TÃO DENTRO E TÃO FORA, TÃO FORTE E TÃO FRACA: A REPRESENTAÇÃO CORPORAL E OS PAPÉIS SOCIAIS DA MULHER NO CAVALO MARINHO DA
ZONA DA MATA NORTE DE PERNAMBUCO
Raíssa Batista Fonseca (UFPE)
Estudante de bacharelado do curso de Ciências Sociais, da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Aluna-pesquisadora do projeto de pesquisa O Corpo em Festa – mapeamento de fontes e referências acerca do corpo em movimento nas culturas populares e tradicionais, coordenado pela Profa. Maria Acselrad, vinculado ao grupo de pesquisa Arte, Educação e Diversidade Cultural, do Depto. Teoria da Arte e Expressão Artística, da UFPE. e-mail: [email protected]
Resumo
Atualmente percebe-se uma significativa ausência de trabalhos que contemplem integralmente o tema da mulher no cavalo marinho. Dessa forma, o presente trabalho tem por objetivo analisar a representação corporal e o papel social da mulher no folguedo do Cavalo Marinho, considerando a sua relação com o contexto histórico e sociocultural em que se encontra inserida, no caso, a zona da mata norte pernambucana. A pesquisa segue uma abordagem da antropologia do corpo e da dança, explorando a representação dos personagens femininos e relacionando os movimentos e representações dos seus corpos com as respectivas condições sociais. Realizando leituras e discussões de texto, observações de campo, entrevistas, aprendizagem da dança e laboratórios de criação, com base no entendimento do conceito de figura, almeja-se compreender a percepção local sobre o assunto.
Palavras-chave: cavalo marinho; gênero; corpo; dança.
SO IN AND SO OUT, SO STRONG AND SO WEAK: BODY EXPRESSION AND SOCIAL ROLES PLAYED BY THE WOMEN ON THE CAVALO MARINHO IN THE
ZONA DA MATA NORTE OF PERNAMBUCO
Abstract
Nowadays, there is a significant lack of works about the woman theme on the Cavalo Marinho. Thus, the present work aims to evaluate the body expression and social roles played by the woman on the Cavalo Marinho popular representation, considering its relationship with the environment according to social-cultural and historical context where is located – the "Zona da Mata Norte of Pernambuco". The research is based on anthropology of body and dance, exploring the representation of female characters, linking movements and representations of their bodies to their social conditions. Realizing documental readings, discussions, field observations, interviews, dance learning and creative labs assuming the understanding from concept of figure. Thus, it is expected comprise the local perception on the subject.
Introdução
Entender o processo de inserção das mulheres no folguedo do cavalo marinho da zona da mata Norte de Pernambuco, observando as personagens femininas e a participação das mulheres na brincadeira, refletindo sobre a construção de seus corpos e de suas danças, além de suas representações são os principais objetivos desta pesquisa. A relação entre esses elementos nos parece de extrema importância para o entendimento da realidade social local e assim, para a compreensão da experiência do corpo e da dança, vivenciada pelas mulheres dentro da brincadeira.
Através da perspectiva da antropologia do corpo e da dança, temos trabalhado os conceitos de corpo, dança, gênero e cultura popular. Além do levantamento bibliográfico com base nos trabalhos desenvolvidos acerca da brincadeira (MARINHO,1984; MURPHY, 2008; ACSELRAD, 2002; TAVARES, 2010; BARRETO, 2011), a pesquisa conta com a realização de trabalho de campo e desenvolvimento de
laboratórios de criação, com base no conceito de figura1
O grupo em foco é o Cavalo Marinho Estrela de Ouro de Condado, mas a pesquisa conta com informantes de outros grupos da região para dar maior entendimento aos aspectos comuns da brincadeira. O grupo foi escolhido por ser, no momento, o mais atuante na região e por apresentar um maior número de figuras femininas em suas brincadeiras.
, buscando assim acessar a compreensão das categorias estéticas nativas. Entendemos aqui por estética, o que sugere Zemp (1998), ou seja, algo que não se resume ao conceito de belo, mas inclui também as "noções de justeza e de qualidade da execução, competência dos executantes, maneira de avaliar uma dança e sua música segundo as normas culturais de uma sociedade (ZEMP, 1998, p.24).
Entre corpos e danças
A concepção sobre o corpo nas culturas populares e tradicionais sugere uma ideia integralizadora entre corpo e meio. Esse corpo representa, segundo Le Breton, o vínculo entre o "homem e todas as energias visíveis e não visíveis do mundo" (LE BRETON, 2011, p.50). Sendo assim, o corpo é o eixo de relação com o mundo. No
cavalo marinho, o corpo se apresenta pelo acúmulo de concepções e experiências que elaboram aspectos simbólicos que vêem a constituir a sua representação, tais como: a força desenvolvida no trabalho da roça, exigindo uma forte virilidade, bastante presente na brincadeira e a fragilidade, ou lugar da proteção e do cuidado, designado às mulheres, privadas de algumas situações cênicas ao longo da brincadeira.
O folguedo do cavalo marinho consiste numa brincadeira que acontece tradicionalmente na zona da mata norte Pernambuco e no sul da Paraíba. Esse folguedo está ligado à realidade cotidiana dos brincadores, representada por vários personagens e danças que se desenvolvem ao longo de quase oito horas de duração.
As mulheres, no passado, participavam de forma secundária da brincadeira, através da costura de roupas e produção de alimentação, não podendo participar diretamente da brincadeira. Ultimamente, as mulheres passaram a participar diretamente nas rodas de cavalo marinho, porém assumindo ainda papéis limitados.
Os personagens femininos são, geralmente, pensados e representados pelos homens, construindo um corpo do qual Bakhtin (1993) trata de "grotesco", que produz o riso na festa, através da paródia. Tais personagens estão diretamente ligados à realidade cotidiana, fazendo referência à fragilidade física da figura da mulher, como é o caso da Pastorinha, através de um comentário sobre a prostituição na região, e à fragilidade moral da figura da mulher, através da sua ridicularização, como é o caso da Véia do Bambu, que assedia o público com seu comportamento lascivo, e da Catirina, que rompe com padrões estabelecidos, pelo fato de possuir dois maridos.
A realidade das mulheres da zona da mata norte de Pernambuco é constituída
sobre as ideias do patriarcado rural, através da existência da chamada "dupla moral"2.
Através de uma análise da representação corporal e do papel social da mulher na brincadeira podemos perceber que a dança pode ser considerada um lugar importante de representação e transformação cultural e simbólica de uma comunidade. "A dança nos revela sobre a sociedade e sobre o comportamento dos homens que engendram os sistemas culturais diversos" (KAEPPLER, 1997, p.8), apresentando-se não apenas como um reflexo da sociedade, mas também como um comentário sobre ela, ocupando
1 Figura é uma categoria nativa que designa o que entendemos por personagem.
"inteiramente seu lugar, do ponto de vista antropológico, no estudo de estrutura, de relações sociais, de ritual e de filosofia" (p.2).
Considerações
A importância desse tema consiste na própria identificação e no reconhecimento do papel das mulheres brincadoras e sua relação com seus corpos dentro do folguedo. Buscando entender por quais motivos elas passaram da periferia da brincadeira – ajudando na comida, costurando as roupas – para dentro da brincadeira – participando como tocadoras no banco, colocando figuras e dançando nos cordões. Percebendo a construção e a transmissão de saberes através desses corpos, processos esses que vêm sendo ressignificados, ao longo do tempo e no espaço. E, por fim, permitindo a compreensão histórica de relações de poder na sociedade brasileira (FORTES, 2006). Assim, o foco no estudo das questões de gênero feminino possui imensa relevância, para o entendimento da transformação do papel da mulher na brincadeira do cavalo marinho e, consequentemente, na sociedade brasileira.
Referências
ACSELRAD, M. Viva pareia!: a arte da brincadeira ou a beleza da safadeza - uma abordagem antropológica da estética do Cavalo-Marinho. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002. Dissertação (Mestrado em Antropologia), Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002.
BAKHTN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de Fraçois. Rabelais. São Paulo-Brasília: Edunb, 1993.
BARRETO, T. Sobre corpos, desejos e pontes: relato de uma trajetória pessoal de pesquisa e criação em dança. Recife: Faculdade Angel Viana, 2011. Monografia (Monografia de Especialização), Pós-Graduação Latu Sensu em Dança – Práticas e Pensamentos do Corpo, Escola e Faculdade de dança Angel Vianna, 2011.
FORTES, C C. É possível uma história medieval de gênero?: considerações a respeito da aplicação do conceito gênero em história medieval. In: SEMINÁRIO
INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, 7., 2006, Florianópolis. Anais... Florianópolis: UFSC, 2006.
FREYRE, G. Sobrados e mucambos. Rio de Janeiro: Global, 2004.
KAEPPLER, A. L. La Danse selon une perspective anthropologique. Danse Nomade: regards d'anthropologues ET d'artistes. Nouvelles de Danse, Bruxelles, n.34/35, 1997. p.24-46. (Tradução livre para o Português: Giselle Guilhon Antunes Camargo).
LE BRETON, D. Antropologia do corpo e a modernidade. Petrópolis, RJj: Vozes, 2011.
MARINHO, E. O folguedo popular como comunicação rural: estudo de um grupo de cavalo marinho. Recife: UFRPE,1984. Dissertação (Mestrado em Administração), Universidade Federal Rural de Pernambuco, 1984.
MURPHY, J. P. Cavalo-marinho pernambucano. Tradução de André Curiati de Paulo Bueno. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
TAVARES, R. O cavalo marinho de Condado: a beleza da brincadeira e a
representação das mulheres e das crianças (1960-1990). In: ENCONTRO REGIONAL ANFUH-RIO, MEMÓRIA E PATRIMÔNIO, 14., 2010, Rio de Janeiro. Anais... Rio de janeiro: UNIRIO, 2010.
ZEMP, H. Pour entrer dans la danse. In: _____ (Dir.). Les Danses du Monde. Paris: Collection CNRS/Musée de L'Homme, 1998. p.3-25. (Tradução livre para o português: Maria Acselrad).