Introdução
Questões da aula de hoje:
O que é a filosofia?
Qual é a sua utilidade? Qual é o seu método?
Introdução
Etimologicamente, “filosofia” significa amor pelo saber.
Nesse sentido, todo intelectual é um filósofo. “Ph.D.”
Introdução
Sentido mais estreito e atual de “filosofia”:
Disciplina que reflete sobre aquilo que outras disciplinas tomam como pressuposto.
Introdução
Juristas típicos estudam o conteúdo do direito e discutem como aplicá-lo a casos concretos.
O que diz o CP acerca do aborto?
Como se aplica o CP ao caso do anencéfalo?
Introdução
Filósofos do direito dão um passo atrás e perguntam:
O que é o direito?
Por que é que os Códigos fazem parte dele?
Temos a obrigação de obedecer os Códigos em todos os casos?
Introdução
A: A interrupção da gravidez é permitida em caso de anencefalia
B: Como você sabe disso?
A: Há uma resolução do CFM que assim determina.
Introdução
A: Há legislação federal que o autoriza para regular assuntos relativos à ética médica.
B: Mas a interrupção da gravidez não é regulada pelo CP?
A: Sim, mas o CP não proíbe a interrupção desse tipo de gravidez.
Introdução
A: Sim, mas o STF determinou que não é aborto a interrupção da gestação do anencéfalo.
B: Quem deu essa autoridade ao STF?
A: A Constituição! Ela admite o controle de constitucionalidade pelo judiciário.
Introdução
Por que questionar pressupostos? Por que fazer filosofia?
Introdução
Três respostas:
1. A filosofia inspira humildade intelectual. 2. Quem estuda filosofia argumenta melhor.
Introdução
3. A filosofia tem implicações práticas que nem sempre são percebidas.
Introdução
Método em filosofia?
Introdução
Ciências naturais e sociais são “empíricas”.
> Baseiam-se na experiência, na observação de fenômenos naturais e sociais.
Introdução
Ciências matemáticas não são empíricas.
> Não se baseiam na experiência, mas no raciocínio abstrato.
> Usam uma linguagem especial. > Predomina o raciocínio dedutivo.
Introdução
E a filosofia?
> Não faz experimentos.
> Mas também não ignora as descobertas científicas.
Introdução
> Não usa símbolos especiais. (À exceção da lógica formal.)
> Mas usa, sempre que possível, o raciocínio dedutivo.
Introdução
Sto. Anselmo:
1. Deus é o ser mais perfeito que há. Ele tem todos os atributos positivos que se pode ter.
2. A existência é um atributo positivo, isto é, um ser que não existe é inferior a um ser que existe. Logo,
Introdução
São Tomás de Aquino:
1. O universo exibe ordem e harmonia.
2. A ordem e a harmonia são produtos de
alguma mente inteligente.
Logo,
3. O universo é produto de uma mente
inteligente.
Introdução
Principais ramos da filosofia.
> Filosofia prática: trata de como devemos agir, como devemos tratar os outros.
> Filosofia teórica: trata de questões que não têm consequências diretas para a nossa ação.
Revisão
> O que é a filosofia?
Disciplina que reflete sobre os pressupostos de outras disciplinas
> Qual é o método da filosofia? > Qual é a utilidade da filosofia? > Os ramos da filosofia
Ponto 2: Lógica (ou teoria da argumentação)
Texto: Salmon, Cap. 1 e início do Cap. 2
Questões:
1. Qual é a diferença entre contexto de descoberta e contexto de justificação?
2. Qual é a diferença entre um argumento dedutivo e um argumento indutivo?
Lógica
Lógica formal (simbólica, matemática)
x
Lógica
Argumentar é oferecer razões ou evidências em defesa de uma conclusão...
... normalmente com o objetivo de convencer um interlocutor.
A distinção é feita em função do tipo de conclusão defendida.
Lógica
Argumentação teórica: feita em defesa de conclusões teóricas.
Também ditas descritivas ou fáticas.
Ex: chove lá fora; morreram 6 milhões no
Holocausto; o universo está em expansão; o mordomo matou patrão.
Lógica
Argumentação prática: feita em defesa de conclusões práticas.
Também chamadas prescritivas, normativas.
Ex: é melhor levar um guarda-chuva; devemos
reduzir as emissões de CO2; o mordomo deve ser punido com pena de prisão.
Lógica
“Padronização” de argumentos
1. O universo exibe ordem e harmonia.
2. A ordem e a harmonia são produtos de alguma mente inteligente.
Logo,
Lógica
Numa de suas aventuras, Sherlock Holmes encontra um velho chapéu de feltro. Embora não conheça o proprietário, Holmes conta a
Watson muita coisa a seu respeito – afirmando, por exemplo, que se trata de um intelectual. O Dr. Watson, como de hábito, pede que Holmes o esclareça.
Lógica
À guisa de resposta, Holmes coloca o chapéu sobre a cabeça. O chapéu resvala pela sua testa até apoiar-se no seu nariz. “É uma questão de volume”, diz Holmes. “Um homem com uma cabeça tão grande deve ter algo dentro dela”.
Lógica
Padronização do argumento de Holmes:
1. Há um chapéu grande que tem algum dono
2. Donos de grandes chapéus têm cabeça grande 3. Pessoas com cabeça grande têm cérebro grande 4. Pessoas com cérebro grande são intelectuais
Logo,
Lógica
1 a 4 são “premissas”
Lógica
Argumento simples x
Lógica
Argumento simples
Premissa(s)
Logo,
Lógica
Argumento composto: conjunto de argumentos simples relacionados
Argumento composto convergente x
Lógica
Há pelo menos duas razões para crer que
estudar direito é uma boa ideia: o bacharel em direito tem muitas oportunidades de emprego e o bacharel em direito goza de prestígio social.
Lógica
1. O bacharel em direito tem muitas oportunidades de emprego
2. O bacharel em direito goza de prestígio social Logo,
Lógica
Argumento composto encadeado.
Premissa(s) Logo,
Conclusão Logo,
Lógica
Comidas gordurosas fazem mal à saúde e, portanto, devem ser evitadas. Feijoada é gordurosa; logo, devemos evitá-la.
Lógica
1. Comidas gordurosas fazem mal à saude Logo,
2. Devemos evitar comidas gordurosas 3. Feijoada é uma comida gordurosa
Logo,
Lógica
Argumentos dedutivos x
Lógica
É dedutivamente válido o argumento que satisfaz esta condição:
> Se as premissas forem verdadeiras então a conclusão necessariamente será verdadeira.
(Ou: é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão, falsa.)
Lógica
Todo homem é mortal Sócrates é homem
Socrátes é mortal
Quem mata deve ser preso João matou
Lógica
Todo homem é mortal César é mortal
Lógica
Obs: Nem todo argumento dedutivo vai do geral para o particular
Lógica
Se Holmes mora em Londres, então Holmes
mora na Inglaterra
Holmes mora em Londres
Holmes mora na Inglaterra
Ou é quarta ou é terça
Não é terça
É quarta
Lógica
Obs2: As premissas e a conclusão não precisam ser verdadeiras para que um argumento seja dedutivamente válido.
Todo homem é cego Sócrates é homem
Lógica
É indutivamente válido (ou forte) o argumento que satisfaz esta condição:
> Se as premissas forem verdadeiras então a conclusão provavelmente será verdadeira.
Lógica
Todos os cisnes observados até hoje são brancos Todos os cisnes são brancos
Ratos de laborário não reagem bem a X
Humanos são fisiologicamente parecidos com ratos de laboratório_____
Lógica
Obs: nem todo argumento indutivo vai do particular para o geral.
Galos têm cantado todos os dias Amanhã o meu galo cantará
Lógica
Obs2: Premissas e conclusão não precisam ser verdadeiras para que o argumento seja
indutivamente forte.
Galos têm cantado o hino todos os dias
Revisão
> Argumentação – ato de oferecer razões em defesa de uma conclusão (teórica ou prática) > Argumentos simples e compostos
> Validade dedutiva x validade indutiva
Lógica
Falácias –
Argumentos inválidos que (apesar disso) tendem a convencer as pessoas.
Lógica
Falácia genética
Consiste em atacar a posição de outra pessoa levando em consideração o contexto de
Ramanujan (1887-1920)
Ramanujan acreditava piamente nas dicas matemáticas da deusa de Namakal.
Logo,
As teorias de Ramanujan não merecem crédito.
Dr. Wakefield teve sua pesquisa financiada por
advogados que processavam fabricantes de vacinas. Logo,
Lógica
Falácia naturalista
Consiste em derivar uma conclusão prática de premissas exclusivamente teóricas.
Lógica
Os brasileiros acreditam que o aborto deve ser proibido.
Logo,
Revisão
> Argumentação – ato de oferecer razões em defesa de uma conclusão (teórica ou prática) > Padronização de argumentos
> Argumentos simples e compostos
> Validade dedutiva x validade indutiva > Falácias (genética e naturalista)
Próximo ponto (3): Conhecimento e ceticismo.
Texto: pdf no site.
Questões:
1. Quais são os três tipos de conhecimento, segundo Oliva?
2. Quais são as três condições para a obtenção de conhecimento proposicional, de acordo com a
Conhecimento & ceticismo
Três tipos de conhecimento:
Milena sabe tocar piano bem.
Nino conhece Campos do Jordão.
Angela sabe que Campos do Jordão fica no
estado de São Paulo.
Conhecimento & ceticismo
Definição tradicional de conhe-cimento proposicional:
Conhecimento & ceticismo
Crença (x desejo, gosto, preferência...)
Verdadeira = correspondente aos fatos
Justificada = auto-evidente ou baseada em um bom argumento
Conhecimento & ceticismo
Nenhum solteiro é casado.
(Frase auto-evidente ou “analítica”)
Há mais solteiros do que casados no Brasil. As pessoas não devem se manter solteiras. (Frases “sintéticas”)
Conhecimento & ceticismo
Quando é possível dizer que uma crença (que não é auto-evidente) está justificada?
Ela deve se apoiar em algum bom argumento, dedutivo ou indutivo.
Conhecimento & ceticismo
Ex: O júri só sabe que o réu cometeu homicídio se:
(i) o júri acredita que o reú cometeu homicídio; (ii) o réu realmente cometeu homicídio;
(iii) o júri formou a crença (i) depois de analisar as provas com cuidado.
Conhecimento & ceticismo
Obs: uma crença pode ser verdadeira sem estar justificada!
Conhecimento & ceticismo
Ser cético em relação a um assunto é afirmar que não se tem conhecimento acerca dele...
... é dizer que falta pelo menos um dos três elementos: crença ou verdade ou justificação.
Revisão
> Conhecimento = crença verdadeira e justificada
Crença (≠ desejos, preferências e gostos) Verdadeira (= correspondente aos fatos)
Justificada (= baseada em um bom argumento indutivo ou dedutivo)
> Ser cético é dizer que não se tem conhecimento acerca de um dado assunto
Próximo ponto (4): Ética I - Introdução.
Leitura obrigatória - Nagel, Cap. 7
- Rachels, Cap. 4, pp. 49-54
Perguntas:
1. Normas morais são universais ou relativas ao grupo social em que vigoram?
2. É preciso apelar a Deus para fundamentar nossas crenças morais?
Ética I: introdução
João: Abortos são imorais, a menos que a gestante corra risco de vida.
Maria: O aborto é imoral mesmo quando a gravidez resulta de ato violento, como estupro?
João: O estupro é condenável, mas o direito do feto à vida é mais importante que o fato de que ele foi gerado através de um ato violento.
Ética I: introdução
Maria: Bom, imagine que você tenha sido
sequestrado e sedado, e que tenha acordado ao lado de um famoso violinista. Seus rins estão
filtrando o sangue dele. Você pode separar-se, mas isso o mataria. Para salvá-lo precisa manter-se conectado até que um doador apareça, o que pode levar meses. Você acha que pode
Ética I: introdução
João: Acho que sim.
Maria: Então, sendo coerente, você deveria admitir que o aborto é permitido em caso de estupro.
Ética I: introdução
Ética sociológica
(estuda as opiniões dos diferentes grupos sociais sobre o certo e o errado)
x
Ética filosófica ou filosofia moral (estuda o que é certo e errado)
Ética I: introdução
Essa distinção é criticada por aqueles que acreditam no “relativismo ético” (RE).
RE diz que certo e errado variam de acordo com as opiniões de cada grupo social.
Ética I: introdução
Dois problemas que afetam o RE: 1. Como delimitar os grupos?
2. Os grupos não podem errar?
O relativista comete “falácias naturalistas”.
O grupo X pensa que o aborto é errado Logo
Pessoas próximas merecem tratamento especial? Devemos renunciar ao luxo para fazer caridade? Podemos explorar os animais?
O aborto é permissível? E a barriga de aluguel? É imoral o uso de drogas ilícitas?
Devo votar em um partido de esquerda ou direita?
Ética I: introdução
Ceticismo ético (≠ relativismo ético)
O cético quanto a questões éticas afirma que não é possível saber o que é certo ou errado.
Ética I: introdução
Teoria do comando divino (TCD)
Certo é o que Deus comanda; errado é o que ele proíbe.
Ética I: introdução
Duas maneiras de entender TCD:
(i) Condutas certas são certas porque Deus as comanda.
(ii) Não é Deus quem define o que é certo, mas só ele sabe o que é certo.
Ética I: introdução
Neste curso, vamos nos concentrar na possibi-lidade de justificação secular de crenças morais.
Revisão
> Ética sociológica x ética filosófica > Relativismo ético
> Ceticismo ético
> Teoria do comando divino
Ética I: introdução
S1: situação hipotética em que a sobrevivência do violinista depende do seu corpo
S2: situação hipotética em que a sobrevivência de um feto gerado depois de estupro depende do seu corpo
Ética I: introdução
1. Em S1 você tem permissão moral para desligar-se do violinista.
2. S1 é análoga a S2, visto que, nas duas, a
sobrevivência de outro veio a depender do seu corpo depois de um ato violento.
Logo,
3. Em S2 você tem permissão moral para desligar-se do feto.
Revisão
> Ética sociológica x ética filosófica > Relativismo ético
> Ceticismo ético
> Teoria do comando divino
Próxima aula: Ética II – utilitarismo (ponto 5)
Leitura obrigatória: Rachels, Caps 7 e 8
Pergunta:
Quais são as virtudes e as deficiências da teoria utilitarista?
Ética II: utilitarismo
Toda teoria ética se pronuncia sobre duas coisas:
(1) O que é bom, o que tem valor.
(liberdade, igualdade, felicidade, família etc.)
Ética II: utilitarismo
Em relação a (1), há duas tendências básicas: > Teorias monistas x teorias pluralistas
Obs: Teorias pluralistas podem estabelecer “rankings” de valores.
Ética II: utilitarismo
Em relação a (2), também há duas tendências: > Teorias consequencialistas x teorias
Ética II: utilitarismo
De acordo com teorias consequencialistas, deve-se maximizar o que é bom.
Ética II: utilitarismo
De acordo com teorias deontológicas, deve-se
honrar o que é bom.
Ética II: utilitarismo
Exemplo: É permitido sacrificar uma pessoa para salvar um número maior de vidas?
Ética II: utilitarismo
Utilitarismo: teoria que defende a maximização da felicidade geral
(consequencialismo + monismo)
Obs: Não é uma teoria egoísta (cuidado com o uso comum da palavra “utilitarismo”).
J. Bentham (1748-1832)
J. S. Mill (1806-1873)
Por princípio da utilidade entende-se o princípio que
aprova ou reprova qualquer ação de acordo com sua aparente tendência para aumentar ou diminuir a felicidade das pessoas
cujo interesse está em jogo.
para aumentar ou diminuir a felicidade das pessoas cujo interesse está em jogo.
Ética II: utilitarismo
Felicidade =
Obtenção de prazer? Satisfação de desejos?
Satisfação de preferências lúcidas?
Ética II: utilitarismo
Virtudes do utilitarismo:
1. Propõe um cálculo relativamente objetivo para determinar como se deve agir.
Obs: objetivo ≠ simples
Ética II: utilitarismo
2. É imparcial: a felicidade de cada pessoa tem o mesmo valor.
(imparcial ≠ igualitário)
3. É altruista: exige o sacrifício de interesses pessoais.
Ética II: utilitarismo
4. Abre uma via para a proteção dos animais.
Ética II: utilitarismo
Críticas ao utilitarismo:
1. Não dá a devida importância a direitos individuais.
2. Não dá a devida importância a relações pessoais.
3. Promove também preferências caras e ofensivas.
Revisão
> Utilitarismo: teoria monista e consequencialista que defende a maximização da felicidade geral
> Lado positivo: objetividade, imparcialidade, altruísmo
> Lado negativo: menosprezo de direito individuais e relações pessoais, promoção de preferência caras e ofensivas