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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO ARQUITETURA E URBANISMO

Andresa Lêdo Marques

FRANJAS METROPOLITANAS E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE: O CASO DA SUB-BACIA JUQUERI-CANTAREIRA DA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

São Paulo

2019

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FRANJAS METROPOLITANAS E AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE: O CASO DA SUB-BACIA JUQUERI-CANTAREIRA DA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Orientadora: Profª. Drª. Angélica Benatti Alvim

São Paulo

2019

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M357f Marques, Andresa Ledo.

Franjas metropolitanas e as dimensões da sustentabilidade : o caso da sub-bacia Juqueri-Canteira da região metropolitana de São Paulo. / Andresa Ledo Marques.

169 f. : il. ; 30 cm

Dissertação (mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2019.

Orientador: Angélica Aparecida Tanus Benatti Alvim.

Bibliografia: f. 145-148.

1. Dimensões da sustentabilidade. 2. Franjas urbano-ambientais. 3.

Acessibilidade. 4. Instrumentos urbanos e ambientais. 5 Área de proteção dos mananciais. 6. Sub-bacia Juqueri-Cantareira. I. Alvim, Angélica Aparecida Tanus Benatti, orientadora. II. Título.

CDD 711.4

Bibliotecária Responsável : Giovanna Cardoso Brasil CRB-8/9605

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À minha família e amigos por todo apoio e generosidade que tornaram esse trabalho possível.

Sou grata pela compreensão, pelos conselhos e por

todo amor que vocês me transmitem diariamente.

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Um trabalho como este não é produzido de forma isolada. Pelo contrário, esta dissertação só foi possível a partir da troca de experiências e generosidade de muitas pessoas que contribuíram de maneiras diversas para sua construção. Por esse motivo, ao concluir mais uma etapa da minha formação, tenho muitas pessoas e motivos para agradecer.

Agradeço à Deus por preencher meu coração e mente com sensibilidade frente às questões humanas e ambientais.

Agradeço aos meus pais, Verena Lêdo Marques e Antônio das Virgens Marques Filho e minha querida irmã Andréa Ledo Marques Macedo, por todo apoio em relação à minha formação enquanto cidadã e profissional e por nunca medirem esforços para me ajudar em tudo aquilo que necessito. Ao meu amado noivo, André Camargo do Amaral, por todo carinho e compreensão nesta etapa e por acreditar mais nos meus sonhos do que eu mesma.

À minha querida orientadora, Profa. Dra. Angélica Benatti Alvim, por toda paciência, orientação, ética e amizade durante esse processo. Seu exemplo e dedicação diários me ensinam e inspiram a cada dia.

Aos colegas da FAU-Mackenzie por toda troca de conhecimentos e experiências, em especial à equipe de Estúdio 6 e ao grupo de pesquisa “Projetos de Urbanização de Assentamentos Precários e Áreas de Proteção Ambiental: as Dimensões da Sustentabilidade

1

”, os quais destaco: Profª. Angélica Alvim, Profª. Gilda Collet Bruna, Profª.

Larissa Ferrer Branco, Profª. Maria Elena Vieira, Prof. Afonso Castro, Profª. Eliene Coelho, Profª. Pérola Brocaneli, Profª. Viviane Manzione Rubio, Profª. Carolina Maciel, Profª Sasquia Obata, Lorena Oliveira, Nathalia da Mata, Cristina Caselli, Jaqueline Rodolfo, Karina Dominici Alves e Dayana Araujo.

Aos seguintes órgãos e profissionais que contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho: Secretaria do Meio Ambiente dos municípios de Caieiras e Mairiporã, Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, EMPLASA, Bonfílio Alves Ferreira e Prof. Francisco José de Toledo Piza.

1A autora é pesquisadora voluntária no grupo de pesquisa “Projetos de Urbanização de Assentamentos Precários e Áreas de Proteção Ambiental: as Dimensões da Sustentabilidade”, em andamento no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sob a liderança da Prof.

Dra. Angélica Benatti Alvim, com subsídio do Fundo MACKPESQUISA.

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pelas contribuições valiosas e generosamente construídas na banca de qualificação.

Por fim, agradeço à CAPES pela oportunidade que me foi concedida de cursar o mestrado e me dedicar integralmente à pesquisa por meio da bolsa de estudos na modalidade PROEX.

A todos que contribuíram para a construção deste trabalho, fica aqui registrado minha

gratidão e carinho.

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A alta qualidade territorial sempre foi produzida, na história das civilizações, através da construção de relações virtuosas entre uma comunidade e seu próprio ambiente; produzir novamente uma alta qualidade territorial é um caminho que requer novas ações territorializadoras nas quais a sociedade local (hoje multitécnica, móvel e mutável) reconhece seu próprio território e o valoriza construindo a sociabilidade.

(MAGNAGHI, 2011, p. 97 - tradução nossa)

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Esta pesquisa centra-se na relação entre urbanização e meio ambiente no contexto das franjas da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), utilizando como objeto de estudo a sub-bacia hidrográfica Juqueri-Cantareira, localizada ao norte da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. Esta sub-bacia se configura como um território estratégico para o equilíbrio ecossistêmico da metrópole pelo fato de conter em seus limites geográficos importantes remanescentes naturais e área de mananciais, onde situa-se o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de água de grande parte da população da RMSP. A despeito de importantes legislações que buscam preservar ou recuperar este território, o crescente e desordenado processo de urbanização das últimas décadas tem contribuído para a sua dilapidação ambiental, afetando também a disponibilidade de água da metrópole. A pesquisa tem como objetivo discutir de que maneira os instrumentos urbanos e ambientais propostos para a sub-bacia Juqueri-Cantareira estabelecem estratégias para o desenvolvimento sustentável da região. A metodologia proposta analisa os planos diretores dos municípios de Caieiras, Franco da Rocha e Mairiporã, e a Lei Específica de Proteção e Recuperação dos Mananciais do Alto Juquery, buscando verificar como estes instrumentos se articulam e incorporam as múltiplas dimensões da sustentabilidade, promovendo estratégias para o desenvolvimento sustentável da região.

Palavras-chave: Dimensões da sustentabilidade; Franjas urbano-ambientais; Instrumentos

Urbanos e ambientais; Área de Proteção dos Mananciais; Sub-bacia Juqueri-Cantareira.

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This research focuses on the relationship between urbanization and the environment in the fringes of the São Paulo Metropolitan Region (SPMR), using as its object the Juqueri- Cantareira hydrographic sub-basin, located on the north of the Alto Tietê Basin. This sub-basin is configured as a strategic territory for the ecosystem ballance of the metropolis because it contains important natural remnants and watershed areas within its geographical limits, where the Cantareira System is located, responsible for the water supply of a large part of the population of the SPMR. Despite important legislation that intend to preserve or recover this territory, the growing and disorderly process of urbanization of the last decades has contributed to its environmental dilapidation, also affecting the water availability of the metropolis. The research aims to discuss how the urban and environmental instruments established for the Juqueri-Cantareira sub-basin propose strategies for the sustainable development of the region. The proposed methodology analyzes the Master Plans of the municipalities of Caieiras, Franco da Rocha and Mairiporã and the Specific Law of Protection and Restoration of Water Source of Alto Juquery, seeking to verify how these instruments articulate and incorporate the multiple dimensions of sustainability, promoting strategies for the sustainable development of the region.

Keywords: Dimensions of sustainability; Urban-environmental fringes; Urban and

environmental instruments; Water Supply Protection Area; Juqueri-Cantareira Sub-basin.

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Figura 1 - O Transecto Urbano-Rural ... 33

Figura 2 - Cobertura da Terra Bacia Alto Tietê (2010) ... 34

Figura 3 - Áreas Urbanas e Rurais na Bacia Alto Tietê (2010) ... 35

Figura 4 - Evolução da Mancha Urbana na Região Metropolitana de São Paulo versus Áreas Protegidas ... 37

Figura 5 - Sub-bacias Hidrográficas da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê destacando a Sub-bacias Juqueri-Cantareira ... 45

Figura 6 - Sub-bacia Juqueri-Cantareira: Distritos e unidade de conservação ... 50

Figura 7 - Parque Estadual da Serra da Cantareira, núcleo Pedra Grande. ... 51

Figura 8 - Parque Estadual Itaberaba Disponível em: < http://www.saopaulo.sp.gov.br/conhecasp/parques-e-reservas-natu- rais/parque-estadual-itaberaba//> Foto: Piervi Fonseca ... 52

Figura 9 - Parque Estadual do Juquery ... 53

Figura 10 - Parque Estadual do Jaraguá ... 54

Figura 11 - Parque Municipal Anhanguera... 55

Figura 12 - Reservatório Paiva Castro (Reservatório Juqueri)... 56

Figura 13 - Sub-bacia Juqueri-Cantareira: Distritos e Recursos Hídricos ... 57

Figura 14 - Sub-bacia Juqueri – Cantareira: Taxas Geométricas de crescimento anual por distrito segundo o Censo de 2010. ... 60

Figura 15 - Sub-bacia Juqueri – Cantareira: Densidade Demográfica por setor censitário, 2010. ... 61

Figura 16 - Sub-bacia Juqueri – Cantareira: Média do número de Moradores em domicílios particulares permanentes por setor censitário, 2010. ... 62

Figura 17 - Sub-bacia Juqueri – Valor do rendimento nominal médio mensal das pessoas responsáveis por domicílio, 2010. ... 63

Figura 18 - Sub-Bacia Juqueri-Cantareira: APRM-AJ, áreas urbanizadas, aglomerados subnormais e população em área de risco. ... 64

Figura 19 - Sub-bacia Juqueri – Índice Paulista de Vulnerabilidade Social, 2010. .. 66

Figura 20 - Sub-Bacia Juqueri-Cantareira: Unidades de Conservação, Sistema Viário e Ferrovia... 68

Figura 21 - Localização do Ferroanel e Rodoanel trecho norte e aeroporto em Caieiras... 69

Figura 22 - Cobertura da Terra na Sub-Bacia Juqueri-Cantareira ... 70

Figura 23 - Sub-Bacia Juqueri-Cantareira: APRM-AJ e Uso do Solo ... 71

(12)

Figura 25 - Sub-Bacia Juqueri-Cantareira: APRM-AJ, bens tombados em processo de tombamento pelo CONDEPHAAT ... 73 Figura 26 - Sub-bacia Juqueri – Cantareira: Porcentagem de domicílios particulares permanentes com abastecimento de água da rede geral por setor censitário, 2010. ... 76 Figura 27 - Sub-bacia Juqueri – Cantareira: Porcentagem de domicílios particulares permanentes com lixo coletado por setor censitário, 2010. ... 77 Figura 28 - Sub-bacia Juqueri – Cantareira: Porcentagem de domicílios particulares

permanentes com energia elétrica por setor censitário, 2010. Fonte:

Censo 2010, IBGE Elaboração, Andresa Lêdo Marques ... 77

Figura 29 - Sub-bacia Juqueri – Cantareira: Porcentagem de domicílios particulares

permanentes conectados a Rede de Esgoto por setor censitário, 2010.78

Figura 30 - Localização da sub-bacia juqueri-cantareira no contexto da Bacia

Hidrográfica Tietê e do Estado de São Paulo ... 80

Figura 31 - Sub-bacias Hidrográficas da Bacia Hidrográfica do AltoTietê destacando

a Sub-bacias Juqueri-Cantareira ... 83

Figura 32 - Zoneamento da Área de Preservação e Recuperação dos Mananciais Alto

Juquery (Lei no 15.790/2015) ... 84

Figura 33 - Zoneamento da Lei específica APRM-AJ ... 95

Figura 34 - Caieiras - Zoneamento Plano Diretor 2012 e Lei Específica Alto Juquery

2015 ... 97

Figura 35 - Franco da Rocha – Conflitos entre o Plano Diretor Lei Complementar Nº

618/2007 e Lei Específica Alto Juquery 2015 ... 100

Figura 36 - Zoneamento Urbano estabelecido no Plano Diretor Mairiporã ... 101

Figura 37 - Mairiporã – Conflitos entre o Plano Diretor Lei Complementar Nº 297/2006

e Lei Específica Alto Juquery 2015 ... 106

Figura 38 - Mosaico do sistema de parques Municipais de Mairiporã, Caieiras e

Franco da Rocha ... 134

Figura 39 - Mosaico dos Zoneamentos Municipais de Mairiporã, Caieiras e Franco da

Rocha ... 135

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Quadro 1 - Dimensões do ambientalismo ... 22

Quadro 2 - As dimensões da sustentabilidade segundo Magnaghi (2005) ... 27

Quadro 3 - As dimensões da sustentabilidade segundo Sachs (2009) Fonte: Sachs,

2009 ... 29

Quadro 4 - Síntese dos Principais Serviços Ambientais Associados à Reserva da

Biosfera do Cinturão Verde – RBCV ... 39

Quadro 5 - Grupos do IPVS 2010 – setores censitários com mais de 50 domicílios

particulares permanentes ... 65

Quadro 6 - Relação dos municípios que têm áreas na sub-bacia da Juqueri-Cantareira

e Situação dos Planos Diretores ... 93

Quadro 7 - APRM Alto Juquery (Lei 15.790/2015)- Subáreas De Ocupação Dirigida -

Características e Parâmetros Urbanísticos... 94

Quadro 8 - Conflitos e convergências entre Parâmetros Urbanísticos APRM Alto

Juquery e Plano Diretor de Caieiras ... 96

Quadro 9 - Lei específica APRM-AJ e Plano Diretor de Mairiporã: Parâmetros

Urbanísticos e níveis de conflito ... 103

Quadro 10 - Os Planos Diretores Municipais, a Lei Específica 15.790 e a Dimensão

Política da Sustentabilidade... 113

Quadro 11 - Os Planos Diretores Municipais, a Lei Específica 15.790 e a Dimensão

Socioeconômica da Sustentabilidade. ... 116

Quadro 12 - Os Planos Diretores Municipais, a Lei Específica 15.790 e a Dimensão

Ambiental da Sustentabilidade ... 121

Quadro 13 - Os Planos Diretores Municipais, a Lei Específica 15.790 e a Dimensão

Ambiental da Sustentabilidade ... 127

(14)

Tabela 1 - Índice de Qualidade da Água dos Rios da Sub-bacia Juqueri-Cantareira...58 Tabela 2 - População e Taxas Geométricas de crescimento anual dos municípios e distritos

que compõem as Sub-bacias Juqueri-Cantareira...59

Tabela 3 - Relação dos municípios que têm áreas na sub-bacia da Juqueri-Cantareira .... 109

(15)

APA Área de Proteção Ambiental APP Área de Preservação Permanente

APRM Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais do Alto Juquery APRM-AJ Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais do Alto Juquery ARA-1 Áreas de Recuperação Ambiental 1

BAT Bacia do Alto Tietê

BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CBH Comitê de Bacia Hidrográfica

CF Constituição Federal

CIMBAJU Consórcio Intermunicipal dos Municípios da Bacia Juqueri

CONDEPHAAT Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico

CONPRESP Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo

CPTI Cooperativa de Serviços e Pesquisas Tecnológicas e Industriais EMPLASA Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A

FEHIDRO Fundo Estadual de Recursos Hídricos FINEP Financiadora de Estudos e Projetos

FUSP Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo HIS Habitação de Interesse Social

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPT Instituto de Pesquisas Tecnológicas

LE Lei Específica

ONU Organização das Nações Unidas

PD Plano Diretor

PDUI Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado da Metrópole PRIS Programa de Recuperação de Interesse Social

RMSP Região Metropolitana de São Paulo

SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SER Subáreas Envoltórias dos Reservatórios

SIGRH Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos

SMA Secretaria do Meio Ambiente

(16)

SUCt Subáreas de Urbanização Controlada

SUICt Subáreas de Urbanização Isolada Controlada

TGCA Taxa Geométrica de Crescimento Anual da População

UC Unidade de Conservação

UNESCO United Nations Educational Scientific and Cultural Organization

(17)

INTRODUÇÃO ...13

1. ENTRE O URBANO E O AMBIENTAL: UM OLHAR SOBRE O TERRITÓRIO ...20

DESENVOLVIMENTO AUTOSSUSTENTÁVEL LOCAL:RISCOS,VULNERABILIDADES E RESILIÊNCIA ...25

AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE ...27

1.3.FRANJAS URBANO-AMBIENTAIS E SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS ...31

1.4.AIMPORTÂNCIA DOS SERVIÇOS AMBIENTAIS DESEMPENHADOS PELAS FRANJAS URBANO-AMBIENTAIS ...36

2. SUB-BACIA JUQUERI-CANTAREIRA E AS MÚLTIPLAS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE ...43

2.1.SUB-BACIA JUQUERI-CANTAREIRA:UMA FRANJA ESTRATÉGICA DA METRÓPOLE...44

2.2.ADIMENSÃO AMBIENTAL ...49

2.2.1. Áreas Verdes e Ambientalmente Protegidas ...50

2.2.2. Recursos Hídricos ...56

2.3.ADIMENSÃO SOCIOECONÔMICA ...58

2.3.1. Demografia...58

2.3.2. Emprego e Renda ...62

2.3.3. Assentamentos precários e vulnerabilidade ...63

2.4.ADIMENSÃO TERRITORIAL ...66

2.4.1. Transporte e mobilidade ...67

2.4.2. Uso do solo e patrimônio...69

2.4.3. Infraestrutura: água, esgoto, resíduos sólidos e energia ...75

2.5.A DIMENSÃO POLÍTICO-INSTITUCIONAL ...78

2.5.1. A Política Estadual de Recursos Hídricos ...79

2.5.2. Plano da Bacia do Alto Tietê ...85

2.5.3. Plano de Desenvolvimento e Proteção Ambiental da Sub-bacia do Juquery-Cantareira ...86

3. LEI ESPECÍFICA ALTO-JUQUERY E OS DESAFIOS DA COMPATIBILIZAÇÃO COM OS PLANOS MUNICIPAIS ...89

3.1.SITUAÇÃO DOS PLANOS DIRETORES E DA LEI ESPECÍFICA DA APRM-AJ ...90

3.2.OPLANO DIRETOR DE CAIEIRAS E A LEI ESPECÍFICA 15.790/2015 ...96

3.3.OPLANO DIRETOR DE FRANCO DA ROCHA E A LEI ESPECÍFICA 15.790/2015 ...97

3.4.OPLANO DIRETOR DE MAIRIPORÃ E A LEI ESPECÍFICA 15.790/2015 ... 100

4. A LEI ESPECÍFICA APRM-AJ E OS PLANOS DIRETORES MUNICIPAIS: AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE ... 109

4.1.MÉTODO ... 111

(18)

4.2.1. A dimensão Política ... 112

4.2.2. A Dimensão Socioeconômica ... 115

4.2.3. A Dimensão Ambiental ... 120

4.2.4. A Dimensão Territorial ... 126

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 136

REFERÊNCIAS ... 145

APÊNDICE A ... 150

ANEXO A ... 157

ANEXO B ... 161

(19)

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa

2

está centrada na relação entre urbanização e meio ambiente no contexto das franjas da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), utilizando como objeto de estudo a sub-bacia Juqueri-Cantareira. Essa sub-bacia, que faz parte da Bacia do Alto Tietê (região que praticamente coincide com a RMSP), é caracterizada como um território estratégico para o equilíbrio ecossistêmico da metrópole pelo fato deste conter em seus limites geográficos importantes remanescentes naturais, como o Parque Estadual da Serra da Cantareira, o Parque Estadual do Itapetinga, o Parque Estadual Itaberaba, o Parque Estadual do Juquery, o Parque Estadual do Jaraguá, a Área de Preservação Ambiental de Cajamar, a Área de Preservação Ambiental Cantareira e o Parque Municipal Anhanguera, que são parte da Zona Núcleo da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, definida pela UNESCO como área de destaque por seu valor ambiental e humano.

Por tratar-se de uma área de manancial de interesse regional, além desses importantes parques, incidem nessa região diversas legislações ambientais com vistas a proteção e a preservação de seu importante patrimônio ambiental, entre elas a Área de

2A presente pesquisa faz parte das reflexões do projeto de pesquisa “Assentamentos Precários em áreas vulneráveis na Região Metropolitana de São Paulo: As dimensões da sustentabilidade nas intervenções para urbanização”, desenvolvido no Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sob a liderança da Prof. Dra. Angelica Benatti Alvim, com verba do fundo MACKPESQUISA.

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Proteção e Recuperação dos Mananciais - Alto-Juquery (APRM-AJ), que abriga um dos principais reservatórios de abastecimento de água da metrópole, o Reservatório Paiva Castro.

A Lei Específica da APRM-AJ define um novo zoneamento ambiental com parâmetros que orientam o planejamento urbano municipal pressupondo um desenvolvimento sustentável integrado dessa sub-bacia.

Esse importante território está inserido em um contexto de franja por estar situado em uma área de transição, entre dois polos mais definidos - um predominantemente urbano e outro predominantemente rural. Essas áreas são abordadas muitas vezes de forma desintegrada e carecem de um olhar estratégico que compreenda a sua complexidade e faça a gestão sustentável de seus recursos (SCOTT, 2013).

Os municípios que compõem a sub-bacia Juqueri-Cantareira têm enfrentado um intenso crescimento urbano populacional, exercendo assim grande pressão sobre os recursos naturais da região, prejudicando a preservação do meio ambiente, a qualidade de vida da população e a produção de água, o que consequentemente aumenta o grau de vulnerabilidade social e climática do território. No caso da RMSP, essa discussão tem ocupado uma posição bastante relevante desde a crise hídrica enfrentada entre 2014 e 2016.

De acordo com Alvim, Bruna e Kato (2012), a Região Metropolitana de São Paulo possui baixa disponibilidade hídrica e precisa importar água de bacias vizinhas para abastecer uma população que passa de 20 milhões de habitantes. Mais de 50% da água consumida por essa população vem do Sistema Cantareira, e passa pela sub-bacia Juqueri-Cantareira.

Todos os cursos d’água que compõem a bacia hidrográfica que abastece a RMSP são essenciais à manutenção da vida, bem como das atividades que ocorrem nesse território. A qualidade dos recursos hídricos está ligada direta e indiretamente ao planejamento urbano e ambiental dessa região.

Nesse sentido, destaca-se a importância do planejamento urbano, em uma perspectiva de desenvolvimento sustentável. A concepção de sustentabilidade trabalhada nesta pesquisa alinha-se à perspectiva da escola territorialista defendida por Magnaghi e ao conceito de Desenvolvimento Sustentável discutido por Ignasy Sachs. Tais autores definem

“sustentabilidade” a partir de uma ótica sistêmica, integrada e holística, tendo em vista o

equilíbrio entre o homem e o seu ambiente, seja natural ou urbano. Para tanto, Magnaghi

(2005) e Sachs (2009) estabelecem dimensões da sustentabilidade, considerando

componentes tangíveis, como o território, o ambiente e o patrimônio; e não tangíveis, como a

cultura, as relações sociais e a ética. As dimensões da sustentabilidade discutidas pelos dois

autores foram articuladas no presente trabalho, compondo assim quatro dimensões da

(21)

sustentabilidade, a saber: a dimensão política, a dimensão socioeconômica, a dimensão ambiental e a dimensão territorial.

Considerando a importância ambiental estratégica da sub-bacia Juqueri-Cantareira, sobretudo devido aos importantes remanescentes naturais presentes em seu território que garantem a produção de água, entre outros serviços ecossistêmicos, e levando-se em conta os problemas que essa região tem enfrentado, propõem-se a seguinte questão: como a Lei Específica de Preservação e Recuperação dos Mananciais - Alto Juquery (APRM-AJ) e os Planos Diretores dos municípios, especialmente os de menor porte, da sub-bacia Juqueri- Cantareira têm proposto ações e diretrizes voltadas ao desenvolvimento sustentável desta região na formulação de suas respectivas legislações?

Com base na análise dessas legislações acompanhada de uma breve explanação sobre os planos propostos para a região (elaborados até 2018), a presente pesquisa busca investigar caminhos para a implementação de um conjunto de estratégias que podem ser consideradas potencialmente mais adequadas para promover a sustentabilidade nas franjas da metrópole, a partir do caso da sub-bacia Juqueri-Cantareira. O trabalho pretende identificar quais diretrizes e estratégias de planejamento urbano e ambiental formuladas para a sub- bacia Juqueri-Cantareira contribuem para o seu desenvolvimento sustentável. Tais diretrizes devem ter como pressuposto a promoção de territórios mais sustentáveis, sobretudo no que tange a qualidade de vida da população e o equilíbrio ecossistêmico da metrópole.

Colocando em perspectiva que o objeto de estudo desta dissertação é uma sub-bacia, que abriga em seu território importante área de manancial e unidades de conservação estratégicas para a sustentabilidade da RMSP, defende-se que os instrumentos urbanos e ambientais promovam em seu escopo diretrizes articuladas em um processo contínuo de gestão integrada entre as esferas municipais, regionais e estaduais tendo em vista a gestão, a proteção e a recuperação do patrimônio ambiental da região em questão.

Objetivo Geral

O objetivo geral da presente pesquisa é discutir de que maneira os instrumentos

urbanos e ambientais propostos estabelecem estratégias para o desenvolvimento sustentável

da região.

(22)

Objetivos específicos

1. Estabelecer um método de análise que correlacione a Lei Específica da APRM-AJ e os Planos Diretores municipais vigentes de Caieiras, Mairiporã e Franco da Rocha à luz de algumas dimensões da sustentabilidade, definidas no quadro teórico-conceitual;

2. Verificar os conflitos e convergências entre Planos Diretores e Legislação de Proteção e Recuperação dos Mananciais nesses três municípios (Caieiras, Mairiporã e Franco da Rocha) de forma a contribuir com o processo de revisão e compatibilização com o instrumento ambiental;

3. Identificar a partir desse método de análise quais diretrizes/estratégias presentes nesses instrumentos visam promover o desenvolvimento sustentável da região.

Metodologia

Para atingir os objetivos delineados na pesquisa, considerando que no contexto de pouca disponibilidade de água, a preservação e recuperação dos mananciais da região são estratégicas para a sustentabilidade da metrópole e que o desenvolvimento sustentável dos municípios deve ser garantido por meio de um processo de planejamento urbano e ambiental integrado, optou-se por aprofundar, nesta pesquisa, os instrumentos ambientais que incidem na APRM-Alto Juquery, com destaque para a sua lei específica, e nos municípios de menor porte, com destaque aos planos diretores vigentes de Caieiras, Franco da Rocha e Mairiporã, que foram escolhidos como estudos de caso em função dos seguintes critérios:

1. São os municípios da sub-bacia que apresentam maior porcentagem territorial na APRM-AJ; portanto, seus planos diretores são fundamentais ao alcance da sustentabilidade urbano-ambiental da região;

2. São municípios de menor porte quando comparados à São Paulo e, portanto, com menor grau de complexidade em relação às políticas urbanas e ambientais;

3. São municípios que têm apresentado um grande crescimento populacional se contrapondo às áreas preservadas.

A metodologia foi estabelecida a partir de cinco etapas interligadas: (1) Revisão

Bibliográfica; (2) Pesquisa Documental; (3) Caracterização geral e análise da sub-bacia

Juqueri-Cantareira; (4) Análise dos Conflitos e Convergências entre a Legislação Específica

de Mananciais e os Planos Diretores; e (5) Aplicação do método de análise que correlaciona

a Lei Específica (15.790/2015) e os Planos Diretores Municipais dos municípios escolhidos

(23)

em relação às dimensões da sustentabilidade. A síntese de cada etapa da metodologia encontra-se a seguir:

1. Revisão Bibliográfica – a revisão teórica dos aspectos relacionados ao objetivo da pesquisa foi realizada nesta etapa, principalmente em relação à compreensão dos principais conceitos que compõem o quadro teórico utilizado para a análise das políticas públicas da região, especialmente a análise dos instrumentos urbanos e ambientais. Objetivou-se sistematizar diferentes abordagens teóricas e conceituais relacionadas aos conceitos de franjas metropolitanas, desenvolvimento urbano sustentável e dimensões da sustentabilidade.

2. Pesquisa documental – no âmbito desta etapa, textos e documentos de procedências diversas relacionados ao tema da pesquisa e ao objeto de estudo empírico, sobretudo aqueles formulados pelas municipalidades e Estado para a sub-bacia Juqueri- Cantareira foram identificados, coletados e analisados. Os seguintes documentos e legislações foram sistematizados e compreendidos : as Unidades de Conservação Uso Sustentável e Proteção Integral, a Lei específica Nº 15.790, de 16 de abril de 2015, que legisla sobre a Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais do Alto Juquery (APRM-AJ) e, por fim, os planos diretores dos municípios selecionados.

3. Caracterização geral e análise da legislação ambiental e urbana que incide sobre o território da sub-bacia Juqueri-Cantareira - Nesta etapa, os principais dados demográficos, urbanos e socioeconômicos da região foram levantados. Tais dados foram sistematizados e georreferenciados. Procurou-se espacializar as legislações ambientais e urbanas que incidem sobre a sub-bacia Juqueri-Cantareira, formuladas até 2018, visando discutir as distintas abordagens de políticas públicas em relação ao seu desenvolvimento sustentável.

4. Análise das interfaces e conflitos entre os Planos Diretores Municipais vigentes e a Lei Específica da APRM Alto-Juquery: Construção de uma matriz de análise para comparação dos principais parâmetros presentes na Lei Específica da APRM-AJ (Lei n°

15.790/2015) e nos Planos Diretores Municipais onde buscou-se verificar interfaces e conflitos em relação aos instrumentos urbanos e ambientais.

5. Aplicação da Matriz de Avaliação proposta na Lei Específica (15.790/2015) e

Planos Diretores Municipais: análise geral da contribuição da Lei Específica e dos planos

diretores de três municípios que compõem a sub-bacia Juqueri-Cantareira à luz das

dimensões da sustentabilidade, definidas como fundamentais ao alcance do desenvolvimento

sustentável da região.

(24)

Ainda para atingir os objetivos propostos, esta dissertação foi estruturada em cinco capítulos, além desta introdução:

O capítulo 01 teve como finalidade discutir as interfaces entre assentamentos humanos, meio-ambiente, qualidade de vida e serviços ambientais, evidenciando a importância da gestão sustentável dos recursos disponíveis nas franjas urbano-ambientais.

Alguns dos conceitos centrais abordados no capítulo foram o desenvolvimento sustentável, as dimensões da sustentabilidade e as franjas metropolitanas. As ideias centrais discutidas por importantes autores que orientam a análise teórico-conceitual da pesquisa, tais como Alberto Magnaghi, Ignasy Sachs, Douglas Farr, Michael Hough, Paulo Pellegrino, Paulo Saldiva e Angélica Alvim foram sintetizadas neste capítulo.

No capítulo 02 buscou-se caracterizar o objeto de estudo - a sub-bacia Juqueri- Cantareira - abordando as suas principais características e evidenciando os seus principais desafios, sobretudo do ponto de vista urbano-ambiental. Para tanto, a ferramenta de georreferenciamento foi utilizada para a análise de alguns dados da região. As principais fontes de dados foram o IBGE (Censo de 2000 e 2010), a Fundação Seade e a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Por fim, apresentou-se um diagnóstico das principais potencialidades e deficiências da sub-bacia Juqueri-Cantareira do ponto de vista urbano- ambiental, evidenciando os desafios a serem enfrentados pelas políticas urbanas e ambientais.

O capítulo 03 teve como objetivo central discutir os desafios da compatibilização entre a Lei Específica da APRM-AJ (Lei n° 15.790/2015) e os Planos Diretores Municipais de três principais municípios que compõem esse território: Caieiras, Franco do Rocha e Mairiporã.

Buscou-se discutir os limites e os desafios da integração das políticas públicas – urbanas e ambientais – em prol da gestão hídrica e da sustentabilidade dessa rede de municípios.

O capítulo 04 visou discutir as interfaces entre legislações urbanas e ambientais da sub-bacia Juqueri-Cantareira à luz das dimensões da sustentabilidade definidas no capítulo 01. Buscou-se compreender como os instrumentos urbanos e ambientais - neste caso, os planos diretores dos municípios escolhidos e a Lei Específica de Preservação e Recuperação dos Mananciais - incorporam as principais dimensões da sustentabilidade em prol de uma possível integração entre desenvolvimento urbano e meio ambiente.

Por fim, no capítulo Considerações Finais, as principais conclusões parciais de cada

capítulo foram retomadas buscando evidenciar os objetivos delineados pela pesquisa e, ao

mesmo tempo, teceram-se algumas recomendações para a construção de políticas públicas

- urbanas e ambientais - mais justas, inclusivas e sustentáveis.

(25)

CAPÍTULO 01

(26)

1. ENTRE O URBANO E O AMBIENTAL: UM OLHAR SOBRE O TERRITÓRIO

A questão da sustentabilidade tem ocupado um dos lugares centrais no que diz respeito à discussão do desenvolvimento duradouro do planeta. No âmbito desta discussão, as cidades têm se destacado pelo fato de o meio urbano ser, na atualidade, o habitat de mais da metade da população mundial

3

. Nessa perspectiva e considerando que o crescimento urbano populacional é uma tendência para os próximos anos, coloca-se um cenário no qual as cidades desempenham um papel fundamental no equilíbrio e na sustentabilidade do planeta, pois elas representam a oportunidade de maior qualidade de vida às pessoas, agregando instrumentos que proporcionam o uso e o reaproveitamento sustentável dos recursos naturais, entre outras vantagens que a vida urbana representa. Mas, por outro lado, é a partir da cidade que se estabelece um círculo vicioso de degradação ambiental associado a um processo de urbanização sem planejamento. (ALVIM; MARQUES; ALVES, 2018)

Nesse sentido, o construído e o natural têm sido vistos de maneira bastante antagônica. Em relação a gestão sustentável dos recursos de um território, no contexto

3 De acordo com o relatório da UNhabitat de 2016 (Urbanization and Development: Emerging Futures - World Cities Report 2016), 54% da população mundial (aproximadamente 4 bilhões de pessoas) vive em cidades. As projeções apresentadas pelas Nações Unidas apontam que a porcentagem de população urbana mundial deve subir para 66% na metade do presente século. Disponível em: http://wcr.unhabitat.org/wp- content/uploads/sites/16/2016/05/WCR-%20Full-Report-2016.pdf . Acesso em: Maio de 2019.

(27)

brasileiro, um certo antagonismo entre desenvolvimento econômico e ecologia ganhou ênfase no final dos anos 60. A visão ecologista acreditava que a questão econômica representava a principal ameaça ao meio ambiente. Em contrapartida, a perspectiva econômica entendia que a questão ecológica estava dificultando o desenvolvimento do país, criando um falso antagonismo entre as dimensões ambiental e econômica. (PHILIPPI; BRUNA, 2014, p.665).

Em oposição a uma visão antagônica, muitos autores defendem que o desenvolvimento econômico deve ser pensado com base na busca contínua da melhoria da qualidade do meio ambiente, sem comprometer os recursos naturais e vice-versa. O objetivo de ambos deve ser o bem-estar, a evolução, a qualidade ambiental e de vida dos seres vivos.

Diversos autores (ACSELRAD, 2004; BELLEN, 2006; FARR, 2013; MAGNAGHI, 2005) argumentam que o conceito de desenvolvimento sustentável surge em resposta à crise da visão tradicional de crescimento e desenvolvimento, visão esta que, pautada no discurso do crescimento econômico, trata o meio ambiente como uma fonte de recursos inesgotáveis a ser explorada. A partir dessa discussão, surgiram algumas linhas principais de pensamento que conceituam o desenvolvimento sustentável. Algumas destas linhas estão mais voltadas para uma visão tecnocêntrica, numa perspectiva que aposta no desenvolvimento tecnológico como a grande solução para os problemas ambientais, e outras mais ecocêntricas, que acreditam numa visão mais voltada à proteção do meio ambiente, apostando em uma regulação bastante rígida e restritiva com o objetivo de proteger o ambiente natural das ações antrópicas. Bellen (2006, p.26), propõe um quadro

4

ilustrando as nuances entre esses dois extremos ideológicos e suas particularidades (Quadro 01).

Na mesma linha de raciocínio de Bellen (2006) e com o objetivo de sistematizar as principais correntes que tratam da questão da sustentabilidade, Magnaghi (2005, p. 83) propõe uma divisão das linhas de compreensão do conceito de sustentabilidade em três grupos com enfoques distintos:

- O enfoque funcionalista, que propõe uma espécie de modernização ecológica;

- O enfoque ambientalista, que é biocêntrico, ou seja, centrado na natureza;

- O enfoque territorialista, que é antrobiocêntrico, ou seja, centrado no homem e na natureza;

4 Quadro montado por Hans Michael van Bellen a partir da discussão de Pearce no livro “Environmental economics”, de 1993.

(28)
(29)

ecossistêmicos para países e comunidades mais pobres. (MAGNAGHI, 2005, p. 84;

ACSELRAD, 2004, p.29)

O segundo enfoque discutido por Magnaghi é o ambientalista, representado por um grupo que entende o meio ambiente como um sistema natural com leis próprias, que devem ser respeitadas. Nesse sentido, a interação entre o ambiente natural e construído passa a ser vista como uma ameaça. No enfoque ambientalista, a economia deve ser reestruturada com base na “economia da natureza”, inserindo o "capital natural" entre o capital produzido pelas pessoas e pelo trabalho, propondo assim uma espécie de "economia ecológica". Na tentativa de defender a dimensão ambiental, tão degradada por modelos de desenvolvimento baseados na priorização do crescimento econômico, a visão ambientalista não define limites à poluição e degradação, mas tem como base sistemas de alta qualidade ambiental e ecoeficiência.

(MAGNAGHI, 2005, p. 88)

Apesar de o modelo ambientalista assumir uma visão crítica e contrária ao modelo de desenvolvimento baseado no crescimento econômico ilimitado e propor uma nova perspectiva de desenvolvimento, essa abordagem tende a direcionar suas ações à proteção extrema da natureza, podendo muitas vezes tender a um determinismo rígido do desenho do ambiente antrópico e não reproduzir uma crítica radical do sistema socioeconômico que determina a degradação ambiental. (MAGNAGHI, 2005, p. 88; DORADO, 2018, p.544)

O terceiro enfoque discutido por Magnaghi é o territorialista. O enfoque territorialista também interpreta o território como uma mistura de ecossistemas. Porém, a grande diferença entre as duas visões está na centralidade das mesmas: o territorialismo enfrenta a questão da sustentabilidade centrando sua atenção no ambiente humano (considerando o ambiente natural e o ambiente construído), pensando no desenvolvimento sustentável a partir do território, entendido como um neoecossistema produzido por pessoas, incluindo as relações entre cultura, natureza e história. A partir desta perspectiva holística, a degradação do território tem implicações em múltiplas dimensões, gerando uma deterioração do território natural, construído e também dos aspectos sociais. (MAGNAGHI, 2005, p. 92)

A abordagem territorialista supera a visão dualista que divide o território entre as áreas com função “econômica” e as áreas protegidas, com função “naturalista”, em direção a uma visão sistêmica e integrada, na qual todo o território (incluindo o ambiente urbano, construído) é tratado como um neoecossistema, buscando um conceito de sustentabilidade ambiental, social, territorial, econômico e político. Nas palavras do autor:

A abordagem territorialista interpreta, portanto, a degradação ambiental (e a

insustentabilidade do modelo de desenvolvimento que a produz) como

(30)

consequência do processo sistemático de desterritorialização e destruição das relações sinérgicas entre o ambiente físico, construído e antrópico que caracteriza o modelo da ocupação contemporânea. Essa abordagem busca, portanto, a solução do problema da sustentabilidade na promoção de ações territorializantes que reconstituam, de forma inovadora, essas relações.

(MAGNAGHI, 2005, p. 94 - tradução nossa)

Paulo Saldiva (2018) e Alberto Magnaghi (2005) propõem um paralelo entre a biologia e a cidade. Os autores abordam o território como um ser vivo que possui um ciclo de vida, características próprias, personalidade e identidade. Ao construir um ambiente artificial - o urbano - nossa civilização tem gradualmente se distanciado de uma relação mais consciente com o meio ambiente, estabelecendo suas relações de trabalho, lazer e mobilidade em ambientes fechados e/ou artificiais e vivendo um estilo de vida que potencializa a poluição e o desperdício em diferentes aspectos. Pensando nos grandes aglomerados urbanos, como as metrópoles contemporâneas, é possível dizer que, apesar dos muitos aspectos positivos que acompanharam o avanço e o crescimento dessas grandes cidades, tem havido uma gradual diminuição da qualidade de vida nesses ambientes, sobretudo devido ao próprio estilo de vida adotado nestes assentamentos. (FARR, 2013; MAGNAGHI, 2005; SALDIVA, 2018)

De acordo com Alberto Magnaghi (2005) e Douglas Faar (2013), o estilo de vida e a forma de produção das cidades, com uma tendência a usar os recursos humanos, ambientais e territoriais de forma predatória têm causado uma enorme degradação ambiental. Paulo Saldiva (2018) complementa essa argumentação trazendo a perspectiva da saúde pública e elencando algumas condições urbanas que propiciam o adoecimento da população, como a poluição atmosférica, as ilhas de calor, as alterações do ciclo hidrológico, a imobilidade, a violência, a falta de contato com a natureza, etc. Infelizmente, muitas cidades proporcionam o distanciamento da população urbana dos ciclos da natureza, além de um certo descompasso em relação às consequências dos desequilíbrios ambientais, que muitas vezes são mais perceptíveis e apresentam consequências mais graves em territórios periféricos e precários do que em bairros mais centrais, dotados de infraestrutura. (ACSELRAD, 2004)

Por outro lado, existem alternativas para esse tipo de desenho de cidade que

desconsidera as condicionantes naturais do território e distancia as ações cotidianas dos

ciclos naturais. Quando o território e seu patrimônio ambiental e cultural são considerados no

desenho urbano, a resiliência, a consciência ambiental, patrimonial e cultural aumentam

substancialmente, pois há um consequente aumento do contato da população com o lugar

que habitam, colocando os habitantes em contato com a história e os ciclos naturais do

território em questão. Este maior contato proporciona uma proximidade aos danos que o

próprio estilo de vida da comunidade têm trazido ao ambiente local, bem como a importância

(31)

das decisões de setores públicos e privados e seus desdobramentos no contexto local.

(MAGNAGHI, 2005; HOUGH, 2004)

A concepção de sustentabilidade trabalhada nesta pesquisa alinha-se a perspectiva territorialista, tendo em vista o equilíbrio entre o homem e o seu ambiente, seja natural ou urbano, assim como o desenvolvimento sustentável, que implica o desenvolvimento dentro dos padrões de respeito à natureza englobados em três tipos de valores: os não-tangíveis (éticos, estéticos, culturais, recreativos, científicos e educativos), os valores ecológicos e os valores econômicos. (MAGNAGHI, 2005; PHILIPPI E BRUNA.2014, p.666)

Desenvolvimento Autossustentável Local: Riscos, Vulnerabilidades e Resiliência Diversos autores (MAGNAGHI, 2005; FAAR, 2013; ACSELRAD, 2004; SALDIVA, 2018) discorrem acerca do crescimento de movimentos sociais e de linhas de pesquisa, no Brasil e no mundo, que buscam encontrar caminhos para a regeneração do território, trazendo uma perspectiva de desenvolvimento sustentável do planeta a partir de uma relação saudável entre os assentamentos humanos e o meio ambiente. Tais autores defendem uma abordagem integrada e sistêmica do território, na qual o desenvolvimento sustentável se apoia na busca por relações virtuosas entre as dimensões social, ambiental, econômica e política. Essa perspectiva de desenvolvimento está apoiada no desenvolvimento local, denominada por Magnaghi (2005) como “autodesenvolvimento sustentável local”, corrente derivada da escola territorialista italiana e que, de acordo com Alvim (2003), desenvolveu uma contribuição própria para a consolidação do conceito de desenvolvimento sustentável e do território, visando explorar maneiras de se restabelecer uma relação harmoniosa entre natureza e cultura, e cultura e história. O desenvolvimento autossustentável local está profundamente ligado aos princípios de cidadania e participação da sociedade em suas diferentes esferas.

Nesse sentido, uma comunidade local articulada, que valorize, preserve e cuide do seu território deve ser construída.

De acordo com o autor, a sustentabilidade não é vista para o autor como um problema

setorial, meramente ambiental, mas sim como um problema relacional, que faz parte de um

processo de desconexão entre a civilização e seu habitat, seu próprio território. Em um

contexto no qual o natural, como as florestas e rios, faz parte da vida das pessoas, é

reconhecido como patrimônio cultural e natural e evidencia os elementos que sustentam a

vida humana, a degradação destes patrimônios (invasões, queimadas, desmatamento,

poluição) passa a ser vista como uma ameaça à população (MAGNAGHI, 2005; HOUGH,

2004). Para o autor:

(32)

A degradação só pode ser tratada com sucesso duradouro se o problema for abordado por meio de uma configuração diferente das relações entre o sistema sociocultural, o sistema econômico e o sistema natural, que gera equilíbrios dinâmicos duradouros entre a sociedade e o meio ambiente.

Nesse contexto, ações setoriais que não colocam em questão o modelo econômico e a supervalorização das razões econômicas de desenvolvimento também são consideradas ineficazes e fracas. (MAGNAGHI, 2005, p.93 - tradução nossa)

O desenvolvimento autossustentável local trabalha a ideia de incentivo à cultura do autogoverno e cuidado do território por meio da reconquista da cidadania, da consciência e da qualidade ambiental. Para iniciar um processo de reterritorialização é necessário que se faça um reconhecimento das identidades do território em questão em diferentes escalas (da macro à micro), por meio de uma leitura dos processos de formação do território.

O território é composto pelo acúmulo de camadas históricas que dão significado ao território, como cidades, monumentos, cultura, patrimônio histórico, patrimônio ambiental, edifícios, pontes, entre outros. A partir da leitura e interpretação dessa massa territorial é possível estabelecer algumas bases para o processo de territorialização, adquirindo boas práticas do conhecimento local que incentivem a boa relação entre os assentamentos humanos e o meio ambiente. Cabe aqui ressaltar que a análise dos processos históricos do território não visa transformar o ambiente em um museu; a intenção é utilizar a análise para compor um projeto inovador, capaz de gerar a alta qualidade territorial e o bom vínculo entre a comunidade e seu ambiente. Deve haver, no processo de reterritorialização, uma fase inicial na qual os sistemas ambientais que foram devastados ou contaminados pela ação antrópica sejam reabilitados, gerando alta qualidade de vida à população e incentivando o senso de comunidade e pertencimento, para que a mesma cuide e sustente o território em suas ações cotidianas. (MAGNAGHI, 2005)

Estabelecer um processo de planejamento com base na visão territorialista implica

inevitavelmente um trabalho multidisciplinar e um movimento cultural. Como mencionado

anteriormente, o modelo de cidade que predomina atualmente possui um desenho que

distancia a população dos ciclos naturais, tornando nossa civilização distante e cega frente

aos danos que a mesma tem causado à natureza. Sem a pretensão de aprofundar a discussão

que abrange outros campos do conhecimento, mas tangenciando-os, esse processo de

distanciamento dos seres humanos em relação a dimensão ambiental não tem acontecido

somente nas cidades. A mercantilização das necessidades, a transformação dos indivíduos

em meros “consumidores”, entre outros aspectos têm levado a nossa civilização a um

crescente distanciamento da sua própria natureza.

(33)

No campo das cidades, esse distanciamento do território, traduzido na ocupação de áreas impróprias, desmatamento e falta de áreas verdes, tem trazido consequências desastrosas à própria sociedade. Essas consequências têm sido vistas como um “sinal de alerta” por grande parte da população e mesmo por parte dos governos, evidenciando fragilidades, vulnerabilidades e riscos presentes no território. Esse “sinal de alerta” se traduz em uma possibilidade de diálogo com a sociedade e movimentos sociais, conscientizando e fortalecendo as comunidades locais e apresentando a reterritorialização como uma alternativa capaz de gerar resiliência e alta qualidade ambiental.

As Dimensões da Sustentabilidade

O conceito de sustentabilidade é complexo e permite abordagens distintas, como mencionado anteriormente. Neste item, as dimensões da sustentabilidade serão discutidas a partir de dois autores: Alberto Magnaghi (2005) e Ignasy Sachs (2009).

Alberto Magnaghi faz parte da escola territorialista italiana, escola esta que trabalha o conceito de desenvolvimento sustentável a partir de uma perspectiva integrada, dando alto valor ao desenvolvimento local e à importância do território. A partir da perspectiva da abordagem territorialista, Magnaghi estabelece 5 dimensões da sustentabilidade, a saber: a dimensão social, a dimensão econômica, a dimensão ambiental, a dimensão territorial e a dimensão política. Tais dimensões são detalhadas no quadro a seguir:

Quadro 2 - As dimensões da sustentabilidade segundo Magnaghi (2005)

Fonte: Magnaghi (2005)

Elaborado pela autora

(34)

Para Magnaghi (2005), a sustentabilidade política diz respeito a alta capacidade de autogoverno de uma comunidade em respeito a suas relações com sistemas de tomada de decisão exógenos e superiores” (MAGNAGHI, 2005 p. 100 - tradução nossa), incentivando os sujeitos a valorizar o território e o patrimônio, construindo uma comunidade local forte, complexa e multicultural, baseada nos princípios de cidadania, democracia e participação.

Esse tipo de organização não extinguiria os interesses conflitantes da comunidade. No entanto, a mediação dos conflitos da mesma deve estar baseada na compreensão e na valorização dos interesses coletivos em detrimento aos interesses individuais.

A sustentabilidade social tem como base o alto nível de interação entre os diversos atores sociais, bem como a participação dos mesmos no processo local de tomada de decisão, tendo em vista a igualdade social e de gênero. O agente público local deve garantir que todos os atores estejam presentes nas tomadas de decisão e sejam ouvidos e considerados. Deve-se buscar o crescimento do laço social entre Estado e mercado.

A sustentabilidade econômica se baseia na proposta de um modelo de desenvolvimento calcado na valorização territorial, capaz de produzir valor agregado, buscando a autossustentabilidade econômica. Nas palavras de Magnaghi:

A fim de buscar a autossustentabilidade econômica, é necessário incluir, na avaliação de projetos de desenvolvimento local e planos territoriais, critérios para a seleção e valorização de atividades agrícolas, comerciais, industriais e terciárias que:

- Produzam uma apreciação do património territorial, ambiental e socioeconômico;

- Facilitem o desenvolvimento da autonomia empresarial local em relação à valorização de recursos locais;

- Facilitem iniciativas de produção, processos de intercâmbio e atividades financeiras com valor ético, que produzem bens e serviços públicos (qualidade ambiental, territorial e social);

- Produzam bens relacionais alheios à heterodireção da grande empresa;

- Favoreçam a formação de redes produtivas intersetoriais complexas, capazes de se adaptar às turbulências do contexto e de produzir sistemas econômicos locais do tipo de distritos produtivos;

- Qualifiquem a identidade produtiva, cultural e social da região, favorecendo a permanência da cidadania e sua integração como produtora. (MAGNAGHI, 2005, p.102 - tradução nossa)

A sustentabilidade ambiental, que na perspectiva territorialista ocorre por meio da

proposição de regras que visem estabelecer uma boa relação entre os assentamentos

humanos e o meio ambiente. Estas regras devem proporcionar a redução da pegada

ecológica dos assentamentos visando a geração da autossustentabilidade do território. Nesse

sentido, busca-se fechar os ciclos de água, energia, resíduos sólidos e alimentos a nível local

(35)

e regional, reduzir os deslocamentos de pessoas e mercadorias, incentivar o consumo local e requalificar as atividades agrícolas e florestais.

E por fim, a sustentabilidade territorial, que pode ser entendida como a capacidade

“de um modelo populacional de favorecer e desenvolver a reterritorialização por meio de suas regras produtivas e reprodutivas.” (MAGNAGHI, 2005 p. 104 - tradução nossa) Dessa forma, o planejamento territorial deve impedir o consumo da terra, reorganizar os espaços já construídos, recuperar as áreas abandonadas, promover a compactação das cidades, criar centralidades, valorizar o patrimônio local (ambiental e cultural) e valorizar os espaços público e multiculturais.

Sachs (2009) também defende a complexidade e a interdisciplinaridade do conceito de desenvolvimento sustentável. Segundo o autor, o termo “sustentabilidade” é muitas vezes utilizado para expressar “sustentabilidade ambiental”; o entanto, o mesmo acredita que tal conceito contém diversas outras dimensões. Para tanto, Sachs (2009) define oito dimensões da sustentabilidade que dão suporte para a aplicação e a análise deste importante conceito, a saber: a dimensão social, a dimensão econômica, a dimensão ambiental, a dimensão territorial, a dimensão ecológica, a dimensão política nacional e a dimensão política internacional, que estão detalhadas no quadro a seguir:

Quadro 3 - As dimensões da sustentabilidade segundo Sachs (2009) Fonte: Sachs, 2009

Fonte: Sachs (2009)

Elaborado pela autora

(36)

Para Sachs, a dimensão social da sustentabilidade se destaca como a própria finalidade do desenvolvimento e diz respeito a distribuição de renda de forma mais justa, a igualdade de acesso aos serviços sociais e a garantia de trabalhos mais humanizados, ou seja, que proporcionem qualidade de vida ao trabalhador. A dimensão cultural está calcada em uma relação de equilíbrio e respeito entre tradição e inovação. Além disso, considerando o nível nacional, Sachs defende a autonomia para o desenvolvimento de um projeto nacional integrado. A dimensão ecológica aborda a preservação da biodiversidade, a produção de recursos renováveis e a limitação do uso dos recursos não renováveis. A dimensão ambiental da sustentabilidade ocorre, segundo o autor, em decorrência da dimensão social, cultural e ecológica; tal dimensão está baseada no respeito e no reconhecimento da capacidade de autopurificação dos ecossistemas naturais. A dimensão territorial, segundo Sachs, deve estabelecer uma distribuição equilibrada dos assentamentos e das atividades humanas. Nesse sentido, essa dimensão trabalha com a superação das disparidades inter- regionais, as melhorias no ambiente urbano e as estratégias de desenvolvimento adequadas às áreas ambientalmente vulneráveis. Além disso, o autor pontua a necessidade da destinação mais equilibrada dos investimentos públicos no âmbito urbano e rural.

Ainda segundo Sachs, a dimensão econômica deve trabalhar o desenvolvimento econômico intersetorial de forma equilibrada, a segurança alimentar, a capacidade de modernização/inovação contínua e a inserção na economia internacional. Segundo Sachs, a dimensão econômica da sustentabilidade é urgente e necessária; no entanto, ela não deve ser encarada como uma condição prévia para o desenvolvimento das demais dimensões, posto que “um transtorno econômico traz consigo o transtorno social, que, por seu lado, obstrui a sustentabilidade ambiental” (SACHS, 2009, p.77)

Por fim, Sachs trabalha a dimensão política da sustentabilidade, dividindo-a em duas esferas: a política nacional e a internacional. A política nacional baseia-se na apropriação universal dos direitos humanos e da democracia e na existência de um nível razoável de coesão social. Além disso, o Estado deve ser capaz de desenvolver e implementar um projeto nacional de desenvolvimento. A política internacional deve garantir a promoção da paz (e prevenção de guerras), a cooperação internacional, o controle internacional do sistema financeiro e de negócios, a gestão do patrimônio ambiental e cultural como herança comum da humanidade e um sistema efetivo de cooperação científica e tecnológica internacional.

Para o autor, a falta de governabilidade política traz graves consequências às demais

dimensões da sustentabilidade. Nesse sentido, deve-se trabalhar a dimensão política em

direção a reconciliação do desenvolvimento com a conservação da biodiversidade.

(37)

Nota-se que as dimensões da sustentabilidade trabalhadas por Magnaghi (2005) e Sachs (2009) contém uma série de similaridades e relações; os dois autores entendem o conceito de sustentabilidade de uma visão holística, complexa e integrada, considerando componentes tangíveis, como o território, o ambiente e o patrimônio; e não tangíveis, como a cultura, as relações sociais e a ética.

1.3. Franjas Urbano-Ambientais e Serviços Ecossistêmicos

Conforme discutido anteriormente, a questão da sustentabilidade tem ocupado um lugar de destaque no que tange a discussão do desenvolvimento duradouro do planeta, em suas múltiplas dimensões. O ambiente urbano

5

, habitat da maior parte da população mundial, exerce um papel fundamental no equilíbrio e na sustentabilidade do planeta, pois representa a oportunidade de uma maior qualidade de vida às pessoas, agregando instrumentos que proporcionam o uso e o reaproveitamento sustentável dos recursos naturais, o acesso a infraestrutura, a mobilidade, além de outras vantagens que a vida urbana representa. No entanto, se por um lado a vida urbana proporciona uma série de benefícios à população, por outro, a intensidade do processo de urbanização no Brasil e no mundo tem exercido uma grande pressão sobre os serviços ambientais, estabelecendo um círculo vicioso de degradação ambiental associado à falta de planejamento urbano e à gestão ambiental em muitas cidades. (ALVIM; MARQUES; ALVES, 2018)

Além da questão do crescimento urbano populacional, existe também uma preocupação com o estilo de vida que o modelo vigente de cidade tem trazido. Douglas Farr (2013) trabalha a ideia de que o modelo americano de cidade do século XX - modelo este que influenciou fortemente o processo de urbanização das cidades brasileiras, baseado no espraiamento da mancha urbana, na divisão da cidade em zonas monofuncionais e na valorização do transporte automotivo individual - tem uma parcela de responsabilidade no estilo de vida da população urbana que, de um modo geral, possui pouco contato com a natureza. Segundo Farr (2013) e Magnaghi (2005), o modelo vigente de cidade nos estimula cada vez mais a um estilo de vida individualista, que exerce a maioria de suas atividades em ambientes fechados, priorizando o uso do carro como meio de transporte, desestimulando assim o deslocamento a pé e o contato humano com o meio ambiente. Os dois autores acreditam que esse estilo de vida tem distanciado a população dos ciclos da natureza,

5 Segundo relatório da ONU de 2018, chamado “World Urbanization Prospects”, em 2018 55% da população (4.2

bilhões de pessoas) reside em áreas urbanas. Disponível em:

https://www.un.org/development/desa/publications/2018-revision-of-world-urbanization-prospects.html. Acesso:

Maio de 2019.

(38)

tornando-a acostumada e "cega" frente aos danos que esse próprio estilo de vida tem causado.

Devido às questões de impacto das cidades na sustentabilidade do planeta, bem como no estilo de vida das pessoas, diversas instituições, organizações e mesmo tratados internacionalmente reconhecidos têm voltado sua atenção para a relevância das cidades no processo de transição para a implementação de um desenvolvimento sustentável, ou seja, um conceito de desenvolvimento que surge a partir da tentativa de explorar alternativas ao modelo de desenvolvimento vigente e aos impactos que os seres humanos causam aos ambientes onde estes se inserem. No documento da ONU (Organização das Nações Unidas)

“Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” (2016) foram estabelecidos 17 objetivos de nível local e global para alcançar o desenvolvimento sustentável até 2030. Os objetivos propostos neste documento, em especial o objetivo 11

“Tornar as cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis”, reconhecem a relevância do desenvolvimento urbano como instrumento capaz de melhorar a qualidade de vida nas cidades e promover sustentabilidade. (ALVIM, MARQUES; ALVES, 2018)

Pesquisas recentes apontam que, no contexto global e particularmente no contexto Latino-Americano, o crescimento urbano populacional acelerado não ocorre com tanta intensidade nas cidades sedes das metrópoles e sim nos centros menores de suas periferias.

De acordo o IPEA (MARCIAL et al., 2015), estima-se que, em 2030, as pequenas e médias cidades representarão uma proporção ainda maior da população urbana. Os pequenos e médios centros urbanos serão responsáveis por 45% do aumento esperado na população urbana mundial entre 2009 e 2025, uma tendência que provavelmente continuará até 2030.

Estas áreas periféricas, que têm crescido em população urbana, estão em uma zona de transição entre dois grandes polos com usos mais definidos, sendo um polo densamente urbanizado e outro predominantemente rural (PRYOR, 1968, p.205), configurando territórios complexos e frequentemente pressionados por diversas demandas e atores. Estas zonas são denominadas franjas urbano-rurais ou áreas periurbanas. Robin Pryor (1968), um dos principais autores que se debruçou sobre o estudo das franjas urbano-rurais

6

argumenta que esses territórios se configuram em uma zona de transição complexa na periferia das crescentes áreas urbanas nos países ocidentais. Nas palavras do autor:

A franja urbano-rural é uma zona de transição no uso do solo, com características sociais e demográficas, situando-se entre (a) as áreas urbanas e suburbanas continuamente construídas da cidade central, e (b) o interior rural, caracterizado pela quase completa ausência de habitações não agrícolas, ocupações e uso do solo, e de orientação social urbana e rural; um

6 Definida pelos Anglo-Saxônicos como “rural-urban fringe” (ROCHA et al., 2005, p.5)

Referências

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