UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM
BOUVARD E PÉCUCHET DE GUSTAVE FLAUBERT: A
ANTECIPAÇAÕ DE TÉCNICAS ESTÉTICAS
VANGUARDISTAS NA LITERATURA DO SÉCULO XIX
ANA CLAUDIA PINHEIRO DIAS NOGUEIRA
Natal
2019
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM
ANA CLAUDIA PINHEIRO DIAS NOGUEIRA
BOUVARD E PÉCUCHET DE GUSTAVE FLAUBERT: A
ANTECIPAÇAÕ DE TÉCNICAS ESTÉTICAS
VANGUARDISTAS NA LITERATURA DO SÉCULO XIX
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como parte das exigências para a obtenção do título de Doutor em Linguagem.
Área de Concentração: Literatura Comparada. Linha de Pesquisa: Poéticas da Modernidade e da
Pós-modernidade.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Karina Chianca Venâncio
Natal
2019
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA
Nogueira, Ana Claudia Pinheiro Dias.
Bouvard e Pécuchet de Gustave Flaubert: a antecipação de técnicas estéticas vanguardistas na literatura do século XIX / Ana Claudia Pinheiro Dias Nogueira. - Natal, 2019.
220f.: il. color.
Tese (doutorado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Estudo da Linguagem, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2019. Orientadora: Profa. Dr. Karina Chianca Venâncio.
1. Flaubert - Tese. 2. Literatura francesa - Tese. 3. Artes visuais - Tese. 4. Contemporaneidade - Tese. 5.
Intertextualidade - Tese. I. Venâncio, Karina Chianca. II. Título.
RN/UF/BS-CCHLA CDU 821.133.1.09 Elaborado por Heverton Thiago Luiz da Silva - CRB-15/710
A Ulisses.
AGRADECIMENTOS
À Prof.ª Dr.ª Karina Chianca Venâncio, pela sua gentileza, competência e paciência; sua sabedoria é inspiradora. À Prof.ª Dr.ª Rosalina Sales Chianca, da qual, por um curto momento, pude desfrutar muita generosidade e simplicidade.
À Prof.ª Dr.ª Maria Adélia Menegazzo, por ter me dado as ferramentas basilares para que eu trilhasse o caminho encantador da literatura e das artes, e por ter me apontado o potencial da temática dessa presente tese.
Aos meus familiares que, apesar da distância, sempre olharam por mim.
Aos meus amigos amados Daniele Nantes Sobrinho e João Paulo dos Santos: sou muito grata pela presença de vocês em minha vida e por terem me apoiado em momentos de total desalento. À Gilmara Viviana Castor de Andrade, por ter sido uma candeia em alguns momentos dessa jornada.
À Prof.ª Dr.ª Catherine Mayaux, por ter oportunizado a realização do estágio de Doutoramento no exterior, através da Université de Cergy-Pontoise, França.
À Capes, por ter me consentido a bolsa de doutorado sanduíche no exterior – PDSE durante 4 meses. Sem esse auxílio, seria impossível a realização plena da presente tese. A Antônio Celestino Jr., por ter sido um anjo em terras estrangeiras.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo analisar elementos precursores na literatura do século XIX, através das obras de Gustave Flaubert (1821-1880), mais especificamente em seu último livro, Bouvard e Pécuchet (1881). O escritor francês se consagrou na prosa com Madame Bovary, em 1857, trazendo uma nova concepção literária, perpassando a temática à estruturação inovadora do romance. Ademais, sob o tema
Bouvard e Pécuchet de Gustave Flaubert: a antecipação de técnicas estéticas vanguardistas na literatura do século XIX, emitimos a hipótese de que Flaubert antecipa
aspectos estéticos que serão concernentes aos processos pictóricos dos vanguardistas no século XX, como os cubistas e os dadaístas, criando uma narrativa fragmentária, não linear e intertextual a partir da técnica da colagem de ideias e da desfuncionalização de alguns processos da prosa tradicional, configurando, na segunda parte do livro, o
Dicionário de ideias feitas. Além desses processos estruturais, o referido escritor, nesse
romance, constrói uma atmosfera irônica em referência aos conhecimentos científicos e enciclopédicos em voga na época, a fim de denunciar a tolice humana em tentar abarcar todo o saber vigente e ditá-lo como verdade irrefutável, através da figura de seus dois personagens principais. Para isso, consideramos necessário entendermos o contexto histórico e estético em que Gustave Flaubert configurou-se escritor, utilizando, como aporte teórico basilar, visões de Sartre (2013), Tadié (2011), Bourdieu (1996), Gombrich (2003) e Bergez (2011). Em convergência com esse processo, sob a ótica de Barthes (1974; 2004), Biasi (2011), Thibaudet (1992), Dord-Crouslé (2000), entre outros, abordamos a influência da ciência e como essa relação interferiu na formação de seu estilo literário e na sua obsessão pela forma escritural, além de ressaltarmos o caráter pessimista que cada obra flaubertiana carrega, com fins estéticos. Por fim, com intuito de analisar a antecipação estética em Bouvard e Pécuchet (1881), adotamos a abordagem da intertextualidade trazida por Kristeva (2005), Compagnon (1996; 2006), Genette (2010) e Samoyault (2008), criando um paralelo comparativo com os movimentos cubista e dadaísta no século XX, com discurso embasado em conceitos de Francastel (1990), Cottington (1999) e Tassinari (2001).
Palavras-chave: Flaubert; Literatura francesa; Artes visuais; Contemporaneidade;
ABSTRACT
This work aims to analyze precursor elements in nineteenth-century literature through the oeuvres of Gustave Flaubert (1821-1880), more specifically in his last book,
Bouvard and Pécuchet (1881). The French writer was consecrated in prose with Madame Bovary, in 1857, bringing a new literary conception, going from the subject to
the innovative structuring of the novel. Furthermore, regarding the title "Bouvard and Pécuchet by Gustave Flaubert: the anticipation of avant-garde aesthetic techniques in nineteenth-century literature", we hypothesized that Flaubert anticipates aesthetic aspects that will be concerned with the pictorial processes of the avant-garde in the twentieth century, such as the Cubists and the Dadaists, creating a fragmentary, non-linear and intertextual narrative based on the technique of collage of ideas and the de-functionalization of some processes of traditional prose, configuring, in the second part of the book, the Dictionary of Received Ideas. In addition to these structural processes, the writer in this book constructs an ironic atmosphere in reference to the scientific and encyclopedic knowledge in vogue at the time in order to denounce human foolishness in attempting to embrace all existing knowledge and dictate them as irrefutable truths, through the figure of its two main characters. For this, we consider it necessary to understand the historical and aesthetic context in which Gustave Flaubert became a writer, using, as a theoretical basilar contribution, visions of Sartre (2013), Tadié (2011), Bourdieu (1996), Gombrich (2003) and Bergez (2011). In convergence with this process, from the perspective of Barthes (1974, 2004), Biasi (2011), Thibaudet (1992), Dord-Crouslé (2000), and others, we approached the influence of science and how this relation interfered in the formation of his literary style and his obsession with the scriptural form, besides emphasizing the pessimistic character that each Flaubertian oeuvre carries with aesthetic purposes. Finally, in order to analyze the aesthetic anticipation in Bouvard and Pécuchet (1881), we adopted the approach of intertextuality brought by Kristeva (2005), Compagnon (1996; 2006), Genette (2010) and Samoyault (2008), creating a comparative parallel with the Cubist and Dadaist movements in the twentieth century, with a discourse based on concepts by Francastel (1990), Cottington (1999) and Tassinari (2001).
RÉSUMÉ
Ce travail vise à analyser des éléments précurseurs dans la littérature du XIXè siècle à travers les œuvres de Gustave Flaubert (1821-1880), spécifiquement dans son dernier livre, Bouvard et Pécuchet (1881). En prose, l’écrivain français est devenu célèbre avec Madame Bovary (1857), apportant une nouvelle conception littéraire, traversant la thématique à la structuration innovatrice du roman. En outre, sous le titre “Bouvard et
Pécuchet de Gustave Flaubert: l’anticipation des techniques esthétiques d’avant-garde dans la littérature du siècle XIX”, nous avons émis l’hypothèse que Flaubert anticipe
les aspects esthétiques qui seront concernés par les processus picturaux de l’avant-garde au XXè siècle, tels que les cubistes et les dadaïstes, créant un récit fragmentaire, non
linéaire et intertextuel, basé sur la technique du collage des idées et du dysfonctionnement de certains processus de la prose traditionnelle, en configurant, dans la deuxième partie du livre, le Dictionnaire des idées reçues. Au délà de ces processus structurels, l’auteur, dans ce livre crée une atmosphère ironique en référence aux connaissances scientifiques et encyclopédiques de l’époque, à finde dénoncer la sottise humaine qui essaie d’englober toutes les connaissances existantes et de les dicter comme vérités irréfutables, à travers ses deux personnages principaux. Pour cela, nous estimons nécessaire comprendre le contexte historique et esthétique dans lequel Gustave Flaubert s’est affirmé en tant qu’écrivain, nous utilisons comme apport théorique basilaire le point de vue de Sartre (2013), Tadié (2011), Bourdieu (1996), Gombrich (2003) et Bergez (2011).Dans la convergence de ce processus, sur l’optique de Barthes (1974; 2004), Biasi (2011), Thibaudet (1992), Dord-Crouslé (2000), entre autres, nous traitons sur l’influence de la Science et comment cette relation a interféré sur la formation du style littéraire de Flaubert etsur son obsession par la forme scripturale, en plus, nous soulignons le caractère pessimiste que chaque œuvre flaubertienne porte à des fins esthétiques. Enfin, dans le but d’analyser l’anticipation esthétique présente dans
Bouvard et Pécuchet (1881), nous avons adopté l’approche intertextuel proposé par
Kristeva (2005), Compagnon (1996; 2006), Genette (2010) et Samoyault (2008), créant un parallèle comparatif avec les mouvements cubiste et dadaïste au XXè siècle, avec un discours basé dans les concepts de Francastel (1990), Cottington (1999) et Tassinari (2001).
Mots-clés : Flaubert ; Littérature française ; Arts visuels ; Contemporanéité ;
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Carta escrita por Flaubert aos nove anos de idade ... 28 Figura 2: O viajante sobre o mar de névoa (1818), de Caspar David Friedrich; óleo sobre tela, 94,8 x 74,8 cm. ... 39 Figura 3: A balsa da Medusa (1819), de Théodore Géricault; óleo sobre tela, 4, 91 m x 7,15 m. ... 40 Figura 4: A Morte de Sardanapalo (1827), de Eugène Delacroix; óleo sobre tela, 392 x 496 cm. ... 42 Figura 5: As Respigadoras (1857), de François Millet; óleo sobre tela, 84 cm x 1,12 m. ... 55 Figura 6: Bom dia, senhor Courbet (1854), de Gustave Courbet; óleo sobre tela, 129 cm x 149 cm. ... 56 Figura 7: O almoço na relva (1863), de Édouard Manet; óleo em tela, 2,48 m x 2,17 m. ... 63 Figura 8: Olympia (1863), de Édouard Manet; óleo em tela, 130,5 cm x 190 cm. ... 64 Figura 9: Impressão: nascer do sol (1872), de Claude Monet; óleo em tela, 48 cm x 63 cm. ... 66 Figura 10: O baile no Moulin de la Galette (1876), de Auguste Renoir; óleo em tela, 1,31 m x 1,75 m. ... 67 Figura 11: Carta original de Gustave Flaubert a Louise Colet, em 24 de abril de 1852. 88 Figura 12: A tentação de Santo Antão (1495-1500), de Pieter Brueghel, O jovem; Óleo sobre madeira de carvalho, 131.5 × 119 / 53 m. ... 121 Figura 13: Detalhe do vitral de São Julião na Catedral de Rouen, França ... 128 Figura 14: A estação Saint-Lazare (1877), de Claude Monet; óleo sobre tela, 74,9 x 100,3 cm. ... 152 Figura 15: Natureza morta (1878), de Paul Cézanne; óleo sobre tela, 46,4 x 54,6 cm. 154 Figura 16: O castelo de Médan (1880), Paul Cézanne; óleo sobre tela, 59 x 72 cm. ... 155 Figura 17:Casas em l'Estaque (1908), de Georges Braque; óleo sobre tela, 73 x 59,5 cm. ... 159 Figura 18: Cabana e árvore (La Rue-des-Bois) (1908), de Pablo Picasso; óleo sobre tela, 92 x 73 cm. ... 160 Figura 19: Máscara babangi do Congo Francês. ... 162 Figura 20: Les demoiselles d’ Avignon (1907), de Pablo Picasso; óleo sobre tela, 243,9 × 233,7 m. ... 162 Figura 21: Banhistas (1898-1905), de Paul Cézanne; óleo sobre tela, 127,2 x 196,1 m. ... 164 Figura 22: Três banhistas (1879-1982), de Paul Cézanne; óleo sobre tela, 52 x 55 m. 164 Figura 23: Natureza morta com palha de cadeira (Nature morte a la chaise cannee) (1912), de Pablo Picasso; óleo, encerado e papel colado sobre tela emoldurada com corda, 27 x 35 cm. ... 167 Figura 24: Guitarra (Guitarre) (1913), de Pablo Picasso; papel colado, carvão, giz e nanquim sobre papel montado em tela, 66,4 x 49,6 cm. ... 168
Figura 25: Fonte (1917), de Marcel Duchamp; porcelana, altura 33,5 cm. ... 171 Figura 26: Fotografia de Marcel Duchamp com a obra L.H.O.O.Q., objet trouvé (1919), em 1965. ... 172 Figura 27: L.H.O.O.Q., objet trouvé (1919), de Marcel Duchamp; cartão postal que reproduz a obra Mona Lisa de Leonardo da Vinci, 19,7 x 12,4 cm. ... 172 Figura 28: Frontispício do livro Manuel D’higiène (1827), de M. Morin. ... 184 Figura 29: Fruteira e copo (1912), de Georges Braque; carvão e papel impresso sobre papel, 62 x 44,5 cm. ... 188 Figura 30: Copo e garrafa de Suze (1912), de Pablo Picasso; papéis colados, guache e carvão, 65, 4 x 50,2 cm. ... 189 Figura 31: Os rascunhos de Flaubert referentes ao capítulo XI e ao capítulo XII, da obra
Bouvard e Pécuchet (1881). ... 200
Figura 32: Fotografia de Marcel Duchamp ao lado da obra Roda de bicicleta (1913), em 1963. ... 207 Figura 33: O olho cocodilato (1921), de Francis Picabia; óleo sobre tela e colagem de fotografias, cartões postais, vários papéis recortados, 148,6 x 117,4 cm. ... 208
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 12
CAPÍTULO I ... 17
1 O desenrolar histórico do século XIX e a ascensão de Gustave Flaubert ... 17
1.1 O início de um século ... 19
1.2 A configuração estética do Romantismo no século XIX ... 33
1.3 Flaubert e o início de uma transição estética ... 43
1.4 Novas concepções estéticas: a necessidade do real ... 47
1.5 Novas transgressões estéticas ... 62
CAPÍTULO II ... 74
2 Flaubert e sua posição como escritor no século XIX: características e singularidades 74 2.1 A literatura, a ciência e o estilo ... 74
2.1.1 A composição do estilo ... 86
2.2 As obras flaubertianas e suas particularidades ... 98
2.2.1 Madame Bovary (1857) ... 101
2.2.2 Salambô (1862) ... 107
2.2.3 A educação sentimental (1869) ... 113
2.2.4 A tentação de Santo Antão (1874) ... 120
2.2.5 Três contos (1877) ... 124
2.3 Bouvard e Pécuchet (1881): a busca em enquadrar a ignorância ... 133
2.3.1 Dicionário de ideias feitas e a gêneses de Bouvard e Pécuchet ... 135
CAPÍTULO III ... 146
3 Bouvard e Pécuchet e antecipação de elementos estéticos do século XX. ... 146
3.1 Livro sobre o livro ... 146
3.2 As questões da estética moderna: um percurso ... 149
3.3 As questões da estética moderna: século XX ... 156
3.4 Ideias alheias e a composição de Bouvard e Pécuchet... 174
3.5 Dicionário de ideias feitas: o resumo de revoltas ... 203
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 213
INTRODUÇÃO
A pesquisa direcionada para esse estudo foi concebida a fim de corresponder à necessidade de uma análise mais precisa sobre a presença de elementos narrativos precursores na última obra de Gustave Flaubert, Bouvard e Pécuchet (1881), sob a ótica da picturalidade contemporânea. Percebemos que, a partir dessa relação, obteríamos novas perspectivas em precisar o caráter inovador da abordagem flaubertiana em seus dois personagens principais. O fator motivador por esse entendimento surgiu durante a graduação, sob orientações da Prof.ª Dr.ª Maria Adélia Menegazzo, e partiu de um pressuposto trazido pelo crítico brasileiro Augusto de Campos, em seu ensaio O
Flaubert que faltava (1978), em que afirma que o referido último romance utiliza dos
mecanismos da colagem e do gesto anárquico dos artistas contemporâneos do século XX, devido à descontinuidade narrativa da obra. Assente à fala de Campos, fomos à procura de pesquisas que aprofundaram tal sugestão e percebemos que ainda não havia estudos no meio acadêmico brasileiro referente a tal pressuposto.
Assim, neste trabalho, temos como objetivo analisar e destacar técnicas e elementos estéticos prenunciadores utilizados por Gustave Flaubert ao compor a obra inacabada Bouvard e Pécuchet (1881). Embora saibamos que o escritor francês tenha pertencido ao contexto histórico do século XIX e não tenha nenhuma relação com as estéticas do século subsequente, nossa hipótese e seu ineditismo partem do princípio de que ele antecipa técnicas estéticas associadas às vanguardas europeias na prosa. Logo, adotamos, como parâmetro convergente, alguns movimentos estéticos do século XX, mais especificamente as técnicas cubistas (1907–1914) e dadaístas (1916), devido ao seu caráter transgressor na arte moderna como ponto de convergência, mostrando que Flaubert, em seu contexto criativo, já havia anunciado elementos estéticos revolucionários na literatura.
Nosso intuito primordial não é fazer uma relação estreita e indissociável entre literatura e artes visuais, mas sim trazê-las lado a lado, mostrando suas evoluções de forma independente. Constatamos, durante nossa pesquisa, que Gustave Flaubert foi um escritor que primava por essa melindrosa distância, embora existam vários estudos importantes sobre a relação das obras flaubertianas e as artes picturais, realizadas por Jurt (2002), Bernard Vouilloux (2011) e Adrianne Tooke (2000), que compilam a presença pictural na produção do escritor, devido à sua maestria descritiva e ao seu estilo que beirava a obsessão poética. Portanto, a fim de buscarmos respostas para tais
suposições, fundamentaremos sim a pesquisa sob a ótica intertextual, porém respeitando cada espaço de diálogo estético e suas especificidades.
Ao elegermos Bouvard e Pécuchet (1881) como objeto de pesquisa, percebemos que tal obra se configura de fato como o resumo dos intentos estéticos de Gustave Flaubert. Inicialmente, o enredo proporciona uma ideia ilusória de simplicidade: dois homens comuns, amantes dos livros e das teorias científicas, sempre sonharam pôr em prática o que liam. Ambos são copistas - o que aumenta mais o espírito de coincidência na trama - e encontram-se casualmente em um dia quente no bulevar Bourdon. Nasce uma amizade e um desejo mútuo: abandonar seus empregos e dedicarem-se plenamente à experimentação de seus conhecimentos. Eles falham nas diversas áreas que se aventuram, desde agronomia a pedagogia. A cada capítulo, uma nova área científica é eleita para ser explorada e experimentada, com um novo fracasso sendo instaurado.
Concebido por meio de inúmeros textos catalogados de diversas áreas de conhecimento, o romance de Flaubert, através de seus dois protagonistas, expõe a necessidade do século XIX em abarcar o conhecimento científico e enciclopédico, conduzindo-nos ao raciocínio da ideia de tolice em explicar os fatos corriqueiros e universais através e somente pela ótica dos livros, que se concretizará no segundo tomo da obra, o Dicionário de ideias feitas. Essa compilação flaubertiana respeitará a disposição tradicional de um dicionário, porém os significados dos verbetes sofrerão modificações, trazendo definições irônicas, empíricas e desfuncionalizadas, a fim de satirizar esse compêndio detentor das respostas tidas como verdades inquestionáveis.
Para obtenção de tal intento, o escritor, na confissão de suas correspondências, assumiu que precisou ler e arquivar mais de 1500 títulos e seus respectivos autores durante trinta anos, a fim de encontrar contradições e discrepâncias teóricas, para reuni-las em seu enredo como forma de denúncia a uma sociedade fadada à ignorância e a engodos. A partir dessa documentação, Flaubert fundamenta uma narrativa inédita: o livro causa estranhamento, pois, ao citar suas referências em Bouvard e Pécuchet (1891), o escritor não suprime a autoria original, colocando-as em um novo espaço, isto é, com o espaço ficcional da narrativa criando uma estética intertextual, contraditória e fragmentária, remetendo-nos à colagem de ideias na literatura.
Em consonância, percebemos que os cubistas, no início do século XX, trouxeram à tona a denúncia de um período, inspirando outros movimentos artísticos posteriores através da fragmentação do espaço pictórico, da desconstrução da representação mimética, isto é, houve a necessidade de romper com as concepções
pictóricas clássicas. Em 1907, o artista Pablo Picasso (1881-1973) expõe Les
demoiselles d’Avignon e anuncia definitivamente o rompimento e o comprometimento
com a representação figurativa e reconhecível. Ao utilizar formas geométricas para configurar suas mulheres nuas, recompostas de forma a dar o efeito de simultaneidade ao espaço da pintura, ele rompe com a tradição de profundidade, dando à obra um aspecto plano e a sensação de concretude. Durante esse período de experimentação, Picasso e seu companheiro de trabalho Georges Braque (1882-1963) almejavam romper ainda mais com as concepções clássicas, recorrendo a uma nova técnica que modificaria consideravelmente a representação artística tida até então: a colagem. Tal técnica consiste em utilizar elementos inesperados, como pedaços de papel, jornal, tecido, madeira, selos, fotos, e os sobrepor à pintura, mantendo a alteridade e dando-lhes uma dupla função interpretativa. Essa técnica, no espaço artístico, provoca a descontinuidade na superfície do quadro, não se comprometendo em representar a realidade propriamente dita, mas sim em recriar essa realidade criativa de maneira independente, revolucionando o espaço pictórico.
Não obstante, o Dadaísmo, movimento anarquista oriundo do Cubismo, não apenas contestou a linguagem artística clássica, como também a sua configuração no cotidiano social. Os artistas passam a se apropriar de objetos reconhecíveis, como um mictório e uma roda de bicicleta, utilizando da desfuncionalização primordial para assumir a função artística, de cunho anárquico. Essa técnica ficou conhecida como
readymade. A partir dessa ação, o espaço e a concepção de representação mimética são
postas em xeque. O espaço moderno se instaura definitivamente.
Desta forma, verificamos as similaridades de tais técnicas vanguardistas com as utilizadas muito antes por Gustave Flaubert, em Bouvard e Pécuchet (1881), no século XIX. Julgamos de suma importância discutir essas consonâncias, pois percebemos a posição precursora que tal obra assumiu no século XX diante de literários, como Proust e James Joyce. Não encontramos, contudo, nenhuma pesquisa no contexto brasileiro que tenha feito o cotejamento entre a última obra flaubertiana e as artes visuais de vanguarda. Convém notar, a título de esclarecimento, que a fortuna crítica basilar para essa relação e contextualização contemporânea entre as duas linguagens partiu de concepções de Roland Barthes, trazidas em O grau zero da escrita (1974a), O Rumor
da língua (2004a) e O grão da voz (2004b); de Ezra Pound, em seu ensaio James Joyce et Pécuchet (1966); e das discussões intertextuais de Gérard Genette, em Palimpsestos
de preceitos consistentes para nossa hipótese, cujo intuito ainda se encontra inexplorado nos meios acadêmicos. Não obstante, contamos como suporte propício as correspondências escritas por Flaubert, utilizadas como fontes de pesquisa.
Destarte, para que compreendamos o cerne de nossa pesquisa, julgamos necessário fazer um percurso histórico e estético no qual Gustave Flaubert estava inserido até culminar nas relações intertextuais com as artes visuais no século XX. Para isso, no primeiro capítulo, rememoraremos as implicações sociais, políticas e estéticas oriundas da Revolução Francesa de 1789, juntamente com alguns elementos biográficos do escritor francês, como sua infância e a influência da ciência e da medicina em seus futuros textos, além do meio cultural em que ele esteve inserido. Abordaremos a representatividade da instauração do Romantismo no início do século, tanto na literatura quanto na pintura, a fim de justificar as mudanças primordiais estéticas no início do século XIX, fundamentais para a evolução artística nesse período. Adstrito a esses processos, Gustave Flaubert se configurará escritor, anunciando, durante a instauração da escola realista, a sua obra inaugural Madame Bovary (1857), atrelada, na pintura, a Gustave Courbet (1819-1877). Por fim, após sua consagração como escritor, definiremos a posição de Flaubert na literatura francesa, incorporado com as representações pictóricas posteriores, representadas pelos impressionistas e suas técnicas inovadoras.
No segundo capítulo, após definirmos a representatividade da obra inaugural de Gustave Flaubert, partiremos para a discussão de seus métodos de trabalho: o estilo, a influência do método científico e o seu comprometimento na construção das frases, sob concepções de Biasi (2011), Barthes (1974; 2004), Thibaudet (1992) e Dord-Crouslé (2000). A partir dessas definições, faremos um comparativo e um percurso pelas obras do referido escritor, a fim de destacar alguns elementos específicos presentes em suas narrativas, como a ideia de anti-heroísmo, o pessimismo e a bêtise (tolice). Em sequência, analisaremos o processo de composição de sua última obra, Bouvard e
Pécuchet (1881), com o intuito de entendermos a sua representatividade para a literatura
contemporânea e os momentos conflitantes que Gustave Flaubert vivenciou ao conceber tal empreitada.
Por fim, no terceiro e último capítulo, abordaremos a relação da última obra flaubertiana com as artes visuais de vanguarda, mais especificamente o Cubismo e o Dadaísmo. Para isso, faremos um percurso estético contemporâneo para que compreendamos a instauração desses movimentos na modernidade, pertencentes ao
período social subsequente ao de Gustave Flaubert. Em seguida, faremos o cotejamento das técnicas utilizadas pelos vanguardistas com a estrutura narrativa de Bouvard e
Pécuchet (1881), como a colagem e a negatividade, a fim de confirmar que tal livro
antecipou conceitos inovadores na literatura em pleno século XIX. Para isso, utilizaremos, como aporte teórico, conceitos de intertextualidade, na concepção de Kristeva (2005), Samoyault (2008), juntamente com as vertentes de Genette (2010) que, além do intertexto, amplia a discussão para o hipertexto.
A partir dessa compilação, esperamos cumprir com o desígnio de expor a contemporaneidade contida em Bouvard e Pécuchet (1881), obra mal compreendida na época de sua publicação. Todavia, no século XX, percebemos o início de um reconhecimento em tal livro, servindo de suporte para a prosa moderna. Segundo Pound (1966), Flaubert prefigura herdeiros na literatura contemporânea, como James Joyce e Franz Kafka, e consegue ainda deixar muitos outros estarrecidos com tal proposta, assim como os cubistas e os dadaístas fizeram.
Ressaltamos que as traduções encontradas no corpo de nossa pesquisa em língua francesa, em sua maioria, foram realizadas pela Prof.ª Dr.ª Gilmara Viviane Castor de Andrade, e, em língua inglesa, foram feitas por nós. As traduções referentes aos trechos da obra Bouvard e Pécuchet (1881) são agregadas a Marina Appenzeller, responsável pela edição brasileira publicada pela editora Estação Liberdade, em 2007.
CAPÍTULO I
Há em mim, literalmente falando, dois homenzinhos distintos: um que é apaixonado por grito, por lirismo [...] e um outro que procura e escava o
verdadeiro arduamente enquanto
pode.1
(Gustave Flaubert, Correspondência, 16 de janeiro de 1852)
1 O desenrolar histórico do século XIX e a ascensão de Gustave Flaubert
Gustave Flaubert (1821-1880) não foi apenas um dos maiores escritores do século XIX, mas também um autor com estilo inovador cujo estudo crítico se desenvolveu consideravelmente no último terço do século XX. O escritor desperta curiosidade e admiração tanto em escritores quanto em críticos, como se seus textos pudessem se tornar, com frequência, o lugar do surgimento de novas questões a serem discutidas e revisadas. Seu trabalho está presente na história da literatura ocidental como símbolo ativo de uma verdadeira renovação que os críticos de hoje não acabaram de medir os significados e efeitos causados na literatura universal.
Sob a influência romântica, inicialmente sobreposta pela necessidade de transpor as necessidades subjetivas, entre outros aspectos particulares a tal estética, Flaubert transformou radicalmente os requisitos estilísticos e as técnicas narrativas do gênero. Sua concepção absoluta da profissão de escritor, na França e no exterior, marcou um ponto de mudança no sentido e no alcance que a modernidade atribuiu à criação literária em geral (BIASI et al., 1998, p. 237). Agregamos a Flaubert essa posição de escritor contemporâneo, segundo concepções de Agamben (2009, p. 58-59). O crítico italiano define o indivíduo contemporâneo devido a sua inadequação com seu tempo que, consequentemente, “[...] não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e aprender o seu tempo”. Podemos afirmar que ser contemporâneo é ser, justamente, aquele que sabe ver a obscuridade latente e é capaz
1 “Il y a en moi, littérairement parlant, deux bonshommes distincts: un qui est épris de gueulade, de
lyrisme [...] et un autre qui fouille et creuse le vrai tant qu’il peut avec ardeur”. Carta de Flaubert a Louise Colet, em 16 de janeiro de 1852. Disponível em: <https://flaubert.univ-rouen.fr/correspondance/conard/lettres/52a.html>. Acesso em: 9 set. 2018.
“[...] de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente” (AGAMBEN, 2009, p. 63).
Precursor do romance moderno, devido ao seu tratamento com a forma e o estilo que beirava à perfeição, segundo Sarraute (1986), influenciador literário, dono de uma concepção visionaria na literatura, Flaubert, desde cedo, esteve inserido em um contexto histórico transformador. Na condição de herdeiro das mudanças oriundas da Revolução Francesa, do progresso científico e urbano, seu acesso e sua busca pelo conhecimento tornaram-se vitais: a Revolução Industrial, em meados de 1760, que perduraria no século seguinte, e a explosão da Revolução Francesa, em 1789, trouxeram à tona a necessidade de questionar o modo de viver em sociedade, a evolução científica e a busca pelos direitos sociais no século posterior.
Os conceitos estéticos também mudaram, influenciando a literatura e a pintura. Flaubert, ao publicar Madame Bovary, sua primeira obra, em 1857, provocou uma revolução nas letras sem precedentes na prosa, com a temática e o estilo diferenciado de narrativa, assim como fizeram, posteriormente, enquanto elo comparativo com intenção de inovação, os pintores impressionistas, com suas cores e a nova concepção da luz até então incompreendidas. O referido autor adota e se inspira no método científico para compor suas obras, como forma de criar seu próprio estilo, e se afasta do aspecto subjetivo latente nos escritores do início do século XIX. A partir dessa premissa, o escritor sustentará, durante toda sua vida, uma obsessão pelo conhecimento e pela harmonia das palavras em suas composições, tornando-se um escritor precursor, na concepção de Nathalie Sarraute (1986). Ela afirma que Flaubert é o precursor do romance atual, pois o autor é o primeiro para quem a forma e o estilo desempenham um papel determinante (SARRAUTE, 1986, p. 1623).
Essa obsessão atinge o grau máximo em sua última obra, Bouvard e Pécuchet (1881), objeto de estudo da presente tese, que traz elementos precursores na literatura no século XIX, compreendidos no século posterior, causando discussão e influenciando a literatura moderna. Publicado postumamente em 1881, o livro desconcertou os seus contemporâneos e foi considerado uma “vingança moral”2 diante da sociedade burguesa
da época. O escritor dedicou-se a leituras de vários livros, de assuntos de diversas áreas do conhecimento, com o intuito de criar uma “Enciclopédia da estupidez humana”. Para isso, ele detectou teorias incoerentes e as redirecionou para seu romance, mantendo a
autoria das obras que lia, em que o tempo, o espaço e a posição do autor acabam se confundindo, denunciando a estupidez humana diante da necessidade de abarcar o maior número de saberes.
Neste capítulo, faremos um percurso histórico e artístico do século XIX e analisaremos a ascensão de Gustave Flaubert como indivíduo e escritor em meio a tal período e sua consolidação como artista que revolucionou a prosa. A partir desse percurso, será possível visualizar com mais clareza a sua influência no século seguinte e a razão pela qual Bouvard e Pécuchet (1881) é um livro considerado precursor.
1.1 O início de um século
O escritor Gustave Flaubert nasceu e viveu em um período histórico de constantes transformações e, por isso, consideramos de grande importância refazer esse percurso para maiores esclarecimentos. O período após a Revolução Francesa (1789-1799) anunciava uma revolução social, política, econômica, científica e, sobretudo, estética. O século XIX foi dotado de turbulências e grandes mudanças na Europa, mais precisamente na França. Foram herdadas profundas mudanças sistêmicas na economia, repercutindo no desenvolvimento do capitalismo moderno, acarretando o progresso da ciência e da tecnologia. Depois do Século das Luzes e dos filósofos, Rincé (1978) afirma que o século XIX se configura como um contexto de revolta, de contestação e de pesquisa.
A Europa também vivenciava as mudanças e as transformações decorrentes da Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra. Paralelamente a essa Revolução, segundo Mélonio, Marchal e Noray (2007, p. 308), novas invenções surgiram para o aprimoramento da indústria, como a divisão de trabalho, o crescimento da produtividade, a formação de centros urbanos, o surgimento do engajamento político dos trabalhadores, as consequentes revoltas sociais, instaurando-se um paradoxo social em diversas camadas da população.
Assim, Paul Van Tieghem (1969, p. 7) afirma que, após o século XVII, o século do pensamento, da filosofia, do Iluminismo3, houve uma renovação das concepções
3 O Iluminismo, também conhecido como “século das luzes”, foi um movimento filosófico
e intelectual difundido na Europa, durante o século XVIII, sendo fonte inspiradora para a afirmação da Revolução Francesa, iniciada em 1789. Alguns dos conceitos defendidos pelo Iluminismo centram-se na razão como a principal fonte de autoridade e legitimidade, dando ênfase aos métodos científicos como
intelectuais. A classe burguesa, que estava em busca de sua ascensão e autonomia, defendia o liberalismo econômico e a democracia através dos discursos preparados pelos filósofos da primeira metade do século XVIII, o “período das luzes”. Décadas depois, a revolução tomava conta da Europa.
Tieghem (1969) afirma que a França era governada por um poder monárquico absolutista, isto é, a economia, a justiça e a política estavam sob o domínio do rei. Da morte do Rei-Sol, Luís XIV, em 1715, até a crise de 1789, sob o reinado de Luís XVI, a opinião pública modificou-se profundamente em relação ao regime político autoritário em vigor na época. Os ideais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” contagiaram os setores populares, fomentando a ideia de movimentar uma força popular para a derrubada do regime absolutista. Logo, as origens do movimento revolucionário francês poderiam ser embasadas no descontentamento das novas forças sociais ascendentes contra o poder instituído pelo Antigo Regime.
Esse governo repressor provocou na população uma postura que almejava rejeitar as ordens estabelecidas, as diferenças e as restrições, ao mesmo tempo em que exigia seus interesses e direitos, o reconhecimento como cidadão que ansiava por dignidade e condições mínimas de sobrevivência. Ideologicamente falando, esse momento histórico tornou-se o celeiro de ideais que impulsionavam as camadas populares em sua causa histórica, com propostas que defendiam um governo democrático, eleito pelo povo, de igualdade e justiça social, de direitos humanos e liberdade.
Nesse contexto, a França enfrentou uma crise econômica que acarretou fome e desemprego à população em geral, tanto no campo como na cidade. Em Paris, o caos foi instaurado e foram reivindicadas sérias mudanças ao rei. Devido a esses acontecimentos, a Revolução se configurava e tinha como objetivo exigir e atender às necessidades políticas e econômicas da burguesia precisamente, classe essa formada por banqueiros, industriais e comerciantes, e, em contrapartida popular, o objetivo de libertar os camponeses das obrigações feudais. Além disso, os burgueses consideravam o absolutismo monárquico um empecilho à expansão econômica e à igualdade social, juntamente com a interferência do Estado, da nobreza e do clero.
Esse momento foi marcado por conflitos e guerras, porém a população francesa começou a conquistar direitos e a criar leis constitucionais em favor da dignidade social.
fonte de verdade, além de defender ideais como liberdade, progresso, tolerância, fraternidade, governo constitucional e separação Igreja-Estado como forma de autonomia do indivíduo intelectual e pensante.
O poder monárquico começou a ruir e a esperança de melhorias tornou-se algo latente. Surgiu, então, a República, em 1792, que assegurava ao povo o direito de voto, de rebelião, direito ao trabalho e à subsistência. Em 1793, o rei Luís XVI foi guilhotinado como símbolo da decadência monárquica. Entretanto, em 1795, aconteceu o grande golpe de estado armado pela burguesia, que marcou o fim da participação popular no movimento revolucionário, durando até 1799.
Após a Revolução Francesa, o século XIX inaugurou-se sob o governo militar liderado por Napoleão Bonaparte (1769-1821). Com a proclamação do Império, Napoleão assegurou a estabilidade política burguesa e silenciou as reivindicações populares. Logo após o plebiscito favorável ao líder francês, em 1802, os valores da Revolução começaram a ruir. O referido líder político tinha a pretensão de centralizar o poder mundial na França, com o enfrentamento a outros regimes monárquicos, o que acarretou várias guerras territoriais e consecutivas derrotas. Assim, com a Revolução, socialmente e politicamente falando, a burguesia alcançou o almejado poder na França, iniciando, no país, um longo período de luta pela consolidação desse poder.
Em consonância, depois da era Iluminista, das ideias filosóficas e da Revolução, o século XIX foi caracterizado pelas ideias de contestação e questionamento. O desenvolvimento industrial, já na sua segunda fase, em 1900, estava em ritmo promissor, mudando a Europa. Houve construções de estradas, ferrovias, pontes e canais, pavimentação das ruas, utilização de esgotos e água corrente nos grandes centros urbanos, aumento na produção de alimentos, além da aquisição e da necessidade de hábitos de higiene e do controle das epidemias, que contribuíram para o crescimento das populações e das cidades. Decorrente a isso, a ciência, ao longo do período oitocentista, conquista gradualmente sua autonomia e constitui sua própria linguagem. Mélonio, Marchal e Noray (2007, p. 459) afirmam que, além das ciências físicas, como a história natural e a medicina, outras ciências prefiguraram nesse século, as chamadas ciências humanas: história, sociologia, linguística, filosofia. Assim, no ponto de vista de Tadié (2011), a sociedade começou a assumir um grau de complexidade até então não vista, com modificações no modo de vida, nos valores e nas instituições tradicionais.
O momento era instável: o povo se encontrava à deriva do sistema político da época. A Revolução deixou indivíduos fragilizados e vulneráveis, como comentado. Segundo Mélonio, Marchal e Noray (2007, p. 305), no início da década de 1820, os contrarrevolucionários cunharam a palavra “individualismo” para designar não só essa insegurança da sociedade, mas também denotar a ideia da posição crítica do cidadão, de
revolta, de reivindicação pela liberdade tão almejada, de recusa às autoridades que lhes eram impostas. A grande massa da população, incluindo a classe trabalhadora, começou a perceber, no entanto, que, apesar das revoluções, das supostas conquistas, ainda se mantinha o grande abismo que separava pobres e ricos, e a liberdade sem igualdade não se sustentava de forma satisfatória e coerente. Nesse período, a França presenciava a sucessão de governos, devido às consequências da Revolução. Após a decadência napoleônica, em 1814, deu-se início à chamada Restauração, de 1814 a 1830, liderada inicialmente por Luís XVIII e consolidada por Carlos X (MICHEL et al, 1993, p. 2).
Surgiram, então, múltiplas teorias sobre o regime de propriedade e igualdade social. Era o momento de conter e controlar o descontentamento popular. O sentimento pessoal se sobressaía aos interesses alheios, isto é, o capitalismo gerava esse sentimento competitivo e individualista, de maneira que esse interesse individual quase sempre sobrepunha ao coletivo, nas palavras de Tadié (2011). A Revolução Industrial e o fortalecimento do capitalismo e da classe burguesa causaram, no homem do século XIX, a sensação de alienação, de perda do todo, criando, na esfera social, o sentimento de fragmentação do indivíduo diante da complexidade da realidade que se instaurava. A resposta a essa sensação era o anseio de integração com o universo, em busca do elo perdido entre o eu e o mundo e o contexto em volta. O século XIX se iniciava marejado de perguntas e poucas respostas.
É nesse contexto histórico inicial conflitante que se configura a vida do escritor Gustave Flaubert. Segundo filho de Achille-Cléophas e de Justine Caroline Flaubert, casal de prestígio e de família tradicional burguesa, ele nasceu no dia 21 de dezembro de 1821, em Rouen, cidade localizada na região da Normandia, no noroeste da França, e morreu em 8 de maio de 1880, em Croisset.
A família vivia em uma casa ao lado do hospital municipal onde o respeitado Achille-Cléophas Flaubert exerceu a profissão de médico-cirurgião durante quarenta anos. Além de Gustave Flaubert, o casal teve dois outros filhos: Achille, o mais velho, que mais tarde herdaria o ofício do pai, e a mais nova, Caroline, nascida em 1824. Desde cedo, tanto o jovem futuro escritor quanto seus irmãos cresceram inseridos na atmosfera científica e medical paterna, sempre em contato com a vida e a morte, ouvindo, a todo o momento, o discurso médico que vigorava no século XIX, oriundo do século XVIII.
A fim de esclarecermos esse contexto em que o jovem Flaubert convivia, consideramos necessário ampliar tal discussão. Historicamente falando, o Século das
Luzes trouxe à tona o interesse pela ciência e pelos avanços intelectuais, tecnológicos e sociais que perpetuaram no século seguinte. Surgiu nesse período, por exemplo, a fomentação de debates que promoviam o impulso das ciências naturais, com a influência do saber enciclopédico de Diderot (1713-1784) e d’Alembert (1717-1783). Com o intuito de formar cidadãos mais esclarecidos, a Enciclopédia foi composta, no período de 1751 a 1780, para promover conhecimentos com base científica, desvinculando-se dos saberes advindos da igreja católica, isto é, a fé passa a ser questionada e considerada insuficiente para suprir as lacunas do mundo. Diderot e d’Alembert viram, nessa possibilidade de compilação do conhecimento, uma maneira de dar acessibilidade de todo o saber gerado pela ciência na época, ou seja, a liberdade do indivíduo antes atrelado somente aos conhecimentos impostos pela igreja. Portanto, eles elaboraram, em 35 volumes, a Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des
arts et des métiers (Enciclopédia ou Dicionário Racional das Ciências, das Artes e dos Ofícios), que continha inúmeras informações sobre as ciências naturais e humanas da
época. Logo, houve, juntamente a esse projeto, uma ampliação da discussão medical4 (RODRIGUES, 2017).
Assim, segundo Pancrácio (2012), um novo olhar médico surgiu no século XIX: houve o desenvolvimento da fisiologia e da biologia, que, aos poucos, deram origem a uma nova medicina, que se tornou hierarquizada, com a investigação científica sendo impulsionada. A saúde pública também apresenta avanços significativos com a elaboração de políticas de higiene e de saúde no trabalho. Com isso, na primeira metade do século XIX, foi possível perceber uma revolução no pensamento clínico com o surgimento das orientações da anatomia e da fisiopatológica. A cirurgia e a fisiologia evoluíram devido ao progresso do conhecimento e a anatomia tornou-se microscópica e histológica.
Achille-Cléophas Flaubert era fruto desse modo de pensar científico e o exercia no Hospital Municipal de Rouen. Segundo Biasi (2011, p. 45), em 1810, o respeitado médico concluiu, pela Faculdade de Medicina de Paris, as pesquisas para sua tese de doutorado, intitulada Dissertation sur la manière de conduire les malades avant et
après les opérations chirurgicales (Dissertação sobre a maneira de conduzir os pacientes antes e depois de cirurgias). Dedicado à profissão, Achille-Cléophas Flaubert
descreve, em sua pesquisa, as relações humanas e terapêuticas entre médico e paciente,
4 Referência utilizada para a análise da obra disponível em:
levando em conta fatores psicológicos e individuais. Essa postura comprometida e dedicada com o seu ofício influenciou todo seu contexto familiar e social.
Em 7 julho de 1853, Gustave Flaubert registrou, em uma de suas correspondências, um relato desse ambiente hospitalar que tanto ele quanto seus irmãos conviveram e puderam observar de perto:
Que estranhas lembranças eu tenho desse gênero! O anfiteatro do hospital dava para nosso jardim. Quantas vezes eu e minha irmã não subíamos na cerca e suspensos entre a vinha, olhávamos curiosos os cadáveres expostos! O sol aí incidia; as mesmas moscas que volteavam sobre nós e as flores iam se abater ali, retornavam, zumbiam!5 (FLAUBERT, 7 de julho de 1853).
É possível observar que Flaubert estava em contato com essa atmosfera cientificista em seu cotidiano familiar. A vida e a morte ocupavam o mesmo espaço e compartilhavam a mesma importância. A curiosidade infantil diante desse contexto só aumentava e, talvez por isso, posteriormente, o referido autor agregaria valor estético a esse tipo de conhecimento e o usaria em favor de sua escrita.
Embora esse contexto fosse fascinante para o jovem Flaubert, a sua infância prometia outros novos desdobramentos, como a habilidade de aprender a ler e escrever. A mãe dava-lhe as primeiras lições em casa, sem sucesso. Alguns diziam “[...] que o menino chorava muito, que estava ávido por aprender e que sua impotência o desolava” (SARTRE, 2013, p. 12). Para essa impotência, aparentemente não havia uma explicação concreta. As pessoas de sua convivência o consideravam distraído, desatento e, talvez, devido a isso, o garoto tinha dificuldade em se concentrar nas aulas dadas pela mãe.
Apesar dessas questões iniciais com as palavras concretas, Flaubert apreciava ouvir histórias contadas na infância. Essas histórias “[...] exercitavam sua imaginação, abasteciam-na com esquemas novos, ele aprendia a utilidade do símbolo” (SARTRE, 2013, p. 15, grifo do autor). Em alguns momentos, ele julgava desnecessário aprender a ler, pois sempre havia alguém para lhe contar as histórias de que tanto gostava. Os pais chegaram a pensar que o filho possuía problemas mentais devido ao seu ar distraído.
5 “Quels étranges souvenirs j’ai en ce genre! L’amphithéâtre de L’Hôtel-Dieu donnait sur notre jardin.
Que de fois, avec ma sœur, n’avons-nous pas grimpé au treillage et, suspendus entre la vigne, regardé curieusement les cadavres étalés! Le soleil donnait dessus; les mêmes mouches qui voltigeaient sur nous et sur les fleurs allaient s’abattre là, revenaient, bourdonnaient!”. Disponível em: <https://flaubert.univ-rouen.fr/jet/public/correspondance/trans.php?corpus=correspondance&id=10026&mot=&action=M>. Acesso em: 1 nov. 2018.
A preocupação em relação à aprendizagem do filho do meio era unânime no seio familiar. Segundo Jean Paul Sartre (2013):
O que continua sendo verdade é que os Flauberts se preocuparam. Por muito tempo Gustave não conseguiu apreender as ligações elementares que fazem de duas letras uma sílaba, de várias sílabas uma palavra. Essas dificuldades levavam a outras: como contar sem saber ler? Como recordar os primeiros elementos de história e geografia se o ensino mantém-se oral? Hoje em dia não nos preocupamos com isso: os métodos são mais seguros e, sobretudo, aceitamos o aluno como ele é. Na época, havia uma ordem a ser seguida, e a criança precisava submeter-se a ela. Portanto, Gustave estava atrasado em todo o projeto (SARTRE, 2013, p. 14).
Ao longo do século XIX, a classe média, composta por profissionais liberais, pequenos proprietários e funcionários públicos, cresceu e prosperou. O mundo burguês valorizava aqueles que possuíam talento e certo grau de escolaridade. Ainda de acordo com Sartre, a “ordem a ser seguida” é agregada à importância da instrução, considerada “a fonte fecunda da ordem, do repouso e da felicidade”6 segundo o filósofo Voltaire
(1694 – 1778), ou seja, nesse período de transição do século XVIII para o século XIX, saber ler e escrever era sinônimo de ascensão cultural e social e quem não se enquadrasse a essa máxima encararia limitações em diversas áreas da vida, como o preconceito e a exclusão social. A família Flaubert preocupava-se, pois o filho mais velho havia aprendido a ler e escrever com facilidade e até mesmo Caroline, a irmã mais nova, alfabetizou-se com tranquilidade posteriormente.
Porém, consideramos válido trazer à baila o posicionamento de Sartre, na obra O
idiota da família (2013), diante da infância de Gustave Flaubert. Contudo, a partir da
exposição do ponto de vista sartreano, pretendemos mostrar que essa dificuldade não era de fato real a nosso ver, e sim uma forma diferenciada que Flaubert encarava e assimilava o mundo. De qualquer modo, consideramos válido expor esses apontamentos como forma de discussão e sobre a posição do futuro jovem escritor no seio familiar, que, de fato, era uma posição de fragilidade.
Independente das especulações sobre a possível dificuldade em ler e escrever, aos nove anos de idade, Flaubert começou a frequentar o liceu e conseguiu acompanhar as lições ministradas em sala de aula com tranquilidade. Acredita-se que o menino aprendeu a ler e a escrever entre 1828 e 1829, ou seja, em torno dos sete anos de idade,
6 SCHNERB, R. O século XIX: ao apogeu da civilização europeia (1815-1914). Trad. J. Guinsburg. São
de maneira natural. Durante esse período, sua família nutria certa desconfiança: seus pais o viam como uma pessoa frágil:
Em outras palavras, os torpores apareciam aos adultos como condutas negativas: ausências, lacunas, lapsos de atenção, falhas de adaptação. Na verdade, eles manifestam a “bestialidade” em uma plenitude. Por toda a sua vida, Flaubert atribuirá um valor particular ao adjetivo “bestial” (SARTRE, 2013, p. 33).
A mãe não acreditava que seu filho do meio poderia ser um gênio, nem mesmo acreditava que poderia possuir algum talento devido à sua postura quando criança. O pai possuía as mesmas crenças, pois ele tinha acesso aos discursos científicos da época em relação a doenças mentais. A “idiotia”7 era algo considerado patológico e, muitas vezes,
irreversível.
Todavia, essas ausências, esses lapsos de atenção mencionados acima por Sartre, podem ser justificados por uma vontade que Flaubert sustentava de captar a essência do mundo através da observação: seu contexto infantil próximo ao hospital onde o pai exercia a profissão lhe despertou interesses pelo saber científico, que perpetuou por toda sua vida, como veremos durante esse estudo. Além desse contexto, havia outra temática que lhe causava uma espécie de perplexidade quando observada: o comportamento humano e a estupidez que o rondava.
Ele escreveu, aos nove anos de idade, uma carta ao amigo de infância Ernest Chevallier (1820-1887), em 31 de dezembro de 1830, os seguintes dizeres: “Você tem razão em dizer que o ano-novo é estúpido”. Em seguida, na mesma carta, narra: “Há uma senhora que vem visitar papai e que sempre nos conta tolices, eu as escreverei” (tradução nossa)8. Verifiquemos a carta na íntegra:
Caro amigo,
Tens razão em dizer que o ano novo é estúpido. Meu amigo acabamos de reenviar os bravos dos bravos la Fayette dos cabelos brancos a
7 No início do século XIX, o médico Esquirol (1772-1840) trouxe em pauta a discussão e a diferenciação
entre a confusão mental, a loucura e a idiotia. Antes da análise desse médico, a idiotia era tida como uma deficiência mental e orgânica. Porém, Esquirol agregou a idiotia a questões mais pontuais de aprendizagem e concentração, causada por possíveis traumas na infância, carências específicas ou até mesmo confusões mentais momentâneas, altamente reversíveis. Referência disponível em:
< http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v6n2/1415-4714-rlpf-6-2-0152.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2018.
8 “Tu as raison de dire que le jour de l’an est bête. [...] Il y a une dame qui vient chez papa et qui nous
contes toujours de bêtises je les écrirait”. Carta de Flaubert a Ernest Chevallier, 31 de dezembro de 1830.
Disponível em:
<https://flaubert.univ-rouen.fr/jet/public/correspondance/trans.php?corpus=correspondance&id=9502&mot=&action=M>. Acesso em: 22 dez. 2018.
liberdade dos 2 mundos. amigo eu te enviaria meus discursos político e constitucional liberais. Tens razão em dizer que me darás prazer vindo à Rouen isso me agradará muito. Desejo-te um bom ano de 1831, beije por mim de todo teu coração tua boa família. O camarada que me enviaste tem ares de bom garoto mesmo que o tenha visto apenas uma vez. Eu também enviarei minhas comédia. Si queres nos associar para escrever eu, escreveria comédia e tu escreverás teus sonhos, e como há uma senhora que vem à casa de papai e sempre nos conta tolices eu as escreverei. Não escrevo bem porque tenho uma caixa de Nogent para receber. Adeus responda-me o mais breve possível9 (Flaubert a Ernest Chevallier, 31 de dezembro de 1830).
9 Optamos em manter a carta com os “erros ortográficos” para termos a dimensão da escritura de Flaubert
aos nove anos de idade. “Cher ami,
Tu as raison de dire que le jour de l’an est bête. mon ami a on vient de renvoyer le brave des braves la fay Fayette aux cheveux blancs la liberté des 2 mondes. m ami je t’en veirait de mes discours politique et constitutionnel libéraux. tu as raison de dire que tu me feras plaisirs en venant à Rouen sa m’en fera beaucoup. je te souhaite une bonne année de 1831, embrasse de tout mon ton cœur ta bonne famille pour moi. Le camarade que tu mas envoyer a l’air d’un bon garçon quoique je ne l’ai vu qu’une fois. Je t’en veirait aussi de mes comédie. Si tu veux nous associers pour écrire moi, je d j’écrirait des comédie et toi tu écriras tes rèves, et comme [illis.] [illis.] il y a une dame qui vient chez papa et qui nous contes toujours de bêtises je les écrirait. je n'ai p n’écris pas bien parce que j’ai une casse à recevoir de nogent. adieu répond moi le plutôt possible”.
Figura 1: Carta escrita por Flaubert aos nove anos de idade
Fonte: Acervo digital do Centre Flaubert. Disponível em:
<https://flaubert.univ-rouen.fr/jet/public/correspondance/trans.php?corpus=correspondance&id=9502&mot=&action=M>.
Acesso em: 22 dez. 2018.
Ao contrário do retrato descrito por Sartre, esta carta nos revela um Flaubert consciente de sua realidade, de um senso crítico promissor, distante das ideias equivocadas de que era dotado de alguma anomalia mental. Embora essa carta citada tenha sido escrita com seus erros ortográficos, algo compreensível devido à idade em que ele a escreveu, o jovem garoto se posiciona intelectualmente diante do mundo que
via de forma intrigante e consistente. Esse ato de observar e não se envolver com a situação circundante lhe dava um ar de “distração”, como dito anteriormente, mas entendemos que aquele isolamento era a forma de criar suas próprias regras, em favor de seus futuros enredos literários: a tolice e o pessimismo seriam um dos seus temas favoritos.
Após o período de alfabetização, Gustave Flaubert, em agosto de 1834, manifestou, de forma consistente, seu interesse pela escrita e passou a exercitá-la de maneira sistemática. No Colégio real de Rouen, motivado pelo professor de literatura Gourgaud-Dugazon, o jovem garoto começou a compor o romance Isabeau de Bavière. A partir desse incentivo e do encorajamento, Flaubert, em 1835, como idealizador e redator-chefe, lançou, em seu ambiente escolar, o jornal Art et Progrès (Arte e Progresso), com apoio de seu amigo Ernest Chavallier. Sartre (2013) afirma que ele não gostava da vida estudantil, mas foi ali que o jovem pôde exercitar suas primeiras escritas com maestria.
Segundo Biasi (2011, p. 64), Gustave Flaubert, em 1837, interessou-se pelas aulas de história de Adolphe Chéreul e pelas ciências naturais de Félix-Archimède Pouchet (1800-1872), teórico da geração espontânea, que se tornara opositor às ideias do cientista Louis Pasteur (1822-1895). Com esses novos conhecimentos, Flaubert continuou a escrever constantemente contos e pequenas narrativas históricas, como Un
secret de Philippe le Prudent (Um segredo de Philippe o Prudente), La Peste à Florence, Bibliomanie (A Peste em Florência, bibliomania) - publicado na revista Le Colibri, em 12 em fevereiro de 1837 -, Rage et Impuissance (Raiva e impotência), La Main de fer (A mão de ferro), Rêve d’enfer (O sonho do inferno) e Une leçon d’histoire naturelle Genre commis (Uma lição de história natural gênero caixeiro) -
publicado na Le Colibri, em 30 de março de 1837, texto este em que podemos observar uma primeira prefiguração de Bouvard e Pécuchet (1881).
Apesar do bom desempenho como escritor no seu contexto escolar, em 1839, aos dezoito anos, Flaubert foi expulso da escola por indisciplina e se preparou para as avaliações finais por conta própria. Independente de tal contratempo, ele continuou seus estudos e realizou as provas. Em 1840, recebeu a aprovação e concluiu o liceu, estando apto a frequentar o ensino superior. Em 1841, aos vinte anos de idade, Flaubert ingressou no curso de Direito e foi estudar em Paris. Todavia, a profissão idealizada pelo pai não lhe agradava e lhe causava grande descontentamento. Nessa época, o jovem já tinha a convicção de torna-se escritor; porém revelar esse desejo à sua família
transformou-se em algo desafiador. Em carta a Gourgaud-Dugazon, seu ex-professor de literatura, o rapaz confessa sua desilusão perante a escolha profissional:
Eu me farei acolher como advogado, mas mal posso crer que jamais defenda uma parede adjacente ou qualquer infeliz pai de família frustrado por um rico ambicioso. Quando me falam do barrete dizendo: esse bravo advogará bem, porque tenho as espáduas largas e a voz vibrante, eu confesso que internamente me revolto e que não me sinto feito para essa vida material e trivial. Cada dia, ao contrário, eu admiro mais e mais os poetas, descubro neles mil coisas que não havia percebido antes. Compreendi nisso relações e antíteses cuja precisão me surpreende, etc10 (Flaubert a Gourgaud-Dugazon, 22 de janeiro de 1842).
Podemos perceber no relato o seu desagrado perante as questões em se tornar advogado. O jovem, assim, confessa que, com o passar do tempo, certificou-se de sua vocação como escritor, que admira os poetas, pois se encontrava inserido no meio social dos escritores da época. Assim, em 1843, paralelo à faculdade, motivado pela sua real vocação, ele começou a redação da primeira versão da Educação Sentimental, que seria finalizada em 1845. Durante esse processo, Flaubert, completamente desmotivado, não consegue ser aprovado nas avaliações do curso de Direito, para a frustração do pai.
No ano seguinte, em janeiro 1844, o rapaz encara outra fragilidade inesperada em sua vida. A caminho de Pont-l’Évêque, comuna francesa na região administrativa da Baixa-Normandia, acompanhado de seu irmão Achille Flaubert em um passeio de charrete, ele é acometido de uma brusca “crise de nervos”11 que o levou à perda da
consciência. Semanas depois, as crises continuaram, debilitando-o em demasia. Esse episódio mudou o rumo de sua vida e trouxe novas preocupações para família.
Segundo Sartre (2013, p. 44), tal incidente surgiu como uma forma de dar continuidade às frustrações e limitações do jovem escritor; como se fosse uma revisitação ao passado, à infância limitante e desacreditada, consolidando as novas frustrações na fase adulta. A partir desse momento, por imposição da família, principalmente pelo pai, que primava pela saúde do filho, Gustave Flaubert abandonou
10 “Je me ferai recevoir avocat, mais j’ai peine à croire que je plaide jamais pour un mur mitoyen ou pour
quelque malheureux père de famille frustré par un riche ambitieux. Quand on me parle du barreau en me disant: ce gaillard plaidera bien, parce que j’ai les épaules larges et la voix vibrante, je vous avoue que je me révolte intérieurement et que je ne me sens pas fait pour toute cette vie matérielle et triviale. Chaque jour au contraire j’admire de plus en plus les poètes, je découvre en eux mille choses que je n’avais pas aperçues autrefois. J’y saisis des rapports et des antithèses dont la précision m’étonne, etc.”. Carta de Flaubert a Gourgaud-Dugazon, 22 de Janeiro de 1842. Disponível em: <https://flaubert.univ-rouen.fr/correspondance/conard/lettres/42.html>. Acesso em: 21 jan. 2019.
o Direito e decidiu pela vida reclusa em Croisset (Normandia), onde a família adquiriu uma casa de campo para que o rapaz pudesse cuidar de sua saúde.
De certa forma, esse “mal” foi um passo e uma justificativa para sua libertação dos padrões que lhe eram exigidos socialmente. Devido à considerada saúde debilitada, Flaubert viu nessa situação uma maneira de se desvincular do curso de Direito, que pouco lhe agradava, afirmando-se de fato como escritor. Essa decisão causava certa desconfiança, mas pode-se dizer que Flaubert pertencia a uma classe de prestigio que lhe proporcionava certo conforto para produzir seus textos sem grandes percalços. Segundo Bourdier (1996):
Estando mais ou menos igualmente providos de capital econômico e de capital cultural, os escritores saídos das posições centrais no seio do campo do poder (como os filhos de médicos ou de membros das profissões “intelectuais” as quais a linguagem da época dava o nome de “capacidades”) parecem predispostos a ocupar uma posição homóloga no campo literário. Assim, à dupla orientação dos investimentos de Achille-Cléophas, pai de Flaubert, que se dirigem a uma só vez à educação dos filhos e à propriedade fundiária, corresponde a indeterminação do jovem Gustave, defrontado com o embaraço da escolha entre futuros equiprováveis: “Restam-me ainda os grandes caminhos, as rotas prontas, as roupas para vender, os cargos, mil buracos que se tapam com imbecis. Serei então tapa-buraco na sociedade, aí ocuparei meu lugar. Serei um homem honesto, sério e todo o resto, se você quiser, serei como qualquer outro, como convém, como todos, um advogado, um médico, um subprefeito, um notário, um procurador judicial, um juiz tal e qual, uma idiotice como todas as idiotices, um homem do mundo ou de gabinete, o que é ainda mais imbecil” (BOURDIER, 1996, p. 105-106).
Podemos observar que o autor assumia uma colocação incerta na sociedade: a segurança vinha de profissões estáveis, como a posição de advogado e médico, condições essas que o jovem escritor associava à mediocridade de espírito. Ao abandonar o Direito, Gustave Flaubert abre caminhos para os questionamentos da família e da sociedade e se expõe ao acaso. Para ilustrar o processo desses fatos e as impressões que a família Flaubert observava no jovem futuro escritor, é possível perceber a descrença que todos tinham diante do futuro incerto do filho. De acordo com Sartre: