-F-'l ítulo original: Saluz¿tr. o E.;lodo Nov¡ c os tllcdia
e José Luis Garcia. Tânia Alves, Yves Leon¿rd e D(liçõcs 70, 2(Ì I 7 Rcvisão: Inôs Costa
SAtAZAR,
0 EsTAIl0
il0v0
E
OS
I,IIEI/iIA
Capa: FIìA
Na capa: Conl'crêlci¡ do Dr. oliveira Salazar no Secretariado da Pro¡raganda Nacional, I 934 (^N',rT/P17 f T/EPJ S/Slvo0 l -00 l/0028/00661)
Depósito Legal tt" 426114111
B¡blioteca Nacionat de Poriugal - Catalogação na Publ¡cação GARCIA, José Luís, e outros
Salazar, o Estaclo Novo e os media / José Luís Garcia, Tânia Alves' Yves Léonard. - (Extra-coleção)
rsBN 978-972-44-1 977-0
I - ALVÊS, Tânia
II - LÉONARD, YVCS
cDU 94(469)'193411974"(042)
|osé Luís Garcia
TâniaAlves Yves Léonard (coord.) Paginação: João Jegurtlo lnlpressäo c acab¡tucnto Pentacclro, Lrla. pafa ÌrDIÇa)ES 70 Maio dc 2017
Direitos reservados Para totlos os paíscs de língtla porluguesa por Ediçõcs 70
IDIÇa)[S 70, una chancela dc Iìdiçõcs Almedina, S.Â. Avenida fìngenhcilo ArarÌtcs c Olivcira, I I 3'C - 1900-221 Lisboa / Portugal
c' nrai I : gcral(flecl icocsT().Pt
rv\Y\Y.cdicoes70.pt
Est¿ obra eslar lrrolcgiila ltcla lci. Nixr potlc ser rcllroclrtzicla, no todo ou enì pârte, qurlc¡uer rluc scja o nlotlo utilizaclo, incluintlo lbtocópia e xerocópia, sctr 1lrévia autorização do [ditor'
Qualt}rcr transgressão à lei dos Dircitos de Aulor serii passível de Proccdinrento jtrclicial,
Y
INDICE
Salazar, o Estado Novo e os mediaz introdução a uma nova
agenda de investigação
JosÉ LuÍs Gancta, TÂNII ALVns,
Yvrs
LÉoNARD...""""'
9Capítulo 1. A Informação da Arcada e o processo de indução noticiosa preconizado por António Ferro
V¡sco
Rlsalno 2549
69
Capítulo 2. A política radiofónica do Estado Novo ( 1 933-1945)
N¡r-soN Rlsetno
Capítulo
3.A
censura no Estado Novo: o caso da imprensade provínci a (1936-1945)
Jo¡.eurtvI Canooso Gouss...
Capítulo 4. Salazar contra o <<Terror Vermelho>: a imprensa portuguesa e o corte das relações diplomáticas com Espanha
em 1936
Algnnro
P¡N¡-Ronnícunz
101Capítulo 5. O cerco da guera: propa ganda,cliplomacia e política
de informação do Estado Novo (1940-1942)
Júlrn
LelrÃo oB B¡nnos...'... 127Capítulo
6. O <Espetáculo do Sigilo>: as imagens, a PIDEe o Tarrafal
-t
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIÀ
Capítulo
7. Salazar, visto de fora: <<Viver habitualmente?>Salazar e os media franceses
Yves LÉoNano
t73
Capítulo 8. A construção da imagem do <Chefe> no Notícias
Ilustrado
Frlon¿¡N¡.
Snnu
e EouaRooCrNru
TonRps
201Capítulo 9.Salazar emA BatalhaeemO Avante (1933-1968)
JosÉ NuNo Mrros... 235
Capítulo 10. O Intransigente: a imprensa de Angola e a durabi-lidade do Estado Novo
IsaooR¡. oB
Arlí¡e
FoNsscA,.... 263Capítulo 11. <Para Angola, rapidamente e em força>: a mobi-lização para a gueffa na imprensa portuguesa e o seu debate
internacional
TÂNrl Arves e JosÉ Luís GlncrA... 283
Capítulo 12.Salazar, o regime e a televisão: para uma
arqueo-logia da <invisibilidade> televisiva do ditador
Fn¡Ncrsco Rur CÁorvn 327
Capítulo 13. A ditadura censurao ditador: a entrevista silenciada
de Salazar ao L'Aurore no verão de 1969
JoÃo FrcuprRA... 347
Capítulo 14. A <queda> de Salazar: a doença e morte do ditador na imprensa portuguesa
HBr-nN¡. Lrvn... 363
Capítulo
15. Breves considerações sobreo
Estado Novode Salazar e os mediq
Capítulo
9
Salazar
em
A
Batalha
e
em
O
Avante
(te33-1e68)
JosÉ NuNo Maros
lnslilulo tle Ciências Socictis da Universidacle de Lisboa
Ao longo dos últimos anos, a figura de António de OliveiraSalazar
tem suscitado Llma diversiclade de análises e abordagens, da liisto-riografia em torno de um regime que se construiu com a sua ima-gern
à
novelatelevisiva
da suavida
privada, Embora não sejapropriamente
fácil
identificarum
pontocomuÍì
entre elas, alémdo objeto em questão, são raros os estuclos qlle se concentram no
modo como Salazar
foi
descrito por qllem a ele se opunha. Opre-sente ensaio insere-se neste últirno âurbito, não visanclo, no entanto,
reproduzir uma narrativa histórica personalizada, baseada no retrato descritivo de grandes figuras.
(r)
O seu objetivo é cotlpreeudel a forma como os jomais A Balalha e O Avante, publicações ligadas a ideais de defesa das classes trabalhadol"as, representam o ditador(r) Para urna cl'ítica a esta Ìtistoriogt'afia ver Doult¡cos, Nttno e Pnnllna., Vítor,
<lntlodução>, in DourNcos, Nuno e Plnlrua, Vítor, (Ed.), O Estado Not'o em
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
ao longo do período compreendido entre 1933, ano em que o Estado
Novo adquire constitucionalidade, e 1968, o último ano de governo de Oliveira Salazar.
Concentrando-se na figuração
de
Salazar realizada quer porA Batalha, quer por O Avante, o corpus de análise não se limita a
reflexões de fundo sobre o papel exercido pelo ditador,
considerando--se todas as formas de alusão à sua figura, inclusive as menos formais,
como as ilustrações. Pretende-se, assim, identificar a mundividência
presente neste <<senso comum)) (2), para utilizar termos de Gramsci,
procurando reconhecer no seu seio alguns dos mais importantes
obje-tivos políticos, estratégias e diferenças internas, assim como as
pró-prias transformações das organizações responsáveis.
<<Apertar-se-lhe na garganta>>: Salazar segundo A Batalha
Nos meses antecedentes ao 28 de Maio de 1926,o jornalA Batalha
alet1,ava para os perigos da revolução fascista, suspeitando da inûl-ûação dos <homens da Cruzada>>, bem como de alguns
<monárqui-cos confessos) (3) nas forças armadas (a). O facto de se estar perante
um fenómeno <<acentuadamente militarista, de caserna>> (s), ao
con-trário do que se havia verificado em If.ália, antevia a possibilidade
(2) Gna,vscl, Antonio, <Philosophy, common sense, language and folclore>, in
Foncacs, David (Ed.), The Antonio Gramsci Reader, Londres, Lawrence and
Wishart, 1999, p. 325.
(3) <A revolução fascista: eis o perigo a enfrentar imediatarnente>>, A Batalha, ano vII, n.' 2212, l8 de fevereiro de 1926, p. L
(a) A insatisfação da corporação militar encontra-se relacionada, segundo Hermínio Martins, com a redução do rendimento real do corpo dos oficiais durante a República, facto que ilustra a relação problemática que o regime desenvolveu com as Forças
Arma-das, igualmente manifesto na tentativa de utilização política dos seus quadros intermé-dios (os sargentos) e na formação de um aparelho de segurança público que constituísse
um contraponto ao poder bélico do exército. MaRrrrus, Hermínio, Classe, Status e Poder,Lisboa. Imprensa das Ciências Sociais, 1998, pp. 93 e94.
(5) Comissão de Agitação Antifascista da Câmara Sindical do Trabalho de Lisboa' <Contra o fascismo>,
I
Batalha, ano vrrr, n.'2233,14 de março de 1926,p. LSALAZAR EM A BATALHA E EM O AVANTE (1933-1968)
de resistência. Embora tenha inicialmente adotado uma posição de
neutralidade face à intentona militar do mês de maio,.a Confederação
Geral do Trabalho (CGT)
viria
a declarar a sua oposição ao golpe poucas semanas depois.A
confederação sindical chegou mesmoaøpelar à greve geral revolucionária por via do seu diário. Porém, a
respetiva edição de A Batalha
viria
a ser apreendida pelasautori-dades. (6¡
Orgão da Confederação Geral do Trabalho, de influência
anar-quista, A Batalha constituiu um dos mais importantes diários (?) do
período da República. A sua equipa redatorial (8), inicialmente
enca-beçada por Alexandre Vieira, era composta por um conjunto de
jor-nalistas assalariados, contando com uma vasta rede de distribuição e
financiamento militante (e). O contexto da sua criação é de eferves-cênciapolítica, marcada pelo sucesso de várias greves e pela
amplia-ção e reforço do aparelho sindical. ('0) Embora seja
difícil
apontaro exato
valor
da sua tiragem, esta situar-se-ia entre os20
000 e os 25 000 exemplares, posicionando A Batalha enffe diários comoO Século ou o
Diario
de Notícias.(")
No entanto, o jornalviria
aperder leitores a partir de meados da década de 1920, acompanhando
apropria dinâmica do movimento sindical, sujeito a perseguições (o
(6) GurvnnÃns, Paulo, <Cercados e perseguidos: a Confederação Geral do
Trabalho (CGT) nos últimos anos do sindicalismo revolucionário em Portugal (1926-193S)) , ColeÍivo Libertário de Evora. Acedido a29 de março de 2013, em colectivolibertarioevora.files.wordpress.coml20l3l0llcgt_anos30¡rguimaraes.pdf.
(?) O diário terá sido criado meses antes da criação da confederação sindical,
ainda no âmbito da União Operária Nacional.
(8) A par da redação, existia uma comissão administrativa do jornal e um
quadro tipográfico, com o qual se partilhavam pontos de vista. Baprrsr¡, Jacinto, Surgindo Vem ao Longe o Nova Aurora... Para a Hisforia do Diário Sindicalista
A Batalha (1919-1927), Lisboa, Livraria Bertrand, 1977, pp.32 e 125.
(e) Fnnrnn, João, Anarquistas e Operórios, Porto, Afrontamento,1992,p.340.
(10) Prnena, Joana D., <A ofensiva operâria>>, in Roses, Fernando, Ror-ro, Maria F., (Coord.), História da Primeira República, Lisboa, Tinta da China,2009, p. 426. (rr)
Bnrrlsu,
Jacinto, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora... Para a Hístória do Diário Sindicalista A Batalha (19I9
I 927), Lisboa, Livraria Bertrand,SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
jornal seria encerrado pelas autoridades por diversas vezes) e cisões,
nomeadamente a protagonizad,a pela Federação Maximalista, parti_
dâria da revolução bolchevique de 1917. Os militantes desta
tendên-cia viriam, em 1921, a criar o Partido Comunista Português (PCp),
então dirigido pelo ex-rnilitante da Confederação Geral do Trabalho
Carlos Rates. Não obstante a rutura com a confederação sindical, ¿g
suas teses far-se-iam sentir durante alguns anos, evidenciando-se n¿
desconfiança em relação a ulna tâtica parlamentar. (t2) Apenas ern 1929, após o golpe de 28 de Maio, é que o PCP viria a completar 6
chamado (processo de bolchevização>>, ainda que mais a nível
orgâ-nico do que propriamente doutrinal. ('3)
De acordo com as leituras disponíveis, as limitações do sindi-calismo, originadas pela existência de um proletariado sernirrural
nas regiões do norte, de um operariado agrícola disperso a sul e de um operariado industrial muito circunscrito às regiões de Lisboa e
do Barreiro, aliadas ao aumento do desemprego, por um lado, e ao <obreirismo> algo obstinado da Confederação Geral do Trabalho (ra),
por
outro, tê-lo-ão impedido de adquirir a força necessária à sua ampliação social, em particular aos sectores identif,cados comopequeno-burgueses (o funcionalismo público, por exemplo).
A
difi-culdade do movimento operário em assegurar a aftictlação entre os vários níveis de desprivilégio, algo que poderia ser assegurado porum discurso que, nas palavras de Laclau, conseguisse ligar <o radical jacobinismo das classes médias a um discurso socialista,
('t)
-
ut
argumento, aliás, desenvolvido por Antonio Gramsci ('u)
-
acaboupor ser aproveitada por forças adversárias.
('2) Maonln,t, João, História do PCP, Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 30.
çt'; lden, pp. 3l e 32.
(ra) MEonlnos, Fernando,
I
Sociedade e a Economia Portuguesas nas Origens do Salazarisnto, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978.(rs) Lacr-a.u, Ernesto, Politics and ldeology in Marxist Theory: Capitalism,
Fascism, Populism, Londres, Verso,2011, p. 128.
(r6) Gnarrascr, Antonio, <Fascist reaction and comrnunist strategyD, in Fonc¡cs,
David (Ed.), The Antonio Gramsci Reader, Londres, Lawrence and Wishart, 1999,
pp. 135 185.
SALAZAR EM A BATALHA E EM O AVÀNTE ( I 933 I 968)
Perante a acentuação da crise e da instabilidade social, as pequena
emédiaburguesias ter-se-ão acabado por aproximar.do eixo
constitu-ído por organizações como aCruzadaNun'Álvares, a Confederação
patronal ou a União dos Interesses Económicos, ao serviço de um projeto político antidemocrático. (17)
Ao
contrário do que severifi-cou em Itália ou na Alemanha, o Estado Novo não nasce da ação de uma mobilizaçáo disruptiva, traço definidor do fenómeno populista.
Contudo, toda a obra posteriormente desenvolvida corresponde à
eriação do que Laclau designa por <<relação de equivalência>, em
termos de, pelo menos, um interesse, ideia, ou objetivo em comum
('t), no seio da qual todo e qualquer elemento é elevado a significante
do novo regime, sem que nenhum pudesse escapar e com castigos
exemplares para os que o ousassem fazer.
A
figura de Salazarcons-titui um importante segmento deste novo eixo, impondo-se como um
dos seus mais eminentes significantes e constituindo a base de uma
das suas designações
-
<<salazarismo>>.Embora a representação nunca pressuponha a pura passividade
do representado, é nos regimes autoritários que a primazia do
diri-gente sobre o dirigido atinge o seu ponto máximo. Esta relação
tra-duz-se na constituição de uma totalidade que, contudo, não se pode
tornar absolutamente autónoma em relação aos governados. (re)
E, de facto, a centralidade da figura de Salazar neste processo tornou--se visível no modo como o seu percurso político e profissional
-
domilitantismo católico às competências financeiras
-
e a suaaparên-cia austera e sacrificial passam a ser elevados a exemplos a cumprir,
dado ele próprio exemplificar essa presumida essência nacional que
havia sido deturpada no período político anteriormente vigente.
(r7) Mnorlnos, Fernando,
I
Sociedade e a Economia Portugue'sas nas Origensdo Salazarismo, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978; LucnN.o., Manuel de, A Evolução
do Sistema Corporativo Portugttês
I
O Solazarismo, Lisboa, Perspectivas e Realidades, 1976; Cennar-, Manuel V., <Sobre o fascismo e o seu advento em Portugal: ensaio de interpretação a pretexto de alguns livros recentes>>, Analise Social, vol. XII (48), 197 6, pp. 873-91 5.(r8) Lacrau, Ernesto, On Populist Reason,Londres, Verso, 2007, p. 111 .
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
Essa suposta identidade entre Salazar e o país encontra-se þsrn
representada no desenho do rosto de Salazar como cartografia de Portugal (ver Fig.
n.'31).
Reconendo às palavras de José Rebelo,trata-se de um <<enlace matrimonial em que cada um [a face de Salazar
e o mapa do país] incorpora o outro. E, ao incorporar o outro, tor¡¿ a forma desse outro>. ('o)
A
ilustração sugere igualmente aomni-presença do ditador sobre a totalidade do espaço, não obstante o seu
parco interesse em protagonizar espetáculos de massas.
O culto em torno da sua pessoa procura, em primeiro lugar, ¿ identificação com os demais. Porém, num segundo momento, a sua permanência entre o povo não conduz à sua diluição <<por entre os que
dizia
serem seus iguais; tão-só desejava poderpairar
cornso mais virtuoso naquela posição>
e').
A
disseminação desta virtude seria assegurada por uma série de órgãos e dispositivos destinadosa tornar
o
seù corpzzs ideológico num <enunciado programático: deveria obstinadamente procurar arealidade, saindo de si e impreg-nando as práticas>(").
O Estado Novo procurava a edificação deum <<homem novo)), à imagem do seu líder.
A
ação dosmovimen-tos de oposição passará, como procuraremos analisar, por retirar a <<Nação>>, o ((povo)) e outros significantes do eixo de equivalência produzido pelo regime, desligando-os da figura de Salazar, e,
con-sequentemente, pela atribuição de novos significados por via da sua
inserção numa relação de equivalência antagónica.
Após ter vários dos seus números visados pela censura da Dita-dura
Militar, A
Batalhae
encerrada em 1927, sendo as suasinsta-lações invadidas e destruídas. Malogrados os esforços no sentido
de
segarantir
autorização paraa
sua publicação, ojornal
será(20) Rrnnr-o, José, Formas de Legitimação do Poder no Salazarismo, Lisboa,
Livros e Leituras, p. 93.
C') Ó, Jorge R. do, Os Anos de Ferro: o Dispositivo Cultural Durante a
<Política do Espírito> (1933-1949), Lisboa, Editorial Estampa, 1999,p.26.
(22) Idem, p. 50.
SALAZAR EM A BATALHA E EM O AVANTE (1933_1963)
publicado de forma ilegal entre 1934
e
1949. ('z3) Já na clandestini-dade, após o fracasso da tentativa de greve geral e derrube do regirne ¿ 18 dejaneiro de 1934,apublicação dedicará espaço à denúncia da¡epressão, em particular da situação dos presos políticos. Salazar é
então rctratado como o autor moral das violências perpetradas, <<os
chamados "safanões [...] do Salazat", que são os espancamentos, as
algemas, o cavalo-marinho, os choques elétricos, o espicaçar e
gol-pear dos corpos> (24).
Os termos <<salazaresco)) ou <salazarista> são utilizados como
adjetivos quer do regime, quer dos seus diversos responsáveis. Num
artigo dedicado à análise das origens do 1.o de maio, o jornal refere
a <<cambada salazarisla>>
(")
e a sua tentativa de usurpação da datae imposição de um cunho contrário aos desígnios originais. Noutro
texto, um apelo ao regresso dos militantes da Confederação Geral
do Trabalho à atividade revolucionária redigido
por
sindicalistas revolucionários presos nas cadeias de Lisboa e de Peniche, surge aexpressão <esbirros de Salazar> (26), igualmente utilizada por outras
corentes políticas na denúncia de torfuradores e outros agentes do
regime. Embora bastante diversos, os termos utilizados na
desig-nação de Salazar tendem a visar
o
seuperfil,
salientando tanto oseu percurso profissional e político, como a sua filiação religiosa.
Nas diversas considerações publicadas pelo jornal em torno da
situa-ção do país, podemos identificar
o
recurso a metáforas como(o
guarda-livros de Santa Comba>
("),
<o pupilo querido da Companhia(23) Berrtsu, Jacinto, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora... Para a História do Diário Sindicalista A Batalha (1919-1927), Lisboa, Livraria Bertrand,
1977,p.157.
(2a) <Manuel Vieira Tomé, antigo rnilitante ferroviário, foi barbaramente
assassinado pelos verdugos desta ditadura homicida!>, A Batalha, ano xv, série Ill,
n.o2, maio de 1934,p. l.
(")
(O l.o de rnaio>, A Batalha, ano xvr, série IV, n.'2, abril de 1935, p. l.(26) <Saudação>>,A Batalha, ano xvr, série IV, n.o 3, junho de 1935,p.4. ('z7) (Até quando, ó Catilinas?>, A Batalha, ano xvrr, série IV, n.o 4, janeiro de 1936, p. l.
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
de Jesus> 128), <frade à paisana> (2e), <seráfico e
ridículo
ditador Salazan (to) on ainda <ditador temente a deus [...] e fiel aos Evange_lhos> (3').
A
par da atribuição de uma gestão financeira tradicional e conservadora, e do devido reconhecimento moral providenciado pelas mais altas esferas eclesiásticas, estas expressões reconhecer¡,de forma implícita, a relevância do ditador na criação e consolidação da nova ordem política.
À
medida que se multiplicam as prisões e os relatos de tortura,as descrições de Salazar adquirem um tom crescentemente
emo-tivo, constituindo autênticos ataques diretos à sua figura. Veja-se o seguinte excerto:
Olha a gente para a cara deste homem e não pode furtar-se a uma
sensação de gelo. Os antigos, para quem a alma se refletia na face,
diriam que esta só exprime as negras premeditações do mal que uma
vontade obstinada efetiva sem um momento de trégua. Também nós,
que nos propomos pintar-lhe o retrato, nos seus traços salientes, apenas
vislumbramos nele a reserva, o cinismo, a crueldade, todos os estigmas
de um ser profundamente amoral. São a boca e os olhos deste estranho
exemplar da nossa espécie que melhor definem a sua mórbida
psicolo-gia [...]. Esta boca tern destilado todo o veneno que está corroendo as
almas e as consciências; dela têm saído as mais abomináveis mentiras,
as mais pérfidas insinuações e, ao mesmo tempo, as secretas ordens da
violência e da arbitrariedade com que se tem saciado o seu espírito de
funesto inquisidor [...]. Este homem que quer transformar o país numa
vasta necrópole, num imenso curral, tornando em cadáveres ou em
suí-nos seus milhões de almas, há de cair miserandamente, como caem
todos os déspotas, e ele, que tem amordaçado a consciência de todos
(28) Idem,p.2.
(t')
uO nosso programa de ação e as nossas reivindicações>>, A Batalha, anoxvrt, série IV, n." 4, janeiro de 1936, p.2.
(30) Ibidem.
(t')
oNa ilha dos "safanões">, A Batalha, ano xvII, série IV, n.o 4, janeiro de1936, p. 8.
1
SALAZAR EM A BATALHA E EM O AI/ANTE (I933_I968)
nós, há de sentir ainda apertar-se-lhe na garganta, irremissivelmente, a
forte, a impiedosa, mão da Justiça que lhe há de ser feita. (32)
Ainda que sem sucesso, as preces por
justiça
e compensaçãoviriam
a
ser devidamente consideradas. Perpetrado a4
dejulho
de 1937, em plena Guerra
Civil
Espanhola, o atentado bombista aSalazar, no qual parliciparam elementos da Confederação Geral do
Trabalho, vinha responder aos dez anos de <decadência dum povo
envilecido na miséria e despersonalizado pela megalomania dum mítico selvagem>>, lê-se no artigo intitulado <Os ditadores não são
imortais> (33). Salazar, segundo A Batalha,correspondia ao <símbolo
fatidico da nossa tragédia inenarrável, o som sinistro que recorda o
martírio dos presos, dos deportados, o sofrimento das suas famílias
e a fome negra que impera nos lares proletários>, a figura em torno
da qual se concentrava <todo o ódio popular>. (34) Todavia,
A frágil vida humana quebra-se por nada, e um ditador não pode
ter a estulta pretensão de ser eterno. Salazar atribui à <Providência> a
sua salvação e todo o beatário apelapara a farandolagem celestial que
velem por ele, mas isso não obstou que a dinamite, eloquentemente,
exprimisse a ânsia de liberdade do povo sofredor. (35)
O atentado contribuirá para um aumento de repressão sobre o
pouco que restava da Confederação Geral do Trabalho. O próprio ato
em si, segundo o historiador Paulo Guimarães, inscreveu-se numa
lógica de ação baseada em pequenos grupos de afinidades mais
pes-soais do que propriamente políticos. (36) Sem a retaguarda de apoio
(")
(O retrato de Salazar>>, A Batalha, ano xIX, série IV, n.o 7, abril de 1937,p.2.(33) A Batalha, ano xIX, série IV, n.o 10, julho de 1937, p. l.
(3a) Ibidem.
(3s) Ibidem.
(36) GurrraanÃns, Paulo, <Cercados e perseguidos: a Confederação Geral do Trabalho (CGT) nos últimos anos do sindicalismo revolucionário em Portugal
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
externo auferida pelo PCP, divididos política e ideologicamente (3?), s
com uma tradição de horizontalidade que, perante as árduas condições
impostas pela clandestinidade, se demonstrava pouco ef,ciente çr¡,
o
movimento anarquista acabaria por perecer. Após sete anos ds paragem, A Batalha publicou ainda alguns números em meados d¿década de 1940, mas sempre de forma muito irregular. O seu con_
teúdo evidencia o afastamento do mundo do trabalho, dessa <seiva
que lhe provinha da liberdade)), nas palavras de Jacinto Baptista,
dependendo ojornal da <nostalgia inoperante dos sobreviventes). (3)
Em finais de 1949, A Batalha editou o seu últirno número. (a0)
O Avante e a nação contra Salazar
A
tentativa de assassinato de Oliveira Salazarfoi
alvo de durascríticas por parte de O AvanÍe.(ot) O jornal chegou mesmo a definir
(192G1938>), Coletivo Libertário de Evora,p.23. Acedido a 29 de rnarço de 2013, em:
Colectivolibertarioevora.files.wordpress.cor;'/20l3l0llcgt anos3Ojguirnaraes.pdf. (tt) As causas da divisão, como refere o militante anarquista Edgar Rodrigues,
prendem-se com a revolução espanhola e a participação de elementos da
Confederação Nacional do Trabalho, organização sindical anarquista, em govemos republicanos. Segundo Edgar Rodrigues, ((na falta de liberdade de tratar o desvio
ideológico amplarnente, analisá-lo, debatê-lo livre e refletidamente, saindo com
uma posição uniforme, tanto quanto possível, passou a carregar, a nível de
companheiros, desgostos e cleceções, alirnentou divergências inúrteis, desgastes
dentro de um organismo bastante debilitado pela ditadura>>. RooRrcu¡s, Edgar,
A Oposição Libertária em Porlugal
-
1939/1974, Lisboa, Sernenteira, 1982,p.23.(38) HuNnrquns, Júlio, <Sobre
o
anarquismo em Portugal>>, Le MondeDiplomatique
-
edição portugues(l. Acedido a 10 de março de 2013, en: pt.mondediplo. corn/spip.php?article45 3.
(3e) B,trrtsre, Jacinto, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora... Para a
História do Diärio Sindicalista A Batalha (1919 1927), Lisboa, Livraria Bertrand,
1971 , p. 160.
(40) A Batalha viria a ressurgir após o 25 de Abril de 1974. Apesar de se encontrar
circunscrito a um público bastante menor, ojornal continua ainda hoje a ser publicado. (ar) O crescimento numérico do PCP conduzirá à publicação de dois jornais,
O Jovem (da Federação das Juventudes Comunistas) e O Avante,então dirigido por
SALAZAR EM A BATALHA E EM O AVANTE (I933_I968)
siniciativa como uma ((monstruosa farsa levada a cabo pelo próprio
fascismo>. Num contexto em que o regime sofria divisões internas,
tomava-se necessário ((reagrupar essas forças em volta do "chefe">>
e (Nada melhor, para tal fim, do que um atentado de que Sua Exce-þnciasairia"providencialmente ileso">>. (42) O balanço do ato cons-pirativo apontava assim para o reforço da posição do ditador:
Além de todas as vantagens, acrescia ainda a de que Salazar passarta
à posteridade como protagonista dum sucesso milagreiro e ganharia dos
contemporâneos a fama de pessoa de sangue frio inalterável. Demais,
os telegramas que não deixariam de vir de todo o mundo demonstrariam
que o Sr. Salazar era velterado por todos, desde o Padre Santo ao Todo
Poderoso Hitler, o que colocaria o Ditador ante o burguês estarecido,
no altar das mais altas divindades>. (43)
A
açãofoi
desencadeada pela Frente Popular Portuguesa,for-mação constituída pela Maçonaria, a Aliança Republicana, o Partido Socialista, o Bloco Académico Antifascista e uma série de grupos
satélites do PCP (a Federação das Juventudes Comunistas, o Socorro
Vermelho Internacional e a Comissão Intersindical).
A
Confedera-ção Geral do Trabalho, por sua vez,terâ optado pela não-integtaçáo, mantendo aberta a possibilidade de ações conjuntas, como a que seBento Gonçalves. À altura, o PCP editava a publicação O ProletórÌo. NuNns, João
4., <Sobre alguns aspetos da evolução política do Partido Comunista Português apósareorganizaçãode1929(1931 33)>>,AnáliseSocial,vol.XVII(67-68), 1981, 3." e 4.o, p. 716. As vicissitudes inerentes à clandestinidade tornaram a atividade editorial precária e irregular, situação que apenas se atenuaria a partir da década de 1940, mercê da instituição de uma rede de tipografias ilegais. Segundo o PCP, a
tiragem de O Avante terá atingido os 10 000 exemplares em períodos específicos,
como o do sufto grevista de inícios da década de 1940. Partido Comunista Português, <<Nota Introdutória>>, <Avante! > Clandestino
-fevereiro/1931-abril/l974. Acedido
a l0 de março de 2013, em: http://www.pcp.ptlavante-clandestino.
(a2) <Alerta contra as manobras do fascismo>, O Avante,II Série, n.'41, 1." semana de julho de 1937, p. 4.
SALAZAR EM A BATALHAEEM O AVANTE (I933_1968)
conseguinte, independentemente da vontade dos Hitlers, Mussolinis e
Salazares. (46)
A
estratégiaa
adotar, segundoo
PCP, deveria visar a base desustentação de qualquer regime: as suas pessoas. O contacto mais
estrito com as últimas depreendia, como já se podia ler na Resolução
do Secretariado do PCP (1935), <<aprendermos a própria linguagem
de que a massa se serve para patentear a sua indignação contra o
fas-cismo, contra a guerra e contra a ofensiva ao capital> (ot). A partilha
desta linguagem assume-se essencial face à existência de uma vasta
camada indecisa, à qual <<o salazarismo dedica, ou os seus cantos de
sereia, ou os seus gritos furiosos de besta mal ferida> (48). O
com-bate a tais <cantos)) apenas poderia ser realizado se, conforme as
orientações de Dimitrov, não existissem quaisquer preconceitos na
ocupação do terreno ideológico do fascismo, ou seja, na
ressignifica-ção dos termos usados. A história de cada povo, a título de exemplo,
era objeto de uma apropriação, apresentando-se os fascistas (como
herdeiros e continuadores de tudo quanto tem havido de sublime e heroico no passado>. Os que ignoravam
tal
operação <<abandonamvoluntariamente às falsificações fascistas tudo quanto há de preciso
no passado histórico da Nação>. (ae)
Ao
invés da procura por ((uma alternativa ao nacionalismo>>, aorganização ter-se-á entregado, segundo José Neves, <à construção de
um nacionalismo altemativo> (50), acompanhando o desenvolvimento
(ou) uO terrorismo, arma da contrarrevolução e do fascismo>, O Avante,
ll
Série, n.o 73, 1.n semana cle março de 1938, p. 3.
(a?) Secretariado do Partido Comunista Português, <Sobre a preparação do VII
Congresso da Internacional Comunista>>,O Avante,II Série, tl.u 5, março de 1935,
pp.2 e 5.
(ot) uO "Papão Comunista" ou Divide et Impera>, O Avante,lI Série, n." 14, dezembro de 1935, p. 8.
(4e) <Pela unidade de ação contra o fascismo e a guerra: histórico discurso de
Dimitrov no VII Congresso da Internacional Comunista>>, O Avante,
II
Série,n." 14, dezembro de 1935, pp.3-6.
(50) Nnves, José, Comunismo e Nacionalismo em Portugal, Lisboa, Tinta da
China,2008, p.134.
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
verificou. Alguns militantes comunistas chegaram, inclusivame¡1ç, afazer parte do grupo operacional responsável pelo atentado. (a)
As
críticas apontadaspelo
PCP, as quais sedirigiam
igual-mente para o seu próprio seio, em particular para os resquíciosd¡
anarquismo e do radicalismo republicano, refletiam a sua posiçãorelativa ao derrube do regime. Desde 1935, ano do
VII
Congressoda Internacional Comunista e do relatório de
Dimitrov,
que o PCpdefendia urna política frentista, de unidade alargada, a qual obrigava
a uma postura de <cavalo de Tróia> nos organismos fascistas (das
casas do povo aos sindicatos nacionais) e de crítica a uma estratégia
baseada em grandes momentos de rutura, fosse por
via
do putschmilitar,
fosse por via do aventureirismo bombista. (o') O problemadeste tipo de táticas era, entre outros aspetos, o de confundirem os
regimes com os seus líderes, quando estes são apenas uma
compo-nente, ainda que importante, dos primeiros. Estes fazem-se determinar
em primeiro lugar, pelas condições económicas existentes na socie-dade e por uma série de outras causas. Um indivíduo
-
um Mussolini,um Hitler, etc.
-
pode exercer uma ação importante sobre asitua-ção política e social do seu tempo, mas a sua ação não é única nem
decisiva. Mussolini tem exercido uma ação pessoal imporlante sobre o
fascismo, mas o fascismo não é uma invenção de Mussolini, nem está
obrigatoriarnente ligado à vida de Mussolini. [...] O fascismo existe, por
(aa) Mlonrna,João, 1937, O Atentado a Salazar: a þ-rente Popular em Portugal, Lisboa, A Esfera dos Livros,2013.
(45) É de referir a importância do dirigente comunista Bento Gonçalves nesse
processo. Embora 1935 constitua um ano decisivo, o historiador João Arsénio Nunes considera que o reconhecimento das limitaçöes da estratégia (classe contra
classe>> decorre, entre os comunistas portugueses, da própria composição social do
país, onde o proletariado industrial corresponde a uma minoria. Nas lutas desenvol-vidas pelo PCP <verificava-se uma imbricação permanente entre as lutas operárias
e as movimentações de divelsos sectores pequeno-burgueses)). NuNns, João A', <Sobre alguns aspetos da evolução política do Partido Comunista Português após
areorganização de 1929 (193 1-33)D, Anrilise Social,vol. XVII (67 68), 1981,3'"
SALAZAR EM A BATALHA E EM O AVANTE (I933 I968)
descendentes do Rei que abandonou a Nação ao iuvasor francês quando
as tropas de Junot pisaram o nosso solo. (5s)
Por
estaaltura, O
Avante aumentaa
tiragem de
8500 paral0 000 exemplares, passando de mensal para semanal, num esforço de <fixar temas e questões que se vão tomar elementos de identidade
do discurso do PCP até aos dias de hoje> (s6).
Ao
longo daII
Guerraf4undial, o retrato de Salazar apresentado pelo jomal insistirá no
argu-rnento nacional, recorrendo a expressões como <<algoz-mor do povo
português>, <<verdugo>>, <pérfdo> (tt) ou <quinta-colunista> (s8), dada
acolaboração com as forças do Eixo.
A
esse nível, a posição do PCPseguia a da restante oposição, favorável aos Aliados (Estados Unidos da
América, Reino Unido, União Soviética). A falsaneutralidade do Estado
Novo, como mais tarde seria salientado por Álvaro Cunhal (Duarte),
era inseparável do saque ao país, <para que enriqueça ainda mais um
punhado de traidores e para que não faltasse auxílio a Berlim> (5e).
No Informe dirigido ao I Congresso (llegal) do PCP (1943),
cul-minar do chamado processo de reorganização do partido (60), Cunhal
(tt) <Os comunistas e a Nação l>>, O Avante, II Série, n.o 59, 3." semana de
novembro de 1931 , p. 2. O artigo será da autoria de Francisco Paula de Oliveira (Pavel), errtão responsável pela direção partidária. Neves, José, Comunismo e
Nacionalismo em Porhtgal, Lisboa, Tinta da China,2008, p. 130.
(s6) Pnnntn.n,JoséP.,Álvarc¡Cunhal,umaBiografiaPolítica:<Daniel>,oJovem Revolucionario (1913-1941),vol. I., Lisboa, Círculo de Leitores, 1999,p.292.Mais
tarde, nos anos de 1945 e 1946, ojornal publicaria entre 15 000 a 18 000 exemplares.
Ponnrnr., José P., Álroro Cunhal, uma Biografia Política: <Duarte>, o Dirigente
Clandestino (1941 1949), vol. II, Lisboa, Círculo de Leitores,2001, p. 638. (tt) (O patronato que pague!>, O Avante, Série VI, n.o 16, l." quinzena de setembro de 1942,pp. I e 2.
(tt) uA inflação ruinosa do fìnanceiro-burlão>, O Avante, Série VI, n." 26, 1.n
quinzena de fevereiro de 1943, p.3.
(5e) CuNH¡r, Álvaro (D.), <Unidade da Nação portuguesa pelo pão, pela
liberdade e pela independência>, in MeLo, Francisco (Ed), Álvaro Cunhal, Obras
Escolhidas I (1935-1947), Lisboa, Eilições Avante, 2007,p. 147.
(u0) Sob iniciativa de militantes <tarrafalistas), o processo viria a ser
desencadeado com vista a depurar o partido de eventuais infiltrações. Porém, o contexto em que ocorre, marcado pelas greves de inícios da década de 1940, viria
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
do movimento comunista internacional no sentido da prevalência do ((modo nacional>> sobre
o
((modo proletário> (s'). Neste âmbito,Salazar surge denunciado, precisamente, como o <traidou da nação,
<o Miguel de Vasconcelos (52) de hoje. Salazar é o traidor
N.' I
dopovo português e seu mais odiado inimigo>
("). A
luta pelo comu_nismo tornar-se-á então indistinta da defesa da nação (54) contra og
seus vendilhões:
E o fascismo, é Salazar & C.o que, para prolongarem a sua
abomi-nável dominação sobre o nosso país, entregam Portugal à Alemanha
e à Itália. [...]. Nós, pelo contrário, revoltamo-nos contra uma tal
depreciação da nossa terra. Nós amamos Portugal, amatnos a nossa
terra tão bela que possui maravilhas naturais como Sintra, o Algarve
das amendoeiras, o Milho verdejante e florido. [...]. Nós
orgulhamo--nos de pertencer ao povo que fez os Descobrimentos, que teve um
Infante D. Henrique, um Pedro Nunes, um Gil Vicente, um Carnões,
um Herculano e, na atualidade, um Gago Coutinho que fez a primeira
viagem gloriosa do Atlântico Sul. Nós somos parte integrante desse
povo que durante mais de nove séculos lutou por conservar Portugal
como Nação livre e deu todo o seu esforço para o desenvolvimento. [...]
Os grandes capitalistas, os grandes proprietários, o alto clero
-
quehoje dominam no nosso país
-
são os descendentes da nobrezaque apoiou a invasão de Portugal pelo rei de Castela, são os filhos
dos nobres que entregaram Portugal aos Filipes, em 1580, são os
(5r) Este <reconhece no proletariado a atualidade de um poder classista
resultante da sua não nacionalidade>. Nnvns, Iosé, Comunismo e Nacionalismo em
Portugal, Lisboa, Tinta da China, 2008, p. 393.
(s2) Secretário de Estado em nome do Rei Filipe III, Miguel Vasconcelos terá sido assassinado a 1 de dezembro de 1 640, aquando da proclamação da independência
de Portugal face a E,spanha.
(tt) uÉ preciso opor uma barreira irnediata à política agressiva e de traição nacional do fascismo português!>, O Avante,ll Série, n." 52,4." semana de setembro
de 1937, p. 1.
(sa) Nnvns, José, Comunismo e Nacionalismo em Portugal, Lisboa, Tinta da
-SALAZAR EM A BATALLIA E EM O AVANTE ( I 933-1 968)
O artigo dedicado à memória de Paiva Couceiro (67) é demonstrativo
do combate a esse alegado sectarismo: reiteradas as'devidas
diferen-ças, a homenagem prestada pelo O Avanîe assume-se <simples e
sin-cera é aPaiva Couceiro, patriota, é aPaiva Couceiro antifascista> (68).
O leque dos <portugueses honrados> poderia igualmente alargar-se a
alguns elementos do patronato, visto que ((os operários compreendem
que o seu maior inimigo não é
o
patráo, mas o fascismo salazarista.Compreendem que, ao mesmo tempo que há que lutar contra o patronato
fascista, há que atrair à luta contra o fascismo os patrões democratas,
antifascistas e patriotas> (6e). Criado nesse mesmo ano, o Movimento de
Unidade Nacional Antifascista viria a encetar uma estratégia frentista,
cujo sucesso seria visível nas diversas coligações ensaiadas e
participa-das pelo partido ao longo das décadas seguintes. (70)
A
permanência de Salazar na presidência do Conselho após avitória dos Aliados , em 7945 , hipótese que j á havia sido previamente
levantada no
I
Congresso, não originou mudanças substanciais na(ó7) O rnonárquico que resistiu à República veio a ser mais tarde condenado ao
exílio por críticas dirigidas à política colonial do Estado Novo. Segundo O Avante,
apesar <de todo o seu reacionarismo, o sentimento patriótico falou nele mais alto
do que as suas opiniões políticas, e levou-o a denunciar a política de traição nacional
de Salazar. Há mais dum ano escreveu Paiva Couceiro uma carta que os jomais depois publicaram denunciando que Salazar vendia as Colónias à Alemanha. [...] Mas Salazar, que não adrnite vozes discordantes do seu crime, mandou-o prender e a alguns dos seus arnigos [...]. Por isso, apesar das divergências que nos separam de Paiva Couceiro, nós apoiamos a luta que ele move contra a venda de Portugal e
Colónias a Hitler e Mussolini e exigimos a sua libertação>. <A prisão de Paiva Couceiro>, O Avante,lI Série, n.o 60, 4.u semana de novembro de 1937 , p. l.
(68) <Paiva Couceiro, inimigo do fascismo>, O Avante, Série VI, n.o 49,2."
quinzena de fevereiro de 1944, p. 3.
(6e) <Das lutas parciais ao levantamento nacional. Ao Ataque! Em todo o Paist>>, O Avanre, Série VI, n." 63, 1." quinzena de outubro de 1944, pp. 1 e 2.
(70) Estas foram as seguintes, até 1968: Movimento de Unidade Democrática (1945), Movimento Nacional Democrático (1949), Junta de Libertação Nacional (1959), Frente Patriótica de Libertação Nacional (1962). Meontne, João, <Álvaro
Cunhal e a tradição frentista. Singularidades, persistência e lirnites>, in Nrvns, José, (Ed.), Álvaro Cunhal; Política, História e Estétíca, Lisboa, Tinta da China,2013,
p.62. SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
apresentou os principais objetivos políticos de uma política de
uni-dade antifascista. Num contexto marcado por um surto grevista ¿s
proporções inesperadas (1942-1943) e pelo prenúncio da queda dss
fascismos na Europa, o primeiro ponto do programa defendia
¡
<Der-rubamento do Govemo de Salazar e instauração dum Governo
Demo-crático de Unidade Nacional> (u').
A
concretização de tal prograrnaexigia uma
(política
de união, leal e sinceÍa, a o'mão estendida" ¿ todas as forças progressistas e patrióticas> (62), onde se incluíam católicos e até legionários, desde que (patriotas e portugueseshon-rados>> (63). Reconhecendo que tal postura poderia levantar alguma
desconfiança, Cunhal justificou esta mão estendida com base na
con-dição de muitos membros da Legião Portuguesa, <trabalhadores que
foram obrigados a entrar para a Legião a fim de serem admitidos nos
seus empregos> (uo). O dirigente comunista salientaria igualmente a
inexistência de unanimidade no seio da organizaçãq por exemplo,
relativa à política de apoio diplomático à Alemanha. O dever do PCP
era, portanto, ((aprofundar essas dissensões>> (65). Por sua vez, essa
mão permaneceria cerrada aos que, <pela sua atividade criminosa e de traição, mostraram ser inimigos irredutíveis de tudo quanto é
democrático e progressivo, mostraram ser inimigos do povo e da Nação portuguesa)) (uu), como os dirigentes nacionais-sindicalistas ou da Legião Portuguesa.
a ampliar o seu objetivo, dotando o parlido de uma linha política mais definida, de
uma estratégia mais precisa e do aparelho organizativo adequado.
(6r) CuNnar-, Áluaro (D.), <Unidade da Nação portuguesa pelo pão, pela
liberdade e pela independência>, in Melo, Francisco (Ed.), Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas
I
(1935 1947),Lisbo4 Edições Avante,2007,p.149. Este governo deveria ser igualmente responsável, entre outros pontos, pelarealização de eleiçõeslivres, extinção de organizações fascistas, fim da censura, abolição do corporativismo, promoção da aliança com os povos coloniais e estabelecimento de salários justos e melhores condições de vida.
(62) Idem,p.212.
(63) Ibidem.
(64) Idem, p. 209.
(6s) Idem,p.2ll. (66) Idem,p.2l2.
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
fotografia. As <<concessões antinacionais feitas por Salazar>>, agora
à
Inglaterra (ao nível do comércio externo) e aos Estados Unidos (pq¡ via da instalação de bases militares nos Açores), <são um bom preço
que a Nação portuguesa está pagando para que Salazar reclame urn
auxílio externo para se manter no
poden.
(t')
As conclusões ds ¡¡Congresso (Ilegal), realizado
em
1946, reiteram as consequênciasinternas desse alinhamento, agora com a <<reação internacional>
1z¡
contra a união Soviética. A reprodução da imagem de Porlugal corno
país pobre tradtz, de acordo com o informe produzido por Cunhal
(Duarte) O Caminho
para
o Derrubamento do Fascismo, atenta-tiva
por parte do Salazarismo de legitimar a sua incapacidade ¡¿resolução dos problemas económicos nacionais, associada à proteção
garantida aos grandes monopólios.
Da F rente Nacional antissalazarista ao salazarismo sem Salazar
A
sobrevivência do regime ao final daII
Guema Mundial veioesfriar os entusiamos com
a
derrota dos fascismos.A
alteraçãodas condições políticas e sociais, relacionadas com o
fim
dacon-juntura
de guerra, provocoua
diminuiçãodo
descontentamento social. Este, por sua vez, era alvo de uma maior perseguição que,elegendo
o
PCP comoalvo primordial,
não deixava de apontar outras organizações, como o Movimento de Unidade Democrática,proibido em
1948.(tt) A
participação do PCP na candidatura deNorton de Matos à presidência da República demonstra, simulta-neamente, o quão
difícil
era a união com outras forçasdemocráti-cas. Poucos meses depois, Álvaro Cunhal
foi
preso juntamente comquase uma dezena de dirigentes e quadros comunistas. No período
(t')
uO 2.o Congresso Ilegal>, O Avante, Série VI, n.o 92, l." quinzena de agostode 1946, p. l.
(72) <Instrumento da Reação Internacional, Salazar prepara novas manobras "democráticas">>, O Avante, Série VI, n.o 90, l." quinzena de julho de 1946,p. 1.
(i3) Mauerna,Ioão, Historia do PCP, Lisboa, Tinta da China,2013,p.
l4l.
SALAZAR F,M A BATALHA E EM O AVANTE (I933_I968)
çornpreendido entre 1946 e 1952, o PCP perderá quase metade dos
seus militantes. (74)
A prisão e o isolamento de Cunhal, aliados a uma conjuntura
inter-nacional marcada pela coexistência pacífica entre sistemas, viriam a
contribuir para o retorno da política de transição (75), anteriormente
defendida por Júlio Fogaça e pela Organização Comunista da Prisão
doTanafal (OCPT) (tu).Na sua visão, avaga repressiva de finais da
décadade 1940 havia reforçado o sectarismo no seio da organização,
nUm contexto etn que o salazarismo apresentava crescentes fraturas.
As novas condições políticas proporcionavam assim <o caminho para
uma ampla frente nacional antissalazarista> (i7), conforme será
advo-gado na
VI
Reunião Plenária Ampliada do Comité Central (1955). Meses antes doV
Congresso do PCP, realizadoem
1957, oComité Central
(CC) publicou
em O Avanteum
excerto de um documentorelativo
aos desafios impostos pela situação política.O artigo mencionava a evolução dos acontecimentos <favorável às
forças democráticas> desde o estabelecimento da estratégia de
levan-tamento nacional em 1946.
A
partir de então fica <mais nítido queno nosso País, dum lado, está a família portuguesa e, do outro, em
oposição a ela, está Salazar e a sua camarilha)' (?8) Não obstante
(7a) MaonIna,João,História do PCP, Lisboa, Tinta da China,20l3, p. 188. (75) Roses, Fernando, <Os três caminhos de Álvaro Cunhal. Notas breves sobre
a História do PCP>, in Nnvns, José, (Ed.) Álroro Cunhal: Política, História e
Estëtica, Lisboa, Tinta da China, 2013, pp.48 e 49.
(?6) Cético em relação ao entusiasmo com as greves de inícios da década de 1940, o grupo do Tarrafal aleftava contra os perigos de radicalização do partido e, em paralelo, defendia um diálogo mais próximo com outras forças da oposição, não colocando de parte a hipótese de um golpeputschista. Estas teses, manifestas via
correio entre 1943 e 1945, viriam a ser re.ieitadas no IV Congresso ( 1946). MaoulRA,
João, História do PCP, Lisboa, Tinta da China, 2013, pp. 103-121. P¡ReInA., José P., tilvaro Cunhal, uma Biografìa Política: <Dttarte¡>, o Dirigente Clandestino (1941-1949), vol. II, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, pp' 498-502.
(?i) Título do informe político apresentado por <Arnílcar>, pseuclónimo de
Sérgio Vilarigues, na reunião.
(tt) uÉ possível uma saída pacífrca para o Problerna Político Português>, O Avante, Série VI, n." 226, 1." quinzena de janeiro de 1957, p. 1.
SALAZAR, O ES'IADO NOVO E OS MEDIA
as críticas internas ao que
viria
a ser designado como <<desvio>,s
V
Congresso confirmou, face à <correlação de forças que se operarnno País e no mundo>, a possibilidade de <<uma solução pacífica
do problema político nacional> (7e).
Ao
longo dos meses seguintes, marcados pela candidatura do General Humberto Delgado à presidência da República, a figura deSalazar será objeto de particular menção por parte de O Avante.¡1s
âmbito das críticas dirigidas pelo Bispo de Porto António Ferreira
Gomes à parcialidade da irnprensa católica na campanha presidencial
(e, indiretamente, a Salazar), o ditador será classificado de <político fossilizado, falho de realismo, um mau timoneiro que não levará a
porto de salvamento a nau esburacada do seu regime>
(t).
O EstadoNovo é então encarado como
um tumor rnaligno encravado no dorso da Nação, um foco de mal-estar
e de perturbação nacional que tem de ser urgentemente lancetado pelo povo se queremos restabelecer num prazo breve a saúde abalada do
país [...]. Na raiz desse tumor está o homem que envelheceu torturando
o povo, abrindo-lhes as veias à voracidade dos monopólios, cavando
o abismo da divisão entre os portugueses. Esse homem é Salazar. (8r)
Subjacente a estas afirmações j az a crença na mudança de regime
por via do afastamento de Salazar e da <pacificaçáo da família
por-tuguesa>> (82), uma posição que o PCP havia sempre combatido até
então, inclusive no seio das frentes em que participou
(").
O ditador(tn) nV Congresso do Partido Comunista português: resumo do informe político do
ComitéCentral>, OAvante, SérieVI, n."242,l.oquinzenadeoutubro de1957,p.3.
(80) <Nós e os Católicos>>, O Avante, Série VI, tt." 264,1." quinzena de outubro de 1958, p.2.
(8r) <Salazar é o maior obstáculo à Concórdia Nacional>, O Avante, Série VI,
n." 268, 1.n quinzena de dezembro de 1958, p. L
(t')
uO afastamento de Salazar do poder é indispensável à pacificação da família poúuguesa)), O Avante, Série VI, n.o 27 1 , 1 ." quinzena de fevereiro de 1959, p. 2.(83) Ranv, David L.,
(O
MUNAF,o
PCP e o problema da estratégia revolucionária>>, Analise Social, vol. XX (84), 1984, 5.", pp. 687,700.SALAZAR EM A BATALHA E EM O AVANTE ( I 933-1 968)
eÍa, desle modo, elevado a (alvo de todas as lutas, as quais, levadas
sfurmas superiores até às greves gerais políticas, abrirão o caminho
'ara
o seu rápido afastamento do poder sem efusão de sangue> (84).
'
A
fuga de Cunhal e de outros nove dirigentes e quadros do PCPlsFortaleza de Peniche, ocorrida em inícios de 1960, determinará a
coffeção do chamado desvio de direita. Na reunião do CC de 1961, à
linha seguida pelo partido nos últimos anos era atribuída <<uma
orien-tação oportunista consubstanciada na fórmula da solução pacífica para
o problema político poftuguês, na teoria da desagregação automáftica
e irreversível do fascismo, em ilusões legalistas e golpistas)). (tt)
Definindo o governo como ((do capital monopolista (associação ao
capitalestrangeiro) e dos grandes latifundiários>>, a declaração do CC
considerava que a queda do regime não ocorreria pelo
simples jogo das suas contradições internas, nem com o abrandamento
da repressão e coln uma liberalização do regime por livre vontade ou
concessão de Salazar e da sua camarilha. A ditadura fascista não cairá
por si, nem Salazar entregará o poder por se convencer finalmente que
é esse o desejo da Nação. (86)
Estas condições obrigavam a um levantamento nacional, baseado
na associação entre meios legais e ilegais, tese mais tarde
desenvol-vida em Rumo
à
Vitória (1964).Diversos acontecimentos ocorridos
no início
da
década de1960 vieram corroborar a tese. O sequestro do paquete Santa Maria, a
perda de Goa, Damão e
Dio
para a União Indiana, o início da guerracolonial e a tentativa de golpe de Estado conduzido
por
Botelho(tt) uO afastamento de Salazar do poder é indispensável à pacificação da
família porluguesa>>, O Avan¡e, Série VI, n." 271,1.u quinzena de fevereiro de 1959,
p.2.
(tt) nO Comité Central do Partido Comunista Português traça o caminho para
o detrubarnento do fascismo e retifica um desvio de direitu, O Avante, Série VI,
n." 299, abril de I 96 l. p. L
(86) <Declaração do Comité Central do PCP>, O Avante, Série VI, n.'299,abril de 1961, p.6.
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
Moniz espelham quer a fragilidade, quer a ausência da unanirnid¿6. autoproclamada pelo regime, inclusive entre os círculos mais
próxi-mos de Salazar. No ano seguinte, as manifestações
do
l.o dse a combatividade demonstrada perante os ataques ou,
uuto¡oTåI
policiais revelariam a existência de uma força coletiva (com novos
segmentos sociais, como o dos estudantes) que, devidamente
organi-zada,poderia orientar a sua energia em direção à <revolução
derno-crëúica e nacional>.
O
VI
Congresso, realizado em 1964, indicaria o Rumoò
Vitória,documento definidor de uma estratégia que se pretendia de
levan-tamento nacional revolucionário e do seu programa político (*r), no
qual se incluíam medidas de expropriação de monopólios, latifúndios
(através da reforma agrfria) e de empresas detidas por capitais
estran-geiros (88). Embora a salazar continuasse a ser concedido o devido
protagonismo, a diferença entre o líder e o regime passou a ser
pro-priamente vincada, atribuindo ao último não só um pendor político,
mas igualmente económico. O Avante deixa assim claro que
Salazar não é o regime fascista. Ele deu corpo a uma política e a
uma ideologia que seruem os interesses das forças capitalistas. O regime
(87) Apesar de advogar o recurso à força, <a lnta armada do povo e dos militares revolucionários>, o informe avisa para a necessidade de uma série de condições
tidas como objetivas, à altura inexistenies. O trabalho do Partido, segundo Cunhal, consiste ern contribuir para uma situação revolucionária. Além de se garantir <uma
vaga de lutas mais geral, mais variada, mais insistente, mais coordenada, mais
diri-gida>, a influência junto dos soldados era imperativa. CuNHar-, Álvaro, Rumo à
Vitória,Lisboa,ediçõescaopinião>, 1974,pp.165-ls0.Maisdoqueumaresposta
às teses pacifrstas, a exposição de Cunhal alerta para os perigos de uma insureição
prematura, indiferente às condições existentes. Esta conceção, embora fosse
atribuída a grupos esquerdistas, não deixava de ser partilhada por militantes comu-nistas, atentos aos acontecimentos na China e em Cuba. A recente expulsão de
Francisco Martins Rodrigues, suscitada (entre outras questões) pela defesa da luta armada, constituía a prova da porosidade do Partido a estas tendências. P¡nrrn¡,
José P., tilraro Cunhal, tma Biografia Política; o Secretário-Gerat (1960-1968),
vol. IV, Lisboa, Temas e Debates, 2015, pp.3l0 317 .
(88) CuNH.rr-, Álvaro, Rumo à Vitoria, Lisboa, edições <<a opinião>>,1974.
SALAZAR EM A BATALHA E EM O AI/ANTE (I933_1968)
fascista é o poder dos monopólios, aliados ao imperialismo estrangeiro,
e dos grandes agrários. São estes que comandam a máquina do Estado,
oprimem e exploram a classe operária e as massas trabalhadoras,
lan-çam os camponeses, a pequena burguesia urbana e sectores das classes
médias numa situação de ruína e miséria. (8e)
Poucos meses antes da retirada de cena de Salazar, por motivos
de saúde, o jornal publicou uma das poucas representações visuais
do ditador a constar nas suas páginas (ver Fig.
n.'
32).A
ilustra-ção refere-se ao caso <Ballet Rose>>, em que diversaspersonali-dades, algumas com cargos ministeriais, foram responsáveis pelo
abuso sexual de menores. Apesar da sua notoriedade, o escândalo
não obteve quaisquer resultados a nível
judicial,
uma vez que ((emnome da
"Moral
e doDireito"
SalazaÍ mandou [...] arquivar opro-cesso)) (oo).Na figura, a descaracterização e menorização de Salazar
gcorem não só por via do ato figurado, enquadrado de forma iró-nica pela respetiva legenda, mas igualmente pela representação
grotesca do seu corpo, significante de uma personagem débil e
enfra-quecida.
A
sua substituição por Marcello Caetano merecerá um destaquerelativo na publicação (n '), com o CC a publicar uma nota a qualificar
0 novo gabinete, <tal como antes o governo de Salazan, como ((o
govemo da ditadura terrorista dos monopólios (associados ao
imperia-lismo estrangeiro) e dos latifundios. O que desde já o distingue é
con-tinuar o salazarismo a coberto duma demagogia "liberalizante">> (e2).
(8e) <Unidade das Forças Democráticas no derrubamento da ditadura>, OAvante, SérieVI, n."3J5, fevereiro de1967,p. l.
(q") Ibijem.
(er) Apesar de ter admitido a possibilidade de um <<vácuo político> provocado pela morte de Salazar, Cunhal não alimentará qualquer esperança na morte do ditador. Prnnrna, José P., tilvoro Cunhal, uma Biogrctfia Política; o Secretário--Geral (1960-1968), vol. IV, Lisboa, Temas e Debates, 2015,p.452.
(e'?) Comité Central do Partido Comunista Português, <O Partido Comttnista Português e o momento político atual>, O Avante, Série Vl, n.' 396,
SALAZAR. O ESTADO NOVO E OS MLDIA
A menção da sua morte, no final do ano, adotarâ termos um tanto su quanto semelhantes:
Com a morte de Salazar, desaparece o tirano que clurante nrais de
40 anos dirigiu com mão de ferro o regime fascista. Porém, a morte
do ditador não pôs fim ao regime. Este prossegue sob a chefia de M.
Caetano que foi um dos principais colaboradores de Salazar. Durante
o longo reinado do ditador, inteiramente consagrado ao serviço fl6s monopólios aliados ao imperialismo e dos latifúndios, o terrorisms
político constitui o seu principal instrumento de governo [...]. A rnone
física de Salazar provocará novas pefturbações entre as hostes fascistas.
Mas o fascismo não cairá por si. (e3)
Conclusão
Ao
longo dos quarenta anos do Estado Novo, os movimentos de oposição ao regime visaram Salazar não só como um indivíduo, mastambém como um sírnbolo a combater.
A
cadeia de equivalência quesuportava ideologicamente o regime tinha em Salazar um seu
signifi-cante fundamental, essencial ao reforço da sua coerência. (ea) Ao
con-trário das abordagens tradicionais, que concebem o fenómeno populista
como uma deturpação ideológica ao serviço de um projeto de
ascen-são pessoal ou corporativo, Laclau considera o populismo como uma
<lógica política> (es). Esta define-se apartir de uma rutura, ao nível da
sociedade, entre um (povo)) e uma autoridade (um <eles>), por sua vez
determinada por um conjunto de reivindicações articuladas entre o
pri-meiro e negadas pela segunda. O <povo>) nasce assim de uma operação
(e3) <Morreu Salazar. Abaixo a ditadura fascista!>, O Avante, Série VI, n." 419, dezembro de 1968, p. l.
(ea) Lacr-nu, Ernesto, <Populismo: o que há num nome?>, in Dlas, Bruno P.,
Nnvns, José (Ed.), A Política dos Muitos: Povo, Classes e Multidão, Lisboa, Tinta da China, Fundação EDP,2010, p.66.
(es) Lacr-a.u, Ernesto, On Populist Reason, Londres, Verso, 2007 , p. 117 .
SALAZAR EM A BATALHA E EM O AVAN.TE (I933_1968)
þ
ùtpla identificação: por um lado, de um conjunto de elementoshete-rogéneos que estabelecem uma (relação de equivalência>> em tomo de
lpelo menos) um interesse, ideia ou objetivo em comuln (nu); por outro,
de um elemento antagónico, categorizado como impeditivo da
concre-úzação desse interesse, ideia ou objetivo. Este reconhecimento ocoffe
pgr via de um ato de significação, em que um dado componente, um
sig-¡ifrcante,é investido de um significado mais amplo, passando a repre-sentar (<uma totalidade inexistente>> (e7), seja ela um povo, uma nação,
uma sociedade. Passíveis de sujeição a investimentos e
reinvestimen-¡6s, estes últimos conceitos constituem <significantes flutuantes>>, isto
é, o seu sentido é atribuído pela <relação de equivalência> em que
pas-sam a estar inseridos e, paralelamente, pela <quebra das suas ligações
com a força que constituía o seu promotor e beneficiário original> (e8).
Neste sentido, o significante não constitui apenas um meio de luta, mas
igualmente um terreno de luta.
Nesta linha de ideias, longe de ser ignorada, um dos objetivos da
imprensa clandestina era dessacralizar a figura de Salazar,
demons-trando que o seu laço matrimonial com o povo e a nação havia sido
imposto. Ambas as publicações analisadas identificam, desde cedo,
anatureza do regime político em causa, classificando-o de fascismo.
Os meios mobilizados por anarquistas e comunistas na luta contra
0 mesmo apresentam, porém, diferenças inequívocas, visíveis no
retrato de que Salazar será objeto.
No caso de A Batalha, a elevada presença do ditador na
econo-mia do seu discurso exibe um tom persecutório, pouco voltado para uma reflexão aprofundada e distanciada sobre o seu papel na criação
e consolidação do Estado Novo. Embora o
jornal
apontassecríti-cas a outras figuras e instituições, como António Ferro e o
Secreta-riado de Propaganda Nacional, a sua análise tende a sobrevalorizar
('6) O estabelecimento de relações de <equivalência> não irnplica que a sua
particularidade seja, porérn, abolida.
(e7) Lacr-au, Ernesto, <Why do empty signifiers matter
to
politics?>,in Lacr-a.u, Ernesto (Ed.), Emancipation(s), Londres, Yerso,2007,p. 42.
SALAZAR, O ESTADO NOVO E OS MEDIA
quer
a
natureza repressiva do regime, quera
liderança exercida por Oliveira Salazar, à altura sob operação de mitificação dirigida por Ferro. O atentado ao ditador representou uma tentativa de tornar est¿¡teses consequentes, vendo no seu possível desaparecimento um passo
determinante na libertação do país e, porvia indireta, uma impoftante demonstração de solidariedade com a Espanha revolucionária. Mais
do que um traço especificamente anarquista, visível na heterogenei_
dade política do grupo responsável, a tentativa de assassinato reflete
os primeiros esforços de organização política antifascista, marcadas
pela procura de uma solução imediata.
Aos poucos, como é possível observar em O Avante, Salazar será
objeto de uma reconceptualização que, reconhecendo a sua primazia, considera que o Estado Novo resulta de uma articulação de figuras e
organizações (públicas e privadas), não se limitando ao exercício de uma dominação meramente política. O reconhecimento do regime,
e não apenas da pessoa, como
inimigo
insere-se numa articulação alternativa e antagónica produzida pelo PCP, nomeadamente a partir da chamada reorganização de início da década de 1940.A
def,ni-ção de um conjunto de metas alargadas, cujo cumprimento deviamerecer uma responsabilidade igualmente alargada, é sintomática desse ensaio de construção de
um
povo.A
sua agregação numabase negativa, dado que todas estão por preencher, constitui a
pré--condição, mas não única, dessa forma de articulação política a que Laclau chama <populismo) (nn).
4
formação de um sujeito popular implicará, poftanto, a identificação do conjunto de responsáveis peloincumprimento das reivindicações que o constituem.
Um tal percurso não será, contudo, linear. A ocorrência de
<des-vios>>, recorrendo à expressão tttilizada pelo próprio PCP, é
igual-mente manifesta na <<construção discursiva de
um
inimigo)
('oo)'(ee) Lacr-au, Ernesto, <Populismo: o que há num nome?>, in Dtns, Brttno P',
Nnvns, José (Ed.), A Política dos Muitos: Povo, Classes e Multidtio, Lisboa, Tinta da China, Fundação EDP, 2010, p. 59.
(too) Idem, p. 6l .
SALAZAR EM A BATÀLHA E EM O AVANTE (I933 I968)
As expectativas depositadas pelo PCP em processos eleitorais que jepusessem Salazar poderão assim ser interpretadas como uma sobrevalorização da sua figura, um tanto ou quanto à semelhança do
srcntado, mas por meios pacíficos.
A
correção imposta pela direçãode Cunhal vem, pelo contrário, destacar o Estado
Novo
enquantoestrutura de dominação económica ('o'), exercida por grupos
mono-polistas e grandes latifundiários ('ot). Salazu é então reconhecido
como símbolo deste eixo de forças e, enquanto significante, passa a
existir paralâ da sua mera pessoa.
A continuação do regimepara lá da sua morte
-
o <Salazarismosem Salazar>>
-
confirmará as teses defendidas pelo PCP.A
con-juntura de protesto verificada a partir da década de 1960
viria,
noentanto, evidenciar outro
tipo
de desvios, à esquerda (r03),expres-são de um mosaico de orientações dificilmente conciliáveis numa
unidade antifascista
('*).
A
emergência de novas reivindicações etendências, oriundas dos movimentos estudantis e contra a Guerra
(r0r) NonoNHe, Ricardo, <"O dobre de finados dos grupos monopolistas": luta
de classes e economia em Áluaro Cunhal>, in N¡ves, José (Ed.), li.lroro Cunhal; Política, História e Estética, Lisboa, Tinta da China,2013,p.94.
(r02) Hennínio Martins define o salazarismo como uma ditadura classista em
que o acesso aos cargos de direção política é <determinado pela origem social ou
pelo recrutamento através de instituições militares ou educativas prestigiantes e altamente seletivas>. Deste modo, <a elite política torna-se profundamente identificada com a classe alta>. M¡nrlNs, Hermínio, Classe, Status e Poder, Lisboa,
Imprensa das Ciências Sociais, 1998, p. 103.
('o') A cisão no Partido Comunista Português protagonizada por Francisco
Martins Rodrigues é enformada, entre outros aspetos, por uma desconfiança relativa à estratégia frentista do PCP. Numa obra dedicada à análise desta questão, o autor
aponta críticas ao próprio conceito de frente popular, conforme teorizado por
Dimitrov, considerando que o mesmo será responsável por um <salto de classe>, com a luta estritamente antifascista <a tomar o lugar da luta proletariado-burguesia>. Roontcurs, Francisco M., Anti-DimÌtrr¡v: 1935/1985 Meic,¡ Sécuk¡ de Derrotas
da Revolução, Lisboa, Dinossauro/Abrente, 2008, pp. 22 e23.
(r0a) G¿.ncr¡., José L., <Anti-Fascismo>, in FnaNco, José E. (Coord.),Dicionário