quanto os produtos dentro de suas categorias

sociais, de meios melhoradores da vida, de garantidores de outros direitos, e não como um fim

último da sociedade. Neste objetivo deve figurar a ética empresarial, a honestidade, a boa fé e

sobretudo uma publicidade honesta.

Tomemos como exemplo a profícua campanha governamental contra o tabagismo.

No sentido de diminuir o consumo de tabaco no Brasil, o governo há muitos anos vem

empenhando esforços em diversas frentes para tentar refrear este hábito. Existem esforços

legais e publicitários.

Os esforços legais se materializam na edição de leis que restringem o uso do tabaco

em determinados locais, sejam eles restaurantes ou prédios públicos; há também esforços

legais no campo tributário, com vias a uma arrecadação maior de impostos com o consumo.

Este viés tributário tem dois objetivos: 1) cobrir parte das despesas médicas do futuro paciente

que será acometido por enfermidades provenientes do uso do tabaco as quais são geralmente

pagas pela sociedade através do SUS; e 2) aumentar o preço do produto para desestimular o

seu consumo.

Os esforços publicitário vão no sentido de se diminuir o consumo. Tal processo se dá

numa via educacional, uma vez que conscientiza o consumidor dos males que o uso do tabaco

pode causar, e também numa via filosófico-social, já que tenta desconstruir um mito: o mito

do consumo conspícuo, ou seja, o mito de que consumindo cigarros você se promove no meio

social, se tornando mais bonito, mais inteligente e mais feliz.

A indústria do tabaco historicamente investiu pesadamente em marketing, tentando

construir uma imagem de que usar o tabaco era uma coisa bonita e charmosa e que

potencialmente outorgaria liberdade, o bem supremo da sociedade, razão máxima de todos os

povos, como já dito.

Mas o que na prática acontece é justamente o contrário: o cigarro causa dependência,

que é uma perda direta da liberdade de escolha; o cigarro envelhece; o cigarro causa infarto; o

cigarro causa impotência sexual inibindo a liberdade de gozar de suas faculdades sexuais; o

cigarro causa trombose limitando sua liberdade de locomoção. Ou seja, o cigarro não presta,

não traz liberdade, pelo contrário, priva o indivíduo dela, o cigarro é então uma “droga”, não

traz benefício algum e não deve ser usado.

(23)

A cruzada governamental antitabagismo logrou êxito. O percentual de fumantes caiu

vertiginosamente nos últimos 25 anos, e continua em trajetória descendente. Ademais a

campanha antitabagismo brasileira é exemplo para o mundo e copiada por muitos países hoje.

Trazemos este caso à tona para ilustrar como um consumidor pode se tornar vítima

de sua própria liberdade individual. Um ambiente regido estritamente pela liberdade acaba por

eliminá-la já que os indivíduos estão em condições de desigualdade, sendo assim, serão mais

cedo ou mais tarde, vítimas do dolo, da má-fé ou da deslealdade a serviço de interesses

(liberdades) individuais contundentemente apontados na direção de interesses coletivos e

difusos.

Tal pensamento é o mesmo expresso por Slater (2002) que afirma: “(…)

Ironicamente, um mundo baseado no interesse individual puro deixa o indivíduo numa

condição de debilidade crônica. (…) vulnerável à manipulação e às formas mais sutis de

falta de liberdade. (...)”. Então o que podemos deduzir desta passagem é o mesmo que temos

dito: as liberdades indivíduais utilizadas de forma estratégica acabam por solapar a liberdade

no seu sentido mais amplo.

Tutelar a liberdade não é coisa fácil, pelo contrário é paradoxal. Para tanto precisa-se

diminuir as desigualdades e coadunar interesses particulares (geralmente contundentes) a

interesses coletivos (geralmente difusos).

Tutelar liberdades em uma relação de consumo é assegurar que o indivíduo detenha a

posição de tomada de decisão e não a posição de vítima. Significa a desconstrução de mitos

em relação a produtos, significa coibir práticas publicitárias abusivas, significa zelar pela boa

fé nas relações de consumo. Neste sentido é que dizemos que o código de defesa do

consumidor é uma norma moderna. Possui espírito evoluído e apto a produzir efeitos bons em

nossa sociedade. Sua edição se deu em conformidade com uma demanda moderna, atendendo

especificidades próprias das relações de consumo atuais, que todos nós conhecemos e que

realmente precisam ser discutidas.

Com o seu paradigma da diferença, a proteção preferencial do mais fraco, tem-se

instrumento útil para se refrear os abusos do poder econômico, é um esforço útil na

preservação da liberdade em sentido stricto (na capacidade de dizer sim ou não para qualquer

produto) e em sentido lato (na possibilidade de se viver uma vida melhor e mais longa).

Desta forma, e em diversas outras frentes, o Código de Defesa do Consumidor

assegura a liberdade de fato: Coloca os conglomerados empresariais no seu restrito espaço de

desenvolvimento econômico, dentro de limites éticos essenciais para a manutenção do ciclo

social. Assegura ao consumidor a prerrogativa de mais frágil com diversas presunções

(24)

jurídicas. Preconiza o acesso à educação e à informação como forma de redenção plena, como

forma de se obter uma liberdade genuína.

CONCLUSÃO

O direito do consumidor é um direito humano por excelência e é peça crucial no

direito brasileiro. Encontra respaldo na CR/88 e especialmente no CDC que é um exemplo de

legislação moderna, voltada a um propósito específico e predefinido e seus ganhos vão além

da demanda evolutiva do comércio, consagra uma barreira de proteção dos mais frágeis,

impõe valores e princípios norteadores fazendo emergir novos paradigmas jurídicos, como o

paradigma da diferença. Desta forma resgata o verdadeiro e primitivo interesse do direito: A

proteção da sociedade contra o arbítrio seja do próprio estado, seja de particulares que

contundentemente atentam contra o interesse coletivo e difuso. Em momento posterior o

princípio do direito à liberdade é discutido no âmbito de uma sociedade de consumo, e em

como pode ser obtida de forma verdadeira, dado o intenso assédio de setores produtivos em

sua ânsia inequívoca de lucro e poder.

(25)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Referências

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