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ANAIS 37ºANCLIVEPA p.0062

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Academic year: 2021

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PNEUMONIA POR COINFECÇÃO MYCOPLASMA CYNOS E BORDETELLA SPP.

EM CÃO: DIAGNÓSTICO E MONITORIZAÇÃO TERAPÊUTICA POR PCR EM TEMPO REAL (RELATO DE CASO)

Fabio Navarro BALTAZAR1; José Adauto GONÇALVES2; Paula Catarina de Oliveira FARIA2 ; Cecília de Faria Brito AUGUSTO3; Andrea CHEMIN3; Carla Alice

BERL4

1- Médico veterinário coordenador científico, Departamento de Infectologia, Hospital Veterinário Pet Care, São Paulo, SP. [email protected]

2- Médicos veterinários, Departamento de Diagnóstico por Imagem, Hospital Veterinário Pet Care, São Paulo, SP.

3- Médicas veterinárias, Departamento de Terapia Intensiva, Hospital Veterinário Pet Care, São Paulo, SP.

4- Médica veterinária, Diretoria Clínica, Hospital Veterinário Pet Care, São Paulo, SP.

Resumo

A Doença Respiratória Infecciosa Canina é caracterizada pela frequente associação entre agentes infecciosos distintos, virais e bacterianos. O papel da bactéria Mycoplasma cynos neste contexto permanece incerto, porém evidências científicas sugerem sua capacidade de colonização do trato respiratório inferior, gerando assim quadros graves de pneumonia. O presente trabalho teve por objetivo descrever um caso canino de pneumonia por coinfecção M. cynos e Bordetella spp, diagnosticado e monitorado terapeuticamente por PCR em tempo real, e inicialmente refratário à antibioticoterapia empírica convencional.

Palavras-chave: Infecção, sistema respiratório, microbiologia.

Keywords: Infection, respiratory system, microbiology

Revisão de Literatura

A Doença Respiratória Infecciosa Canina, conhecida popularmente como

“tosse dos canis”, é caracterizada pela frequente associação entre agentes infecciosos distintos, virais e bacterianos, historicamente envolvendo o vírus da parainfluenza canina, o adenovírus tipo 2 canino e o herpesvirus canino tipo 1, e recentemente, patógenos como o pneumovirus canino, o vírus da influenza canina, o coronavirus pantropico canino, Streptococcus zooepidemicus e Mycoplasma cynos, associados ou não à infecção por Bordetellabronchiseptica (CHALKER et al, 2004).

As bactérias do gênero Mycoplasma pertencem à classe Mollicutes, não apresentam parede celular e se encontram entre os menores microorganismos capazes de auto-multiplicação, colonizando a membrana mucosa dos tratos

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respiratório e genital de várias espécies animais e seres humanos (ROSENDAL, 1982). Nos cães, são considerados como integrantes da microbiota bacteriana do trato respiratório superior, assim como M. canis, M. edwardii, M. maculosum e M.

spumans, já isolados da cavidade nasal de cães sadios e doentes, porém recentes evidências científicas justificam sua ocorrência concomitante no trato respiratório inferior de cães sadios, pressupondo-se a possibilidade de colonização pulmonar durante pneumonia ou secundariamente aos efeitos imunossupressores virais, nos coinfectados, com especial destaque para a cinomose (HONG e KIM, 2012).

Já a bactéria gram-negativa Bordetella bronchiseptica se caracteriza pelo agente etiológico mais comum nas infecções do trato respiratório superior em cães, comumente relacionada à inflamação traqueobrônquica, porém indivíduos imunossuprimidos, coinfectados por outros agentes infecciosos bacterianos ou virais, ou ainda portadores de doenças crônicas do trato respiratório, podem apresentar progressão para broncopneumonia por colonização do trato respiratório superior (DATZ, 2003).

Logo, o presente trabalho tem por objetivo descrever um caso de pneumonia em filhote canino da raça Beagle, no qual foram identificados Mycoplasma cynos e Bordetella spp. por meio de PCR em tempo real, metodologia empregada inclusive na monitorização terapêutica.

Descrição do Caso

O caso a ser descrito se refere a um cão da raça Beagle, fêmea, com 4 meses de idade, atendido no ambulatório do Departamento de Clínica Médica do Hospital Veterinário PetCare, apresentando histórico de tosse desde sua aquisição do canil (há 2 meses), além de secreção nasal, espirros e acentuada prostração, sintomas estes que se agravaram 8 dias após vacinação, quando foi avaliada pelo mesmo colega médico veterinário (não vinculado ao hospital em questã)o, e submetida a hemograma completo (realizado em equipamento automatizado), no qual destacaram-se 32,7% de hematócrito (normal 37,3 a 61,7%), 10,7 g/dl de hemoglobina (normal 13,1 a 20,5 g/dl), 19,3 mil/mm3 leucócitos (normal 5 a 16,7 mil/mm3) e 223 mil/mm3 plaquetas (normal 200 a 500 mil/mm3), além de subsequente antibioticoterapia com Amoxicilina e Clavulanato de Potássio, sob dose de 25 mg/Kg de peso, administrado por via oral, a cada 12 horas e durante 15 dias, porém com piora progressiva dos sintomas. Imediatamente após a admissão

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hospitalar, evidenciou-se ao exame físico congestão de mucosa conjuntival bilateralmente, linfonodomegalia submandibular, 5% de desidratação, temperatura de 39,9ºC e importante estertoração crepitante em ambos hemitórax.

Sequencialmente, procedeu-se exame radiográfico torácico, no qual se observou opacificação alveolar, multifocal, assimétrica, caracterizada pela presença de broncogramas aéreos e consolidação do lobo médio pulmonar, sugerindo broncopneumonia, além de avaliação hematológica, (hematócrito 42,7%, hemoglobina 14,3 g/dl, leucócitos 39,5 mil/mm3 com 10% de bastonetes), plaquetas 236 mil/mm3; sorologia (Snap 4DX Plus Test®, Idexx Laboratories, Inc.) para Dirofilaria Immits, Ehrlichia. canis, Borrelia burgdorferi e Anaplasma phagocytophilum (não reagente para todos); PCR em tempo real para cinomose (negativo). Iniciada terapia com cefalexina (30 mg/Kg por via oral a cada 12 horas), cloridrato de ranitidina (2 mg/Kg a cada 12 horas), sulfato de codeína (0,1 mg/Kg a cada 8 horas), acetilcisteína (3 mg/Kg a cada 12 horas) e dipirona (25 mg/Kg a cada 12 horas), inicialmente observou-se melhora parcial no quadro clínico, porém com tosse e secreção nasal ainda presentes. Posteriormente, reavaliações procedidas com intervalos de 4 dias demonstraram piora dos sintomas, além de leucocitose (38 mil/mm3, 37 mil/mm3 e 41 mil/mm3) e desvio à esquerda ainda presentes, e controles radiográficos com piora do padrão pulmonar (7 e 15 dias posteriores ao início do tratamento). Subsequentemente, mediante tal refratariedade terapêutica, optou-se pelo diagnóstico diferencial do quadro respiratório por meio de PCR em tempo real (Idexx Real PCR Tests, Idexx Laboratories, Inc) para os patógenos Bordetella spp., adenovirus tipo 2 canino, herpesvirus tipo 1 canino, vírus influenza (canino), K9 coronavirus respiratório, vírus influenza H1N1, Mycoplasma cynos, Streptococcus equi subespécie zooepidemicus, cinomose, pneumovírus canino, vírus K9 parainfluenza e vírus H3N2 influenza, dos quais Bordetella spp. e Mycoplasma cynos foram positivos. Mediante tal diagnóstico, foi iniciada terapia com Cloridrato de Doxiciclina (5 mg/kg a cada 12 horas), por via oral e durante 40 dias, além de manutenção da administração dos demais fármacos acima citados, para tratamento sintomático auxiliar. Durante contatos telefônicos realizados a cada 3 dias após o início deste tratamento, os proprietários descreveram importante melhora clínica, caracterizada principalmente por resolução do quadro tussígeno, ausência de secreção nasal e aumento na disposição, informações estas confirmadas durante reavaliações clínicas realizadas 7 e 15 dias após a suspensão da referida

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medicação, quando foram observados concomitantemente ausência de estertoração pulmonar, normotermia (38,6°C) e resolução completa do quadro pulmonar anteriormente visualizado, sob exame radiográfico controle. Concomitantemente, foi solicitado controle de PCR em tempo real para os mesmos patógenos anteriormente investigados, com resultado negativo para M. cynos, porém ainda positivo para Bordetella spp. Finalmente o animal recebeu alta clínica, e foi solicitado que os proprietários mantivessem contato telefônico com o corpo clínico deste hospital a cada 15 dias para atualizações a respeito do comportamento do animal, as quais não envolveram recidiva dos sintomas e demais alterações.

Discussão

Apesar do primeiro isolamento de tecido pulmonar ter ocorrido em 1972, o estudo dos micoplasmas caninos foi negligenciado durante muitos anos devido a dificuldades na identificação taxonômica até o nível de espécie pelo fato das infecções do trato respiratório geralmente se apresentarem mistas (CHVALA et al, 2007).

O perfil do paciente descrito neste trabalho corrobora publicações anteriores, uma vez que os filhotes são mais acometidos, possivelmente infectados por M.

cynos durante os primeiros 21 dias de permanência no canil, e a transmissão se dá pelas secreções ocular e nasal, além de saliva (PRIESTNALL et al, 2013).

Adicionalmente, a presente descrição clínica demonstrou a inefetividade dos tratamentos antimicrobianos anteriores ao diagnóstico definitivo de pneumonia pelos patógenos Mycoplasmacynos e Bordetella spp., com escolha empírica baseada nos conhecimentos prévios acerca das infecções que comumente afetam o trato respiratório, fato que leva à destaque a irrefutável melhora clínica até resolução completa das manifestações sintomáticas após escolha do antibiótico com base na detecção molecular. Além disso, evidências científicas prévias demonstram susceptibilidade dos isolados de Bordetella spp. menor que 25% à cefalosporinas e maior que 90% à Amoxicilina e Clavulanato de Potássio, fármacos estes empregados no tratamento inicial do paciente em questão, sob doses, frequências e tempos de tratamento usualmente sugeridos como efetivos na resolução de bordetelose, porém tendo-se observado piora clínica progressiva. Deve-se ressaltar junto a este fato a sensibilidade natural dos micoplasmas às tetraciclinas (JAMESON et al, 1995).

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Conclusão

Mediante o exposto acima, conclui-se a necessidade de expansão do diagnóstico diferencial das infecções do trato respiratório inferior em cães, com especial destaque para os casos refratários aos tratamentos convencionais, para que seja possível o estabelecimento etiológico e início terapêutico precoces, com subsequente melhora no prognóstico e aumento na sobrevida do paciente.

Bibliografia

CHALKER, V.J.; OWEN, W.M.; PATERSON, C.; BARKER, E.; BROOKS, H.;

RYCROFT, A.N.; BROWNLIE, J. Mycoplasmas associated with canine infectious respiratory disease. Microbiology, Londres, v.150, p. 3491-3497, 2004.

CHVALA, S.; BENETKA, V.; MÖSTL, K.; ZEUGSWETTER, F.; SPERGSER, J.;

WEISSENBÖCK, H. Simultaneous Canine Distemper Virus, Canine Adenovirus type 2, and Mycoplasma Cynos Infection in a Dog with Pneumonia. Veterinary Pathology, Califórnia, v. 44, p. 508-512, 2007.

DATZ, C. Bordetella infections in dogs and cats: Pathogenesis, Clinical Signs, and Diagnosis. Compendium, Pensilvânia, v. 25, n. 12, 2003.

HONG, S.; KIM, O. Molecular identification of Mycoplasma cynos from laboratory beagle dogs with respiratory disease. Laboratory Animal Research, Seul, v. 28, n. 1, p. 61-66, 2012.

JAMESON, P.H.; KING, L.A.; LAPPIN, M.R.; JONES, R.L. Comparison of clinical signs, diagnostic findings, organisms isolated, and clinical outcome in dogs with bacterial pneumonia: 93 casos. Journal of The American Veterinary Medical Association, Illinois, v. 206, p. 206-209, 1995.

PRIESTNALL, S.L.; MITCHELL, J.A.; WALKER, C.A.; ERLES, K.; BROWNLIE, J.

New and Emerging Pathogens in Canine Infectious Respiratory Disease. Veterinary Pathology, Califórnia, v. 51, n. 2, p. 492-504, 2013.

ROSENDAL, S. Canine mycoplasmas: their ecology niche and role disease. Journal of The American Veterinary Medical Association, Illinois, v. 180, p. 1212-1214, 1982.

Referências

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