UTILIZAÇÃO DE TÉCNICAS PROJETIVAS GRÁFICAS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA DA SAÚDE: UM ESTUDO A PARTIR DOS TRABALHOS DE CONCLUSÃO DE CURSO

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UTILIZAÇÃO DE TÉCNICAS PROJETIVAS GRÁFICAS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA DA SAÚDE: UM ESTUDO A PARTIR DOS TRABALHOS DE

CONCLUSÃO DE CURSO

Adriano Franco de Oliveira Douglas Rodrigo Pereira Maria Cleonice Vieira Duarte

Hilda Rosa Capelão Avoglia Universidade Metodista de São Paulo

Resumo

Os pesquisadores na área da Psicologia da Saúde têm buscado utilizar diferentes instrumentos para a coleta de dados. As técnicas projetivas gráficas, reconhecidas como procedimentos para o psicodiagnóstico clínico, têm sido utilizadas nesse campo de pesquisa. Assim, o presente estudo teve como objetivos: a) identificar quais as técnicas projetivas gráficas utilizadas nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) realizados no Curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo; e b) identificar as populações alvo dessas investigações. Trata-se de um estudo documental, no qual foi analisada a totalidade dos TCCs (N=230) aprovados entre 2004 e 2006. Os resultados obtidos demonstraram que 35,6% dos estudos se referiam diretamente à área da saúde, dos quais 14,6% utilizaram testes projetivos gráficos como instrumento para coleta de dados. Entre essas técnicas, destacam-se respectivamente: o Desenho da Figura Humana de Machover (41,6%); H.T.P. (Casa, Árvore e Pessoa) (16,7%); H.T.P.- F (Casa, Árvore, Pessoa e Família) com 8,3%. Já o Desenho Livre-Estória (D-E) de Trinca e o Desenho da Família aparecem em 16,7 % dos trabalhos cada um. No que se refere às populações investigadas, encontramos indivíduos com obesidade mórbida, paraplegia não congênita, gravidez de alto risco, dependência de drogas e mulheres com câncer de mama. Observou-se que para tais estudos seguiu-se a padronização estabelecida para a análise e interpretação das técnicas, sendo tratados de forma qualitativa. Concluímos que os testes projetivos gráficos mostraram-se eficientes para a compreensão de aspectos psicodinâmicos, especialmente no que tange aos fenômenos estudados pela Psicologia da Saúde.

Palavras-Chave: Trabalho de Conclusão de Curso, Psicologia da Saúde, Técnicas Projetivas Gráficas.

Introdução

A necessidade da compreensão psicológica diante dos fenômenos presentes na clínica médica muito tem contribuído para o desenvolvimento de pesquisas na área da Psicologia da Saúde, desencadeando o surgimento de escalas, questionários e inventários cada vez mais precisos. O uso desse tipo de instrumento faz parte da concepção de ciência em Psicologia. Por outro lado, as técnicas projetivas id29801592 pdfMachine by Broadgun Software - a great PDF writer! - a great PDF creator! - http://www.pdfmachine.com http://www.broadgun.com

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amplamente utilizadas como instrumentos pertinentes a investigação da personalidade em processos psicodiagnósticos e consideradas instrumentos clássicos, vem registrando uma aplicabilidade menos freqüente.

Com o desenvolvimento da atuação dos psicólogos no campo da saúde, observou-se que tais técnicas, antes apenas aplicadas em contextos diagnósticos clínicos, foram sendo igualmente utilizadas em investigações e pesquisas nessa área. Sobre essa questão, Custódio (2003) afirma que paralelamente a esta ampliação do campo profissional do psicólogo, surgiu outra grande necessidade de natureza qualitativa: o desenvolvimento de pesquisas na área da Psicologia da Saúde (p.16).

No âmbito da clínica especializada de um hospital geral, Custódio (2000) argumenta sobre a expectativa da equipe de saúde em obter respostas que contribuam com a tomada de decisões em relação a um determinado paciente acometido por uma enfermidade. Segundo a autora, é esperado do psicólogo que conheça o paciente, suas características de personalidade, suas relaçòes familiares, incluindo nesse caso, qual sua capacidade para o enfrentamento da doença e do tratamento.

Estas conclusões, embora façam parte da investigação em psicologia, muitas vezes devem ser apresentadas sem haja tempo suficiente para a realização de um diagnóstico psicológico.

A investigação psicológica, no que tange ao processo diagnóstico, deve buscar uma descrição e compreensão da personalidade do paciente, porém, não de forma unilateral, pois deve mencionar quais os elementos constitutivos da personalidade não satisfazem a exigência dos pesquisadores e dos clínicos, conforme estabelece Ocampo, Arzeno e Piccolo (1987). A análise das fontes da personalidade do paciente, uma vez alcançado aspectos patológicos e os adaptativos, segundo as autoras, ajudará a formular recomendações terapêuticas (p.17).

Partindo dessa mesma idéia, Trinca (1984) argumenta que, o psicólogo, mesmo atuando na área clínica e realizando o psicodiagnóstico está, de certa forma, atendendo, sobretudo a objetivos teóricos, ou seja, aplicando os conhecimentos teóricos, validando-os ou modificando-os (p.11). Assegura ainda que as condições sociais e organizacionais estão intimamente ligadas à determinação do contexto no qual vai se desenvolver a atuação do profissional. Desta forma, entendemos que ao realizarmos o psicodiagnóstico, independentemente de ser na área clínica, educacional ou da saúde, devemos considerar o contexto no qual a atuação está inserida, conforme afirma o autor.

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“Considerar o contexto social e organizacional em que o trabalho do psicólogo, neste caso falando de psicodiagnóstico, está inserido, permite uma compreensão da função social que o profissional está desempenhando, e, desta forma, permite também que este colabore na produção e divulgação de técnicas e formas de trabalho voltadas à nossa realidade, tanto sócio-econômica quanto cultural” (TRINCA, 1984, p. 17).

Embora o autor tenha como referência o diagnóstico clínico, entendemos que, no caso da investigação no campo da saúde, tal necessidade também se faz presente, pois a inserção de elementos sócio-psicológicos no estudo de uma determinada enfermidade ou população, parece-nos pertinente no sentido de ampliar o universo da investigação e atribuir-lhe uma perspectiva mais condizente com a realidade estudada, fornecendo indicadores voltados para a prevenção e promoção da saúde. Assim, parece-nos inerente a necessidade de inserção social do psicólogo, seja qual for a natureza ou o ambiente no qual sua atuação acontece, na clínica, no hospital ou em uma unidade de saúde.

Nesse sentido, as técnicas projetivas, que inicialmente fazem parte do trabalho clínico, se constituem em instrumentos que podem ser empregados para avaliar o progresso da psicoterapia, para identificar se houve ou não alguma evolução no processo psicoterapêutico, mas também consideramos sua importância para a coleta de dados nas pesquisas em Psicologia da Saúde, pois, segundo Custódio (2000) é possível relacionar eventuais características de personalidade com determinados grupos de risco. Podemos citar os mecanismos neuro-humorais envolvidos no surgimento da doença péptica tanto na criança quanto no adulto (HAMES, 1998).

Para melhor compreendermos essa utilização, retomamos o conceito de projeção, como nos apresenta a psicanálise, considerando-o a base da construção das técnicas projetivas.

“No sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro – pessoa ou coisa – qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que ele desconhece ou recusa em si. Trata-se aqui de uma defesa de origem muito arcaica, que vamos encontrar em ação

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particularmente na paranóia, mas também em modos de pensar “normais”, como a superstição” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p.357).

As técnicas projetivas pretendem fazer uma avaliação global da personalidade e têm como característica a apresentação de um estímulo ambíguo, que não indica ao sujeito qual o seu propósito verdadeiro (ALVES, 1997). O controle consciente do indivíduo, quando submetido a uma técnica projetiva, é reduzido, o que desencadeia respostas que refletem sua personalidade.

Especificamente no que diz respeito as técnicas projetivas gráficas, a autora entende que tais técnicas são menos ameaçadoras e “abrangem aspectos menos percebidos pelo sujeitos”. Ainda segundo Alves (1997), estas técnicas mobilizam aspectos mais estáveis da personalidade e mais difíceis de serem modificados. Desse modo, indica que devemos propor como tema conteúdos desde os mais ambíguos até os mais específicos, como é o caso do Desenho livre, ou mesmo do H T P, que solicita ao sujeito que desenhe uma casa, árvore e pessoa. Além da produção dos desenhos, destaca a importância de serem solicitadas associações verbais para complementar o material gráfico.

O mecanismo projetivo, para Van Kolck (1981), é aquele no qual o sujeito atribui suas próprias necessidades e qualidade a determinadas situações e objetos exteriores, ou mesmo a outras pessoas, sem que tenha consciência desta ação. Quando se trata do desenho, a autora destaca o simbolismo que foi desenhado, as dimensões relativas dos vários elementos e sua posição no conjunto como indicadores para sua compreensão (p. 4).

Em se tratando da utilização das técnicas gráficas, a autora afirma que “em um desenho, mais do que outro material projetivo, podemos analisar os três processos que se apresentam em inter-relação constante: o adaptativo, o expressivo e o projetivo” (p.3). Descreve o processo adaptativo como sendo determinado pelo material oferecido ao indivíduo e pela própria tarefa que tem diante de si, e propõe que, para a análise deste processo, devemos verificar se o resultado tem a relação esperada com idade e o ambiente cultural do indivíduo.

Aspectos expressivos e projetivos como aponta Hammer (1991) como as atividades psicomotoras, as características do traçado, a maneira como assume a tarefa de desenhar determinada no desenho, indicam a percepção consciente e inconsciente do sujeito com relação a si mesmo, aos outros e ao seu ambiente. No

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caso da expressão inconsciente, observa-se a tendência a utilizar símbolos, como ocorre nos sonhos, nos mitos, no folclore e até mesmo nas produções psicóticas.

Esses aspectos devem igualmente ser considerados quando abordamos o uso das estratégias projetivas gráficas nas pesquisas na área da saúde. Hames (1998) em estudo a respeito do aspecto etiopatogênico das doenças gástricas em crianças, faz uso do Desenho Livre-Estória de Trinca (1987) e justifica afirmando sua boa aceitação e aplicabilidade independentemente se os sujeitos são crianças ou adolescentes, meninos ou meninas.

Nesse sentido, entendemos a pertinência das técnicas projetivas na caracterização de perfis psicológicos de populações específicas, na explicitação dos níveis de ansiedade que atingem o paciente e o quanto este poderá contar com uma família que lhe ofereça suporte psicológico, ou mesmo o quanto a comunidade poderá envolve-lo em uma rede de relações sociais que o sustentem. Outra possibilidade se refere a descrição do funcionamento psicodinâmico dos indivíduos atingidos por determinadas enfermidades e de que forma esse funcionamento irá facilitar ou dificultar a remissão dos sintomas, a adesão ao tratamento e conseqüentemente a sua qualidade de vida posterior.

Considerando-se a aplicação dos testes projetivos em pesquisa em Psicologia da Saúde, conforme discutido, o presente estudo teve como objetivo verificar quais técnicas projetivas gráficas foram utilizadas nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) realizados no Curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo e identificar em quais populações alvo foram utilizadas as referidas técnicas.

Método

Trata-se de um estudo do tipo documental, que partiu da identificação e análise da totalidade dos Trabalhos de Conclusão de Curso realizados pelos alunos do Curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo e aprovados entre o período de 2004 á 2006.

Inicialmente identificamos entre o total dos trabalhos (N=230) quais abordavam temáticas voltadas a área da Psicologia da Saúde. Entre estes, buscamos analisar cada trabalho separadamente identificando quais instrumentos foram utilizados para coleta dos dados. Destacamos aqueles nos quais as técnicas projetivas gráficas

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haviam sido instrumentos da pesquisa. A seguir, categorizamos as populações alvo dos referidos TCCs, conforme objetivo do presente estudo.

Resultados

Realizada a análise dos trabalhos aprovados entre 2004 e 2006 (N=230), sistematizamos os resultados obtidos e os apresentamos em termos de freqüência absoluta (fa) e freqüência relativa (fr). Os dados encontrados nos permitiram identificar que 81 dos TCCs elaborados (35,6%) tratavam de temas diretamente voltados para a área de Psicologia da Saúde, como gravidez de alto risco, obesidade, anorexia, câncer infantil, câncer de mama, diabetes, entre outros.

Entre estes, observamos que em 14,6%, ou seja, 11 TCCs fizeram uso de técnicas projetivas gráficas para coletar os dados pretendidos em seus objetivos. Categorizando-se essas técnicas, encontramos os seguintes dados, conforme visualizamos no quadro abaixo:

Técnica Projetiva Gráfica fa fr

Desenho da Figura Humana

41,6% 4

H T P 16,7% 2

Desenho Livre-Estória 16,7% 2

Desenho da Família 16,7% 2

H T P – F 8,3% 1

Podemos observar Quadro demonstrativo que, entre essas técnicas, destacam-se respectivamente: o Dedestacam-senho da Figura Humana de Machover (41,6%); H.T.P. (Casa, Árvore e Pessoa) (16,7%); H.T.P.- F (Casa, Árvore, Pessoa e Família) com 8,3%. Já o Desenho Livre-Estória (D-E) de Trinca (1984) e o Desenho da Família aparecem em 16,7 % dos trabalhos cada um. A predominância do teste do Desenho da Figura Humana deve-se ao maior domínio da técnica pelos pesquisadores, uma vez que esta técnica é amplamente conhecida e se constitui em um instrumento que integra os programas de ensino da área da avaliação psicológica em muitos cursos de graduação em Psicologia.

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No que se refere ao H T P – F, ou seja, o Desenho da Casa, Árvore, Pessoa e Família, é apontado como o menos utilizados nos trabalhos realizados e, função de ser uma técnica mais complexa no sentido de sua interpretação, pois envolve além da análise dos três desenhos (casa, árvore e pessoa), também a análise da Família, que exige a explicitação de aspectos psicodinâmicos no âmbito das relações familiares do sujeito.

Sobre as populações investigadas, conforme nosso objetivo, encontramos respectivamente estudos referentes a indivíduos com obesidade mórbida (16,7%), paraplegia não congênita, gravidez de alto risco (16,7%), dependência de drogas (16,7%) e mulheres com câncer de mama. Possivelmente referentes aos grupos que mais mobilizam o interesse dos alunos e observamos que se constituem em temas recorrentes na mídia, nos espaços de ação comunitária, nos quais os pesquisadores atuam enquanto estagiários.

Considerações Finais

A realização deste estudo nos aponta para a necessidade de se investigar quais outros recursos instrumentais estão sendo utilizados nas pesquisas relativas à área da Psicologia da Saúde. Embora sejam inúmeros os instrumentos para realização de estudos no âmbito da saúde, ressaltamos que a compreensão da psicodinâmica do indivíduo por meio dos testes projetivos gráficos é fundamental, contudo não pode ser universal, como recomendam os pesquisadores, pois diante da complexidade humana, as considerações a respeito das dimensões sociais, do meio-ambiente e da cultura se fazem presentes. Assim, torna-se necessário que o psicólogo, ao propor pesquisas nessa área, desenvolva sua sensibilidade clínica e considere o contexto no qual o sujeito ou a população investigada estão inseridos, evitando com isso o risco de obter resultados marcados por interpretações pouco fundamentadas, comprometendo a validade e a precisão, critérios de cientificidade na pesquisa.

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Referências Bibliográficas

ALVES, Irai Crisitna Boccato. As técnicas projetivas no psicodiagnóstico e na psicoterapia. Anais do I Encontro de Psicologia Clínica. Universidade Mackenzie: São PAULO, 1997.

CUSTÓDIO, Eda Marconi. A história da pós-graduação em Psicologia da Saúde da UMESP. In: OLIVEIRA, Vera Barros de; YAMAMOTO, Kayoko (Org.). Psicologia da saúde: temas de reflexão e prática. São Bernardo do Campo: UMESP, 2003.

_________________. Avaliação psicológica no contexto da saúde: perspectivas atuais. ANAIS do VIII Simpósio Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio Científico – ANPEPP, 2000.

TRINCA, Walter. Investigação clínica da personalidade: e desenho livre como estímulo de apercepção temática. São Paulo: EPU, 1987.

______________. (Org.). Diagnóstico psicológico: a prática clínica. São Paulo: EPU, 1984. 106 p. (Temas básicos de psicologia; v. 11).

HAMES, Suely Lopes. Aspectos psicossomáticos na infância: um estudo sobre crianças portadoras de distúrbios gástricos. Taubaté: Cabral Ed. Universitária, 1998.

HAMMER, Emanuel F. Aplicações clínicas dos desenhos projetivos. Tradução de Eva Nick. Rio de Janeiro: Interamericana, 1981.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen; Direção de Daniel Lagache. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

OCAMPO, Maria Luisa Siquier de; ARZENO, Maria Esther Garcia; PICOLLO, Elza Grassano de. O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas.. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

VAN KOLCK, Odette Lourenção. Interpretação psicológica de desenhos. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1981.

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Referências

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