CONSTITUCIONALIDADE DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE DEPENDENTES QUÍMICOS
Palhoça 2019
CONSTITUCIONALIDADE DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE DEPENDENTES QUÍMICOS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof. Tania Maria Francosi Santhias, MSc.
Palhoça 2019
De antemão, agradeço a Deus por nunca me abandonar e estar sempre presente em meu coração. Agradeço também aos pais, Patrícia Porto e Valmir Santos da Rosa, por terem me proporcionado os meus estudos ao longo desses cinco e terem me apoiado em todas minha decisões; à minha família pelo apoio.
Agradeço aos meus leais escudeiros, Vilso, Simone, Igor, por terem compartilhado seus conhecimentos comigo ao longo desses cinco anos, e aos demais amigos por terem participado de bons momentos comigo.
Reservo agradecimentos especiais à minha orientadora, Profª Tânia Maria Francosi Santhias, aos professores e à Universidade do Sul de Santa Catarina, pelo ensinamento, oportunidade e suporte.
Por fim, às Atléticas de Direito da Unisul A.A.D.U. e à Cavalaria que me acolheram e me proporcionam os melhores cinco anos da minha vida e pelas amizades que me trouxeram, histórias e bons momentos.
O presente trabalho verificou a constitucionalidade da internação compulsória de dependentes químicos. Para tanto, tematizou-se os aspectos essenciais relativos à matéria abordada: internação compulsória, dependência química, capacidade civil do dependente químico, direitos e garantias fundamentais e a definição de constitucionalidade da medida de internação compulsória. Nesse sentido, portanto, foram estabelecidos como objetivos específicos do presente trabalho: i) identificar a capacidade civil do dependente químico, bem como sua reinserção social; ii) verificar a legislação regente da internação compulsória, além dos princípios, direito e garantias relativos ao assunto; iii) exposição da (in)constitucionalidade da internação compulsória, identificando, nesse contexto, a teoria da reserva do possível e do mínimo existencial, essenciais para a compreensão da responsabilidade estatal para com o dependente químico. Ademais, valeu-se de um método de abordagem, quanto ao pensamento, dedutivo; quanto à natureza, qualitativa. Ainda, utilizou-se a técnica de pesquisa bibliográfica. Por fim, chegou-se à conclusão de que a internação compulsória é constitucional, dado que em acordo com os direitos e garantias constitucionalmente albergados.
Palavras-chave: Internação Compulsória. Dependente químico. Constitucionalidade.
1 INTRODUÇÃO 10
2 CAPACIDADE CIVIL 12
2.1DEFINIÇÃO DE CAPACIDADE CIVIL 12
2.1.1 Do dependente químico 15
2.1.2 Capacidade civil do usuário do dependente químico 17
2.1.2,1 O dependente químico e sua relação ao convívio social 23
3 A INRTENAÇÃO COMPULSÓRIA 25
3.1CONCEITO DE INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA 26
3.1.1 O princípio da dignidade da pessoa humana 29
3.1.2 O direito à liberdade 32
3.1.3 O direito constitucional à saúde 33
3.1.3.1 Políticas públicas voltadas ao tratamento do dependente químico 35
3.2 DA CONSTITUCIONALIDADE 37
4 CONSTITUCIONALIDADE DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DOS
DEPENDENTES QUÍMICOS 40
4.1 A RESPONSABILIDADE DO ESTADO 40
4.1.1 A atuação do Poder Judiciário na proteção dos direitos 40
4.1.2 A reserva do possível e o mínimo existencial 42
4.2 A CONSTITUCIONALIDADE DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DO
DEPENDENTE QUÍMICO 44
4.2.1 O posicionamento dos tribunais superiores 45
4.2.2 A dignidade da pessoa humana, o direito à saúde, à liberdade: os direitos
fundamentais e a dignidade da pessoa humana 47
1 INTRODUÇÃO
O número de usuário das mais diversas drogas aumenta de maneira exponencial recentemente. Prova disso é que as grandes cidades já começam, cada uma, a terem suas próprias crackolândias, redutos em que usuários de drogas se reúnem para o consumo de tais substâncias.
O Poder Público, atento a essa realidade, buscou proteger tanto a sociedade quanto o dependente químico por meio da criação de políticas públicas. E é justamente nesse contexto que surge a internação compulsória, medida excepcional com fins terapêuticos que busca, por meio da internação forçada, retirar o dependente químico da situação em que se encontra e, ademais, curar-lhe do vício a que está submetido.
A questão que se coloca, contudo, questão essa que o presente trabalho busca responder, é saber se tal medida iria de encontro aos direitos e garantias albergados na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Em outras palavras: é (in)constitucional a internação compulsória do dependente químico?
A fim de responder tal questionamento, no primeiro capítulo, tematizar-se-á a capacidade civil, delimitando seus contornos conceituais e, ademais, de modo mais específico, verificar-se-á a capacidade civil do dependente químico. Adicionalmente, expor-se-á a inserção social do dependente químico.
Em seguida, no segundo capítulo, definir-se-á a medida de internação compulsória, identificando as leis que regem a matéria. Nesse contexto, além disso, identificar-se-á os princípios constitucionais que podem ser afetados pela decretação de tal medida, notadamente os princípios da dignidade da pessoa humana, bem como o direito à liberdade e o direito à saúde.
Ato contínuo, no terceiro capítulo, tematizar-se-á a atuação do Poder Judiciário nesse temática e, ainda, a posição dos tribunais superiores acerca da (in)constitucionalidade da medida de internação compulsória. Por fim, expor-se-a a (in)constitucionalidade da internação compulsória de dependentes químicos.
De outra parte, quanto ao método de abordagem a ser adotado na pesquisa, pode-se dizer que, quanto ao pensamento, este será dedutivo, vez que, partindo de um escopo mais amplo, qual seja, os princípios constitucionais, tematizar-se-á um recorte mais específico, isto é, a internação compulsória do dependente químico.
Ademais, adotar-se-á, também, o método de abordagem, quanto à natureza, qualitativo, dado que, por meio da exegese da legislação e da jurisprudência, chegar-se-á às conclusões daí decorrentes, ao passo que o método de procedimento é monográfico.
A técnica de pesquisa, por sua vez, como já poderia se supor pelo parágrafo anterior, é a bibliográfica. Isto porque, regra geral, a pesquisa que se há de fazer tomará como base as legislações anteriormente citadas
2 CAPACIDADE CIVIL
O presente capítulo tem como objetivo apresentar a definição da capacidade civil e, nesse sentido, irá abordar a capacidade do usuário de entorpecente fazendo uma ligação do usuário de entorpecente com o convívio social.
2.1 DEFINIÇÃO DE CAPACIDADE CIVIL
Para a teoria civilista, a capacidade civil surge da personalidade que gera duas modalidades: capacidade de fato, ou seja, é a capacidade para exercer pessoalmente os atos da vida civil, onde ocorrem limitações oriundas da idade ou da saúde, e da capacidade de direito que decorre do próprio nascimento com vida conforme entendimento adotado pelo Código Civil conhecido como teoria natalista, é o que destaca Flávio Tartuce:
A teoria natalista prevalecia entre os autores modernos do Direito Civil Brasileiro, para quem o nascituro não poderia ser considerado pessoa, pois o Código Civil exigia e exige, para a personalidade civil, o nascimento com vida. Assim sendo, o nascituro não teria direitos, mas mera expectativa de direitos1.
Sendo assim a capacidade de fato é resultado do preenchimento de determinadas condições biológicas legais e quando uma pessoa detém à capacidade de direito mais capacidade de fato gera uma capacidade civil plena. Desta forma, para Flávio Tartuce, quem tem as duas espécies de capacidade tem a
capacidade civil plena. Quem só tem a capacidade de direito, tem a capacidade
limitada2.
Nesse sentido, capacidade de direito para o preciso pensamento de Orlando Gomes:
A capacidade de direito confunde-se, hoje, com a personalidade, porque toda pessoa é capaz de direitos. Ninguém pode ser totalmente privado dessa espécie de capacidade. E mais adiante: A capacidade de fato condiciona-se à capacidade de direito. Não se pode exercer um direito sem ser capaz de adquiri-lo. Uma não se concebe, portanto, sem a outra. Mas a recíproca não é verdadeira. Pode-se ter capacidade de direito, sem a capacidade de fato; adquirir o direito e não poder exercê-lo por si. A impossibilidade do exercício é, tecnicamente, incapacidade3.
1 TARTUCE, Flávio. Manual de direito civil: volume único. 5. Ed. São Paulo: 2015, p. 77. 2 TARTUCE, Flávio. Manual de direito civil: volume único. 5. Ed. São Paulo: 2015, p. 76. 3 GOMES, Orlando. Obrigações. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1994, p. 172.
Não há como confundir capacidade e legitimidade, pois toda pessoa capaz necessariamente pode não estar legitimada para praticar determinados atos jurídicos, sendo que a legitimação reflete uma capacidade específica. Sobre esse assunto, manifesta-se, com propriedade, Venosa:
Não se confunde o conceito de capacidade com o de legitimação. A legitimação consiste em se averiguar se uma pessoa, perante determinada situação jurídica, tem ou não capacidade para estabelecê-la. A legitimação é uma forma específica de capacidade para determinados atos da vida civil. O conceito é emprestado da ciência processual. Está legitimado para agir em determinada situação jurídica quem a lei determinar. Por exemplo, toda pessoa tem capacidade para comprar ou vender. Contudo, o art. 1.132 do Código Civil estatui: ‘os ascendentes não podem vender aos descendentes, sem que os outros descendentes expressamente consintam’. Desse modo, o pai, que tem a capacidade genérica para praticar, em geral, todos os atos da vida civil, se pretender vender um bem a um filho, tendo outros filhos, não poderá fazê-lo se não conseguir a anuência dos demais filhos. Não estará ele, sem tal anuência, ‘legitimado’ para tal alienação. Num conceito bem aproximado da ciência do processo, legitimação é a pertinência subjetiva de um titular de um direito com relação a determinada relação jurídica. A legitimação é um plus que se agrega à capacidade em determinadas situações4.
Logo salienta-se que a regra é a capacidade civil sendo a exceção a incapacidade civil, como dispõe. a ilustríssima Maria Helena Diniz a “[...] incapacidade é a restrição legal ao exercício dos atos da vida civil, devendo ser sempre encarada estritamente, considerando-se o princípio de que “a capacidade é regra e a incapacidade a exceção’’5.
Após, explicada a definição da capacidade de fato e capacidade de direito, faz-se a conexão entre a incapacidade em suas modalidades. Sendo a incapacidade uma consequência de condições biológicas e legais que podem prejudicar a atuação do indivíduo em sociedade.
Afirma Rosenvald que em graus variados, os incapazes (de fato) necessitam de um tratamento diferenciado “na medida em que não possuem o mesmo quadro de compreensão da vida e dos atos cotidianos das pessoas plenamente capazes”6.
Desta forma, na visão de Rodrigues a teoria das incapacidades, ao definir as pessoas que se enquadram como vulneráveis, busca protegê-las. É um verdadeiro sistema de proteção para os incapazes que os submete a um regime
4 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: parte geral. v. 1. São Paulo: Atlas, 2001, p. 139.
5 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: teoria geral do direito civil. v. 1. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 168.
6 ROSENVALD, Nelson; FARIAS, Cristiano Chaves de. Curso de Direito Civil: Parte Geral e LINDB. São Paulo: Atlas, 2015, p. 274.
legal privilegiado, capaz de preservar seus interesses. Neste sentido José Fernando Simão atesta que o rol de pessoas incapazes existe para que essas pessoas recebam especial proteção quando da prática dos atos da vida civil7.
Logo, Rosenvald confirma ser certo afirmar que a capacidade é a regra e a incapacidade é a exceção. Não existindo uma diferença, pois a maioria das pessoas gozam da saúde mental e física para exercer os atos da vida civil. Diante disto, o poder legislativo por intermédio dos parlamentares quando elaboraram Código Civil de 2002, optaram por objetivar apenas as modalidades de restrição da capacidade civil plena, formando um rol taxativo de incapazes8.
Em consonância com o exposto para elucidar a opção escolhida do poder legislativo, expomos o conceito de incapacidade de Rodrigues ”a incapacidade é o reconhecimento da inexistência, numa pessoa, daqueles requisitos que a lei acha indispensáveis para que ela exerça os seus direitos”9.
Ante a reflexão por esta definição, entende-se que Rodrigues ao citar os requisitos do Código Civil responde que não existe o direito positivo em nenhuma forma sobre as condições indispensáveis para que alguma pessoa exerça os seus direitos, pois a legislação vigente não determina um dispositivo que menciona os requisitos para uma pessoa ser diagnosticada apta para o exercício dos seus direitos.
Ao contrário, a legislação vigente vem seguindo um aspecto negativo onde é indicado que as pessoas são denominadas capazes. Sendo assim, ao indicar as modalidades para a normalidade, o Código Civil aponta direito para exceção10.
Com isso o legislador garante que exista uma interpretação do rol das incapacidades, não tendo como serem abrangidas outras hipóteses, sendo apenas no âmbito médico que tem espaço para discricionariedade, porque apenas um médico pode diagnosticar se a pessoa tem determinadas enfermidades, como dependência de tóxicos, deficiência mental ou física, transtornos psicológicos ou comportamentais ou qualquer outra enfermidade que o assola tendo previsão no ordenamento jurídico.
7RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: Parte Geral. v. 1. São Paulo: Max Limonad, 1962, p. 64.
8 ROSENVALD, Nelson; FARIAS, Cristiano Chaves de. Curso de Direito Civil: Parte Geral e LINDB. São Paulo: Atlas, 2015, p. 273.
9RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: Parte Geral. v. 1. São Paulo: Max Limonad, 1962, p. 64. 10 BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 8 nov. 2019.
Os variados graus de incapacidade são essenciais para tornar a teoria próxima à realidade dos incapazes, categoria esta que se divide em duas espécies: incapazes absolutos e incapazes relativos.
Partindo desse pressuposto, a incapacidade absoluta para Gagliano e Pamplona Filho:
[...] a previsão legal da incapacidade traduz a falta de aptidão para praticar
pessoalmente atos da vida civil. Encontra-se nessa situação a pessoa a
quem falte capacidade de fato ou de exercício, ou seja, que esteja impossibilitada de manifestar real e juridicamente a sua vontade11
Já em relação à incapacidade relativa, Gagliano e Pamplona Filho afirmam “[...] entre a absoluta incapacidade e a plena incapacidade civil, figuram pessoas situadas em zona intermediária, por não gozarem de total capacidade de discernimento e autodeterminação. Trata-se dos relativamente incapazes”12.
Assim, com essa breve síntese exposta, entende-se que a capacidade civil é a regra onde a pessoa plenamente capaz preenche os requisitos elencados na legislação para o convívio em sociedade que resulta no exercício pleno dos atos da vida civil.
2.1.1 Do dependente químico
Antes de se expor os posicionamentos doutrinários acerca da capacidade civil do dependente químico é salutar, ainda que de modo superficial, expor a definição acerca do dependente químico.
Com efeito, uma vez que já se têm expostos os delineamentos conceituais acerca da capacidade civil, cabe agora identificar a definição do dependente químico.
O uso de substâncias13 que, de algum modo, possam alterar e obnubilar a consciência do usuário não é recente na história da humanidade. Desde há muito usa-se as referidas substâncias para os mais diversos fins: religiosos, lazer, sexuais
et cetera14.
11 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil: Parte Geral. Vol. 1. 14 Ed, São Paulo: Saraiva, 2012, p. 138.
12 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil: Parte Geral. Vol. 1. 14 Ed, São Paulo: Saraiva, 2012, p. 138.
13 Por substâncias, entende-se aqueles materiais que são definidos como ilícitos pelo Direito.
14 LABATE, Beatriz Caiuby et al. Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008. p. 13.
No entanto, o estudo da dependência química teve seu início no século XIX. De fato, foi nesse século, mais precisamente em 1849, que Magnus Huss utilizou o termo "alcoolismo" para descrever a adicção de álcool. No mesmo período, buscando-se designar o vício de maneira mais genérica, criou-se o termo “narcomania”.
Posteriormente, Griffith Edwards e Milton Gross, em artigo publicado em 1976 no British Medical Journal, denominado de Alcohol dependence: provisional
description of a clinical syndrome, criam a expressão A Síndrome de Dependência
do Álcool (SDA).
Essa abordagem teórica foi utilizada de base pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM).
Assim, pode-se referenciar a definição de dependência química adotada pela Organização Mundial de Saúde:
Estado psíquico e algumas vezes físico resultante da interação entre um organismo vivo e uma substância, caracterizado por modificações de comportamento e outras reações que sempre incluem o impulso a utilizar a substância de modo contínuo ou periódico com a finalidade de experimentar seus efeitos psíquicos e, algumas vezes, de evitar o desconforto da privação15.
Para o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, por outro lado, entende-se a dependência química de maneira semelhante:
a característica primordial da dependência de substâncias corresponde à presença de um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos, que evidencia que o indivíduo continua a utilizar uma determinada substância, apesar dos problemas significativos relacionados à mesma — tanto em termos de saúde quanto pessoais e sociais. Sendo assim, existe um padrão de auto-administração repetida, o qual geralmente resulta em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo de consumo da droga16.
Uma manifestação psicológica clara da dependência química, tal como descrita pela Organização Mundial de Saúde, é o craving, que nada mais é do que “um intenso desejo de utilizar uma específica substância”17. É justamente o craving,
15 DEA, Hilda Regina Ferreira Dalla et al . A inserção do psicólogo no trabalho de prevenção ao abuso de álcool e outras drogas. Psicol. cienc. prof., Brasília , v. 24, n. 1, p. 108-115, Mar. 2004.
16PRATTA, Elisângela Maria Machado; SANTOS, Manoel Antonio dos. The health-illness process
and the chemical dependence: interfaces and evolution. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 25, n. 2, p. 203, 2009.
17 ARAUJO, Renata Brasil et al. Craving e dependência química: conceito, avaliação e tratamento. J bras psiquiatr, v. 57, n. 1, p. 57-63, 2008.
portanto, que faz com que o uso da substância seja contínuo, tornando o usuário, por conseguinte, dependente dela.
Dependente químico, portanto, é aquele que é possui as manifestações que caracterizam a dependência química. Sua relação com a substância se dá de maneira patológica.
Com esses breves esclarecimentos acerca da dependência química, e de dependente, pode-se ter um retrato mais apropriado do dependente químico. Com isso, possibilita-se a identificação da sua capacidade civil, requisito essencial para o regular desenvolvimento teórico do presente trabalho.
2.1.2 Capacidade civil do usuário do dependente químico
A capacidade civil do usuário de crack é enquadrada como sendo relativa conforme estipula o art.4, II do Código Civil onde menciona o usuário de tóxico que é onde o usuário de crack é enquadrado. Para entendermos a capacidade do usuário deves fazer a menção do que é o crack e como a doutrina enquadra o usuário de entorpecente crack.
Conforme a Organização Mundial da Saúde, o crack é um derivado da pasta-base de cocaína ou cocaína refinada (feita com folhas de planta Erythroxylum coca), onde é misturado bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada, que quando aquecida a mais de 100ºC, o composto passa por um processo de decantação, em que as substâncias líquidas e sólidas são separadas, o seu resfriamento da porção sólida gera a pedra de crack18.
Ao ser aquecida a pedra de crack, se funde e vira gás, que depois de inalado é absorvido pelos alvéolos pulmonares e chega rapidamente à corrente sanguínea, enquanto a cocaína em pó leva cerca de 15 (quinze) minutos para chegar ao cérebro e fazer efeito depois de aspirada, a chegada do crack ao sistema nervoso central é quase imediata de 8 (oito) a 15 (quinze) segundos, em média. É por está razão que o crack ocasiona a dependência mais rápida19.
18 CONSELHO ESTADUAL DE ENTORPECENTES DE SANTA CATARINA. Programa Crack. Florianópolis: CONEN [2018]. Disponível em:
http://www.ssp.sc.gov.br/conen/index.php/prevencao/programa-crack/a-droga. Acesso em: 05 nov. 2019.
19 CONSELHO ESTADUAL DE ENTORPECENTES DE SANTA CATARINA. Programa Crack. Florianópolis: CONEN [2018]. Disponível em:
O crack ao ser utilizado tem um ação de 5 (cinco) a 10 (dez) minutos no cérebro, sendo que neste período tem uma potencialização da liberação de neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina. Após isso tem o efeito imediato que inclui euforia, agitação, sensação de prazer, irritabilidade, alterações de percepção e do pensamento e também alterações cardiovasculares e motoras, como taquicardia e tremores20.
A pedra de crack é fumada em cachimbos, sendo conhecida como a droga dos pobres, pois é mais barata que a cocaína e tem um poder alto destrutivo sobre o sistema nervoso central e cardíaco, ou seja, é pior do que a cocaína e é mais viciante por isso o número alarmante de usuários. A origem da sua criação se remete à década de oitenta, em bairros pobres de Nova Iorque, Los Angeles e Miami, nos Estados Unidos21.
A origem do crack no Brasil se remete ao início da década de noventa, entrando através da Colômbia, pelas fronteiras com o Acre, Roraima e o Amazonas, sendo que a sua disseminação começou pelo Estado de São Paulo e que depois acabou se espalhando por todo o país sendo hoje umas das principais drogas em utilização com o maior poder destrutivo22.
Desde a utilização deste entorpecente mencionado anteriormente, são feitas muitas pesquisas nacionais e internacionais, buscando a resposta para a seguinte indagação, do porquê de um ser humano usufruir de tal substância tão destrutiva para o corpo humano e chegando a uma conclusão deste elaborado questionamento entende Pierangeli e Zaffaroni:
Em todos os tempos, o homem procurou fugir da realidade mediante a utilização de tóxicos. Em geral, as pessoas que têm de suportar maior miséria e dor são aquelas que procuram fugir dessa realidade miserável ou dolorosa, decorra ela de conflitos predominantemente individuais ou de condições sociais (no fundo, sempre existem condições sociais, só que mais ou menos mediatas). Quem foge da realidade, na maioria dos casos, é quem suporta as piores condições sociais, ou 2019.
20 CONSELHO ESTADUAL DE ENTORPECENTES DE SANTA CATARINA. Programa Crack. Florianópolis: CONEN [2018]. Disponível em:
http://www.ssp.sc.gov.br/conen/index.php/prevencao/programa-crack/a-droga. Acesso em: 05 nov. 2019.
21 CONSELHO ESTADUAL DE ENTORPECENTES DE SANTA CATARINA. Programa Crack. Florianópolis: CONEN [2018]. Disponível em:
http://www.ssp.sc.gov.br/conen/index.php/prevencao/programa-crack/a-droga. Acesso em: 05 nov. 2019.
22 CONSELHO ESTADUAL DE ENTORPECENTES DE SANTA CATARINA. Programa Crack. Florianópolis: CONEN [2018]. Disponível em:
http://www.ssp.sc.gov.br/conen/index.php/prevencao/programa-crack/a-droga. Acesso em: 05 nov. 2019.
seja, os marginalizados e carentes. O uso de tóxicos visa o rompimento dos freios, ou criar as condições para fazê-lo.” Grifo meu ou nosso23
Após o ingresso nesse caminho sem volta que é o vício no uso do crack diagnosticado por um médico como viciado, a pessoa deixa de ter a sua capacidade civil plena sendo ela relativa, convertendo-se pela interdição judicial, onde irá resultar uma assistência por um curador que vai acompanhar o usuário nos atos da vida civil como expõe Diniz::
Os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que por deficiência mental, tiverem o seu discernimento reduzido (Código Civil, artigo. 4º, II;
Constituição Federal, art.227, §3º, VII, com a redação da Emenda Constitucional n. 65/2010). Baseado em posição fundada em subsídios mais recentes da ciência médica-psiquiátrica, o novo Código Civil alarga os casos de incapacidade relativa decorrente de causa permanente ou transitória. Assim sendo, alcoólatras ou dipsômanos (os que têm impulsão irresistível para beber ou os dependentes do álcool), toxicômanos, ou melhor, toxicodependentes (opiômanos, usuários de psicotrópicos, crack, heroína e maconha, cocainômanos) ou portadores de deficiência mental adquirida, em razão, p. ex., de moléstia superveniente (p. ex., psicose, mal de Alzheimer), que sofram uma redução na sua capacidade de entendimento, não poderão praticar atos na vida civil sem assistência curador (Código Civil, art. 1.767, III), desde que interditos24.
A necessidade do processo de interdição ocorre, pois a capacidade civil plena é a regra, portanto, a privação de uma pessoa em seus atos da vida civil é a exceção, tendo então que haver uma efetiva comprovação da incapacidade para tal privação, deste modo Diniz:
O interditado não pode exercer pessoalmente atuação na vida civil, isso porque a sentença judicial declara de forma consistente a ausência de pressupostos de capacidade plena para o indivíduo promover seus próprios negócios, protegendo e dando segurança ao incapaz, no que tange aos atos jurídicos da vida civil25.
Portanto, quando uma pessoa é declarada como usuária de crack e tem a sua capacidade limitada passa obrigatoriamente por um processo de interdição. Como descrito por Coelho,:
Necessariamente passa por um processo judicial de interdição, para declaração da incapacidade e posterior nomeação de um curador, vez que a limitação do discernimento deve estar sobejamente demonstrada, a fim de justificar o impedimento de forma temporária ou permanente da declaração de vontade do próprio indivíduo26.
23 ZAFFARONI, Eugenio Rául; PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal Brasileiro Parte Geral. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 534.
24 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: teoria geral do direito civil. v. 1. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 190.
25 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: teoria geral do direito civil. v. 1. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 203.
O instituto da curatela não se confunde com o da tutela, como aponta Gonçalves:
Apesar da semelhança, os dois institutos não se confundem. Podem ser apontadas as seguintes diferenças: a) a tutela é destinada a menores de 18 anos de idade, enquanto a curatela é deferida, em regra, maiores; b) a tutela pode ser testamentária, com nomeação do tutor pelos pais; a curatela é sempre deferida pelo juiz; c) a tutela abrange a pessoa e os bem do menor (auctoritas e gestio), enquanto a curatela pode compreender somente a administração dos bens do incapaz, como nos caso dos pródigos; d) os poderes do curador são mais restritos do que os do tutor27.
Com o advento da Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, que Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), o qual fez muitas modificações no instituto da curatela28.
Conforme a nova legislação, o instituto da curatela irá abranger somente os atos de cunho patrimonial, e não mais para todos os atos da vida civil, como antes do advento do Estatuto da Pessoa com Deficiência.
Acerca deste instituto da curatela, afirma Diniz (2007, p. 602) trata-se de um múnus público em que a lei confere a alguém o encargo de representar o maior incapaz, o qual em virtude de alguma moléstia não possa administrar seus próprios bens.
Seguindo o mesmo pensamento Silvo Rodrigues (2002, p. 449), acrescenta que apesar de a tutela e a curatela possuírem finalidades semelhantes, cada uma carrega suas particularidades, podendo ser mencionada como principal distinção que, o primeiro instituto visa proteger o menor incapaz, e o segundo se destina ao maior incapaz.
A finalidade do instituto da curatela é proteger a pessoa incapaz por causa da sua incapacidade, como exemplifica Venosa, “a curatela, por outro lado, tem como finalidade proteger a pessoa incapaz para garantir seus interesses e protegê-los perante terceiros”29.
27GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: Parte Geral. v.1. 11. ed. São Paulo:
Saraiva, 2013, p. 689.
28 BRASIL. Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência)Brasília, DF: PResidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 14 setembro. 2019.
Como já mencionado, existem dois institutos que visam a proteção do incapaz, entretanto, mesmos os institutos da curatela e tutela tendo várias semelhanças, porém, as principais diferenças dos institutos na visão de Gonçalves:
Apesar da semelhança, os dois institutos não se confundem. Podem ser apontadas as seguintes diferenças: a) a tutela é destinada a menores de 18 anos de idade, enquanto a curatela é deferida, em regra, maiores; b) a tutela pode ser testamentária, com nomeação do tutor pelos pais; a curatela é sempre deferida pelo juiz; c) a tutela abrange a pessoa e os bem do menor (auctoritas e gestio), enquanto a curatela pode compreender somente a administração dos bens do incapaz, como nos caso dos pródigos; d) os poderes do curador são mais restritos do que os do tutor30.
Sendo a regra o instituto da curatela se destina à proteção de incapazes maiores de 18 (dezoito) anos, porém, o Código Civil, traz duas exceções onde é possível instituir um curador para o nascituro, assim como ao relativamente incapaz por conta da idade, pois estas pessoas não podem mais praticar os atos da vida civil sem uma representação por conta da sua idade.
Com a vigência do Estatuto da Pessoa com Deficiência modificou a redação do artigo. 1767 do Código Civil onde dispõe sobre os sujeitos a curatela:
Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela:
I - aqueles que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para os atos da vida civil;
II - aqueles que, por outra causa duradoura, não puderem exprimir a sua vontade;
III - os deficientes mentais, os ébrios habituais e os viciados em tóxicos; IV - os excepcionais sem completo desenvolvimento mental;
V - os pródigos31.
A Lei nº 13.146/2015 que institui o Estatuto da Pessoa com Deficiência expõe, que a deficiência não irá mais ser a causa de incapacidade, pois modificou o rol taxativo das pessoas que estão sujeitas ao instituto da curatela que está disposta na redação do artigo. 1.767 do Código Civil do ano de 2002:
Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela:
I - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)
II - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) III - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)
IV - (Revogado), (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) V - os pródigos32.
30 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: Parte Geral. V.1. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 689.
31 BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 8 nov. 2019.
Todos os incisos que mencionaram os tipos de deficiência foram modificados ou revogados, como relata o artigo. 84 do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que expõe que as pessoas com deficiência exercerão os atos da vida civil com igualdade perante terceiros, como determina a redação do artigo. 84 do Estatuto da pessoa com deficiência:
Art. 84. A pessoa com deficiência tem assegurado o direito ao exercício de sua capacidade legal em igualdade de condições com as demais pessoas33.
Conforme a legislação vigente, no parágrafo terceiro do artigo acima mencionado onde diz que a definição de curatela de pessoa com deficiência constitui medida protetiva extraordinária, proporcional às necessidades e às circunstâncias de cada caso, e durará o menor tempo possível. sendo a curatela uma medida de último caso, se configurando como extraordinária, pois o juiz deve fazer avaliações para determinar a dimensão da falta de discernimento por parte do indivíduo para com a realidade, onde irá determinar os limites da curatela. Conforme Farias, a curatela pode ter diferentes variações, pois com a avaliação feita em juízo irá se determinar o grau da deficiência do curatelado onde a sentença do magistrado pode determinar tais condições para sua aplicação:
[...] didaticamente, é possível apresentar as seguintes espécies de curatela: i) o curador pode se apresentar como um representante do relativamente incapaz para todos os atos jurídicos, porque este não possui qualquer condição de praticá-los, sequer em conjunto. Seria o caso de alguém que se encontra no coma ou a quem falta qualquer discernimento; ii) o curador pode ser um representante para certos e específicos atos e assistente para outros, em um regime misto, quando se percebe que o curatelado tem condições de praticar alguns atos, devidamente assistido, mas não possui qualquer possibilidade de praticar outros, como, por exemplo, os atos patrimoniais; iii) o curador será sempre um assistente, na hipótese em que o curatelado tem condições de praticar todo e qualquer ato, dês que devidamente acompanhado, para a sua proteção34.
Ademais, as ações do instituto da curatela deverá sempre analisar as possibilidades de restituições dos direitos do curatelado perante os atos da vida civil.
32 BRASIL. Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) Brasília, DF: PResidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 14 setembro. 2019.
33 BRASIL. Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa
com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) Brasília, DF: PResidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 14 setembro. 2019.
34 FARIAS, Cristiano Chaves de. et al. Estatuto da Pessoa com Deficiência Comentado artigo por artigo. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 240.
2.1.2,1 O dependente químico e sua relação ao convívio social
Tal qual que ocorre com o criminoso que sofre alguma condenação advinda do Poder Judiciário, o dependente químico, nos mais das vezes, também é etiquetado35, isso é, ele é estigmatizado, sendo-lhe imposta determinadas defeitos por conta de sua dependência química.
Com efeito, assim como o criminoso condenado, “a dependência química já foi considerada pela sociedade um desvio de personalidade que acometia aqueles com dificuldades de relacionamento”36. Dessa maneira, cria-se, ainda que de modo inconsciente, uma exclusão social do dependente químico.
Nesse sentido, portanto, a inserção social do dependente químico deve ser analisada sob os mais diversos prismas, sob pena de, caso contrário, se cair em uma análise ingênua da sua situação. Portanto, temas como família, trabalho, moradia etc são temas que devem ser objeto de uma análise apropriada, dado que se relacionam com essa abordagem mais abrangente, que abarca o contexto socioeconômico em que o dependente químico está inserido.
A análise que ora se empreende se torna ainda mais complexa quando se tem em mente que “no Brasil, o uso de drogas intensifica-se sempre mais, tornando difícil e complexa sua abordagem”37. Tal conjuntura não é exclusivamente brasileira; ao contrário, o uso de drogas cresce em escala global. Com efeito, “de acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas de 2012, de 3,4% a 6,6% da população entre 15 e 64 anos é usuária”38
Assim, para que se tenha uma visão mais condizente com a realidade vivida pelas pessoas que são dependentes químicos, deve-se observar, de início, as pesquisas referentes a sua situação e que podem, por conseguinte, fornecer essa visão mais de acordo com a realidade deles.
Desse modo, cabe identificar a relação havida entre os dependentes químicos e seus familiares39, sendo este o âmbito mais restrito no qual ele está
35GAY, Doug. Labeling Theory: The New Perspective. The Corinthian, v. 2, n. 1, p. 1, 2000. 36CAPISTRANO, Fernanda Carolina et al. Impacto social do uso abusivo de drogas para
dependentes químicos registrados em prontuários. Cogitare Enfermagem, v. 18, n. 3, p. 468, 2013.
37MORAES, Leila Memória Paiva et al. Expressão da codependência em familiares de dependentes
químicos. Revista Mineira de Enfermagem, v. 13, n. 1, p. 34, 2009.
38 SANCHES, Laís Ramos; VECCHIA, Marcelo Dalla. REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL E
REINSERÇÃO SOCIAL DE USUÁRIOS DE DROGAS: REVISÃO DA LITERATURA. Psicol. Soc., Belo Horizonte , p. 43. v. 30, e178335, 2018 .
inserido. Ao assim se proceder, já se vê que os efeitos intrafamiliares são muitos e de grande vastidão.
Com efeito, é inquestionável que “existe uma associação entre o uso do álcool por parte de um dos cônjuges e a qualidade da relação conjugal”40. Esse efeito na relação conjugal é maximizado para todo o âmbito familiar, comprometendo a existência de uma relação saudável entre os familiares e o dependente químico.
No que tange ao uso de outras drogas como o crack, por exemplo, pode-se afirmar que os usuários são constituídos, em grande parte, de “população em situação de rua, grande parte sem emprego ou que desenvolve trabalho informal, com forte impacto da estrutura social no uso dessa substância psicoativa”41.
Assim, o uso de drogas, além de comprometer os laços familiares, faz com que o dependente químico também tenha uma “redução dos cuidados pessoais e a perda de envolvimento social”42, por conta da busca infatigável por drogas que acomete o usuário. Assim, como decorrência, tem-se o desemprego, a situação de ausência de moradia etc.
Realmente, não é exagero afirmar que “as drogas afetam a vida social e de trabalho das pessoas, uma vez que as perdas envolvem o cotidiano do indivíduo dependente de substâncias psicoativas”43.
Não fosse suficiente, no âmbito das políticas públicas voltadas para o dependente químico, pode-se afirmar que, nesse particular, “ainda se mostra de
39 De fato, “a família continua sendo, apesar de todos os defeitos que possa ter, o grupo social no qual os participantes convivem com maior respeito. O núcleo familiar é onde o amadurecer deve ser valorizado; é aí que, apesar dos erros, dificuldades e problemas, aprendemos finalmente a ser adultos responsáveis. Se a família tem regras claras, o jovem terá parâmetros para agir, desde cedo assumindo responsabilidades de acordo com a própria capacidade. Poderá optar pelo não
cumprimento e, se decidir não fazê-lo, estará aceitando as consequências advindas de seu ato. Pais que acompanham de perto as atividades dos filhos aprendem a identificar rapidamente um problema verdadeiro, quase nunca o confundindo com uma simples desculpa por preguiça ou esquecimento”. (DRUMMOND; DRUMMOND FILHO, 1998, p. 66).
40 ARAGAO, Antonio Teulberto Mesquita; MILAGRES, Elizabete; FIGLIE, Neliana Buzi. Qualidade de vida e desesperança em familiares de dependentes químicos. PsicoUSF, Itatiba , v. 14, n. 1, p. 1123, abr. 2009.
41 SANCHES, Laís Ramos; VECCHIA, Marcelo Dalla. REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL E
REINSERÇÃO SOCIAL DE USUÁRIOS DE DROGAS: REVISÃO DA LITERATURA. Psicol. Soc., Belo Horizonte , p. 41. v. 30, e178335, 2018 .
42 SANCHES, Laís Ramos; VECCHIA, Marcelo Dalla. REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL E
REINSERÇÃO SOCIAL DE USUÁRIOS DE DROGAS: REVISÃO DA LITERATURA. Psicol. Soc., Belo Horizonte , p. 42. v. 30, e178335, 2018.
43 NIMTZ, Miriam Aparecida et al. Legal and work-related impacts in the life of chemically dependent individuals. SMAD. Revista eletrônica saúde mental álcool e drogas, v. 12, n. 2, p. 74, 2016.
maneira ínfima o foco na questão social e da eficácia das políticas públicas voltadas aos dependentes químicos”44.
Nessa conjuntura, destarte, o que se vê de modo cristalino é a ausência de uma sistematização no que diz respeito à proteção do dependente químico por parte do Poder Público.
Adicionalmente, há uma vasta série de consequências para com seus familiares e seu desenvolvimento social, de maneira que a inserção social do dependente químico é demasiadamente dificultosa e precária, não obstante certas políticas públicas realizadas pelo Estado, que, contudo, são feitas de maneira assistemática e não resolvem a situação do dependente químico de um modo estrutural.
3 A INRTENAÇÃO COMPULSÓRIA
No presente capítulo, abordar-se-á o conceito de internação compulsória, bem como a legislação aplicável.
Referida abordagem, todavia, não pode ser feita em um vácuo teórico e jurídico. Precisamente por isso, abordar-se-á, também, a dignidade da pessoa humana, além do direito constitucional à saúde e, por fim, as políticas públicas voltadas ao tratamento do dependente químico, dado que temas necessários à adequada compreensão do tema ora em comento.
3.1 CONCEITO DE INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA
O dependente químico, como já se teve oportunidade de afirmar no curso de presente trabalho, é etiquetado como alguém que põe em xeque a ordem social. A sua existência, por si mesma, constitui-se em uma demanda urgente que precisa ser tratada, sob pena de se pôr abaixo todo o edifício social. O mesmo se dá,
mutatis mutandis, com o deficiente mental. Eles constituem os estranhos, aquele
que se situam para além da dita normalidade e que requererem uma intervenção estatal em sua “situação”45.
44 LINO, Lillian Lages. Políticas Públicas para dependentes químicos: um estudo sobre o CAPS. Blucher Social Sciences Proceedings. Dezembro de 2014, Volume 1, Número 1, p. 171-184. 45 AZEVEDO, Américo Orlando; SOUZA, Tadeu de Paula. Internação compulsória de pessoas em uso de drogas e a Contrarreforma Psiquiátrica Brasileira. Physis, Rio de Janeiro , v. 27, n. 3, p. 491-510, Jul. 2017.
Precisamente por isso, esses dois sujeitos estão submetidos, eventualmente, à internação compulsória.
Em se tratando de pessoa acometida por transtorno mental que demande a intervenção do poder estatal, sua situação será regida pela lei 10.216 de 2001. Referido diploma legal divide a internação em três espécies, conforme literalidade do artigo 6º da já referida lei:
Art. 6o A internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo
médico circunstanciado que caracterize os seus motivos.
Parágrafo único. São considerados os seguintes tipos de internação psiquiátrica:
I - internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário; II - internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro; e
III - internação compulsória: aquela determinada pela Justiça.46
No que tange à internação do dependente químico, contudo, a nomenclatura adotada é diversa.
Com efeito, lê-se no artigo 23-A da lei 11.343 de 2006, incluído recentemente pela lei 13.840 de 2019 que a internação é de duas espécies: involuntária e voluntária. Traz-se referidas disposições:
[...]
§ 3º São considerados 2 (dois) tipos de internação:
I - internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do dependente de drogas;
II - internação involuntária: aquela que se dá, sem o consentimento do dependente, a pedido de familiar ou do responsável legal ou, na absoluta falta deste, de servidor público da área de saúde, da assistência social ou dos órgãos públicos integrantes do Sisnad, com exceção de servidores da área de segurança pública, que constate a existência de motivos que justifiquem a medida.
§ 4º A internação voluntária:
I - deverá ser precedida de declaração escrita da pessoa solicitante de que optou por este regime de tratamento;
II - seu término dar-se-á por determinação do médico responsável ou por solicitação escrita da pessoa que deseja interromper o tratamento.
46 BRASIL. Lei n. 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm. Acesso em: 10 de out. 2019.
§ 5º A internação involuntária:
I - deve ser realizada após a formalização da decisão por médico responsável;
II - será indicada depois da avaliação sobre o tipo de droga utilizada, o padrão de uso e na hipótese comprovada da impossibilidade de utilização de outras alternativas terapêuticas previstas na rede de atenção à saúde; III - perdurará apenas pelo tempo necessário à desintoxicação, no prazo máximo de 90 (noventa) dias, tendo seu término determinado pelo médico responsável;
IV - a família ou o representante legal poderá, a qualquer tempo, requerer ao médico a interrupção do tratamento47.
Pela disposição contida na lei, portanto, a internação involuntária tem prazo máximo de 90 dias (artigo 23-A §5º, inciso III, lei 11.343 de 2006). Adicionalmente, mesmo em se tratando de internação voluntária, ela será residual e a ultima ratio no tratamento do dependente químico, conforme disposição da mesma lei:
[...]
§ 6º A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes.
Ademais, em sendo o caso de ocorrência de internação involuntária, desde que cumpridos os requisitos impostos pela legislação referente a esse particular, dever-se-á informar os órgãos de fiscalização, como o Ministério Público e a Defensoria Pública, no prazo máximo de 72 horas. Além do quê, referidas informações deverão ser sigilosas:
Art. 23-A. [...]
§ 7º Todas as internações e altas de que trata esta Lei deverão ser informadas, em, no máximo, de 72 (setenta e duas) horas, ao Ministério Público, à Defensoria Pública e a outros órgãos de fiscalização, por meio de sistema informatizado único, na forma do regulamento desta Lei.
47 BRASIL. Lei n. 13.840, de 5 de abril de 2019. Altera as Leis nos 11.343, de 23 de agosto de 2006, 7.560, de 19 de dezembro de 1986, 9.250, de 26 de dezembro de 1995, 9.532, de 10 de dezembro de 1997, 8.981, de 20 de janeiro de 1995, 8.315, de 23 de dezembro de 1991, 8.706, de 14 de setembro de 1993, 8.069, de 13 de julho de 1990, 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e 9.503, de 23 de setembro de 1997, os Decretos-Lei nos 4.048, de 22 de janeiro de 1942, 8.621, de 10 de janeiro de 1946, e 5.452, de 1º de maio de 1943, para dispor sobre o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas e as condições de atenção aos usuários ou dependentes de drogas e para tratar do financiamento das políticas sobre drogas Disponível em:
§ 8º É garantido o sigilo das informações disponíveis no sistema referido no § 7º e o acesso será permitido apenas às pessoas autorizadas a conhecê-las, sob pena de responsabilidade48.
Por essas disposições, já se vê que há uma diferença fundamental entre os dois conceitos. A internação involuntária, como já dito, dá-se por pedido de familiar ou responsável legal, sem o consentimento daquele que será internado; a internação compulsória, por outro lado, ocorre na hipótese em que há ordem judicial que determine a internação do que será internado.
Em ambos os casos, contudo, a internação é feita com fins terapêuticos, jamais punitivos:
A ideia da internação compulsória como tratamento dos usuários de drogas dependentes químicos, vai mais além, pois quando se fala em tratar, partimos do princípio de que aquela pessoa é doente e precisa receber todo o cuidado médico necessário, visando sua recuperação e sua reintegração social.49
A internação compulsória, contudo, em que pese esteja permeada pela finalidade terapêutica, acaba por poder colidir com direitos e garantias fundamentais que foram albergadas constitucionalmente.
Duas delas que, de início, já se revelam são a dignidade da pessoa humana e o direito à liberdade. Justamente por isso, cabe agora analisá-las.
3.1.1 O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
De modo incoativo, cabe pontuar que a ideia de uma dignidade humana está ligada, sobretudo aos direitos fundamentais. Com efeito, Ingo Sarlet exemplifica de modo acertado essa relação:
É neste contexto que se poderá afirmar que a relação entre a dignidade e os direitos fundamentais é uma relação sui generis, visto que a dignidade da pessoa assume simultaneamente a função de elemento e medida dos direitos fundamentais, de tal sorte que, em regra, uma violação de um direito 48 BRASIL. Lei n. 13.840, de 5 de abril de 2019. Altera as Leis nos 11.343, de 23 de agosto de 2006, 7.560, de 19 de dezembro de 1986, 9.250, de 26 de dezembro de 1995, 9.532, de 10 de dezembro de 1997, 8.981, de 20 de janeiro de 1995, 8.315, de 23 de dezembro de 1991, 8.706, de 14 de setembro de 1993, 8.069, de 13 de julho de 1990, 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e 9.503, de 23 de setembro de 1997, os Decretos-Lei nos 4.048, de 22 de janeiro de 1942, 8.621, de 10 de janeiro de 1946, e 5.452, de 1º de maio de 1943, para dispor sobre o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas e as condições de atenção aos usuários ou dependentes de drogas e para tratar do financiamento das políticas sobre drogas Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13840.htm. Acesso em: 10 de out. 2019. 49 FERREIRA, Pablo Henrique de Abreu. A constitucionalidade da internação compulsória dos usuários dependentes químicos de drogas. Âmbito jurídico. Disponível em:
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-constitucional/a-constitucionalidade-da-internacao-compulsoria-dos-usuarios-dependentes-quimicos-de-drogas/. acesso em 13 out. 2019.
fundamental estará sempre vinculada com uma ofensa à dignidade da pessoa50.
Historicamente, por outro lado, importa salientar, também, que a ideia da dignidade humana, para além de ser instrumentalizada como direito fundamental, sempre esteve ligada a uma cosmovisão de caráter cristão.
Com efeito, foi por meio do cristianismo que ganhou hegemonia ideológica a ideia do ser humano como imago Dei (imagem de Deus). Justamente por esse seu atributo ontológico, o ser humano não é visto como uma mera coisa, um algo, mas como alguém, uma criatura que reflete a imagem de seu criador e, por decorrência, algo único:
Qualquer ser humano é algo indizivelmente novo, mais do que a soma de cromossomos e o produto de um ambiente determinado, sendo, na verdade, uma criatura única de Deus51.
A dignidade da pessoa humana, contudo, não é dependente de uma visão de mundo religiosa. Com efeito, pode-se citar vários autores de caráter manifestamente racionalista que, não obstante a ausência de um sentido religioso em seus escritos, defenderam a ideia de uma dignidade intrínseca ao ser humano. Exemplo inapelável do aqui se diz é Kant. Sua concepção de dignidade da pessoa humana é demonstrada na sua obra fundamentação da metafísica dos costumes. Para ele, como se lê na referida obra, o ser humano possuiria uma dignidade intrínseca porquanto é um fim em si mesmo52. E assim deve ser tratado, como decorrência do imperativo categórico que reconhece tal qualidade. Adicionalmente, por ser dotado de uma dignidade intrínseca, e um fim em si mesmo, o ser humano não seria equivale a nenhum preço, seu valor seria incomensurável53.
Historicamente, portanto, seja nas correntes de caráter mais religioso, seja nas correntes de caráter mais laico e racionalistas, houve o reconhecimento da dignidade da pessoa humana como aspecto irrenunciável da ordem jurídica. Tal situação se tornou ainda mais patente com os eventos ocorridos na Segunda Guerra Mundial e que resultaram, inter alia, na derrocada intelectual do positivismo jurídico, que pregava a completa separação entre o Direito e a Moral.
50SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002. p.106.
51 RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p. 206. 52 KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007, p. 68. 53 KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007, p. 77.
Nessa conjuntura, portanto, não surpreende que dignidade da pessoa humana seja elevada como preceito basilar da ordem jurídica (cf. art. 1º, inc. III, CRFB), incidindo em todas as relações, sejam as de caráter público, sejam as de caráter privado.
A dignidade da pessoa humana, porém, importante notar, é, per si, genérica:
a dignidade humana é um conceito muito abstrato que não impõe determinadas medidas nem engloba necessariamente todos os direitos garantidos no art. 5º da CF. Podemos muito bem conceber que um ser humano preservaria sua dignidade ainda que o exercício do habeas data não fosse gratuito, conforme estipula o inciso LXXVII do art. 5o da CF. Mesmo a privação de uma liberdade importante como a liberdade de reunião (inciso XVI) não tem a priori o condão de ferir a dignidade da pessoa humana54.
Justamente pelo caráter genérico é que se fez necessária a exposição do seu desenvolvimento histórico-ideológico. E, mais especificamente para o presente trabalho, fez-se necessária a exposição da conceituação da internação compulsória, bem como a identificação das normas aplicáveis.
Apesar de tais discussões de natureza sobretudo filosófica, fato é que, como já afirmado anteriormente, foi adotada pela Constituição da República da Federativa como preceito irrenunciável da ordem jurídica.
Importa assinalar que, justamente por ser um preceito basilar da ordem jurídica, a dignidade da pessoa humana tem sua incidência em todas as relações regidas pelo Direito. Realmente, em vista da assim chamada “Constitucionalização do Direito”, não se pode mais imaginar que a dignidade da pessoa humana seja apenas uma declaração de boas intenções. Na verdade, a dignidade da pessoa humana se aplica a todas as relações jurídicas, aí incluída hipótese de ocorrência da internação compulsória.
Ora, expostos os delineamentos conceituais acerca da dignidade da pessoa humana, bem assim como da internação compulsória, pode-se tematizar a relação entre essas duas figuras.
Se é certo que a pessoa humana é dotada de uma dignidade intrínseca, é certo, também, que, em alguns casos, contra sua vontade, terá sua liberdade mitigada a fim de que seja submetida a tratamento para com sua dependência química.
54 DIMOULIS, Dimitri; MARTINS, Leandro. Teoria geral dos direitos fundamentais. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2014. p. 76.
Nessa conjuntura, portanto, parece haver uma clara dificuldade entre se conciliar a dignidade da pessoa humana, a qual, em última análise, impõe o reconhecimento da liberdade do indivíduo (art. 5º, CRFB), com a internação compulsória, que é justamente a negação dessa liberdade, ainda que de forma parcial e transitória.
Realmente, a dignidade da pessoa humana implica uma série de condições que devem ser respeitadas para o indivíduo. Assim, o direito à vida, decorrente da dignidade da pessoa humana, implica que esta, a pessoa, não deva meramente sobreviver; antes, que viva em plenitude.
Não se resumo o direito à vida, entretanto, ao mero direito à sobrevivência física. Lembrando que, o Brasil tem como fundamento a dignidade da pessoa humana, resulta claro que o direito fundamental em apreço abrange o direito a uma existência digna, tanto sob o aspecto espiritual, quanto material (garantia do mínimo necessário a uma existência digna, corolário do Estado Social Democrático).55
.
Com tais premissas estabelecidas, já se vê a complexidade que anteriormente se fora mencionada. Uma vida que respeite a dignidade implica respeitar a vontade do dependente químico, deixando-o na situação em que se encontra, visto que fruto de sua liberdade, ou, ao contrário, em vista dessa mesma dignidade, interná-lo de maneira compulsória, a fim de que se mantenha um mínimo existencial.
Tradicionalmente, quando da colisão de direitos fundamentais, que na maior da parte das vezes adotam a feição de princípios, fala-se na aplicação da técnica da ponderação56.
No caso vertente, contudo, o que se tem é uma questão de constitucionalidade ou não e será melhor explicada no terceiro capítulo do presente trabalho. Suficientes, por ora, as explanações referentes à dignidade da pessoa humana.
3.1.2 O direito à liberdade
Os direitos fundamentais de primeira dimensão (ou geração) são aqueles que impõe ao Estado um non facere, um não fazer. Demandam, portanto, que o
55PAULO, Vicente. Direito Constitucional descomplicado. 3. ed., rev. E atualizada. Rio de Janeiro :
Forense ; São Paulo : METODO : 2008. p. 107.
Estado se abstenha de interferir na esfera privada do indivíduo. Nesse sentido, pode-se dizer que eles surgem em uma cosmovisão cujo preceito basilar é o status
libertatis.
Com efeito, a ideia de um status libertatis, que aponta para uma autonomia do indivíduo, também é, mutatis mutandis, adotada por Gregório Martinez Peces-Barba, que assim define os direitos fundamentais:
pode comprender tanto os pressupostos éticos como os componentes jurídicos, significando a relevância moral de uma ideia que compromete a dignidade humana e seus objetivos de autonomia moral e, também a relevância jurídica que converte os direitos em norma básica material do ordenamento, e em instrumento necessário para que o indivíduo desenvolva na sociedade todas as suas potencialidades. Os direitos fundamentais, portanto, expressam tanto uma moralidade básica como uma juricidade básica57.
De fato, assim entende Pérez Luño ao afirmar que, uma vez ultrapassados os sistemas políticos de feições totalitárias e absolutistas,
nas quais se dá um estado de sujeição no qual não existem liberdade, aparece um estado de liberdade no qual se reconhece um espaço de autonomia, uma esfera de não agressão ou ingerência do poder nas atividades dos particulares58.
A Constituição brasileira de 1988 adotou esses postulados básicos e, em decorrência, tornou direito fundamental à liberdade, conforme literalidade do caput do artigo 5º:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes.
Por essas disposições já se vê novamente surgir um aparente conflito entre a internação compulsória que, como visto, prescinde do consentimento do dependente químico, e o direito à liberdade, garantido constitucionalmente. Se esse conflito realmente for válido, e realmente a internação compulsória contrariar o direito fundamental à liberdade, será o caso de inconstitucionalidade das normas 57 “puede comprender tanto los presupuestos éticos como los componentes jurídicos, significando la relevancia moral de una idea que compromete la dignidad humana y sus objetivos de autonomia moral, y también la relevancia jurídica que convierte a los derechos en norma básica material del ordenamiento, y es instrumento necesario para que el individuo desarolle en la sociedade todas sus potencialidades. Los derechos fundamantales expresan tanto uma moralidad básica como uma juridicidad básica” PECES-BARBA, Gregório Martinez. Curso de derechos fundamentales. Teoria general. Universidad Carlos III de Madrid. Madrid: Boletín OficiaL del Estado, 1999. p. 37, tradução nossa.
58 “en las que se da un status subiectionis en el que no existen libertades, aparece un status libertatis en el que se reconoce un ámbito de autonomia, una esfera de no agresión o injerencia del poder en la actividad de los particulares” PÉREZ LUÑO, Antonio Enrique, Los derechos fundamentales. 8. ed. Madrid: Tecnos, 2004, p. 174, tradução nossa.
que prevejam tal instituto. Referida questão será explanada no terceiro capítulo do presente trabalho.
Por todo o exposto, se vê que a dignidade humana pode vir a colidir com a instituição compulsória, dado que, como decorrência da dignidade, o ser humano dever ser considerado livre, o que pode ser, em tese, violado pela internação compulsória.
3.1.3 O direito constitucional à saúde
Por outro lado, importa assinalar que, se o direito à liberdade é da primeira dimensão ou geração, o direito constitucional à saúde, por outro lado, enquadra-se na segunda dimensão.
Adicionalmente, é com base na ideia da dignidade da pessoa humana que se busca proteger o ser humano enquanto titular de direitos de uma maneira integral.
Desse modo, tal como a dignidade da pessoa humana se relaciona com a internação compulsória, assim também o direito garantido constitucionalmente à saúde também. Essa relação, porém, não é das mais simples, encontrando uma série de dificuldades.
Com efeito, é cediço que a Constituição da República Federativa do Brasil tornou a saúde direito de todos. Referida afirmação ganha maior firmamento quando se tem em linha de conta as disposições do artigo 196 da Carta Magna:
Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.59
É com base nesses postulados constitucionais que se deve proceder para se abordar a condição do dependente químico.
Com efeito, pela redação do artigo 196 da Constituição da República Federativa do Brasil, o direito à saúde é direito de todos. Por conta dessa disposição, cria-se entre o Estado e os cidadãos um vínculo obrigacional. Dessa
59 BRASIL. [Constituição (1988)] Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em:
maneira, o dependente químico tem um direito subjetivo público de receber um tratamento apropriado60.
Em decorrência disso, a multicitada lei 13.840 de 2019, que alterou inúmeros dispositivos da lei 11.343 de 2006, adotou uma visão terapêutica do tratamento do dependente químico.
Essa abordagem terapêutica, contudo, não é aquela abordagem meramente manicomial, que consiste em tratar o dependente químico como portador de uma doença. Ao contrário, o que se tem, com as sucessivas alterações legislativas, é uma abordagem mais holística, que leva em consideração o contexto social e econômico em que o dependente químico inevitavelmente está inserido61.
Buscando cristalizar esses preceitos constitucionais, respeitando, portanto, a força normativa da constituição62 é que se buscou criar políticas públicas que pudessem auxiliar o dependente químico em seu tratamento.
De fato, é justamente a busca pela saúde que (pode) fundamentar a internação compulsória do dependente químico, visto que, por meio dela, pode-se melhorar a qualidade de vida a longo prazo dele.
3.1.3.1 Políticas públicas voltadas ao tratamento do dependente químico
Importa ressaltar, nesse contexto, as políticas públicas oriundas do Poder Público destinadas ao tratamento do dependente químico.
Em grande parte, tais políticas decorrem do já explicitado direito à saúde, uma vez que referido direito implica o acesso universal à saúde:
O acesso universal à saúde deve ser feito através de políticas sociais e econômicas, em atenção à sua natureza social, que visem à redução do risco de doenças, ou outros estados que comprometam a saúde da coletividade, e possibilitem acesso universal às ações e serviços para a sua promoção, proteção e recuperação63.
A primeira das leis que buscou completar esse mister (i.e., de promover o acesso universal à saúde) foi a já citada lei 10216 de 2001, que tratou das pessoas 60 MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 901.
61 HIRDES, Alice. A reforma psiquiátrica no Brasil: uma (re) visão. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro , v. 14, n. 1, p. 297-305, Feb. 2009 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S1413-81232009000100036&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 13 Out. 2019. 62 MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 901.
63 AGRA, Walber de Moura. Curso de Direito Constitucional. 9. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2018. p. 837.