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Mana vol.13 número1

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Academic year: 2018

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A RECEPÇÃO DA OBRA DE GILBERTO

FREYRE NO RIO GRANDE DO SUL*

Letícia Nedel

Gilberto Freyre já era, além de um sociólogo conhecido, um viajante ex-perimentado quando foi conhecer o Rio Grande do Sul. Quase dez anos depois de deflagrada a Revolução que o teria conduzido ao exílio voluntário em Lisboa, Freyre fez duas viagens consecutivas ao estado, em 1939 e em 1940. Na primeira, a convite do interventor Cordeiro de Farias, chegou com José Lins do Rego. Visitaram jornais, cafés, a Livraria do Globo, as instituições eruditas da capital, depois seguiram de trem pelo interior, acompanhados do escritor Gilberto Vianna Moog e do historiador Dante de Laytano. Era o tempo da Campanha de Nacionalização do Ensino, e os cicerones tinham sido expressamente designados pelo Secretário de Educação e Saúde Pública para mostrarem aos hóspedes os atrativos da Serra, das Missões, da Campanha e do Litoral. “Naturalmente eles termi-naram por nos mostrar o Rio Grande. E não nós a eles”, foi o comentário de Laytano (1986:35), então chefe de gabinete do secretário J.P. Coelho de Souza, a propósito da viagem.

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Depois dessas duas visitas, vieram outras (até 1969, data da última), pre-enchidas, nos intervalos, por prefácios e recepções ocasionais oferecidas no solar de Apipucos a autodenominados discípulos e admiradores do sul. Mas de todos os encontros, os dois primeiros é que, talvez pelo caráter inaugural e de mútuo reconhecimento que tiveram, acabaram se tornando lendários entre os membros do chamado “grupo da Livraria do Globo” com quem Freyre travou contatos na ocasião. Daquelas visitas ficaram amizades, anedotas e um repertório escrito (menos copioso, é verdade, do que o anedotário), no qual o recifense, conhecido por decifrar as diferentes formas de inclusão das re-giões brasileiras na “civilização lusitana erguida nos trópicos”, ocupava-se da menos tropical delas e da mais tardiamente incorporada ao império colonial português. Uma área conhecida, para desgosto de seus representantes, como o limite daquela civilização2, o estado mais “estrangeiro” do Brasil; aquele que

em 1967, em um artigo de Vianna Moog, ainda era descrito como um desco-nhecido dos brasileiros.3 E talvez tenha sido esta a maior revelação trazida a

Freyre pelos gaúchos que conheceu: a decisão de se fazerem representar, a qualquer preço, dentro de limites luso-brasileiros.

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Mais tarde, esses postulados seriam retomados por autores gaúchos interessados em lançar as bases de uma história pacífica e urbana do Rio Grande do Sul, distanciada das teorias da fronteira predominantes desde Julio de Castilhos até o final do Estado Novo. Diferente das anteriores, perigosamente parecidas com as das repúblicas do Prata, já que feitas de caudilhos e revoluções, essa história de “densidade folclórica” (a expres-são é de Freyre) abrangia temas como a arquitetura, religiosidade e outros elementos sensíveis da contribuição cotidiana de “troncos originais” e das chamadas etnias novas para o “caráter regional” sul-brasileiro.

Como dado significativo, se é no auge do Estado Novo que o Rio Gran-de do Sul se Gran-desenha aos olhos Gran-de Freyre como uma área cultural passível de ser estudada, o modo como os autores locais lançam mão desse olhar “estrangeiro” para retratarem a si próprios só vai se fazer explícito nos anos imediatamente posteriores à deposição de Getúlio Vargas. É no contexto do pós II Guerra, quando o revisionismo toma conta da produção escrita sobre as origens históricas e culturais do estado, que referências literais a Freyre, e não mais aquelas difundidas anonimamente na vulgata da “fábula das três raças”, vão se fazer presentes na historiografia.

O presente artigo pretende explorar o sentido estratégico desse alinha-mento tardiamente declarado com as opções analíticas do autor de Casa Grande e Senzala. Embora as apropriações variassem de autor para autor, e não obstante terem sido altamente controversas, gerando enfrentamentos e desafetos entre os sócios do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande — estando em jogo nos embates as atuações políticas pregressas, bem como as respectivas especialidades e posições ocupadas nas escalas de prestígio e redes de reconhecimento local — é possível encontrar na lógica cruzada pela qual esses autores articulam sua identidade profissional às propriedades de origem do território um eixo de unificação de interesses, para além de discordâncias pontuais.

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A análise irá deter-se então sobre os dois aspectos menos visíveis desse processo, à época conhecido como “o advento do gauchismo”: primeiro, a especificidade do momento em que as interpretações de Freyre sobre o ethos nacional passam a servir de modelo para a compreensão do passado e da cultura sul-rio-grandenses; segundo, as escolhas e os constrangimentos implícitos à adoção de postulados culturalistas por membros da comunidade intelectual gaúcha.

De fato, essas questões não mereceram até agora uma análise especí-fica, a despeito de se fazerem candentes na documentação bibliográfica da década de 50. Os estudos de referência sobre a historiografia sulina ainda ignoram quaisquer tentativas de inovação conceitual ou temática levadas a efeito no período indicado, privilegiando uma cronologia que se estende, sem qualquer ponto de inflexão, dos anos 20 aos 70 (Gutfreind 1989, 1995; Almeida 1983; Torres 1997). Ressaltam-se, nessas análises, o interesse qua-se exclusivo pela hagiografia política, o “ecletismo teórico” de intelectuais polígrafos e autodidatas, a fusão e o aproveitamento dos determinismos de Ratzel e de Spencer com a famosa tríade taineana baseada no meio-raça-momento. No entanto, passa em branco o impacto das interlocuções travadas com intelectuais de outros estados e de diferentes áreas do conhecimento sobre a pesquisa por eles produzida.

Curiosamente, o desejo manifesto de atualização profissional, entendido como meio de superar o isolamento dos debates paroquiais, atravessa de ponta a ponta os projetos intelectuais sustentados por autores gaúchos dos anos 1940-1960. Tais projetos foram abordados em dois momentos de minha trajetória acadêmica. Por isso, antes de avançar no assunto propriamente dito, parece interessante recuperar um pouco do itinerário de pesquisa que conduziu ao tema do texto. A oportunidade vale para sistematizar alguns pontos que se encontram dispersos nos estudos anteriores, retirar dali o essencial e com ele fazer uma espécie de balanço da participação de Freyre em uma controvérsia durável na historiografia local: refiro-me às formas de inclusão do Rio Grande no arcabouço cultural brasileiro.

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museu fundado em Porto Alegre, em 1903, a partir do referencial das ciên-cias naturais e que, sob o comando de Dante de Laytano, um dos maiores divulgadores de Freyre no estado, passou a se dedicar com exclusividade à história e ao folclore ditos regionais nos anos 50 (Nedel 1999). No se-gundo trabalho (Nedel 2005), analisando as disputas, as alianças táticas e os empréstimos conceituais entre representantes locais de um movimento intelectual coordenado a partir do centro do país — o folclorismo (Vilhena 1997) — e destes com os líderes fundadores de um movimento de massas expandido dentro e fora do Rio Grande do Sul entre as décadas de 1940 e 1960 — o tradicionalismo(Oliven 1992).

Nos dois estudos, as tensões internas ao discurso de exaltação do Rio Grande do Sul foram situadas, como é recomendável, no contexto mais amplo da circulação de parâmetros de representação da nacionalidade e no curso evolutivo do pensamento social brasileiro de uma forma geral. A cons-trução dos objetos de análise tratava de considerar, além da já mencionada interdependência entre as mitologias regionais e nacional, o fato de que, no bojo mesmo da disputa entre as elites culturais dos estados pela formu-lação de bens sancionados como “autenticamente brasileiros”, forjavam-se identidades sociais e desenrolavam-se lutas classificatórias que serviriam, no percurso, para delimitar fronteiras entre os domínios da arte, da ciência e do patrimônio.

Esses pressupostos servem agora para precisar a forma como se pre-tende interpretar a inserção de Gilberto Freyre na vida intelectual sul-rio-grandense. Sua significação será avaliada em uma perspectiva relacional, que inclui os processos de atualização e readequação das narrativas regio-naisa modelos hegemônicos de representação da cultura brasileira. Neste terreno, não é difícil reconhecer o sucesso alcançado por ele e pelos repre-sentantes nordestinos da “segunda geração modernista”, como José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Nos anos 30 e 40, esses autores não apenas contribuíram para especificar um padrão identitário propriamente nordestino — referente a uma região até então classificada genericamente como “Norte” — mas tornaram-se enunciadores privilegiados dos mitos fundacionais do Brasil. À mesma época (e talvez hoje não seja muito diferente), o Rio Grande do Sul era noticiado por um jornal do Recife como o estado “de onde saiu o regionalismo mais acirrado que se tem notícia na literatura nacional”4.

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consagraçãonacionaldas interpretações de suas respectivas comunidades de origem. Segunda, a dos processos de ressemantização do regionalismo — categoria que acompanha a emergência dos intelectuais enquanto grupo específico dentro das elites dirigentes, e que se constituiu em uma espécie de filtro através do qual os pais tutelares da Literatura e da História no Rio Grande do Sul orientaram suas relações com a política, com o território e com a atividade intelectual.

Começo pelo primeiro aspecto do problema, expondo em linhas gerais o aparato conceitual operado na compreensão do fenômeno regional e suas derivações em “ismo”. A seguir, passo ao processo de gestação de saberes ancestrais no Brasil dos anos 20, procurando explorar as novas conexões entre regionalismo emodernismo fabricadas na conjuntura política dos anos 30 e do Estado Novo. Ao final, examino as tensões que cercaram a participação um tanto involuntária de Gilberto Freyre na voga de aproximação dos inte-lectuais sul-rio-grandenses dos anos 50 com o folclore e a cultura popular.

Nação e região

A idéia de Região, embora diga respeito ao espaço, não se reduz a uma nominação geográfica. Ela remete a uma hierarquia de valores por meio dos quais se definem diferentes graus de inclusão em uma suposta unidade cultural territorialmente circunscrita. Trata-se, portanto, de uma categoria classificatória ordinária que, conforme Pierre Bourdieu, inscreve-se em uma arena de lutas pela definição de “propriedades e sinais ligados à origem, correlatos a determinados lugares de origem” (Bourdieu 1989:113).

Historicamente, o vínculo regional impõe-se como derivação do proces-so de construção dos estados nacionais. Compreendida como um princípio unificador de consciências — e, segundo a bem conhecida formulação de Benedict Anderson (1989), enquanto uma “comunidade imaginada” — a nação precisa ser materializada em imagens mediadoras. Na medida em que cria uma homogeneidade nova sobre espaços heterogêneos, esse novo padrão de organização social traz também o desafio de gerir suas alteridades internas. Assim, o discurso de exaltação patriótica reserva um lugar determi-nado para a evocação das diferenças regionais, que colaboram para ratificar a própria especificidade da nação, ao reverter em “cultural” a desigualdade política que subsiste entre os pólos.

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ameaçador, a construção de um consenso social e político que permita falar da diferença sem valor adversativo (Thiesse 1997:7).5 Para tanto, o discurso

nacionalista apresenta as relações entre as duas esferas de pertencimento como perenes, reconhecendo a região como um elo primário de afirmação do caráter consentido — e, portanto, legitimado — da unidade maior em que se insere. Ao se distinguir das demais unidades pelo recurso a quesitos homólogos àqueles presentes no check list nacional, o espaço regional é representado de forma a facilitar a reversibilidade entre os dois códigos de classificação de origem (Thiesse 1999).

A análise dessas escalas de pertencimento deve admitir então que nem sempre as culturas definidas sobre bases territoriais tiveram um caráter evi-dente. Antes disso, elas resultam de um intenso trabalho de formalização dos ingredientes nos quais se ancora, sob o signo da “autenticidade”, a adesão cívica dos habitantes. É metodologicamente recomendável, neste sentido, que seja considerado o desenvolvimento de uma variedade de competências e saberes que funcionam como instâncias disciplinares da memória coletiva. Esse processo diz respeito à especialização e à diversificação progressiva de atividades culturais, encenadas em mercados a princípio incipientes e localmente circunscritos, em vias de integração. Vale dizer que, pela sua própria natureza, o regional descrito pelas ciências e pelas artes só pode ser compreendido em sua integralidade quando situado no quadro fede-rativo das práticas de sociabilidade, circulação e consagração de títulos e autores, com seus foros de enunciação, redes de reconhecimento e lugares de convergência. Os parágrafos seguintes destinam-se a uma apresentação necessariamente sumária desse processo de integração cultural no Brasil para que se aponte, a seguir, a posição ocupada pela produção escrita do Rio Grande do Sul no movimento mais amplo de redescoberta do Brasil, iniciado nos anos 20.

Regionalismo, modernismo e centralização cultural

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concentradas nas qualidades “próprias” a dois tipos regionais de vaquei-ros: o gaúcho e o sertanejo. Todas elas serviam para enfatizar o caráter “forte, resignado e prático” do vaqueiro do Norte, o jagunço — “Hércules Quasímodo” — obra de um meio feito de austeridade e privações que era contrastado com a vida desimpedida e com a personalidade sobranceira do campeiro sul-rio-grandense:

O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na ín-dole e nos hábitos não há equipará-los. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. [...] Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão. [...] As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro (Cunha 1995 [1902]:82-83).

No período de ruptura seguinte à Primeira Guerra Mundial, marcado pela crítica às realizações da República e pelo julgamento do passado colo-nial, o apelo dos intelectuais em favor da renovação estética e do compro-metimento da arte com a criação de uma cultura genuinamente brasileira — cultura tida por Alberto Torres, em 1914, como “inexistente” (Garcia Jr. 1993) — vai retomar o mapa etnográfico retratado pela geração de 1870 para conferir a ele novos contornos. No esteio da efervescência modernista — que, em um primeiro momento, visava equiparar as artes plásticas e a literatura do país às experiências internacionais de vanguarda — segue-se a adoção de uma perspectiva nacionalista de enfrentamento do problema da criação cultural no Brasil. É assim que, na segunda fase dos modernismos, o ataque ao “passadismo” cede lugar à questão da superação do “mimetismo”. Como disse Mário de Andrade, a essa altura já não interessa mais a arte pura, “o que vale mesmo é arte interessada, arte agindo como remédio, diretriz o que diabo seja” (Moraes 2000:392)6.

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de intelectuais agrupados em “rodas” (era o termo que se usava) ramificadas pelo interior e pelo exterior de suas respectivas “províncias” (outro termo recorrente entre os escritores da época), todos em luta para fazer dos valores da terra itens legítimos de exportação da cultura brasileira.

A partida à padronização de caracteres relativos ao Rio Grande do Sul participa desse movimento mais amplo de intercâmbio e desenvolvimento das atividades ligadas à escrita. Internamente, ela tem como marcos inau-gurais a crise da economia pecuária — da qual deriva o predomínio do acento campeiro na literatura — e a derrocada política da oligarquia liberal da fronteira sul e oeste do estado, consumada com a derrota federalista de 1895. À medida que a elite republicana consolida sua posição de comando à frente da Presidência do Estado, os valores e os atributos de honra “gau-chescos” caros à elite política liberal — masculinidade, vocação guerreira, respeito aos princípios federativos — vão sendo reapropriados sob um viés moralizador baseado no legado político castilhista (Pinto 1986; Boeira 1980). Simultaneamente, o conjunto das atividades, dos atores e das iniciativas editoriais desloca-se progressivamente dos pólos charqueador e portuário do sul — Pelotas e Rio Grande — para Porto Alegre. Reproduz-se, assim, a concentração do mercado cultural local sobre a capital do estado, fato veri-ficável também em outras regiões do país.

No Brasil, como se sabe, os ambientes mais valorizados de circulação intelectual concentravam-se em salões, livrarias e cafés do Sudeste. Para lá se dirigiam os autores aptos a ingressar no circuito de realização das ambi-ções culturais mais vocacionadas. Na capital do país — sede das primeiras instituições representativas dessas elites — ficavam a Academia Brasileira de Letras, a Biblioteca Nacional, a Escola Nacional de Belas Artes. Em São Paulo, base do liberalismo oligárquico vitorioso com a implantação da Repú-blica, desenvolvia-se o mecenato cultural que, amparando as experiências de vanguarda ensaiadas pelos modernistas, tentaria equiparar a projeção cultural do estado à sua pujança econômica.7

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diferentes estados do país um discurso autoctonista vigoroso, que desarma o olhar naturalista até então predominante, excessivamente atento ao meio e à raça, para realçar, a partir daí, fatores históricos e culturais de germi-nação nacional.

Essa passagem do universalismo biológico ao terreno das culturas locais é repleta de ambigüidades, e se constitui no foco de discordâncias e recusas entre as diversas correntes identificadas como modernistas.8 Em

alguns modelos tidos por “conservadores”, como o “verde-amarelo”, a “gauchesca” sul-rio-grandense e o “modernismo tradicionalista” do Recife, impera um extremado senso de exaltação do passado e da “província”. Já na aproximação de Mário de Andrade com as tradições populares, é a projeção da unidade nacional que fala mais alto. Para ele, o “regionalismo” adquire, no mais das vezes, o sentido pejorativo de limitação criativa somada ao particularismo político.

Ao passo que Mário manifesta sua inconformidade com o passadismo dos verdes-amarelos, identificando-os com o regionalismo tout court, os representantes desta tendência, como Menotti Del Pichia, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo, definem o rumo de suas criações em uma direção similar àquela tomada pelas letras no Rio Grande do Sul. Eles, como os gaúchos, ocupam-se da fronteira, realçando em causa própria o papel desbravador dos heróis bandeirantes e o legado integrador dos próceres conquistadores do território.9

No que diz respeito ao Rio Grande, a produção escrita como um todo explora a posição limítrofe da campanha. Os historiadores, particularmente, fazem do gaúcho o sentinela da nacionalidade. Especializam-se em reivindi-car para ele uma filiação luso-brasileira, distinguindo-o do homônimo platino (ogaucho malo), negando a existência de caudilhos no estado e vinculando o herói civilizador à progênie de tropeiros paulistas e lagunistas, ou às elites militares do Império. Ali, a fundação do representante local do IHGB, assim como a escolha de realçar a reconhecida participação gaúcha na história militar do Brasil, revelava uma estratégia específica de enfrentamento da concorrência com outros estados, que também vinham tratando, por vias próprias, de ocupar espaços na epopéia nacional. Definitivamente fundado, depois de várias tentativas10, às vésperas do centenário da independência, o

Instituto Histórico aparece com a missão explícita de integrar o Rio Grande ao calendário cívico da nação, preparando a comemoração do centenário farroupilha e arquivando as teses “separatistas”, predominantes ao tempo de Julio de Castilhos.11

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“re-gionalismo naturalista” que teve em Alcides Maya o maior e mais polêmico representante, um novo surto iniciado com No Galpão, de Darcy Azambuja, lançado em 1925, teve, de acordo com o autor, o auxílio do gérmen naciona-lista do Modernismo, mas do ponto de vista temático trouxe pouca novidade “[...] apenas retomou os caminhos de uma tradição” (César 1994:39).12

De fato, o cânone regionalista concentrou sobre si parcela significativa da prosa de ficção produzida no estado entre a década de 10 e os anos 50, e teve no conto, até os anos 30, a sua expressão preferencial, dando lugar, em seguida, ao romance.13 A preponderância desse estilo e, principalmente, o

teor ufanista assumido pela escrita dos anos seguintes à pacificação políti-ca entre libertadores e republipolíti-canos14 não escaparam nem aos intelectuais

do centro do país, nem aos da capital do estado. Em um artigo intitulado Narcisismo Gaúcho, publicado na volta da segunda viagem a Porto Alegre, Freyre assinalava com ar de condescendência o hábito do rio-grandense “de se contemplar com certo gosto e orgulho nas águas de suas lagoas” (Freyre 1940b:14). Dez anos antes, em 1930, em Separatismo Político e Regionalismo Literário15, João Pinto da Silva, um dos primeiros e mais respeitados críticos

do estado, já observava que

De todas as circunscrições do Brasil, é provavelmente o Rio Grande aquela cuja vida literária acusa mais nítidos pendores de diversificação das tonalidades dominantes no resto do país. Quero dizer que o regionalismo é aqui mais in-tenso do que nos outros Estados […] Há nessa atitude um pouco de narcisismo. No caso, porém, o narcisismo tem outro nome: é exageração patriótica [...] (apud Chaves 1979:80).

Dois anos antes de Pinto da Silva, o consenso alcançado pela singu-laridade autoproclamada do Rio Grande do Sul permitia que Mario de Andrade exclamasse, e não sem uma ponta de malícia, ao amigo Rui Cirne Lima, “Meu Deus, como vocês aí no Rio Grande do Sul são parecidos uns com os outros! [...] são todos de uma unidade estupefaciente. Vocês de fato formam a única escola que a literatura brasileira moderna formou. Escola no amplo, mas total espírito do termo”16.

Na verdade, quando Mario de Andrade expressou essa opinião, o assi-nalar das excentricidades políticas e culturais do Rio Grande já atravessava duas décadas, remontando às críticas vindas de intelectuais antipositivistas, como Sílvio Romero e Capistrano de Abreu, e à implantação da ditadura que, por trinta anos, governou os gaúchos.17 A explicação para isso costumava ser

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saída, pelo posicionamento à esquerda da linha demarcatória de Tordesilhas, pela contigüidade da paisagem pampeana, pela dificuldade de comunicações estáveis com o restante do país e, de modo geral, pela complexidade de uma história desenrolada sobre o espaço movediço da fronteira.

Enquanto no Rio Grande do Sul é a fronteira que exerce sua força sobre a imaginação dos prosadores, no Recife, os “modernistas tradicionalistas” (Ascenso Ferreira, Odilon Nestor e Gilberto Freyre) fincam no passado co-lonial o núcleo civilizador do Nordeste, entendido como célula originária do Brasil. Ao representar uma região economicamente mais atrasada e politica-mente alijada do Executivo central, o regionalismo pernambucano proposto por Gilberto Freyre posicionava-se contra o “mau cosmopolitismo e o falso modernismo” das elites brasileiras, particularmente as do centro do país, denunciando seu caráter “predatório” em relação aos “mais tradicionais” costumes populares e regionais brasileiros. No “Manifesto Regionalista” de 192618, os elementos mais autênticos — os mocambos, a miscigenação —

apóiam-se em tudo o que para a geração de 1870 confirmava a precariedade civilizacional do país. Sua ênfase recaía, desta forma, na reabilitação dos padrões culturais próprios à sociedade agrária e patriarcal ao tempo dos engenhos, tomando o regional — e, em especial, os valores culturais do Nordeste — como unidade básica da organização nacional. Nele, o elogio nostálgico do patriarcalismo do engenho já prefigurava, sete anos antes de Casa Grande e Senzala, a apologia à mestiçagem e à cultura crioula — sendo o Nordeste “a principal bacia em que se vêm processando essas combinações, essa fusão, essa mistura de sangues e valores que ainda fervem”.

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“turbulências balcânicas de alguns pequenos em população” é que — ao contrário do regionalismo — seria a grande ameaça à unidade nacional. No mesmo texto, Gilberto Freyre opunha à “ficção necessária” chamada Brasil a “verdadeira” brasilidade: o conjunto das regiões, com suas tradições próprias e interdependentes.

Nas décadas de 30 e 40, o “retorno ao mundo rural” seria amplamente explorado pela propaganda de governo e pelo mercado editorial ascendente, enquanto o repertório brasileiro, multiplicado em microversões, acompa-nharia o interesse dos intelectuais por um Estado forte e intervencionista. No Brasil comandado pela revolução de outubro, a insularidade política e cultural própria da Primeira República dá lugar a um processo de integra-ção sem precedentes na história brasileira. Neste contexto, as instâncias de produção cultural seguem concentradas sobre o centro-sul (Miceli 1979:74), enquanto no plano simbólico o Nordeste aparece como locus da autentici-dade. Segundo Afrânio Garcia Júnior:

[...] o romance regionalista do Nordeste torna-se, a partir dos anos 30, o símbolo do romance tipicamente nacional. São os lugares de origem dos romancistas mais reconhecidos que se deslocam — de Rio e São Paulo para esta região, e são os assuntos tratados, o quadro da ação, a linguagem e o estilo que passam do romance urbano, do fim do séc. XIX, a um romance que retrata a decadência das plantações tradicionais (Garcia Jr. 1993:31).

O romance regionalista nordestino alimentou a concorrência entre as editoras, que tiveram nas “coleções brasilianas” o gênero de maior prestígio.19

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Este esquema, como advertiu Giralda Seyferth (2000:180), contrapõe a suposta unidade interna da região, a “ilha cultural”, à diversidade da nação (o continente), diversidade esta entendida como um prolongamento das di-mensões do arquipélago. Neste sentido, a função lógica do nacionalismo re-gionalista de Freyre permite, de um lado, encontrar os elementos constitutivos da brasilidade em qualquer lugar do país, mesmo nas áreas que receberam grandes contingentes de imigrantes, como Rio Grande do Sul e São Paulo. Em compensação, instala a desigualdade em torno do gradiente de representação da nação, já que para Freyre “[...] a pluralidade é mais legítima nos limites fixados pela formação nacional herdada dos tempos coloniais, mais preser-vada no Nordeste — lugar onde a mistura das três tradições (portuguesa, indígena e negra) está em equilíbrio” (Seyferth 2000:182).

Para os termos desta discussão, significa dizer que se a tradição na-cional fundamenta-se no passado colonial, o núcleo gerador da sociedade brasileira reside em tempos e lugares anteriores à incorporação integral do Rio Grande ao território, datada do século XIX. Não casualmente, nesta co-munidade de leitores, a obra de Freyre vai figurar de maneira ambivalente: ao mesmo tempo como um documento-mestre (exemplo a ser seguido) e como prova da “nordestinização” do Brasil em detrimento de outras fisio-nomias regionais.

O isolamento da província e a distância do Nordeste

É no final do Estado Novo, quando a centralização política passa de solução a vilã, que os intelectuais gaúchos vão tentar reverter sua posição desfavorável na federação das letras e no repertório escatológico nacional. Ao apelar para conceitos como “aculturação”, “transculturação”, “assimilação”, os autores tratam de gestar a própria alteridade em uma empresa coletiva e nacional-mente orientada para a institucionalização dos estudos e da proteção ao folclore dos estados, tomando-os como substrato de uma escrita revigorada pela fórmula narrativa enunciada no prefácio à primeira edição de Casa Grande & Senzala. Na história “proustiana” de Freyre,

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um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos (Freyre 1992 [1933]:LXV).

Aplicado à arte literária, esse princípio serve para superar o caráter “centauriano” e “particularista” dos regionalismos anteriores. Aplicado à ciência, para refundar as bases de legitimidade do campo de produção histo-riográfica, recuperando a reputação heurística de uma produção monográfica excluída do processo de modernização da pesquisa social no Brasil, jogada à obsolescência e acusada de comprometimento ideológico.

Sem exclusão da legitimidade desfrutada pelos temas regionais e tam-pouco de alianças táticas com adversários próximos ou distantes, a comuni-dade rio-grandense de escritores volta-se então à reconstrução dos caracteres distintivos da região e do regionalismo como forma de reconstruir sua própria identidade profissional. Sujeita à percepção de uma atuação “periférica”, ela elege como interlocutores preferenciais os supostos responsáveis por seu isolamento. Embora estes se dividissem entre os “de casa” e os “de fora”, é principalmente reclamando os direitos de integração da periferiaaocentro que os autores remodelam a particularidade cultural do Rio Grande e a sua própria naquele momento.

Essas elites nativas normalmente valorizavam os “olhares forasteiros” sobre sua aldeia. São fartas na documentação observações como a de Dante de Laytano a respeito da superioridade dos “exames sobre as coisas do Rio Grande feitos por não rio-grandenses”, de sua capacidade de ver “a evolução dos acontecimentos colocando-se fora dos vícios do ambiente nativo”20, ou

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Como afirmou Laytano, “O Rio Grande do Sul era isolado do Brasil. Nós trabalhávamos falando sozinhos. Tinha aquele negócio de nordestino, pernambucano, baiano, os baianos falando ‘o Brasil é baiano’ e nós... nós não éramos Brasil” (Laytano 1998). Além dos editais de Moysés Vellinho na revistaProvíncia de São Pedro serem pródigos na mesma denúncia, Érico Veríssimo deixou um relato significativo a respeito da problemática circulação dos autores regionais na homenagem que fez ao conhecido colega e editor da Globo, Henrique Bertaso:

No Rio de Janeiro, o poeta-editor Augusto Frederico Schimidt lançara um livro notável, Casa Grande e Senzala, que revelava um sociólogo do porte de Gilberto

Freyre. Por sua vez o livreiro José Olympio fazia-se editor e prestava inestimável serviço à literatura brasileira tornando conhecidos, além de outros, romancistas como Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, José Américo de Almeida e Raquel de Queiroz, que davam novos rumos à literatura do Brasil. [...] Mas eram escritores da ‘Corte’! Apareciam na capital do país. Tinham, além de seu valor próprio indiscutível, boa imprensa. Nós estávamos na província não só geográfica, mas também — tínhamos de reconhecer — psicologicamente (Veríssimo 1973:38-39).

Em contraste com o alcance nacional e internacional conquistado pela literatura do cangaço, do açúcar e do cacau, o parco interesse comercial revelado pela gauchescaparecia confirmar a suspeita de isolamento, como informa o relato de Otavio Bertaso, filho de Henrique:

Toda vez que recebíamos um original versando sobre a história do Rio Grande do Sul ou uma biografia de seus homens ilustres, eu ficava um tanto desanimado — um livro relatando as proezas dos valentes gaúchos que por séculos a fio ha-viam defendido as nossas fronteiras, ou dos políticos que haha-viam conseguido consolidar o prestígio do Rio Grande do Sul no cenário nacional despertava um interesse minguado. Para falar a verdade, um minguadíssimo interesse, que se restringia tão-somente às fronteiras do estado. [...] as tiragens [...] eram de 2 mil exemplares e em média levavam cinco anos para se esgotar quando vendidas nas livrarias (Bertaso 1993:142).

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uma questão que “há muito” o preocupava, Guilhermino César chegou a formular diretamente a pergunta que já naqueles tempos não queria calar:

Por que o leitor carioca, mineiro, paulista — falo grosso modo — prefere um José Lins do Rego a um Cyro Martins? [...] Denúncia social por denúncia social, ela é muito mais cortante, para dar um exemplo, em Sem Rumo (1937) do que em

A Bagaceira ou Capitães de Areia, ambos editados na mesma data. [...] (César

1994:170-171).

Além da pouca — e para alguns, justificável — procura dos autores gaúchos nas livrarias, os ocupados do balanço literário do Rio Grande do Sul reclamavam de uma “resistência à aceitação do regionalismo rio-grandense” (Vellinho 1948:6), indicativa da diferença de peso e medida em uso quando se tratava de dimensionar o valor desta produção pelos críticos do centro do país. Enquanto os autores do “sul” vinham de ser apontados como “con-servadores na linguagem”21, historicamente presos a estereótipos localistas,

substantivamente divergentes na descrição psicológica de seus personagens, ou ainda simpáticos a estrangeirismos norte-americanos (caso da Globo e de Érico Veríssimo, acusados pela esquerda de adesão ao “American Way”), dizia-se que os escritores do Nordeste recuperaram aquilo que Euclides da Cunha vislumbrara: o Brasil profundo.

Depois do aparecimento de um regionalismo socialmente engajado, representado pelas obras de Pedro Wayne, Cyro Martins e Ivan Pedro de Martins — o que, em princípio, excluiria a hipótese do conservadorismo político como razão para o status rebaixado das letras sulinas — surgiram em resposta à questão duas hipóteses complementares. A primeira delas, sintetizada no testemunho deixado por Dante de Laytano, identificava entre os motivos o fato de que “O Rio Grande sempre foi marcado, sempre sempre. Todo mundo podia fazer regionalismo, menos Rio Grande. Então aqueles nordestinos, com aquele monte de livros, e nós não podíamos ter um!” (Laytano 1998). O mesmo argumento prevalece em Moysés Vellinho. Para ele, a confusão, pelos críticos nacionais, de um senso de “provincia-nismo sadio” com localismo separatista era prova da permanência do ranço centralizador sobre o panorama intelectual brasileiro. Não fosse este o caso, desafiava, “[...] como justificar que a crítica da corte nunca tenha recusado foros de brasilidade à literatura da seca, da cana-de-açúcar e do cacau, aos regionalismos do norte, em suma, não menos agarrados à terra que o do sul?” (Vellinho 1948:6).

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“es-cassez” de elementos folclóricos e na inexistência de condições ambientais que remeteriam a um Brasil primevo e tropical, teoricamente representado pela cultura popular do Nordeste. É o que se vê na hipótese “sociológica” acalentada por Guilhermino César:

Região periférica distante do Centro, zona de formação mais nova que o Nordes-te, cujas linhas de força, no processo social, foram deitadas no espaço brasileiro desde os primeiros dias da Colonização, o Rio Grande do Sul tinha a seu desfavor, como elemento oferecido ao exercício do sentimentalismo do leitor, a ausência da seca. [...] O cambiteiro, a virar cana e bagaço de cana diante das moendas, naquele ambiente que Nabuco, usando a palavra justa, chamou de microcosmo, é um ser complexo. Tem interesse como homem sofrido e como homem produtor de... Folclore. É versátil, sabe cantar, dançar, rezar; ri; [...] Ora, o gaúcho, na solidão da Campanha [...] Produz menos “fatos” de cultura (César 1994:171).

Dentro da diversidade de elucubrações sobre a privação cultural do Rio Grande, a de Augusto Meyer também apresenta um interesse especial, por trazer à pauta uma avaliação da responsabilidade das elites sobre a produção do acervo documental popularem que deveria se basear a tradição escrita local. Meyer observava na carência de elementos folclóricos “originais” do Rio Grande do Sul uma omissão histórica, para não dizer historiográfica:

Se os fatos miúdos da vida cultural fossem registrados pelos historiadores com a meticulosidade que põem na pesquisa da grande história — guerras, migrações, dinastias, revoluções –, poderíamos dispor de um repertório de bens históricos mais ou menos completo, para facilitar-nos a tarefa de identificá-los na sobre-vivência popular (Meyer 2002 [1960]:68).

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Na raiz dessa convergência de opiniões, reside o fato de que a tradicional fusão simbólica entre o gaúcho heróico e o agente da conquista lusitana tivesse se consolidado internamente justo no momento em que, no centro e em outras regiões do país, os estudos sobre folclore e cultura afro-brasileira passavam a ser valorizados. Enquanto a mestiçagem era revertida em elemento positivo, característico do tipo brasileiro, os historiadores do IHGRS continuavam ze-lando pela frondosa árvore genealógica que ligava seus heróis farroupilhas e republicanos às elites do Império. Com a frustração do sonho de gauchização do Brasil, uma parte significativa dos protagonistas da revolução de 30 notava esse descompasso. Eles observavam que nos modelos consagrados de retratação da cultura brasileira o Rio Grande do Sul não só tinha ficado de fora, como tinha investido no vazio, ao alimentar a memória oficial com as qualidades militares de um panteão político que, no decorrer dos anos, acabaria por revelar uma legitimidade duvidosa. Essa avaliação confere com a crítica de Cyro Martins, lançada como prefácio ao romance Sem rumo, de 1944:

A revolução repercutiu sem demora nas letras da província, propiciando uma rumorosa atividade, que se prolongou por quase um decênio. Mas essa ativi-dade, devido ao espírito imediatista dominante, em geral careceu de valia [...] regionalistas desse período [...] contribu[íram] para que se prolongasse entre nós o culto das aparências, mascarando a visão fiel da verdade humana e das circunstâncias e dramas da coletividade crioula. Esse pacto com o convencional nos desviou, por mais de dez anos, da reflexão ponderada acerca dos nossos desígnios como povo. Essa insistência retórica da mentira, não raro coroada de fugazes vitórias, redundou numa quase fatalidade para a literatura gauchesca, porque a lançou no descrédito, dentro e fora do Rio Grande.23

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em prol dessa renovação já se oferecia há tempos por Gilberto Freyre, que no prefácio à Região e tradição tinha deixado uma “norma de investigação” extensiva ao conjunto das expressões escritas da região:

Apoiemo-nos mais uma vez no autor de Casa Grande & Senzala: “Simplicidade de expressão, simpatia humana pelos assuntos cotidianos e pelo mais próximo de todos nós — o nosso passado íntimo”. Isto significa que devíamos substituir a romântica perspectiva do conjunto da história, do lendário, dos costumes e da paisagem, pelo enfoque realista, no sentido do aproveitamento crítico, com finalidade criadora, das próprias vivências e da dramática social. E para que não houvesse uma discordância entre o método e a técnica, precisávamos começar pela ampliação do material a explorar. Até bem pouco o nosso regionalismo estava limitado à campanha. E nesta, à estância. E nesta, no galpão.24

O texto do escritor ilustra uma tendência “à esquerda” de uma adesão que se manifesta de outro modo entre os pesquisadores. Há no período uma grande quantidade de ensaios de história e de folclore que se vale da tradição oral para seguir expressamente as recomendações do autor pernambucano. Com largo uso de almanaques e de vestígios do cotidiano, como manuscri-tos familiares e cadernos de receitas, os autores de certa forma tentavam também emendar a história até então reservada aos heróis com “a vida de cada um”. Mais do que a construção política do Estado, lhes interessava recuperar o processo coletivo de gestação, pelo povo, da nação, que deveria ser retraduzida em escala local. Mesmo sem propor grandes rupturas epis-temológicas com a historiografia inspirada na tríade taineana do meio-raça e momento, essa espécie de “história social” desafiava os limites estreitos da crônica política baseada na vida e na obra de mandatários do Estado. Ela reabilitava, além disso, a validade de fontes não-oficiais, até ali preteridas pelos historiadores em favor da documentação diplomática.

Segundo Dante de Laytano, a influência de Freyre sobre ele e a sua geração foi:

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A lição confere com os enunciados da Aula inaugural dos cursos da Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul, proferida por Laytano em 1953, com o título “A História e suas Relações com Algumas Ciências”. As ciências escolhidas foram a etnografia (representada pelo que ele chamou de “literatura etnográfica” de Sílvio Romero), a antropologia (por Oliveira Viana, na esteira de Nina Rodrigues e no prenúncio de Arthur Ramos) e a sociologia (fundada por Gilberto Freyre). Após destacar que “Toda a sociologia de Gilberto Freyre se abebera nos fundamentos históricos das nossas instituições” (:9), Laytano descreve os cinco pontos em que esse autor teria dado novos rumos ao conhecimento da cultura brasileira: “a) Renovação e impulso dos estudos dos afro-brasileiros; b) Valorização da obra de colo-nizador do português; c) Difusão, entre nós, de estudos notáveis de norte-americanos e ingleses [...]; d) História das cidades brasileiras tradicionais; e) Atenção e importância para os pequenos fatos sociais, os detalhes e os pormenores” (:18). O resto da conferência é todo feito de citações — refe-rentes às formas como a sociologia e a história servem uma à outra, e ambas à valorização das culturas regionais — precedidas da justificativa, dada por Laytano, de que “Não encontraríamos em nenhum outro autor melhor defi-nida e explicada as relações da história com a sociologia” (:21).25

A adesão a esses ensinamentos exigiu dos autores locais, além de um grande esforço de conversão “teórica”, a adoção, em seus escritos, de um tom aberto a controvérsias. Neste sentido, parece significativo que antes da chegada da autodenominada historiografia crítica da década de 1980 — defendida por autores saídos, na maioria, do ambiente universitário e espe-cialmente dos programas de pós-graduação da USP (Almeida 1983:42) — as primeiras contraditas à presumida escravidão “branda” de uma região onde o negro teria pouca ou nenhuma relevância demográfica tenham partido exatamente das análises dos sócios do Instituto convertidos ao estudo das manifestações “populares” da cultura regional.26 Assim é que, por exemplo,

Augusto Meyer manifestou na terceira edição de Prosa dos Pagos (1960), sua inconformidade com a continuidade das interpretações canônicas da história dos anos 30.

[...] é difícil manter, na historiografia rio-grandense, os velhos preconceitos de uma homogeneidade cultural — cultural no sentido sociológicoque nunca

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em que tudo parece acontecer por obra e graça de uma Divina Providência Gaúcha. [...] (Meyer 2002 [1960]:40; grifos meus).

Outro dos críticos de primeira hora foi Dante de Laytano, secretário re-gional da Comissão Nacional de Folclore. Para ele, a relevância dos estudos sobre o contingente de afro-descendentes significou, ao lado da ênfase aço-riana sobre o luso-brasileirismo rio-grandense, uma causa constantemente defendida na carreira como historiador e folclorista. Em diversos escritos27 o

historiador volta à carga na defesa desse objeto. Na monografia sem data de publicação, lançada pelos cadernos da Comissão Gaúcha de Folclore com o título a “A Igreja e os Orixás”, a conclusão é francamente polemista:

[As] “Casas de Batuque” de Porto Alegre são uma resposta franca aos pes-quisadores de superfície que negam, com desprezo, a realística presença do negro na própria História do Rio Grande do Sul. Não apenas na etonografia [sic] religiosa. Nas curiosidade[s] das práticas africanas transmitidas intactas através de gerações. [...] Os Batuques foram, no sentimento possível, refúgios espirituais da raça negra massacrada (Laytano s/d:60).

Ainda quanto a esse ponto, o estudo de Augusto Meyer sobre a história semântica da palavra gaúcho é revelador. O autor arma-o como um ataque frontal aos defensores — representados, no texto, por historiadores militares como João Borges Fortes e Jorge Sallis Goulart — de uma historiografia obsoleta, que como por inércia continuava apresentando “a estância como verdadeira escola de democracia, interpretação que não resiste ao exame da realidade econômica e social da época. Bom serviço prestaria quem se dispusesse a mostrar a inconsistência dessas antecipações de síntese histó-rica, por simples falta de monografias” (Meyer 2002 [1960]:44).28

Antes de Meyer, o amigo, companheiro “dos tempos heróicos” do res-taurante Dona Maria e sócio do Instituto Histórico e da Comissão Gaúcha de Folclore, Athos Damasceno Ferreira, tinha feito em forma de novela o que em pesquisa se anunciava como um tema atraente. Em Moleque(de 1938), história passada no ambiente suburbano de Porto Alegre, levantara o problema da ascensão social do negro, retratando o cotidiano de um menino descendente de escravos agregado em uma casa de arrabalde.29 Em 1949,

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Inicialmente, Athos segue a trilha lançada em “Sugestões para o Estudo Histórico e Social do sobrado no Rio Grande do Sul”. No artigo de 1945, intitulado “Sacadas e sacadinhas porto-alegrenses”, o cronista de Porto Alegre esquadrinha, por dentro e por fora, das sacadas aos móveis, aquele “[...] tipo de arquitetura mais urbana que rural — o sobrado — do ponto de vista rio-grandense do Sul”, conforme a sugestão deixada por Freyre no III Congresso Rio-grandense de História e Geografia.30 Em outro artigo,

publicado em 1954, ressalta a diversidade social da indumentária usada na província. Ali o autor identifica um panorama “[...] muito parecido com o quadro da Bahia, do Rio, do Recife, de Minas — quadro álacre e bizarro de que, em largas pinceladas, nos dá um instantâneo tão saboroso, em ‘Casa Grande e Senzala’, o incomensurável Gilberto Freyre” (Ferreira 1954:96). Não o ambiente rural e militar do repisado gaúcho do século XVIII, mas a cor local da cidade do século XIX, com sua multiplicidade de costumes e personagens, é que figura no centro dessa espécie de “história social” apropriada de Freyre por Damasceno. No mencionado estudo, o autor ofe-rece também um contraponto à vestimenta típica habitualmente retratada no Rio Grande do Sul:

Ao passo que entre os gaúchos era a indumentária masculina que brilhava, entre os negros entrados [...] como bichos, era exatamente a indumentária feminina, a vestimenta das pretas, que dava o tom, oferecendo, pela sua composição e colorido, um interesse folclórico que o traje do crioulo não oferecia, como não oferecia por seu turno o da escorrida chinoca pampeana com sua saia de chita tão vulgar quanto o vulgaríssimo calção do mísero escravo lanhado, do tempo do carimbo e do palanque (Ferreira 1954:93).

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político de Castilhos, tinham-no vinculado à órbita de influência castelhana. Como disse Laytano,

Um tratadista de história gaúcha incluiu todas as revoluções do Rio Grande num ciclo denominado de Revoluções Cisplatinas. Foi Alfredo Varella, uma cultura e um mestre. Hoje, uma nova doutrina, uma revisão mais decisiva, e uma defesa da cultura luso-brasileira, que Gilberto Freyre pôs em moda, em circulação e uso, trouxeram-nos o benefício de verificar que o Brasil é que influiu no Prata (Laytano 1983:28).

Sem comprometer as conclusões integracionistas previamente ofereci-das pelas grandes narrativas nacionais, parte ofereci-das representações da história mostram-se, de agora em diante, não mais na escala de um império continen-tal controlado pela capicontinen-tal, mas no seio mesmo das entidades infranacionais, tomadas como instância mediadora necessária para a adesão subjetiva à nação. Para velhas intenções, novas fontes e métodos foram requisitados, respondendo às pressões do presente sobre os modos consuetudinários de leitura do passado.

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Recebido em 09 de junho de 2006 Aprovado em 08 de janeiro de 2007

Letícia Nedel é pesquisadora do CPDOC/ FGV. E-mail: <[email protected]>.

Notas

* Este texto é uma versão ampliada de palestra proferida no CPDOC/ FGV em 5 de abril de 2006.

1 (IHGRS 1940:CCCXXV). Estavam presentes, além dos demais sócios do

Ins-tituto, de Gilberto Freyre e de Getúlio Vargas, os interventores do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Santa Catarina, representantes dos interventores de Minas Gerais e Paraná, do governo de Pernambuco, o comandante da III Região Militar, secretários da Educação, Fazenda e Agricultura do RS, representantes dos secretários de Obras Públicas e Interior e o historiador Moysés Vellinho, na condição de vice-presidente do Departamento Administrativo.

2 Não casualmente, José Lins do Rego, ao comentar aquela primeira viagem no

prefácio à Região e tradição, retratou o estado como uma espécie de campo de provas para as teses lusitanistas do amigo: “Na nossa viagem ao Rio Grande, dezesseis anos após o Congresso Regionalista do Recife, as idéias todas de Gilberto Freyre foram se encontrando com ele na realidade. Todas elas confirmadas no contato com a gente e a terra que mais cultivavam as suas particularidades e eram, no entanto, tão irmãos dos nordestinos, dos baianos, dos mineiros, de todo o Brasil. O Rio Grande foi um campo prodigioso para o sociólogo confirmar e sentir a força da colonização portuguesa. O que ele sustentara em Casa Grande e Senzala víamos ali ao nosso contato. Casas, móveis, jeitos de falar, de andar, de sentir, de comer, de rezar e por tudo isto bem à mostra a marca lusitana, o açoriano de cara comprida de Rio Pardo vivo e bulindo ainda por toda a parte. O Brasil era o mesmo, era a grande unidade que nem meio século do estadualismo pudera corromper” (Lins do Rego 1941:20).

3O artigo “O Rio Grande, esse desconhecido” integrava a reportagem intitulada

“O deslumbrante Rio Grande do Sul”, publicada pela revista Manchete. A referência consta do depoimento prestado por Viana Moog em Simpósio realizado na UFRGS, alusivo aos 50 anos da Revolução de 1930. Vide Moog 1983:614-627, 621.

4 “O Regionalismo no Sul”. Folha da Manhã, Recife. Reproduzido na revista

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5 Neste quadro, “tanto mais [as entidades locais] não podem ser pensadas como

conflitantes entre si, quanto mais mantenham trocas econômicas e demográficas desiguais” (Thiesse 1997:5).

6 Carta a Manuel Bandeira, SP, 2/6/1928.

7 Ao analisar os conteúdos trabalhados pelo Almanach Litterário de São Paulo,

Antô-nio Celso Ferreira comenta que já nos vinte anos anteriores à proclamação da República, a elite política e intelectual paulista travava intensas discussões sobre a necessidade de conferir ao estado um papel político e cultural compatível com o surto progressista que acompanhou a expansão da lavoura cafeeira. Nesse contexto, “O progresso recente da província mal começara a ser assimilado no conjunto do país [...]. Os heróis paulistas ainda não figuravam nas narrativas históricas nacionalistas: eles viriam num futuro próximo, como resultado de uma construção textual que apenas se iniciava” (Ferreira 2002:44).

8 “Entre 1925 e 1926, os verde-amarelos rompem com os grupos Terra Roxa e

Pau-Brasil. Desencadeia-se a partir de então uma verdadeira polêmica que tem como pano de fundo a questão da relação regionalismo-nacionalismo. Para os verde-ama-relos, as demais correntes modernistas cometem um erro fundamental: encaram o regionalismo como motivo de vergonha e de atraso. Isto acontece, segundo seu ponto de vista, porque esses intelectuais teimam em ver o Brasil ‘com olhos parisienses’, o que leva, em decorrência, a que qualquer manifestação de brasilidade seja reduzida a regionalismo” (Velloso 1993:98).

9 As particulares refrações do Modernismo no Rio Grande do Sul foram

exami-nadas aprofundadamente por Lígia Chiapini de Moraes Leite. Analisando a prosa literária dos anos 20 e 30, a autora conclui que “os gaúchos receberam um Moder-nismo já diluído, o verde-amarelo, ao qual foram especialmente sensíveis porque lhes fornecia modelos para o canto apoteótico da terra e da raça”. A mesma autora destaca que “o Modernismo foi responsável em grande parte por um clima propício à incrementação do Regionalismo e por uma releitura da tradição [na qual] contos tinham uma função de propagandear os valores gaúchos, como auxiliar na projeção política e econômica do Rio Grande, junto ao Poder Central” (Leite 1978:19-21). Sobre as tematizações do regionalismo paulista, ver Ferreira 2002 e Velloso 1993:123-ss.

10 Houve pelo menos três tentativas anteriores à criação definitiva do IHGRS,

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apresentar-se condignamente na magna data; que sejam por uma vez desfeitos os erros, as inverdades, as falsas apreciações que correm o mundo em livros de autores estrangeiros sobre o Rio Grande” (Revista IHGRS, n.1, p.120).

11 Como marcaram Marlene Medaglia (1983) e Ieda Gutfreind (1989; 1995), os

jovens e instruídos propagandistas da República foram os primeiros a manifestar uma linha de interpretação do passado que enfatizava o isolamento geográfico da região, a tardia ocupação do estado pela Coroa portuguesa, a insignificância de indígenas e negros para sua configuração étnica, o separatismo farroupilha, a proximidade física e cultural do Rio Grande com os países platinos (correspondente à presumida falta de afinidade com o Brasil), além da preeminência de um “regime democrático” de relações sociais entre patrões e empregados, “irmanados” pela vida rústica da campanha. Essa ênfase particularista permaneceria dominante na historiografia até o final da revolução de 1923, em consonância com o discurso político-ideológico perrepista. O patrulhamento a essas teses autonomistas inicia-se com a criação do IHGRS e se fortalece ao longo dos anos 30, quando os sócios do Instituto se aliam à cruzada política aliancista. A partir daí, os memorialistas trataram de legitimar documentalmente a oposição ingênita das duas variedades do gênero gaúcho — platina e brasileira — em teses que tomavam as relações entre o que viria a ser o Rio Grande do Sul e o Prata como a história da resistência dos brasileiros aos invasores espanhóis. A realização do Primeiro Congresso de História e Geografia Sul-rio-grandense como parte do calendário festivo do Centenário Farroupi-lha, em 1935, representa o momento de consolidação desta tendência enquanto evento aglutinador dos profissionais encarregados do reenquadramento da memória regional.

12Um dos efeitos mais imediatos do Modernismo sobre o cenário literário gaúcho

foi a retomada dos autores fundadores do regionalismo. Em alguns casos, como a obra de Alcides Maya, essa retomada é crítica; em outros, como a de Simões Lopes Neto, que em 1926 inicia sua carreira póstuma, é entusiasmada. Em casos como o

deAntônio Chimango, a popularidade vinha em uma linha de continuidade desde

a publicação. Guilhermino César informa que a movimentação modernista rebenta exatamente no auge dessa popularidade (1994:51).

13 “A década de trinta assinala o decréscimo da participação do conto na

litera-tura gaúcha, após dois decênios de uma produção significativa do gênero [...]. Com a ascensão do romance, o conto é relegado a um segundo plano, passando por uma fase intervalar de cerca de três décadas, caracterizada pela convivência do regio-nalismo com um incipiente conto urbano [...] enquanto o romance diferenciou-se a partir de 30, o conto persistiu na matriz regionalista tradicional até os anos cinqüenta” (Bittencourt 1999:31-32).

14 Com a criação da Frente Única Gaúcha (FUG), em 1929. A frente era integrada

pelos partidos Republicano Rio-grandense (PRR) e Libertador (PL), coligados para darem apoio à Candidatura de Vargas pela Aliança Liberal.

15 Trata-se do tópico final do IV capítulo da obra A Província de São Pedro.

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16 Carta a Rui Cirne Lima, 25/6/28. Citada por Zilberman (1998), como epígrafe

do livro Roteiro de uma literatura singular.

17Os dois renomados membros da Academia Brasileira de Letras denunciaram

a penúria “positivóide” vivida por um estado passível de ser definido como “corpo estranho na Federação Brasileira”, uma região economicamente “atrasadíssima”, “lugar onde somente poderia vicejar um caudilho do estilo hispanoamericano (como Castilhos) — um ambiente de nômades ‘semibárbaros’” (apud Love 1975:111). A mesma estranheza expressou Simão de Mântua (pseudônimo do jornalista João Lage), referindo-se, na Revista do Brasil, à fantástica “Comtelândia” do sul, ao sono profundo em que mergulhara ao término do primeiro parágrafo de um panfleto posi-tivista (idem:112). Mais indiretamente essa crítica aparece em Alcântara Machado, que na “primeira dentição” da Revista de Antropofagia, em 1928, atribuiu “quase todas as tolices iniciais da República” aos “austeros namorados póstumos de dona Clotilde” (Machado 1976 [1928-1929]:s/p).

18 Segundo Gilberto Freyre, o Manifesto Regionalista teria sido escrito em 1926

para ser apresentado no I Congresso Regionalista, realizado em Recife e promovido pelo Centro Regional, do qual o poeta regionalista Odilon Nestor viria a ser presi-dente. Publicado pela primeira vez em 1952 pela editora Região, em versão, como de hábito, retocada, e sem que Gilberto Freyre assumisse essa alteração, o manifesto causou estardalhaço na imprensa. Wilson Chagas desconfiou da afirmativa de Freyre, e Joaquim Inojosa, crítico do tradicional Jornal do Comercio (onde também Freyre e Nestor escreveram regularmente), acusou-o de fraude. No livro O Movimento

Mo-dernista em Pernambuco, publicado em 1968, enumera documentos comprobatórios

de sua precedência, em relação a Freyre, na introdução e na divulgação do Moder-nismo no Recife. A versão aqui utilizada está disponível na internet: http://www. ufrgs.br/cdrom/freyre/comentario.html (consulta em março de 2004), sem paginação. As informações expostas acima constam do comentário de Antônio Dimas, que acompanha o texto na rede.

19 As mais importantes coleções voltadas para revelar os aspectos marcantes

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1988:79). Sobre a concorrência da José Olympio com as outras editoras, ver Sorá, 1998. A posição da Globo nesse mercado também foi abordada na tese de Sorá, na segunda parte, intitulada “Gênesis de um pólo estrangeiro no espaço editorial”.

20Of. 337, 28/6/54, de Dante de Laytano a José Honório Rodrigues. Museu Julio

de Castilhos, Correspondência Expedida 1954, v.1, AP 1031.

21 A observação teria sido feita, segundo Moysés Vellinho, por Afonso Arinos

de Melo Franco, ao contrastar a literatura do norte com a do Rio Grande do Sul em

Mar de sargaços. A resposta de Moysés Vellinho pode ser vista no editorial da re-vistaProvíncia de São Pedro 2(6):5-6, set. 1946, e em “Evocação de Afonso Arinos”, conferência proferida no Conselho Federal de Cultura e publicada no Caderno de Sábado do Correio do Povo (P. Alegre, 9 nov. 1968). A questão da linguagem como marca de expressão própria a uma literatura brasileira seguia sendo, passadas quase três décadas do movimento modernista, um item primordial nas análises críticas de autores e obras. Neste sentido, Afonso Arinos chegou a ser comparado com Gilberto Freyre, “outro autor que também estuda o universal em função do nacional”, e que, como Arinos, “jamais esquece sua carteira de identidade” (Correa 1948:48). A obra crítica de Afonso Arinos consta dos livros Espelho de três faces (1937);Idéia e tempo

(1939);Mar de sargaços (1944);Portulano (1945), e O som do outro sino (1978).

22 Desde o primeiro lançamento de Prosa dos pagos, em 1943, mas sobretudo

a partir da década seguinte, com os estudos Guia do folclore gaúcho e cancioneiro

gaúcho, respectivamente lançados em 1951 e 1952, Meyer acumula às consabidas

qualidades de crítico e poeta, a autoridade do pesquisador social, preterindo a poe-sia em prol de novas intenções que exploram o potencial documental da atividade literária, em especial da literatura regionalista.

23 Martins, Cyro. “Introdução”. In: Sem rumo (romance). 6.ed. 1997. Porto

Ale-gre: Movimento. p.14-ss. (1.ed., 1937). Ensaio originalmente publicado em 1944. A versão aqui utilizada encontra-se disponível na internet, sem dispor da paginação original. Ver http://www.celpcyro.org.br/coluna_int.asp?codigo=24. Acesso em 21 de novembro de 2002.

24 Idem.

25 A aula foi enviada ao “mestre” um ano mais tarde: “As notícias do ilustre

amigo cessaram misteriosamente e não tive nunca mais nem ao menos um cartão de tantas dessas suas viagens. Mando-lhe uma aula inaugural feita ano passado, na qual lhe cito várias vezes [...] e entrei em diversas liberdades. Uma tentativa de estudar um dos aspectos de sua bela obra, pedindo que me desculpe a intromissão, mas nos meus cursos o exame de seus livros é um elogio obrigatório”. Carta de Dante de Laytano a Gilberto Freyre, 31/03/54. Museu Julio de Castilhos, Correspondência Expedida, v1-1954, AP 1031.

26 Estas eram entendidas à época como um domínio temático preferencial da

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per-maneciam, para efeitos classificatórios, a cargo da “antropologia”. Com base nessa divisão, Dante de Laytano ressalvou as naturezas diferentes das ascendências de Gilberto Freyre e Arthur Ramos sobre sua obra, no tópico “Antropologia do negro — Arthur Ramos”, de suas memórias “dos outros”, como ele mesmo chamara: “[Artur Ramos] representou, para mim, uma amizade sólida, além de ser ele uma de minhas influências decisivas no inclinar-me na pesquisa do homem de cor. [...] Dediquei a Arthur Ramos meu trabalho sobre ‘Os africanismos do dialeto gaúcho’ que teve crítica lindíssima. Este livro é em homenagem devota a minha filiação a linha espiritual de Arthur Ramos. Quanto a Gilberto Freyre minha fidelidade é de caráter sociológico. Diria que com Arthur Ramos fixa-se no caso antropológico” (Laytano 1986:89).

27 Além de abordar a questão a partir do aspecto filológico — nos artigos

com-pilados em O linguajar do gaúcho brasileiro (1981) — e folclórico — em Folclore do

Rio Grande do Sul (1987), este também uma recompilação revisada dos trabalhos

apresentados em congressos de História e Folclore — nas memórias de 1986 são muitas as passagens dedicadas ao tema. Nelas, o autor não deixa de confirmar a tese da escassez demográfica da população negra, mas contrapõe a ela sua relevân-cia cultural, confirmada pela presença nas expressões de religiosidade popular, na linguagem e nos costumes (Laytano 1986:89).

28 Contrariamente aos ditames historiográficos segundo os quais o regime de

trabalho escravo no Rio Grande ter-se-ia limitado à indústria do charque, a narrativa construída pelo autor destaca: “Com a escravidão, muito estancieiro chegaria mes-mo a dispensar o assalariado. Comprava os quinze ou vinte anos que podia dar-lhe o trabalho de um negro escravo por quantia correspondente à quadragésima parte do total empenhado em pagamento de um peão, no mesmo período. O peão pobre, o proletário rural, aprendia portanto bem cedo esta dura experiência: de nada lhe servia a aptidão para o trabalho” (Meyer 2002 [1960]:26).

29 Segundo Guilhermino César, a crítica local imediatamente identificou na

nove-la uma metáfora urbana da lenda do Negrinho do pastoreio (César 1994:139-140).

30O trabalho, publicado com fotos ilustrativas, foi republicado no livro

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Referências bibliográficas

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Referências

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