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Representações Sobre Mulher, Trabalho, Gênero e Raça na Revista

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Academic year: 2021

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Representações Sobre Mulher, Trabalho, Gênero e Raça na Revista

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Cleudia Bezerra Pacheco UFRN/NEPAM

Maria Aparecida Ramos da Silva UFRN/NEPAM

Palavras-chave: mulher; trabalho, relações de gênero, raça, revista Veja.

1. INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, muitas pesquisas têm demonstrado o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, que está acontecendo em um contexto de avanço do neoliberalismo e da globalização da economia, enfatizados na década de 90. Analisando essas tendências, sentimos a necessidade de verificar como os grandes veículos de comunicação estão abordando a entrada da mulher no mercado de trabalho brasileiro.

Nosso objetivo foi realizar um estudo da temática “mulher e mercado de trabalho” na última década do século XX na revista Veja, com a finalidade de fazer um recorte de gênero, buscando as várias formas de representações das mulheres no trabalho. A Veja é uma publicação de circulação nacional, que possui grande credibilidade e está em seu 34º ano, com uma das maiores tiragens do país – em média 1 milhão e 300 mil exemplares por semana. Nossa intenção foi fazer a reflexão sobre como os veículos de comunicação abordam um tema de tamanha complexidade na atualidade. Além disso, procuramos contribuir para avançar na discussão sobre a problemática de gênero na sociedade, enfatizando os novos papéis femininos no mercado do trabalho.

Como opção metodológica, selecionamos as edições da Veja com capas sobre temas relacionados ao trabalho. Em seguida, realizamos uma análise detalhada das reportagens publicadas, observando-se textos e fotografias, buscando entender como a

* Trabalho apresentado no XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, realizado em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil de 4 a 8 de novembro de 2002.

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revista retratou as relações de gênero no mercado de trabalho e o fenômeno da feminização do emprego. Inicialmente, analisamos 278 exemplares entre os anos 1990 e 2000. Após essa seleção, observamos que a revista publicou 14 edições sobre trabalho, o que corresponde a 5% do total das edições publicadas no período. Nessa década, os cinco temas abordados na revista que aparecem em maior número de vezes, como matéria principal de capa, foram: política; personalidades, saúde e comportamento.

A partir desse levantamento, confeccionamos uma ficha para a pesquisa, que incluiu dados sobre o assunto e o visual gráfico da capa, o autor, assunto geral, título da reportagem e quantidade de fotos. Após essa etapa, realizamos um resumo de cada reportagem e uma análise considerando os aspectos de gênero a partir do referencial teórico.

A pesquisa está estruturada em três partes. Na primeira, procuramos situar os fatores que levaram à inserção feminina no mercado de trabalho e as dificuldades encontradas pelas mulheres nesse novo cenário de economia globalizada. No segundo capítulo, apresentamos as quatorze edições da Veja sobre a temática estudada, observando os fatores de gênero presentes na publicação. No terceiro e último capítulo, fazemos alguns comentários e considerações em relação ao tema proposto.

2. A MULHER NA ECONOMIA GLOBALIZADA

O período definido para análise da inserção da mulher no mercado de trabalho aconteceu em um momento de profundas transformações na economia mundial e na mudança do modelo produtivo com o advento do que se tornou conhecido como o processo de globalização da economia. Portanto, optamos por contextualizar, de forma resumida, esse período.

No Brasil, esse processo econômico e financeiro de globalização está em curso desde o início da década de 1990 trazendo inúmeras conseqüências para o país. A hegemonia dos ideais neoliberais e afastamento do Estado da regulamentação capital versus trabalho contribuiu para o processo de perdas de direitos adquiridos anteriormente pelos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros. O advento desse novo modelo econômico está provocando profundas transformações no mercado de trabalho, como a precarização, rebaixamento dos salários, o desemprego, intensificação da

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jornada do trabalho e instabilidade. “Neste período, não apenas cresceu o desemprego como ampliou muito a economia informal, favorecendo, assim, a expansão da pobreza e da precarização do mercado de trabalho” (MATTOSO, 1996, p. 40).

É nesse amplo processo de reestruturação produtiva, que está acontecendo a incorporação das mulheres no mercado de trabalho. A absorção da mão-de-obra feminina tem sido superior à masculina em todas as fases recentes da economia brasileira, seja nos ciclos de expansão da economia ou em fases de recessão, além da crescente participação da mulher em quase todos os setores. De acordo com MELO (1997), quando se compara a distribuição da população ocupada feminina em 1985 com 1995, observa-se um crescimento, expresso na passagem do patamar de participação no total da população ocupada feminina de 33,42% (1985) para 37,95% (1995), com uma taxa média de crescimento ao ano dessa ocupação de 3,68% contra 2,37% do total das pessoas ocupadas. “Esse crescimento permite concluir que a absorção das mulheres no mercado de trabalho na última década foi mais dinâmica do que a dos homens, e as atividades econômicas que mais expandiram a ocupação feminina foram o comércio e a administração pública” (MELO, 1997, p. 57).

De acordo com HIRATA e LE DOARÉ (1999), as conseqüências diferenciais da globalização quanto ao sexo ainda estão por serem analisadas. Entretanto, uma das constatações que se evidencia em quase todas as pesquisas é a disparidade existente entre salários masculinos e femininos. Segundo as autoras, as desigualdades de salário -compreendidas em trabalho igual - são constatadas por toda parte do mundo, até em países que assinaram as convenções da Organização Internacional do Trabalho, que as proíbem. Conforme ressalta CASTELLS (2000, p. 200), “as mulheres não estão sendo relegadas a realizar serviços que exijam menor especialização: são empregadas em todos os níveis da estrutura e o crescimento do número de cargos ocupados por mulheres é maior na camada superior da estrutura organizacional. E é exatamente por isso que existe a discriminação: as mulheres ocupam cargos que exigem qualificações semelhantes em troca de salários menores, com menos segurança no emprego e menores chances de chegar às posições mais elevadas”.

Além da questão do salário, a diminuição das políticas sociais sobrecarrega, sobretudo, as mulheres à medida que são elas, em sua maioria, as principais

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responsáveis pelo cuidado com a família com os doentes, com a educação dos filhos -resultando no empobrecimento crescente das mulheres. Outro aspecto observado com a entrada das mulheres no mercado de trabalho é que isso também significa um aumento na sua jornada diária de trabalho, porque os afazeres domésticos e familiares continuam sendo uma responsabilidade feminina em nossa sociedade (BUTTO, 1997, LAVINAS, 1999).

Entretanto, alguns autores afirmam que, se por um lado, a globalização da economia afeta de maneira negativa, sobretudo, as mulheres, por outro lado, isso está sendo um fator determinante para o aumento do número de empregos femininos. Para LAVINAS (1999), os fatores que tentam explicar esse comportamento do mercado de trabalho mais favorável às mulheres do que aos homens no que tange à expansão de seu nível de ocupação, são enfoques pessimistas, que faz da deteriorização geral das condições de emprego o pano de fundo da interpretação da melhora relativa da performance feminina no mercado de trabalho, pois isso encobre ganhos significativos reais para as mulheres, como a redução constante dos diferenciais de rendimentos entre os sexos em todos os tipos de ocupação.

De acordo com a autora, a maior empregabilidade feminina decorre justamente da conjugação de dois fenômenos: primeiro, pelas mudanças dos postos de trabalho, com a criação de novas funções, em razão da terceirização e informatização da atividade econômica, e, segundo, porque os atributos da força de trabalho feminina passaram a ser mais valorizados e estão sendo potencializados no exercício dessas novas funções (LAVINAS, 1999).

Essa idéia também é confirmada por CASTELLS (2000), ressaltando que a maciça entrada das mulheres na força de trabalho remunerado deve-se, de um lado, à informatização, integração em rede e globalização da economia, e, de outro, à segmentação do mercado de trabalho por gênero, que se aproveita de condições sociais específicas da mulher para aumentar a produtividade, o controle gerencial e, conseqüentemente, os lucros.

Para tentar finalizar essa complexa discussão, ressaltamos a opinião de HIRATA (1998) para quem os movimentos complexos da mão-de-obra feminina são ligados a três fatores indissociáveis: primeiro, a conjuntura do mercado de trabalho, ou seja, se

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existe um boom econômico ou um momento de crise; segundo, as mudanças no processo e na organização do trabalho; e, por fim, à subjetividade das trabalhadoras, com o desejo de entrar e manter-se no mercado de trabalho.

3. A MULHER NAS PÁGINAS DA REVISTA VEJA

Como podemos observar a partir da análise no capítulo anterior, essa é uma questão de extrema complexidade, que envolve as relações entre gênero, família, etnia, trabalho e muitos outros fatores que colocam a mulher na centralidade desse novo quadro da conjuntura do mundo do trabalho. No entanto, o aprofundamento dessa discussão não é o objetivo deste trabalho. Assim, passemos, agora, a verificar como a revista Veja retratou a temática da mulher e mercado de trabalho entre os anos de 1990 e 2000.

Em setembro de 1993, a edição número 37 trouxe a capa “As profissões em alta”, sobre as novas habilidades que as empresas valorizam, mostrando o que está mudando nas carreiras tradicionais e o destino das vocações no novo mercado de trabalho, ou seja, “O que está mudando nas profissões” (p. 84), informando que o processo de ajuste das empresas alterou profundamente as habilidades que se cobram dos candidatos a emprego.

A reportagem foi ilustrada com vinte fotos. Dessas, apenas duas com mulheres. Assim como nas fotografias, nessa matéria, a revista Veja priorizou um maior número de entrevistas com especialistas e profissionais masculinos. Toda reportagem é permeada pela idéia de um mercado de trabalho masculino. Apesar de citar alguns exemplos de mulheres, elas são vistas como inexperientes, pois ainda estão procurando emprego. “Silmara não fala inglês, nunca viajou para fora e sabe mexer um pouco num computador” (p. 90). Os homens são citados como grandes executivos e são os principais entrevistados. O inglês Howard Orne, 33 anos, formou-se em Filosofia, mas trabalha na área de contabilidade” (p. 86). Nos boxes, a reportagem priorizou os exemplos de homens que estão no mercado de trabalho e que conseguiram sair da crise.

Em outubro de 1994, a edição número 42, “O fim do emprego e o novo profissional”, discute “o que fazer para se manter num mercado de trabalho em mutação”. A reportagem “A revolução que liquidou o emprego” não especifica a

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situação das mulheres nessa reengenharia do emprego e não explica como está a inserção da mão-de-obra feminina nos novos cargos de trabalho e com as novas posturas profissionais. A reportagem apresentou vários índices de desemprego, entretanto não especificou os indicadores por gênero. Também não explica em que setor existe mais desemprego para os homens e para as mulheres. O texto da matéria é generalizado com o gênero masculino e utiliza expressões como: “trabalhadores”, “recebe as ordens do chefe”, “o sujeito bate o relógio de ponto”, “O empregado é fiel e o patrão dá segurança”, “exige-se mais do funcionário”. Em um dos boxes, a matéria utiliza o título: “De pai para filho”(p. 95), reforçando a idéia do homem que trabalha. Para ilustrar, a revista Veja utilizou um jogo entre fotos antigas e atuais. Nas antigas, a maioria tem apenas homens trabalhando; nas atuais já é possível observar-se mulheres. A matéria entrevistou 16 homens e apenas 3 mulheres.

Não tivemos acesso a nenhum exemplar publicado em 1995 com elementos para análise do tema estudado. Entretanto, em 1996, a revista deu especial atenção a essa temática. Em fevereiro, a edição número 6 trouxe o título “Como ganhar dinheiro no Brasil do real”. Nessa reportagem, a revista procurou discutir “os problemas do emprego no Brasil e no mundo; quais são as profissões do futuro e onde estão os maiores salários; funções em alta e em baixa; por que as aplicações financeiras ficarão cada vez menos atraentes; onde estão as boas oportunidades de negócios”. A matéria tenta abordar de forma abrangente a questão do desemprego no país, mas não especifica as taxas de desemprego entre homens e mulheres. Segundo a reportagem, estão acontecendo profundas mudanças no mundo do trabalho, com aumento do trabalho informal, que é um dos setores onde a mão-de-obra feminina está mais inserida, porém a matéria não cita a inserção da mulher nesse novo cenário. Todos os 20 homens entrevistados tiveram suas declarações citadas entre aspas. Das três mulheres entrevistadas, apenas uma teve sua frase na íntegra. Quando um casal é citado como exemplo, a frase reproduzida é do homem. Na maioria das fotos são masculinas. Nenhuma mulher aparece sozinha numa foto, enquanto três homens têm destaque na matéria.

A edição de número 29, publicada em julho, foi outra capa escolhida para nossa pesquisa. Com o título “Miami - A metrópole brasileira que mais cresce”, a reportagem relata a vida dos emigrantes brasileiros que moram e têm negócios na

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cidade norte-americana. “Já são 200 mil emigrantes brasileiros trabalhando e enriquecendo no sul da Flórida”. A reportagem “A Miami do Brasil” explica que “a Flórida é a nova fronteira dos brasileiros, que já são 200 000 e faturam 5 bilhões por ano” (p. 50). Os entrevistados são homens que conseguiram o sucesso nos negócios em Miami. Sobre a única mulher entrevistada, a reportagem diz “Anice é do Espírito Santo (...) não tem autorização para trabalhar e espera conseguir um casamento com um americano” (p. 56). A matéria cita cinco especialistas masculinos e apenas uma mulher. As fotografias dessa edição continuam oferecendo destaque ao gênero masculino, com oito fotos publicadas, enquanto as mulheres apareceram em duas. Em todas as fotos os homens estão com roupas de trabalho. Das duas femininas, uma delas retrata mulheres de topless na praia.

A revista Veja número 37, de setembro de 1996, “Os feras”, traçou o perfil do trabalho dos operadores das bolsas de valores, mostrando como funciona o mercado financeiro e quem são os operadores que ganham milhões antes dos 30 anos. A reportagem “Os jovens tigres do lucro” não explica se existem ou não profissionais do sexo feminino trabalhando nas bolsas de valores, nem as dificuldades para as mulheres entrarem nesse restrito mercado. A única vez que se refere à mulher é ressaltando o papel de mãe. “Os corretores fizeram uma posta sobre o dia em que vai nascer o bebê de uma colega de trabalho, que está grávida” (p. 54). Das pessoas entrevistadas na matéria, nenhuma é do sexo feminino.

Em dezembro de 1996, a edição número 49 “O desafio do emprego”, explicava que “além de escolaridade maior, línguas e computador, as empresas ainda querem capacidade de decisão, desembaraço e ambição”. A reportagem “O funil estreitou” informava que “As habilidades tradicionais já não bastam para arranjar emprego na economia reformada” (p. 117). O texto repete uma idéia generalizada sobre o assunto, sem especificações de gênero. Nessa matéria, aparecem muitas mulheres nas fotos trabalhando e participando de testes de criatividade em grupo e foram entrevistados sete homens e quatro mulheres.

Para finalizar as edições publicadas sobre mercado de trabalho no ano de 1996, a revista Veja número 51 chegou às bancas em dezembro, com o título “O novo milagre brasileiro - com o aumento da renda, o pobre virou consumidor e o fosso social

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diminuiu”. A reportagem “Dinheiro no bolso do pobre”, explicava que “Num novo milagre econômico, as pessoas mais pobres estão consumindo mais e o fosso social ficou menor” (p. 48). Essa reportagem destacou o papel da mulher como donas-de-casa fazendo compras ou sonhando com o casamento. Ao contrário dos homens, que aparecerem fazendo análises econômicas, consultores, economistas e presidentes de entidades.

Essa uma visão otimista sobre a questão do emprego no país continuou na edição número 7, de fevereiro de 1997, “Onde estão os empregos”, mostrando “Os novos pólos de crescimento e as oportunidades que eles oferecem”. Com o título “Procura-se gente para trabalhar”, a reportagem dizia que “enquanto a indústria de São Paulo demite, milhares de novos empregos surgem em outras regiões” (p. 80). Apesar das mulheres aparecerem em quase todas as fotos da matéria, nas entrevistas não acontece o mesmo. Das 11 pessoas entrevistadas, somente três são mulheres.

A outra reportagem abordando a questão do trabalho publicada em 1997, a edição número 33, foi bastante amena e retratou as dúvidas dos estudantes na hora de escolher uma carreira, com o título “Profissões - as mais promissoras; as congestionadas; como escolher a sua”. A matéria “Navegando num mar de profissões” explicava “como se orientar entre carreiras em alta, outras em queda livre e um grupo que não sai do lugar” (p. 48). Na primeira foto da reportagem estão quatro homens e uma mulher, o que passa a impressão de uma minoria feminina no mercado de trabalho. Essa reportagem entrevistou vários especialistas em orientação vocacional, consultor de recursos humanos, psicólogos e sociólogos e vê-se claramente um aumento do número de mulheres ouvidas pelos repórteres. Dos 11 entrevistados, cinco são mulheres. Mas entre os homens, estão um vice-governador, um chefe de recursos humanos e o diretor da Fuvest, ou seja, mostra-se que os cargos mais importantes são ocupados pelo gênero masculino.

No início de 1998, a revista Veja abandonou as amenidades sobre o mercado de trabalho brasileiro e escolheu o tema “Você tem medo de perder o emprego?” para a capa da edição de fevereiro, número 6. Após o título seguia-se a seguinte explicação “O risco disso acontecer no Brasil está cada vez maior com a globalização e a quebra da Ásia”. A reportagem “Assombração nacional” acrescentava “O aumento acelerado das

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demissões começa a provocar inquietação no Brasil” (p. 68). Mesmo em 1998, a Veja não aponta nenhum dado específico sobre a participação da mulher no mercado de trabalho nessa ampla reportagem sobre a situação econômica e o desemprego no país. A maioria dos economistas e consultores entrevistados e nas fotos predominam o gênero masculino. Das 13 pessoas fotografadas, apenas uma era mulher. Todos os homens entrevistados tiveram frases suas publicadas na íntegra, enquanto de uma economista da Fiesp consultada foram publicadas expressões como: “Um estudo da economista Maria Helena Zockun” (p. 73).

A última edição da revista Veja que tratou desse assunto em 1998, a de número 38, em setembro, abordou a importância da educação na busca e conquista do emprego. Com o título “A chave do emprego”, a capa elaborava as seguintes chamadas “Como a educação abre novas oportunidades; cada ano de estudo aumenta em 15% o salário; as profissões que estão em alta e em baixa”. A reportagem “Estudar vale ouro”, seguia-se da explicação “pesquisa mostra até onde a escola aumenta a chance de conseguir emprego, multiplica o salário e garante o sucesso na carreira” (p. 110). A matéria cita alguns exemplos de mulheres que procuram emprego, mas de uma forma genérica. Os exemplos de pessoas entrevistadas, que conseguiram uma melhor performance no mercado de trabalho porque estudaram, são homens. Quando fala da mulher é uma jovem que está desempregada, procurando o primeiro emprego. Das cinco fotos que ilustram a matéria, três trazem muitas mulheres, mas elas estão com outras pessoas. As duas que têm mais destaque são de homens e estão na página inicial.

A única edição da Veja publicada em 1999, analisada dentro dos discursos temáticos selecionados, tratou da peculiar profissão de modelo. Com o título “Sonho de modelo” na capa, a edição número 28, publicada em julho, fala sobre “O fascínio, as ilusões e os perigos da profissão que nove entre dez meninas desejam seguir”. A reportagem “Ursinho e salto alto” anunciava “como é a vida das meninas que, cada vez mais cedo, lutam para vencer no mundo das passarelas” (p. 111). A quantidade de fotografias dessa matéria chegou a vinte e seis, trazendo mulheres bonitas, muitas em ensaios fotográficos e poses sensuais, além de fotos em 3x4 das modelos e apenas uma com um homem. Apesar de existir muitos homens que são modelos profissionais, a matéria é voltada para o universo feminino, mostrando a relação das adolescentes com esse mercado de trabalho tão peculiar e seletivo. Uma das evidências na matéria é que

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as mulheres são a mão-de-obra desse mercado. Geralmente os donos de agências e estilistas são do sexo masculino. A matéria trata rapidamente do assédio sexual nesse meio. Entretanto, por ser um ambiente onde circula muita gente jovem e bonita, a matéria deixa a desejar porque reporta pouco sobre esse assunto, somente no depoimento de uma ex-modelo que diz: “As pessoas vêem as modelos em festas e aí acham que podem fazer convites para sair por dinheiro, ficam oferecendo apartamento. Isso embrulha o estômago” (p. 117).

No último ano do século XX, a revista Veja produziu duas reportagens especiais sobre o trabalho no Brasil. A primeira falou sobre a intensificação da jornada de trabalho na edição número 14, de abril de 2000, com o título “Mais lazer e menos trabalho? Esquece”, seguida da explicação “a tecnologia e os sindicatos prometiam reduzir as horas de batente. Deu o contrário”. A reportagem “Tempos modernos” dizia que “o expediente das 8 às 5, grande conquista do sindicalismo, já era. Empurradas pela concorrência, as pessoas estão trabalhando cada vez mais”(p. 122). A matéria fala sobre o aumento da carga horária trabalhada, mas oferece informações sobre como isso atinge as mulheres. A reportagem explica que, mesmo com condições de ir embora mais cedo, muitos funcionários preferem ficar trabalhando no escritório a enfrentar as obrigações domésticas, porém não explica se são homens ou mulheres. Apesar de não se referir às mulheres de forma direta, a matéria cita que algumas empresas instalaram salões de beleza e academia de ginástica no local de trabalho. A maioria das fotos é de homens. Das 16 pessoas entrevistadas, três são mulheres. Um dos boxes tem o seguinte título: “Terno, gravata e esforço”, intensificando a idéia de mercado de trabalho masculino. A única vez em que a reportagem especifica o gênero diz respeito a uma pesquisa sobre o que os filhos acham do pai e mãe estarem trabalhando muito.

Em 2000, a segunda e última reportagem sobre as questões do trabalho, que mereceu a capa da revista Veja, foi a edição de número 45, publicada em novembro. A matéria, totalmente dedicada à participação da mulher no mercado de trabalho, foi intitulada “Elas venceram” e trazia as seguintes frases na capa “No Brasil já há mais mulheres médicas e advogadas do que homens; elas ficam com a maioria dos novos empregos do país; ganharam a prefeitura em seis capitais brasileiras; o salário delas cresce num ritmo mais rápido que o dos homens; uma delas acaba de ser indicada para o Supremo Tribunal”. A reportagem explicava que “a indicação da juíza Ellen Gracie

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Northfleet para o Supremo Tribunal Federal é um símbolo da ascensão feminina no país, um movimento que pode ser verificado em diversas áreas de atuação profissional, nos indicadores de salário e riqueza e nas estatísticas de escolaridade” (p. 125).

Com essa edição, a Veja dedicou uma matéria especialmente sobre a inserção das mulheres no mercado de trabalho. A capa foi ilustrada com mais de 50 fotografias de mulheres, entre famosas e anônimas, todas com alguma história de sucesso nos negócios, no esporte ou na política. Por toda reportagem perpassa a idéia de que “Os sexos estão empatando ou virando o jogo” (p. 130). O primeiro visual da matéria é um batom borrando a página e boxes em tons de rosa. Todas as 47 fotos nas páginas da reportagem são de mulheres, com uma breve descrição sobre a personagem. Esse número de fotos é bem maior do que o geralmente usado em reportagens com a mesma quantidade de páginas. Além disso, a matéria oferece vários indicadores, como informações sobre as profissões em que as mulheres são maioria, o número de eleitoras no país e a participação feminina no parlamento.

No entanto, a reportagem não especifica os índices de pobreza e não esclarece as diferenças salariais existentes entre os gêneros, mas até sugere que isso pode acontecer de uma forma positiva. “Aplicam-se mais nos estudos, são mais comprometidas com a carreira, valorizam sua capacidade de trabalho e são flexíveis. Aceitam até ganhar menos para conseguir uma oportunidade” (p. 131).

Com esta edição, a revista encerrou a década apresentando uma visão otimista sobre a atuação feminina em vários segmentos da economia, mas ressaltamos que as mulheres entrevistadas nas reportagens configuram-se como exceções em suas respectivas áreas. Além disso, nas edições anteriores, a questão feminina foi pouco retratada nas condições reais de sua participação na sociedade.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após uma análise detalhada das reportagens de capa da Veja sobre mulher e o mercado de trabalho, publicadas na década de 1990, um dos primeiros resultados que podemos apresentar é sobre a superficialidade com que a revista trata um tema de tamanha complexidade, como as relações de trabalho na atualidade. As matérias da revista não aprofundam os assuntos publicados e não mostram todas as nuances do

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processo e as transformações ocorridas nos últimos anos, seja no aspecto tecnológico ou na organização do trabalho. Como também, a revista Veja não faz discussões mais amplas sobre o trabalho, com relação à gênero, etnia, faixa etária e nível de escolaridade, que são elementos importantes a serem considerados quando se trata desse assunto.

Com relação à questão de gênero, que é o principal enfoque desse estudo, nota-se a ausência de um olhar mais apurado da Veja para informar como ocorre a relação entre as mudanças advindas com o processo de globalização e a entrada das mulheres no mercado de trabalho.

Apresentamos, agora, alguns tópicos que julgamos de maior relevância sobre as relações de gênero verificadas no estudo, que perpassam todas as reportagens ou a maioria delas:

• Nas revistas pesquisadas, observou-se que, de um modo geral, foram utilizadas fotos masculinas ou figuras para ilustrar as capas. Quando as mulheres aparecem, elas não têm destaque e sempre vêm acompanhadas com outras pessoas.

• Um dos pontos detectados é com relação às novas características exigidas pelo mercado de trabalho, em que as reportagens não citam as habilidades femininas que podem estar contribuindo para a inserção da mulher como mão-de-obra remunerada.

• Durante o período analisado, a revista publicou doze edições sobre a temática geral do trabalho e duas especificamente sobre a inserção da mulher no mercado de trabalho. Porém, nas edições sobre a temática geral, não foram citados indicadores demonstrando o considerável aumento do emprego feminino.

A linguagem utilizada pela Veja em todas as edições deixa em evidência que as reportagens são a respeito de homens e direcionadas para homens, como se o mercado de trabalho fosse estritamente masculino.

• Os homens têm presença marcante na grande maioria das entrevistas e das fotografias utilizadas pela revista Veja para discutir o mercado de trabalho.

• Também observamos que, geralmente, os homens entrevistados ocupam cargos de destaque, como empresários, consultores e especialistas. Enquanto isso,

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muitas mulheres ouvidas pelas reportagens são donas-de-casa, jovens que procuram o primeiro emprego e mulheres que casaram para melhorar de vida, reforçando os papéis tradicionais exercidos pela mulher na sociedade.

Essas foram as principais constatações que ressaltamos em nossa pesquisa sobre a crescente participação feminina no mercado de trabalho brasileiro, na década de 90. Entretanto é importante esclarecer que, sendo a revista Veja um dos principais veículos de comunicação do país, entende-se que a mesma deveria realizar um debate sobre o mercado de trabalho, discutindo todos os aspectos relacionados ao tema, inclusive os que envolvem a empregabilidade feminina.

Com a ausência dessa discussão, o leitor da revista Veja não tem acesso a informações mais completas para entender o que está acontecendo no Brasil e no mundo com relação ao trabalho. Além disso, a partir do momento em que não aprofunda a análise e procura vender uma perspectiva otimista sobre o mercado de trabalho, a referida revista prejudica a clareza dos fatos e não contribui para a construção social da igualdade de gênero.

5. BIBLIOGRAFIA

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CRUZ, Maria Helena Santana. Modernização do trabalho e tradição: estudos de caso sobre relações sociais de gênero em indústrias estatais de Sergipe. Bahia: Tese de Doutorado UFBA, 1999.

FARIA, Nalu e NOBRE, Miriam. Gênero e desigualdade. São Paulo: SOF, 1997.

FERRARI, Maria Helena e SODRÉ, Muniz. Técnica de reportagem: Notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986.

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HIRATA, Helena e LE DOARÉ, Hélène. Os paradoxos da globalização. In: FARIA, Nalu e NOBRE, Miriam, orgs. O trabalho das mulheres. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999.

LAVINAS, Lena. Empregabilidade: uma noção conjugada no feminino. In: FARIA, Nalu e NOBRE, Miriam, orgs. O trabalho das mulheres. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999.

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