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(2) 2. UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO. GLÁUCIA SOUZA COSTA MARINHO. ESTUDO DA RELAÇÃO PADRASTO E ENTEADO. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Psicologia da Saúde.. Orientadora: Profª. Drª. Marília M. Vizzotto. São Bernardo do Campo 2014.
(3) 3. FICHA CATALOGRÁFICA Marinho, Gláucia Souza Costa. M338e. Estudo da relação padrasto e enteado / Gláucia Souza Costa Marinho. 2014. 102 f.. Dissertação (Mestrado em Psicologia da Saúde) --Faculdade da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2014. Orientação de: Marília Martins Vizzotto.. 1. Relações familiares 2. Padrasto 3. Relação padrasto enteado I. Título CDD 157.9.
(4) 1. Agradecimentos Começo agradecendo a Deus que é pai e aos patronos deste trabalho Bom Jesus e Nossa Senhora Aparecida: “Uma família completa”. Dedico este trabalho à minha família: meus pais Maria Alice e Clarismundo que me incentivaram e dedicaram seu tempo me apoiando nos cuidados com minha filha Íris, a própria Íris que é uma criança adorável, facilitadora em seus cuidados e que me ensina que as coisas importantes da vida são as coisas mais simples. Ao meu marido Junior que me apoiou compreendeu e lançou desafios que propiciaram o amadurecimento do nosso relacionamento. Aos familiares com quem não pude estar com a frequência que gostaria e em especial ao meu tio Gerson que nos deixou durante a confecção deste trabalho, na fé em Deus creio: “Porque todas as coisas vêm Dele, por meio Dele e vão para Ele. A Deus pertence à glória para sempre. Amém” Romanos Cap.11, vers. 36 Agradeço aos professores que me acompanharam durante o curso: Professora e coordenadora Profª Drª Maria Geralda Viana Heleno, Profª Drª Mirlene Maria Matias Siqueira, Prof. Dr. Manuel Morgado Rezende, e as professoras Profª Drª Tânia Elena Bonfim e Profª Drª Leila Salomão de La Plata Cury Tardivo que me deram a honra que tê-las compondo a banca examinadora e em especial a minha orientadora Profª Drª Marília Martins Vizzotto, que me guiou por este caminho com firmeza e competência, mas também me ouviu e amparou de forma carinhosa e amigável me norteando na confecção deste trabalho, a quem dedico à frase: “Professores são rios onde mergulhamos em busca de conhecimento” Rita Emilia* Agradeço à Elisângela que me orientou na secretaria do curso e a outros funcionários com muitos deles não tive contato direto, mas compõem a equipe de serviços e proporcionaram um ambiente agradável eficiente e propício aos estudos nos diferentes setores dos campus Planalto e Rudge Ramos: Biblioteca, Laboratórios de informática, Copiadoras, Centros de convívio, Segurança, Policlínica e Conservação em geral. Aos colegas de turma pelo incentivo, parceria e reflexões que o convívio proporcionou. A distância nos separa, mas o conhecimento e experiência nos unirão para sempre. Finalizando, porém de relevante importância quero agradecer aos participantes desta pesquisa que dispuseram de seu tempo e permitiram-nos conhecer a respeito de suas experiências de vida.. *Rita Emilia Máxima de Almeida, livro: Mil Faces, Ed. Delicatta, São Paulo, 2012.
(5) 2. Em Nó na garganta, Casimiro Costa descreve poeticamente sentimentos de um homem diante do suplício de um menino por um pai (padrasto):. Caminhava eu distraído E de repente dou comigo A olhar uma criança.... O senhor não é mau não Tem um grande coração E com os olhos cheios de brilho Diz o senhor não se aborreça Mas não me sai da cabeça Gostava de ser seu filho. Fiquei eu a soluçar E ao pequeno abraçar Estas palavras me sai Não serias p´ra mim cadilho* Gostavas de ser meu filho Eu gostava de ser teu pai. * Fio para prender ou amarrar qualquer coisa.. Casimiro Costa.
(6) 3. SUMÁRIO. Resumo. 04. Abstract. 05. I. Introdução. ................................................................................... ............... I.1. O pai sob ótica psicanalítica. ............................................................................ .... 06 13. I.2. Do pai ao padrasto: as relações com os enteados ...................................................... 22. . Objetivos. 27. ............................................................................................................. II. Método. ........................................................................................................... III. Resultados. ................................................................................................... 28 36. Caso 1- Sr. Wilson ..................................................................................................... 36. Caso 2 – Sr. Joaquim. ............................................................................................ 50. .................................................................................................. 62. ...................................................................................................... 72. Caso 3 – Sr. Lucas IV. Discussão. V. Considerações Finais VI. Referências. .................................................................................... ..................................................................................................... ANEXOS e APÊNDICES. ................................................................................ 90 92 98. APÊNDICE 1 Roteiro de Entrevista APÊNDICE 2 Modelo do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE ................... 100 APÊNDICE 3 Parecer do Comitê de Ética .................................................................................... 101 APÊNDICE Parecer do Comitê de Ética (consentimento para alteração do Título).............. .... 102.
(7) 4. MARINHO, G. S. C. As Relações Padrasto e Enteado: aspectos psicodinâmicos. Dissertação Mestrado (Psicologia da Saúde) 102fls. Universidade Metodista de São Paulo, 2014.. RESUMO Este estudo teve por objetivos, identificar a percepção do padrasto sobre suas relações. com seu(s) enteado(s) e identificar a percepção do padrasto acerca da sua função e papel na família. Utilizou-se de uma investigação clínica de referencial psicanalítico que levantou os dados por meio de entrevistas semi-dirigidas e do Desenho de família com estórias, em 3 participantes adultos e que eram padrastos. Os atendimentos foram realizados em ambiente de consultório, respeitando-se questões técnicas e éticas da pesquisa e da Psicologia em especial, tais como sigilo e consentimento dos participantes. A análise do conteúdo mostrou que havia peculiaridades em cada caso estudado, entretanto, havia fatores comuns em seus sentimentos e ações sobre a família e enteados: a) houve uma ambivalência – pois tanto se perceberam como homens provedores e orientadores dos filhos e enteados, quanto havia também uma a percepção de que os sentimentos pelo filho biológico. eram diferentes daqueles sentidos por seus enteados. b) todos os padrastos revelaram entraves nas relações por uma não definição clara de seu papel e função no contexto familiar, muitas vezes reforçado pelas esposas- mães, tidas como aquelas que detém o poder sobre o filho/enteado e, esta. confusão gerava rivalidade entre padrasto e enteado, numa disputa pelo amor da esposa e mãe. c) do ponto de vista psíquico, foi observado que muitos conflitos os remetiam aos períodos precoces do desenvolvimento, especialmente à resolução edipiana, como numa “reedição”; assim, o exercício da função de padrasto se dá à base da qualidade de suas relações com seus pais na infância – tal como se dá no exercício da paternidade consangüínea. De modo que, a função de padrasto, assim como a paterna se dá por um ‘compromisso evolutivo’. Sugerem-se outros trabalhos, pois se entendeu que esse tipo de estudo relacionado à Psicologia do desenvolvimento pode auxiliar em ações de saúde e prevenção em saúde mental.. Palavras-chave: padrasto, pai, recasamentos, família, relações familiares.
(8) 5. MARINHO, G.S.C. As Relações Padrasto e Enteado: aspectos psicodinâmicos. Dissertação Mestrado (Psicologia da Saúde) 102fls. Universidade Metodista de São Paulo, 2014.. ABSTRACT This study aimed to identify the perceived stepfather about his relations with his ( s ) stepson ( s ) and i identify the perception stepfather about their function and role in the family . We used a clinical investigation of psychoanalytic theory that raised the data through semi structured interviews and stories with family Drawing in 3 adults and stepfathers who were participants . The sessions were performed in an office setting , respecting technical and ethical issues in research and Psychology in particular , such as confidentiality and consent of the participants . The content analysis showed that there were peculiarities in each case studied , however , there were common factors in their actions and feelings about family and stepchildren : a) there was an ambiguity - for both men perceived themselves as providers and counselors of children and stepchildren , as there was also a perception that feelings by biological child were different from those experienced by stepchildren . b ) all stepfathers barriers in relations revealed by an unclear definition of its role and function within the family, often reinforced by wives , mothers , taken as those who hold the power over the child / stepchild , and this confusion generated rivalry stepfather and stepson in a dispute love of wife and mother . c ) the psychological point of view, it was observed that many conflicts referred them to the early stages of development , especially the Oedipal resolution as a " reissue " ; thus, the exercise of the function of stepfather gives the basis of the quality of their relationships with their parents in childhood - as occurs in the course of consanguineous parentage . So , the function of step father as well as the father is given by a " rolling engagement " . We suggest other work researches , because it was understood that this type of related developmental Psychology study can assist in health activities and prevention in mental. Keywords. health.. :. stepfather,. father,. remarriages. ,. family. ,. family. relationships.
(9) 6. I.. INTRODUÇÃO. Os papéis de homem, mulher mudaram significativamente na sociedade e atualmente observa-se que estas mudanças influenciaram a organização familiar, chegando inclusive a modificar funções que cada membro tem na família, Berthoud (2003). O marido deixa de ser o principal provedor, a mulher, responsável pelo lar assume também funções de provisão na medida em que ocupa um lugar no mercado de trabalho e, consequentemente, os filhos passam a ter também outras ocupações e funções, além da escola formal, em especial na classe média, em classes mais populares observa-se frequentemente que irmãos e avós participam nos cuidados das crianças menores conforme afirma Barsted (1998). As relações conjugais e o próprio casamento também se modificaram e, no Brasil, as modificações se tornaram mais evidentes quando se legitimou a possibilidade de segundos casamentos. a partir de 1977, com a lei de divórcio, (do latim divortium, derivado de. divertere, separa-se) esta lei permitiu o rompimento legal e definitivo do vínculo do casamento civil e foi instituída oficialmente no Brasil com a emenda constitucional no 9 em 28 de junho de 1977 e regulamentada pela lei 6515 de 26 de dezembro de 1977. Assim, propiciando-se a formação de novos vínculos e de outras relações de aparentados, e entre esses, os vínculos entre padrasto - enteado (a) ou madrasta - enteado (a), os quais só eram oficialmente possíveis pela viuvez de algum dos cônjuges. Nessa realidade o presente trabalho pretende fazer um recorte e estudar qualitativamente as relações do padrasto com seus enteados. Sendo assim, faz-se importante contextualizar, revendo alguns pontos dessas mudanças relacionais na história da família e seus membros, em especial do homem, neste contexto. A família e seus vínculos compõem e constituem referências primárias das relações sociais na qual a família e a sociedade se influenciam mutuamente. Com isso pode-se dizer, conforme Goody (2001) que não se conhece praticamente nenhuma sociedade na história.
(10) 7. humana que a família não tenha desempenhado um papel importante no grupo residente no mesmo domicilio.. Também podemos lembrar Levi-Strauss (1956), quando aponta:. “A vida familiar apresenta-se em praticamente todas as sociedades humanas, mesmo naquelas cujos hábitos sexuais e educativos são muito distantes dos nossos. Depois de terem afirmado, durante aproximadamente cinquenta anos, que a família, tal como a conhecem as sociedades modernas, não podia ser senão um desenvolvimento recente, resultado de longa e lenta evolução, os antropólogos inclinam-se agora para a convicção oposta, isto é, que a família, ao repousar sobre a união mais ou menos duradoura e socialmente aprovada de um homem, de uma mulher e de seus filhos, é um fenômeno universal, presente em todos os tipos de sociedades” (pag.13). No entanto, a forma em que se estabelecem os vínculos familiares tem se alterado, como afirmou Berthoud (2003) a parentalidade como conhecemos hoje é uma construção social recente na história da humanidade; pois os valores, padrões de comportamento e os significados da família e da parentalidade, refletem padrões sociais de uma época; de modo que a função parental tem acompanhado as mudanças culturais ao longo da evolução da sociedade humana.. Com as relações familiares e, em especial, as parentais se modificando, é possível observar alterações nos padrões de comportamentos infantis. As relações e o tratamento dado às crianças da idade média foram muito bem descritos por Ariès (1981) que destacou como era comum que os filhos naquela época fossem habitar com outra família para que pudessem aprender bons hábitos e ofícios, principalmente as tarefas domésticas. Considerando-se que neste período a vida privada fundia-se com os ofícios, era responsabilidade da família hospedeira transmitir ao jovem os conhecimentos, através de atividades práticas do cotidiano; os registros da época apontam a participação destes jovens em todas as atividades dos adultos, com posturas de estagiários/ aprendizes. No entanto a partir do século XV – com a grande.
(11) 8. mudança científica galileana, observam-se registros da escola, correspondendo à tentativa de preservar os jovens de alguns maus hábitos do mundo adulto, mas também correspondiam à necessidade de uma educação teórica e o desejo dos pais em manter seus filhos por perto, substituindo o modelo adotado até então. A obra Áries (1981) retrata também a evolução do século XVII quando surge o espaço de privacidade familiar e o privado se diferencia do social, ocorrendo uma reorganização na estrutura da casa criando-se espaços mais íntimos. Trabalhadores agrícolas passam a habitar em suas casas, não habitando mais juntos aos patrões e a forma como a família lidava com o ambiente social também se altera, tornando-se mais comuns os hábitos como, agendamento de visitas, além da saúde e higiene passarem a ocupar lugar de ascendência. Estas mudanças, conforme Berthoud (2003), assumiram significado importante nas relações familiares e na relação entre pais e filhos, adotando-se a partir daí maior transparência de sentimentos, além da proximidade do casal com a criança. Sendo assim, atribui-se neste momento da história um valor novo ao afeto entre pais e filhos, embora esse sempre tenha existido. Portanto pode-se observar que estas alterações nas relações familiares decorreram de modificações sociais e demarcaram novos papéis nos membros da família, no nascimento da vida privada, na intimidade. E, mais ainda, na atualidade, ao olharmos para os membros que compõem a família podemos constar que ser homem, ser mulher e ser criança pressupõe diferentes características antes impossíveis. De modo que, Berthoud (2003) destaca que:. “se a modernidade construiu o casamento celebrado por razões afetivas – o casamento romântico-, em oposição ao casamento por interesses econômicos e sociais; a pós-modernidade desconstruiu o “unidos para sempre” como meta de felicidade para homens e mulheres, abrindo espaço para muitas formas possíveis de união entre as pessoas” (pág. 36)..
(12) 9. Sendo assim esta experiência de “união entre as pessoas” remete-nos à compreensão de conjugalidade que é definida por Féres- Carneiro (1998) como “identidade conjugal” sendo resultado das características individuais de cada um que se soma a partir da convivência de ambos como casal/ parceiros constituindo um “modelo único” com aspectos de aliança e sexualidade mantida por leis e regras entre elas a proibição do incesto. A realidade de conjugalidade possibilita a vivência da “parentalidade” permitindo que mulheres e homens vivam a transição da conjugalidade à parentalidade. É interessante lembrar que alguns autores (CERVENY; BERTHOUD , 2002; BERTHOUD, 2003; ZAVASCHI; BRUSTEIN, 2001) entendem que nessa passagem da conjugalidade para a parentalidade, ou seja, a fase da chegada de filhos, como o marco da concepção de família. A noção de parentalidade, segundo Vidigal e Tafuri (2010), surgiu a partir de uma ideia de que, se tornar pai é algo dado biologicamente, porém na atualidade o termo refere-se à pessoa ligada a outra por consanguinidade, afinidade ou adoção; portanto, com uma noção mais ampla. De modo que Barsted (1998) entende que ser pai e ser homem em nossa sociedade impõe dificuldades de definição, pois os códigos e as leis descrevem tais papéis a partir de um patriarcalismo já superado. Entretanto, ainda na sociedade moderna o patriarca provedor contrapõe-se à mãe chefe de família e conclui que o pai foi destituído deste lugar da lei, pela mulher, por vontade própria ou falência econômica, o homem de hoje, muito mais que o de ontem, precisa de uma identidade nova. Barsted (1998) destaca ainda à carência de modelos e alerta que um novo modelo terá que ser construído pelos homens partindo da experiência, missão na qual as mulheres não poderão auxiliar seus companheiros, não por falta de vontade, mas porque lhes é impossível. Nesta direção Giffin (1998) refere-se à questão da identidade masculina abrangendo questões que envolvem a paternidade através de aspectos como:. “...a impossibilidade de que os homens assumam sozinhos o papel de provedores; a participação efetiva das mulheres na esfera pública, resultando.
(13) 10. em pressões ideológicas e materiais no sentido da divisão do trabalho reprodutivo; a evidencias das crianças não somente como recurso reprodutivo, mas afetivo e a postura de requerem um novo pai; a realidade dos divórcio que impõem a muitos homens os cuidados pelos filhos, mesmo que por períodos fragmentados”(pág.78).. Nessa relação de parentalidade, insere-se então a atuação do padrasto, que circula entre aquilo que representa a função paterna e outras relações de parentesco construídas a partir dos divórcios, (re) casamentos e demais diversidades que o insiram no convívio de filhos que não lhe pertencem biologicamente, oferecendo diferentes possibilidades de exercício afetivo e relacional, com os enteados. Sendo assim, considerando-se a definição de parentalidade atribuída à pessoa ligada à outra por consanguinidade, afinidade ou adoção, conforme citado anteriormente por Vidagal e Tafuri (2010), é possível conceber lugar ao padrasto próximo as funções relacionadas ao exercício parental, sem que signifique uma substituição do pai biológico. Segundo Watarai (2010) :. “O recasamento da mãe introduz a figura do padrasto. Com quem a mãe eventualmente tem outros filhos, e cria um novo arranjo familiar, as famílias recompostas. A convivência com o padrasto é avaliada de diferentes modos, em função dos vínculos que os enteados mantêm com ele, mas também se destaca, a dificuldade em atribuir-lhe um estatuto na classificação de parentesco para definir sua posição no novo arranjo familiar” (pág.127). Portanto, acreditamos que embora a experiência como padrasto possa remeter o homem às experiências próximas da paternidade, como padrasto contará com outras interferências, entre elas: a esposa e mãe dos enteados, a intensidade de permissividade para a atuação do padrasto junto a seus filhos, a relação do padrasto com o pai biológico e a relação deste com seus filhos, a experiência do padrasto como pai e também sua experiência como.
(14) 11. filho. É inegável que as relações familiares primeiras contribuem para formação da personalidade e, numa abordagem psicanalítica, Aberastury (1978) coloca que:. “a psicanálise revelou que é fundamental para a vida da criança que seu nascimento tenha sido desejado; sentir-se filho do pai é tão fundamental para o desenvolvimento do individuo como o próprio sê-lo. Também permitiu provar que desde muito pequenos os filhos percebem a realidade interna do pai, da mãe e de seus sentimentos frente a ele. Ser adotado haver nascido de um pai que não é aquele que cumpre as funções de tal, ter sido concebido por inseminação heteróloga, ser filho de um divórcio, são fatos que o menino percebe e deposita em sua memória e que, mais tarde, entram em contradição com as semiverdades, os ocultamentos e as mentiras do meio. Todos estes estudos foram substituindo o acento posto a princípio na relação inicial com a mãe, por uma revaloração da importância do pai.” (pag.68). Outros estudos como de o Zavaschi e Brunstein (2001) indicaram que o pai, atualmente, sob influência das mudanças sociais nos papéis de masculino e feminino é muito mais autorizado a participar da criação dos filhos; isso pode ser notado na infância como a primeira pessoa que a criança reconhece depois da mãe e que assume um papel imprescindível para que a criança elabore a perda da relação inicial com a mãe. O pai torna-se representante de um princípio de realidade e de ordem na família, sendo elemento fundamental à criança na passagem do mundo da família para o mundo da sociedade. Nesta mesma direção Muza (1998) entende, tal como já o dissera Aberastury (1978) que o pai é importante ao longo da vida dos filhos e destaca dois momentos decisivos em que sua participação é fundamental como recurso para que os filhos resolvam seus conflitos: o primeiro ocorre na triangulação pai-mãe-filho e o outro é na entrada da adolescência com as definições de sexualidade e em um momento em que a ausência paterna pode potencializar fatores de risco, como a drogadicção, por exemplo. Vizzotto, Tardivo, Bonfim e Arias (2004) destacam aspectos ordenadores da função paterna, concebendo o pai (ou equivalente) como.
(15) 12. representante do superego e em cujas funções estão o corte, a cisão das relações simbióticas mãe-filho, resultando, no inicio do desenvolvimento, na primeira imposição e primeira norma a ser respeitada (a interdição); acrescentam também os autores, que na adolescência o pai imbuído de tal função de representante do superego é quem mostra ao adolescente o caminho para vir a ser um homem. Assim, julgando que o estudo das relações do padrasto com seus enteados trata-se de um tema que, embora clássico também é atual em face às mudanças sócio-familiares contemporâneas, é que o presente estudo se encaminhará. Para a compreensão dessas relações e entendendo que a função do padrasto se fundirá com a função paterna, julgamos importante trazer a literatura clássica sobre o tema da paternidade e estudos já realizados sobre o tema. Deste modo, dividimos essa primeira seção do estudo, ou seja, a parte teórica, em sub-itens, por uma questão didática; apresentamos pois, a seguir, as concepções clássicas da psicanálise acerca da função do pai no desenvolvimento da criança,. após, buscamos contextualizar,. através de estudos realizados, as relações do padrasto com enteados e os outros aspectos presentes nestas relações..
(16) 13. I.1 O PAI SOB A ÓTICA PSICANALÍTICA. Na Psicanálise: As concepções de Freud “o pai da psicanálise” Freud foi, sem duvida, o teórico que introduziu e deu absoluta importância à função paterna no desenvolvimento da criança, ao se referir ao “Complexo de Édipo”. Na abordagem freudiana o vínculo primário da criança se dá com a mãe, seu primeiro objeto de amor e, a partir destas experiências começam ocorrer distinções entre experiências de meninas e meninos, embora os elementos sejam comuns envolvendo processos de identificação/ modelo e desejo; a evolução se dá de forma distinta e tem como ápice o Complexo de Édipo que evolui graças à interdição do pai, permitindo que a criança vivencie novos vínculos (ABERASTURY; SALAS 1978) Entretanto, o pai em Freud aparece tardiamente no desenvolvimento, pois Freud coloca o nascimento do Édipo por volta dos 3 anos de vida da criança. É com a instalação edipiana que Freud introduz a percepção paterna para a criança. E Freud parte da tragédia sofocliana para ilustrar tal passagem no desenvolvimento e construção da personalidade humana. Em um trecho da trama de Sófocles, da qual Freud toma o nome “Complexo de Édipo”, Aberstury (1978) assim descreve: “(.....) Laio pai de Édipo é informado da maldição dos deuses que prevê que será assinado por seu próprio filho; para fugir de tal destino ordena a um criado que acorrente os pés do menino e o lance de um monte, compadecido o criado não o mata e ele acaba sendo adotado pelos reis Políbio e Merópe. Quando adulto ao consultar o oráculo (Apolo) sobre seu futuro é informado da maldição em que assassinara seu pai de tomará como esposa a mãe, na tentativa de escapar deste temível futuro foge de corinto e no caminho para se proteger de um ataque mata Laio, seu verdadeiro pai, chegando em Tebas que está tomada por uma peste lhe é oferecido a oportunidade de decifrar o enigma da Esfinge e através.
(17) 14. disso liberta a cidade da peste, como prêmio recebe a mão de Jocasta, sua mãe verdadeira, a quem toma por esposa e geram filhos, porém uma nova peste assola Tebas que segundo o oráculo só teria fim quando o verdadeiro assassino de Laio fosse descoberto, aos poucos Édipo vai descobrindo que foi ele o assassino e também que Laio era seu verdadeiro pai, a descoberta o leva a arrancar seus olhos e Jacasta a enforcar-se”...(pag.70). Portanto, é a partir do Édipo que a criança se abrirá a outras experiências de afeto que conduzirá meninas as concorrentes da figura materna pelo afeto do pai e meninos a rivais de seus pais pelo afeto da mãe. Sendo assim, na formação do Édipo (NASIO, 1995) podem-se reconhecer dois tipos de ligação de afeto: um relacionado ao desejo em relação à mãe e um apego ao pai como modelo a ser imitado – um ideal que o filho gostaria de ser. O vínculo com a mãe é senão um desejo – objeto sexual, enquanto que com o pai o vínculo é de objeto ideal. Esses dois sentimentos desejo (mãe) e amor /identificação com o pai acabam por se encontrar e resulta no Complexo de Édipo normal. Mas, continua o autor, a identificação amorosa com o pai ideal transforma-se numa atitude hostil e acaba por se derivar para uma identificação do pai como homem da mãe; mas, (....). “certamente todos esses afetos. dirigidos ao pai cruzam-se e combinam-se numa mescla de ternura pelo ideal e animosidade em relação ao intruso e vontade de possuir os atributos do homem” p.42. Também Laplanche e Pontalis (1967) referem-se ao Complexo de Édipo como:. “o conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta relativamente aos pais. Sob sua forma positiva, o complexo apresenta-se como na história do Édipo Rei: o desejo de morte do rival que é o personagem do mesmo sexo e desejo sexual da personagem do sexo oposto....” p. 116.
(18) 15. Assim, a ambivalência inerente à identificação, se manifesta dominando a relação com o pai; portanto, o complexo de Édipo do menino se caracteriza por uma atitude ambivalente em relação ao pai e por uma relação objetal afetuosa com a mãe. É então com a conclusão do complexo de Édipo e instalação da proibição de incesto (ABERASTURY, 1978) que haverá a percepção, pela criança, da diferenciação do sexo feminino e masculino, bem como o surgimento da necessidade de diferenciar-se de seus pais e internalizar suas representações destes. Além disso, como afirmou Salas (1978) na organização edipiana, o próprio complexo de castração – feito pela interdição paterna, uma representação simbólica, dada a constituição do superego é que se encarregará de manter a proibição do incesto; de modo que a proibição é algo eminentemente social, representando a lei e facilitando a identificação com os valores sociais. Portanto, a figura do pai é vital para que a criança se desenvolva socialmente; é o pai o representante da possibilidade de outra relação de afeto além da díade mãe-bebê, o que posteriormente se estenderá às relações sociais. Assim, em Freud é possível compreender que ante o conflito das exigências impostas por forças exógenas (sociedade, normas, valores, leis, ...) e o desejo ou prazer sem limites será marcado pela resolução edipiana. No processo de desenvolvimento/amadurecimento, o indivíduo opta em limitar o seu prazer pela garantia de manutenção de parte do prazer que lhe é permitido por essas mesmas forças externas (convívio social, aceitação, integração no grupo a que pertence, etc....). Essa submissão é uma das possíveis saídas na resolução do Édipo e se dá na infância – em seu declínio, após os 5 ou 6 anos de vida. Sem dúvida, Freud utilizou parte da tragédia sofocliana e deu o nome à mais difícil situação humana, demonstrando que a cegueira infligida por Édipo a si mesmo, nada mais era do que sua castração; e assim, Freud aponta esse período como dos mais, senão o mais importante do desenvolvimento humano, Vizzotto (1994). No entanto, em outras obras Freud retoma aspectos que se evidenciam na função paterna como em Totem e Tabu Freud (1913) onde coloca temas como interditos e a proibição do incesto relacionado ao desenvolvimento da civilização e a repressão dos instintos abordando também a origem da religião como instrumento mantenedor da “ordem.
(19) 16. social” apontando aspectos comuns de proibição de incesto e interditos presentes no desenvolvimento infantil conforme complexo de Édipo. Tanto em Totem e Tabu quanto em Édipo, Freud se apoia na mitologia e na tragédia para tratar de aspectos delineadores das relações de parentesco analisando-os de modo simbólico na constituição psíquica. Em Totem e Tabu refere-se ao Totem (personificado pelo pai) como um representante do clã (linhagem) que ocupava um lugar sagrado e contribuía como recurso de identificação deste grupo onde estabelecia-se como regra absoluta a obrigação de manter o Totem vivo ou intacto, pois sua morte ou destruição resultariam em severas penas de morte ao destruidor; em contrapartida, o Totem mantinha com o grupo uma relação de tutela e proteção que ao mesmo tempo inspirava medo. Assim, a adesão do clã ao Totem também impõe regras a estas comunidades primitivas, como a proibição de relações/sentimentos amorosos entre seus membros (proibição do incesto), enquanto ao Tabu é atribuído valor de sagrado, consagrado e misterioso e ao mesmo tempo inacessível, intocável, proibido, impuro e perigoso, expresso através da proibição. Não por imposição divina, mas por conta própria assume características de um tema não permitido. Até que todos os membros do clã se juntam, por medo da punição não permitem a exceção de ninguém, matam o totem o comem devorando sua carne e festejam sua morte. Liberam-se das interdições e proibições anteriores (Freud destaca que este é o sentimento comum dos festivais, um excesso permitido), os membros do clã permitem-se a liberdade de fazer o que via de regra era proibido. De modo que, é possível destacar a importância do pai ou seu representante no desenvolvimento infantil partindo da necessidade da interdição como condição para o convívio social da criança e também características de reedição. Freud (1937-1939) propõe aspectos da interdição e parricídio em “Moisés e Monoteísmo” quando remonta a história bíblica de Moisés e o povo judeu. Segundo o Livro do Êxodo na Bíblia, o Faraó mantinha entre os muitos escravos o povo hebreu que trabalhava na construção de pirâmides, templos e obeliscos; temendo que esta população estivesse crescendo demais e ganhasse força, o faraó egípcio ordenou que todos os bebês hebreus do sexo masculino fossem mortos. Então,.
(20) 17. quando Moisés nasceu, Jocabed o colocou em uma cesta de junco, que deixou às margens do rio Nilo, este bebê foi encontrado e adotado pela filha do faraó, que o encontrou enquanto se banhava no rio Nilo e o educou na corte como o príncipe do Egito. Aos 40 anos (1552 a.C.), após ter matado um feitor egípcio levado pela "justa" cólera, Moisés é obrigado a partir para o exílio, a fim de escapar à pena de morte, onde recebe por uma visão de Deus a missão de libertar o povo hebreu da escravidão guiando-o através de um êxodo pelo deserto durante quarenta anos, onde recebeu no alto do Monte Sinai as Tábuas da Lei de Deus, contendo os Dez Mandamentos, libertou o povo judeu da escravidão no Antigo Egito, tendo instituído a Páscoa Judaica.. A partir da releitura da trama de Moisés e a religião monoteísta imposta por ele ao seu povo, Freud (1937-1939) observa que a prática religiosa imposta por Moisés se assemelha a pratica egípcia, de forma hipotética, baseando-se em estudos, sugere que a origem biológica de Moisés pudesse ser também egípcia, prossegue descrevendo a resistência do povo e o fim de Moisés através do parricídio cometido este povo, retrata o período de latência que se dá após esse evento traumático de sua morte da qual o povo recebe expiação da culpa “pecado” através do sacrifício de Cristo, onde ocorre o surgimento de uma nova religião. Portanto, ao remontar a história de Moisés e levantar indícios que de que Moisés tivesse uma descendência egípcia conclui que a religião imposta a ele para o povo judeu chega a ser mais rigorosa do que a imposta por seus mestres (egípcios) ao próprio Moisés.. . O Pai entre os Pós Freudianos É importante destacar, como já o fez Aberastury (1978) que Freud coloca o pai tardiamente no desenvolvimento da criança. E foi somente com Melanie Klein que o pai pode ser visto bem mais cedo no desenvolvimento do filho. Isto pois Klein apregoa um Complexo de Édipo muito mais cedo no desenvolvimento. De modo que, conforme Aberastury (1978) o pai já surge na vida do bebê, aos 3/4meses, quando desenvolve mais a.
(21) 18. capacidade de visão e, ao 6 mês quando do auge do Complexo de Édipo. Klein (1932) ao tratar dos “primeiros estágios do conflito edipiano e da formação do superego”, afirma : “não creio que se possa fazer distinção muito precisa entre os primeiros estágios do conflito edípico e os ulteriores. Desde que, conforme o demonstraram minhas observações, os impulsos genitais se estabelecem ao mesmo tempo em que o pré-genitais...” p. 185 e 186.. Assim, Melanie Klein atribuiu importância aos períodos mais precoces do desenvolvimento e passou a não se referir a um período pré-edipiano e, traz o Complexo de Édipo à posição depressiva – quando a criança já é capaz de integrar (objeto total). A esse respeito, Klein (1952) explica que, aos poucos, com o desenvolvimento, o bebê conseguirá projetar e reintrojetar novos objetos e o Ego, vai se desenvolvendo. Por volta dos 3 aos 5 meses de vida as fantasias pré-ambivalentes (objetos bons e maus distintos) começam a ser dominadas pelas fantasias ambivalentes (objetos bons são também maus) e, como essa passagem exige grande sofrimento, a autora denomina de ‘posição depressiva’. O progresso nas funções do Ego, completa Heimann (1952) resulta na capacidade da criança reconhecer pessoas individuais (totais) e assim, amplia seu mundo. Numa linha de raciocínio um pouco diferenciada dos kleinianos, uma vez que há a valorização maior do ambiente, Winnicott (1985) destaca o quanto o pai é valioso. Aponta esse autor que sua presença ajuda a mãe a sentir-se bem com seu corpo e feliz em seu espírito e inclui nesta observação a sensibilidade da criança em perceber que as coisas vão bem neste ambiente familiar supondo que este entendimento infantil representearia para criança aspectos de “segurança social”. Prossegue afirmando que o pai é necessário porque fornece apoio moral à mãe perante a criança, sustentando assim a autoridade desta, embora, ressalte que a mulher deva estar apta a exercer autoridade, a manutenção deste papel com aspectos mais amorosos fica mais eficiente com o suporte paterno; pondera colocando que a criança precisa do pai e o percebe como único o distinguindo de outros homens, mesmo não tendo uma fase determinada no desenvolvimento em que tal distinção ocorra destaca a.
(22) 19. necessidade que o filho tem do pai, em especial nos primeiros anos, inicialmente de forma idealizada pelo filho, mas a presença valiosa permitirá que tal filho conheça o pai e a medida em que o convívio se prolonga possa descobri-lo como o ser humano que é. E acrescenta que quando o pai entra na vida da criança como pai, assume sentimentos que ela já alimentava em relação a certas propriedades da mãe e constitui um grande alívio para esta mãe verificar que o pai se comporta de maneira esperada. O referido autor afirma também que o pai enriquece de forma abundante a vida dos filhos e que quando pai e mãe aceitam a responsabilidade pela criança o contexto fica propício para um bom lar.. I.2. Estudos sobre função e Papel Paterno Embora tenhamos encontrado estudos datados dos anos oitenta e noventa do século vinte sobre a função e o papel do pai no desenvolvimento da criança, e sua função no grupo familiar, ainda se pode dizer que a literatura sobre o tema encontra-se escassa, principalmente quando a comparamos com estudos sobre maternidade. Sem dúvida, desde os primeiros estudos de Sigmund Freud e o surgimento da Psicanálise, muito se têm dedicado aos estudos das relações materno-filiais. Na década de oitenta, no Brasil, encontramos estudos brasileiros como o de Vizzotto (1988) que estudou, sob a ótica psicanalítica, as relações entre ausência paterna e capacidade de aprendizagem na criança e concluiu que a ausência significativa referia-se àquela da “figura paterna”, ou seja, o significado de pai que a criança conseguira introjetar e não sua presença física propriamente dita. Verificou ainda, a mesma autora o quanto a figura paterna é importante para a aprendizagem na vida da criança. Vizzotto (1994) estudou homens que esperavam pelo nascimento de seu primeiro filho e, numa abordagem psicanalítica, concluiu que, naqueles pais estudados, houve, em muitos momentos do período de gestação, uma mobilização de situações conflituosas mais precoces do seu desenvolvimento; o remanejamento libidinal remetia-os, principalmente, ao período edipiano precoce e sugerem reações sintomáticas variadas: alterações do sono, do estado de ânimo, alterações alimentares e das atividades sexuais, as quais foram interpretadas como "acting out da paternidade" (defesa contra a inveja), com fantasias.
(23) 20. conscientes e inconscientes que expressavam esta inveja primitiva da capacidade feminina de gestar. Mendes (2007) com o intuito de perceber um pouco mais sobre a vivência real da paternidade em Portugal em sua pesquisa procurou responder a cinco perguntas em concreto: “Terão os jovens pais diferentes representações e atitudes perante a paternidade? Será que o projeto da paternidade implica ou é implicado na construção do projeto de masculinidades? Como se concilia a vivência da paternidade com o desempenho de uma atividade profissional? Relação conjugal? Estarão os jovens pais a tentar obter uma situação de igualdade face às jovens mães, no que refere à assistência e ao acompanhamento dos filhos?” Os resultados apontaram uma vivência da paternidade mais efetiva e afetiva e a vontade destes jovens pais de estarem presentes e de acompanharem o crescimento dos filhos, tendo um envolvimento emocional com eles, porém houve especificidades decorrentes de diferentes posições socioeconômicas e idades nesta postura. Maciel (2010) investigou as experiências psíquicas vivenciadas por homens que esperavam o nascimento do primeiro filho através da confluência da psicologia e da saúde pública com natureza compreensiva e corte qualitativo, baseando-se na hipótese de que essa vivência re-atualiza. conteúdos. inconscientes do pai e concluiu que para alguns participantes a paternidade surge com um conceito idealizado. transcendendo a natureza humana com suas limitações, que a. capacidade para ser responsável está profundamente vinculada ao patrimônio afetivo de cada sujeito e, que o desejo manifesto de ser pai pode não ser harmônico com seus desejos latentes, o que implica dificuldades no desempenho da paternidade. Afonseca et. al. (2011) investigaram a prestação de cuidados de um cuidador competente (pais) e neles três características: cuidado (bem-estar e crescimento do bebê);, eficácia (competência do cuidador em desenvolver ações eficazes na resolução de problemas) e partilha (disponibilidade do cuidador para partilhar). Para tal, correlacionaram traços. de. personalidade. Extroversão/. Introversão,. Neuroticismo/Estabilidade,. e. Psicoticismo/Superego com a participação dos pais na prestação de cuidados aos bebês. Os autores adotaram conceitos de Hans J. Eysenck da década de cinquenta, ano de 1952, que considerava apenas três fatores da personalidade, como: indivíduos extrovertidos - sociáveis,.
(24) 21. adaptáveis, despreocupados, otimistas, impulsivos, energéticos, rebeldes, aventureiros, resistentes e que costumam procurar novas sensações ativamente; introvertido características próximas de passividade, tranqüilidade, fobia social, pessimismo, atividade reduzida, preocupação, acanhamento e inibição de sensações; indivíduo neurótico com maior probabilidade de interpretar negativamente as experiências traumáticas. Sendo assim, os autores concluíram que os fatores de personalidade parecem influenciar a prestação de cuidados, mas não indicam quais fatores seriam determinantes à prestação de cuidados dos pais aos seus filhos na infância e recomendam estudos posteriores que possam esclarecer que outras variáveis intervêm no processo. A experiência como filho é uma interferência importante na vivencia do pai e do padrasto, pois, Vizzotto (1994) utilizando referencial psicanalítico, o mesmo adotado neste trabalho, destaca que as relações que o homem teve com seus pais na infância influencia o seu exercício da paternidade; a mesma autora havia se baseado nas contribuições de Knobel (1987 apud VIZZOTTO, 1994) de que tal exercício está vinculado a um “compromisso evolutivo” que será então entendido a partir de sua própria vivencia edipiana, concluindo que não haverá Laio sem antes ter sido Édipo (e antes não haverá Édipo sem Laio e Jocasta). Acrescentamos ainda os dizeres de Vasconcelos (1998) de que “Ninguém nasce mãe ou pai, só nos constituímos como tal pela possibilidade da reciprocidade de alguém que se constitua como filho” (pág. 41) Assim, Vizzotto (1994) se refere à situação conflituosa básica vivenciada com a paternidade que possibilita ao homem se deparar com conflitos pertinentes a figura paterna que foi internalizada e de sua inveja da capacidade feminina de gerar, diante da transgressão edipiana. Maciel (2010) também se refere a esta inveja quando destaca que as ideias sobre superioridade. masculina. vigentes. na. sociedade. vitoriana. conduziram. Freud. ao. desenvolvimento de uma teoria centrada no homem em que a mulher tinha “inveja do pênis” no entanto estas ideias, segundo o autor, não mais se sustentam e atualmente há de se considerar aspectos de inveja do homem pela capacidade reprodutiva feminina. Moro (2005) em sua análise sobre a parentalidade coloca que “não nascemos pais, tornamo-nos pais. A parentalidade se fabrica com ingredientes complexos. E alguns deles.
(25) 22. são coletivos, pertencem à sociedade como um todo e mudam com o tempo, são históricos, jurídicos, sociais e culturais”. Deste modo, observamos pelas pesquisas realizadas sobre a paternidade que não só os pesquisadores e especialistas na área de psicologia clínica e de desenvolvimento humano têm pensado sobre uma nova concepção paterna, depois de Freud, mas também a sociedade em geral tem absorvido essa possibilidade de re-significar a vivencia do pai, e também compreendido que essa é influenciada pela experiência deste homem como filho; fato que indica perspectivas de mudanças.. I.2 DO PAI AO PADRASTO: RELAÇÕES COM ENTEADOS. Observou-se após levantamento da literatura, a escassez de trabalhos que abordassem diretamente o tema padrasto. Assim, em relação ao papel e função, é possível esperar que o indivíduo ´padrasto´ tenha essas mesmas tarefas ou significados em relação ao seus enteados. De modo que as tarefas paternas (ou dos padrastos), se são as mesmas, essas evoluem juntamente com o filho ( ZAVASCHI ; BRUNSTEIN, 2001) uma vez que, no inicio, o amor dos pais se manifesta pelo oferecimento de tudo o que a criança necessita, permitindo a ilusão de que tudo será assim por toda a vida; aos poucos, à medida em que a criança cresce se desenvolve, cabe ao pai desiludi-lo, propiciando um gradativo confronto com a realidade. Assim, pode-se lembrar Maldonado (1986) que já havia destacado nos anos oitenta do século vinte, que a experiência de paternar, como destacou promove reflexões sobre mitos que envolvem a relação e o significado que atribuem a “ser bom pai e boa mãe” como superproteção, permissividade e o desejo de perfeição; porém as dificuldades se evidenciam quando se tornam um ideal rígido demais e inatingível, gerando frustrações, sentimentos de culpa e fracassos quando o cotidiano se apresenta diferente da imagem que se formou. Esta reflexão desta autora nos permite avançar para outros estudos relacionados à família e recasamentos, contexto no qual está inserida a relação padrasto-enteado..
(26) 23. . O Recasamento e o papel do Padrasto As modificações nas famílias decorrentes do divórcio e recasamento, no Brasil só foram possíveis, oficialmente, a partir de 1977 com a lei de divórcio (lei 6515, promulgada em 26 de dezembro de 1977), embora os recasamentos já ocorressem antes mesmo da regulamentação, mas não eram reconhecidos ou aceitos socialmente, constituindo temas velados ou evitados nas redes sociais e familiares. A modificação na lei trouxe mudanças de modelos e padrões de família. Cano, et al (2009) entenderam que essas modificações nas famílias decorrentes do divórcio e recasamento, acarretaram mudanças nas concepções dos relacionamentos, em que se observa a convivência de padrões familiares "tradicionais" e "modernos", desmistificando os antigos preconceitos. Mesmo assim, os estudos sobre a temática merecem ser realizados à luz de seus contextos e realidades, em decorrência de que, no momento atual, se descortinam diferentes valores relacionados à família, abrindo espaço para reflexões. O trabalho de Cerveny (2002) contempla tais reflexões e indica que hoje, sob a denominação família, existe uma pluralidade de composições que incluem laços consanguíneos, relações não formalizadas por parentesco, família conjugal extensa, núcleo doméstico, família não legitima juridicamente, entre outras. Considerando o contexto dos chamados recasamentos Elzirik e Bassols (2001) colocam como “separação boa” aquela em que os ex-conjugues mantêm o objetivo de proteger a saúde mental dos filhos, colaborando cordialmente e poupando os filhos dos conflitos do casal; sinalizam ainda esses autores, que há prazer em muitos pais separados em participar da educação dos filhos, de modo que se envolvem cada vez em tarefas como banho, cozinha/alimentação, entre outras atividades. Com relação aos desafios, Kunrath (2006) aponta que para as famílias de recasados o principal desafio é desenvolver a conjugalidade diante dos desafios impostos pelos papéis parentais. Sobre esse aspecto, Marcondes (2008) verificou o impacto da nova união conjugal.
(27) 24. e a existência que filhos de uniões anteriores exercem sobre a decisão masculina de ampliar o tamanho da prole e indicou que a existência de filhos de uniões anteriores e o tipo de contato que os homens estabelecem com os seus filhos - conviventes e não conviventes – e enteados, parece afetar as intenções do casal sobre a possibilidade de ampliar a nova família; no entanto, segundo esta pesquisa os homens que teriam maiores chances de encerrar sua carreira reprodutiva com uma prole maior do que desejavam seriam aqueles que; a) recasaram com mulheres que ainda não tinham filhos; b) os filhos dele não viviam com o casal; c) residiam com menos de dois filhos e/ou enteados. Os resistentes a ter mais de um filho no recasamento foram aqueles que; a) a parceira já tinha três filhos ou mais ou b) residiam com mais de dois filhos e enteados. Outro desafio nesses contextos de recasamentos é o pai biológico, que segundo Bottoli (2010) para o pai, o momento da separação conjugal, historicamente, também caracteriza a separação dos filhos; a separação conjugal tem se constituído como um momento que modifica o exercício da paternidade e ocorrem diferenças significativas no antes e no depois, principalmente em relação à proximidade com os filhos e a questões envolvendo o relacionamento com a ex-mulher. Silveira (1998) já havia apontado que a possibilidade de um bom enfrentamento na educação dos filhos fica subordinada ao fato de como se deu a aceitação da separação dos genitores, influenciando a forma como as crianças serão percebidas e recebidas na escola, entre amigos, no lazer, no trabalho e acrescenta que o segundo o casamento costuma ser complicado porque as relações anteriores permanecem enquanto surgem novas relações. A contribuição de Saraiva (2013) é salutar, pois o autor afirma que o padrasto não substitui o pai biológico, considerando que este ultimo continua a ter suas responsabilidades junto aos filhos e muitas vezes participa ativamente do processo educativo de sua prole, destaca que as relações entre padrastos e enteados confrontam diretamente as relações instituídas biologicamente àquelas em que prevalece o vínculo de convívio. Este trabalhos contribuem com a inclusão de aspectos presentes na experiência do pai biológico no contexto de separação conjugal, mesmo adotando um enfoque diferente do.
(28) 25. presente trabalho são relevantes por incluírem características de um membro do grupo familiar que certamente influenciará no vinculo entre o padrasto e seus enteados, da mesma forma convém ressaltar a maneira como a mãe introduz aos seus filhos a presença do padrasto, conforme veremos adiante: A mãe é um membro de fundamental importância na mediação das relações familiares conseguindo permitir a participação do pai biológico ou companheiro (padrasto) na divisão de tarefas ou aproximação afetiva destes de seus filhos, Silveira (1998) destaca a observação realizada em sua pratica como psicoterapeuta da frequência de homens com a queixa de sentimentos de solidão, derivados da perda de identidade familiar porque não se sentem pertencendo a uma família, independendo de ser a originária ou constituída, embora relatem que se sintam necessários não se sentem amados, percebem-se desqualificados em suas atitudes em relação à família, entre elas: cuidar dos filhos, cozinhar e decorar a casa. Entretanto, Burdon (1998) afirma que os homens encontram barreiras significativas para aumentar seu envolvimento nas tarefas domésticas e no cuidados com as crianças, sendo que para muitos é a atividade profissional o empecilho, porém muitas vezes são as próprias mulheres que resistem à maior participação de seus maridos e utiliza-se do termo “gerente doméstico” para demonstrar o perfil de mulheres que vêm as tarefas domésticas como fonte de satisfação e realização, sendo assim, excluem seus companheiros de um maior grau de envolvimento familiar. Portanto existem muitas evidências de que o pai desempenha um papel significativo na vida de seus filhos e muitos expressam este desejo, tanto por parceira no contexto familiar quanto por exercitarem seus papéis de pais. Entre os autores clássicos, Winnicott (1985) já havia destacado a noção de permissão que a mãe pode dar nas relações, de modo a facilitar ao pai o exercício de sua função. O autor afirma que a mãe que se sente competente em sua função propicia a entrada do pai em cena no cuidados com os bebês, no entanto, o pai não deve sentir-se em condições de substituí-la, principalmente se considerar que se trata de uma dedicação integral e não momentânea..
(29) 26. Observa-se que mães têm, muitas vezes, permitido e facilitado que os pais compartilhem os cuidados com a prole pelas mais diversas motivações, entre elas está a própria necessidade de cuidados com os filhos e necessidade de receber ajuda por parte da mãe. Sobre esse aspecto, mas de um ponto de vista social, Barsted (1998) discute que no cenário atual de reivindicações por direitos igualitários, têm-se solicitações de benefícios também dos homens como: creche e licença paternidade, licença parental, garantindo o direito aos pais e mães de exercerem de forma eletiva ou alternada os cuidados com os filhos. No entanto há de se reconhecer que a função paterna passou a ser evidenciada pelos próprios homens. Silveira (1998) aponta que o exercício efetivo da paternidade nunca foi tão cobrado dos homens, tratando-se, pois, de uma verdadeira revolução que exige reinventar os códigos de relações humanas- sejam públicas ou privadas. Neste sentido Barsted (1998) cita a Conferência Mundial de População e Desenvolvimento, de 1994, e a Conferência Mundial da Mulher, de 1995, ambas organizadas pelas Nações Unidas enfatizaram a responsabilidade masculina pelo exercício da sexualidade, seja em suas conseqüências reprodutivas, seja do ponto de vista de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, destacando ainda as responsabilidades tanto femininas quanto masculinas não apenas com a manutenção material da família, mas também que a assistência moral que homens e mulheres devem igualmente prestar à sua prole. . O Padrasto Tratando mais especificamente do homem no desempenho da função de padrasto Watarai (2010) destaca que a relação que o padrasto mantém com a mãe tem grande importância, pois a mãe é mediadora neste contexto e contribui para delinear o grau de envolvimento entre padrasto e enteados. Waldemar (1996) afirmou que os padrastos também vivem com incerteza o papel que devem ocupar, pois não sabem se agem como pais, como amigos ou se adotam outras possibilidades; além disso, pais biológicos não são excluídos da responsabilidade de cuidar dos filhos, havendo assim sua interferência..
(30) 27. O estudo de Saraiva (2013) com o tema “Ser padrasto em famílias recompostas os desafios da pluriparentalidade” investigou o lugar que o padrasto ocupa e as dificuldades encontradas na dinâmica familiar; verificou que os padrastos podem atuar de forma substitutiva do pai biológico - rivalizando com este, ou de forma oposta e agir como figura adicional no contexto familiar auxiliando pais e mães na tarefa de educar as crianças/adolescentes, sem maiores confrontos.. Constatou também esse autor, que apesar da singularidade de cada família os padrastos encontram alguns impasses e dificuldades parecidas, e que cabe ao padrasto criar um espaço singular de atuação, evitando entrar em choque com as tarefas e funções dos demais membros da família. Soares (2012) pesquisou atribuições de padrastos e madrastas em famílias recasadas após separação conjugal e concluiu sobre a incerteza dos lugares que esses ocupam na dinâmica familiar e a falta de leis brasileiras que atinjam especificamente as famílias recasadas. Também Ribeiro (2005) investigou a construção das relações afetivas entre padrasto (ou madrasta) e seus enteados adolescentes e seus resultados apontaram que a maioria dos padrastos e madrastas não conseguiam estabelecer uma relação afetiva satisfatória, principalmente, pela falta de diálogo. Com o exposto pelos estudos apresentados, é possível entender, como já salientou Silveira (1998), que a própria filiação pode ser vista sob dois aspectos: o desejo do adulto em ter um filho e o desejo da criança em ser cuidada. Assim, ao entendermos a realidade da família pós moderna que apresenta diversidade de possibilidades e configurações, entre elas a posição e o significado do padrasto neste contexto, entendemos que o presente estudo se faz pertinente; principalmente, porque parece existir uma multiplicidade de variáveis nessas relações padrasto-enteado. Diante do exposto, o presente teve por objetivos: a) Identificar a percepção do padrasto sobre suas relações com seu(s) enteado(s), b) Identificar a percepção do padrasto acerca da sua função e papel na família..
(31) 28. II.. MÉTODO. Para realização do presente estudo utilizamos o Método Clínico de abordagem psicanalítica que privilegia a intersubjetividade, e o campo das relações emocionais. Segundo Vizzotto (2003) tal método tem origem nos métodos naturalistas, sendo pois, uma variação desses. O naturalismo tem assento na observação natural do fenômeno; mas procura a neutralidade do observador e que este se abstenha de suas sensações, emoções e de toda e qualquer subjetividade que possa existir no processo observacional. No entanto, o Método Clínico, que é uma variação desse naturalismo, acrescido da abordagem psicanalítica, é peculiar, principalmente no que tange ao observador; isso porque, segundo Bleger (1980) o observador busca se aproximar e se afastar do fenômeno observado – no que o autor chama de “dissociação instrumental”. Com o que expõe esse autor, podemos considerar a impossibilidade de completa isenção do observador, de modo que este deve ser considerado como uma das variáveis do campo observacional; tal autor ainda destaca ainda a presença de uma “experiência compartilhada”, ou seja, quando o objeto de estudo e pesquisador compartilham da mesma categoria na espécie, uma vez que ambos são humanos; e com isso, a “neutralidade” torna-se um desafio ainda maior. Sendo assim, Bleger (1980) aponta a necessidade do enquadre, incluindo ao processo investigativo as condições nas quais se realiza a observação ou fixação de um conjunto de constantes, que tanto nos serve como meio de padronização quanto de sistema de referência do observado. De modo que, ao adotar pressupostos psicanalíticos, o autor acrescenta ao naturalismo originário deste método, aspectos dinâmicos. Porém convém lembrar que se mantém a natureza do modelo naturalista porque o Método que Clínico de abordagem psicanalítica postula curvar-se sobre o fenômeno e a através observação e descrição destes eventos a obterem-se hipóteses diagnósticas que possibilitarão intervenções e através da observação e avaliação de resultados se alimentará o ciclo para novas observações, avaliação, hipóteses e a assim se dará a evolução de estudos e da ciência..
(32) 29. Portanto, a presente investigação trata-se de um estudo observacional clínico diagnóstico, que busca compreender a dinâmica interna de homens que ocupam o papel e a função de padrastos em seu grupo familiar. PARTICIPANTES: participaram deste estudo 03 homens que ocupavam o papel e a. função de padrastos em seus grupos familiares. Estes participantes foram convidados a fazer parte deste estudo e, para tal, assinaram o “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE” (Anexo 1). O Participante 1 - Sr. Wilson (nome fictício) contava 58 anos de idade na ocasião de nossos contatos, era casado há 28 anos, padrasto de uma mulher de 39 anos de idade, (cujo pai biológico era falecido há 36 anos) e pai de uma mulher de 24 anos de idade, fruto da sua união com a Sra. Alda (nome fictício), com quem convive. Sr Wilson era engenheiro e trabalhava como aeronauta. O segundo participante Sr. Joaquim contava 46 de idade, era casado há 2 anos e 6 meses com Sra. Mônica (nome fictício), padrasto de um menino de 8 anos, e pai de uma menina de 2 anos desta atual união. Trabalhava como profissional liberal, formação em engenharia e mestrado na mesma área de conhecimento. O terceiro participante, Sr. Lucas (nome fictício), contava 40 anos de idade, era casado há 4 anos com Sra. Cinthia (nome fictício), padrasto de um rapaz de 20 anos e de um adolescente de 16 anos, ambos os filhos do mesmo pai biológico frutos do casamento anterior de Sra. Cinthia e Sr. Lucas tinha uma filha biológica (18anos) também de um relacionamento anterior. Trabalhava como autônomo no ramo de construção civil em nível técnico, tendo concluído ensino médio. INSTRUMENTOS:. b1) Roteiro de entrevista: construído para nos guiar nessa. tarefa investigativa (APÊNDICE 1). Trata-se, portanto, de um instrumento norteador, uma vez que a técnica utilizada é a de entrevista semi-dirigida. A entrevista semi-dirigida, tal como postulam Ocampo e Arzeno (2001) é aquela em que há flexibilidade em seu manejo e oferece ao entrevistado a liberdade de expor seus problemas começando por onde preferir e incluindo o que desejar. Porém difere da entrevista totalmente livre porque permite a intervenção do entrevistador como facilitador da fala do entrevistado, principalmente em.
(33) 30. situações em que se percebe a dificuldade do entrevistado em começar ou continuar, bloqueios ou paralisações. Portanto é permitida a intervenção do entrevistador para esclarecimento de elementos apresentados pelo entrevistado de forma ambígua ou com lacunas, o que permite melhor interpretação de falas “obscuras”. Um critério para escolha deste instrumento, segundo Ocampo e Arzeno (2001) é a necessidade de extrair dados que permitam formular hipóteses, planejar bateria de testes e de interpretação com maior precisão dos dados coletados. Mas também lembramos as contribuições de Bleger (1980) que preconiza a entrevista como instrumento de investigação clínica que pode ser de dois tipos fundamentais: aberta e fechada, no caso da aberta têm a característica da flexibilidade que possibilita que o entrevistado configure o campo de aplicação segundo sua estrutura psicológica particular; diferente da entrevista fechada em que se aplica um questionário, dirigido. Sendo assim utilizou-se como roteiro para entrevista com os participantes, apenas como um guia, norteador e com os seguintes temas: - Aspectos do convívio do padrasto com seu enteado (envolvimento do padrasto com educação e desenvolvimento do enteado; tipo de orientação e suporte em dificuldades; envolvimento em lazer; cuidados em geral). - Como percebe e lida com atitudes e interferências da esposa na relação do padrasto com o enteado - Como percebe e lida com atitudes e interferências do pai biológico do enteado. - Como percebe e lida com aspectos econômicos na relação com o enteado. - Como percebe e lida com filhos biológicos e como percebe o exercício da função pai e função padrasto no mesmo ambiente. - Outros aspectos relevantes de sua experiência como filho. b1) Desenho de Família com Estórias: Procedimento de Desenho de Família com Estórias (DF-E) de Trinca (2013) trata-se de uma técnica compreensiva de investigação da personalidade que deriva do Procedimento de Desenhos com Estória (D-E), originalmente introduzido em 1972. O DF-E tem como objetivo obter recursos de expressão e acolhimento da vida emocional relacionada à dinâmica familiar. Hoje podemos contar com novas abordagens da vida mental e diferentes meios em que pode ser aplicada a técnica do D-E,.
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