Fiscalidade. Fundos de Pensões. Obrigações Declarativas dos Participantes algumas questões pertinentes (Parte II)

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Texto

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Fundos de Pensões

Obrigações Declarativas dos Participantes – algumas questões

pertinentes (Parte II)

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Introdução

Neste contexto, procuraremos analisar, dentro da economia do presente estudo, algumas das principais questões de ordem declarativa que se colocam aos partici-pantes dos Fundos de Pensões, aquan-do o preenchimento da sua declaração anual de rendimentos de Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS) Modelo 31.

Assim sendo, versaremos especialmen-te as obrigações declarativas concernen-tes com as deduções à colecta de IRS dos benefícios decorrentes de valores aplicados em Fundos de Investimento de Poupança-Reforma (FPPR), Fundos Pensões (FP) ou outros equiparáveis2, e

as questões que as envolvem.

Declaração Modelo 3 - Deduções à Colecta IRS

Os valores aplicados em FPPR3 e, bem

assim, as contribuições efectuadas para FP e/ou para outros regimes complemen-tares de segurança social que garantam exclusivamente o beneficio de reforma, complemento de reforma, invalidez ou sobrevivência4 são dedutíveis à colecta

de IRS do ano em que os valores foram efectivamente aplicados.

Assim, os referidos valores deverão ser declarados mediante inscrição dos mes-mos no quadro 7 do anexo H da

declara-ção anual de rendimentos de IRS modelo 3, sob o código 701, no caso dos valores aplicados em FPPR, ou 711, no caso das contribuições efectuadas para FP e/ou para outros regimes complementares de segurança social nos termos supra iden-tificados.

A este respeito importa sublinhar que não poderão ser incluídos na declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3 as contribuições efectuadas para FP e/ ou para outros regimes complementares de segurança social que não garantam exclusivamente o beneficio de reforma, complemento de reforma, invalidez ou sobrevivência por os mesmos não serem dedutíveis à colecta de IRS5.

Por outro lado cumpre ter em conside-ração que as contribuições para FP e/ou para outros regimes complementares de segurança social que conferem o direito de dedução à colecta de IRS acima iden-tificadas são as efectuadas pelo próprio beneficiário6. Contudo, caso as mesmas

sejam efectuadas pela entidade patronal do beneficiário conferirão, igualmente, o direito de dedução a colecta de IRS do beneficiário contanto que sejam efectua-das em nome e em favor do beneficiário (e que as mesmas sejam tributadas enquanto rendimento do trabalho dependente).

Na sequência

do nosso artigo

“Fundos de Pensões

– Breve análise do

seu regime jurídico

e tributário em

Portugal (Parte

I)” publicado no

número anterior

da revista da

OROC, pretende o

presente versar

sobre algumas

questões concretas

que se colocam

aos participantes

dos Fundos de

Pensões, cuja

elaboração procurou

atender a diversas

questões que nos

foram colocadas

em resultado do

anterior artigo

supra identificado

sobre a temática

vertente.

Fiscalidade

Tiago dos Santos Matias

Advogado João Pedro A. Luís Consultor e Auditor Fiscal

Obrigação declarativa prevista no artigo 57.o do Código de IRS. Dedução prevista no artigo 78.o do Código do IRS.

Nos termos do número 2 do artigo 21.o do Estatuto dos Benefícios Fiscais (EBF), ex vi a alínea i) do número 1 do artigo 78.o do Código do IRS.

Nos termos número 4 do artigo 16.o do EBF, ex vi a alínea i) do número 1 do artigo 78.o do Código do IRS. Com efeito, os mesmos não se encontram abrangidos pelo benefício fiscal consagrado no número 4 do artigo 16.o do EBF

Nos termos do número 8 do artigo 21.o do EBF, ex vi a alínea i) do número 1 do artigo 78.o do Código do IRS. 1. 2. 3. 4. 5. 6.

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Fiscalidade

No entanto, para que as contribuições sejam conside-radas como tendo sido efectuadas pela entidade patro-nal em nome e em favor do respectivo beneficiário é imprescindível que tais entregas constituam direitos adquiridos e individualizados do beneficiário.

Ora, assim sendo, tais entregas são consideradas ren-dimentos do trabalho dependente7 e, como tal, deverão

ser objecto de declaração nos quadros 4 e 7 do anexo A da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3 e, concomitantemente, no quadro 7 do anexo H nos termos supra referidos.

A este respeito cumpre referir que caso o mesmo beneficiário efectue entregas referentes a dois FPPR sob gestão da mesma entidade gestora apenas deve-rá ser objecto de declaração o somatório de todas as entregas, devendo para o efeito preencher apenas uma linha do quadro 7 do anexo H da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3, relembrando-se que o número de identificação fiscal a ser declarado nesse quadro é o da sociedade gestora.

Não obstante, a antedita regra não será aplicável caso as entregas em questão respeitem a contratos que garantam exclusivamente o beneficio de reforma, complemento de reforma, invalidez ou sobrevivência porquanto as mesmas se encontram isentas de IRS8,

pelo que, neste caso, tais quantias não serão objecto de declaração nos quadros 4 e 7 do anexo A da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3 mas sim no quadro 4 do anexo H, sob o código 404.

Ademais, caso o reembolso dos montantes aplicados seja efectuado fora das situações acima referidas (a saber, reforma, complemento de reforma, invalidez ou sobrevivência) ou mesmo antes do prazo legal9, as

deduções anteriormente efectuadas pelo beneficiário considerar-se-ão indevidas e, consequentemente, o montante de colecta indevidamente deduzido, majora-do em 10% por cada ano ou fracção desde aquele em que foi exercido o direito de dedução, deverá ser objec-to de restituição pelo beneficiário na declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3 do ano em que tal se tiver verificado, mediante inscrição de tais valores no campo 1002 do quadro 10 do anexo H.

No entanto, caso o reembolso se efectue no estrito cumprimento dos requisitos legais acima identificados,

os rendimentos associados aos benefícios reembolsa-dos serão objecto de tributação “à saída” (ou seja, no momento do recebimento). É essa a próxima questão que iremos tratar.

Rendimentos decorrentes das entregas efectuadas …Pelo Beneficário

Assim, relativamente a entregas efectuadas pelo pró-prio beneficiário cumpre destrinçar se as mesmas o são para planos e outros regime complementares de segurança social que garantam exclusivamente, ou não, o benefício de reforma, complemento de reforma, invalidez ou sobrevivência.

No primeiro caso, se o recebimento ocorrer sob a forma de capital será tributada a diferença positiva entre as quantias pagas e as importâncias auferidas do Fundo (pois a mesma mais não consubstanciará que o ren-dimento gerado na esfera do Fundo). Contudo, se tal suceder os rendimentos em questão não terão de ser incluídos no anexo E da declaração anual de rendimen-tos de IRS modelo 3 por os mesmos serem tributados autonomamente, por retenção na fonte.

Diferentemente, se o recebimento se efectuar sob a forma de prestações regulares periódicas (vulgo, pelo pagamento de renda mensal), o pagamento deverá identificar o montante referente a capital (que mais não é que o reembolso do montante anteriormente entregue pelo beneficiário ao Fundo) e o montante que consubs-tancia rendimento (igualmente aferido pela diferença identificada anteriormente em sede do recebimento ocorrer sob a forma de capital). Ora, neste caso, atento o recebimento se efectuar sob a forma de renda, tempo-rária ou vitalícia, o rendimento em questão enquadra-se no âmbito da categoria H e, como tal, o rendimento em questão deverá ser declarado nos quadros 4 e 7 do anexo A da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3.

No segundo caso, há que distinguir igualmente se o recebimento ocorre sob a forma de capital ou sob a forma de rendas.

Ora, se ocorrer sob a forma de capital a tributação incidirá sobre a antedita diferença é tributada à taxa liberatória, sem prejuízo da opção do beneficiário pelo seu englobamento.

Nos termos da 1.a parte do número 3 da alínea b) do número 3 do artigo 2.o do Código do IRS.

Nos termos do número 1 do artigo 18.o do EBF, dependendo, no entanto, a referida isenção da verificação cumulativa das condições estabelecidas nas alíneas a), b), d), e) e f) do número 4 do artigo 40.o do Código do IRS.

De acordo com o número 2 do artigo 21.o do EBF, o reembolso, salvo em casos de morte, deverá apenas suceder 5 anos após as respectivas entregas, de forma a poder usufruir do benefício fiscal em causa.

7. 8. 9.

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Assim, em caso opção pelo seu englobamento10, o

bene-ficiário deverá declarar os rendimentos em questão nos campos 450 a 464 do quadro 4 B do anexo E da decla-ração anual de rendimentos de IRS modelo 3, caso em que o imposto anteriormente entregue terá a natureza de pagamento por conta.

Inversamente, se o recebimento ocorrer sob a forma de renda, também neste caso deverá ser identificada a parte de capital e de rendimento, sendo este último qualificável como rendimento da categoria H e sujeito a tributação. Pelo que, o montante em causa deve ser declarado nos quadros 4 e 7 do anexo A da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3.

…Pela Entidade Patronal

Por outro lado, se as entregas forem efectuadas pela entidade patronal do beneficiário teremos de replicar a anterior distinção, ou seja, se as mesmas o são para pla-nos e outros regime complementares de segurança social que garantam exclusivamente, ou não, o benefício de reforma, complemento de reforma, invalidez ou sobrevi-vência; devendo neste caso ter-se em consideração se as entregas foram ou não tributadas “à entrada” (ou seja, no momento da sua entrega ao Fundo).

No primeiro caso, se o recebimento ocorrer sob a forma de capital que haja sido objecto de tributação “à entrada” (em sede de categoria A, conforme vimos anteriormente) tal é sinal que estamos perante planos de direitos adquiridos e, como tal, não se encontra no âmbito da isenção por não preencher os respectivos requisitos legais11. Mais uma vez só será tributada

auto-nomamente, por retenção na fonte, a parte qualificada como rendimento (apurada segundo ao antedita diferen-ça), não tendo, consequentemente, de ser declarado na declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3. Contudo, se o recebimento ocorrer sob a forma de capi-tal que não haja sido objecto de tributação “à entrada” estaremos então perante planos de meras expectativas ou planos de direitos adquiridos isentos12 em que a

tri-butação é efectuada “à saída”, sendo a parte de capital parcialmente isenta e o remanescente objecto de tribu-tação em sede de trabalho dependente e a parte que consubstancia rendimento (aferido pela diferença acima referida) é tributado autonomamente, por retenção na fonte, não tendo de ser englobada na declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3. Pelo que a parte de

capital não isenta deverá ser declarada nos quadros 4 e 7 do anexo A da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3 e a parte de capital isenta declarada no quadro 4 do anexo H sob o código 404.

Caso o recebimento ocorra sob a forma de renda já tributada “à entrada”, mais uma vez deverão ser identi-ficadas as partes de capital e de rendimento, sendo este último qualificável como rendimento da categoria H e sujeito a tributação, devendo, para tanto, ser declarado nos quadros 4 e 7 do anexo A da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3.

Inversamente, caso o recebimento ocorra sob a forma de renda não tributada “à entrada” não haverá lugar a qualquer identificação da parte de capital e de rendi-mento, sendo a totalidade da renda objecto de tributa-ção, devendo, para tanto, ser declarada nos quadros 4 e 7 do anexo A da declaração anual de rendimentos de IRS modelo 3.

No segundo caso, aplicar-se-ão as mesmas regras do primeiro caso com excepção para a ocorrência do reem-bolso se efectuar sob a forma de capital, caso em que as entregas consubstanciarão rendimento de capitais e, assim sendo, tributados liberatoriamente, por retenção na fonte, sem prejuízo da opção do beneficiário pelo seu englobamento13; caso em que deverá ser declarado nos

campos 450 a 464 do quadro 4 B do anexo E da decla-ração anual de rendimentos de IRS modelo 3.

Conclusão

Do exposto resulta que, apesar do enquadramento fiscal favorável, as obrigações declarativas referentes ao regime complementar de segurança social vigente em Portugal é algo intrincado, devendo o mesmo ser objecto de cuidada atenção por parte dos seus bene-ficiários.

A este respeito importa ter presente que, nos termos do número 3 do artigo 119.o do Código do IRS, o beneficiário que pretenda optar pelo englobamento terá de solicitar a emissão da declaração referente a importâncias devidas no ano anterior até 31 de Janeiro.

Estatuídos no artigo 18.o do EBF.

Por cumprir os requisitos legais estabelecidos no artigo 18.o do EBF. A este respeito veja-se a nota 10 supra.

10. 11. 12. 13.

Fiscalidade

Tiago dos Santos Matias

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O Tratamento Fiscal das Avaliações

de Imóveis Efectuadas no Âmbito

da Concessão de Crédito à Habitação

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1. Introdução

Conforme é do conhecimento geral, a concessão de crédito para aquisição de habitação implica, necessariamente, a realização de uma avaliação ao imóvel objecto do contrato de financiamento, avaliação essa promovida pela instituição de crédito. A constituição de uma hipo-teca é o mecanismo legal utilizado pelas instituições de crédito para garantir o financiamento tornando-se, neste sentido, a avaliação um pressuposto essencial e necessário da concessão do crédito. Não existe um procedimento tipo quanto à forma de realização das avaliações dos imóveis. Assiste-se, contudo, ao recur-so por parte das instituições de crédito a avaliadores independentes que pres-tam tecnicamente o serviço de avaliação, podendo variar a forma como o serviço é cobrado.

Um procedimento seguido por algumas instituições de crédito concretiza-se na simples cobrança da taxa de avaliação por conta e em nome do avaliador. Nestes casos, o serviço de avaliação é directamen-te efectuado pelo avaliador ao cliendirectamen-te final da instituição de crédito, muito embora seja esta última a cobrar a taxa de ava-liação. Diga-se a título complementar que a comissão (ou margem) da instituição de crédito pela intermediação é nestes casos normalmente obtida por via de um débito directo ao avaliador.

Um outro procedimento seguido no mer-cado, passa pelo serviço de avaliação ser facturado pelo avaliador à própria insti-tuição de crédito sendo esta, num segundo momento, a facturar em nome próprio

a taxa de avaliação (adicionada da sua comissão ou margem) ao seu cliente. Importa aqui e desde logo apontar que consideramos que qualquer um dos pro-cedimentos descritos nos parecem admis-síveis atendendo ao quadro normativo actualmente em vigor. Em qualquer caso, entendemos que o segundo procedimen-to descriprocedimen-to – facturação do serviço de avaliação à instituição de crédito e por esta ao cliente final – reflecte uma maior aderência à realidade das operações. Na verdade, existindo um acordo comercial entre a instituição financeira e o avaliador independente parece-nos fazer mais senti-do que aquele facture os serviços à insti-tuição financeira e esta, posteriormente, ao seu cliente.

2. Tratamento fiscal

Para além da legitimidade do procedi-mento adoptado, colocar-se-á a questão de saber como se enquadram fiscalmen-te os procedimentos descritos, mormen-te em sede de Imposto sobre o Valor Acrescentado (“IVA”) e de Imposto de Selo (“IS”).

No que ao IVA diz respeito, importa começar por referir que até 2005 a gene-ralidade da banca comercial em Portugal liquidava imposto nas avaliações efec-tuadas aos respectivos clientes, mesmo nos casos de facturação das comissões de avaliação em nome próprio.

Apenas na sequência da divulgação do entendimento da Administração fiscal, em 2005, sobre o tratamento em sede de IVA deste tipo de comissões - despoletado por um pedido de informação vinculativa

Fiscalidade

Filipe Romão

Miguel Durham Agrellos Advogados (Uría Menéndez)

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apresentado por uma instituição bancária -, de acor-do com o qual as comissões beneficiam de isenção de imposto quando tenham subjacente uma operação de crédito, houve uma alteração no procedimento seguido no mercado.

Em consequência, muitas são as instituições bancárias que actualmente não liquidam IVA nas comissões de avaliação facturadas aos seus clientes.

Ora, considerando o exposto e a existência de dúvi-das suscitadúvi-das com a publicação do entendimento da Administração fiscal, propomo-nos no presente artigo efectuar uma breve análise do tratamento fiscal das comissões de avaliação (reportando-nos também ao IS), atendendo, em particular, à jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias (“TJCE”).

2.1. Imposto sobre o Valor Acrescentado

Importa desde logo referir que as actividades desen-volvidas por instituições de crédito estão, em geral, sujeitas a IVA. Contudo, algumas operações ditas financeiras - e de que é desde logo exemplo a conces-são de crédito - estão, nos termos do Código do IVA, isentas deste imposto.

De acordo com a alínea a) do n.º 28 do artigo 9º do Código do IVA, estão isentas deste imposto a “concessão e a negociação de créditos, sob qualquer

forma, bem como a sua administração ou gestão efec-tuada por quem os concedeu”. Note-se que esta alínea

tem vindo a ser interpretada - nomeadamente, pela Administração fiscal - no sentido que estão abrangidas pela isenção determinados serviços que sendo próximos ou acessórios da concessão do crédito, deverão seguir o mesmo tratamento fiscal da operação principal, benefi-ciando, assim, da isenção de imposto para as operações financeiras.

Em concreto, com o publicação do Ofício-Circulado n.º 30097, de 7 de Julho de 2006 (“Ofício-Circulado”), a Administração fiscal portuguesa veio reconhecer com carácter genérico aquilo que havia reconhecido um ano antes num despacho proferido em resposta a um pedido de informação vinculativa: que as taxas de ava-liação de imóveis cobradas pelas instituições de crédito aos seus clientes, desde que a concessão de crédito e o seu montante estejam dependentes do valor da avalia-ção, levada a efeito por imposição legal, beneficiam de

isenção de IVA nos termos da alínea a) do n.º 28 do artigo 9º do respectivo Código.

Para a Administração fiscal, o pressuposto principal da isenção parece ser a existência de uma relação de acessoriedade com a concessão de crédito. Pelo que a concessão de crédito e o respectivo montante devem estar dependentes do valor da avaliação. Contudo, para além do requisito de dependência referido, o Ofício-Circulado refere ainda como condição para a aplicação da isenção que a avaliação seja levada a efeito por imposição legal.

De referir que de acordo com o TJCE uma prestação deve ser considerada acessória em relação à prestação principal quando não constitua para a clientela um fim em si, mas antes um meio de beneficiar nas melhores condições do serviço principal1. A relação de

acessorie-dade - no sentido apontado - é, assim, essencial para que o tratamento fiscal da prestação acessória siga o da principal.

Parece-nos que o requisito da dependência é de facto essencial para falar de acessoriedade. Contudo, con-siderando o Código do IVA e a própria Directiva, temos muitas reservas que a imposição legal deva ser um critério ou requisito em si mesmo fundamental para aplicação da isenção. Quanto muito, poderá ser considerada um indicador (ou indiciador) de acessorie-dade a par dos elementos essenciais daquele conceito e que devem estar presentes de forma a que se possa constatar a existência de uma operação acessória rela-tivamente à principal.

Consideramos assim que, quando as avaliações são totalmente acessórias da concessão de crédito ao ponto de - utilizando-se a linguagem do TJCE - se consi-derarem um meio para atingir o crédito, haverá que admitir, na linha do entendimento já manifestado por aquele tribunal, que o tratamento em sede de IVA da operação acessória deverá seguir o da operação princi-pal, no caso, o da concessão de crédito

Em consequência, nos casos em que o avaliador factura à instituição bancária e esta ao seu cliente (segundo procedimento apontado na nossa introdução), para efeitos de IVA, teremos duas operações: a primeira sujeita e não isenta e a segunda sujeita mas isenta.

Cfr. Acórdão de 25 de Fevereiro de 1999 do TJCE (processo C-349/96) e Acórdão de 22 de Outubro de 1998 do TJCE (processos apensos C-308/96 e C-94/97).

1.

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Fiscalidade

Filipe Romão

(9)

Acresce que poder-se-ia, em nossa opinião e quanto a esta tema, colocar uma outra questão. A de saber se a qualificação, para efeitos do IVA, deveria (ou não) abstrair-se da natureza do prestador. Na verdade, sendo a avaliação efectuada no âmbito de uma conces-são de crédito considerada como acessória, poder-se-ia questionar se a avaliação deveria ser sempre isenta de IVA, independentemente da entidade que a facturas-se (instituição bancária ou entidade avaliadora) e da entidade a quem fosse facturada (cliente ou instituição bancária).2

A questão apontada tem, a nosso ver, relevância no primeiro procedimento referido na nossa introdução, nos termos do qual o avaliador factura a avaliação directamente ao cliente da instituição bancária (resu-mindo-se o papel da instituição bancária à cobrança do imposto).

Ora, embora a legislação aplicável e a própria juris-prudência não respondam directamente a esta ques-tão, admitimos ser minimamente defensável a posição segundo a qual a relação de acessoriedade não deverá estar dependente do facto da prestação principal e acessória serem prestadas por uma e a mesma enti-dade. Na verdade, quando o serviço de avaliação é directamente facturado pelo avaliador ao cliente da instituição bancária (ainda que seja a instituição ban-cária a cobrar a referida taxa) - e sendo tal efectuado no âmbito da concessão de crédito para habitação - entendemos admissível que a avaliação também nesse caso beneficie da isenção de IVA. De facto, atendendo a que nos termos da legislação portuguesa aplicável à concessão de crédito à habitação a avaliação é uma operação indissociável da concessão de crédito3 (sendo

que esta não ocorre sem que previamente seja efectua-da a avaliação do imóvel), poder-se-á afirmar que este pressuposto não se altera pelo simples facto de não ser a instituição bancária a facturar directamente ao clien-te a avaliação, mas sim o próprio avaliador. Diríamos que mesmo nessas situações, a indissociabilidade entre a concessão de crédito e a avaliação permanece. Diga-se, a este propósito, que o facto do Oficio-Circulado referir que não beneficiam da isenção as avaliações efectuadas e facturadas por terceiros às instituições de crédito, não deverá significar, em nossa opinião, que a isenção em causa apenas se aplica às

avaliações que sejam efectuadas pelos concedentes do crédito (normalmente, as instituições de crédito) aos seus clientes. Deverá antes significar que a facturação de um serviço de avaliação à própria instituição de crédito não é a operação acessória da concessão de crédito. De facto, apenas a facturação da comissão de avaliação da instituição de crédito ao seu cliente é que poderá ser considerada acessória da operação principal também fornecida ao seu cliente.

Entendemos, por isso, que o Oficio-circulado omite ou pelo menos não visa contemplar as situações - porven-tura mais raras - nas quais o avaliador facture direc-tamente o cliente da instituição bancária (efectuando esta apenas a cobrança da taxa ao seu cliente). Esclareça-se, por fim, que contrariamente a entendi-mentos passados, atendendo à letra e ao espírito da lei e à jurisprudência do TJCE, a isenção tem aplicação mesmo quando a instituição bancária recorra a subcon-tratados (e não aos quadros ou serviços internos) para realizar as avaliações. Na verdade, conforme referido, as avaliações facturadas aos clientes da instituição bancária, sempre que tenham subjacente uma opera-ção de crédito, encontram-se abrangidas pela isenopera-ção da alínea a) do n.º 28 do artigo 9º do Código do IVA, quer a avaliação seja materialmente realizada pelos serviços ou quadros da própria instituição bancária quer seja efectuada por entidades terceiras contratadas pela instituição bancária.

2.2. Imposto do Selo

Para além do tratamento em sede de IVA, importa referir que de acordo com o Código do IS, as operações não sujeitas a IVA ou sujeitas mas isentas (como é precisamente o caso quando as instituições de crédito facturam a avaliação em nome próprio aos seus clien-tes) ficam sujeitas a IS caso a operação esteja prevista na Tabela Geral do Imposto do Selo (“TGIS”) e os respectivos pressupostos preenchidos.

Ora, nos termos da TGIS, está prevista a tributação à taxa de 4% sobre o valor cobrado de “outras comissões

e contraprestações por serviços financeiros” cobradas

nas operações realizadas por ou com a intermedia-ção de instituições de crédito, sociedades financeiras e outras entidades a elas legalmente equiparadas e quaisquer outras instituições financeiras.

Parece-nos da análise da jurisprudência do TJCE não ser determinante, neste âmbito, a forma de facturação (facturação separada ou não das taxas de avaliação) - cfr. Acórdão do TJCE de 25 de Fevereiro de 1999 (processo C-349/96).

Esta indissociabilidade resulta do facto do crédito, nos termos do Decreto-Lei n.º 349/98, de 11 de Novembro (diploma que aprovou o Regime jurídico de concessão de crédito à habitação própria), não poder ser concedido em montante superior a 90% do valor do imóvel a adquirir, determinado em avalia-ção.

2. 3.

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Fiscalidade

Filipe Romão

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Para que a verba referida tenha aplicação, terão de se verificar os seguintes pressupostos: (i) as quantias serem cobradas por ou com a intermediação de ins-tituições de crédito; e (ii) estarem em causa serviços financeiros.

Ora, no âmbito das operações referidas, não sendo difí-cil verificar o primeiro pressuposto, dúvidas poderão certamente surgir quanto à verificação do segundo. De facto, entendemos relativamente a este ponto que se poderia sustentar que a avaliação de um imóvel - ainda que necessária a uma operação de concessão de crédito e por isso acessória - não deveria ser considera-da num sentido técnico-jurídico um serviço financeiro; devendo ser, ao invés, considerada como um serviço iminentemente técnico. Diga-se, pois, que num tal cenário, não se poderia sujeitar as taxas de avaliação cobradas pelas instituições financeiras – ainda que isentas de IVA – a IS.

Não obstante o referido, entendemos que o critério que está na base da isenção de IVA nas taxas de avaliação e que é expressamente assumido pela Administração fiscal, poderá também ser transposto para efeitos de IS, concluindo pela sujeição de tais taxas a IS.

Em qualquer caso, por a legislação em vigor não ser clara quanto aos aspectos apontados - com todos os riscos inerentes -, de muita utilidade seria aos agentes económicos a emissão de um esclarecimento adicional sobre esta matéria por parte da Administração fiscal.

3. Conclusão

Em conclusão, entendemos que a interpretação cons-tante de Ofício-Circulado - à excepção do requisito relativo à imposição legal das avaliações - parece estar em linha com aquilo que resulta do Código do IVA e da Directiva e que tem vindo a ser entendido pelo TJCE.

Não obstante, embora tal não nos pareça contemplado no Ofício-Circulado, parece-nos que mesmo nos casos em que o avaliador facture directamente o serviço ao cliente, resumindo-se o papel da instituição bancária à cobrança da taxa em nome do avaliador, parece ser defensável a aplicação da isenção nas taxas de avalia-ção em virtude da relaavalia-ção de acessoriedade persistir . Por fim, no que toca a IS, concluímos pela dificul-dade existente na qualificação fiscal das operações nos casos em que a instituição de crédito factura em nome próprio uma taxa de avaliação isenta de IVA.

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Efectivamente, à possibilidade clara de se defender que um serviço de avaliação não deve ser entendido, num sentido técnico-jurídico, um serviço financeiro contrapõe-se o critério utilizado para efeitos de IVA de

que ficam isentas as avaliações ao abrigo da disposição aplicável às operações financeiras.

BIBLIOGRAFIA:

Legislação

Código do Imposto sobre o Valor Acrescentado Código do Imposto do Selo

Decreto-Lei n.º 349/1998, de 11 de Novembro

Códigos Anotados

Código do Imposto sobre o Valor Acrescentado - Emanuel Vidal Lima, Porto Editora

Código do Imposto do Selo - colectânia “Os Impostos sobre o património Imobiliário; O Imposto do Selo”, J. Silvério Mateus e L. Corvelo de Freitas, Engofisco

CIVA e Regime do IVA nas Transacções Intracomunitárias - F. Pinto Fernandes e Nuno Pinto Fernandes, Editora Rei dos Livros

Jurisprudência

Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 5 de Junho de 1997 (processo C-2/95)

Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 22 de Outubro de 1998 (processos apensos C-308/96 e C-94/97) Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 25 de Fevereiro de 1999 (processo C-349/96)

Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 13 de Dezembro de 2001 (processo C-235/00) Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 4 de Maio de 2006 (processo C-169/04) Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 21 de Junho de 2007 (processo C-453/05) Doutrina administrativa

Informação n.º 2118, baseada no despacho n.º 51/2005 - XVI, de 18 de Janeiro de 2005, do Exmo. Senhor Secretário de Estado dos

Assuntos Fiscais

Ofício-Circulado n.º 30097, de 7 de Julho de 2006

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Referências

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