Processo Administrativo nº 2814/2013 Pregão Presencial nº 14/2013
DECISÃO
A empresa POLICARD SYSTEMS E SERVIÇOS S/A requer impugnação ao Edital no tocante a exigência do Item 6 – DA DOCUMENTAÇÃO - 6.1.3, Documentos Relativos à Qualificação Técnica: c1) Mínimo de 1.000 (mil) estabelecimentos comerciais credenciados na qualidade de ‘SUPERMERCADO’ na Capital de Brasília e Distrito Federal.
Argumenta, ainda, que o quantitativo exigido no item acima restringe o caráter competitivo do objeto a ser contratado.
Decido:
IMPUGNAÇÃO DA EMPRESA POLICARD SYSTEMS E SERVIÇOS S.A.
Na licitação o princípio da igualdade está umbilicalmente unido ao da escolha da proposta mais vantajosa. Assim, tanto a livre competitividade, pressuposto básico da licitação, como o atendimento das necessidades da administração aparecem e devem ser tratados em conjunto, porque o serviço a ser prestado, além de estar precificado em valor razoável, deve ser de boa qualidade e atender o interesse coletivo.
O quantitativo de estabelecimentos exigido no edital tem por finalidade garantir uma rede mínima de atendimento, distribuída em todo o DF. A rede fixada no edital não foi criada ao bel prazer deste Conselho Federal de Farmácia. Esta pregoeira, de posse do atual contrato firmado com a empresa TICKET SERVIÇOS S/A, o qual disponibiliza um mínimo de 1.064 estabelecimentos credenciados para ticket alimentação e 1.234 estabelecimentos credenciados para ticket restaurante, concluiu que para um grande centro urbano, a exemplo do Distrito Federal, hoje com 2,5 milhões de habitantes, resta adequado um credenciamento mínimo de
1.000 (mil) estabelecimentos para cada tipo de programa (alimentação e refeição). Este patamar não é exagerado porque pouco acima do previsto na última licitação promovida no âmbito deste órgão.
A capacidade técnica exigida nesta licitação não tem limitações temporais ou locais, podendo a empresa indicar qualquer estabelecimento comercial que forneça gêneros alimentícios:
“ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. LICITAÇÃO.
EDITAL DE CONCORRÊNCIA Nº 02/2005. ITEM 4.5.4. EXIGÊNCIA DE REQUISITO DE HABILITAÇÃO (CAPACIDADE TÉCNICO- OPERACIONAL) MANIFESTAMENTE DESARRAZOADO. VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA COMPETITIVIDADE E DA ISONOMIA. ARTIGO 30, § 1º, INCISO I e § 5º DA LEI 8.666/93. REMESSA OFICIAL DESPROVIDA. 1. Revela-se atentatório aos postulados da razoabilidade, isonomia e competitividade inerentes aos certames licitatórios, a exigência de habilitação consistente em "atestado de capacidade técnica expedido por pessoas jurídicas de direito público ou privado devidamente registrado no CRA/GO-TO, de notório conceito, para as quais o licitante esteja executando ou tenha executado serviços de limpeza e desinfecção hospitalar, em uma área de 30 mil metros quadrados com o mínimo de 110 (cento e dez) funcionários efetivos, compatíveis em qualidades e prazos com o objeto desta licitação". 2. Tal exigência é manifestamente incompatível com o objeto da licitação - contratação de empresa especializada de prestação de serviços de Limpeza, Conservação e Desinfecção Hospitalar nas dependências internas e externas do prédio do Hospital das Clínicas da universidade Federal de Goiás. Além do mais, tal exigência afronta o artigo 30, § 1º, I da Lei 8.666/93 quando veda as exigências de quantidades mínimas a título de capacitação técnico-operacional. À sua vez, o § 5º do art. 30 da Lei 8.666/93 prescreve que "É vedada a exigência de comprovação de atividade ou de aptidão com limitações de tempo ou de época ou ainda em locais específicos, ou quaisquer outras não previstas nesta Lei, que inibam a participação na licitação." 3. Remessa oficial a que se nega provimento.” (REOMS 200535000163433, JUIZ FEDERAL MÁRCIO BARBOSA MAIA, TRF1 - 4ª TURMA SUPLEMENTAR, e-DJF1 DATA:21/09/2011 PAGINA:583., grifo não constante do original)
O objetivo não é frustrar a competitividade do certame, muito menos direcionar a licitação fazendo prevalecer o interesse de empresas específicas. É evidente que empresas menores não conseguirão cumprir os requisitos para habilitação, mas de outro lado o contratante não está obrigado a afrouxar as regras apenas para possibilitar a maior participação das empresas. Nesta condição cria-se situação de prejuízo
para a contratação, com queda significativa da qualidade dos serviços, o qual dar-se-á pelo acesso restrito aos estabelecimentos conveniados.
O problema são as exigências desvinculadas da realidade econômica e que atentem contra a Lei de Licitação:
“ADMINISTRATIVO. LICITAÇÃO. RESTAURAÇÃO DA RODOVIA BR- 235/SE. EDITAL. CAPACITAÇÃO TÉCNICA. EXIGÊNCIA DE EXPERIÊNCIA ASSENTADA EM CRITÉRIO QUANTITATIVO.
LEGALIDADE. LEI Nº 8.666/93, ART. 30, II, PARÁGRAFO 1º. - A Administração não pode fazer exigências que frustrem o caráter competitivo do certame, mas sim garantir ampla participação na disputa licitatória, possibilitando que compareça o maior número possível de interessados, desde que tenham qualificação técnica e econômica para garantir o cumprimento das obrigações. Isso também possibilita que a proposta mais vantajosa para a Administração seja encontrada em um universo mais amplo. - A norma inserta no art. 30, II, parágrafo 1º, da Lei 8.666/93, orienta-se no sentido de permitir a inserção no edital de exigências de quantidades mínimas ou de prazos máximos quando, vinculados ao objeto do contrato, estiverem assentadas em critérios razoáveis. - In casu, a empresa agravada foi excluída da licitação para execução dos serviços de restauração da Rodovia BR-235/SE, na fase de habilitação, visto que não atendeu a exigência contida no item 14.4,
"c", do Edital de Concorrência, referente à quantidade mínima (75.000 m³) do serviço denominado "Reciclagem de Base Existente". - A Administração, ao determinar esse tipo de habilitação técnica, além de ter respaldo na própria Lei 8.666/93, como visto, visa a salvaguardar a eficiência e a qualidade das obras que contrata, isto é, o objeto da concorrência. Ademais, a exigência referente à quantidade mínima do serviço acima é um quantitativo razoável se se levar em conta a natureza do serviço a ser executado e, como disse a agravante à fl. 08 dos autos, "a dimensão da obra e a quantidade total do serviço que consta no orçamento, equivalendo, tal exigência, apenas a 60% do montante a ser executado". - Agravo de instrumento provido.”
(AG 200505000157053, Desembargador Federal Frederico Pinto de Azevedo, TRF5 - Terceira Turma, DJ - Data::16/11/2006 - Página::883 - Nº::219.)
O critério criado deve ser mantido porque voltado à salvaguarda do objeto contratual e porque relacionado com a futura execução do contrato. Destarte, razoável à finalidade pretendida pelo Conselho. O limite é a utilidade que pretende receber com a contratação, observado estritamente por este Conselho Federal, daí porque ausente o transbordo dos princípios da igualdade e da competitividade mencionados pelo recorrente.
O TCU tem acórdão no sentido de que há liberdade do administrador na escolher dos critérios técnicos, desde que compatíveis com os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. A decisão abaixo reforça os argumentos trazidos acima, noticiada no informativo de licitações e contratos nº 173:
“Nas licitações para fornecimento de vale alimentação/refeição, apesar de discricionária a fixação do número mínimo de estabelecimentos credenciados, os critérios técnicos adotados para tanto devem estar em consonância com os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, além de claramente definidos e fundamentados no processo licitatório. Representação relativa a pregão presencial conduzido pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC) com vistas à contratação de empresa especializada na prestação de serviço de administração e emissão de cartões magnéticos para concessão de vales alimentação/refeição apontara, dentre outras irregularidades, possível restrição à competitividade do certame decorrente da exigência de "excessiva rede de estabelecimentos comercais a ser disponibilizada pela contratada para transacionar os vales...". No caso concreto, o certame encontrava-se suspenso por iniciativa do próprio órgão para reformulação do termo de referência. Em juízo de mérito, o relator recorreu a considerações já efetuadas em voto de sua relatoria que tratara de caso similar: "De acordo com a jurisprudência desta Corte de Contas (...), os requisitos definidos em edital voltados à rede credenciada devem buscar compatibilizar o caráter competitivo do certame com a satisfação das necessidades da entidade visando garantir o conforto e a liberdade de escolha dos funcionários da instituição para a aquisição de gêneros alimentícios, o que se insere no campo da discricionariedade do gestor ( ...)”.
Ponderou, contudo, que, a despeito dessa discricionariedade, "a atuação do dirigente deve estar pautada nos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, e que os critérios técnicos para a fixação desses quantitativos devem estar baseados em estudos necessários a ampará- los, os quais devem constar do processo licitatório". Nesse sentido, considerando que o critério estabelecido no edital não se mostrou claro, propôs dar ciência ao CFC de que "a despeito da fixação do número mínimo de estabelecimentos credenciados estar no campo da atuação discricionária do gestor, faz-se necessário que os critérios técnicos referentes à fixação do quantitativo mínimo estejam em consonância com os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, além de claramente definidos e fundamentados no processo licitatório, devendo tais critérios ser oriundos de levantamentos estatísticos, parâmetros e de estudos previamente realizados, a exemplo do decidido pelo Tribunal nos Acórdãos 2.367/2011 e 1.071/2009, ambos do Plenário ...".
Acórdão 2802/2013-Plenário, TC 022.682/2013-9, relator Ministro- Substituto Augusto Sherman Cavalcanti, 16.10.2013.1
De qualquer forma, para evitar qualquer questionamento no âmbito judicial, defiro a impugnação da empresa para reduzir a rede:
a) Mínimo de 700 (setecentos) estabelecimentos comerciais credenciados na qualidade de ‘SUPERMERCADO’ na Capital de Brasília e Distrito Federal.
b) Mínimo 800 (mil) estabelecimentos comerciais credenciados na qualidade de ‘REFEIÇÕES PRONTAS’ na Capital de Brasília e Distrito Federal.
IMPUGNAÇÃO DA EMPRESA TRIVALE ADMINISTRAÇÃO LTDA.
No tocante à impugnação formulada pela empresa TRIVALE ADMINISTRAÇÃO LTDA, nada impede que o edital exija do licitante a apresentação de uma rede de atendimento como requisito de habilitação.
O pressuposto é justamente fazer com que a empresa mostre que tem capacidade de cumprir o contrato. Sagrando-se vencedora, a rede deverá ser disponibilizada imediatamente, não sendo possível conceder um prazo para esta obrigação. A discricionariedade aplicável ao caso autoriza esta exigência logo na etapa inicial da licitação.
Ante o exposto, indefiro a impugnação ofertada.
CONCLUSÃO.
Diante do acolhimento da impugnação ofertada pela empresa POLICARD SYSTEMS E SERVIÇOS S/A encaminho para providências de elaboração de Aditamento do Edital, com os seguintes quantitativos:
...
6 – DA DOCUMENTAÇÃO
6.1.3 Documentos Relativos à Qualificação Técnica ....
c1) Mínimo de 700 (setecentos) estabelecimentos comerciais credenciados na qualidade de ‘SUPERMERCADO’ na Capital de Brasília e Distrito Federal.
c2) Mínimo 800 (mil) estabelecimentos comerciais credenciados na qualidade de ‘REFEIÇÕES PRONTAS’ na Capital de Brasília e Distrito Federal.
Comunique-se aos interessados e à Diretoria do Conselho Federal de Farmácia.
Brasília, 13 de janeiro de 2014.
MARIA MARLÚCIA FERREIRA NUNES Pregoeira – CFF