Índice. Editorial Tânia Abreu (EBP/AMP) A solidão parceira do feminino Zelma Galesi (EBP/AMP)

Texto

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#15

Editorial

Tânia Abreu (EBP/AMP)

A solidão parceira do feminino

Zelma Galesi (EBP/AMP)

Mulheres na cidade - A loira do banheiro

Cynthia N. Freitas Farias (EBP – AMP)

WiFi

As Camilas de Fante

Luis Francisco E. Camargo (Correspondente EBP-SC)

Comissão de Finanças

Comissão de Acolhimento

Comissão Científica

A mulher é mais angustiada do que o homem? Graciela Musachi (AMP/EOL-Buenos Aires)

O silêncio das mulheres

Esmeralda Miras (AMP/EOL-Buenos Aires) Cuando las mujeres escriben sobre las mujeres

Silvia Tendlarz (AMP/EOL)

Atividades preparatórias

Resenha de atividade preparatória

Conferência de Maria Josefina Sota Fuentes

Rogério Barros (Participante EBP-BA)

Sonata de Outono

Renata de Oliveira (Participante da EBP-SC)

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TEXTOS

Editorial

OUTROS

TEXTOS

A solidão como parceira do feminino é o tema central da contribuição de Zelma Galesi ao número 15 do

Outras Palavras, texto baseado no “Aturdito” de Lacan e nas dificuldades amorosas enfrentadas pelas

mu-lheres em nossa época, sobretudo o repúdio ao amor. Amor, devastação, enigma e solidão são temas que se entrelaçam nas atividades preparatórias ao XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano realizadas pelo Brasil, país da psicanálise. É o que se pode extrair do lançamento do livro de Maria Josefina Sota Fuentes em Salvador, no dia 04 de agosto, quando fez todos refletirem sobre: “por que, a despeito dos avanços teóricos e discursivos da contemporaneidade, ainda falamos sobre mulheres”? Dando continuidade às preparatórias ao Encontro, é de Santa Catarina que vêm duas contribuições em torno da questão da devastação: a de uma mãe em uma filha, que se pode conferir no debate sobre o filme “Sonatas de Outono” e no texto que compõe a rubrica WI FI, de Luis Francisco, no qual a superposição das diversas “Camilas de Fante” configuram o modo singular de cada mulher ser devastada por um homem, caindo, por vezes, na solidão.

A Comissão Científica nos convida a acompanhar as inquietações de Graciela Musachi ao questionar: “A mulher é mais angustiada que o homem?” A colega argentina faz um belo percurso sobre textos freudianos, concluindo que, em cada uma, a angústia não tem medida comum, e que a pergunta se ela é mais angus-tiada, provém da outra raça de discursos. Por sua vez, Silvia Tendlarz, no segundo capítulo do seu livro “As mulheres e seus gozos”, aborda tópicos que nos permitem ter um bom panorama das reflexões freudianas sobre a sexualidade feminina.

Não deixem de conferir o texto de Esmeralda Miras, “O silêncio das mulheres”, no qual, os três tipos de silêncio destacados pela autora, o de Justine, o de O, e o da rainha, nos permitirão penetrar “no terreno da alteridade da posição feminina sobre o qual se viram ou não os sujeitos de ambos os sexos, entre a feminili-dade, o masoquismo ou o enigmático masoquismo feminino. Uma posição aludida pelo silêncio que adverte o impossível de dizer”. O tema do siléncio alcança a função do analista que, fazendo-se de morto, se ofereçe como semblante de objeto.

Os organizadores dos demais eventos do Campo Freudiano que ocorrerão em novembro em Salvador, chamam atenção para o prazo de entrega dos trabalhos para suas conversações. A Comissão de Finanças relembra o valor da inscrição válido até 30 de outubro. É com “FÉ MENINO” que a Comissão de Acolhimento convida a todos para nossa festa de encerramento. Atentem aos valores informados por esta comissão váli-dos para a compra antecipada de ingressos.

Para concluir, apresentamos através das palavras da colega Patrícia Badari um novo projeto da Comissão de Comunicação, Mulheres da Cidade, do qual é coordenadora:

“Vozes femininas, lendas urbanas, musicalidade e ficção de um país, de uma cidade, de uma época. Pro-fissionais do sexo, santas, bruxas, cantoras... Mulheres e suas loucuras, crimes passionais. Mãos femininas que transmitem seu ofício, sua cultura, de uma geração a outra. Mulheres em cena e fora da cena. Coloridos específicos e estruturas que se repetem? Estruturas míticas sobre o feminino em nosso cotidiano e nas par-ticularidades de cada cidade, de cada época? Eis as mulheres nas cidades.”

Para inaugurar esta rubrica contamos com a enunciação própria de Cynthia Farias sobre “A loira do ba-nheiro”.

Boa leitura!

Tânia Abreu (EBP/AMP)

A solidão parceira

do feminino

Zelma Galesi (EBP/AMP)

Se existe a relação do sujeito com o falo e com o objeto a, a relação sexual com o outro sexo não existe. A partir do não há relação sexual, Lacan deixa de considerar o falo como possibilidade de escrever a relação através do ter ou ser o falo, e passa a considerá-lo como obstáculo à relação sexual.

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Neste ponto, ele vai empurrar os limites conceituais da po-sição feminina, demonstrando a diferença de inscrição entre a posição homem e a posição mulher em relação ao falo; di-ferença que assinala a relação que cada um estabelece com a castração e com o desejo. Enquanto o homem existe apresen-tando-se como completo, a mulher existe na incompletude, na ex-sistência, uma a uma de modo singular, já que não está

toda na função fálica. O seu gozo, quando o experimenta, é

um gozo êxtimo, em excesso, que a desborda, a devasta. O amor tem uma importância fundamental para ela, sendo a própria condição de seu gozo. Mas, em “O aturdito”, Lacan aponta um paradoxo: “se é como única, que a mulher quer ser reconhecida, mesmo que se satisfaça a sua exigência de amor, o gozo que se tem da mulher a divide, fazendo-a parceira de sua solidão”.

Catherine Millot, em seu livro O solitude1, explora a vertigem da solidão como renúncia à possibilidade de

amar. Em meio às referências literárias inclui as suas memórias, reconhecendo que cultivou voluntariamente o abismo da solidão ao ponto em que os limites da inexistência tornaram-se familiares, já que o amor se constituía num mal, num flagelo, numa doença.

As contingências de nossa época têm revelado o repúdio das mulheres ao amor, e a escolha decidida pela solidão e pelo celibato, com a finalidade de garantir ao máximo o bem-estar físico e mental. Então cabe à psi-canálise a questão de como resgatar o amor e as parcerias em um mundo em que os saberes são impotentes para ordenar o gozo autístico.

1 Millot, C. (2011), O solitude, Paris: Gallimard.

A loira do banheiro

Cynthia N. Freitas Farias (EBP/AMP)

A lembrança mais antiga e mais recorrente que tenho de quando entrei na escola, aos sete anos, é a história da “loira do banheiro”.

As coisas inexplicáveis sempre me apavoraram e me se-duziram.

Enquanto meus colegas de catecismo rezavam na expec-tativa de receber um sinal da presença de Deus, eu tentava por todos os meios assegurá-lo de minha crença inquestio-nável em sua existência, para que Ele não inventasse de me mandar qualquer sinal.

Minha fé no pai, no meu, homem sério, de ciência, que demonstrava ter explicação para tudo se atualizou no meu interesse por Freud, na expectativa de encontrar em sua obra o que meu pai não explicou.

Das mulheres, só mesmo o inexplicável, o imponderável, aquilo que não se aquieta… nem depois de morta. E eis aí a

“loira do banheiro”, uma das mais antigas lendas urbanas1, contada principalmente nas escolas. Sua origem

é incerta, e possui inúmeras versões que passam de boca em boca sofrendo transformações de acordo com a inspiração do contador. Pode ser uma aluna ou professora que morreu por acidente ou foi assassinada. Há quem diga que pode ser invocada num ritual e que, por vingança, leva consigo a vida dos que ousam impor-tuná-la. O fato é que se trata sempre de uma loira, com algodões nas narinas e na boca que, inconformada com seu fim trágico, não consegue descansar em paz e assombra os banheiros das escolas.

Na minha versão, não era invocada no espelho com três batidas e três palavrões, não arrancava os olhos das crianças enxeridas, nem mesmo roubava suas almas.

A moça loira, que supostamente apareceria na última cabine ao fundo do banheiro, longe da saída, para New York Movie - Edward Hooper

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que a vítima não tivesse para onde correr, ficava ali, morta-viva, com algodões na boca e no nariz. De onde vinha, como morreu, sua história eu não sabia. Tinha feito algo bem errado, isso sim era certo.

Possivelmente ela teria sido invadida pela mesma comichão que nos invadia e nos fazia pedir insisten-temente à professora que nos deixasse ir ao banheiro durante a aula, em duplas ou mesmo sozinhas, com nossos risinhos marotos, para explorar o desconhecido, bulir onde não devia, aliviar-se um pouco do tédio do que pode ser sabido. Enfim, para espairecer. E aí, pronto! Foi castigada.

Em minha imaginação, assustadoramente inofensiva. Estava ali para que não nos demorássemos, perdi-das no frisson disso que excede e transborda os espaços possíveis. Não faria mal a ninguém mais do que fize-ra a si mesma? Já não queria mais nada, vagando eternamente naquele banheiro frio, sem falar ou respifize-rar. Bela e pálida, presença contundente e testemunha de certa face do outro gozo que habita desde muito cedo cada intrépida menininha.

1www.jangadabrasil.org/catavento/2011/07/28/loira-do-banheiro

Tadeu, J. Lendas urbanas. São Paulo: Planeta, 2010.

TEXTOS

WIFI

As Camilas de Fante

Luis Francisco E. Camargo - Correspondente da Seção Santa Catarina da EBP

A intensidade é uma doença contagiosa. Eu não concebo a vida sem contágios.

(Camila Lopes)

Camilla Lopez, mexicana, garçonete e viciada em maconha, é o objeto do amor de Arturo Bandini, jovem e talentoso escritor. Mas não é Arturo quem a agrada, e sim Sammy, o barman que a trata como alguém execrá-vel. Arturo ama Camilla, mas para ter a sua atenção é necessário seguir os conselhos de Sammy. Arturo a chama de sapatos esfarrapados, devido as suas sandálias huaraches. Para Arturo, Camilla é uma princesa maia e, ao mesmo tempo, uma latina suja, uma mexicana sebenta incapaz de aceitar o seu amor.

Camila Chirivino tem 22 anos e largou a faculdade de Letras e de

Jor-nalismo. É uma versão atualizada de Camilla Lopez, personagem do romance Pergunte ao pó (1939) de Jonh Fante (1909-1983). Camila gosta de estragar tudo depois de beber vodca. “Não sei o que acontece comigo, mas assim que me interesso por alguém a imbecil que mora dentro de mim se manifesta [...] fica se introme-tendo na minha conversa [...] aproveitando-se de minha embriaguez e fazendo comentários absolutamente estúpidos [...] é Conchita, a mexicana que mora dentro de mim”. Camila sempre faz merda quando se apaixo-na e a merda é proporcioapaixo-nal ao tanto que gosta do indivíduo. Diz a si mesmo que nunca mais irá se apaixoapaixo-nar, mas na verdade quer se apaixonar: “para isso que sirvo, é isso que me faz sentir viva”. Camila Chirivino é uma devoradora de homens e diz ser como uma Máquina de Pinball que, para ganhar, é necessário apertar o botão na hora certa.

Camila Lopes, sem um “l” e com um “s” no lugar do “z”, é a personagem do filme Nome Próprio (2007) de Murilo Salles, inspirado em Camila Chirivino, personagem do romance Máquina de Pinball (2002) de Clarah Averbuck. Camila Lopes é uma condensação de Camilla Lopez e Camila Chirivino. É um personagem feminino que encara abismos. Tem como parceiros as anfetaminas e o álcool. A vida floresce das suas cicatrizes conse-guidas pelo processo de entrega absoluta e vertiginosa ao gozo e ao excesso, o princípio da sua devastação. A vida floresce do pó, do pó do deserto da devastação feminina. Camila Lopes encontra sua solução na escrita que lhe proporciona criar um contorno à sua experiência com a intensidade, um limite ao gozo sem sentido. Assim, Camila Lopes se separa das Camilas irascíveis, da mexicana sebenta e da máquina de pinball, através do seu amor por Arturo Bandini, seu ideal, John Fante disfarçado. Qual foi o destino de Camilla Lopez? Per-gunte ao pó.

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Comissão de Finanças

INSCRIÇÕES NO XIX ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO

1. VALORES DE INSCRIÇÕES ATÉ 30 DE OUTUBRO DE 2012

R$ 270,00 para profissionais da rede pública, estudantes de graduação e pós-graduação (até 26 anos) e alunos dos Institutos do Campo Freudiano, e R$ 380,00 para Membros e Aderentes da EBP, participantes e profissionais.

Salientamos que a partir de 1º de novembro os valores passarão respectivamente para R$ 290,00 e R$400,00.

2. INSCRIÇÕES NAS SEÇÕES E DELEGAÇÕES

O pagamento poderá ser parcelado com cheques pré-datados, em 02 parcelas, sendo que o último venci-mento deverá ser até 30 de outubro de 2012.

Atenciosamente,

Pablo Sauce

Comissão de Acolhimento

Fé ...menino! FEST

Como suplemento ao XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - Mulheres de Hoje, figuras do

femini-no, a Comissão de Acolhimento* tem o prazer de anunciar que a nossa confraternização está sendo

prepara-da com muito entusiasmo! Aqueles que quiserem inserir-se para além do discurso analítico, poderão usufruir da festa de encerramento a ser realizada:

Local: Cabana da Barra

Data: 24 de novembro de 2012 Hora: das 21h às 03h

Música: Banda Pirigulino Babilake e DJ Lola Bê Bebida: Caipiroskas, Cerveja, Refrigerante e Água Comida: Petiscos, Jantar, Doces

Ou seja: muita música para o balanço dos corpos e apreciação dos ouvidos; petiscos e jantar com

tempe-ros gostosos, suavemente baianos; drinks à disposição; vista pro mar; refresco e mais…

…VOCÊ, que também faz parte deste momento a ser inscrito na memória de cada um.

Esperamos que o estilo baiano de descontrair, brincar com os laços, provocar encontros, dançar, conver-sar, possa causar em cada um de vocês o mesmo que causa na gente.

Siga o farol e venha! Mova-se! Inscreva-se!

DAS INSCRIÇÕES:

Estamos vendendo os convites no valor promocional de R$ 120,00 até o dia 30 de setembro. A partir desta data, custará R$ 150,00.

Basta fazer um depósito bancário [Bradesco 237; Ag. 3072-4; C/C 79.541-0: Escola Brasileira de

Psicaná-lise – Seção Bahia] e enviar para o e-mail acolhimento@mulheresdehoje.com.br o comprovante bancário

com seu nome completo, para que possamos identificar seu pagamento (indispensável). Logo em seguida entraremos em contato.

Obs: A rota desde o Rio Vermelho, bairro onde está localizado o Hotel Pestana, é curta e de fácil acesso. Facilitaremos o contato com empresas de táxi e

trans-porte.

Sejam bem vindos à alegria!

Comissão de Acolhimento*.

*Iordan Gurgel (coord.), Ana Stela Sande, Daniela Araujo, Ellen Freitas, Ethel Poll, Eva Pereira, Luiz Mena,

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Solidão, fiel companheira

“Les expériences de la vie sont incommunicables. Et c’est ce qui cause toute solitude”.

Virginia WOOLF

Salambovary

Jacques-Alain MILLER

“É preciso dizer que com Madame Bovary, Flaubert tenta mostrar até que ponto algo da sexualidade femi-nina não encontra seu lugar no mundo do homem e que isso conduzirá Emma ao suicídio. Com Salambó tam-bém mostra a mesma coisa. Salambó e Madame Bovary são as duas figuras da sexualidade feminina impos-síveis de situar no mundo do homem até o ponto que falaria inclusive, se posso dizer assim, de Salambovary. “Por outro lado, A educação sentimental demonstra que todas as Salambó estão feitas de Bovary. A so-lução de Flaubert será finalmente Bouvard e Pecuchet, querdizer, não Adão e Eva, tampouco um homem e uma mulher, mas dois homens que estão unidos e que se consagram à repetição do saber”.

MILLER, Jacques-Alain, De L’orientation lacanienne III, 13 (2011) ensinamento no departamento de psica-nálise da Universidade París VIII, aula 2/3/2011.

A mulher é mais angustiada do que o homem?

Graciela Musachi (AMP/EOL-Buenos Aires)

Pode-se considerar que esta é uma pergunta retórica em vários sentidos: a) damos como certo que não há universal feminino e que nos referimos à posição feminina de um sujeito, quer dizer, aquele que, a respeito dos três tempos da identificação sexuada tal como Lacan a localiza na primeira aula de ... Ou pire,1 decidiu-se

por um modo particular de relação ao gozo (nãotodo fálico); b) sabe-se que Lacan retoma uma afirmação de Kierkegaard (em O conceito de Angústia), especialmente em seu Seminário X, de que a mulher se angustia mais do que o homem diante do desejo do Outro; c) qualquer mulher, isto é, qualquer ser falante que se localize em uma posição feminina, sabe por experiência que sua angústia pode estar fora de toda medida; d) a experiência na clínica mostra que essa mulher se angustia “mais” do que os homens ou, melhor dizendo, sua angústia não tem uma medida comum com a do homem.

Não temos uma resposta tão contundente da parte de Freud. Temos repetido, particularmente a partir de

“Inibição, Sintoma e Angústia”, que ele considera que a angústia feminina está ligada ao temor da perda do

amor do objeto, mas nada diz se isto a torna mais angustiada. Suas reflexões originais em “A neurastenia e a

neurose de angústia. Sobre a justificativade separar da neurastenia certo complexo de sintomas a título de ‘neuroses de angústia’” (1894) e a “Críticada neurose de angústia” (1895) podem nos orientar, pois existe

nestas reflexões uma invenção freudiana, a das “neuroses atuais”, como ele nomeia o conjunto neurastenia– neurose de angústia para diferenciá-lo do conjunto “psiconeuroses”.

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do gozo e escolha de inscrever-se ou não sob o significante fálico, 3) escolha do sexo

Mas no interior das neuroses atuais, Freud propõe separar a neurastenia da neurose de angústia (“com-plexo de sintomas agrupados em torno de um principal, a angústia”) já que, segundo afirma, ambas têm distintos mecanismos e distinta etiologia. Nosso afinco pelo novo ver-se-ia seriamente prejudicado, se lêsse-mos a lista deste complexo de sintomas, especialmente os que se referem aos ataques de angústia (tanto os rudimentares quanto seus equivalentes), já que parece extraída do DSM IV mas, enfim, ... basta ler o texto. Resumamos o argumento de Freud: na neurastenia, uma excitação puramente somática acumulada é ela-borada psiquicamente e se converte em libido (é a primeira vez que Freud usa este termo), mas pretende descarregar-se com a ação menos adequada (masturbação) e a libido estanca; na neurose de angústia a ex-citação somática acumulada não é elaborada psiquicamente e pretende descarregar-se com uma ação nada adequada (exemplo: coitus interruptus); a tensão geradaem ambos os casos é angústia, mas na neurose de angústia existe uma “falta de capacidade psíquica para dominar a excitação sexual”, já que a psique se conduz como se a excitação fosse um perigo exterior e não produz libido.

“Na mulher, é mais rápida e mais difícil de suprimir que no homem a emergência de um estranhamento entre o somático e o psíquico durante o curso da excitação sexual”.

Esta última frase é tudo o que aqui temos de Freud, acerca da diferença que tratamos. Mas não é pouco. Vejamos como se conjuga com o que agrega no segundo texto: ao refutar as críticas de Lowenfeld, que colo-cava na conta da herança,a causa destes complexos sintomas, Freud afirma que “existem mulheres afetadas por uma neurose de angústia congênita. (...) As mulheres desta classe de sexualidade são incapazes de satis-fação, inclusive no coito normal, e desenvolvem a neurose de angústia, ou espontaneamente, ou depois da emergência de outros fatores eficazes.”

Ao referir-se mais adiante à palavra “congênito”, Freud esclarece que “O fator específico sexual se torna evidente na imensa maioria dos casos. Em outros (congênitos) virgula não se distingue a herança mas fica cumprido nela mesma, ou seja, os doentes levam consigo como um estigma aquela particularidade da vida sexual (a insuficiência psíquica para dominar a tensão sexual somática) que nas demais ocasiões conduz à aquisição da neurose.”

No texto hoje clássico, “Atualidade das neuroses atuais”3, Germán Garcia analisa detidamente esta neu-rose de angústia que propõe “uma explosão dos quadros clínicos” e que apresenta o somático “como aquilo que, por carecer de história, não pode ser articulado: o corpo das origens”, para o qual não se encontra um representante. Éjustamente em relação às neuroses atuais, que Freud cunha a frase que encerra em si o segredo da psicanálise: “as duas neuroses atuais (...) constituem a facilitação somática das psiconeuroses e fornecem o material excitante que logo será selecionado e revestido psiquicamente, de modo que, em ter-mos gerais, o núcleo do sintoma psiconeurótico, o grão de areia no centro da pérola4, é formado pela mani-festação sexual somática” e por isso trata-se de sintomas “que não podem ser decompostos analiticamente”. Fica claro que, para Freud, as neuroses atuais ou, o que dá no mesmo, a angústia que está no centro do quadro como equivalente ao “grão de areia na pérola” psiconeurótica, funciona como um litoral (para usar o termo que Lacan apresentaria muitos anos depois),que se atualiza de tempo em tempo como o que, do corpo, não é representável.

Mas trata-se de responder pela particularidade da angústia nas mulheres, naquelas que se situam como tais. Nos textos que comentamos, Freud afirmou que: a) nelas a emergência deste litoral é mais rápida e mais difícil de suprimir;b) em algumas, sua neurose de angústia pode ser congênita, isto é, independente das contingências da excitação somática; c) tratar-se-ia de uma insuficiência para dominar a tensão sexual somática com representações.

Por que isto acontece com as mulheres? Freud não o diz; recorre à sua experiência clínica para dizer que verificou em algumas delas uma relação particular com o corpo e a angústia; por outro lado não parece deixar-se seduzir pelas típicas respostas depreciativas de sua época sobre a “debilidade mental” de (todas) as mulheres (Moebius), ainda que sua linguagem médica seja sim, ade sua época, e o conduza a nomear esse “X”, que retrocede à medida que avançamos (como poderá dizer muitos anos mais tarde em ISA), com o nome de “insuficiência congênita”. Poderíamos evocar aqui, Kierkegaard: “Ainda que a angústia seja mais própria dela do que deste (o homem), a angústia não é, de modo algum, um signo de imperfeição”

É a mulher mais angustiada do que o homem? Em cada uma, a angústia não tem medida comum, e Freud mesmo o demonstra, ao situar do lado delas, uma insuficiência na explicação. Em consequência, a pergunta se ela é “mais” angustiada, é uma pergunta que provém, poderia dizer Lacan, da outra raça de discursos.

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Texto originalmente publicado na Revista Colofón N° 30. Feminidades. Boletin de la Federación Internacional de Bibliotecas de la Orientación lacaniana, No-viembre 2010, Edição España-Argentina (pp. 29-30) tradução amavelmente autorizada pela autora.

Tradução: Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (AMP/EBP)

O silêncio das mulheres

Esmeralda Miras (AMP/EOL-Buenos Aires)

[...] Creio que esses três tipos de silêncio que destaquei: o de Justine, o de O e o da Rainha, constituem três formas distintas de oferecer-se como objeto. Justine, objeto da vontade de Gozo do Outro, para dividir o parceiro, angustiá-lo e levá-lo mais além do prazer bruto da natureza. Como disse Reik, vai em direção à vitória pela derrota115. O, uma história de devoção como assinala Paulhan, se oferece como objeto ao

de-sejo de seu parceiro, por amor e em uma mascarada feminina que crê no semblante. Ela também se beneficia. Finalmente, o analista que se oferece como semblante de objeto, em seu silêncio, fazendo-se de morto para que o outro jogue, é colocado, desde o início dos trabalhos de Lacan sobre a direção do tratamento, como o outro lado. Localiza, claramente, o agente no lugar de objeto, semblante causa do sujeito analisante. Essa posição de objeto para o outro, logicamente feminina segundo as fórmulas da sexua-ção, foi percebida por Freud. Fica difícil distingui-la por estar dramatizada no masoquismo, acrescentando-se ao fato de que “nem todo o pulsional da mulher é drenado pelo fálico” segundo Lacan, num excesso que complica tudo mais ainda, embora ser tudo para o outro não seja o mesmo que ser o Outro para o outro.

Estamos, então, no terreno da alteridade da posição feminina sobre a qual se viram ou não os sujeitos de ambos os sexos, entre a feminilidade, o masoquismo ou o enigmático masoquismo feminino. Uma posição aludida pelo silêncio que adverte o impossível de dizer.

Texto originalmente publicado na Revista Colofón. N° 30. Feminidades. Boletin de la Federación Inter-nacional de Bibliotecas de la Orientación lacaniana, Noviembre 2010, Edição España-Argentina (pp. 27-28) tradução amavelmente autorizada pela autora.

Tradução: Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (AMP/EBP) Para ler na íntegra, clique...

Livros

TENDLARZ, Silvia. “Cuando las mujeres escriben sobre las mujeres” en Las mujeres y sus goces. Cap. 3, Buenos Aires: Colección Diva, 2002.

[…] Enigma feminino, masoquismo, narcisismo, frigidez, maternidade, mascarada, amor de transferência... Todos esses conceitos foram o legado das psicanalistas pós-freudianas ao debate da sexualidade feminina, no qual o apagamento dos registros imaginário, real e simbólico emaranhou a discussão sobre o falo. Cada uma delas deu conta, à sua maneira, de como apreendia um para-além da medida fálica que encarnavam em seu ser feminino. Como indica Éric Laurent em seu livro Posições femininas do ser: “É mais interessante discernir como a saída de suas análises se articula em torno dessa falta, e como o trabalho de transferência levou-as ao ponto em que puderam, a partir dessa falta, elaborar uma invenção útil para todos os seus colegas” [...].

Para ler na íntegra, clique...

1 15 REIK, T. Masoquismo em El hombre moderno. Sur. Argentina, 1963. p. 28. DOWNLOAD

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AS HORAS, Ana Lúcia LUTTERBACH HOLCK Latusa digital, Ano 0, Nº 4, RJ, 2003.

“Alguns dizem que esse filme é sobre a depressão das mulheres. Não estou de acordo que seja um filme sobre depressão; é um filme sobre três saídas possíveis para três mulheres em três épocas diferentes: o casamento, a escrita e a morte”.

AS HORAS, Seção Clínica de Barcelona, 2003.

Tonia Andreu, Cristina Domingo, Carlos Pérez.

Reflexão sobre o filme na Tertúlia sobre Cinema,

http://www.scb-icf.net/nodus/contingut/article.php?art=96&pub=5&rev=20&idsubar ea=10

Mais sobre o assunto:

DIAS, Fernanda e BIANCHI, Simone. Mulheres, depressão e semblante. Latusa digital – ano 6 – N° 36

GUIGNARD-LUZ, Inma. O masoquismo feminino segundo Hélène Deutsch LAURENT, Dominique, Ratos e mulheres, Latusa digital – ano 6 – N° 36 – março de 2009. Disponível em: http://www.latusa.com.br/pdf_latusa_digi-tal_36_a2.pdf

MILLER, Jacques-Alain, De L’orientation lacanienne III, 13 (2011)

ensinamen-to no departamenensinamen-to de psicanálise da Universidade París VIII, aula do 2 de março de 2011. SHIELD, Matthew From the Sublime to the Romantic. Em: Bright Lights Film Journal. Nº 75, 2012. Lars von Trier’s Melancholiahttp://www.brightlightsfilm.com/75/75melancholia_shields.php

SIBILIA, Paula. “Eu personagem e o pânico da solidão”. O show do eu: A intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008; p. 233-266.

TENDLARZ, Silvia O masoquismo feminino e os estragos do amor

http://www.eol.org.ar/template.asp?Sec=prensa&SubSec=america&File=america/1999/99_01_01_tendlarz_masoquismo.html

ESCUTE

Maysa Matarazzo, Morrer de Amor

http://letras.terra.com.br/maysa/1153884/

Paulinho da Viola, Dança Da Solidão http://www.youtube.com/watch?v=w1vWIzW7nXY&feature=related Lars Von Trier Melancolía

http://youtu.be/wzD0U841LRM

Luis Alberto Spinetta, Para saber lo que es la soledad http://www.youtube.com/watch?v=EylgLqHLhf4&feature=related

Leonardo Fabio Para saber lo que es la soledad http://www.youtube.com/watch?v=tLWZ-XGKM80

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Sonata de Outono

Renata de Oliveira Participante da EBP - SC

“Mãe e filha que mistura terrível de

sentimentos...”

Uma noite de sala cheia na Fundação Cultural Badesc no dia 17 de agosto para assistir ao filme e posterior debate de Sonata de Outono, de Ingmar Bergman. A edição e os closes setentis-tas, de certo tom teatral, oferecem uma atmosfera ainda mais peculiar para que

Atividades

Preparatórias

Conferência de Maria Josefina Sota Fuentes

Rogério Barros (Participante EBP-BA)

A EBP-Bahia, no dia quatro de agosto, recebeu Maria Josefina Sota Fuentes (EBP/AMP), para o lançamento do seu livro As mulheres e seus nomes: Lacan

e o feminino. Na capital baiana, a autora deu uma conferência que partiu do

seguinte questionamento: por que, a despeito dos avanços teóricos e discur-sivos da contemporaneidade, ainda falamos sobre as mulheres?

Sem a pretensão de dar respostas fechadas, mas atravessada por diver-sos questionamentos, Maria Josefina Sota Fuentes pontuou que a teorização psicanalítica sobre o feminino e as mulheres, ao longo do tempo, foi

acom-panhada pelas críticas do movimento feminista ao seu desenvolvimento. Como eixos estruturantes da sua transmissão, destacou dois binários centrais: 1. O conceito de penisneid freudiano e o antipatriarcalismo beauvouiriano; 2. O aforismo lacaniano “a mulher não existe” e a queer theory.

A crítica feminista a Freud, realizada por Beauvoir, considerava que a mulher queria o poder, não o pênis. Torna-se questão, aí, a ausência de identificação para a mulher, que se justificaria a partir do patriarcalismo que a recalca. Esses estudos ponderavam que seria possível, na relação com a mãe, extrair algo que daria conta dessa identidade. Para Freud, entretanto, essa relação é sempre um problema, pois a mãe é alguém que priva a filha, ao não conceder-lhe algo que ela deveria ter. É neste ínterim que se instala a enlouquecida demanda das mulheres indomáveis, que solicitam ao Outro alguma coisa que venha acalmar sua falta, sua ausência de identificação. O cerne do amor, para a mulher, está aí.

Lacan avança no que concerne à questão fálica, símbolo da falta, marcando que a castração é posta para ambos os sexos. Para assumir uma posição sexuada - homem, mulher - é preciso colocá-la em jogo. Importa, pois, saber o lugar que cada sujeito ocupou na sua relação com o Outro materno, implicando o inconsciente e a sua divisão diante do desejo do Outro. As posições sexuadas estariam, enfim, relacionadas a essa relação primordial.

Se a identidade de gênero é homem ou mulher, na idade adulta, é próprio dos seres falantes se distribuí-rem no binário do “parecer ser”, pontuou Maria Josefina. Se a mulher é considerada a hora da verdade para os homens é porque ela denuncia os semblantes fálicos. Esse argumento coaduna com os fundamentos da

queer theory, para a qual gênero é performance; entretanto, a questão acerca da função deste binarismo se

mantém, considerado causa de segregação e preconceito.

A conferencista, por fim, sublinhou que é fundamental observarmos os efeitos do apagamento da alteri-dade na clínica, que denuncia a tentativa de recusa da castração. Ao desconsiderar essa operação, o tema das mulheres na contemporaneidade persiste: ainda não há um bom tom para falar delas.

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possamos observar a devastação da relação amódio entre mãe e filha (Charlotte e Eva), que aparece detrás das manifestações intensas de sentimentos paradoxais e quedas de semblantes. A angústia e demandas de amor derramam-se cena após cena, nas quais impiedosas declarações de uma personagem à outra contras-tam com o silêncio ensurdecedor da submissão.

Os comentários de Cleudes Slongo e Denise Wendhausen abriram espaço para um debate rico em questões teóricas. Cleudes, em sua leitura da obra, acentuou a importância da criança como objeto do de-sejo materno, enfatizando que Eva parecendo não encontrar sua imagem fálica no olhar da mãe, continua a demandá-lo, o que lhe causa dificuldade em separar-se. No entanto, Eva ainda assim interpreta um desejo no olhar da mãe, o que lhe garante um lugar, mesmo como objeto dejeto, ao acusar sua suposta negligência e ausência. A posição vitimizada de Eva e a encarnação de um papel superegoico que destitui constantemente os semblantes da mãe, demonstram a grande idealização e consistência desse Outro materno. E foi justa-mente a partir daí que Denise pensou o filme, direcionado seus comentários a partir da afirmativa de que o Outro não existe. Segundo ela, os diálogos sugerem a crença, tanto da mãe como da filha, na existência deste Outro; um Outro que seria capaz de ocupar o lugar de uma mãe idealizada, supondo, para Eva, que exista A mulher. Entretanto, como toda mulher, Charlotte só pode transmitir sua própria inconsistência, sua própria falta; falta esta insuportável para a filha, que apenas entrega-se a uma catástrofe e a um gozo quase sem palavras no final do filme.

O debate apontou a diversidade do público e intensidade do filme que possibilitaram um diálogo sempre rico entre psicanálise e outras áreas, integrando leituras diversas e marcando a importância de mais uma atividade preparatória para a VII Jornada da EBPSC de 2012.

FuRANdO ETIquETAS - o traço da política do CIEN

III Manhã de Trabalhos - CIEN Brasil

25 de novembro de 2012 Horário: 09 às 13 horas Hotel Pestana - Salvador

DINÂMICA DA CONVERSAÇÃO

A composição de mesas seguirá o princípio orientador do CIEN: uma conversação inter-disciplinar. Com a presença de Éric Laurent, após os comentadores apresentarem suas leituras sobre os trabalhos, daremos a palavra aos autores e aos demais inscritos nesta III Manhã de Trabalhos.

ESCOLHA DOS TRABALHOS

Para possibilitar essa dinâmica, os trabalhos selecionados serão aqueles que estiverem em consonância com o tema proposto, apresentando o trabalho de investigação dos laboratórios do CIEN ou relatos de expe-riências interdisciplinares, sob a forma de vinhetas práticas.

ENVIO DE TRABALHOS

Aguardamos os trabalhos dos colegas que desejem transmitir a pesquisa dos laboratórios do CIEN, bem como relatos de experiências interdisciplinares diversas que abordem o tema de nossa conversação. Os tra-balhos poderão ser individuais ou coletivos e serão recebidos pela Comissão de Orientação do CIEN Brasil.

Designaremos leitores para conversarem com cada trabalho rumo a grande conversação que pretende-mos realizar em Salvador, com a participação de todos.

Escrevam a experiência de seu laboratório do CIEN ou a experiência inter-disciplinar que acontece em sua instituição e enviem-nos até o dia 20 de setembro, para o e-mail brasil.cien@gmail.com. Cada comunicação deve conter até 4000 caracteres, incluindo espaços e notas, na fonte times new roman, tamanho 12.

Comissão de Coordenação e Orientação CIEN Brasil

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Linhas de Investigação

Bibliografia

Filmografia

Expediente

Tânia Abreu (Editora)

Email: contato@boletimoutraspalavras.com.br Bruno Senna (Layout e editoração)Elisa Monteiro (revisora) Editora Comissão Científica Ajusta Foco e ResenhasMarcela Antelo

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Referências

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