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Adolescente Infrator: Possibilidades de um Sujeito em Construção a Partir de um Estudo de Caso

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Academic year: 2021

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Magda Medianeira de Melloa*; Pedro Alexandre Pouzada Mandellib

Resumo

A proposição deste artigo é articular uma reflexão sobre a importância da escuta psicanalítica em relação aos adolescentes em conflito com a lei, como uma possibilidade de reinscreverem-se em suas vidas e, por consequência, no mundo social. A adolescência faz parte da trajetória de vida humana, no entanto, discutem-se aqui as origens do processo que retira parcial ou totalmente a liberdade dos sujeitos. Vive-se em uma sociedade que apresenta uma diversidade de contextos sociais e, se por um lado os adolescentes infratores convocam medidas educativas e punitivas, por outro são seres desamparados na sua constituição psíquica. Para tanto, além do estudo teórico e do pensar a psicanálise de maneira ampla, a metodologia utilizada partiu de um estudo de caso de um adolescente que cumpria medida socioeducativa em uma cidade do Rio Grande do Sul. Concluiu-se que a escuta psicanalítica abre a potencialidade do fazer-se sujeito inscrito na alteridade. O papel do profissional da psicologia vinculado a equipe interdisciplinar foi de fundamental importância para a evolução do referido estudo de caso, pela possibilidade de representar os tantos casos existentes no sistema de semiliberdade no Brasil. A experiência singular escrita pelo terapeuta atesta seu encontro com o adolescente infrator e respalda o avanço teórico que se generaliza, possibilitando intercâmbio do trabalho realizado. Palavras-chave: Adolescente. Infrator. Sujeito. Construção em Psicanálise.

Abstract

The proposition of this article is to think over the importance of psychoanalytic listening towards adolescents in conflict with law, as a way to transform themselves in their livesand consequently in the social world. The adolescence takes part ofthe human life path, nevertheless, we will discuss here the origins of the process that withdraws partly or totally the liberty of the subjects. We live in a society that presents a diversity of social contexts and, if on one hand the lawbreaker adolescent calls upon educational and punitive actions, on the other hand they are helpless in their psychic conditions. Therefore, besides the theorical study and thethinking, psychoanalysis in a wider manner the methodology used herein originated in a case study of an adolescent that was undergoing correctional measures in a city from Rio Grande do Sul State]. It was concluded that psychoanalytical listening unfolds the potentiality to make one inscribed in otherness. The psychology professional’s role associatedwith aninterdisciplinary personnel were of fundamental importance to the evolution of the case study, by the possibility of representing the so many existing cases in the semi-custodial system in Brazil. The unique experience written by the therapist states his meeting with the lawbreaker adolescent and endorses the theoretical advance that is generalized, allowing the interchange of the study performed. Keyword: Adolescent. Lawbreaker. Subject. Psychic Construction.

Adolescente Infrator: Possibilidades de um Sujeito em Construção a Partir de um Estudo de

Caso

Lawbreaker Adolescent: Possibilities of a Subject under Construction from a Case Study

aUniversidad Autònoma de Madrid, Espanha. bMembro da Sigmund Freud Associação Psicanalítica, RS, Brasil.

*E-mail: [email protected]

1 Introdução

Diante dos diferentes contextos sociais de qualquer País, sem dúvida, uma que mobiliza a todos é a problemática de adolescentes e jovens que se envolvem em atos criminosos os quais ecoam socialmente o clamor de mais punição e medidas severas. Com a esperança de garantir a diminuição da violência juvenil e seu envolvimento em atos homicidas, trafico de drogas, dentre outras situações de abusos que assolam este período de vida, é comum, no imaginário social, a contrapartida de promessas e esperanças em um futuro de possibilidades. A expectativa é de que haja uma transição entre o laço familiar e social.

Entretanto, observa-se a raridade convocatória da proposta de dar voz aos adolescentes, já que muito se fala deles e pouco se escuta. Isto é, a criação de um espaço no qual um (psicólogo) escuta o que o outro (adolescente/jovem) narra, apresentando

a sua versão da história singular, atravessada de ódios e de amores, em um entramado de palavras que vai tecendo vivências e (re)vivências da ordem da vida e da morte. Pensa-se que abrir um espaço de escuta asPensa-segure o lugar de fala, em um encontro inédito de dupla possa possibilitar a troca do ato (ação) pela fala e substituir a destrutividade pela vida.

A cada adolescente que rompeu o pacto social estabelecido, entre tantas inquietações se pode perguntar se suas atitudes foram um apelo que fez eco na sociedade? Se seus sintomas atuais apresentam ou não sofrimentos e quais os riscos disso ao seu futuro? Quais as questões perpassaram a ele ou que escolha fez para chegar onde está? Foi escolha ou falta da mesma? Quem é o adolescente infrator? Por que o ato infracional, mesmo nos adolescentes com condições socioeconômicas estáveis, segue vigente? Em meio aos questionamentos, observa Rosa (2007, p.3) que o ato infracional pode ser um sintoma de que algo anda mal e propicia uma intervenção

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apropriada para provocar a atribuição de sentido. Se o sujeito é um mistério, o processo de subjetivação do adolescente é um enigma, cuja posição ética precisa respeitar a liberdade de se constituir. As interrogações aqui mencionadas remetem a escuta do profissional da psicologia dirigida a viabilizar ao adolescente que pense sobre seus enigmas: o que de verdade seus atos e suas manifestações tentam significar.

Neste artigo pretende-se promover uma discussão sobre o papel do psicólogo na escuta de adolescentes infratores ilustrado por caso clínico, atravessados pelo referencial psicanalítico. Para tanto, é necessário um olhar desprovido de julgamentos e críticas que engessam o humano, olhar que pode levar para o universo de uma história na qual se encontrará muito mais do que infratores, drogados e bandidos. Quem sabe, só assim, se encontrem sujeitos que em seus tempos primeiros, não viveram um drama, mas sim a tragédia de não terem sido reconhecidos pelo outro na sua diferença, de portarem em si a dor da indiferença em não serem percebidos como objeto de amor do outro. Indiferença que acaba denunciando uma falta de reconhecimento de si mesmo, na sua singularidade. Nesse sentido, o filósofo Axel Honneth, referido por Saavedra e Sabottka (2008), sustenta que quando o sujeito social faz uma experiência de reconhecimento adquire uma imagem e entendimento positivo sobre si mesmo; se isso não se der, vivencia uma situação de desrespeito, cuja consequência é a existência de um indivíduo, que acaba adoecendo intersubjetivamente em sua autorrelação positiva.

2 Desenvolvimento

2.1 O contexto social: mapeamento possível

Imersos em delitos e infrações à lei estão o adolescente e seus familiares. Encontra-se o adulto receptador de produtos furtados e a educadora, representante da escola que não suportou a manifesta “hiperatividade” do aluno e o retirava constantemente da sala de aula. Constatou-se em suas trajetórias de vida infantil, até chegar a atendimentos por nossa equipe, a passagem de adolescentes por Psicólogos, Pedagogos, Assistentes Sociais e demais técnicos que atendiam crianças em instituições, secretarias de saúde e assistência social desde a tenra infância. O que ocorreu para que se chegasse à adolescência implicado em atos infracionais? Estaria a sociedade, em geral, posta a sustentar seus diferentes vícios estimulando a produção de mais formas de violências? Estes questionamentos e constatações inquietam os profissionais que recebem os sujeitos já marcados por sinais de degradação.

Os adolescentes infratores e seus familiares deflagram diversas formas de carências, além das materiais, muitas de ordem psíquica, em que fica explícito em fragmentos de relatos como quando uma mãe diz: “eu fico mais calma quando ele tá lá” (se referindo ao filho internado), apontando que por algum motivo lhe escapa a possibilidade de contenção deste filho; depara-se com a impossibilidade de exercer sua função de proteger e dar limites à “cria”. Ao que se percebe,

os adolescentes construíram maneiras de sobreviver, de poder suportar o dia a dia, que se apresenta cheio de fragilidades, limitações, frustrações e de perdas. Buscam ativamente perdas em cada tragada na “pedra” ou envolvimento com amigos que são “apagados” na noite.

Nesse sentido, para realmente entender o que se passou com cada um que chega para cumprir uma sanção judicial, acredita-se ser necessário, primeiramente, pelo técnico psicólogo uma ruptura com o discurso da Justiça do Direito “Infracional”, que propõe, na sua maioria de intervenções uma profilaxia ao adolescente, que é visto como fora da normalidade, como desviante. Se para o Direito ele é um sujeito consciente, para a psicanálise ele é um sujeito do inconsciente. Lembrando Conte e Perrone (2012, p.18): “no caso específico do discurso jurídico a diferença pressupõe algo negativo que o sujeito porta e que necessita ser corrigido/ normalizado. Nessa linha de argumentação, a diferença passa necessariamente a ocupar o lugar do desvio, do não desejado, do incomum”.

2.2 A escuta do adolescente desde as origens

A escuta desprovida de pré-conceitos, a cada história singular dos adolescentes pode-se delinear trajetórias, nomear encontros e verificar quais os caminhos inscreveu dentro de si. A Psicanálise possibilita a pesquisa e a intervenção que propõe o posterior entendimento dos sujeitos em constituição considerada para além de um sintoma como o ato infracional. Entende-se que o ato infracional realizado pelo adolescente não o define por si só.

Freud (1990a) apontou que o bebê, pelo seu estado de desamparo, para sobreviver e satisfazer suas necessidades, necessita do outro humano para que realize uma ação que venha ao encontro de sua necessidade, chamando a isso de ação específica. O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação específica. Ela se efetua por “ajuda alheia”, o semelhante, quando a atenção é voltada para um estado infantil.

Por meio da ação específica, realizada por quem faz a função materna, da forma que se apresentou ao bebê, é que ele vai podendo ou não tecer ligações psíquicas que o ajudem no futuro. Macedo e Moraes (2011) anunciam que nesse encontro do bebê convocando uma ação específica que lhe atenda, não ocorre apenas uma vivência de satisfação, mas também de complexidade, isso por ser uma experiência vivida e sentida, marcando então o início do processo de organização psíquica, algo experienciado e sentido, sendo considerada a marca do início do processo de organização psíquica. A partir destas ideias são questionadas as percepções e inscrições existentes nos adolescentes. Investigam-se quais garantias existentes no seu desenvolvimento que possam dar um formato de encontro com o outro no sentido da confiança, sem ameaças e sem confronto. O cuidado inicial será o alicerce de um futuro sujeito, corrobora a Bleichmar (2005). Parte-se do

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princípio de que os seres humanos sejam crias destinadas a humanizar-se na cultura, portanto há um ponto inquestionável de sua constituição: a presença do semelhante é inerente a sua organização mesma. No outro se alimentam não somente as bocas, mas as mentes,e dele se recebe junto com o leite, o ódio e o amor, as preferências morais e as valorizações ideológicas. O outro está inscrito em nós, e isto é inevitável.

De acordo com Dolto (2012), a mãe, ao dar assistência ao filho, a angústia deste é humanizada por meio de percepções sutis e palavras. Esta troca reasseguradora com a mãe, com sua mãe, é para a criança uma relação humana durável. Quando há ameaça de ataque a esta base a criança sente-se doente.

Entende-se que a cultura (o outro) poderá fazer de cada sujeito um representante de suas criações, repetições morais e valores éticos, alicerces que sustentarão, ou não, os embates com a vida. Se o adolescente infrator carrega consigo uma insígnia de desvalia na subjetividade e no real o que se pode pensar? É latente e manifesta a inscrição destes adolescentes no discurso mudo, quer dizer, por não terem acesso à palavra – sentem-se excluídos do processo social, frequentemente utilizam da violência como forma de poder ou de obter valor e reconhecimento. Nesse aspecto, Freud (1990b, p.23) alertava:

Se, porém, uma cultura não foi além do ponto em que a satisfação de uma parte e de seus participantes depende da opressão da outra parte, parte esta talvez maior – e este é o caso em todas as culturas atuais – é compreensível que as pessoas assim oprimidas desenvolvam uma intensa hostilidade para uma cultura cuja existência elas tornam possível pelo seu trabalho, mas de cuja riqueza não possuem mais do que uma cota mínima. Em tais condições, não é de se esperar uma internalização das proibições culturais entre as pessoas oprimidas.

A Psicanálise extramuros permite identificar o imperativo capitalista da pós-modernidade e entender o gozo e a tentativa de fugir do sofrimento. Deparar-se com a falta implica em olhar para o vazio. O consumo de drogas, por exemplo, viabiliza obter aquilo que a cultura lhes impõe: consumam e tenham! Ideologia que marca o que se é pelo que se tem. Então, quem sabe aí resida uma parte da falha da castração na subjetividade que inscreve o sujeito no reconhecimento da lei. Lei que é para todos no elemento nomeado Justiça, mas desigual e injusto na partilha.

Oportuno relembrar Freud (1990a) na observação de que, muitas vezes, a relação com o outro humano está a serviço de um. Isso é, individualmente, um homem pode, ele próprio, vir a funcionar como riqueza em relação a outro homem, na medida em que a outra pessoa faz uso de sua capacidade de trabalho ou a escolha como objeto sexual.

Tomando as ideias acima descritas, os entraves para que o adolescente seja visto na sua existência poderão aprisioná-lo a outro humano que o insira em um circuito de repetição, intensificando a dor, o sofrimento e o desamparo. Repete com o outro aquilo a que antes havia sido submetido passivamente, isto é, o traumático atualizado física e emocionalmente de forma passiva agora se apresenta na violência, que exerce

contra os outros, em ato.

Macedo e Moraes (2011) referem que vivência de indiferença é um processo de desencontro primordial, que resulta no predomínio de um desconhecimento a respeito do si mesmo. Do efeito desse encontro traumático resta à criança reproduzir a intensidade desconcertante do que lhe foi ofertado. Ao não ser percebida na diferença de sua existência, fica prisioneira de um registro mudo, porém com força de matriz. As fraturas psíquicas atualizam-se no campo da alteridade. Por isso, a força matriz do encontro primordial na repetição atordoa e produz dor psíquica pela sensação de aprisionamento.

Uma vez incluídos em um circuito pulsional destrutivo, os adolescentes/jovens entregam-se a encontros marcados pela repetição da dor matriz de não ser visto, considerado e, consequentemente, reconhecido. Inconscientemente ficam prisioneiros desse “registro mudo” de indiferença consigo e para com o outro (sociedade).

A atuação na adolescência, referida por Monteiro (2011), traz o ato como manifestação da destrutividade, quando fala do adolescente em conflito com a lei. Essa atuação está a serviço da mudez da pulsão de morte, que não encontrou na palavra sua válvula de escape, direcionando todo esse sofrimento psíquico na atuação.

3 Estudo de Caso 3.1 Metodologia

Metodologicamente, este trabalho embasa-se nos preceitos da pesquisa psicanalítica para o desenvolvimento da construção de um estudo de caso. Neste tipo de pesquisa, o investigador dedica um interesse muito particular a um de seus pacientes. Nasio (2001) refere que em psicanálise se refere a caso como o relato de uma experiência singular, escrito por um terapeuta para atestar e respaldar um avanço teórico. Na maioria das vezes, o estudo de caso leva a um intercâmbio com colegas, principalmente, em se tratando de poder contar com uma equipe interdisciplinar sendo resguardados os dados de sigilo.

Concorda-se com Násio (2001, p.17) ao referir: o caso se define, como relato criado por um clínico, quando ele reconstrói a lembrança de uma experiência terapêutica marcante.

Nesta investigação, em particular, para a coleta de dados um dos autores acompanhou o adolescente em um regime de semiliberdade durante seis meses e, posteriormente, em um programa de egressos do sistema socioeducativo durante dois anos. Assim, o pesquisador coletou dados a partir de entrevistas individuais com o adolescente e familiares deste semanalmente. Além dos registros particulares do profissional psicólogo realizou-se análise documental a partir da leitura dos prontuários da instituição e pareceres de demais colegas da equipe interdisciplinar. Após a análise documental, advinda de pareceres e laudos, foram considerados pelo psicólogo os

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Nesta relação, Arthur não era visto, em sua existência singular e sim como objeto do desejo de riqueza do outro (Hades), portanto, novamente inscrito sob o olhar da indiferença, termina por aprisionar-se em um circuito de repetição, que o levava a mais dor, mais sofrimento e desamparo. Repetia ativamente com os outros a situação a qual estivera submetido passivamente, isto é, o que apanhara física e emocionalmente de forma passiva agora se apresentava na violência que exercia contra os outros. Envolvia-se em confusões nas festas: batia, brigava e não respeitava nem os soldados locais, quando estava embriagado. Todo o excesso psíquico a que foi submetido no passado pela violência do pai e, posteriormente, na convivência com Hades, estava solto dentro dele, já que lhe faltava um ser falante (adulto cuidador/ tradutor), que pudesse lhe ajudar a fazer ligações psíquicas, traduzir e dar sentido afetivo ao que se passava com ele. Recolhido em regime de semiliberdade apresentava processos de furto, roubo qualificado e desacato.

Como na vida não existe apenas um caminho, Arthur, trancafiado em uma prisão, repetia o aprisionamento da sua solidão interna, a qual sempre esteve na vida. Foi então que encontrou o profissional psicólogo, que circulava pelas celas e ofertava sua escuta para ouvir as histórias de vida daqueles que ali estavam. Nesses encontros, em que o verbo circulava, Arthur vinculava-se gradativamente ao Psicólogo e, enquanto dupla, via transferencial, o profissional tratava de ajudar a dar sentido e traduzir em palavras a história do menino, a qual, cada vez mais, se descortinava em uma vida construída no silêncio e na intromissão da lei paterna via ato físico e maus tratos. Sustentado pelo enigma de como implantar a lei pela força da palavra e não física, o Psicólogo segue oferecendo sua escuta para que o silencioso Arthur tornasse-se o falante, a ponto de poder dizer sua história e se escutar, enquanto sujeito. Arthur precisava pensar no circuito de repetições o qual sempre esteve inserido. Entender que fora passivo e ativo na violência do outro e para o outro.

Pretendia-se, na metáfora, propiciar que a escuta respeitosa pudesse ajudar Arthur a trocar a força do braço por um abraço. Esperáva-se que a acolhida de um adulto pudesse contê-lo internamente e mostrar-lhe outra forma de resolver as coisas: por meio da palavra. Trabalhou-se para que se inscrevesse a lei como uma força que legitima quem fala.

Para ilustrar a afirmação acima descrita, em um desses encontros do profissional psicólogo com Arthur, refere:

– Eu conheço as pessoas pelo olho, e o senhor (referindo-se ao Psicólogo) a gente vê no (referindo-seu olho, sabe quando o (referindo-senhor pega a gente no colo? – depois do ato falho se desconserta e retoma – é, é, ... quando o senhor pega uma criança no colo ela se acalma, se a pessoa não é boa a criança esperneia no colo, ela não fica, ela sente se a pessoa é boa, e com senhor a gente vê que ela fica calma...

Pelos elementos que menciona em sua fala: “vê no olho”, processos jurídicos existentes em seu nome na vara da infância

e da juventude.

3.2 O caso de Arthur e a busca pela palavra1

Trata-se de um menino, adolescente que será chamado de Arthur, filho de trabalhadores informais. Sua mãe tivera mais de oito filhos, um muito próximo do outro, o que a dificultava o cuidado de cada um e dela própria. O pai apresentava uma complicação física, e para o sustento autoconservativo da família vivia da caça, da pesca e de trabalhos manuais. Observava-se uma luta angustiante por manter a honra e a sobrevivência atravessadas pela violência, conforme a tradição local. Em meio a essa família e nessa comunidade, Arthur sonhava em ser grande, homem de valor e respeitado. No entanto, conforme crescia, as coisas para ele iam se complicando, pois o pai era visto aos seus olhos como alguém desvalido, ideia reforçada pelo fato de todos o apontarem como o filho do mudo, desse modo também lhe imprimiam um significante, e porque não dizer, uma identificação desvalida com o pai. Além da violência emocional e física que sofria era constantemente subjugado pela violência paterna, que tentava enquadrá-lo na Lei pela força do braço. Então, solitário, saiu em busca de algo que não sabia o que era, procurava o nada e o tudo. Sem perceber, Arthur tentava a cada novo encontro com o outro, inscrever este pai faltante, este homem que pudesse também protegê-lo e lhe colocar em um lugar de respeito e valor, mas não se deve esquecer que o respeito ali fora marcado pela força do braço, no ditado popular: quem bate mais chora menos.

Inserido nesse cenário, a pergunta era sobre a herança que trazia Arthur desses seus primeiros encontros com o outro humano (pais e/ou cuidadores). As inscrições o levavam à margem de qualquer possibilidade de ser alguém para alguém.

Seguindo em sua jornada, Arthur depara-se no caminho com quem se nomina de Hades, e que lhe confere a promessa de riquezas e de ver-se respeitado. Este senhor, conhecido pela venda de ervas e outros artefatos alucinógenos ilegais, mostra-se a Arthur como um guardião. Defende-o dos “inimigos” (reais e imaginários) e lhe acena com a (falsa) esperança de que o ajudaria a ser legitimado como homem respeitado. O significativo aqui era que Hades também era conhecido por “o manco”. Então, o filho do pai mudo encontra o outro pai, o pai manco. Arthur apresentava um sério prejuízo em discriminar os sentimentos e impressões, pois o que entendia como respeito era na verdade terror, ou seja, o medo que Hades impunha às pessoas era vivenciado pelo menino. Assim, pensava que a vida com esse Senhor se tornaria mais colorida, com mais ajuda e mais amparo: provida de dinheiro, mulheres, bebidas e festas, conquistaria, rapidamente, a liberdade e o prazer em viver. Triste engodo em que o jovem Arthur se meteu, pois a parceria com Hades estava a serviço de impedi-lo da liberdade de ser e de existir.

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estudo de caso retrata a realidade de muitos adolescentes. 3.3 Discussão

Acredita-se que através da experiência de escuta com este público, que o papel do técnico psicólogo atravessado pelo referencial psicanalítico, dentro do cumprimento de uma Medida Socioeducativa, seja a de possibilitar um desalojamento do lugar de adolescente bandido, infrator, drogado, etc., pela via da palavra, isto é, propor que a produção do diferente, do singular apareça sem que para isso se caia na armadilha de normatizá-lo aos padrões e culturas aceitos pela maioria, mas sim, que ele possa ser escutado e escutar-se, criar possibilidades de liberdade de escolha para seguir sua vida, não vivendo mais sob o jugo de suas repetições inconscientes. Deve-se receber o sujeito e não o rótulo, abrindo a possibilidade de um caminho, que ele possa perceber e que implica sua fala e suas inquietações; suas construções via palavra é que vão produzir algo. Isto oportunizado pelo profissional psicólogo, em que ao analista cabe o lugar ético de garantir a fala do analisando e a retribuição atravessada pela escuta (CONTE, 2010).

Trabalhar com adolescentes, que vivem na exclusão do olhar social de acolhimento é desafiante, principalmente, pelo fato de terem um severo grau de prejuízo na confiança, que pode ser elucidado por Macedo e Moraes (2011), quando referem que o sujeito psiquicamente organizado nessa vivência de indiferença é marcado severamente por falhas nas manifestações de amor e de ligações afetuosas, trazendo, por consequência, danos nos recursos e potencialidades internas, o que dificulta a possibilidade de confiança nos domínios da alteridade. Para as autoras existem sujeitos que não são experimentados nos azares da vida, esses sujeitos são mutilados na organização do si mesmo pelo efeito de vivências, que desautorizam sua condição de ser (MACEDO; MORAES, 2011).

Faz-se necessário ressaltar que a adolescência, por si só, é um período turbulento na vida, em que os processos identificatórios necessitam ser consolidados. As conflitivas todas se reatualizam, incluindo a edípica. Segundo Hornstein (2008), o trabalho psíquico na adolescência opera como segundo tempo na organização do psiquismo, tempo que possibilita promover uma construção subjetiva considerando o atravessamento histórico-social e abre espaço exterior para se produzir um sujeito. A escuta poderá abrir espaço para o processo identificatório saudável.

Enfim, é nessa dupla armada entre psicólogo X adolescente que se pode ter a chance de transcrever marcas internas e reinscrever algo da ordem do inédito, para aquele sujeito, na tópica psíquica. Este trabalho ocorre de forma artesanal, sempre tendo como prioritário que é nessa relação que vai ser construído o conhecimento sobre o sujeito, nos seus fragmentos, falhas e atos. E é por este trilho que segue-se na escuta atenta, suportando o desegue-sencontro descarrilado do “pega no colo”, “se acalma”, Arthur revela estar registrando

internamente a existência de um olhar, que pode aliviar o excesso psíquico, bem como o peso a que fora submetido quando criança. Denuncia que sua história vivencial ficou na falta de um adulto que pudesse contê-lo sem o uso da violência física ou psíquica. E em seu ato falho “pega a gente no colo” aponta que já consegue discriminar a existência de um outro adulto (Psicólogo), que pode ajudá-lo a se acalmar, a aplacar o olhar que vinha do outro e que o angustiava, porque, dentro de si, não sabia o que esperar. Em outras palavras, na medida em que as fragilidades internas não puderam encontrar continência pelos adultos cuidadores de sua história, acabou por buscar na Justiça a interdição, a continência que pode ser sustentada nessa relação com o Psicólogo. Por meio da possibilidade de ser escutado registra-se em um circuito psíquico diferente do que havia sido constituído: inscreve dentro de si um “olhar que acalma”.

Atualmente, o jovem adulto Arthur se sustenta com os ganhos de um trabalho honesto, como também ampliou possibilidades de resolver, por meio da palavra o que antes tinha um desfecho com o braço. Sem dúvida se está frente a uma via, em que a escuta de sua história, narrada por ele, assegurou um lugar de fala que não fora construído entre ele e seu pai e que pôde ser reconstruído na relação desta dupla (ele e o psicólogo), via transferencial. Ainda hoje, já livre da cela da prisão, eles seguem com encontros terapêuticos, em que Arthur pode compartilhar alegrias, tristezas e preocupações. No entanto, em sua demanda, continua mostrando-se como um menino que precisa de um pai simbólico, que lhe sinalize o caminhar acompanhado. Sendo que o que está posto hoje é um pai terapeuta como alguém que possa desaliená-lo de seu isolamento narcísico e o introduza na cultura e na alteridade.

Por lado, concorda-se com Leão (2014) ao se referir que caráter punitivo repressivo seja substituído pelo caráter educativo, que possa realmente auxiliar os adolescentes envolvidos em atos infracionais a enxergarem novas perspectivas para suas vidas, de modo a reconstruí-las por outras vias, por caminhos morais e éticos que os conduzam a vidas mais saudáveis para si mesmos e para a comunidade.

Propiciar que Arthur pense não garantirá final feliz, mas a potencialidade da escuta analítica poderá inaugurar uma qualidade de vida digna. Suas escolhas, suas alegrias, dores, esperanças e pesares poderão levar a caminhos diferentes, que implicam os destinos do sujeito.

Poderia-se abrir a história de Arthur em duas vias para se pensar: uma via seria do inicial assujeitamento à violência e à crueldade que só lhe deixaria como saída a “compulsão a repetição”, e a outra via seria pensá-lo a partir da escuta da sua singularidade, da sua fala, o espaço que assegurou e, ainda assegura um lugar inédito, o qual não fora possível entre ele e os pais na infância e adolescência.

O caso de Arthur é o reflexo de muitos outros, cujo cume é o ato infracional, asseguradas as suas particularidades, o

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outro com a vida na tentativa de ajudá-lo saber quem é e o que deseja. O saber de si surge, quando o sujeito está assegurado do endereçamento de sua fala a alguém que o escute, como também na circulação da palavra, a fim de que possa visualizar seu próprio devir.

É importante destacar as palavras de Neiva (2015, p.352), em que remete a pensar:

Conhecer a realidade em que são responsabilizados os adolescentes que cometem atos infracionais, em quais condições as medidas socioeducativas de privação e restrição de liberdade são cumpridas e como e por quais motivos os adolescentes desistem da conduta infracional, coloca aos profissionais e aos pesquisadores a árdua tarefa de defender a responsabilização do adolescente, quiçá mais eficaz, mas também, defender a garantia de seus direitos sociais, amplamente negados e violados pela sociedade brasileira ao longo de sua história .

Em psicanálise pensa-se e se concorda com Hornstein (2008), quando refere que o processo identificatório e os projetos de vida articulados na adolescência poderão abrir espaço para a inscrição de uma história com alteridade. 4 Conclusão

O caso Arthur possibilitou a reflexão a respeito das possibilidades de construção simbólica de um sujeito, por meio da escuta respeitosa do profissional da psicologia em que, inicialmente, o adolescente se encontrava em um sistema de semiliberdade e, a posteriori, foi atendido como egresso do sistema socioeducativo.

Conclui-se que a escuta aberta isenta de preconceitos e inaugura no sujeito a confiança capaz de solidificar relações e introduzi-lo no mundo do trabalho.

Referências

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Referências

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