Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Inspeção Sanitária Integrada em
suínos
Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária
Ricardo Daniel Moreira Primo
Orientadora: Professora Doutora Maria Madalena Vieira-Pinto
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Inspeção Sanitária Integrada em suínos
Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária
Ricardo Daniel Moreira Primo
Orientadora: Professora Doutora Maria Madalena Vieira-Pinto
Composição do Júri:
Doutora Cristina Maria Teixeira Saraiva Doutora Ana Cláudia Correia Coelho
Doutora Ana Patrícia Antunes Lopes Doutora Maria Madalena Vieira Pinto
O conteúdo apresentado neste trabalho é da exclusiva responsabilidade do autor.
Agradecimentos
Ao Senhor Reitor da UTAD, Professor António Fontainhas Fernandes pela facilidade concedidas na realização desta dissertação de mestrado.
Começo por agradecer Professora Doutora Madalena Vieira-Pinto pela oportunidade de trabalhar num tema interessante e pela orientação dada ao longo de todo o percurso.
A todos os que trabalham na OPP Vinhais, um obrigado pela amizade.
Á ANCSUB pela informação disponibilizada para a realização desta Dissertação de Mestrado. Á Dr.ª Luzia Gonçalves pela ajuda na elaboração e compreensão de parte deste estudo. Aos meus amigos que partilharam comigo este duro caminho.
Resumo
A produção de suínos no concelho de Vinhais é do tipo familiar, sendo o porco Bísaro um pilar da economia local.
Foram realizados inquéritos epidemiológicos para identificar fatores de risco presentes para a doença brucelose e mal rubro na totalidade das explorações suinícolas do concelho.
Com o objetivo de conhecer a situação epidemiológica do concelho para as doenças brucelose e mal rubro, foram rastreados de forma aleatória 165 animais de 59 explorações.
O resultado laboratorial indicou que a totalidade da amostra foi seronegativa para a doença brucelose, contrariamente ao mal rubro ao qual foi identificado 33 (17,83%) animais seropositivos em 23 (38,98%) das explorações estudadas.
A análise estatística efetuada permitiu-nos identificar alguns fatores de risco associados à doença mal rubro, dos quais destacamos o nível de habilitações literárias (p=0,020), a falta de instalações individualizadas (p <0,001), não possuir armazém de alimentos individualizado (p =0,001), a presença de coabitantes na exploração, destacando a presença de gatos e aves de capoeira (p <0.001), a frequência de limpeza de bebedouros e comedouros (p <0,001), a aplicação de medidas de desinfeção na exploração (p <0,001), o local de colocação do esterco (p <0,001), a utilização de restos alimentares de cozinhas e restaurantes (p <0,001) e o controlo de pragas, tais como ratos (p <0,001) e insetos (p =0,005). A identificação dos fatores de risco permite a adoção de medidas de controlo e biossegurança na exploração, com vista à diminuição e/ou erradicação destas doenças zoonóticas, com recurso a uma medicina preventiva e a uma redução na utilização de fármacos. Atuações fundamentais que se enquadram no grande objetivo da Nova Lei da Saúde Animal: “A prevenção é melhor do que a cura”.
Abstract
Swine production in the municipality of Vinhais is mostly characterised by backyard and/or free-ranging pigs, with the Bísaro pig playing a major role in the local economy.
Epidemiological surveys were conducted to identify risk factors for brucellosis and erysipelas in all pig farms in the county. To evaluate the epidemiological status of the county for Brucellosis and Erysipelas, 165 animals from 59 farms were randomly screened.
Laboratory results showed that the whole sample was seronegative for brucellosis, unlike erysipelas, in which 33 (17,83%) seropositive animals were identified in 23 (38,98%) of the farms under study.
Statistical analysis allowed to identify some risk factors associated with erysipelas, highlighting educational attainment (p = 0,020), lack of individualized facilities (p <0,001), lack of separate food storage (p = 0,001), the presence of cohabitants on the holding, specifically the presence of cats and poultry (p <0,001), the cleaning frequency of drinkers and feeders (p <0,001), the application of disinfection measures on the holding (p < 0,001), manure placement site (p <0,001), use of kitchen food and restaurant waste (p <0,001) and pest control such as rodents (p <0,001) and insects (p = 0,005).
The identification of risk factors allows the adoption of control and biosafety measures in farms, promoting the reduction and / or eradication of these zoonotic diseases, by practicing preventive medicine and reducing drug use. Key actions that fit the grand objective of the New Animal Health Law: "Prevention is better than cure."
Í
NDICE1. Introdução ... 1
1.1 Objetivos deste Trabalho ... 3
2. Revisão Bibliográfica ... 5 2.1 Raça Bísara ... 5 2.1.1 Origem e História ... 5 2.1.2 Caracterização da raça ... 6 2.1.3 Área geográfica ... 8 2.1.4 Efetivo ... 9 2.1.5 Estrutura da exploração. ... 10 2.1.6 Maneio alimentar. ... 11 2.1.7 Maneio reprodutivo. ... 11 2.1.8 Características produtivas ... 12 2.1.9 ANCSUB ... 12 2.2 Mal rubro ... 13 2.2.1 Introdução ... 13 2.2.2 Etiologia. ... 13 2.2.3 Características zoonóticas. ... 14 2.2.4 Epidemiologia. ... 15 2.2.5 Patogenia. ... 15 2.2.6 Sinais clínicos ... 17 2.2.7 Lesões macroscópicas ... 18 2.2.8 Lesões microscópicas. ... 19 2.2.9 Diagnostico. ... 20 2.2.10 Tratamento ... 21 2.2.11 Prevenção e controlo. ... 22 2.3 Brucelose suína. ... 23 2.3.1 Introdução. ... 23 2.3.2 Etiologia. ... 24 2.3.3 Características zoonóticas. ... 25 2.3.4 Epidemiologia. ... 26 2.3.5 Patogenia. ... 26 2.3.6 Sinais clínicos. ... 27 2.3.7 Diagnóstico. ... 28
XII
2.3.8 Tratamento. ... 29
2.3.9 Prevenção e controlo. ... 29
2.4 Fatores de Risco na Produção de Suínos ... 31
2.4.1 Fatores de risco associados ao efetivo e exploração ... 31
2.4.2 Fatores de risco associados ao maneio agrícola e meio ambiente ... 35
3. Material e Métodos ... 37
3.1 Região ... 37
3.2 Inquéritos epidemiológicos ... 38
3.2.1 Elaboração de inquéritos epidemiológicos ... 38
3.2.2 Aplicação de inquéritos epidemiológicos ... 38
3.3 Seroprevalência de mal rubro e brucelose em suínos no concelho de Vinhais ... 39
3.3.1 Amostragem ... 39
3.3.2 Diagnóstico laboratorial ... 39
3.4 Tratamento Estatístico ... 40
4. Resultados e Discussão ... 43
4.1 Inquérito epidemiológico ... 43
4.1.1 Caracterização das explorações e detentor associado. ... 44
4.1.2 Caracterização do efetivo. ... 53
4.1.3 Caracterização do maneio alimentar. ... 56
4.1.4 Caracterização do maneio sanitário. ... 58
4.2 Resultados Laboratoriais. ... 65
4.2.1 Brucelose suína. ... 65
4.2.2 Mal rubro. ... 65
4.3 Avaliação da associação de Fatores de Risco na exploração com os resultados laboratoriais. ... 67
5. Conclusão ... 73
6. Referências Bibliográficas ... 75
7. Anexos ... 83
Í
NDICES DEF
IGURASFigura 1- A raça Bísaro- Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 7
Figura 2- Mapa do concelho de Vinhais, evidenciando-se a distribuição das explorações inquiridas pelo concelho e tamanho do efetivo. ... 44
Figura 3- Porcos com acesso ao exterior, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 47
Figura 4- Porcos sem acesso ao exterior, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 47
Figura 5- Pocilga, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 48
Figura 6- Loja Tradicional, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 48
Figura 7- Infraestrutura rudimentar, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 48
Figura 8- Exploração com ausência de armazém de alimento, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 49
Figura 9- Exploração com ausência de armazém de alimento, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 49
Figura 10- Piso em terra, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 51
Figura 11- Piso em cimento, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 51
Figura 12- Bebedouro Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 52
Figura 13- Comedouro, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 52
Figura 14-- Sistema de vedação com muro e rede, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 53
Figura 15- Sistema de vedação com rede, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 53
Figura 16- Sistema de vedação com fio elétrico, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 53
Figura 17- Outros animais na exploração, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 55
Figura 18- Alimentação tradicional Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 57
Figura 19- Controlo de ratos. Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 60
Figura 20- Controlo farmacológico de ratos. Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 60
Figura 21- Exploração com limpeza pouco regular, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 62
Figura 22- Exploração com limpeza regular, Vinhais 2019 (Fotografia do autor). ... 62
Figura 23- Mapa do concelho de Vinhais, evidenciando-se a distribuição dos resultados laboratoriais para a doença mal rubro. ... 66
Í
NDICES DET
ABELASTabela 1- Descrição das caraterísticas morfológicas da raça bisara (Janeiro, 1944). ... 6
Tabela 2- Descrição das caraterísticas fisiológicas da raça bisara (Janeiro, 1944). ... 7
Tabela 3: Descrição das caraterísticas económicas da raça bisara (Janeiro, 1944). ... 7
Tabela 4- Distribuição geográfica das explorações por Distrito e Concelhos (ANCSUB, 2019). ... 8
Tabela 5- Principais características das espécies de Erysipelotrix spp , adaptado de (Dieseases of swine, Jeffrey, et al;2019). ... 14
Tabela 6- Principais características das diferentes estirpes de Brucella spp.(Adaptado de Pappas et al., 2005; Foster et al., 2007; Scholz et al., 2010; Godfroid et al., 2011). ... 24
Tabela 7- Efeito do amoníaco sobre os suínos e no homem, adaptado de Ramón et al, (2018.) ... 35
Tabela 8- Variáveis incluídas no modelo final. ... 41
Tabela 9- Distribuição das explorações pelo concelho de Vinhais. ... 43
Tabela 10- Frequência e percentagem das respostas obtidas em relação ao produtor da exploração. ... 44
Tabela 11- Caraterísticas internas da exploração. ... 49
Tabela 12- Desparasitação do efetivo da exploração. ... 58
Tabela 13- Resultado Laboratorial da amostra em estudo- mal rubro. ... 66
Tabela 14- Distribuição dos resultados laboratoriais para os fatores de risco associados ao produtor. ... 67
Tabela 15- Distribuição dos resultados laboratoriais para fatores de risco associados as instalações. ... 68
Tabela 16- Distribuição dos resultados laboratoriais para a presença de outros animais na exploração. ... 69
Tabela 17- Distribuição dos resultados laboratoriais tendo em conta os fatores de risco associados à sanidade e biossegurança. ... 70
Tabela 18- Distribuição dos resultados laboratoriais tendo em conta os fatores de risco associados ao controlo de vetores. ... 71
Í
NDICES DEG
RÁFICOSGráfico 1- Evolução de efetivo (ANCUB, 2019). ... 10
Gráfico 2- Evolução do número de explorações (ANCUB, 2019). ... 10
Gráfico 3- Efetivo Bísaro no concelho de Vinhais (ANCUB, 2019). ... 38
Gráfico 4- Efetivo adulto no mês de agosto do ano 2018. ... 46
Gráfico 5- Acesso ao exterior. ... 46
Gráfico 6- Caracterização da infraestrutura. ... 47
Gráfico 7- Áreas da instalação de forma individualizada ... 48
Gráfico 8- Diferentes tipos de compartimentação da exploração. ... 48
Gráfico 9- Limpeza dos comedouros e bebedouros. ... 51
Gráfico 10- Desinfeção dos comedouros e bebedouros. ... 51
Gráfico 11- Sistema de vedação da exploração ... 52
Gráfico 12- Outros animais na exploração. ... 53
Gráfico 13- Contacto com os restantes animais da exploração ... 54
Gráfico 14- Contato com animais externos á exploração. ... 54
Gráfico 15- Realização de vazio sanitário da exploração ... 56
Gráfico 16- Realização de quarentena na exploração ... 56
Gráfico 17- Caracterização da frequência e tipo de alimento utilizado. ... 57
Gráfico 18- Desinsetização da exploração ... 59
Gráfico 19- Frequência de desinsetização da exploração. ... 59
Gráfico 20- Controlo de ratos. ... 59
Gráfico 21- Desinfeção da exploração. ... 61
Gráfico 22- Frequência de desinfeção da exploração. ... 61
Gráfico 23- Limpeza da exploração. ... 61
Gráfico 24- Maneio reprodutivo. ... 63
Gráfico 25- Existência de abortos na exploração. ... 64
Gráfico 26- Existência de nados-mortos na exploração. ... 64
Gráfico 27- Dificuldades na conceção das porcas. ... 64
L
ISTA DE ABREVIATURAS,
SIGLAS,
SÍMBOLOS OU ACRÓNIMOSANCSUB – Associação Nacional de Criadores de Suínos de Raça Bisara DOP – Denominação de Origem Protegida
FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura INE – Instituto Nacional de Estatística
IGP – Indicação Geográfica Protegida
ELISA – Enzyme-Linked Immunosorbent Assay. GMD – Ganho medio diário
Kg – Quilograma RB – Rosa Bengala
FC – Fixação de Complemento
RT-PCR – Reverse transcription polymerase chain reaction quantitative real time.
1. I
NTRODUÇÃO
Porco de raça bisara, uma das raças autóctones de Portugal, faz parte do nosso património biológico, económico e cultural e está há séculos associado ao mundo rural de algumas regiões do país, principalmente a norte do rio Tejo onde é mantida até aos dias de hoje (ANCSUB,2019).
Estes suínos são produzidos maioritariamente em regime semiextensivo ou extensivo, fazendo uso de métodos tradicionais quer no seu maneio quer na obtenção dos seus produtos (Garcia, 2006; ANCSUB, 2019).
A partir da criação destes suínos obtêm-se produtos devidamente certificados, como a Carne de porco Bísaro Transmontano DOP e fumeiro IGP, constituindo-se como importantes meios de valorização da raça e da região.
A implementação de medidas de biossegurança e boas práticas de maneio nas explorações de suínos tem por objetivos melhorar a produtividade da exploração, reduzir o uso de antibióticos garantindo a saúde e bem-estar animal, aumentando assim o nível de confiança do consumidor.
A produção mundial de carne de porco sofreu um aumento de 85% entre 1985 e 2010 (Fournie et al, 2012), o que levou á intensificação da sua produção e aumento da densidade animal. Este novo tipo de produção traz preocupações quanto à transmissão de agentes patogénicos entre animais e o Homem. Um estudo recente (Fournie et al., 2012) identificou 77 novos agentes patogénicos, só descritos a partir de 1985. Destes, 39% são agentes zoonóticos e 26% foram identificados em situações relacionadas com a investigação de surtos (Fournie et al., 2012). Bactérias como Yersinia enterocolitica,
Staphylococcus aureus, Salmonella spp, Campylobacter spp, Streptococcus suis
(Thapaliya et al., 2015), Brucella suis e Erysipelothrix rhusiopathiae estão entre os principais agentes zoonóticos transmitidas pelos suínos (Pessegueiro et al 2003; Veraldi et al 2009; Thapaliya et al 2015).
A ocorrência de determinados fatores de risco na produção pode favorecer o desenvolvimento de doenças, sendo estas responsáveis por perdas económicas na exploração (Laanen et al., 2013).
A identificação de fatores de risco permite um melhor acompanhamento médico-veterinário com aplicação de medicina preventiva. O maneio correto dos animais e de toda a envolvência permite reduzir a pressão de infeção baixa e desta forma reduzir a administração de antimicrobianos (Laanen et al., 2013).
1.1 O
BJETIVOS DESTE
T
RABALHO
Constituíram-se como principais objetivos deste trabalho:
Caracterização das explorações de suínos bísaros no concelho de Vinhais relativamente às normas de biossegurança, através da realização de inquéritos epidemiológicos realizados no decurso de visitas às explorações. Avaliação da seroprevalência de Erysipelothrix rhusiopathiae e Brucella suis
em suínos criados em explorações do concelho de Vinhais.
Estudo da associação de fatores de risco na exploração e a ocorrência de seropositividade para as doenças mal rubro e brucelose.
2. R
EVISÃO
B
IBLIOGRÁFICA
2.1 R
AÇA
B
ÍSARA
O porco bísaro é uma raça autóctone portuguesa sendo património biológico, económico e cultural há séculos, um aliado do mundo rural, representa um elemento essencial na alimentação destas comunidades, principalmente através dos enchidos fumados. Normalmente associado com algumas regiões do norte do país, esteve espalhado por todo o território a norte do rio Tejo e apesar do risco de extinção, a que esteve e ainda está sujeito, foi conservado até aos dias de hoje. Fatores como a docilidade, a capacidade de adaptação ao maneio tradicional, a prolificidade e a excelente qualidade da carne, contribuem para a sua manutenção (Garcia,2002; Barbosa, 2015).
A sua produção familiar constitui ainda uma fonte de rendimento adicional para muitas famílias que vivem no meio rural da região, caracterizando-se pela sustentabilidade de produção (Barbosa, 2015).
A raça bisara é uma raça não melhorada que sobreviveu durante os últimos anos devido a procura cada vez mais de produtos ibéricos e com uma expressão de marca de qualidade como as denominações de origem protegida (DOP) (Rodrigues e Teixeira, 2017).
2.1.1 O
RIGEM EH
ISTÓRIAMuitos cientistas e naturalistas ocuparam-se do estudo da origem e domesticação do porco. No sentido generalista a domesticação dos suínos começou na China há 4900 anos A.C., ainda no Neolítico. A produção suína tal como a conhecemos nos dias de hoje, teve origem na domesticação do javali europeu (Sus scrofa) há 7000 anos, origem que nunca teve concordância entre vários autores (Carvalho, 2009).
Inicialmente foi aceite a origem monofilética, defendida por Curvier, segundo o qual esta espécie teria origem no javali europeu (Sus scrofa ferus). De opinião contrária era Geogfroy Saint Hilaire, citado por Sá em 1996, para quem o javali não seria o ascendente do da Ásia e África, mas antes, o porco da Europa seria um descendente do porco selvagem da Ásia, opinião também partilhada por Corvenin. Mais tarde surgiu a hipótese da origem difilética, que defendia que o porco doméstico descendia do Sus
striatus ou Sus vitatus (porco selvagem da Ásia) e do Sus scrofa ferus. Atualmente, e
6
doméstico teve origem em três subgéneros distintos nomeadamente, Sus scrofa ferus,
Sus vitattus e Sus mediterraneus.
Segundo Póvoas Janeiro (1944), o porco de raça bísara é descendente do Sus
scrofa ferus ou javali Europeu. Este subgénero é descrito pelo mesmo autor como sendo
um animal robusto, tardio, pernalteiro, de corpo estreito e garupa achatada. O javali Europeu espalhou-se pelo nosso continente e Norte de África, onde ainda existe na forma selvagem. É considerado como seu limite geográfico, os Pirinéus e os Alpes, a bacia inferior do Danúbio, o mar Negro, o Cáucaso, as estepes do centro da Ásia e os montes Altai, mas pensa-se que esta forma tenha transposto a Cordilheira Pirináica para dentro da Península Ibérica, onde em Portugal teria originado o Bísaro (Garcia, 2002).
A definição de Bísaro ou Bísara é, de acordo o Recenseamento Geral de Gados no Continente do Reino de Portugal (1870), o nome que se dá ao porco esgalgado, mais ou menos pernalto, de orelhas frouxas para o distinguir do bom porco roliço e pernicurto do Alentejo (Garcia, 2002).
2.1.2 C
ARACTERIZAÇÃO DA RAÇAEm 1944, Póvoas Janeiro, no Boletim Pecuário, distingue duas variedades dentro da raça das quais, a raça Galega, branca ou branca malhada e a Beirôa preta ou preta malhada, distinguindo-se os Molarinhos de pele fina quase sem cerdas e os Cerdões, de cerdas finas e abundantes. (Carvalho, 2009).
A caracterização morfológica, fisiológica e económica da raça bisara, segundo Janeiro (1944) são:
I- Caraterísticas morfológicas
Tabela 1- Descrição das caraterísticas morfológicas da raça bisara (Janeiro, 1944).
Caraterística: Descrição:
Estatura Animais corpulentos, atingindo 1 (um) metro de altura a 1,5 (um e meio) metro de cumprimento
desde a nuca à raiz da cauda.
Pelagem Existem várias cores de porcos das quais os pretos, brancos ou malhados. A pele geralmente é grossa e com cerdas compridas, grossas e abundantes.
Cabeça É grossa e de perfil côncavo, a crista occipital é dirigida para diante com tromba espessa e comprida e boca grande.
Orelhas São compridas, largas e pendentes sem cobrirem os olhos.
Face É pouco desenvolvida e tem adjacente uma papada reduzida. Pescoço Comprido e regularmente musculado.
Tórax Alto, achatado e pouco profundo.
Ventre É esgalgado.
Flanco Largo e pouco descido.
Garupa Estreita, descaída e pouco musculada com um bom comprimento.
Coxas De bom comprimento, mas com pouco desenvolvimento muscular.
Cauda É grossa e de média inserção.
Membros De regular aprumo, compridos, ossudos e pouco musculados.
Sistema mamário
Úbere de bom tamanho, bem proporcionado, com boa implantação e com um número de tetos sempre superior a dez.
Pés Bem desenvolvidos, mas brandos nos estábulos. II- Caraterísticas Fisiológicas
Tabela 2- Descrição das caraterísticas fisiológicas da raça bisara (Janeiro, 1944).
Caraterística: Descrição:
Temperamento São animais bastante doceis, pouco rústicos, não suportam as intempéries pelo que se dão melhor com o regime estabular.
Movimentos Geralmente vagarosos e andamento com pouca elegância.
Capacidade de assimilação Não engordam com facilidade e tem pouco apetite.
Precocidade e ritmo de crescimento Pouco precoces e de crescimento lento, só dos dois para os três anos
atingem 120 a 200 kg de peso vivo.
Fecundidade Muito prolíferos, com ninhadas que podem ir ate vinte leitões ou mais.
III- Características económicas
Tabela 3: Descrição das caraterísticas económicas da raça bisara (Janeiro, 1944).
Caraterística: Descrição:
Carcaça Tem um fraco desenvolvimento de quarto posterior e um esqueleto bastante volumoso.
Carne Magra (pouco atoucinhada).
Qualidade do toucinho Baixo e entremeado, o seu sabor varia com a alimentação do animal.
8
2.1.3 Á
REA GEOGRÁFICAEm relação ao solar da raça suína bisara vários autores descrevem que se situa a Norte do rio Tejo (Pinto, 1878; Alves, 2002; e ANCSUB, 2018). Ao longo dos tempos a intensidade da sua exploração na área geográfica do seu solar tem variado, mas sempre associada aos diversos sistemas de produção agropecuários e ao mundo rural (Carvalho, 2009).
Em 1878 é referida a existência de porco Bísaro com a variedade Galega, Cerdões e Molarinhos em Trás-os-Montes, Minho, Beiras e Estremadura a norte do rio Tejo (Pinto, 1878).
EM 2002 a área de produção de porco Bísaro centrava-se em Trás-os-Montes e Alto Douro (concelhos de: Alfandega da Fé, Bragança, Carrazeda de Ansiães, Chaves, Lamego, Macedo de cavaleiros, Miranda do Douro, Mogadouro, Montalegre, Torre de Moncorvo Valpaços, Vila Real e Vinhais), Entre Douro e Minho (Guimarães), Douro Litoral (Porto) e Beira Litoral (Oliveira do Bairro) (Alves, 2002).
Em 2006 a localização geográfica das explorações que tem suínos bísaros inscritos no respetivo Livro genealógico era mais dispersa tendo abrangido novas localizações geográficas, neste ano segundo Carvalho. M.2009, a distribuição geográfica das explorações era a seguinte: concelhos de Trás-os-Montes (Alfandega da Fé, Bragança, Celorico de Basto, Chaves. Macedo de cavaleiros, Miranda do Douro, Mogadouro, Montalegre, São João da Pesqueira, Santa Marta de Penaguião, Valpaços, Vila Real, Vinhais, Freixo de Espada á Cinta, Mirandela, Vimioso, Moimenta da Beira e Vila Flor) Entre Douro e Minho (nos concelhos de: Ponte de Lima, Vila do Conde, Melgaço, Paredes de Coura e Penafiel), Beira Litoral (Anadia e Oliveira do Bairro), Beira Interior (nos concelhos de Tábua e castelo Branco) e Ribatejo (no concelho de Santarém).
Atualmente, em 2019 a área geográfica da distribuição das explorações é ainda mais significativa abrangendo novos concelhos e novos distritos (tabela 4).
Tabela 4- Distribuição geográfica das explorações por Distrito e Concelhos (ANCSUB, 2019).
Distrito e Concelhos. Nº. Fêmeas V. (LA) Aveiro: Castelo de Paiva, Santa Maria da Feira e Mealhada. 42 Braga: Braga, Vieira do Minho, Póvoa de Lanhoso, Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto, Fafe
e Vila Nova de Famalicão.
480
Bragança: Miranda do Douro, Vimioso, Vinhais, Mogadouro, Bragança, Mirandela, Freixo de Espada à Cinta, Vila Flor, Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé e Carrazeda de Ansiães.
2809
Castelo Branco: Covilhã e Castelo Branco 117
Coimbra: Oliveira do Hospital e Coimbra 270
Évora: Évora 3
Lisboa: Lourinhã 3
Porto: Paços de Ferreira, Trofa, Baião, Marco de Canaveses, Matosinhos, Penafiel, Lousada e
Amarante.
258
Setúbal: Alcácer do Sal 208
Viana do Castelo: Ponte de lima, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Melgaço. 63
Vila Real: Chaves, Boticas, Vila Pouca de Aguiar, Montalegre, Valpaços, Vila Real, Murça e
Ribeira de Pena.
1056
Viseu: Viseu, Penedono, São Pedro do Sul e Tondela. 74
Total 5894
2.1.4 E
FETIVOEm 1994, foi criada a Associação Nacional de Criadores de suínos de raça Bísara, que iniciou em 1995 a gestão do Registo Zootécnico da Raça Bisara. A partir desde marco histórico o efetivo teve um ligeiro crescimento, devido ao apoio da ANCSUB, ajudas nacionais e europeias, acompanhadas da investigação científica realizadas nas diversas Instituições de Ensino Superior do país. Ao associado aumento de efetivo segue-se melhorias nas instalações agropecuárias, na alimentação, maneio em geral e desenvolve-se uma indústria familiar de produtos transformados do porco Bísaro com qualidades específicas tais como os produtos tradicionais Portugueses, DOP (Denominação de Origem Protegida) e IGP (Indicação Geográfica Protegida). Nos dias de hoje existem 39 produtores de fumeiro licenciados só no concelho de Vinhais (ANCSUB, 2019).
Segundo Carvalho, 2015 em 2001 existiam 196 animais de raça bisara inscritos no livro geneológico.
Em 2004, Registo Zootécnico da raça bisara estavam inscritos 729 animais (ANCSUB, 2006).
Em 2006, o efetivo de reprodutores da referida raça é descrito como 1300 fêmeas e 200 machos (ANCSUB, 2006).
Em 2013 segundo a coordenadora da ANCSUB existiram inscritas nos Livro Genealógico 3486 fêmeas reprodutoras ativas em 100 explorações, distribuídas pelas regiões de Trás-os-Montes, Minho e Beiras (Alves, 2013).
Em 2018 segundo dados fornecidos pela associação no Livro Genealógico já se encontram registadas 6035 fêmeas e 606 machos registados no livro genealógico da raça (ANCSUB, 2019).
Ao longo dos anos é notável o aumento do efetivo e consequente registo dos animais no Livro Genealógico, tal como mostra o gráfico 1.
10 Gráfico 1- Evolução de efetivo (ANCUB, 2019).
Em relação ao número de produtores, segundo a ANCSUB tem aumentado significativamente, tal como revela o gráfico 2. Em 1995 a associação apenas apresentava 38 explorações, em 2011 foi atingido um registo de 94 explorações e no final do ano de 2018 estão registadas 197 explorações dispersas por todo o país.
Gráfico 2- Evolução do número de explorações (ANCUB, 2019).
2.1.5 E
STRUTURA DA EXPLORAÇÃOA raça bisara é muito apreciada pelos seus criadores pelas caraterísticas dos seu animais, das quais a grande docilidade, mantendo uma relação de grande proximidade, visto as explorações serem de pequena a média dimensão (Garcia, 2002). O sistema de exploração utilizado nesta raça é o semi-extensivo e extensivo. De uma forma geral as explorações localizadas no concelho de Vinhais são destinadas essencialmente para a produção de “cevas” ou porcos de engorda destinados a serem
0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Evolução do Efetivo
Fêmeas Machos 0 50 100 150 200 250Número de Criadores
transformados em Fumeiro de Vinhais. São pequenas explorações de carácter familiar, com 3 a 20 fêmeas reprodutoras (ANCSUB, 2019).
Tradicionalmente, as instalações dos suínos estavam situadas no piso inferior á casa de habitação com áreas mínimas, com pouca luz e sem ventilação e utilizavam no chão a palha ou as urzes e outro tipo de mato que era removido poucas vezes ao ano.
Atualmente, salvo raras exceções, todos os criadores possuem exploração licenciada com condições para o bem-estar dos animais (Garcia, 2002). Estas explorações caracterizam-se por pequenas explorações, onde são alojadas as porcas na altura do parto e com acesso a parques ao ar livre, onde permanecem as porcas gestantes e os porcos de engorda. Estas pocilgas caracterizam-se pela utilização de áreas adequadas aos animais, em nenhum caso possuem boxes de gestação e todas elas utilizam os terrenos limítrofes para parques, garantindo o conforto dos animais e respeitando as mais elementares regras de bem-estar animal.
Recentemente, com a evolução do mercado do leitão, apareceram explorações de maior dimensão, com efetivos reprodutores entre as 100 e 200 porcas reprodutoras (ANCSUB, 2019).
2.1.6 M
ANEIO ALIMENTARO maneio alimentar foi sempre condicionado pelos recursos disponíveis e provenientes da agricultura local, alimentos maioritariamente com culturas da própria exploração que consistem em cereais (milho, trigo, centeio e aveia), tubérculos (batata, beterraba e nabo), produtos hortícolas (couve, aboboras etc…) e frutos como o caso da castanha (Garcia, 2002). No dia de hoje a dieta fornecida consiste no alimento base composto por uma mistura de cereais, complementado por uma grande diversidade de alimentos ao longo do ano. A utilização de alimentos compostos completos verifica-se apenas em alturas pontuais como o desmame e a lactação.
Algumas explorações também recorrem ao uso do pastoreio, com resultados muito satisfatórios (ANCSUB, 2019) e alimentados com subprodutos da exploração agrícola e restos de alimentos (Carvalho, 2014).
2.1.7 M
ANEIO REPRODUTIVOA primeira cobrição das fêmeas realiza-se por volta dos 5 a 7 meses de idade, situando-se o primeiro parto, antes de completarem um ano de vida. Dada a precocidade com que aparece o primeiro cio nesta raça e as questões de maneio, que erradamente colocam as fêmeas e os machos na mesma área da pocilga, o primeiro parto acontece
12
regra geral muito cedo, o que se reflete negativamente no número de leitões nascidos e na futura vida reprodutiva das fêmeas. As porcas parem duas vezes por ano e os leitões permanecem com as mães cerca de 40 a 45 dias. Depois do desmame alguns leitões são vendidos para consumo e os restantes são recriados para futuros reprodutores ou para engorda.
De uma forma geral, a vida reprodutiva dos animais desta raça é curta, as fêmeas poucas vezes ultrapassam as 3 parições e os machos, depois de 1,5 ano de idade, são castrados por se tornarem demasiado pesados. Isto é o que acontece nas explorações mais tradicionais e de menor dimensão.
Em explorações de maior dimensão já se faz uma planificação mais elaborada das parições e cobrições, havendo algumas que fazem um tipo de maneio por lotes o que lhe permite um fornecimento de leitões constante ao longo do ano (Garcia, 2002; ANCSUB, 2019).
2.1.8 C
ARACTERÍSTICAS PRODUTIVASEstes animais tem um temperamento muito dócil, são pouco rústicos e bem-adaptados ao sistema tradicional de exploração (Garcia,2006).
O porco Bísaro é uma raça em que a percentagem de carne magra na carcaça é baixa, contudo a sua utilização justifica-se para a transformação em produtos de elevada qualidade, como é o caso do fumeiro regional certificado. Apresentam uma carcaça com rendimentos de 77 %, mas de fraca conformação e baixo rendimento em peças nobres.
A alimentação proporcionada á base de cereais e hortícolas permite obter uma carne entremeada com qualidades organoléticas excelentes, utilizadas para a obtenção de fumeiro.
Atualmente o abate dos animais tem dois fins distintos, o leitão com cerca de 45 dias e 10 a 12 kg de peso vivo e o porco com um ano e meio e cerca de 150 kg de carcaça. (Monteiro, 2005).
2.1.9 ANCSUB
A associação Nacional de Criadores de Suínos de Raça Bísara (ANCSUB) iniciou-se em 1995 como objetivo de recuperar um património genético em vias de extinção, estimulando o melhoramento genético, fomentou a conservação da raça e assegurou a pureza étnica dos animais inscritos.
A ANCSUB faz ainda a inscrição dos animais no Registo zootécnico, colabora na elaboração de projetos, promove a formação profissional e apoio técnico, contabilístico e logístico (Monteiro, 2005).
2.2 M
AL RUBRO
2.2.1 I
NTRODUÇÃOO mal rubro é uma doença causada pela bactéria Erysipelothrix rhusiopathiae. A bactéria Erysipelothrix rhusiopathiae foi isolada pela primeira vez em 1882 por Louis Pasteur sendo caracterizada pela primeira vez em porcos infetados experimentalmente em 1886 por Friedrich Löffler.
Esta doença quando não controlada é economicamente significativa e capaz de afetar todas as etapas da produção de carne de suíno. Estas perdas podem ser atribuídas a casos de morte súbita e septicémias agudas em suínos de crescimento medio. As sequelas, após sobrevivência de uma infeção aguda, tais como a claudicação crónica e artrites levam a um crescimento deficitário elevando os prejuízos económicos das explorações (Houben et al, 2017).
Do ponto de vista de saúde pública, o mal rubro, segundo Reboli e Farrar em 1989, tem batente relevância embora as infeções em seres humanos sejam pouco frequentes (Opriessnig e Coutinho, 2019).
2.2.2 E
TIOLOGIAA bactéria Erysipelothrix rhusiopathiae pertence a um grupo de bactérias que representam uma nova classe, a Erysipelotrichia, do filo Firmicutes.
Até ao dia de hoje existem sete géneros de Erysipelothrix, das quais,
Erysipelothrix. Rhusiopathiae, Erysipelothrix tonsillarum, Erysipelothrix sp. Estirpe 1, Erysipelothrix sp. estirpe 2, Erysipelothrix sp. estirpe 3, Erysipelothrix inopinata e Erysipelothrix larvae sp. nov.
A espécie mais relevante para suínos é Erysipelothrix rhusiopathiae, embora a
Erysipelothrix tonsillarum tenham sido isoladas em casos de artrite crônica
e endocardite valvular vegetativa em suínos (Opriessnig e Coutinho, 2019).
A tabela 5 mostra algumas diferenças entre as caraterísticas das várias espécies de Erysipelothrix spp.
14
Tabela 5- Principais características das espécies de Erysipelotrix spp , adaptado de Jeffrey, et al,;2019.
Espécies Isolamento Patogénico
em porcos
Serotipos Tipo de antígeno E. rhusiopathiae Mamíferos terrestes e
marinhos, Aves, Repteis, Peixes e Artrópodes. Sim 1a, 1b, 2, 4, 5, 6, 8, 9a, 11, 12, 15, 16, 17, 19, 21, N A, B, C ou combinações
E. tonsillarum Mamíferos terrestes e Peixes. Variável 3, 7a, 10a, 14, 20, 22, 23, 25, 26
Nenhum
Erysipelothrix sp. Estirpe 1
Porcos Sim 13 Nenhum
Erysipelothrix sp. Estirpe 2
Porcos Sim 9b, 10b,18 C
Erysipelothrix sp. Estirpe 3
Porcos Sim 7 Nenhum
E. inopinata infusão de vegetais estéreis filtrados
Não Não determinado Não
determinado
E. larvae sp. nov. Besouros Não Não determinado Não
determinado
2.2.3 C
ARACTERÍSTICAS ZOONÓTICASAlgumas das estirpes de Erysipelothrix spp. são os agentes causadores de erisipelóide (uma doença de pele no homem) (Balootaki et al, 2017).
A infeção no Homem por Erysipelothrix rhusiopathiae, segundo Rosenbach em 1909 já há muito tempo que é reconhecida como doença zoonótica embora sejam raramente relatados os casos de doença. A maioria dos casos de doença no Homem é consequência de uma exposição ocupacional perante animais portadores da doença ou tecidos infetados, em que ocorre a transmissão da bactéria ao Homem através de arranhões ou penetrações traumáticas na pele (Romney et al, 2001).
A manifestação clínica mais comum no homem é denominada como “dedo de baleia”, “dedo de gordura”, entre outras. estas denominações clínicas devem-se ao fato das infeções cutâneas serem confinadas nas extremidades dos membros. A forma clínica é designada por erisipelóide e manifesta-se com a presença de celulite localizada, em que a pele apresenta uma pigmentação avermelhada.
Segundo Principe (2016) outras apresentações clínicas incluem uma forma cutânea generalizada e uma forma septicémica com endocardite em cerca de um terço dos pacientes. Estas condições clínicas segundo Blackberg, (2015), devem ser diferenciadas da erisipela humana em que esta é causado por outro agente etiológico o
Streptococcus do Grupo A e G.
Em referência á transmissão entre humanos de Erysipelothrix rhusiopathiae segundo Reboli e Farrar, 1989 não foi estabelecida até ao momento (Opriessnig e Coutinho, 2019).
2.2.4 E
PIDEMIOLOGIAA Erysipelothrix rhusiopathiae tem distribuição mundial e ubíqua. O porco doméstico é considerado o reservatório mais importante, mas outros vertebrados e invertebrados também são reservatórios de relativa importância, tais como os répteis, aves peixes e mamíferos terrestes e marinhos (Opriessnig e Coutinho, 2019).
A grande variedade de mamíferos e aves, quer domésticos quer selvagens levam á extensão de reservatórios deste agente patogénico. A bactéria E. rhusiopathiae pode ser encontrada no solo, mas por períodos temporários aquando da transmissão. Embora não haja evidência de multiplicação de E. rhusiopathiae no ambiente, a sua presença em instalações e equipamentos está bem documentada (Wood e Henderson, 2006; Opriessnig e Coutinho, 2019).
A sobrevivência de E. rhusiopathiae no solo é inferior a 35 dias, sem evidência de estabelecimento de populações estáveis. Esta bactéria é inativada por calor húmido a 131 ° F (55 ° C), mas é resistente à salga e muitos outros métodos de conservação de alimentos. Pode permanecer viável por 12 dias sob exposição direta à luz solar e por meses em carcaças não enterradas ou em carcaças enterradas a uma profundidade de 2 metros e são inativados por muitos desinfetantes disponíveis (Opriessnig e Coutinho, 2019).
Segundo Chirico et al, (2003), o papel dos parasitas na transmissão desta doença ainda não esta bem descrita, mas segundo o autor, este refere que o acaro vermelho das aves revelou-se como portador do agente (Wood et al 2006).
2.2.5 P
ATOGENIAA via de entrada de E. rhusiopathiae nos suínos é principalmente por via oral, em que inicialmente ocorre infeção das amígdalas ou mucosa gastrointestinal (Opriessnig e Coutinho, 2019). Nos suínos o tecido linfoide tonsilar concentra-se no
16
palato mole caudal e forma uma placa de mucosa muito espessada. As amígdalas estão constantemente expostas a estímulos antigénicos em virtude da sua função imunológica na orofaringe sendo um dos locais de habitação de algumas bactérias, tais como a E.
rhusiopathiae, Salmonella spp e streptococcus suis tipo 2, consequentemente as
amígdalas podem servir como porta de entrada destes agentes (Jubb, Kennedy, Palmer’s, 2007).
A bactéria tem a capacidade de se replicar dentro dos macrófagos segundo Ogawa et al. (2011) e Shimoji (2000) é detetada nos tecidos periféricos (Opriessnig e Coutinho, 2019).
Segundo Chirico et al. (2003) a bactéria E. rhusiopathiae pode entrar no organismo do individuo através de abrasões na pele ou através de vetores mecânicos tais como as picadas de artrópodes. Por norma a bacteriemia desenvolve-se nas vinte e quatro horas seguintes na ausência de uma resposta imune efetiva. A septicémia subsequente resulta da distribuição do agente bacteriano por todo o organismo do animal afetado. Segundo Schulz et al. (1975) na fase inicial da septicémia ocorrem lesões nos capilares e nas vénulas da maioria dos órgãos do corpo e membranas sinoviais. Às trinta e cinco horas apos ter ocorrido a inoculação subcutânea, ocorre edema endotelial, aderência dos monócitos às paredes vasculares e trombose hialina em que este processo é referido como processo de coagulopatia generalizada do tipo choque que leva à trombose fibrinosa, diapedese, invasão do endotélio vascular pelas bactérias e deposição de fibrina nos tecidos perivasculares. Eventualmente na grande maioria das vezes há ativação do tecido conjuntivo em locais predispostos à infeção, incluindo as articulações, válvulas cardíacas e pele (Opriessnig e Coutinho, 2019).
Segundo Franz et al, (1995) o processo de hemólise e necrose isquémica podem ocorrer em casos graves, em que há sequestro da bactéria E. rhusiopathiae no citoplasma dos condrócitos da cartilagem articular e provavelmente fornece proteção contra a imunidade do hospedeiro, contribuindo para o processo de artrite cronica. As várias estirpes de E. rhusiopathiae tem diferentes fatores de virulência das quais incluem neuraminidase, polissacarídeos capsulares e proteínas de superfície. A neuraminidase é uma enzima que cliva os aminoácidos siálicos de glicoproteínas, glicolípidos, e polissacarídeos nas paredes celulares do hospedeiro, fornecendo nutrientes bacterianos e auxiliando a adesão bacteriana e na invasão de tecidual. A quantidade de neuraminidase que é secretada, é proporcional ao grau de virulência das diferentes estirpes, segundo Wang et al. 2005, nenhum é secretado por Erysipelothrix
A cápsula polisacarídica de E. rhusiopathiae fornece resistência à fagocitose pelos leucócitos e morte intracelular por macrófagos e desempenha um importante papel na aderência bacteriana. A componente fosforilcolina juntamente com o antigénio protetor de superfície A, tem demonstrado envolvência na adesão bacteriana às células endoteliais na ausência de recetores do fator ativador de plaquetas in vitro. Embora o SpaA seja expresso em maiores quantidades em estirpes altamente virulentas e há muito tempo é reconhecido como um importante antigénio protetor da E. rhusiopathiae, segundo Galán e Timoney, (1990); Opriessnig e Coutinho, (2019).
Outras proteínas de superfície que podem contribuir para a virulência incluem novas adesinas que são importantes na formação inicial do biofilme, mas não há evidências experimentais que relacionem a suscetibilidade à erisipela suína com a genética do hospedeiro (Opriessnig e Coutinho, 2019).
As mudanças repentinas do clima, com especial atenção a clima quente de verão, ou outros fatores de stresse do animal estão implicados no aumento da incidência do mal rubro em suínos (Opriessnig e Coutinho, 2019).
2.2.6 S
INAIS CLÍNICOSEm 1970, Greco e Sheldon e em 1979, Conklin e Steele, referem que no mal rubro em suínos existem três fases clínicas de erisipela suína das quais a aguda, subaguda e a crónica (Opriessnig e Coutinho, 2019).
A fase aguda é uma doença septicémica que se manifesta como inicio súbito e morte aguda, abortos, depressão, letargia, febre (40-42ºC ou mais), articulações tumefatas e dolorosas, relutância na movimentação ou vocalizações durante os movimentos dolorosos, inapetência parcial ou completa e lesões rosadas ou romboides firmes, cor-de-rosa, vermelhadas ou purpuras que são características desta doença bacteriana. Em animais de pele escura as lesões da pele são observadas com mais facilidade nas áreas de pelo levantado ou pela palpação sentido os relevos característicos das lesões. Nos casos em que o animal sobrevive à manifestação da doença as lesões de pele desaparecem gradualmente entre quatro a sete dias (Opriessnig e Coutinho, 2019).
A fase subaguda é clinicamente menos severa que a forma aguda, em que os animais não apresentam sintomas visíveis, as temperaturas corporais não são tao altas ou persistentes, o apetite pode permanecer inalterado, as lesões cutâneas podem estar ausentes ou expressas, mas com pouca intensidade, menor mortalidade e os animais
18
portadores recuperam mais rapidamente. Em relação às caraterísticas reprodutivas do animal, pode ocorrer infertilidade, ninhadas com aumento do número de leitões mumificado, ninhadas mais pequenas, descargas vulvares pré-parto ou pós-parto. Na fase subclínica, os sintomas são tao reduzidos que podem passar de despercebidos (Opriessnig e Coutinho, 2019)
A fase crónica representa a fase em que os animais sobreviveram à fase aguda, subaguda e por vezes subclínica. É a fase economicamente mais significativa em que o sintoma mais relevante é a artrite cronica que pode ser iniciada três semanas após o início da doença. Os animais afetados apresentam-se com diminuta ingestão de alimento, aumento firme das articulações dos joelhos, carpo e jarrete, dificuldades respiratórias, letargia, cianose ou morte súbita como consequência de processos de endocardite vegetativa valvular que leva á insuficiência cardíaca e pulmonar (Opriessnig e Coutinho, 2019). Os níveis de mortalidade e morbilidade estão dependentes do estado imunológico da totalidade dos animais da exploração (Opriessnig e Coutinho, 2019).
Os surtos de mal rubro nas explorações, na fase aguda a mortalidade pode atingir níveis de 20-40% já nas fases subclínica e crônica o índice de mortalidade é variável, depende do maneio da exploração, do efetivo animal, do ambiente e de outras infeções concomitantes (Opriessnig e Coutinho, 2019).
2.2.7 L
ESÕES MACROSCÓPICASA fase aguda da doença, é representada por lesões quase patognomónicas desta doença, constituindo lesões de elevação de pele, áreas em forma de losango de cloração rosa a purpura, multifocais, com predomínio na região do focinho, orelhas, bochechas, pescoço, abdómem e coxas. Além destas manifestações cutâneas típicas de septicemia, também há um aumento e congestão dos gânglios linfáticos, esplenomegalia, pulmões edematosos e congestionados, o rim (córtex renal) e o coração (epicárdio e miocárdio atrial) apresentam petéquias e equimoses. As articulações podem apresentar-se ligeiramente aumentadas e os tecidos sinoviais e peri articulares apresentam-se tipicamente distendidos por exsudado sero- fibrinosos que preenchem as cavidades articulares (Wood et al; 2006; Opriessnig e Coutinho, 2019).
Na fase crónica da doença podem incluir-se a artrite crónica, envolvendo uma ou mais articulações dos membros ou articulações intervertebrais. As membranas sinoviais apresentam-se proliferativas e com derrames sero-sanguinolentos nas cavidades articulares. A cápsula articular apresentar-se hiperémica e com proliferação
e erosão da cartilagem levando a um processo de fibrose, anquilose e espondilose (Wood et al; 2006; Opriessnig e Coutinho, 2019).
A endocardite valvular é desencadeada por um crescimento granular e proliferativo das válvulas cardíacas, principalmente na válvula mitral (Wood et al; 2006; Opriessnig e Coutinho, 2019).
2.2.8 L
ESÕES MICROSCÓPICASAs lesões microscópicas desta doença, ocorrem predominantemente nos vasos sanguíneos, resultando em processos de isquemia e necrose. Os vasos sanguíneos de menor calibre (capilares e vénulas) da derme sofrem frequentemente processos de dilatação e congestão, ocorrência de microtrombulos e embolia bacteriana podem ocluir o lumem dos vasos, levando a estase circulatória e necrose focal. Em consequência aos danos dos vasos septal alveolar leva a uma pneumonia intersticial e exsudativa aguda caracterizada por exsudados serosos levando á expansão dos septos alveolares e dos alvéolos.
A nível renal os danos nos vasos glomerulares resultam em hemorragias que são muito visíveis a nível do córtex renal.
Os linfonodos afetados encontram-se hiperémicos, hemorrágicos e com infiltrado neutrófilo.
Á medida que as lesões se tornam subagudas, ocorre uma acumulação nos locais de inflamação de monócitos, linfócitos e macrófagos.
A artrite crónica e caraterizada por uma hiperplasia acentuada dos sinoviócitos, resultando em proliferações nas membranas sinoviais, em que também ocorre um espessamento do estroma devido á infiltração de linfócitos, plasmócitos e macrófagos bem como acentuada neovascularização local. Posteriormente dá-se a ocorrência de um estado de fibrose acentuada sendo observada nas membranas sinoviais e nos tecidos peri articulares.
Nas lesões do endocárdio, as lesões endocárdicas vegetativas valvulares são compostas por placas de fibrina irregular contendo fibrina, detritos, células necróticas, células inflamatórias mistas e tecido de granulação (Opriessnig e Coutinho, 2019).
20
2.2.9 D
IAGNOSTICOO diagnóstico atempado e preciso do mal rubro é importante, uma vez que estão disponíveis tratamentos eficazes em que existe uma grande variedade de condições que podem ser confundidas com a erisipela suína (Opriessnig e Coutinho, 2019).
Os exames clínicos e bacteriológicos são uteis para o diagnóstico de erisipela suína aguda, em que na maioria das vezes é confundida clinicamente com outras doenças septicémicas, no entanto existe um conjunto de características que são mais sugestivas da erisipela suína do que outras patologias se as avaliarmos em conjunto, tais como; a história de mortes súbitas sem evidência prévia de doença, vários animais doentes com febre, animais aparentemente com rigidez dos membros, relutância nos movimentos. Outros sinais característicos desta doença incluem a diminuição de apetite, lesões cutâneas romboides quando presentes e melhoria acentuada nas vinte e quatro horas apos o início da implementação do tratamento com penicilina que suporta o diagnostico da doença (Wood et al, 2006).
As lesões da pele que se assemelham à erisipela suína também podem ser observadas na doença da peste suína clássica (Jeffrey et al, 2019).
Laboratorialmente o isolamento de E. rhusiopathiae de suínos infetados fornece um diagnóstico laboratorial definitivo. A hemocultura é útil no diagnóstico da doença em animais vivos em que as amostras devem ser obtidas de vários animais afetados da mesma exploração, pois a presença da bactéria no sangue pode variar. Relativamente ao isolamento da bactéria em animais já mortos pode ser executada a partir de uma variedade de órgão dos quais; coração, pulmão, fígado, baço, articulações e rim. Em situação na qual a doença persistiu por vários dias apenas é possível proceder ao isolamento da bactéria nas articulações dos animais infetados, não sendo possível o isolamento do agente nos animais anteriormente referidos (Wood et al, 2006).
A cultura deste agente bacteriano a partir de amostras de tecido é relativamente simples, já o uso de imunofluorescência para a identificação rápida tem sido relatado, mas segundo Harrington et al, 1974 este método não é muito utilizado para fins de diagnóstico.
A seleção dos testes de diagnóstico deve ser baseada nos custos, no tempo de resposta e nas disponibilidades aparentes (Opriessnig e Coutinho, 2019).
Os testes sorológicos, dos quais, aglutinação em placa, tubo e microtitulação; hemoaglutinação passiva; inibição da hemaglutinação; fixação de complemento (FC); ensaio imunoabsorvente ligado a enzima (ELISA) e imunofluorescência indireta são os
testes disponíveis para o diagnóstico desta doença. Nenhum dos testes sorológicos é útil para o diagnóstico de rotina em infeções agudas ou ate mesmo para determinar o estado imunológico, mas revelam importância na deteção de infeções cronicas na exploração. O teste sorológico tem aplicação limitada na prática de diagnóstico clínico de mal rubro nas explorações (Wood et al 2006).
Cerca de 30 a 50% dos suínos saudáveis são portadores e as respostas séricas de anticorpos à infeção podem persistir por dias, semanas ou ate mesmo para toda a vida do animal, os testes sorológicos são mais úteis para avaliar o êxito dos esquemas vacinais para a doença (Opriessnig e Coutinho, 2019).
2.2.10 T
RATAMENTOEm 1899 foi introduzido como tratamento desta doença o soro Hipe imune, geralmente obtido de soro de equinos, sendo este o único tratamento efetivamente disponível. Passado 50 anos depois surge para o tratamento desta doença, a possibilidade de utilização de uma penicilina nos casos de doença aguda (Wood et al; 2006; Opriessnig e Coutinho, 2019).
A implementação do tratamento com a administração de penicilina geralmente resulta numa resposta efetiva entre as 24 e 36 horas apos o início de tratamento, pois a bactéria é altamente suscetível a este antibiótico. Embora a utilização de penicilina tenha sido considerada o antibiótico mais eficaz na erisipela suína aguda, há também resultados satisfatórios com o uso de tetraciclinas (clortetraciclinas e oxitetraciclinas), lincomicina e tilosina. O organismo é sensível in vitro à eritromicina, mas este antibiótico tem sido relatado como sendo ineficaz in vivo. Outros antibióticos tais como a estreptomicina, diidroestrepmicina, cloranfenicol, bacitracina, neomicina, sulfamidas e polimixinas B não são eficazes como tratamento (Wood et al, 2006; Jeffrey et al, 2019).
Em relação a fase crónica da doença, não há tratamento prático e efetivo. A nível experimental a administração de agentes anti-inflamatórios proporcionou algum alívio dos efeitos da artrite crónica e podem ser utilizados no tratamento de animais individuais e especialmente valiosos (Wood et al, 2006).
Nas explorações em que haja ocorrência de surtos é recomendável a implementações de esquemas vacinais para a doença (Wood et al, 2006). As vacinas atuais baseiam-se nos serotipos 1 ou 2 de E. rhusiopathiae e geralmente apresentam eficácia e com uma duração de imunidade que varia entre 6 a12 meses. A vacinaçao pode não ser tão eficaz na prevenção da artrite crónica, uma vez que o sequestro da
22
bactéria no citoplasma dos condrócitos da cartilagem articular pode fornecer proteção contra a imunidade do hospedeiro (Opriessnig e Coutinho, 2019).
A utilização de programas de imunização pode ser aplicada em porcos de engorda ou porcos reprodutores e segundo Gertenbach e Bilkei, (2002), a vacinação nos animais reprodutores supostamente vai reduzir a incidência de corrimento vulvares nos períodos peri-parto, não há aumentos dos intervalos entre partos e aumenta o número de leitões nascidos vivos em explorações clinicamente infetadas (Opriessnig e Coutinho, 2019).
2.2.11 P
REVENÇÃO E CONTROLO.
A terapia com o auxílio de agentes antimicrobianos no início da infeção por E.
rhusiopathiae, geralmente resulta numa boa resposta em porcos afetados, pois este
agente é extremamente suscetível à penicilina, sendo o tratamento de eleição (Opriessnig e Coutinho, 2019).
A melhor prevenção do mal rubro em porcos, refere-se á utilização de programas vacinais em que atualmente baseiam-se nos serotipos 1 ou 2 de E. rhusiopathiae. As vacinas são vacinas inativadas de administração intramusculares ou vacinas atenuadas para utilização em massa na exploração através da utilização por via oral (água potável) (Opriessnig e Coutinho, 2019).
Como prevenção desta doença nas explorações é importante uma correta e adequada implementação de boas práticas de gestão de saúde do efetivo, incluindo um bom programa de imunização. Os suínos devem ser criados de acordo com um conjunto de boas práticas de maneio, nutrição, alojamento e pastagem nos casos de explorações em regime extensivo. A introdução de novos animais na exploração é uma das práticas que se deva ter muito em consideração porque os animais recém-adquiridos devem ser isolados do restante efetivo da exploração de destino pelo menos durante um período nunca inferior a 30 dias (Wood et al, 2006).
Os suínos das explorações que apresentem sinais da fase crónica desta doença deveram ser eliminados, pois estes animais podem permanecer portadores do agente bacteriano em causa de forma indefinidamente (Wood et al, 2006).
A sanidade da exploração é referida como um parâmetro de máxima importância sendo a sua implementação importante para controlo desta doença. As paredes e o piso da exploração devem ser limpos e desinfetados com regularidade. Os desinfetantes apropriados para esta condição patológica na exploração são os fenóis, alcalinos,
hipocloritos ou amónio quaternário, mas é importante realçar que a sua eficácia depende muito do estado de limpeza da exploração, pois se as superfícies em que é aplicado o desinfetante não estiver isento de sujidade estes vão atuar indevidamente (Wood et al, 2006).
2.3 B
RUCELOSE SUÍNA
2.3.1
I
NTRODUÇÃOA brucelose é uma das doenças zoonóticas mais disseminada a nível mundial, (Pappas et al., 2006; Solera, 2010), sendo responsável por consideráveis perdas económicas, bem como por uma elevada morbilidade humana em áreas endémicas (Pappas et al., 2006; Nicoletti, 2010).
Nos suínos esta doença bacteriana é comum em muitas partes do mundo (Primefact 1001, 2017).
A Brucella suis pode ser transmitida ao humano, sendo o reservatório mais relevante o javali. Os javalis além de serem os principais responsáveis pela transmissão da bactéria aos suínos domésticos, também são os principais transmissores de doença ao homem, principalmente as pessoas mais envolvidas com a prática de caça. (Duncan e Nielsen, 2000; Olsen et al, 2019,).
Na maioria dos países europeus, a brucelose em suínos domésticos é quase exclusiva em suínos criados em regime extensivo (Olsen et al, 2019). O possível contacto dos porcos domésticos criados em regime extensivo como os portadores selvagens da doença resultam em riscos adicionais para a saúde no homem (CFSPH, 2018).
A Brucella suis também já foi isolada em cães (Primefact 1001, 2017).
Esta espécie é patogénica par ao Homem, no entanto as espécies mais patogénicas são Brucella abortus, responsável pela brucelose bovina, Brucella
melitensis, o principal agente etiológico na brucelose de pequenos ruminantes
Diferentes estirpes de Brucella foram identificadas em espécies silváticas, entre as quais o cervo (Cervus elaphus), javali (Sus scofa), raposa (Vulpes vulpes) e lebre
(Lepus europaeus). Estas espécies raramente mantêm a infeção, no entanto, funcionam
como reservatórios da doença para os animais domésticos (Godfroid, 2005; Nicoletti, 2010; Duvnjak, 2015).
24
2.3.2 E
TIOLOGIAA bactéria Brucella suis é um cocobacilo Gram-negativo com um comprimento de 0,5 a 1,5 μm e 0,5 a 0,7 μm de largura (Olsen et al, 2019).
A Brucella spp. constitui um exemplo de parasita intracelular facultativo, podendo sobreviver dentro e fora do hospedeiro (O' Callaghan et al., 2011). Evidências genéticas e imunológicas indicam que todos os membros da espécie Brucella se encontram intimamente relacionados, no entanto, visando diferenças na preferência de hospedeiro, epidemiologia e variações genéticas, o Comitê Internacional de Sistemática de Procariotas classificou, em 2005, válida a nomenclatura atribuída em 1980, na lista de nomes de bactérias aprovados, onde eram distinguidas 6 espécies da bactéria Brucella:
B. abortus, B. melitensis, B. suis, B. neotomae, B. ovis e B. canis. As primeiras três
espécies estão subdivididas em biovares, consoante propriedades específicas.
Posteriormente foram isoladas estirpes de Brucella em animais marinhos, cujas propriedades diferem das espécies já reconhecidas. Foi proposta a classificação em duas novas espécies: B. ceti e B. pinnipedialis (Foster, 2007). Outra espécie, B. microti, foi isolada em ratos silvestres (Microtus arvalis), em raposas e amostras de solo na Europa Central (Scholz, 2008). Foram ainda classificadas duas novas espécies, B.
inopinata (Scholz, 2010) e B. papionis (Whatmore, 2014). Existem ainda casos
reportados de outras estirpes isoladas em roedores, raposas e sapos, tendo estas sidos classificadas como estirpes atípicas de Brucella (OIE, 2016).
Na tabela 6 são mencionadas as várias espécies, biovares, hospedeiro, a primeira descrição e virulência para o Homem.
Tabela 6- Principais características das diferentes estirpes de Brucella spp.(Adaptado de Pappas et al., 2005; Foster et al., 2007; Scholz et al., 2010; Godfroid et al., 2011).
Espécie Biovar Hospedeiro Primeira descrição Virulência para o Homem B. melitensis 1,2 e 3 Ovinos, caprinos, camelídeos Bruce, 1887 Elevada
B. abortus 1-6 e 9 Bovinos, camelídeos, búfalos Bruce, 1887 Moderada a elevada
B. suis 1-5 Suínos (1-3), lebres (2), caribu e
renas (4), roedores selvagens (5)
Traum, 1914 Elevada (1,3,4) Não patogénica (2 e 5)
B. canis Canídeos Carmichael e
Bruner, 1968
Moderada
B. ovis Ovinos Van Drimmelen,
1953
Não patogénica
B. neotomae Roedores Stoenner e
Lackman, 1957
Baixa
B. pinnipedialis e B. ceti
B. microti Rato-silvestre Scholz, 2001 Desconhecida B. inopinata Desconhecido Scholz, 2010 Elevada
Para a Brucella suis, os testes microbiológicos, serológicos e moleculares dividiram as espécies em 5 biovares. Os biovares 1,2 e 3 estão associadas as infeções em suínos, a biovar 4 é quase exclusivo a renas e caribus selvagens em áreas subárticas, em relação ao biovar 5 apenas foi isolado em roedores na antigaUnião das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) (Olsen et al, 2019).
2.3.3
C
ARACTERÍSTICAS ZOONÓTICASA brucelose é uma das doenças zoonóticas mais disseminada a nível mundial, (Pappas et al., 2006; Solera, 2010), sendo responsável por consideráveis perdas económicas, bem como por uma elevada morbilidade humana em áreas endémicas (Pappas et al., 2006; Nicoletti, 2010). A brucelose humana caracteriza-se por uma infeção severa e debilitante, frequentemente crónica, cujo tratamento consiste na administração de antimicrobianos, que evitem complicações e recidivas (Godfroid et al., 2011).
Três das 10 espécies de Brucella atualmente conhecidas são as mais disseminadas a nível mundial e responsáveis pelo maior número de casos humanos:
Brucella melitensis, dos ovinos e caprinos, Brucella abortus dos bovinos e Brucella suis,
dos suínos (Solera, 2010; Godfroid et al., 2011). Na espécie Brucella suis os biovares 1,3 e 4 representam maior patogenicidade em relação ao biovar 2 e 5.
A brucelose humana causada pela Brucella suis é expressa principalmente em trabalhadores rurais, veterinários, funcionários de matadouro e pessoas relacionados com o setor da caça selvagem (Olsen et al, 2019).
A transmissão de Brucella suis ao Homem ocorre principalmente por contacto direto com animais infetados ou pelo contacto com matérias biológicos associados ao aborto de suínos infetados durante a manipulação. Como vias de entradas do agente, estão descritas a via oro nasal ou através de feridas epidérmicas no homem (Olsen et al, 2019).
A ingestão de alimentos mal confecionados, principalmente carne de suíno cru ou mal cozinhada são aspetos de estrema importância na possível contaminação do homem por este agente zoonotico (Hutchings et al., 1951).