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Eu (quase) cozido, Outro (mal) passado

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Academic year: 2021

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Débora Brenga

Eu

(quase)

cozido,

Outro

(mal)

passado

PROAC 2014

Bolsa-Incentivo à Criação Literária – Dramaturgia

(2)

A boa vingança

Celebrar a gratidão é praticar a boa vingança, que segundo Nietszche, se origina da profunda alegria e potência.

Eu, para chegar aqui, cruzei o meu caminho com muitas pessoas que, de algum modo, me apoiaram nessa empreitada.

Muitas nem imaginam que assim o fizeram. Outras tantas sabem que o fizeram e, no entanto, eu mesma nem imagino seus gestos em prol desse trabalho.

Pode ser, também, que ao atravessar o caminho de algumas, tenha afetado os seus cotidianos. Como saber?

Assim, não citarei nomes com receio de esquecer alguns ou mesmo ignorar outros. Citarei Nietszche:

“Gratidão em tempo de colheita, vitória, paz – alguns acontecimentos invocam um sujeito em relação ao qual o sentimento se descarrega. Deseja-se que todas as coisas boas que acontecem a alguém, tenham sido feitas - deseja-se que haja feitor. Da mesma forma, diante de uma obra de arte, evoca-se quem a fez. O que é então essa evocação? Uma tentativa de equilibrar o que se percebe como benefícios recebidos, um ‘dar de volta’, uma forma de atestar o nosso poder (...) pois ao evocar aquilo que gera as coisas, afirma-se, decide-se, estima-se, juga-se: nos damos o direito de ser capazes de afirmar e de distribuir honras (...) o mais alto sentimento de felicidade e vida é também o mais alto sentimento de poder: a partir deste sentimento se evoca (a partir deste sentimento se inventa e se busca algo que tenha feito as coisas um sujeito). A gratidão se apresenta como boa vingança: demandada e praticada onde a igualdade e a honra são mantidas firmes onde a boa vingança é melhor efetuada”.

Espero que a feitura dessa dramaturgia dialogue com o seu tempo. Possa contribuir com o pensamento contemporâneo a respeito do Eu e do Outro, provocando a reflexão sobre as relações de alteridade.

Sobre como o Outro me afeta, me modifica, me transforma.

Nessa trajetória iniciada em 2012, fui, aos poucos, desenvolvendo a perspectiva da generosidade, a qual teve o seu cume no encontro com os Guarani Mbya.

Com eles, descobri que a minha voz não lhes serve, que o meu teatro não lhes tira da marginalidade – lugar, que nosso mundo os colocou.

Coube, então, a mim o exercício cru, mal cozido e mal passado da honestidade. Acho, que é disso, que as próximas páginas tentam falar.

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Qual é a parte que nos cabe nesse latifúndio?

Estamos em tempo de privação. Privação do privado. O espaço privado perdeu-se no espaço público. O público, por sua vez, tornou-perdeu-se árido, deperdeu-sertificação do lugar do encontro.

Busco Milton Santos para me aconselhar. Ele me diz: Quando um homem se

defronta com um espaço que não ajudou a criar, cuja história desconhece, cuja memória lhe é estranha, esse lugar é a sede de uma vigorosa alienação.

Então, penso - é isso! Desde o começo era sobre isso que eu queria falar. EU, esse homem, essa mulher, esse vir-a-ser que me habita, habitando esse lugar de “vigorosa alienação”.

Como fugir desse desatinado destino de ser brasileira? E, sendo, me perceber no completo desconhecimento do que, efetivamente, eu sou ou poderia ser?

Perco-me nesse “lugaroso”, busco-me e não me encontro, senão pelo viés de uma identidade forjada pela nacionalidade, cor, RG. CPF, nome e sobrenome. Mas, seria isso o ser? E, como seria o ser se a ele não houvesse sido negado o conhecimento do outro, esse outro que, desde o princípio, já vivia aqui?

Como eu seria se pudesse pensar, sentir e me comunicar em Nhengatu? Por quais experiências EU teria passado?

Se o Brasil não se faz essa pergunta, não deseja nem mesmo cogitar que nação seria, caso os povos originários ocupassem seus territórios e, nós outros soubéssemos nosso lugar e tamanho... se isso está distante de acontecer, então, não temos a menor chance de experimentar o “sentimento de pertencer aquilo que nos pertence”.

Mas, pelo menos na ficção, posso garantir esse espaço de pertencimento, que se configura na escolha de criar Cantos ao invés de Cenas. Uma espécie de vingança dessa História mal tecida e mal narrada desse “lugaroso” chamado “terra de ninguém”. Vontade de que meu teatro seja esse Ato, tempo-espaço de resistência.

Também, é possível que as perguntas norteadoras, desde o momento em que Lucienne Guedes Fahrer me conduziu ao “Meu tio, o Iauraetê” de Guimarães Rosa, tenham de algum modo, provocado essa perspectiva. Talvez...

Afinal, era (continua sendo) “lugaroso” demais e, não saber ao certo se estava indo ou voltando me provocou, muitas vezes, uma vontade profunda de repouso, de

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ter um canto onde eu pudesse apaziguar (ou seria definitivamente enterrar?) essas questões.

Canto como lugar que nos abriga, o qual precisamos ter a chave, posto que sem ela, vivemos errantes ou a constatação das Covas que nos cabem nesse latifúndio?

Um palmo e meio de profundo...

No meu caso, essa dramaturgia foi o próprio espaço de conflito e apaziguamento - espaço de territorialização e, ao mesmo tempo, espaço fronteiriço.

Pensar-se nessa linha divisível do invisível entre EU e um OUTRO foi o exercício com o qual me deparei durante este caminho dramatúrgico, esse interminável ir e vir para desassosegar-me na divisa da alteridade.

Criando Cantos, ocupo lugares que as Cenas por si não se bastam e, ao ultrapassar a palavra escrita, busco rasgar o tempo e o espaço cênico para que, ao menos, no papel não haja a necessidade de demarcação de território – deformação do tecido social - afinal “o espaço é a matéria trabalhada por excelência. Nenhum dos

objetos sociais tem uma tamanha imposição sobre os homens, nenhum está tão presente no cotidiano dos indíviduos”.

Aqui, seja por resistência, seja por luta, seja por conquista árdua, cada figura tem seu Canto - lugar de ser pertencindo por algo, que reconhecemos, somos pertencentes e, nesse sentido, os espaços privado e público se configuram como extensões de cada corpo, voz, ser que se habita.

.

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Do Eu (quase) cozido, do Outro (mal) passado

Canto Zero – Do enterramento de Carapiru Awá Guajá

Assim como as ondas do mar vão e vem o tempo todo, assim também, caminho eu. Ora vou ora volto. Às vezes, me encontro no meio como agora. Sempre entre um dia e outro há uma noite no meio. Agora sei, estou no meio. Nem vou nem venho. Estou no meio, na noite escura, no centro dessa encruzilhada. Carrego uma urna funerária. O texto que carrego na outra mão, daqui a pouco, virará pó. Eu virarei pó? Mas, ainda, posso escolher. Sou eu quem escolho o que queimo; se queimo. O que eu enterro; se enterro. Dessas páginas, algumas quero salvar. O resto é ritual cênico. O prólogo? As profecias.

Pronto. Agora não dá mais pra retroceder. Há um oceano de olhos que me espreitam. Também vão e volto intermitentemente. Eles podem me engolir. Posso, também, devorá-los. Devo prosseguir, mesmo que doa, mesmo que sangre. Vou. Eu vou até o fim. Porque havendo prólogo, haverá epílogo. É; não dói tanto assim. Pensam que eu estou no início ou no fim, mas não – eu estou no meio. ... Todos essas cenas eu pico. Nanos pedaços de papel. Picadinho de cenas. Assim... bem assim. Todas elas eu queimo - algumas gotas de álcool, um fósforo. É o suficiente. Não tenho tempo pro arrependimento. Nem vontade. Nem dom. Mas ainda assim é preciso que se diga – desculpa Carapiru, pouco ou quase nada vai sobrar de seu enredo. Dou uma pausa nada dramática. Preciso tossir. Ler o prólogo, espécie de homenagem póstuma. Não é assim que falam? Não vou pigarrear. Acho ridículo quem faz isso. Também não vou chorar. Tenho aprendido que a morte é só um instante da vida. ... Tudo isso não é dito nem bendito nem maldito. Nem fluxo de pensamento é. Tudo isso é só rubrica.

EU – ...Eu sei, você não concorda. Mas é fato, só o que está escrito está posto no mundo. Salvei o prólogo, as profecias, não vê? ... Pode repousar em paz Carapiru. Comigo tua vida foi curta, mas respeitosa.... Agora deve ir. Vai; segue o seu caminho; eu sigo o meu. É melhor assim. Sem mágoas, sem ressentimentos. ...Não, Carapiru; não devemos. Sua história segue sem mim. Nem me pertence mais. Nunca me pertenceu. Mas ouça o prólogo, o seu epitáfio. Ah, você não sabe o que é um epitáfio... Não faz mal, é o que restou dessa história. Ouça, ouça...

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Canto Um – Do que restou do Res Nullius

Leio o prólogo ao Carapiru. Na vida real isso seria patético. Mas nessa vida de faz de conta, onde tudo pode, esse gesto está validado. Isso é bom; gosto. Então, leio:

A PRIMEIRA HORA DO INSTANTE AGORA

O MAR ENGOLE QUASE TUDO - Carapiru Awá-Guajá contempla e ouve o mar.

Ele sabe que o mar engole o tempo e o devolve outro. Desde o princípio foi assim.

O CÉU ENGOLE QUASE TUDO - Carapiru Awá-Guajá não contempla nem ouve

o céu do avião. Ruído e sombra presentes no tempo de sua presentificação. Ele sabe que o quê o céu traz, o céu leva. Desde o princípio foi assim.

O MAR ENGOLE QUASE TUDO - Carapiru Awá-Guajá veste trajes de não-índio e

carrega seu arco e sua flecha. Ele coloca-os alguns metros à sua frente, na areia molhada.

Ele retira os trajes da civilização. Retira, também, o cocar, os colares e outros adereços.

Ele os arruma cuidadosamente, um ao lado do outro, próximos de seu arco e flecha e espera que as ondas do mar venham buscar o que é seu.

Ele espera e contempla o horizonte marítimo... Ondas do mar arrastam os seus apetrechos. Desde o príncipio foi assim.

A TERRA ENGOLE QUASE TUDO - Carapiru Awá-Guajá retira a pintura de seu

corpo e entra para a floresta. Ele sabe que lá é o lugar dos povos originários. Lá, também é o seu lugar.

EU - Ouve bem, você agora é cinzas. É pergaminho enrolado; homenagem póstuma que já foi prólogo. ...Virou epílogo? Não, não! ...Mas o que é que você virou, Carapiru? Por que não dá logo o último suspiro? Morre homem, morre. É necessário que você morra. É das cinzas de suas entranhas que um novo enredo vai nascer...

Ele não morre. Respira do interior dessa urna funerária; eu posso ouvir. *(...) Fraco, é verdade, mas respira. Finjo que ele dorme. Embalo sua urna; canto pra ele dormir. É preciso continuar, inventar outro tempo. Fugir desse lugar do enterramento.

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Canto Dois- EU sou o que eu não sei

Qual é o meu lugar, eu me pergunto. O enterramento desse Carapiru me pertuba. Como enterrar o que, ainda, respira? Transpira em mim esse estado febril. Deliro, às vezes. Falo coisas. Vejo coisas inquietantes. Ouço vozes como agora... Tudo depois desse enterramento. Tudo!

EU – Eu sei lá! E, se eu não sei, por que você quer saber? *(...) Que paradeiro? (...) Que diferença faz se estou indo, se estou voltando? Faz? Faz? Então tá: estou bem no meio da encruzilhada; bem no meio! (...) Não! Eu não tenho fome! Para. Já disse, eu não quero comer. (...) Psiu, espera! Para, para de falar comigo. Não vê que estão me chamando? Sim, sim, eu sei; é ela.

Canto Três – Eu sou Valdelice Verón...

Valdelice Verón está no centro da cena, sentada em uma cadeira. Eu estou sentada à frente dela. Eu entrevisto, ela é entrevistada. Eu me pergunto, quais perguntas devo fazer? O que ela quer me dizer? Será que ela quer me dizer algo? Eu arrisco...

EU – Nome.

ELA – Valdelice Verón.

EU – Valdelice Verón é o seu nome indígena?

Ela silencia. Depois responde.

ELA – Eu me chamo Valdelice Verón.

Eu silencio. Depois insisto.

EU – Mas esse não é um nome indígena.

Ela me olha longamente nos olhos.

ELA – Tá gravando? (Crio uma imagem em minha mente, eu a vejo em um telão). Eu sou Valdelice Verón, filha de Marcos Verón, o cacique morto apyrupã1por jagunços

*(...) - a personagem EU dialoga com o personagem onçeiro de “Meu tio, o Iauraête”, de José Guimarães Rosa, podendo aqui se configurar na personagem da Avó.

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dos fazendeiros, coronéis dos latifúndios, que eles insistem em chamar de agronegócio. Capitães de Naus que querem a terra dos Guarani-Kaiowá, mesmo que manchada de sangue. Querem a terra também para sugar sua seiva até sua morte. (Eu

penso que índia é essa com esse português? Eu penso, mas me calo, enquanto ela continua) Eu falo assim, porque sou professora em Dourado, no Mato Grosso do Sul...

Eu sou Valdelice Verón, filha do cacique morto às pauladas, Marcos Verón. Guerreiro até o fim pela causa de vida e morte dos Guarani-Kaiowá. Eu sou uma Guarani-Kaiowá. Muito prazer. E você quem é?

Eu confesso, ela me incomoda. A entrevista tomou um rumo diferente, e eu não sou jornalista, sou dramaturga... Não sei muito bem como continuar ou interromper.

EU - Quer um pouco de água? ELA – Sim, obrigada.

Eu a sirvo. Ela bebe. Eu aproveito e bebo também. É preciso respirar, ganhar tempo, talvez.

Canto Quatro - Do corpo e do sangue de cristo?

Eu escrevo: A avó está sentada no centro da cena. O fogo da pequena fogueira, aos poucos, se atiça, espalhando luz e calor; revelando o lugar do encontro. A avó está entre seis representantes de etnias indígenas brasileiras de um lado e seis do outro. (Um deles... parece que eu conheço aquele ali, do lado esquerdo da “vó”. É... eu devo conhecer sim. Ele me lembra... quem ele me lembra? Ah! Ele me lembra Carapiru). Ela apresenta e reparte o alimento em treze partes.

AVÓ – Apytu’ū!2 (a avó experimenta a parte que lhe cabe desse cérebro de um morto.

Parece gostar.) Inhakã porã! (Ele está bom da cabeça, ela diz).

A princípio rejeito essa ideia canibal. Eu tento dizer a ela, não! Não, avó! Carne de gente, não! Mas, ela não me vê nem me ouve. Eu não existo para ela. Não existo para nenhum deles. Os convivas comem em efeito coral.

2 Apytu’ū – Ver cérebro, pág. 138

(9)

AVÓ (ela aponta à sua direita) - Xeaxu e'ỹa re.3 UM À DIREITA – É duro. Difícil de engolir.

AVÓ (agora, ela aponta à sua esquerda) – Xeaxua re.4 DOIS À ESQUERDA – Hum! Melado... Amargo?

DOIS À DIREITA – Escapa na boca. Ágil como uma ave de rapina? UM À ESQUERDA – Hei, fiapo de mente que se enfia entre os dentes! TRÊS Á DIREITA (este grita) – Axê!5 Gosto de cinzas.

AVÓ – Camaleão!

Todos falam ao mesmo tempo.

AVÓ (repartindo e apresentando o alimento) – Kuraxô!6 Tinha um bom coração para a sua gente... sempre dividia a comida.

SEIS À DIREITA – Tem calor dentro dele! Ata pyī Ata pyī!7 ESQUERDA – Ai! Dor que me rasga! Ipy'a tyty vaipa.8

AVÓ - Mbopy'a tyty.9

CINCO À DIREITA – Py’a Guaxu.10 Destemido. Engulo de sua valentia.

CINCO À ESQUERDA – Não, não... Temeroso na morte. O que faço com o medo dele? TODOS – Mbojevy! Mbojevy!11

O quinto à esquerda vomita em uma cuia.

QUATRO À DIREITA – É limboso... Coração limboso já viu de tudo um pouco. QUATRO À ESQUERDA – É... é... Seco! Parou de chorar faz tempo.

3

Xeaxu e'ỹa re – Ver –axu (s) à minha direita, pág. 28 4

Xeaxua re – Ver –xu (s) à minha esquerda, pág. 28 5

Axê – (v.i.) gritar sem pronunciar palavra como medo ou dor, pág. 28 6

Kuraxô, py’a – (s) coração, pág. 63 7

Ata pyī – Ver ata (s) brasa, pág. 26

8 Ipy’a tyty vaipa – Ver –py’a (s) tem taquicardia, com o coração palpitando, pág. 98 9

Mbopy’a tyty – Ver py’a tyty (s. modificado) fazer com que alguém fique taquicárdico, pág. 99 10

Py’a Guaxu – (s) corajoso – lit. “fígado grande”, pág. 99 11 Mbojevy – (s) Ver vomitar, pág. 194

(10)

Todos falam ao mesmo tempo.

AVÓ – Vamos cantar para ele. Pevy'aa pemoĩ pendepy'a re.12 Vamos alegrar esse coração sofrido.

Eles cantam, enquanto a velha índia, agora, reparte e repassa o sexo do morto.

AVÓ – Akuã-embu!13 (experimenta e sente prazer) UM À DIREITA – He'ēaxy! He’ē axy!14

SEIS À ESQUERDA (lambe os beiços) – Tembi'u ee!15 AVÓ - Mba'eaxy gui ha'e nhandereraa jepe.16

DOIS À DIREITA – Comi o hevi kua17 dele.

Risada Geral

DOIS À DIREITA – Você jexa kuaa uka.18

Mais risadas

CINCO À ESQUERDA - (arrota) – Xerevy atã ma.19 TRÊS À DIREITA (lambe dos dedos) – Ruxã'i.20

Mais risadas

QUATRO À ESQUERDA – Omboguevi atãmba ngovaigua kuery.21

A luz, gradativamente, se apaga. Agora só é possível ver a velha índia.

AVÓ (na medida em que menciona as partes do corpo do morto, coloca-as em um

cesto) – Dividam as mãos para as mulheres... Para os meninos se guiarem pela mata,

dividam os pés... A língua vai para os caciques... As orelhas para os pajés afinarem a escuta dos seus filhos e de toda a floresta (lá no escuro, onde ficaram os doze líderes

indígenas, há um burburinho. A avó pressente uma presença alheia. Ela funga. Ela cheira).

12

Pevy'aa pemoĩ pendepy'a re – ponham a alegria em seu coração, pág.98 13 Akuã-embu – experimenta e sente prazer

14

He’ē axy – Ver –axy (adv.) doce demais, pág. 28 15

Tembi’u ee – Ver e (adj) comida gostosa, pág. 30; ee variante do adj e – temperado c/ gordura, pág 31 16

Mba'eaxy gui ha'e nhandereraa jepe Ver -eraa jepe (v.t.direto) salvar - ele nos salva da doença, ág.34 17

Hevi kua - ânus 18

Jexa kuaa uka – 1. Tornar-se conhecido a alguém. 2. Por eufemismo, ter relações sexuais com alguém 19

Xerevy atã ma – já estou satisfeito; lit. minha barriga já está dura 20 Ruxã’i – (adj) bem pequeno, pág. 103

21

Omboguevi atãmba ngovaigua kuery – Ver –mboguevi (v.t.d) fazer alguém se afastar, indo de costas: fez todos os seus adversários se afastarem, pág.41

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UM À DIREITA (do escuro aonde se encontra) - Evoko ma oua!22

A avó me localiza e vem em minha direção. Quer me dar os olhos do morto.

UM À ESQUERDA - Não, não! Os olhos não.

Epa! Eu conheço essa voz! ... Sim, claro! É Carapiru, mesmo no escuro, eu sei que é ele.

AVÓ (ela grita) – Axê! Estes irão pra você... (silêncio) Toma. Come! (Eu estou, deveras,

assustada. Ela sabe disso. Ela sorri. Sorriso de canto de boca. Agora, menos incisiva, porém, mantendo a firmeza). Mecê quer de comer?

EU – Já falei que não, avó. Desculpa, mas, eu não como nem carne de bicho, que dirá de gente!

AVÓ – Bobagem, isso! Tudo pode ser gente, tudo! Bicho pode, árvore pode, gente pode ser gente, ou não! Comer os olhos do morto é ver o mundo com os olhos dele. Mecê não é escrivinhadora? Então, escrivinhador tem que ver o mundo com muitos olhos, ouvir com todos os ouvidos.

Eu gostaria de dizer a ela que isso é uma bela metáfora, mas receio que ela não veja desse modo. Eu, afinal, como vejo?

AVÓ – Pega, vamos! Engole. (ela me olha profundamente) Lembra, minha neta, que o padre também se alimenta do outro.

Eu – Avó, o que fala?

AVÓ – Pois não é ele que come do corpo e bebe do sangue de Cristo? Padre ikaru jae'a23. Come, anda!

Canto Dois – Eu sou o que não sei ou Da matéria fina dos sonhos

EU – Este é Teodoro. (imagem de um bebê) Ele é meu neto. Ele tem seis meses. Eu sonhei com ele na noite passada e, foi depois de ter comido os olhos e bebido o

²² Evoko ma oua – Ver Evoko (adv demonst) - Aí vem alguém! Pág. 37 23 Ikaru jae’a – tem muito apetite

(12)

sangue que a jaryi24 me deu, que o sonho nasceu dentro de mim. Eu não sei se foi sonho. Pode ter sido uma visagem. Bem, ele estava sentado em sua cadeirinha de bebê e eu vou em sua direção. Ele me vê e se agita de contentamento... Eu vou ao encontro dele, mas na medida em que me aproximo do Teo, ele vai reagindo de um modo estranho, diferente... Aquela agitação inicial vai dando lugar a outra coisa. É... eu percebo, ele está meio acuado. Tem medo de mim, parece... Eu me pergunto - Por quê? Será que ele vê coisas feias? Dizem, que as crianças até os sete anos são suscetíveis às visões. Acredito. É possível. ... Então, eu continuo caminhando em sua direção, mas o Teo, ele está muito assustado. Cada vez mais. Quanto mais eu me aproximo dele, mais assustado ele fica. ... Já estou a um passo de beijá-lo. ... É bem nesse instante que eu me percebo. Eu, na verdade, não poderei beijá-lo porque minha condição física me impede. É... eu me vejo. Tenho bico e penas. Penas pretas e brancas. Tornei-me uma mulher-pássaro ou um pássaro-mulher? ...Acordei. Suando, assustada. Vasculhei a cama pra ver se não tinha nenhuma pena caída por lá. Não tinha. Perdi o sono. Medo que a realidade e a ficção fossem uma coisa só? Também. ... E, tudo tudo, depois de ter comido aqueles olhos, de ter bebido daquele sangue! Ah, jaryi! ... Vocês estão pensando o mesmo que eu? ... Será que a avó, ela me enfeitiçou? Afinal, o Teo é um bebezinho! Sim, eu acredito que ele possa ver coisas! Agora, eu? Eu me vendo como um pássaro? Eu me vendo como ele mesmo estava me vendo? Mas por que ela me enfeitiçaria? Não faz sentido! ... A não ser, claro, que ela me enganou me fazendo pensar que eu comia o que não comi. É isso; pode ser! Os olhos que eu comi e o sangue que eu bebi não era de padre, coisa nenhuma! ...Será? Então quem era o morto? A quem pertenciam aqueles olhos? É, .. começa a fazer sentido. ... Não, não faz nenhum sentido! Eu nem sei mais o que falo, o que penso! Eu via o Teodoro como meu neto. Ele é que não me via como sua avó. ...Ah, foi só um sonho! Só um sonho! Só um sonho! ...Mas, afinal, do que são feitos os sonhos? De que matéria são tramados? Olha, eu só sei que perdi o sono... Fiquei pensando se o Teodoro não tinha sonhado também o mesmo sonho... quer dizer, nesse caso, pesadelo e, só não liguei pra minha filha porque eram três horas da manhã! Três horas da manhã e, eu lá me antropomorfizando...

24 Jaryi – (s) avó, pág. 48

(13)

Passagem de um Canto (dois) a outro Canto (quatro) – Da dança que cria asas e raízes

AVÓ – Toma, minha neta! É pra te ajudar escrevinhar o que precisa ser escrevinhado. EU – A senhora tava aí...

AVÓ – O tempo todo. Pega, vamos!

EU (Espera! Ela pensa que eu uso chocalho pra escrever?) – Avó, pra escrever eu uso lápis, caneta, lap top. Essas coisas...

AVÓ – Quer falar da minha gente, dos meus costumes e nem sabe a força do mbaraka mirim!25 (Ela movimenta o chocalho, inicia uma espécie de dança) *(...) Isto aqui é palavra em movimento, que dança na boca, que sussurra nos ouvidos... Se mostra aos olhos.

Eu olho pra ela dançando e parece que vejo raízes, muitas, em seus pés. Então, a avó é árvore?, eu penso.

AVÓ (ainda na sua dança) – Árvore, pássaro, água, terra, bicho do mato. Avó é de tudo um pouco...

Eu continuo olhando pra ela. Um misto de admiração e assombro porque, agora, além das raízes, eu percebo que ela tem asas enormes.

AVÓ (dançando ainda) – Você precisa se acostumar comigo. EU – Vai ser bem difícil, isso. A avó é uma caixinha de surpresas.

AVÓ – (Ela me convida pra dançar com ela) Come um pouco de mim, também, come! Vai, se lambuza de mim!

Eu, meio tímida, aceito o convite metafórico da avó. Ficamos lá eu e ela dançando, sei lá quanto tempo. Sei que ficamos assim...

25

Mbaraka mirim – (s) chocalho, pág. 67

*(...) O Chocalho do xamã é um acelarador de partículas (Eduardo Viveiros de Castro – Coleção Encontros)

(14)

EU (ainda dançando) – Aqueles olhos que você me deu/

AVÓ (dançando ainda) – /Não estavam enfeitiçados, não. Olhos de homem, urubu rei! EU – Urubu rei, eu?

AVÓ – Urubu rei, ele. Cuidado minha neta. Não dá palavra pro urubu rei, não! Se não...

Ela me passa o mbaraka mirim. Eu pego. Já não estou tão tímida, percebo pequenas raízes que se espalham pelos meus pés. E brotos de asas querendo rasgar a minha carne.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... EU (ainda de olhos fehados) – Se não?

Agora sim, abro os meus olhos. Cadê ela? Cadê a avó? Ela não está mais ali.

EU – Eu sinto... eu posso ouvir... sim, é ela que me chama novamente...

Aos poucos a voz de Valdelice Verón sai do meu escuro e, já é possível vê-la sentada, exatamente, onde ela ficou, tomando aquele copo de água.

Canto Três – Eu Sou Valdelice Verón... E tenho um exército Guarani-Kaiowá

ELA - Na manhã de treze de janeiro Kelen chegou correndo ao quarto. Kelen é minha filha.

Eu me aproximo dela e retomo o meu lugar de entrevistadora.

EU – Kelen... ela também tem nome de jurua?26

Ela não me responde. Olha-me, mas é como se não me visse. Passeia pela sua memória, eu acho.

(15)

ELA - Pois Kelen gritou Manhê o vovô tá ruim! A TV Globo, no Bom dia Mato Grosso do Sul dizia “O líder indígena foi encontrado à beira da rodovia que liga Juti a Caarapó. Em estado grave, foi levado para o Hospital Evangélico de Dourados”. Bom dia Mato Grosso do Sul? Bom dia Brasil? ...Bom dia Mato Grosso do Sul! Bom dia Brasil! ...Senti o meu corpo amolecer. Meu

medo é que me manteve em pé. Meu pai; xeru oikoa pukukue re27

, ele sempre disse não quero mulher atrás de mim, mulher é medrosa. Ah, meu pai... (Ela

se levanta, está agitada) Você não tem api'a,28 não tem memby ryru29pra saber sobre a força e os medos de uma mulher. Nunca te falei sobre isso, nunca. Mas, agora, eu vou falar. Mulher pode virar em yvytu apu'a30 pra defender os seus. Pode ser, como dizem os brancos, “o cão chupando manga”. E, eu fui. Cada vez mais, eu sou.... (ela volta pra

cadeira, senta-se) Ele dizia isso... de não querer mulher atrás dele, de mulher ser

medrosa... dizia assim antes de cada ação de seu exército. Mas eu, meu pai, xerua gui aju!31

Um som de trem se inicia distante de nós. Aos poucos ouvimos a sua aproximação.

EU - Exército?

ELA – Os Guarani-Kaiowá têm um exército de arcos, flechas e conduta de guerreiro. Eu sou Valdelice Verón. Sou guerreira Kaiowá. Só meu pai não via; não me via. E, eu sempre lhe respondendo Eu temo é pelo senhor,meu pai... pelosenhor!

O trem engole a fala dela. A sombra dele nos engole.

27

Xeru oikoa pukukue re – Ver puku (adj.) durante a vida toda de meu pai, pág. 95 28

Api’a – (s) órgãos genitais de mulher, pág. 73 29

Memby ryru – Ver memby (s) útero, 73

30 Ivytu apu’a – Ver apu’a ( adj.) tufão, vento tempestuoso, pág. 24 31

Xerua gui aju – Ver a gui (sufixo a com posposição) do lugar onde algo ou alguém está. Xerua gui aju – vim do meu pai, pág. 17

(16)

Canto Cinco – Para Poty quer ser atriz

A imagem do meu blog aparece na metade de um telão. A outra metade está reservada para a mensagem que chega de um celular. Então, pode-se ver o movimento das palavras que se interligam e se completam em um comentário, porque a escrita de quem comenta acontece em tempo real.

COMENTARISTA – Nhande Ka’aruju!32 Eu tenho quatorze anos e sou da etnia Guarani Mbya. Quero ser atriz. Você pode me ajudar?

EU – Oi. Eu não sei como posso ajudá-la. Você sabe como?

COMENTARISTA - Queria fazer um curso de teatro, mas moro longe. EU – Onde você mora?

COMENTARISTA – No tekoa Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo.

EU – Em uma aldeia! Eu posso conhecer sua aldeia? Posso levar uma oficina de teatro praí. Que acha?

COMENTARISTA – É bom. Mas, preciso ver com as lideranças daqui. Vou pra escola, agora. Depois combinamos.

Canto Quatro - Do corpo e do sangue de cristo ou Do desenterramento do novo enredo

AVÓ – Você me chamou, minha neta?

EU - Chamei? Não sei... estava aqui com os meus pensamentos.

AVÓ – Precisa de ajudinha... mas como não sou das letras, desconfia de mim.

EU – Não, avó. Não se trata, disso. É que preciso fazer um enredo, só que não sei como se faz isso! Pra fazer, eu teria que saber o começo o meio e o fim da história, mas avó, eu não sei! É estranho... me dá a sensação de ser um pouco Nhanderu, sabe?

AVÓ – Não diga bestagem, que você nem conhece Nhanderu Kuery!

32 Nhande Ka’aruju – boa tarde – após às 12 horas essa é a forma de saudação, mesmo que o encontro entre as pessoas ocorra às 24 horas, ainda é Nhande Ka’aruju, mas na despedida diz-se japytu’uju e no amanhecer do dia até às doze horas diz-se javuju. (informações recebidas por Jera Giselda – etnia Guarani Mbya, Tekoa Tenondé Porã)

(17)

EU – Sei bem que não! Mas é como, avó! Se eu tenho que saber tudo da história, passado presente futuro, começo meio e fim, é como se fosse, não é?

Avó pita o petỹgua33 dela. Impregna o espaço de fumaça. Eu tusso. Ela pita. Pita, pita, depois, solta fumaça em mim. Várias vezes.

AVÓ (quase sussurando) - Pra fazer enredo precisa primeiro enterrar Carapiru Awá-Guajá.

EU – Awá-Guajá está vivo! Como posso enterrar quem está vivo?

AVÓ (ela me entrega uma urna funerária) – O Carapiru que você vai enterrar não é o Carapiru que Nhanderu criou. Esse está vivo! O outro, esse que você criou na sua cabeça de jurua, esse é que precisa morrer. Sem enterrar o Carapiru da sua cabeça de jurua não tem enredo, não!

Canto Zero – Do enterramento de Carapiru Awá-Guajá ou Do epitáfio em sua urna funerária

Caminho com a urna funerária que jaryi me deu. Levo, também, um texto de teatro. Eu retiro alguma cenas, inclusive as profecias. As demais, depois de picá-las em nanos pedaços, ateio fogo em todas elas. As cinzas? Coloco-as na urna. Converso com Carapiru de dentro da urna.

.

EU – Carapiru Awá-Guajá, eu tentei... Você sabe que sim, mas não fui capaz. Eu achava que podia ser sua porta-voz quando você nem queria nem precisava de uma. Agora, olha bem, só sobrou as cinzas de cada palavra escrita em vão. As cinzas, o prólogo... as profecias. Essas partes, eu deixei que sobrevivessem... Eu gosto delas e antes de botar fogo nelas, eu quero ler pra você. É como se fossem vários epitáfios gravados em sua urna funerária, sabe? (uma luz se acende de dentro da urna, mas eu não me dou conta

disso) Não, você não sabe. Isso é coisa de não-índio. Coisa de jurua... Mesmo assim, eu

vou ler. ...Ora, por quê! Porque eu quero; pronto e acabou.

Passagem de um Canto (Zero) para outro Canto (Um) – Dos restos, memorial do esquecimento

Entre as páginas que salvei, escolho a Primeira Profecia – do trem

33 Petỹgua – (s) cachimbo, pág. 89

(18)

EU (Se é verdade que todos temos uma odisseia, esta profecia, diz respeito ao drama

pessoal de Carapiru Awá-Guajá. Está lá na Serra das Desordens, de Andrea Tonacchi. Está aqui, como material que sobrevive ao naufrágio de uma dramaturgia incinerada).

... Presta atenção, Carapiru! Vai doer, eu acho, mas é necessário... HUM MIL NOVECENTOS E SETENTA E OITO (a luz na boca da urna se intensifica) quê? Sim, sim. *(...) Foi o fatídico ano. Eu disse que ia doer... Mas, homem, sossega! Já passou... Já vai longe. Posso ler?

(A luz se agita, ainda, mais. Depois, se azula na sua tristeza. Sim, eu posso ler).

*(...) – ano de 1978, quando Carapiru escapa de um ataque surpresa de fazendeiros, mas sua família não, sendo toda ela dissimada

HUM MIL NOVECENTOS E SETENTA E OITO Som de trem rasgando o espaço

Carapiru Awá-Guajá ouve tiros perto dali.

Ele sabe que a bala, mais que assustar aves e répteis, elas matam. Ele sabe que a bala é a arma do homem branco

(a luz torna-se mais forte) ãh? Tá, tá... (reflito) Mas por que sem cor? (a luz pulsa, impõe um ritmo) Eu não concordo, mas tudo bem, que seja. (o que eu mais quero é ler essa profecia. Mudo a palavra e pronto...)

Ele sabe que a bala é a arma do homem sem cor.

EU – É isso? A arma do homem sem cor? Eu não tenho cor, Carapiru? (Agora, ele se

finge de morto. É o ponto final dessa sentença que ele acaba de me dar) ...É, eu não

tenho cor. (retorno à leitura)

Ele corre para lá onde está o seu clã. Ele corre para lá ao encontro da morte. Do clã morto à morte do clã. Jaz o tempo dos rituais mortuários. Agora o tempo do clã jaz.

Ele corre do tempo da morte, do fogo chispando o corpo do clã.

Muito distante pode se ouvir o ruído de um avião.

Ele tem uma panela e vontade de correr. Na sede, chupa cana em território privado. E pernas pra que te quero.

Ele tem arco, tem flecha.

No calor, banha-se em açudes alheios. E corre sempre, cada vez mais. Ele corre muito e sempre e sem parar.

Agora, o barulho do avião está mais próximo, capaz de engolir a minha voz.

Carapiru andante. Carapiru errante corre muito, cada vez mais. Carapiru Awá-Guajá corre por dez anos. ... Agora já pode parar. Pode olhar para o rastro de 2000 km que deixou para trás. Som de trem rasgando o espaço.

(19)

A sombra do avião está sobre as nossas cabeças. Não há mais corpo nem voz. Nem luz na boca da urna funerária há.

Canto Dois – Eu sou o que não sei ou Da matéria fina dos sonhos E da matéria viva do

enredo

Eu, mais por comodismo do que por pulsão, convenço-me de que enterrar Carapiru foi um grande acerto. Olho para essas três nativas que me contemplam no vazio de minha imaginação. A velha índia (a antropófoga), a madura (a da entrevista) e a jovem (a do blog).

EU (estou aos pés desse vazio, dessa matéria onírica de onde nascem os enredos, os

dramas, os poemas; os sonhos. Sinto-me atraída pela essência da mais velha. Vou em sua direção. Um claro lumia minhas mãos, as quais iniciam essa feitura de baixo pra cima, dando forma, contornos a esse corpo. Agora ela está na luz. Posso contemplá-la. Posso modificá-la se assim desejar. Posso nomeá-la, mesmo, na incógnita de quem é) –

Avó. (Sigo em direção a do meio e apalpo o escuro que habita o contorno da mulher

madura. Ela, também, recebe das minhas mãos as luzes que a modelam. Já posso percebê-la. Mais que isso, posso sentir sua carne, seu cheiro, sua respiração quase bélica e, também, posso lhe nomear) – Mãe. (repetindo o mesmo jogo cênico entre minhas mãos modeladoras e a luz que dá forma, sigo em busca da terceira, da mais jovem. Apalpo a matéria que dá forma e desforma, criando os contornos da jovem nativa, certamente, a futura atriz) – Filha.

Passagem de um Canto (dois) para outro Canto (zero) - Do Desenterramento da luz que fala

Trabalhando na matéria bruta da mais nova, sinto uma mão de homem segurando a minha mão de mulher. Minha mão está paralisada e, a luz que acompanhava minha modelagem se aloja, agora, na boca da urna funerária, onde mora o que resta de Carapiru. Por ela, Carapiru fala.

ELE – Não adianta me enterrar. Quanto mais você me enterra, mas eu broto! Das cinzas eu broto.

(20)

ELE – Enterrando a história que fizemos juntos? EU – Fizemos?

ELE – Acha que tudo só saiu da sua cabeça? EU – Também, saíram de outras partes de mim!

ELE – Muitas luas convivemos juntos. Jurua não tem memoria? Jurua só tem esquecimento!

EU – Você está sendo injusto. Pensa que foi fácil o seu enterramento? Não foi. Mas a vida é movimento. Você, muito mais que eu, sabe que não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio, não sabe? (...) O que o vento traz num dia, ele leva no outro. Não é assim que é?

ELE –Aquele yvytu ijava ete.34 Agora, outro vento está me trazendo. Você ouve? (...) Pode ouvir? Pode sentir?

Uma neblina toma conta do espaço. O som do vento é quase um lamento.

EU – Sim, eu posso.

ELE – Ouve? Sente? Então, sabe que é inútil me enterrar. Sabe que me movo (ele

quase sussurra) Ontem fui andarilho, onça, cacique? Hoje, talvez, eu seja o pajé. Aquele que vê o polvo, a cobra, o pássaro grande... Vejo os disseminadores da morte.

EU – Ando confusa. Não se deve tomar nenhuma decisão nesse modo duvidoso... Preciso de tempo.

ELE – Temos pouco tempo. Temos urgência. Não se demore. EU – Também tenho pressa. Tenho prazos, cobranças. ELE - Não se demore muito.

EU - Deixa eu te encontrar nesse novo enredo.

ELE – Eu vou, mas eu volto. Assim como o dia vem depois da noite, eu também tô indo e vindo o tempo todo. Só mais uma coisa... (agora fala mais baixo) este encontro entre um Awá-Guajá e um branco...

EU – O que é que tem?

ELE – Ani ke eremombe'u.35 Pra ninguém! Esse encontro é só nosso, só nosso...

34

Yvytu ijava ete – o vento estava perigoso

(21)

A luz da urna já se apagou. Carapiru se foi, mas deixou um nó na minha cabeça. Não sei quanto tempo fico em meus pensamentos.

Canto Seis – Das imagens que revelam o não revelado

Tão rápido como Carapiru aparece, ele desaparece. Carapiru é só um pensamento meu? A fala contudente dele é só um pensamento meu colocado em sua boca? ...Não sei. Sei da impressão que fica. Dessa confusão de pensamentos ora reais ora ficcionais, ora meus ora de ninguém. Por quanto tempo estou assim? Há quanto tempo ele, o fotógrafo, está ali, a me observar, a me espreitar, tal qual esse mar de olhos que me olham? Tal qual a velha índia que me espia e eu a ela?

FOTÓGRAFO – Olha só. Se reconhece?

EU (olho-me na minha imagem que ele acabou de fazer. Parece quente, saída da

fornalha. Ela me parece enorme, crescida no fermento que se mistura à carne, ao sangue, aos músculos que me compõem, me disforma) – Você, agora, deu pra

fotografar pensamentos?

FOTÓGRAFO – Quem dera! Mas neste caso é palpável. Você estava em qualquer lugar do planeta, menos aqui.

EU – Já conseguiu segurar uma onda de mar? ...Esse enredo parece o próprio mar no seu ir e vir. Ele me contém, mas não eu a ele. Eu sou só uma gota.

FOTÓGRAFO – Também comigo é assim... Às vezes, na revelação de uma foto ela se revela outra pra mim. O processo é uma linha tênue.

EU – Neste, eu começo a me sentir personagem. Eu, à mercê de mim... O pensamento daquela figura é dela ou é meu? Isso tá me consumindo.

FOTÓGRAFO – Fala; aonde tá o nó?

EU – ... Nisso está o nó. Em Carapiru está o nó. Na “avó” está o nó! Imagina, que ele suspeita dela? Receia que ela não é quem aparenta ser. ... Ela pode mesmo não ser. FOTÓGRAFO – Eu também posso não ser. Você, também, pode não ser quem aparenta.

EU – Eu, um urubu rei... ela falou, outro dia.

FOTÓGRAFO – Sua orientadora sabe disso? Dessa interferência de Carapiru sobre sua obra? Da avó sobre sua pessoa?

(22)

EU – Não. Isso eu preciso resolver comigo mesma. Se não fosse essa foto nem contigo eu teria falado.

Canto Três - Eu sou Valdelice Verón. Tenho um Exército Guarani Kaiowá E um pai morto a pauladas

O corpo de Valdelice Verón caminha de lá pra cá, enquanto busca no infindável ir e vir de sua memória, as palavras cruas para relatar o cozido de pai assassinado. O corpo dela é, todo ele, ressentimento e raiva. O meu por fora se mantém estático, sentado na cadeira. Por dentro, é fio condutor que se conecta com a dor das suas lembranças mais doídas, não cicatrizadas, sangrentas. O ir e vir de Valdelice Verón coloca os meus nervos em frangalhos. O silêncio que as lembranças desse episódio provoca, me envergonha. Pela primeira vez, é no corpo que a vergonha da minha consciência de jurua chega.

ELA – O pai, ele estava internado na UTI... (aqui, há longo silêncio repleto de imagens

internas, que são dela. Não nascem em mim. Moram nela) Pra poder vê-lo fora do

horário de visitas, eu paguei R$ 50 a um enfermeiro que eu conhecia. (ela silencia

novamente... seu silêncio continua cheio de dor, raiva, gastura). Esse enfermeiro, ele

me disse parece que foi meio grave. O que que ele é, mesmo? (outro silêncio;

agora entre ir e vir de seu corpo, até que ela para) Ele é meu pai. Cacique

Guarani-Kaiowá (retoma o ir e vir, o balançar de seu corpo) Eu sempre dizia pra ele - Medo, pai? Eu temo é pelo senhor! Mas, ele ria e me dizia. Não minha filha, você teme é por você! ... Nessa noite pouco dormi. Em meio a uma nesga de cochilo, ele chegou em meu sonho, rindo. Ele falou eu vou lá na roça filha, vou lá buscar milho branco pra gente fazer chicha. Chicha é uma bebida fermentada. (...) Lá pra onde eu vou vai ter festa grande, filha! (Ela para. Silencia novamente, mas desta vez, seu silêncio está cheio de imagens que sangram bem aos meus pés. Desconcerto-me).

EU (limpo a poça de sangue. Preciso falar qualquer coisa, quebrar esse silêncio

sangrento. Talvez um lapso no tempo) - Não acha que vai chover?

ELA - Vi meu pai como quem vê um peixe em um aquário e senti um segundo de paz. Ele ali, adormecido, plácido (ela me olha e não me vê. Em mim vê o jagunço, jurua como eu, que matou o cacique a pauladas) Que é que há? Eu

(23)

sei muito bem o que é plácido! Eu falo o português! Eu penso nessa bosta de língua imposta! (ela se desmonta toda) Mas eu sinto em Guarani. (novamente me olha e não

me vê. Vê o outro jagunço. Talvez, veja o instrumento que matou o seu pai) E você,

hein? Você fala o guarani? Pensa em guarani?

EU – Me perdoe, Valdelice. (olho para o mar de olhos que me olham)

ELA – Xeru oiko axy karamboae.36(ela olha para o mar de olhos que nos olham) Têm

olhos e enxergam. Ouvidos, e escutam só o próprio umbigo. O EU, o EU, o EU!

Ela não me ouve, ela não está ali. Ela está lá, na hora h.

ELA - Esse segundo de paz que eu senti foi logo antes da enfermeira tocar em meu ombro e me falar Você é parente? Seu Marcos Verón não agüentou. Ele acabou de falecer.

Canto Cinco – Para Poty quer ser atriz E o mundo virtual invade a nossa cena

O mundo virtual invade o espaço de meu enredo. O telão se divide entre o espaço de meu blog e o monitor do celular dela. Pode-se ver o movimento das palavras que se interligam e se completam em um comentário, porque a escrita de quem comenta acontece em tempo real. É a jovem Guarani retornando.

COMENTARISTA – Ka’aruju! Você está aí? Pode me responder? EU – Ka’aruju! Tudo bem com você?

COMENTARISTA – Sim. Tudo. Você quer conhecer a aldeia onde moro? EU – Caraca! Quero muito!

COMENTARISTA – Vem pro nosso encontro de jovens. Vai ser na sexta-feira, na Opy EU – Opy?

COMENTARISTA – É, na Casa de Reza. Você vem?

Evolução do Canto Cinco – Para Poty quer ser atriz E o mundo virtual invade a nossa

cena Quando a língua Guarani se espalha feito fumaça de petỹgua

36

Xeru oiko axy karamboae – meu pai passou por sofrimento (que eu vi). Adv. Ação no passado, e presenciada pelo falante (sobre karamboae), pág.57

(24)

Eu na Opy. A fumaça dos petỹguas se espalha pelo ambiente. Uma pequena fogueira aquece e ilumina o espaço, todo ele, rodeado por jovens Guarani. Somos, Eu e o fotógrafo, dois peixes fora d’água salvos por ela, a comentarista de meu blog. Finalmente, em carne e osso.

PARA POTY – Nhande ka’aruju. Que bom que vocês vieram. O encontro já vai começar. EU – Nhande ka’aruju.

FOTÓGRAFO – Nhande ka’aruju! Sobre o que vão discutir? PARA POTY – Aqui se discute sobre tudo. Meu nome é Para Poty. EU – Bonito. O que significa?

Nossa conversa é interrompida. Um ritual com canto, dança e fumaça dos petỹguas inicia o encontro - o bom encontro. Enquanto dançam, cantam e pitam, nós, os jurua kuery, de olhos vermelhos e garganta irritada, apenas assistimos. Há muita transpiração ali. Aos poucos, o canto e a dança se acalmam; adormecem. A fumaça não. Para Poty senta-se entre nós dois. Um jovem vai à frente e narra um sonho. Para Poty quase sussurrando, traduz todo o sonho para nós. Penso, ela é tradutora e nem sabe que é. Mas, mesmo que ela não saiba disso, mesmo que ela nunca saiba disso, aqui ela é. É a tradutora de sonhos, por isso pode falar baixinho, bem baixinho. Eu gosto, eu penso que Para Poty traduz, não ao pé da letra. Ela traduz... é ao pé do ouvido.

- Kuee mboa37, sonhei que xejaryi38 falava comigo. Ele falava Ijava ete. Nhembo’e reko ijava ete nhanhembo’eporã’i ta ramo. Ha vy pe’i tembiu pi py ha’e rami, teῖ ke reiporavo ma.

TRADUTORA – Anteontem, ele sonhou com sua avó, que disse pra ele:São desafios. Existem muitos desafios para rezar, quando vamos rezar mesmo. É a mesma coisa com a alimentação, você tem que escolher bem.

- Nhandy ndere’uvei ma rã, ndee ae ndeparte gui rive, nateinkontevei

ijayvua.

37

Kuee mboa – Anteontem (pág. 62)

(25)

Nhandy ndere’uvei ma rã, jurua roo kue ndere’uvei ma rã, sinhora roo ndere’u vei rã, evoi roo kue, mboi roo kue, xype, ju’i, ha’e rengua ndere’u vei rã.

TRADUTORA - Gordura, você não pode comer mais. Você mesmo tem que ter iniciativa, ninguém precisa falar. Não pode comer mais gordura, carne que foi de branco [porco] não pode mais comer, carne que foi de mulher branca não pode comer mais, carne de minhoca, carne de cobra, lesma, rã, não pode comer nada dessas coisas.

- Ndee reiporavo ma rã, tove ndera’y kuery to’u, ndee’i rive’i ma rã.

Repuã re re’u mba’emo rei. Ere ngau nderayxy pe “ejapo rora rive’i xe vy pe, mbeju rive’i”, ndee nderei rã ke, “tembiu vaikue ko pe’u, ndaevei ri ma pe’u aguã” nderei.

TRADUTORA - Você vai ter que escolher, pode deixar os seus filhos comerem, só vale pra você. Você levanta e come coisas simples. Você pede para sua esposa “faça apenas rora [farinha de milho], ou mbeju [tipo de beiju de milho]”. E você não pode ficar falando, “vocês estão comendo comida ruim, vocês não podem comer isso”, você não deve falar isso.

- Nderei rã nderay kuery pe, tove to’u, tove to’u ojeupe va rã pe. Ndee ha’e rami ndejeupe vã rã.

TRADUTORA - Não pode ficar falando assim para seus filhos, deixe que comam, deixe que comam para si mesmos. Você também está comendo para si mesmo.

- “Mba’e rã tu xeru, mba’e re tu xeramoῖ, mba’e re tu xeretarã, tembiu

oiporavo nguau ri”. Hei xe vai ko jaexe vai ko.

TRADUTORA - “Pra que o meu pai, pra que meu avô, pra que meus parentes estão escolhendo a comida?” Assim eu iria falar, assim se fala.

- Tekoaxy gui ha’e va’e re ju nhandeayvu, pero ndajaikuaai py mba’e

re pa ha’e, ha’e oikuaa rupi rã.

TRADUTORA - Criticamos porque somos tekoaxy, mas nem sabemos quais são seus princípios.

EU – O que é tekoaxy?

TRADUTORA – Coisas da terra, o que é imperfeito.

- Ha’e rami tujakue oikuaa xamoῖ kuery nhandereko ma ha’e va’e ae.

(26)

TRADUTORA - É assim que os mais velhos sabem, os nossos avós, é esse o nosso modo de ser. Tudo se renova.

PARA POTY – Pela dança e pelo suor ficamos mais leves.Ndaetei ky’a vei.

“Ndaetei ky’a vei”, ela fala baixinho. Mais tarde soube que dizia “o corpo não está mais sujo”.

Insurreição entre Cantos – De como Para Poty torna-se Valdelice Verón e Carapiru busca seu lugar na cena

Depois da Opy, do encontro de jovens, meu olhar está modificado. Retomo para minha dramaturgia e a aldeia não sai mais de mim. Retorno à entrevista com Valdelice Verón, mas toda vez que ela começa a falar, vejo que ela fala pela boca de Para Poty. Ela, Valdelice Verón está sentada em sua cadeira. Eu estou na minha. Mas na minha cabeça, Para Poty está entre nós. Tem corpo, tem voz, quer falar, quer agir. ... Carapiru, esse também se aproxima, mas fora da minha cabeça e, só mais à frente, é que terei consciência de sua presença. Já, o mar de olhos que me olham, também a ele olham.

EU – Como você ficou?

ELA – Naquele instante, eu fiquei nhemyrõ. Vocês mataram meu pai? Agora vão ter que ressuscitar!, eu gritava pelos corredores da UTI. Alguns enfermeiros tentaram me segurar. Mesmo assim, eu cheguei a socar um dos médicos. (...) Sedada e amarrada, eu escapei e fui pra rua. Era uma manhã de segunda-feira, me lembro bem. Eu despejei toda a minha raiva sobre a cidade dos jurua kuery. (ela levanta

bruscamente. Vem em direção ao oceano de olhos) Vocês é que deviam morrer, seus desgraçados! Vocês acabaram comigo! (depois, respira fundo. Olha em minha direção) E antes de desabar em pleno asfalto por causa dos calmantes, eu

balbuciei ao procurador da República Você! Você me enganou! A morte de xeru ojapo ndakyjevei aguã ramiri.39 Ah, xeru rãgue’i! Ah, xeru rãgue’i!40

39

Ndakyjevei aguã ramiri – meu pai fez com que eu não tivesse mais medo (Ver aguã rami – conj. (de tal maneira que), pág. 18

(27)

Eu apago a luz sobre Valdelice Verón. Acendo outra sobre Para Poty. Eu vou até ela. Carapiru aproveita para se aproximar mais desse instante cênico. Eu pressinto algo, mas ainda não tenho consciência de que se trata dele.

EU (que, ainda, vejo em Para Poty vestígios da tradutora, a ela pergunto) – O que é “nheyrõ”?

PARA POTY – Nhemyrõ. EU – Nhemyrõ?

PARA POTY (ela sorri) – Com o tempo você aprende. Nhemyrõ é um estado entre desespero, braveza. A gente sente muita tristeza quando está nhemyrõ. A gente em nhemyrõ é céu de tempestade. No instante em que um guarani se mata, ele está nhemyrõ.

Não, Para Poty não é só tradutora. Para Poty é mais. Quem é essa menina, que é moça, que é mulher? Quem é? Para Poty... um vir-a-ser? Para Poty, será? Pode ser... não custa experimentar, eu penso. Mas, é preciso sair desse campo das elucubrações. É preciso agir. Ser mais rápida que ela. Assim, entrego-lhe um texto. Ela senta-se em uma cadeira igual a de Valdelice; eu também, bem à sua frente. Ela sabe, não preciso dizer palavra. Para Poty sabe que, agora, é o devir de Valdelice Verón. Que é pela sua boca que Valdelice falará e, é claro, isso é melhor para mim. ... Afinal, Para Poty quer ser atriz? Então... aí está! O que é o ator, senão camadas e camadas de identidades que ele é capaz de possuir sem ser possuído? Não, não preciso sentir nenhuma culpa de lhe dar a voz de Valdelice Verón. Não preciso, desta vez, pedir perdão à Valdelice por lhe emprestar uma sombra, lhe dar um duplo.

EU – Como foi sua educação?

DUPLO dELA (ainda tímida, não se solta do texto, fica ali, bem pressa ao papel) - Fui criada em meio aos homens, na guerra. Junto de meu pai, eu participei... olha, acho que mais de dez ações de guerrilha. Sempre na reconquista do centro do mundo. (...) Eu era a única mulher entre centenas de homens. (ela para e me olha. Sorri e me diz) Nessa fala dela, você acha que ela sente orgulho?

(28)

PARA POTY - Eu acho que sim. EU – Então, tenta.

DUPLO dELA (Agora, ela já lê com mais soltura) - Fui criada em meio aos homens, na guerra. Junto de meu pai, eu participei... olha, acho que mais de dez ações de guerrilha. Sempre na reconquista do centro do mundo. (Aqui, bem aqui, ela dá mais ênfase) (...) Eu era a única mulher entre centenas de homens. (Para Poty sorri. Está feliz com

essa possibilidade de ser outra, ser quem não é sem perder o seu centro) Todas as

outras kunha41 só chegavam no dia seguinte da ocupação. Eu ia primeiro, por causa da habilidade de lidar com kuatiá.

EU – Kuatiá?

PARA POTY (agora, sem ler o texto) – Documentos produzidos por brancos.

Já, já vai acontecer um jogo entre Valdelice e seu duplo. Não sei se esse jogo fui eu quem criou. Se sim, diria que se trata de um jogo cênico. Mas pode ser que não. Pode ser que esse jogo não venha de mim, mas por mim. Digo, pelo processo que diz, muitas das vezes, na maioria das vezes, bem mais alto, do que a nossa pobre vontade cênica. Penso, fico pensando que, talvez venha de uma luta de forças, de ter o poder, de não perder sua voz nem seu canto. De não precisar de nenhuma representatividade, de não precisar do meu teatro. Assim, ELA apaga a luz sobre Para Poty e retorna ao seu lugar, à sua cadeira.

ELA – Eu sou Valdelice Verón; filha do cacique Marcos Verón, o cacique morto a pauladas...

Para Poty acende a sua luz.

DUPLO dELA (lendo, mas também, encarando Valdelice Verón) – ... por jagunços dos fazendeiros, coronéis dos latifúndios, que eles insistem em chamar de agronegócio. Capitães de Naus que querem a terra dos Guarani-Kaiowá, (ELA tapa a boca de Para Poty)

ELA - ... Mesmo que manchada de sangue.

41 Kunha – (s) mulher, pág. 63

(29)

EU (só agora percebo a presença de Carapiru nesse lugar que, já nem sei se é o lugar de

criação dramatúrgica) – Não, Carapiru, não! Agora não!

CARAPIRU – Agora sim.

EU – Deixa eu terminar essa cena.

CARAPIRU – Axê! Não vim pra pedir nenhum favor, não! Sou intruso, eu? Não, não. Eu sou mba'e ypy ymaguare,42 não sou?

VALDELICE VERÓN – Sim. Aqui é mais seu que nosso. PARA POTY – É... Você fica.

ELA oferece um copo de água para ELE. ELE bebe. Estou desconcertada com todos eles.

PARA POTY – Carapiru pode ser o mboruvixa43 que você procura, não vê? ELA – Sim, acha logo o lugar dele nessa história.

EU – Eu? E, vocês precisam de mim pra alguma coisa?

Sem saber muito bem como proceder, pego o copo da mão de Carapiru e bebo em um só gole a água que resta. Os três me olham.

ELE – Pensou?

EU – É besteira, mas vá lá! O que acha de fazer uma viagem no tempo... ir pra 1500, antes da chegada dos jurua kuery?

ELE – Pindorama! E pra quê?

EU – Mostrar as profecias do polvo, cobra e pássaro grandes. Tentar convencer os nativos de não fazer barganha de espécie alguma. Ouro por espelho, cocar por carapuça, essas coisas...

ELE – Não rezar a primeira missa. EU – Isso.

ELE – Quando eu parto?

EU (jurava que essa ideia espatafúrdia só renderia risadas, Mas não! ... É sempre

assim. Sempre, me surpreendendo... Dão risada do que considero sério e levam a sério

42

Mba’e ypy ymaguare – Ver ymaguare (s) - história antiga, pág.118 43 Mboruvixa – (s) grande líder, pág. 71

(30)

o que eu considero bobagem. E, tem mais... o que é pra dar risada e o que não tem o mesmo peso, a mesma medida. Eu não sei nada mesmo.... Então, me recupero da surpresa ou pelo menos tento) - Só o tempo de escrever essa cena. Toma, são as

profecias.

PARA POTY - Ake'e, any!44

ELA (se colocando entre eu e ele, não permite que ele pegue as profecias e, lhe

entregando arco e flecha, coloca uma de suas mãos na goela dele) - Aa ma ikuai

ereraa va'erã.45 Xerexa pyxo.46

PARA POTY – Kova’e ára gui47, joguereko!48 Juntos, ficamos mais forte.

VALDELICE VERÓN (Ela pega as profecias de minha mão. Usa de um isqueiro para

queimar as profecias) – Japy mba’emo yty!49

EU (reajo... tento tirar as profecias de suas mãos) – Não! VALDELICE VERÓN – Japy mba’emo yty!

Agora é a vez dele. Ele, Carapiru se colocando ente Eu e Ela. Ele, Carapiru me defende! Eu? Ganho dia, a noite, ganho essa dramaturgia.

CARAPIRU – Não. Não, vai queimar não! Dei minha palavra. Essa parte sobrevive. PARA POTY – Se deu palavra, está ha'eve va'e!50

ELA devolve-me as profecias, mas sei que está insatisfeita. ... Depois, sorrindo, encara Carapiru Awá-Guajá.

VALDELICE VERÓN – Carapiru é ava poapē!51 PARA POTY – Carapiru é ava poxy.52

Eles riem, parecem felizes.

44 Ake’e, any – nessa, não. Ver Ake’e – interjeição, que indica susto, espanto por ver coisa perigosa, errada ou desagrável, pág. 20

45

Aa ma ikuai ereraa va’erã – Ver eraa jepe (-v.t.direto) aqui estão as coisas que você vai levar, pág. 34 46

Xerexa pyxo – ver –exa pyxo (s.) os meus olhos estão bem abertos, pág.37 47

Kova’e ára gui – Ver gui - de hoje em diante, pág. 41 48

Joguereko – Ver -ereko (v.t.d) 1. Conviver com uma pessoa, assumindo responsabilidade pela vida dela; 2. Joguereko (v.i) andarem juntos, ajudando um ao outro, pág. 34

49 Japy mba’emo yty – Ver –apy (v.t.d) vamos queimar lixo, pág. 24 50

Há’eve va’e – expressão nominalizada; coisa ou ato correto, certo, pág. 43 51

Ava poapē – índio mítico, homem de unha, pág.27 52 Ava poxy – índio mítico bravo, pág.27

(31)

CARAPIRU – Opa marãgua oiko teī xee ha'eve vai!53

Canto zero – Do enterramento de Carapiru Awa-Guaja ou Da epígrafe de sua urna funerária Há o Desenterramento da luz que fala E Da luz que não fala

Só me restou estas folhas - recortes de uma dramaturgia que virou pó. Estas folhas, um arquivo word e uma urna funerária com um punhado de cinzas.

EU – Carapiru, sai dessa urna, vai. Vem conversar comigo. (ele não sai; ele não me

ouve; não está nem aí pra mim). Então, tá. Você não sai nem eu vou embora. Vou ficar

aqui, bem no meio desse caminho. (Eu fico. Ele não aparece. A sombra da noite cai) Carapiru... estamos bem no meio da noite escura. Iauraête vem comer a lua, não vê? (Ele come, come, rumina). São muitos os ruídos de sua ruminação. Não ouve? Daqui a pouco vou sentir frio e fome. O medo vai virar paúra. Eu sou jurua, lembra? (Eu sinto

frio. O som de um avião longínguo é como um sinal para mim) Tá ouvindo? Eles não

param de vir. Nem o breu da noite que Iauraête devora, eles respeitam. (desenrolo as

folhas). É sempre bom relembrar. Ouça...

Passagem do Canto Zero para o Canto Um – da luz que não fala ao avião que diz pra que veio

Tenho uma das profecias em mãos. Quero ler. Tenho esperanças que minha voz possa ecoar até ele no mais profundo dessa urna. Ajudá-lo na difícil tarefa de ressignificar o passado.

Canto UM – Da profecia Ave Ão

EU (lendo) - Há cinco séculos atrás - SEGUNDA PROFECIA - Do Avião – Ave Ão

Quase cinco séculos atrás é Carapiru-Pajé errante; Carapiru-Pajé visionário; Carapirú-Pajé profeta. Ele, de olhos fechados, enxerga o tempo da Ave gigante. Ela brota da vontade de Júpiter e sobrevoa o céu da floresta. Ela não pia nem canta como os pássaros que Carapiru-Pajé enxerga

53

Opa marãgua oiko teī xee há’eve vai – Ver há’eve vai (v. i. modificado) - mesmo que todo tipo de coisa aconteça, eu fico tranquilo – há’eve vai – estar tranquilo, não perturbado, pág. 43

(32)

de olhos abertos. Ela ronca e sua enorme sombra passeia pelas aldeias. Sua enorme sombra toca os corpos dos nativos. Corpos estremecidos. Suas asas não movimentam o ar? Carapirú-Pajé perplexo. Ave que caga e mija fezes e urina que não aduba nem fertiliza a terra? Ave que poliniza epidemia? Empesteia o clã de fraqueza, ferida e febre? Gérmen da doença. Ah, Ave de Encantamento! Ave Gigante fala. Ela diz: Eu inoculo Orthopoxvírus Variolae, vulgo bexiga. A

Varíola responde: Eu sou O Vírus.

Carapiru-Pajé de olhos fechados enxerga o interior da Ave. Ela sobrevoa; ele dentro dela. Onça quando come tatu, tatu sangra. Onça tritura corpo de tatu. Ave Encantada engole Carapiru e Carapiru não sangra. Nem morre dentro da barriga dela. Carapiru continua vivo. Olha pelo olho dela e vê a floresta lá embaixo. Vê o clã lá embaixo. Vê o clã olhando Ave Encantada no céu da floresta. Ela caga. Mixa sobre a aldeia. Empesteia a mata de fezes fumaça. Onça quando caga tatu, tatu não vira fumaça. Ave Encantada engole Carapiru e caga Carapiru fumaça? Como pode Ave cagar Carapiru fumaça e Carapiru continuar vivo dentro dela? É Ave de Encantamento, sim! Carapiru olha pelo olho dela e não tem mais aldeia lá embaixo. Não tem mais clã lá embaixo. Ave de Encantamento espalhou a morte lá. Ave Gigante, agora, diz Eu inoculo a morte. A Varíola retruca: Eu sou a Morte!

O dia amanhece e aproxima o som do avião. A sombra do avião ronda a minha cabeça. Ouço vozes que tramam o sinistro. São o piloto e o co-piloto. A profecia já é realidade; já é século XXI. Das asas da Ave Encantada é que se deslocam o Piloto e o Co-piloto; eu posso ver... Posso ouvir.

PILOTO – Você tem medo de homem-bomba?

CO-PILOTO – Não. Não tenho medo de terrorista burro. (...) Você tem?

PILOTO – Não. (...) Tenho medo de Papai Noel. (Riem) E você tem medo de quê? De quem?

CO-PILOTO – De arco e flecha. Sempre estão atrás de um “cara pálida”. (riem) Medo de fantasma, você tem?

PILOTO – Só tenho medo do que vejo.

CO-PILOTO – Não tem medo de homem-varíola, então. (riem). Imagine, o homem

inocula o vírus. Toma banho, se perfuma, veste o seu melhor terno, pra não causar nenhuma suspeita. Pega a bagagem, o passaporte e segue para o aeroporto. Ele passa pelo detector de metais, tranquilamente. Atrás dele vem o homem-bomba. O detector denuncia. O homem-bomba é descoberto, detido. Sai nos jornais, na TV. Milhões de pessoas salvas pelo detector. O detector ganha status de deus e a sociedade respira aliviada. (...) Enquanto isso, o homem-varíola espalha a epidemia. Quatorze dias depois, quando o homem-bomba já foi esquecido pela mídia... ele vai ao teatro. A casa está cheia, vê? Ele está na plateia. Bem ali, ó. Naquela fileira ali, tá vendo?

(33)

PILOTO – Ali?

CO-PILOTO – Na outra, tem que ser um cara bem-apessoado. Ninguém desconfia de homens bem-apessoados.

PILOTO –Aquele lá?

CO-PILOTO – Bingo! ... Imagina, ele ali pesteado e pesteando com o vírus da varíola neste lugar fechado, ar condicionado, por duas horas.

PILOTO – Duas horas!

CO-PILOTO - ... Olha lá, olha! O igarapé! A aldeia tá logo atrás... PILOTO – Se prepara então!

O som ensurdecedor de avião é seguido de dinamites. Há fumaça cinza. A sombra do avião cresce. Escurece.

Canto Quatro - Do corpo e do sangue de cristo ou Do desenterramento do novo

enredoEDo encontro marcado entre as mulheres

EU estou repousando na rede. A avó chega. Está agitada. As outras duas estão com ela e mantém certa distância.

AVÓ – Epu'ã katu!54 Vamos, acorda, minha neta! Você precisa trabalhar na minha lavoura.

EU – Avó não me dê enxada, que meu instrumento é caneta. AVÓ – Devia saber que é a mulher quem veste os espaços.

EU – Então por que me deu olhos de padre pra comer? Eram de padres, não eram? AVÓ – Hum! (...) Cada um come é pra si mesmo.

EU – Mas eu não queria. A avó insistiu.

AVÓ – Remexe a terra, e não quer se deparar com a cobra? EU – Quer que seja envenenada por uma?

AVÓ – Quero que me diga aonde está Carapiru? EU – Então não sabe? A avó sabe muito bem!

AVÓ – O da sua cabeça sei bem. Mas falo do outro, o de carne e osso, cria de Nhanderu. Esse desapareceu quando o outro foi a Pindorama.

54

Epu’ã katu – Ver Katu (adj. Partícula átona, indicando inyensidade ou até brusquidão: Levante-se!, pág. 57

(34)

Paira silêncio pertubador entre nós. A avó, parece, espera de mim uma resposta, que eu não tenho pra lhe dar.

EU – Está pensando que o primeiro foi com o segundo? AVÓ – Diga que isso não é possível.

Eu nada digo. Eu não sei.

EU – Diga a senhora que isso não é possível.

O silêncio desconcertante está lá, reinando entre ela e eu. Aos poucos, dá lugar ao sentimento comum de angústia, contagia nós quatro. As outras se aproximam mais.

AVÓ – Os Carapirus correm risco de vida, eu pressinto. Você precisa fazer alguma coisa!

EU – Mas o quê?

VALDELICE VERÓN – Manda reforço pra lá. Nessa guerra, os guerreiros têm arco e flecha, enquanto os saqueadores tem arma de fogo. Tem que ter igualdade tape yke jovai re!55

EU – Você está sugerindo...

AVÓ – Mboka.56 Todos os dedos dos pés e das mãos: kuã mbyte rupigua, 57 kuã ra'y'i,58 kuã guaxu.59

VALDELICE VERÓN – Mboka, mboka! Arranja logo é... os AR-15! Assim, a gente acaba com o problema da invasão é na raiz.

PARA POTY - Não. Melissinha, não!

EU – Melissinha! AR-15! Minha arma é a palavra... A pa-la-vra. Depois, quem as levaria?

PARA POTY – Eu.

AVÓ – Minha neta, minha neta, parece que vai precisar repetir a lição. EU – Que lição?

AVÓ – Pega a caneta. Escreve logo essa cena. Para Poty... ela leva as armas.

PARA POTY – Levo. Melissinha, não. Manda logo os M-16. Tem mais calibre, mais mira.

55

Tape yke jovai re – Ver Yke (s) – lado; tape yke jovai re - nos dois lados do caminho, pág. 118 56 Mboka (s) – espingarda, pág. 71

57

Kuã mbyte rupigua (s) – dedo médio, pág. 61 58

Kuã ra’y’i (s) – dedo mínimo, pág. 61 59 Kuã guaxu (s) - dedo polegar, pág. 61

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