O Artigo de Opinião e a Propaganda: uma proposta de
leitura no 3º grau
Silvia Regina F. Pompeo Araújo1, Maria do Carmo Souza de Almeida2 1
Grupo de Estudos em Língua Portuguesa – Universidade de Taubaté (UNITAU) Visconde do Rio Branco,22 – CEP 12020-040 – Taubaté – SP – Brasil 2
Grupo de Estudos em Língua Portuguesa – Universidade de Taubaté (UNITAU) Visconde do Rio Branco, 22 – CEP 12020 – 040 – Taubaté – SP - Brasil
Abstract. This article aims at presenting a methodology with the reading of
opinion article and propaganda in the first years of the graduation courses, Portuguese Language classes, at Taubaté University, when the object of the study is the text. Our practice is theoretically supported by the literary theory, conception of discoursive genre( Bakthin) and interactive reading model (Kleiman).
Keywords. Literacy;genre; reading strategy
Resumo. Este artigo tem como objetivo apresentar uma prática com a leitura
de artigo de opinião e de propaganda desenvolvida nos primeiros anos da graduação da Universidade de Taubaté, na aula de língua portuguesa, quando o objeto de estudo é o texto. Nossa atuação está embasada nas teorias do letramento, no conceito bakhtiniano de gênero textual e no modelo interativo de leitura.
Palavras-chave. Letramento; gênero textual; estratégia de leitura.
1. Introdução
A fim de instrumentalizar o acadêmico para ter desenvoltura na realização de suas atividades tanto acadêmicas quanto profissionais, entendemos ser necessário levar para a aula de leitura textos que são representativos de gêneros que circulam nas diferentes instituições sociais, pois “a diversidade nos usos de escrita do cotidiano deve encontrar eco na escola” (KLEIMAN, 1999, p.96).
Portanto, o objetivo deste artigo é demonstrar uma proposta de trabalho de ensino de leitura de artigo de opinião e de propaganda desenvolvida na aula de língua portuguesa, nos primeiros anos da graduação na Universidade de Taubaté. O nosso referencial teórico vem das teorias de letramento, da concepção bakhtiniana de gênero textual e do modelo que privilegia o ensino de leitura por meio da utilização de estratégias cognitivas e metacognitivas.
Quanto à organização deste artigo, inicialmente apresentamos, sucintamente, os pontos teóricos que sustentam a nossa prática; na seqüência, a metodologia de trabalho e nossas considerações finais.
2. Fundamentação Teórica
Compreendendo a linguagem como mediadora das nossa ações sobre o mundo que nos cerca, entendemos a importância do trabalho com os diferentes gêneros textuais a fim de que os estudantes possam adquirir práticas de letramento que lhes propiciem efetiva participação na vida social. Para que o aluno possa perceber as condições de produção e de circulação dos gêneros, é preciso que o professor o ajude a desenvolver sua competência comunicativa, a fim de que além dos conhecimentos lingüísticos referentes ao léxico e à estrutura da língua, o estudante também seja levado a possuir conhecimentos específicos sobre os gêneros (LOPES-ROSSI, 2002).
A função da escola é preparar os estudantes para que tenham autonomia suficiente a fim de guiarem seus processos de aprendizagem e, para isso, é certo que esse estudante precisa compreender o que lê e que a escrita tem função comunicativa: “a concepção social da escrita implica desenvolver sujeitos plenamente letrados, que têm familiaridade com diversas práticas discursivas letradas de diversas instituições” (KLEIMAN, 2002, p.34). Assim, nosso trabalho com a leitura em sala de aula visa desenvolver práticas de letramento que sejam efetivamente úteis para a atuação acadêmica e profissional de nossos estudantes. Para tanto, nosso objetivo é propiciar ao aluno o conhecimento de estratégias diversificadas de abordagem do texto.
Privilegiamos, assim, o modelo interativo de leitura que aponta a importância do conhecimento, por parte do educador, das estratégias cognitivas e metacognitivas no ensino de leitura (KLEIMAN, 1993). As estratégias cognitivas não podem ser modeladas, pois não estão sob nosso controle consciente, mas o professor pode promover condições para que o aluno desenvolva as habilidades em que elas estão apoiadas. Dentre as estratégias metacognitivas possíveis de serem trabalhadas estão a formulação de objetivos prévios à leitura e o estabelecimento de predições sobe o texto.
3- Procedimentos metodológicos
Por meio de atividades aplicadas logo no início do ano letivo, a fim de diagnosticar os níveis de letramento de nossos alunos, percebemos que a maioria deles apresentava dificuldades de ler diferentes gêneros textuais e desconheciam as características específicas desses gêneros. Levamos em consideração que “as práticas de letramento mudam segundo o contexto” (KLEIMAN, 2001, p.39), portanto “são práticas situadas”, no dizer de Barton (2000). Assim, para que pudéssemos desenvolver a competência comunicativa de nosso educandos procuramos elaborar um material que propiciasse a exposição do estudante a diferentes tipos de gêneros para que eles pudessem apreender o que os caracteriza e as suas especificidades. Neste trabalho, optamos por apresentar uma síntese sobre uma aula de leitura com um artigo de opinião e com um texto publicitário; entretanto, devido às limitações impostas neste trabalho, somente a propaganda consta dos anexos.
Sabemos que existe uma questão didática relevante em relação à transposição de um gênero de sua instituição de origem para a sala de aula e que, de acordo com Kleiman (2002), é necessário atentar para o fato de que se entendemos a definição de gênero como entidade sócio-histórica e cultural determinada pelo seu contexto de produção, devemos ter o cuidado de, em uma situação de transposição didática, manter ao máximo os aspectos comunicativos da situação social da qual se originou o gênero
trabalhado. É interessante também, sempre que possível, recuperar elementos da situação social e da contextualização do texto. Por isso, temos a preocupação de trabalhar com artigos de opinião e textos publicitários atualizados, embora saibamos que estes gêneros, devido as suas características, possam ser utilizados por um período mais longo.
3.1 Artigo de Opinião
O artigo de opinião utilizado na aula foi retirado do caderno Equilíbrio da Folha de S. Paulo, do dia 24 de abril de 2003, cujo título é o “Mal que entretém”. É um artigo cuja forma de abordagem da questão discutida proporciona ampla discussão, e, por ser uma temática aberta, atende ao interesse de alunos dos diversos curso da graduação. Escolhemos o artigo de opinião, pois é um gênero da esfera jornalística e essa instituição exerce grande influência política-ideológica na sociedade. Assim, de acordo com Rodrigues (2000, p.214), conhecer os mecanismos “lingüístico-discursivos requeridos para a compreensão e produção desse gênero é essencial para o efetivo exercício da cidadania, que passa pelo posicionamento crítico diante dos discursos”.
No preparo da orientação didática, seguimos parcialmente o roteiro proposto por Kleiman (1993, 1995, 1999), assim, procuramos organizar o trabalho seguindo as seguintes etapas. Primeiro, procuramos ativar o conhecimento prévio dos alunos fornecendo primeiro somente o nome do título do texto e, em seguida, uma cópia do desenho que acompanha o artigo, a fim de que eles tentassem elaborar as primeiras hipóteses. Em seguida, demos início a um trabalho de contextualização do texto, por meio de questões que levassem os estudantes a uma leitura global/exploratória e que dessem continuidade à ativação do conhecimento prévio. Por exemplo, uma questão em relação ao texto citado levava-os a relacionar a data da publicação do artigo a eventos importantes ocorridos no país ou no mundo próximos àquela data.
Na seqüência, os textos foram distribuídos, mas os alunos foram orientados a não iniciarem ainda a leitura completa. Estabelecemos um objetivo de leitura para os alunos, que passaram, então, a leitura completa do texto. Procuramos elaborar um objetivo de leitura que levasse o aluno/leitor ao reconhecimento da questão em debate e da posição defendida pelo autor do texto. Ou seja, tentamos direcionar o aluno para a observação importante de duas características essenciais desse gênero. Por fim, foram feitas perguntas que propiciassem ao educando uma leitura detalhada, a fim de que ele observasse as características que são específicas do estudo desse gênero: a localização das prováveis intenções do autor, as diferentes vozes presentes no texto, provável público-alvo, recursos argumentativos utilizados e outras.
3.2 Propaganda
Levar a propaganda para a aula de leitura é essencial por quatro motivos: é de grande interesse dos alunos; contribui para compor o universo habitual dos educandos, em face ao enorme número de propagandas a que são expostos cotidianamente; colabora para que compreendam, interpretem e analisem os caminhos sutis que a propaganda percorre no sentido de nos induzir a incorporar determinados padrões de necessidade; coopera para formar leitores proficientes e críticos em relação à leitura, para poderem autonomamente agir.
A orientação didática da leitura da propaganda segue roteiro similar ao utilizado na leitura do artigo de opinião. Foi feita a ativação do conhecimento prévio dos
estudantes; a contextualização da propaganda; o desenvolvimento de uma leitura global, por meio de questões gerais; e, em seguida, a elaboração de um rol de questões que proporcionassem aos alunos uma leitura com riqueza de detalhes.
Desta forma, para a ativação do conhecimento prévio, fizemos uma abordagem sobre as características relativas a esse gênero textual: os suportes nos quais ele geralmente circula, características de sua apresentação com o emprego de linguagem verbal e não-verbal e o seu papel na sociedade moderna. Em relação à leitura global, solicitamos aos alunos que respondessem qual era a fonte, o público-alvo, a autoria, o provável objetivo do autor, entre outras questões.
Para a realização da leitura completa, primeiramente determinamos um objetivo para a leitura o qual consistia em depreensão do tema central do texto; em seguida, outras questões gerais foram solicitadas, enfatizando a compreensão dos pontos principais. Algumas questões elaboradas foram: Qual a temática da propaganda?
Observe atentamente a propaganda. Onde está registrada a maior parte da propaganda? Qual o slogan da propaganda?
Em relação à leitura detalhada, fizemos uma análise para verificarmos a importância da linguagem verbal e não-verbal constitutiva da propaganda, cada qual contribuindo com sua parte para o conjunto da mensagem, numa relação recíproca. Assim, analisamos a parte constituída por uma linguagem não-verbal, no caso em tela, a importância da fotografia anexa a agenda, dos desenhos no papel e da figura da agenda dentro de uma mensagem publicitária. Algumas questões elaboradas nesta parte foram:
A combinação de texto verbal e texto não-verbal se torna cada vez mais comum em nossa sociedade. O que representa o espaço físico, da página direita, desenhado na propaganda? Por que a perna e a chuteira desenhadas com a bola estão do lado oposto ao gol? Por que a bola, na fotografia, está acima da cabeça do menino e não nos pés, como no desenho ao lado? A posição dos braços do menino, na fotografia, pode representar um gesto mundialmente conhecido. Qual?
Na seqüência, verificamos a importância que cada palavra assume para compor as estratégias de persuasão dos anúncios publicitários, uma vez que um cliente em potencial, ao ler uma revista ou jornal, não o faz por causa dos anúncios, mas para conhecer os materiais de redação, as notícias veiculadas por este meio de comunicação. De acordo com Vestergaard e Schroder (2000), a primeira função da propaganda é chamar a atenção, ou seja, fazer com que as pessoas pratiquem a ação de ser voluntários, que corresponde ao tema central da propaganda. Algumas questões dessa parte foram: Qual é a parte lingüística destacada na propaganda? Que inferência você
pode fazer orientado por esses dizeres? No texto, existem quatro palavras no grau diminutivo. Quais são elas e por que foram assim empregadas? Nessa série de interpretações que você realizou com este exercício, qual o possível sentido atribuído à palavra “campo”?
4. Considerações finais
Nosso objetivo com este trabalho foi o de propiciar ao aluno leituras críticas e questionadoras que procuram ir além de uma análise de texto para a obtenção de um sentido único. Para tanto, desenvolvemos, no contexto de sala de aula, atividades de leitura com textos autênticos que circulam nas diversas esferas sociais. Buscamos associar o texto verbal, o texto não-verbal e o conhecimento de mundo numa relação de
ancoragem a fim de que múltiplas leituras, análises e interpretações pudessem emergir, convergindo para uma idéia central e que houvesse a construção e reconstrução continuamente das hipóteses de leitura, numa tentativa de reconstituição do percurso utilizado pelo autor, de suas intenções argumentativas e dos recursos de linguagem empregados que almejam nos convencer. Esperamos, assim, que nosso trabalho possa contribuir para a formação de um profissional letrado que tenha proficiência tanto na leitura como na escrita.
5.Referências bibliográficas
BARTON, David et al. Situated Literacies: Reading and Writing in Context. London: Routledge, 2000.
KLEIMAN, Angela B. Oficina de Leitura: teoria e prática. Campinas: Pontes, 1993.
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______ . Contribuições teóricas para o desenvolvimento do leitor: teorias de leitura e ensino. In: RÖSING, Tania M.K., BECKER, Paulo (Org). Leitura e animação cultural: repensando a escola e a biblioteca. Passo Fundo: UFP, 2002.
______ . Introdução: o que é letramento?. In: _____. (Org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.
KLEIMAN, Angela B.; MORAES, Silvia E. Leitura e interdisciplinaridade:
tecendo redes nos projetos da escola. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
LOPES-ROSSI, Maria Aparecida G. O desenvolvimento de habilidades de leitura e de produção de textos a partir de gêneros discursivos. In_____. (Org.).Gêneros Discursivos no Ensino de Leitura e Produção de Textos. Taubaté: Cabral Editora e Livraria Universitária, 2002.
RODRIGUES, Rosângela H. O Artigo Jornalístico e o Ensino da Produção Escrita. In: ROJO, Roxane (Org.). A Prática de linguagem em Sala de
Aula: praticando os PCNs. Campinas: Mercado de letras, 2000. (Coleção as
Faces da Lingüística Aplicada)
VESTERGAARD, Torben. A linguagem da propaganda. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. (Coleção Idéias sobre Linguagem).