Roger Maliski de Souza
“O trabalho para o homem não é apenas fonte de recursos para adquirir bens, mas também uma maneira de socialização, que permite ao homem construir a sua identidade”.
Chico Xavier
Para Limongi-França e Zaima (2002, p. 406) a QVT é
associada a um “conjunto de ações de uma empresa que envolve a implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho”.
Cole et al. (2005), traz que a QVT inclui vastos aspectos
no ambiente de trabalho e que estes podem vir a afetar diretamente a saúde e a atuação do funcionário dentro da empresa.
Walton (1973)
O autor visualiza o trabalho, em primeiro plano, como meio do indivíduo ganhar a vida. A compensação recebida pelo trabalho realizado é um conceito relativo, não um simples consenso sobre os padrões objetivos e subjetivos para julgar a adequação da compensação.
Hackaman e Oldham (1975)
A QVT pode ser avaliada em função das dimensões da tarefa, do estado psicológico da pessoa, da percepção do trabalhador em relação ao significado da sua função e dos resultados pessoais e de trabalho.
Westley (1979)
Em sua pesquisa, o autor classifica e define quatro problemas que afetam diretamente a QVT: o político, o econômico, o psicológico e o social.
Werther e Davis (1983)
Os autores afirmam que a QVT pode ser afetada por
diversos fatores como: supervisão, condições de trabalho, remuneração e cargos. Defendem ainda que a natureza do cargo é a que envolve mais o trabalhador.
Nadler e Lawler (1983)
Identificaram fatores que preveem o sucesso dos projetos em QVT, são eles: percepção da necessidade; o foco do problema que é destacado na organização; estrutura para a identificação e solução do problema, teoria/modelo de projeto de treinamento e participantes; compensação projetada tanto para os processos quanto para os resultados; sistemas múltiplos afetados; e envolvimento amplo da organização.
Huse e Cummings (1985)
Abordam a QVT como uma forma de pensamento envolvendo pessoas, trabalho e organização, expostas em quatro aspectos: participação do trabalhador; o projeto de cargo; a inovação no sistema de recompensa e a melhoria de trabalho.
Padala e Suryanarayana (2010, p. 1) propuseram uma
explicação mais objetiva sobre as dimensões de QVT, onde mencionam que deveriam ser divididas em: dimensões clássicas e dimensões contemporâneas.
Dimensões clássicas incluem condições físicas de
trabalho, bem-estar dos funcionários e assistência ao empregado, fatores do trabalho e fatores financeiros.
Dimensões contemporâneas, incluir a negociação
coletiva, segurança industrial e saúde, processo de reclamação, qualidade, participação em círculos de debates, equilíbrio trabalho-vida e os trabalhadores na gestão, e assim por diante.
QV QVT
Pouco se conhece na literatura sobre a qualidade do
ambiente de trabalho dos trabalhadores com surdez, e se esse ambiente pode ou não influenciar positivo ou negativamente a sua performance.
Avaliar a qualidade de vida no trabalho das pessoas
surdas encaminhadas pela Escola Geny Ribas, em atividade nas empresas de pequeno, médio e grande porte da região de Ponta Grossa, Paraná.
Levantamento do número de trabalhadores surdos em
atividade nas empresas da região da cidade de Ponta Grossa - Paraná, cadastrados pela Escola Geny Ribas;
Questionários aplicados foram analisados para
identificação dos fatores que poderiam estar comprometendo a qualidade de vida no trabalho dos trabalhadores surdos;
Investigado a existência ou não correlação entre a
evasão dos trabalhadores surdos e fatores que apontam para a qualidade de vida no trabalho;
A importante busca por um ambiente interno seguro,
produtivo e de qualidade fundamental em toda empresa, inclusive aos trabalhadores com necessidades especiais.
A aplicação de métodos de análise no ambiente de
trabalho ou de QVT é realizada através da oportunidade dada aos funcionários em expor o que de fato ocorre em seu espaço de trabalho diariamente.
São poucas as empresas que tem à disposição um
profissional intérprete. Assim, muitas recorrem a centros de ensino específicos no trabalho com pessoas surdas.
O trabalho tornou-se importante devido à necessidade
da presença de profissionais intérpretes da língua brasileira de sinais – LIBRAS, para que fosse possível a transmissão verbal da avaliação da QVT.
As novas organizações
Qualidade de vida no trabalho QVT
Leis que regem a inclusão social das pessoas com
necessidade especiais - auditivas
A pesquisa foi aplicada em 107 trabalhadores com
surdez, em 36 empresas.
Período: Setembro à Novembro de 2014;
A aplicação do questionário se deu em diferentes
horários com o intuito de respeitar os turnos de
trabalho de cada trabalhador entrevistado.
O questionário foi repassado para as intérpretes de
LIBRAS da Escola Geny Ribas uma semana antes
das datas marcadas com o objetivo de permitir que
as intérpretes pudessem analisar as questões e a
possível necessidade de aperfeiçoamento do
vocabulário.
O questionário utilizado foi referente ao modelo de
Walton (1973) e aprimorado por Timossi (2009), o qual contou com 8 tópicos e 35 questões abrangentes à QVT.
Para identificar os anseios dos funcionários em relação
à QVT foi especificada no modelo adaptado por Timossi (2009) uma escala do tipo Likert, polarizada em cinco pontos.
Escala de respostas de QVT Fonte: Timossi (2009)
Nessa pesquisa foi aplicado o questionário nos
trabalhadores com surdez para obter índices de satisfação/insatisfação, respeitando os 8 critérios propostos por Walton (1973) e que fora traduzido por Timossi (2009) em uma linguagem mais acessível para os investigados.
Os dados coletados através da aplicação do
questionário nas dependências da Escola Geny Ribas, com o apoio de professoras intérpretes de LIBRAS.
Para cada questão do questionário foi desenvolvido um
Os critérios analisados na pesquisa foram enumerados e subdivididos em:
1 - Salário justo e adequado,
2- Às suas condições de trabalho,
3- Ao uso das suas capacidades no trabalho,
4- Às oportunidades que você tem no seu trabalho, 5- À integração social no seu trabalho,
6- Ao constitucionalismo (respeito às leis) do seu trabalho,
7- Ao espaço que o trabalho ocupa na sua vida.
33% 36% 11% 14% 6% 3.2 Capacidades muito insatisfeito insatisfeito neutro satisfeito muito satisfeito 5% 7% 58% 30% 2.4 Condições de Trabalho insatisfeito neutro satisfeito muito satisfeito
Em relação ao critério (1.0) salário, a insatisfação
salarial por parte dos trabalhadores com surdez é algo ainda que necessita ser melhor estudada, investigada e respeitada pelas empresas, conforme estipula o inciso XXXI do artigo 7.° da Lei de Cotas, que proíbe qualquer discriminação no tocante a salário e a critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência.
Em relação ao critério (2.0), condição de trabalho,
trata-se do uso de tecnologias no local de trabalho. Onde é possível identificar uma carência de materiais de estudos específicos para as pessoas com surdez e de profissionais intérpretes de LIBRAS dentro das empresas.
Em relação ao critério (3.0), capacidade no trabalho, a
falta de autonomia em relação à tomada de decisões, ao exercício de suas atividades e á responsabilidade conferida ao trabalhador com surdez, condiz com a sua falta de perspectiva de crescimento dentro da empresa.
Em relação ao critério (4.0), oportunidade no trabalho,
denota-se carência de oportunidades de crescimento profissional e de treinamento de pessoal ofertados pelas empresas. A lei de cotas não regulamenta a promoção do trabalhador com surdez nas empresas.
Em relação ao critério (5.0), integração social, a
insatisfação refere-se a falta de valorização das idéias e iniciativas dos trabalhadores com surdez. Essa condição mostra que a maioria das empresas tem buscado apenas cumprir com o que a lei de cotas exige em relação à contratação desses trabalhadores.
Em relação ao critério (6.0), respeito às leis por parte
das empresas, foi constatado a falta da liberdade de expressão no ambiente de trabalho, decorrente da falta de meios de comunicação entre os trabalhadores surdos e os demais colegas e chefes.
Em relação ao critério (7.0), o espaço em que o trabalho
ocupa na vida do trabalhador, foi possível observar um índice de satisfação em todos os gráficos. Entretanto é necessário ressaltar a importancia de proporcionar a esses trabalhadores horários flexíveis para descanso, lazer.
Em relação ao critério (8.0), a relevância social e a
importância do trabalho, o índice de insatisfação apontou para a falta de orgulho do trabalhador com surdez na realização do seu trabalho. Foi possível observar que empresas demonstram não dar credibilidade aos trabalhadores com surdez, relegando a esses as atividades de menor responsabilidade.
O ingresso e a permanência no mercado de trabalho por
parte de uma pessoa com deficiência pode ocorrer ou pela obrigatoriedade das empresas de respeitar a lei de cotas ou pela necessidade do portador em trabalhar, sentindo-se útil e participativo no ambiente social.
Para que essa participação ocorra, são necessários
conhecimentos tanto por parte dos gestores, como também por parte dos próprios portadores, desde a necessidade de escolaridade até a qualificação e o treinamento.
As atualizações nas leis que regem as pessoas com
deficiência, ao longo dos anos, vêm obtendo avanços importantes, porém, há muito ainda a ser feito nesse sentido.
Isso está diretamente relacionado ao preparo da
empresa em receber esses trabalhadores, através de conhecimento, treinamento, adaptação e maquinários, permitindo a total adaptação dos trabalhadores e eliminando qualquer dificuldade em operar suas atividades dentro da empresa.
È importante ressaltar nesse momento também à
contribuição de profissionais intérpretes em LIBRAS. Sem a qual não seria possível propiciar aos participantes dessa pesquisa a compreensão das questões levantadas pelo modelo proposto.
Ao avaliar a qualidade de vida no trabalho dos
trabalhadores com surdez, através do instrumento proposto por Walton modificado por Timossi (2009), foi possível identificar algumas das causas das insatisfações, como por exemplo, a falta de um canal de comunicação propício para esses trabalhadores e de credibilidade por parte das empresas.
Poucas pesquisas em relação a Qualidade de Vida no
Trabalho das pessoas com deficiência.
A falta de um questionário de Qualidade de Vida no
Trabalho específico para as determinadas deficiências
A pesquisa sugere a importância do desenvolvimento de
pesquisas futuras em relação aos critérios investigados.
A necessidade de criação de um instrumento específico
Através desta pesquisa, foi possível compreender que
existe muito a ser feito para que os trabalhadores com surdez ou demais deficiências estejam no mesmo patamar das pessoas consideradas “normais”, seja em relação aos seus direitos trabalhistas, em relação à desigualdade social.